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terça-feira, dezembro 26, 2017

HARVEY, BOURDIEU, AMADO NERVO, BANCQUART, RAMEAU, PARMÊNIDES, LOUI JOVER, PI-HSIEN CHEN, SCHNEEMANN & XIMÊNIA

SONHOS & SEGREDOS DE XIMÊNIA - Imagem: Arcadia, Loui Jover. - Ximênia sonhou estranho sonho: meninos e meninas clamavam chorosas pela mãe e era ela, a mãe de todos aqueles órfãos. Os abortos doeram pesados, o padre no púlpito condenou as mães que negaram seus filhos, agora o pastor aos berros pelos altofalantes, como pode, ela se via culpada por tudo que rejeitara das escapulidas acossadas pela volúpia, dos indevidos prazeres incendiários, não podia engravidar, todos reprovariam, não tinha ninguém para apoiá-la, até mesmo a quem amava zarpara ao saber da prenhez, e ela sozinha, como agora, culpada pelas perdas, por não ter pensado direito, por se entregar fácil ao primeiro carinho e tesão embaixo da saia, via-se culpada por todos os erros, os seus e os da humanidade, culpada pelas doidices do sexo, pelas bombas explosivas ceifando inocentes, pelas misérias de filhos que perderam seus pais, pelas guerras matando os convocados e pela queda do homem, tudo culpa dela pela costela tomada, o que foi que eu fiz, meu Deus, o choro irrompia feito uma tempestade avassaladora. Desfaleceu de sentir uma agonia medonha por dentro, menstruou de repente e o sangue revelava sua nojeira e culpa, por isso sangrava e muito, todo mês, ah, que fazer, e passou uma noite e um dia, sangreiro entre as pernas e caminhos, dois dias assim, três, quatro, derramava profusamente, quinto dia e vertia sangue cálido, enegrecido, quando isso vai parar, sexto dia e já se acostumava vazar de suas entranhas aquela sina de mulher. Foi então se arrumar, vestiu-se como nunca, escolhendo a dedo a roupa com odor de naftalina tirada do baú nunca mais vasculhado, quase não cabia dentro do vestido de tão apertado, anos guardado, meia-calça, bijouterias, maquiagem e o espelho, não, não era ela, nunca seria, tudo fora do lugar, reprovável, indevido, desvestiu-se de ficar nua por horas encostada ao canto do quarto, pele, unhas e desprezo. O que fazer da vida? Seus sonhos, seus segredos guardados jamais reveláveis, segredos dela, só dela mais ninguém. Segredos que regorgitavam, vinham à tona desavisadamente e até chegavam vivos na ponta da língua de quase vomitá-los todos duma vez, mas não, seria demais, nada disso, e falava sozinha, falava por falar sem querer dizer o que realmente estava pronta pra dizer, não era nada do que dizia, nada disso que eu queria ter dito, era outra coisa, até me esqueci do quê, ah, vou me arrumar e pegou o primeiro vestido e saiu descalça jogando tudo pra cima, seios e ventre aos ventos, não sei o por quê de ainda estar aqui, ora, ora, já devia ter dado cabo da minha vida, pegado o rumo, sumido, ah, se eu pudesse, por que não posso? Claro que posso ir além do portão, e sentiu a chuva e corpo molhar-se de deixar às vistas sua nudez incontrolável, tateando sua carne reviu o passado, quantas e tantas coisas que vivera, melhor pensar no futuro, mas como? O futuro não existe, ou é agora ou nunca. Como era linda a infância, as bonecas cuidadas, os presentes que ganhava e a mãe mandando prender os cabelos a colecionar diademas, tiaras, só dispunha de berilos e bobes, queria a liberdade dos cabelos soltos, esvoaçantes, ah, quem dera cabelo bonito como o da tia Meraldinha, aquilo sim é que era cabelo bonito, aliás, ela era toda bonita, parecia uma daquelas princesas encantadas, queria ser ela, ser como ela, viver a vida dela, isso sim, ah, queria era voltar a ser menina, ah se encontrasse os grãos de feijão da promessa de João e Maria, e enquanto devaneava batia uma tristeza enorme, um filme passava na sua cabeça, o quintal, as pisas, reprimendas, fugidas, até lembrar da morte de ontem da amiga por engano, carta que errou de endereço, era pra vizinha aquela depravada, não pra ela, o marido nem viu quem o destinatário, ligou-se no conteúdo mencionado pelo remetente anônimo, a fúria cegou-lhe, não precisava matá-la daquele jeito, brutalidade sem precedentes, agora, ela morta, enterrada inocentemente; ele, preso, condenado ao opróbrio público, pela mão pesada da lei, inocentemente, tudo por engano, como pode? Chorou e saiu do quintal à varanda às lágrimas, vai e volta casa adentro pranto recorrente, para no portão enxugando os olhos que estão na rua, estala os dedos, dissimula, ronrona, se recompõe, vê-se sozinha desde sempre, quase morre afogada na sua pungente constatação. Até viu seu rosto na poça d’água, correu apressada pro espelho, está na cara: o espelho me