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terça-feira, dezembro 26, 2017

HARVEY, BOURDIEU, AMADO NERVO, BANCQUART, RAMEAU, PARMÊNIDES, LOUI JOVER, PI-HSIEN CHEN, SCHNEEMANN & XIMÊNIA

SONHOS & SEGREDOS DE XIMÊNIA - Imagem: Arcadia, Loui Jover. - Ximênia sonhou estranho sonho: meninos e meninas clamavam chorosas pela mãe e era ela, a mãe de todos aqueles órfãos. Os abortos doeram pesados, o padre no púlpito condenou as mães que negaram seus filhos, agora o pastor aos berros pelos altofalantes, como pode, ela se via culpada por tudo que rejeitara das escapulidas acossadas pela volúpia, dos indevidos prazeres incendiários, não podia engravidar, todos reprovariam, não tinha ninguém para apoiá-la, até mesmo a quem amava zarpara ao saber da prenhez, e ela sozinha, como agora, culpada pelas perdas, por não ter pensado direito, por se entregar fácil ao primeiro carinho e tesão embaixo da saia, via-se culpada por todos os erros, os seus e os da humanidade, culpada pelas doidices do sexo, pelas bombas explosivas ceifando inocentes, pelas misérias de filhos que perderam seus pais, pelas guerras matando os convocados e pela queda do homem, tudo culpa dela pela costela tomada, o que foi que eu fiz, meu Deus, o choro irrompia feito uma tempestade avassaladora. Desfaleceu de sentir uma agonia medonha por dentro, menstruou de repente e o sangue revelava sua nojeira e culpa, por isso sangrava e muito, todo mês, ah, que fazer, e passou uma noite e um dia, sangreiro entre as pernas e caminhos, dois dias assim, três, quatro, derramava profusamente, quinto dia e vertia sangue cálido, enegrecido, quando isso vai parar, sexto dia e já se acostumava vazar de suas entranhas aquela sina de mulher. Foi então se arrumar, vestiu-se como nunca, escolhendo a dedo a roupa com odor de naftalina tirada do baú nunca mais vasculhado, quase não cabia dentro do vestido de tão apertado, anos guardado, meia-calça, bijouterias, maquiagem e o espelho, não, não era ela, nunca seria, tudo fora do lugar, reprovável, indevido, desvestiu-se de ficar nua por horas encostada ao canto do quarto, pele, unhas e desprezo. O que fazer da vida? Seus sonhos, seus segredos guardados jamais reveláveis, segredos dela, só dela mais ninguém. Segredos que regorgitavam, vinham à tona desavisadamente e até chegavam vivos na ponta da língua de quase vomitá-los todos duma vez, mas não, seria demais, nada disso, e falava sozinha, falava por falar sem querer dizer o que realmente estava pronta pra dizer, não era nada do que dizia, nada disso que eu queria ter dito, era outra coisa, até me esqueci do quê, ah, vou me arrumar e pegou o primeiro vestido e saiu descalça jogando tudo pra cima, seios e ventre aos ventos, não sei o por quê de ainda estar aqui, ora, ora, já devia ter dado cabo da minha vida, pegado o rumo, sumido, ah, se eu pudesse, por que não posso? Claro que posso ir além do portão, e sentiu a chuva e corpo molhar-se de deixar às vistas sua nudez incontrolável, tateando sua carne reviu o passado, quantas e tantas coisas que vivera, melhor pensar no futuro, mas como? O futuro não existe, ou é agora ou nunca. Como era linda a infância, as bonecas cuidadas, os presentes que ganhava e a mãe mandando prender os cabelos a colecionar diademas, tiaras, só dispunha de berilos e bobes, queria a liberdade dos cabelos soltos, esvoaçantes, ah, quem dera cabelo bonito como o da tia Meraldinha, aquilo sim é que era cabelo bonito, aliás, ela era toda bonita, parecia uma daquelas princesas encantadas, queria ser ela, ser como ela, viver a vida dela, isso sim, ah, queria era voltar a ser menina, ah se encontrasse os grãos de feijão da promessa de João e Maria, e enquanto devaneava batia uma tristeza enorme, um filme passava na sua cabeça, o quintal, as pisas, reprimendas, fugidas, até lembrar da morte de ontem da amiga por engano, carta que errou de endereço, era pra vizinha aquela depravada, não pra ela, o marido nem viu quem o destinatário, ligou-se no conteúdo mencionado pelo remetente anônimo, a fúria cegou-lhe, não precisava matá-la daquele jeito, brutalidade sem precedentes, agora, ela morta, enterrada inocentemente; ele, preso, condenado ao opróbrio público, pela mão pesada da lei, inocentemente, tudo por engano, como pode? Chorou e saiu do quintal à varanda às lágrimas, vai e volta casa adentro pranto recorrente, para no portão enxugando os olhos que estão na rua, estala os dedos, dissimula, ronrona, se recompõe, vê-se sozinha desde sempre, quase morre afogada na sua pungente constatação. Até viu seu rosto na poça d’água, correu apressada pro espelho, está na cara: o espelho me