condena, não ignora a causa, apenas disfarça, faz que não sabe. Bem que podia ser mais bonita, não era; bem que podia ser atriz de televisão com aqueles galãs das novelas, glamour, felicidade. Ah, não, minha vida é nada, reduzida a isso, só preparar café da manhã, almoço, janta, servia mais pra quê mesmo, hem? Servia apenas para servir, levar beliscão ou tapinha na bunda avisando que mais tarde seria abatida pela violência do seu dono e feitor, mais nada, só queria seus favores de Amélia, casa limpa, roupa lavada, disposição de abrir as pernas e escancarar todo corpo nu pra satisfazer as vontades explosivas dele imprevisível e desconfortável, só quando ele queria e pronto, sempre só quando queria e depois, feito, servido, saciado, virar de costa, ufa!, e livrava-se da obrigação de ter que abrir as pernas, facilitar as coisas, deixar que faça o que quiser, como quiser, não importa o que sinta ou possa, morto de fome e sem saber da sua nem de seus desejos e sonhos, é ele assim que chega esbaforido, fedendo, se cagando ou se mijando ou de pau duro remexendo suas entranhas, aos puxavanques, aos empurrões, a lei é dele, a vontade é dele, tem de tapar o nariz para ver se morre, cerra as pálpebras, como pode tudo isso, ah, essa a minha vida, por acaso isso é vida, e o vuque-vuque, imagina o príncipe a raptá-la e às sacudidas inevitáveis o trote do garanhão e ela estuprada deliciosamente por quem ela sonha, investidas às pressas pela fuga, o sexo dilatado e o futuro da felicidade, caindo na real e tudo despenca com o gozo dele, nem deu tempo pro prazer dela, ele vira as costas e ronca como quem não deve nada e ela sonhando com o noivado engalanado que nunca tivera, a cerimônia na igreja, o véu e grinalda, nada disso, sonhos que se espatifam como vidro espalhado no assoalho da imaginação, ah, isso é que é vida, apenas uma bobabem, sonhava coisa com coisa, via-se a si própria voando nos sonhos e acenando sorrindo pra ela mesma, que coisa! Ah, como queria voar e sorrir entre as nuvens, até via os urubus na festa das carniças zoando pra ela, que bom, aqui sou notada, o voo o seu refúgio, sonhando de voar a memória da infância em que podia de tudo, era só fechar os olhos e tudo acontecia sem pé nem cabeças e onde quisesse e como, era bom sonhar de olhos abertos, isso podia, ninguém nem nada que não quisesse, só o que queria e era bom sonhar, cônscia do sonho, e aprendeu a sonhar o que queria e sonhava todo dia, acordada ou dormindo, sua vida era um sonho que ela inventava e reinventava ao sonhar e vivia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a ópera e héroique ballet Les Indes Galantes (O Amorous Índias, 1735), do compositor do período Barroco-Rococó e maior expressão do Classicismo musical francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764), com libreto de Louis Fuzelier, original harpsichord transcritions performed by Kenneth Gilbert & Variations Goldberg Bach, Bethoven op. 26 e Sonata KV 279 de Mozart com a pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] concedei-me apenas uma certeza! E que ela seja uma tábua no mar da incerteza, apenas larga o suficiente para permanecer sobre ela. Tomai para vós tudo o que vem a ser, o que é exuberante, multicolorido, florescente, enganador, excitante e vivo; e dai-me apenas a única, pobre e vazia certeza. Oração do filósofo pré-socrático, matemático e poeta grego, Parmênides de Eleia (530-460aC.). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A PRODUÇÃO CAPTTALISTA DO ESPAÇO – [...] não podemos perder de vista os insights marxistas essenciais. De um modo ou de outro, o Estado capitalista precisa desempenhar suas funções básicas. Se não conseguir fazer isso, então esse Estado deve ser reformado, ou então o capitalismo deve dar lugar a algum outro método de organizar a produção material e a vida cotidiana [...] investigar o papel que o processo urbano talvez esteja desempenhando na reestruturação radical em andamento nas distribuições geográficas da atividade humana e na dinâmica político-econômica do desenvolvimento geográfico desigual dos tempos mais recentes [...]. Trechos da obra A produção capitalista do espaço Annablume, 2005), do professor e geógrafo britânico marxista David Harvey, tratando sobre a reinvenção da geografia, a geografia da acumulação capitalista, a teoria marxista do Estado, o ajuste espacial, a geopolítica do capitalismo, do administrativismo ao empreendedorismo: a transformação da governança urbana no capitalismo tardio, a geografia do poder de classe e a A arte da renda: a globalização e transformação da cultura em commodities. Veja mais aqui.

MEDITAÇÕES - [...] Aprendemos pelo corpo. A ordem social se inscreve nos corpos por meio dessa confrontação permanente, mais ou menos dramática, mas que sempre confere lugar importante à efetividade e, mais ainda, às transações afetivas com o ambiente social [...] é preciso deixar de subestimar a pressão ou a opressão, coninuas e por vezes desapercebidas, da ordem ordinária das coisas, os condicionamentos impostos pelas condições materiais de existência, pelas surdas injunções, e a “violência inerte” (como diz Sartre) das estruturas econômicas e sociais e dos mecanismos por meio dos quais elas se reproduzem [...] Os agentes sociais, bem como as coisas por eles apropriadas, logo constituidas como propriedades, encontram-se situados em um lugar do espaço social, lugar distinto e distintivo que pode ser caracterizado pela posição relativa que ocupa em relação a outros lugares (acima, abaixo, entre, etc) e pelas distância (por vezes dita “respeitosa”: e longínquo reverentia) que o separa deles. Por conta disso, são passíveis de uma analysis situs, de uma topologia social. [...]. Trechos de Meditações pascalianas (Bertrand Brasil, 2001), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Veja mais aqui.

O FORMIGÃO – [...] Mais longe, na falda de umas colinas, sob o bosque de jericos, uns arrieiros sesteavam com suas mulas, cantando em coro apimentadas coplas, que os ouvidos do rapaz distinguiam claramente: Você diz que me quer muito; / não me ponha tão em cima, / que as folhas desta árvore / não durarão toda vida. [...] Caíra de joelhos, com seus agasalhos, o caderno que estava lendo, e a palvra Orígenes, título do capítulo citado, tornou-se o alvo do seu olhar. Uma ideia espantosa surgiu então em sua mente. Era a única tábua de salvação... A moça estreitava mais e mais o amoroso laço e deitava a alma pela boca, em beijos. O formigão segurou com punho crispado a espátula e a agitou durante alguns momentos, exalando um gemido... Assunção viu correr uma torrente de sangue, soltou um grito e afrouxou os braços, deu um salto para trás, ficando em pé a dois passos do ferido, com os olhos imensamente abertos e fixos, naquele rosto que, contraído pela dor, mostrava, no entanto, um sorriso de triunfo... [...] Trechos do conto do escritor mexicano Amado Nervo (1870-1919). Veja mais aqui.