condena, não ignora a causa, apenas disfarça, faz que não sabe. Bem que podia ser mais bonita, não era; bem que podia ser atriz de televisão com aqueles galãs das novelas, glamour, felicidade. Ah, não, minha vida é nada, reduzida a isso, só preparar café da manhã, almoço, janta, servia mais pra quê mesmo, hem? Servia apenas para servir, levar beliscão ou tapinha na bunda avisando que mais tarde seria abatida pela violência do seu dono e feitor, mais nada, só queria seus favores de Amélia, casa limpa, roupa lavada, disposição de abrir as pernas e escancarar todo corpo nu pra satisfazer as vontades explosivas dele imprevisível e desconfortável, só quando ele queria e pronto, sempre só quando queria e depois, feito, servido, saciado, virar de costa, ufa!, e livrava-se da obrigação de ter que abrir as pernas, facilitar as coisas, deixar que faça o que quiser, como quiser, não importa o que sinta ou possa, morto de fome e sem saber da sua nem de seus desejos e sonhos, é ele assim que chega esbaforido, fedendo, se cagando ou se mijando ou de pau duro remexendo suas entranhas, aos puxavanques, aos empurrões, a lei é dele, a vontade é dele, tem de tapar o nariz para ver se morre, cerra as pálpebras, como pode tudo isso, ah, essa a minha vida, por acaso isso é vida, e o vuque-vuque, imagina o príncipe a raptá-la e às sacudidas inevitáveis o trote do garanhão e ela estuprada deliciosamente por quem ela sonha, investidas às pressas pela fuga, o sexo dilatado e o futuro da felicidade, caindo na real e tudo despenca com o gozo dele, nem deu tempo pro prazer dela, ele vira as costas e ronca como quem não deve nada e ela sonhando com o noivado engalanado que nunca tivera, a cerimônia na igreja, o véu e grinalda, nada disso, sonhos que se espatifam como vidro espalhado no assoalho da imaginação, ah, isso é que é vida, apenas uma bobabem, sonhava coisa com coisa, via-se a si própria voando nos sonhos e acenando sorrindo pra ela mesma, que coisa! Ah, como queria voar e sorrir entre as nuvens, até via os urubus na festa das carniças zoando pra ela, que bom, aqui sou notada, o voo o seu refúgio, sonhando de voar a memória da infância em que podia de tudo, era só fechar os olhos e tudo acontecia sem pé nem cabeças e onde quisesse e como, era bom sonhar de olhos abertos, isso podia, ninguém nem nada que não quisesse, só o que queria e era bom sonhar, cônscia do sonho, e aprendeu a sonhar o que queria e sonhava todo dia, acordada ou dormindo, sua vida era um sonho que ela inventava e reinventava ao sonhar e vivia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a ópera e héroique ballet Les Indes Galantes (O Amorous Índias, 1735), do compositor do período Barroco-Rococó e maior expressão do Classicismo musical francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764), com libreto de Louis Fuzelier, original harpsichord transcritions performed by Kenneth Gilbert & Variations Goldberg Bach, Bethoven op. 26 e Sonata KV 279 de Mozart com a pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] concedei-me apenas uma certeza! E que ela seja uma tábua no mar da incerteza, apenas larga o suficiente para permanecer sobre ela. Tomai para vós tudo o que vem a ser, o que é exuberante, multicolorido, florescente, enganador, excitante e vivo; e dai-me apenas a única, pobre e vazia certeza. Oração do filósofo pré-socrático, matemático e poeta grego, Parmênides de Eleia (530-460aC.). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A PRODUÇÃO CAPTTALISTA DO ESPAÇO – [...] não podemos perder de vista os insights marxistas essenciais. De um modo ou de outro, o Estado capitalista precisa desempenhar suas funções básicas. Se não conseguir fazer isso, então esse Estado deve ser reformado, ou então o capitalismo deve dar lugar a algum outro método de organizar a produção material e a vida cotidiana [...] investigar o papel que o processo urbano talvez esteja desempenhando na reestruturação radical em andamento nas distribuições geográficas da atividade humana e na dinâmica político-econômica do desenvolvimento geográfico desigual dos tempos mais recentes [...]. Trechos da obra A produção capitalista do espaço Annablume, 2005), do professor e geógrafo britânico marxista David Harvey, tratando sobre a reinvenção da geografia, a geografia da acumulação capitalista, a teoria marxista do Estado, o ajuste espacial, a geopolítica do capitalismo, do administrativismo ao empreendedorismo: a transformação da governança urbana no capitalismo tardio, a geografia do poder de classe e a A arte da renda: a globalização e transformação da cultura em commodities. Veja mais aqui.