POR UM ESTÁGIOSonho que moro / com um esquilo, lá na sua toca / no aconchego do seu pelo quente / o cavalo da noite / não me atropela / nenhuma fronteira / entre mim e a casca / quando acordo / lembro da minha carte de menor durante a guerra / com um passaporte para ir / de uma metade da França à outra, a casa do meu avô / pensonas cercas de arame farpado sobre toda a terra, hoje / gostaria de voltar / à toca do esquilo / e também abolir / dentro de mim as fronteiras / fazer um estágio de organismo simples. Poema da escritora, ensaísta e critica literária francesa Marie-Claire Bancquart.

A ARTE DE CAROLEE SCHNEEMANN
A arte da artista visual estadunidense Carolee Schneemann, caracterizada pela pesquisa sobre tradições visuais, tabus e o corpo humano nas relações sociais, autora de obras como Cézanne, She Was a Great Painter (1976) e More than Meat Joy: Performance Works e Selected Writings (1997), entre outras.

Veja mais:
Os sonhos de Ximênia aqui e aqui.
O pensamento de Emmanuel Levinas aqui e aqui
A literatura de Carlos Castañeda aqui e aqui.
A arte de Joan Miró aqui.
A literatura de Raul Pompeia aqui.
Os estudos de Dian Fossey aqui.
A literatura de Henry Miller aqui, aqui & aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, ilustrador e fotógrafo australiano Loui Jover.
Veja mais aqui.
 

quarta-feira, novembro 15, 2017

BACHELARD, MORIN, FAYGA OSTROWER, ANA PAULA TAVARES & SIRINHAÉM

ESTRELAS, OURO & TODAS AS COISAS - Imagem: Litografia (1981), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professora e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). - Quem dera, o cansaço conciliasse o sono desgovernado das andanças de estradeiro, no galope de correr trocando as pernas na lapada do mundo ao deus-dará, já de sobreaviso e a vida no pêndulo ao derredor das circunstâncias, léguas pelos vales de porteira escancarada e o que mais poderia querer na boca da noite, afora do oco vazio prosperando a pulso e o remorso no marulhar das águas, sozinho no terraço. No meio da noite, de um lado, o esplendor da Natureza com tudo e todas as coisas; de outro, a danação da miséria: uns com tanto na servidão de suas mesquinharias e a festa de teres e haveres que são poeiras mais cedo ou mais tarde pras infelizes ganâncias; outros, com tão pouco, quase nada ou nada mesmo e sem ter pra onde ir, se um centavo era seu, por que não, de nada adianta as garras afiadas a mando do umbigo estraçalhado, coisa de quem mata por querer o do outro que não é seu para ser seu a qualquer custo e já agorinha mesmo senão eu morro com um troço atravessado no peito do desgosto. Isso não me interessa, viro pro lado e brinco de rio e mar por entrerrios e outros meios, dizeres de pedras, quantos ontens, recolho estrelas – pra que serve? Se tudo vale ou não, prossigo como quem chuta uma pedra e a estrela sentiu na estrada. A gota da minha lágrima transbordou no copo. Parece que criei meu próprio infortúnio engolfado em negros pensamentos, fraquezas, paradas, tentações. É era pro passo decisivo: não tenho mais pressa, respiro profundamente porque chegou a hora de por termo ao caos de mim mesmo. Agora, adiante. Vez em sempre, sou senhor de mim, não mais escravo do reino manifesto, nem sucumbo ao desânimo. Ouvi o chamamento da sutil e suave voz dentro de mim. Tranquilizei meu intelecto ao saciar a sede de saber, olhos no escuro, silenciei minha voz. Dentro de mim nasce o Sol na manhã e sou a Terra na imensidão do universo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Poema on Guitar, Jazz Samba & Afro-Samba, do músico e compositor Baden Powell de Aquino (1937-2000); o Concer to the memorian on the Angel Berg, Violin Bach & Ysaÿes Sonata nº 3 Balade com a violinista russa Alina Ibragimova; o Concert Chello Elga e concertos do violoncelista Antônio Meneses com a pianista Maria João Pires e a Orquestra Jovem de São Paulo; e Variations Goldberg Bach, Bethoven op. 26 e Sonata KV 279 de Mozart com a pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Devemos fazer tudo para desenvolver nossa racionalidade, mas é em seu próprio desenvolvimento que a racionalidade conhece os limites da razão e efetua seu diálogo com o irracionalizável [...] Doravante, aqui residirão nosso único fundamento e nosso único recurso possível [...] no esforço da compreensão e não da condenação, no autoexame que comporta a autocrítica e que se esforça em reconhecer a mentira para si próprio. [...]. Trechos extraídos da obra Amor, poesia, sabedoria (Bertrand Brasil, 2012), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. Veja mais aqui e aqui.

CRIAÇÃO & CRIATIVIDADE - [...] Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo de atividade, trata-se, nesse 'novo', de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar. [...] ao aprender o mundo, o homem aprenda também o próprio ato de apreensão, permite que, aprendendo, o homem compreenda [...] poderia encontrar uma pessoa na rua e nesse encontro notar certos detalhes, o tom de voz, determinados gestos, olhares, a roupa, a pressa com que caminha, ou outros aspectos isolados; talvez tais aspectos tornem o encontro significativo num sentido inteiramente imprevisto. Isto está fora das possibilidades dos animais, que reagem a situações globais concretas [...] Temos de levar em conta que uma realidade configurada exclui outras realidades, pelo menos em tempo e nível idênticos. É nesse sentido, mas só e unicamente nesse, que, no formar, todo construir é um destruir. Tudo o que num dado momento se ordena, afasta por aquele momento o resto do acontecer. É um aspecto inevitável que acompanha o criar e, apesar de seu caráter delimitador, não deveríamos ter dificuldades em apreciar suas qualificações dinâmicas. Já nos prenuncia o problema da liberdade e dos limites. [...] Criar é poder relacionar com precisão. Ou melhor ainda, criar é relacionar com adequação. O referencial dos limites permite que nos relacionamentos se use o senso de proporção, se avalie a justeza no que se faça. Se por algum motivo tivéssemos que estabelecer uma única qualificação condicional para o que é criativo, essa qualificação seria a da adequação, não seria a inovação nem a originalidade. seria a maneira justa e apropriada por que se corresponderiam as delimitações de um conteúdo expressivo e as delimitações de uma materialidade (os meios usados para se configurar). Não teríamos menos do que no caso fosse necessário, pois o resultado seria pobre, insuficiente e não-criativo, mas também não teríamos mais do que o necessário, cujo resultado por sua vez seria não-criativo no sentido de não-verdadeiro, irreal, excessivo, talvez até bombástico e vazio (consequentemente, a originalidade em si não é critério de criação) [...]. Trechos extraídos da obra Criatividade e processos de criação (Vozes, 2002), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001), trazendo um referencial da arte com temática interdisciplinar e encarando a criatividade como um potencial próprio de todos os humanos, notadamente quanto aos processos criativos que em geral importam, tais como percepção, formas, intuição e imaginação, assim como o crescimento e a maturidade das pessoas. Veja mais aqui.

A POESIA & O DIREITO DE SONHAR - [...] A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema deve dar uma visão de universo e o segredo de uma alma, ao mesmo tempo um ser e objetos. Se simplesmente segue o tempo da vida, é menos do que a vida; somente pode ser mais do que a vida se imobilizar a vida, vivendo em seu lugar a dialética das alegrias e dos pesares. Ela é então o princípio de uma simultaneidade essencial, na qual o ser mais disperso, mais desunido, conquista unidade  [...]. Trecho extraído da obra O direito de sonhar (Difel, 1986), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui e aqui.

SIRINHAÉM – O distrito de Sirinhaém foi criado por Alvará datado de 28 de junho de 1759, tinha por vila a denominação de Formosa, criada em 01 de julho de 1627, en2quanto que a Vila Formosa de Sirinhaém criada em 19 de junho de 1627 e instalada em 01 de julho de 1627. A localidade começou a povoar-se em princípios do século XVII. Em 1614, ediciou-se a capelinha de São Roque. De 1620 e 1621, já bem servida a povboação, foi levantada a igreja de Nossa Senhora da Conceicção. Em 1621’, foi elevada à categoria de fregusia, sendo constituído em município autônomo em face da Lei estadual 52 – Lei Organica do Municipios -, datada de 03 de agosto de 1892. Administrativamente, Sirinhaém é formado pelos distritos-sede, Barra de Sirinhaém e Ibiratinga, e pelos povoados da Usina Trapiche e Santo Amaro. Anualmente, no dia 06 de janeiro, comemora a sua emancipação política, conforme a Enciclopédia dos Municipios do Interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

O LAGO, DE ANA PAULA TAVARES
Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga
Poema extraído do livro Dizes-me coisas amargas como os frutos (Caminhos, 2001), da poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares. Veja mais aqui.