MEDITAÇÕES - [...] Aprendemos pelo corpo. A ordem social se inscreve nos corpos por meio dessa confrontação permanente, mais ou menos dramática, mas que sempre confere lugar importante à efetividade e, mais ainda, às transações afetivas com o ambiente social [...] é preciso deixar de subestimar a pressão ou a opressão, coninuas e por vezes desapercebidas, da ordem ordinária das coisas, os condicionamentos impostos pelas condições materiais de existência, pelas surdas injunções, e a “violência inerte” (como diz Sartre) das estruturas econômicas e sociais e dos mecanismos por meio dos quais elas se reproduzem [...] Os agentes sociais, bem como as coisas por eles apropriadas, logo constituidas como propriedades, encontram-se situados em um lugar do espaço social, lugar distinto e distintivo que pode ser caracterizado pela posição relativa que ocupa em relação a outros lugares (acima, abaixo, entre, etc) e pelas distância (por vezes dita “respeitosa”: e longínquo reverentia) que o separa deles. Por conta disso, são passíveis de uma analysis situs, de uma topologia social. [...]. Trechos de Meditações pascalianas (Bertrand Brasil, 2001), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Veja mais aqui.

O FORMIGÃO – [...] Mais longe, na falda de umas colinas, sob o bosque de jericos, uns arrieiros sesteavam com suas mulas, cantando em coro apimentadas coplas, que os ouvidos do rapaz distinguiam claramente: Você diz que me quer muito; / não me ponha tão em cima, / que as folhas desta árvore / não durarão toda vida. [...] Caíra de joelhos, com seus agasalhos, o caderno que estava lendo, e a palvra Orígenes, título do capítulo citado, tornou-se o alvo do seu olhar. Uma ideia espantosa surgiu então em sua mente. Era a única tábua de salvação... A moça estreitava mais e mais o amoroso laço e deitava a alma pela boca, em beijos. O formigão segurou com punho crispado a espátula e a agitou durante alguns momentos, exalando um gemido... Assunção viu correr uma torrente de sangue, soltou um grito e afrouxou os braços, deu um salto para trás, ficando em pé a dois passos do ferido, com os olhos imensamente abertos e fixos, naquele rosto que, contraído pela dor, mostrava, no entanto, um sorriso de triunfo... [...] Trechos do conto do escritor mexicano Amado Nervo (1870-1919). Veja mais aqui.

POR UM ESTÁGIOSonho que moro / com um esquilo, lá na sua toca / no aconchego do seu pelo quente / o cavalo da noite / não me atropela / nenhuma fronteira / entre mim e a casca / quando acordo / lembro da minha carte de menor durante a guerra / com um passaporte para ir / de uma metade da França à outra, a casa do meu avô / pensonas cercas de arame farpado sobre toda a terra, hoje / gostaria de voltar / à toca do esquilo / e também abolir / dentro de mim as fronteiras / fazer um estágio de organismo simples. Poema da escritora, ensaísta e critica literária francesa Marie-Claire Bancquart.

A ARTE DE CAROLEE SCHNEEMANN
A arte da artista visual estadunidense Carolee Schneemann, caracterizada pela pesquisa sobre tradições visuais, tabus e o corpo humano nas relações sociais, autora de obras como Cézanne, She Was a Great Painter (1976) e More than Meat Joy: Performance Works e Selected Writings (1997), entre outras.

Veja mais:
Os sonhos de Ximênia aqui e aqui.
O pensamento de Emmanuel Levinas aqui e aqui
A literatura de Carlos Castañeda aqui e aqui.
A arte de Joan Miró aqui.
A literatura de Raul Pompeia aqui.
Os estudos de Dian Fossey aqui.
A literatura de Henry Miller aqui, aqui & aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, ilustrador e fotógrafo australiano Loui Jover.
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, novembro 16, 2017

FROMM, CHINUA ACHEBE, MILLÔR, JORGE FORBES, PSICANÁLISE, VIV ROSSER, SENSO COMUM, ZÉ BESTÃO & JAQUEIRA

EITA, ZÉ BESTÃO! - Zé Bestão sempre foi besta demais, pense num cara broco de tão perdido, nossa! Não conheço ninguém tão desligado na vida, chega penso que ele não é deste mundo. Será? É que ele não leva nada no olho da maldade, seja marotagem, safadeza, ardis, qualquer dissimulação pra ele é tudo no muito normal, natural. Pois é, aprontam com ele de todo jeito, pintam e bordam, armam arapuca na maior cruzeta, pintam o sete pelas costas, mandam ver se estão na esquina e ele vai, preparam a cama de gato e ele cai toda vez, fazem dele portador de carta esculhambando destinatário e ele lá esperando resposta na hora embaixo do maior esculacho, fazem tramóia e culpam ele pela desgraça do meladeiro todo, cometem desatino e dizem que foi ele, roubam, melecam, traem, passam a perna, pintam miséria e, no final, colocam a culpa nele. E ele? Pode estar no calão, ah, nem aí, nem liga, como se nem fosse com ele, riso amarelo, cara lisa, no final assume tudo, põe-se a resolver como se realmente fosse ele próprio o responsável por todos os desatinos tramados. Parece que pra ele não aconteceu nada, pois encara tão normalmente a trapaça que mais parece coisa encomendada que ele já sabia e leva com tanto afinco como se fosse labor profissional. Dá pra imaginar? Já teve gente que chegou junto dele no amiudado e delatou tudo, deram-no ciência de que armaram tudo pra cima dele, que estão sacaneando com ele o tempo todo, que isso não é justo e que ele deve tomar uma providência e desancar todo mundo que anda goelando pra cima dele e ele com a cara mais santa do mundo, simplesmente diz: Eu sei, tô sabendo, sim, na maior, saquei tudo. E não vai fazer nada? Claro, ora, vou resolver tudinho. E não vai se vingar? Pra quê? Ora, eles merecem uma boa lição. Nada, eles estão apenas brincando comigo, na maior. Ah, mas estão sacaneando com você o tempo inteiro! Nada não, isso é normal. Normal caraca nenhuma, porra! Danou-se! Esse leva desacerto de todo jeito, até Zé-Corninho tira onda pra cima dele. Pode? Oxe, leva toque de arrodeio, passa batido, paga o pato, ora, e nem aí. Leva a maior dedada até tomar no cu e nem aí. Assim não. Nunca vi sujeito mais leso na vida. Todo mundo no bloco do eu sozinho pra cima dele e ele na maior solidariedade, hem hem, botam ele no front, bucha de canhão e pronto pro fuzilamento, fazem-no de otário meio dia em ponto, deixam-no quarando em pé por horas de quase secar os cambitos esperando pelo que nunca virá, maior bobo na roda, leva e traz de vai e volta todo dia e o dia todo, encarcam sem pena, só punhalada no toitiço, golpe baixo, desfeita às escondidas, trairagem suja, não sei como ele escapa, acho que Deus protege as crianças, os doidos, os bêbados e ele! Só pode, afinal de doido e bêbado ele tem tudo, mesmo abstêmio e são do juízo. Ô Zé Bestão, cê ta pensando em quando morrer ir pro céu é? Ah, é, isso mesmo, pelo menos, quando eu morrer vou direto pro paraíso, né não? Ah, é, claro que vai e como. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Les indes galantes, do compositor francês Jean-Pierre Rameau (1683-1764); Rapsody in blue de Gershwinm, The Chopin Project & Prelude in B minor de Rachmaninoff com a pianista russa Lola Astanova; Amores absurdos e show do cantor, compositor e arranjador Celso Viáfora; e Selvática, Longe de onde & Eu menti pra você da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O senso comum contém inumeráveis interpretações pré-científicas ou quase-científicas sobre a realidade cotidiana, que admite como certas. [...]. O método que julgamos o  mais conveniente para esclarecer os fundamentos do conhecimento na vida cotidiana é o da análise fenomenológica, método puramente descritivo, e como tal “empírico” mas não “científico”. [...] A análise fenomenológica da vida cotidiana, ou melhor, da experiência subjetiva da vida cotidiana, abstém-se de qualquer hipótese causal ou genética, assim como de afirmações relativas ao status ontológico dos fenômenos analisados. [...]. Trechos extraídos de A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento (Vozes, 1973), de Peter L. Berger & Thomas Luckmann. Veja mais aqui e aqui.