Veja mais:
A poesia de Jorge de Lima aqui.
A literatura de José Saramago aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professora e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). Veja mais aquiaqui.
 

sábado, setembro 16, 2017

TERRA, BUBER, VERÍSSIMO, INCLUSÃO & ACESSIBILIDADE, COLÉGIO DIMENSÃO & MUITO MAIS COM MÚSICA NO AR

SOU DA TERRA E A ELA ME DOU - Sou desta Terra-mãe, em cada gota de orvalho na flor da manhã e em cada paisagem dos pontos cardeais, porque planto o futuro a cada momento em que vivo e sou feito pra cumprir a missão. Eu colho o presente ao nascer o dia, distribuo a colheita de mão em mão e em todas as mãos eu sou pra todos porque assim também eu serei, porque sou cada semente que brota na festa da vida. E se em mim amanheço pra tudo alcançar e se também anoiteço pra que possa me guiar na escuridão, é porque sou corrente na rota do rio pra que eu seja mar e tudo de mim e de todos, e sou o vento da tarde alisando o cabelo nas faces pro sorriso emanando de cada ser nas noites & dias de cada estação. Assim eu sou chão das raízes pra todas as folhas e flores, todos os pés que perseguem os rumos distantes, pros dedos que apontam todas as direções, pra que eu seja mais desenvolto de invernos a verões. Assim eu sou erupção vulcânica no fogo de amar pra que tudo seja amor em dar e receber, em olhar e perceber a maravilha que é dar conta de todo milagre que é nascer e viver. Assim sou dia de feita na vez do labor, sou todo domingo festejando a semana porque tudo que nasce provém do amor, sou todas as preces de gratidão, pra que eu seja cada pedra, pra que eu seja cada respirante, na mais completa comunhão do que sou. Por isso sou desta Terra e a ela me dou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais Poema on Guitar, Jazz Samba & Afro-Samba, do músico e compositor Baden Powell de Aquino (1937-2000); o Concer to the memorian on the Angel Berg, Violin Bach & Ysaÿes Sonata nº 3 Balade com a violinista russa Alina Ibragimova; o Concert Chello Elga e concertos do violoncelista Antônio Meneses com a pianista Maria João Pires e a Orquestra Jovem de São Paulo; e Variations Goldberg Bach, Bethoven op. 26 e Sonata KV 279 de Mozart com a pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Para conferir é só ligar o som e curtir.