JAQUEIRA - O povoado surgiu a partir de um ponto de parada dos almocreves, que eram os homens que transportavam cargas em animais para abastecer de gêneros alimentícios, vestuário e outras mercadorias para povoados, vilas e cidades da região entre a localidade de Una (hoje Palmares) e Lagoa dos Gatos, que era um centro abastecedor. Tal parada devia-se a duas jaqueiras que ofereciam uma boa sombra e tornou-se ponto de encontro entre os almocreves, gerando um pequeno comércio no local. A partir daí, surgiram as primeiras residências, durante o século XIX. A estação ferroviária em Jaqueira foi inaugurada em 28 de setembro 1883, o que integrou a vila ao litoral em Recife. Pela ferrovia a cidade passou a ser abastecida, bem como era escoada a produção de açúcar das usinas da região. O distrito foi criado em 17 de dezembro de 1904, com o nome de colônia Isabel, subordinado ao município de Palmas. Em 1911, passa a denominar-se Jaqueira e mantida subordinada ao município de Palmares. Em 1933 passa à jurisdição do município de Maraial. O município foi criado em 28 de setembro de 1995 e instalado em 1 de janeiro de 1997. Veja mais aqui.

O FALSO GRANDE AMOR – [...] O caso mais freqüente e evidente de alienação talvez seja o do falso “grande amor”. Um home apaixona-se entusiasticamente por uma mulher; depois de ter correspondido a principio, ela é tomada de crescentes dúvidas e rompe a relação. Ele é assaltado por uma depressão que quase o leva ao suicídio. A vida deixa de ter sentido para ele. Conscientemente, explica a situação como um resultado lógico do que aconteceu. Acredita que pela primeira vez sentiu um amor real, que com aquela mulher e somente com ela poderia experimentar o amor e a felicidade. Se ela o deixa, não haverá nenhuma outra pessoa que possa despertar-lhe a mesma relação. Perdendo-a, acredita ter pedido sua única oportunidade de amar. Portanto, é melhor morrer. Embora tudo isso lhe pareça convincente, seus amigos podem fazer algumas perguntas: Por que um homem que até então parecia menos capaz de amar do que a pessoa média apaixona-se de forma tão completa que prefere morrer a viver sem ser amado? Por que, estando tão enamorado, se recusa a fazer concessões, a abrir mão de certas exigências que entram em choque com as exigências da mulher amada? Por que será que, ao falar de sua perda, ele fala principalmente de si, do que lhe aconteceu, e mostra um interesse relativamente pequeno pelos sentimentos da mulher que tanto ama? Se conversarmos com o infeliz homem mais demoradamente, não nos surpreenderemos ao ouvi-lo dizer, a certa altura, que se sente completamente vazio, tão vazio como se seu coração tivesse ficado com a namorada perdida. Se ele pudesse compreender o sentido dessa afirmação, perceberia que seu sofrimento é proveniente da alienação. Jamais foi capaz de amar ativamente, de deixar o circulo mágico de seu próprio ego, de exteriorizar-se e tornar-se uno com outro ser humano. O que fez foi transferir seu anseio de amor para a moça e sentir que com ela experimentava seu “amor”, quando na realidade experimentava apenas a ilusão de amar. Quanto mais ele transfere para ela seu anseio de amor, bem como de vida, felicidade, etc., tanto mais pobre se torna e mais vazio se sente, longe dela. Estava sob a ilusão de amar, quando na realidade transformara a mulher num ídolo, na deusa do amor, e acreditava que unindo-se a ela experimentava o amor. Fora capaz de despertar nela uma reação, mas não fora capaz de superar sua própria mudez interior. Perdê-la não é perder, como ele acredita, a pessoa a quem ama, perde-se como uma pessoa potencialmente amante. [...]. Trecho extraído da obra Meu encontro com Marx e Freud (Zahar, 1969), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980). Veja mais aqui e aqui.

CULTURA, REPRESSÃO & SONHOS - [...] a repressão não destrói a representação dolorosa: mesma mantida em estado inconsciente, ela permanece ativa, tentando retornar ao sistema consciente. O resultado desse conflito, que envlve um verdadeiro jogo de forças, é a produção das chamadas formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos (ou atos falhos) e chistes (piadas e ditos de espírito) que seria frutos de uma espécie de “negociação” entre os sistemas. As representações reprimidas podem vir a ser readmitidas na consciência (retorno do reprimido), contanto que passem por um processo de deformação que as tornem irreconhecíveis, deixando assim de despertar angustia no sujeito [...]. articular a vida psíquica individual com a vida social e os limites que esta impõe ao indivíduo, a começar pela interdição do incesto. Em nome das exigências culturais, a satisfação pulsional é grandemente cerceada, inclusive em seus aspectos agressivos e destrutivos. Embora indivíduos ganhem com isso a possibilidade de conviver em grupo, ressentem-se profundamente de tais renúncias. A cultura é, pois, construída sobre a base da repressão, o que faz com que o homem cultive uma hostilidade permanente contra ela. [...]. Trechos extraídos de Luzes e sombras: Freud e o advento da psicanálise, de Inês Loureiro, extraído da obra História da psicologia: rumos e percursos (Nau, 2005), organizado por Ana Maria Jacó-Vilela, Arthur Arruda Leal Ferreira e Francisco Teixeira Portugal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O MUNDO SE DESPEDAÇA - [...] Até aquele momento, Okoye se expressara de maneira simples, mas a meia dúzia de frases seguintes tomou a forma de provérbios. Entre os ibos, a arte da conversação é tida em alto conceito, e os provérbios são o azeite de dendê com o qual as palavras são engolidas. Okoye era um grande conversador e falou durante muito tempo, dando voltas em torno do assunto até finalmente abordá‑lo. Em resumo, pedia a Unoka que lhe devolvesse os duzentos cauris que lhe emprestara havia mais de dois anos. Tão logo este percebeu aonde o amigo queria chegar, estourou em gargalhadas. Riu alto, durante muito tempo, de modo claro como o agogô, e tinha lágrimas nos olhos. O visitante, espantado, continuou sentado, sem fala. Afinal, Unoka conseguiu dar‑lhe uma resposta, entremeada de novas explosões de riso. [...]. Trecho extraído de O mundo se despedaça (Companhia das Letras, 2009), do escritor e crítico literário nigeriano Chinua Achebe (1930-2013). Veja mais aqui.