NÓS, EU & TU[...] O homem não é uma coisa entre coisas ou formado por coisas quando, estando EU presente diante dele, que já é meu TU, endereço-lhe a palavra-princípio. Ele não é um simples ELE ou ELA limitado por outros ELES ou ELAS, um ponto inscrito na rede do universo de espaço e tempo. Ele não é uma qualidade, um modo de ser, experienciável, descritível, um feixe flácido de qualidades definidas. Ele é TU, sem limites, sem costuras, preenchendo todo o horizonte. Isto não significa que nada mais existe a não ser ele, mas que tudo o mais vive em sua luz. Assim como a melodia não se compõe de sons, nem os versos de vocábulos ou a estátua de linhas - a sua unidade só poderia ser reduzida a uma multiplicidade por um retalhamento ou um dilaceramento - assim também o homem a quem EU digo TU. Posso extrair a cor de seus cabelos, o matiz de suas palavras ou de sua bondade; devo fazer isso sem cessar, porém ele já não é mais meu TU. Assim como a prece não se situa no tempo mas o tempo na prece, e assim como a oferta não se localiza no espaço mas o espaço na oferta - e quem alterar essa relação suprimirá a atualidade, do mesmo modo o homem a quem digo TU não encontro em algum tempo ou lugar. EU posso situá-lo, sou, aliás, sou obrigado a fazê-lo constantemente, mas então, ele não é mais um TU e sim um ELE ou ELA, um ISSO. Enquanto o universo do TU se desdobra sobre minha cabeça, os ventos da causalidade prostram-se a meus calcanhares e o turbilhão da fatalidade se coagula. Eu não experiencio o homem a quem digo TU. EU entro em relação com ele no santuário da palavra-princípio. Somente quando saio da! posso experienciá-lo novamente. A experiência é distanciamento do TU. A relação pode perdurar mesmo quando o homem a quem digo TU não o percebe em sua experiência, pois o TU é mais do que aquilo de que o ISSO possa estar ciente. O TU é mais operante e acontece-lhe mais do que aquilo que o ISSO possa saber. Aí não há lugar para fraudes: aqui se encontra o berço da verdadeira vida. Eis a eterna origem da arte: uma forma defronta-se com o homem e anseia tornar-se uma obra por meio dele. Ela não é um produto de seu espírito, mas uma aparição que se lhe apresenta exigindo dele um poder eficaz. Trata-se de um ato essencial do homem: se ele a realiza, proferindo de todo o seu ser a palavra-princípio EU-TU à forma que lhe aparece, aí então brota a força eficaz e a obra surge. Esta ação engloba uma oferta e um risco. Uma oferta: a infinita possibilidade que será imolada no altar da forma. Tudo aquilo que ainda há pouco se mantinha em perspectiva deverá ser eliminado, pois, nada disso poderá penetrar na obra; assim exige a exclusividade própria do “face-a-face”. Um risco: a palavra-princípio não pode ser proferida senão pelo ser em sua totalidade, isto é, aquele que a ISSO se entrega não deve ocultar nada de si, pois a obra não tolera como a árvore ou o homem, que EU descanse entrando no mundo do ISSO. É ela que domina; se EU não a servir corretamente ela se desestrutura ou ela me desestrutura. Eu não posso experienciar ou descrever a forma que vem ao meu encontro; só posso atualizá-la. E, no entanto, EU a contemplo no brilho fulgurante do face-a-face, mais resplandecente que toda clareza do mundo empírico, não como uma coisa no meio de coisas inferiores ou como um produto de minha imaginação mas como o presente. Se for submetida ao critério da objetividade, a forma não está realmente “ai”; entretanto, o que é mais presente do que ela? Eu estou numa autêntica relação com ela; pois ela atua sobre mim assim como EU atuo sobre ela. Fazer é criar, inventar é encontrar. Dar forma é descobrir. Ao realizar EU descubro. EU conduzo a forma para o mundo do ISSO. A obra criada é uma coisa entre coisas, experienciável e descritível como uma soma de qualidades. Porém àquele que contempla com receptividade ela pode amiúde tornar-se presente em pessoa. [...]. Trecho extraído da obra Eu e Tu (Moraes, 1974), do filosofo, escritor e pedagogo israelita Martin Buber (1878-1965). Veja mais aqui e aqui.