NOVIDADE, SÓ A PRIMEIRA (À VANGUARDA QUE SE CRÊ VANGUARDA) - Garanto: / o primeiro poeta que rimou / foi um espanto! / Mais, muito mais, / Meu irmão, / do que o primeiro / que não. Poema extraído do livro Poemas (L&PM, 1984), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O SILÊNCIO DAS GERAÇÕES, DE JORGE FORBES
Ex-ergo: O pai matou o filhinho; a filhinha matou o pai e a mãe; o aluno incendiou a escola; a senhora se suicidou. E todos pareciam tão sadios, iguais a toda gente! Está todo mundo perdido: maior que o medo, é o suspense. Surgem calmantes de ocasião, sempre três: psicose, moral e possessão. Voltam o chicote, as lições de moral e cívica e o ato de contrição. Um mundo reacionário se anuncia e Bush, no círculo oval de seu pensamento, reedita as peripécias do grande ditador. Oh tempos, oh costumes! O pai refestelado em sua poltrona de domingo, acabou de ouvir fantásticas explicações sobre o mundo atual. Eram três especialistas em comportamento, concordantes com a necessidade de voltar à velha disciplina: “educação se dá em casa e chinelo e palmatória não deviam estar aposentados”. Ele está mais tranqüilo; nem dormia mais direito, com medo de ser assassinado. Chegou a pensar que se existem nos aeroportos detectores de metais, como não descobriram ainda os detectores de “mentais”? Seu sonho de segurança tinha ficado abalado com aquela psiquiatra esfaqueada pela filha. – “Como é que não previu? Não era psiquiatra? Santo de casa não faz milagre”, reconfortou-se. Três dias depois, Mariana, coordenadora do Padre Félix, colégio de classe média alta dos Jardins, constata boquiaberta que mais de cinqüenta por cento dos meninos chegaram ao colégio com rosto macerado: apanharam em casa. Corre a seu supervisor – “Há um silêncio entre as gerações”, diz ele, que está difícil de ser assimilado. Não há uma só educação padrão, standard, logo, o que há são educações, no plural. E se há educações há que se escolher. Preferir uma ou outra é opção pessoal. Não há uma razão para que seja essa e não aquela. É um querer mais que um saber, e o querer não se compreende totalmente, é arbitrário. Confundem arbitrário com abuso de poder e, no entanto, arbitrário só diz daquilo que não se demonstra pela dedução. Sim, meu filho, essa é a minha opção. É claro que existem outras formas. Melhores? Não sei, pode ser, mas essa é a minha e eu sou seu pai, eu sou sua mãe. Você vai mudar de casa? Não adiantará, as opções mudam mas não o arbitrário, o silêncio da razão. Pais detestam falar assim pois invariavelmente, o filho vai dizer: “Eu não gosto de você”. Ai! Nem pai, nem professor suportam esse “eu não gosto de você”. Tratam de falar manso, buscar explicações, convencimentos, concordâncias e o que melhor conseguem é transmitir que tudo se explica, que não há limite à razão. E o filho, proibido de dizer “eu não gosto de você” vai se encharcando na angústia do ilimitado: bateu um carro? Dou outro. Perdeu um ano? Ganhou maturidade. Matou um índio? Te absolvo. Eu te compreendo em qualquer coisa, meu filho. E o filho da compreensão ilimitada se tatua: uma fronteira no corpo: se bate: um limite à expansão; mata, se droga, se mata. Não mamãe e papai, nem compreensão geral, nem palmatória. Se há uma herança digna da paternidade é a de que nem tudo se explica, não porque não se queira mas, simplesmente, por ser impossível. É, meu filho, tem um silêncio entre nós dois, a ponte da palavra não nos contém. Vamos nos perder? Pode ser que não, sobre esse silêncio podemos inventar. Teve um Drummond que de uma pedra no meio do caminho, em vez de jogá-la no outro, poetou. Teve um Chico e um Milton que cantaram uma coisa que não tem nome nem nunca terá. O limite da palavra é a invenção, é só poder suportar: melhor esse risco que a desgraça razoável. Meu filho, senta aqui, não nos compreendemos, e daí? Pôr do sol, mergulho em Fernando de Noronha, brigadeiro, beijo, avião decolando, chuva na mata, precisa de explicação? Tem tanta boa coisa no silêncio. PSIU!
Extraído da obra Você quer o que deseja? (Best Seller, 2004), do médico psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Viv Rosser.
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HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

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