INCLUSÃO ESCOLAR – [...] Embora possa assustar pelo grande número de mudanças e pelo teor de cada uma delas, a inclusão é, como muitos a apregoam, “um caminho sem volta”. Nunca é demais, contudo, reafirmar as condições em que essa inovação acontece, marcando, grifando na consciência dos educadores o seu valor, para que nossas escolas atendam à expectativa de seus alunos, do ensino infantil à universidade. A escola prepara o futuro e, de certo que, se as crianças aprenderem a valorizar e a conviver com as diferenças nas salas de aula, serão adultos bem diferentes de nós, que temos de nos empenhar tanto para entender e viver a experiência da inclusão! O movimento inclusivo, nas escolas, por mais que ainda seja muito contestado, pelo caráter ameaçador de toda e qualquer mudança, especialmente no meio educacional, convence a todos pela sua lógica e pela ética de seu posicionamento social. Ao denunciar o abismo existente entre o velho e o novo na instituição escolar brasileira, a inclusão é reveladora dos males que o conservadorismo escolar tem espalhado pela nossa infância e juventude estudantil. Penso que o futuro da escola inclusiva depende de uma expansão rápida dos projetos verdadeiramente imbuídos do compromisso de transformar a escola, para se adequar aos novos tempos. Se ainda hoje esses projetos se resumem a experiências locais, estas estão demonstrando a viabilidade da inclusão, em escolas e redes de ensino brasileiras, porque têm a força do óbvio e a clareza da simplicidade. A aparente fragilidade das pequenas iniciativas tem sido suficiente para enfrentar, com segurança e otimismo, o poder da velha e enferrujada máquina escolar. A inclusão é um sonho possível! Trecho do livro Inclusão escolar: O que é? Por quê? Como fazer? (Moderna, 2003), da Professora da Unicamp, Maria Teresa Eglér Mantoan. Veja mais sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PROJETO ACESSIBILIDADE DA BIBLIOTECA FENELON BARRETO - Participação na reunião do Projeto Acessibilidade/Inclusão da Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, no último dia 14/09/2017, com o diretor da Biblioteca, João Paulo Araújo, e as professoras Rute Costa da SEMED-Palmares & Silvana Neves – Coordenadora do Programa de Educação Inclusiva da SEMED-Palmares. Esta reunião é o resultado de uma outra ocorrida no último dia 31/08, resultando na esquematização de ações que propiciem o envolvimento de alunos com deficiência visual, auditiva e cadeirantes para visita à Biblioteca no sentido de levantar as dificuldades encontradas por esse público-alvo, bem como a realização de Seminário sobre Acessibilidade envolvendo órgãos públicos, escolas, associações de classe, autoridades, estudantes, familiares de pessoas com deficiência e sociedade em geral, além da realização da parceria com o IFPE para apresentação de filmes sobre o tema e a apresentação das normas da ABNT 9050 & 15599, que tratam sobre a acessibilidade em edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos e a comunicação na prestação de serviços, respectivamente. Veja mais aqui.

COLÉGIO DIMENSÃO NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Participação do Professor Jadson Alexandre com alunos do Colégio Dimensão nos eventos promovidos pela Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto. Veja mais aqui.

Veja mais:
Terra-Mãe aqui e aqui.
A música de Baden Powell de Aquino aqui.
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TU & EU DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Em não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
– que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.
Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobão
eu sou mais albiônico.
Tu,fão.
Eu, fônico.
És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.
Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.
És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu,cano.
Eu, clidiano.
Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo
.
Poema extraído da obra Poesia numa hora dessas? (Objetiva, 2002),
n do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui e aqui.



CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.

quarta-feira, agosto 03, 2016

MAX BENSE, HORKHEIMER, AFFONSO ROMANO, PIERRE BOULEZ, SEBASTIÃO SALGADO, BELLA GEIGER, DRAPER, PI-HSIEN CHEN & BOCCIONI


A VIDA E A LÓGICA DA COMPETIÇÃO - Um dia lá, o coração resolveu botar as manguinhas de fora e contrariou: - Sou o mais importante aqui! Um pulmão olhou pro outro e se perguntaram: - Qual é a desse cara, hem? O cérebro, de soslaio, foi logo em cima: - Qual é a tua, meu? O restante logo se virou pra prestar atenção no que estava acontecendo, começando um burburinho que foi tomando conta de tudo. – Qual é? -, perguntou o estômago, o que fez com que os demais, num verdadeiro eco, fizessem a mesma indagação. Um alvoroço. Inchado de soberba o coração reiterou: - Sou o mais importante aqui e fim de papo! Aí começou o maior puxa-encolhe. Caretas, muxoxos e cacoetes compuseram a cena. Na teima do é não é, a coisa foi tomando corpo de envolver todos numa celeuma só. Quando a coisa foi perdendo as estribeiras, tive que intervir no tumulto: - Ôpa! Vamos botar ordem na casa que o buraco é mais embaixo. Com os meus bregues renitentes, por fim, todos se aquietaram. – Voltem todos ao trabalho que quero dormir, preciso descansar. Assim, retomaram seus afazeres. Entretanto, foi aí que começaram, aos cochichos, as dispustas escondidas para apurar o mais importante entre todos. Cada qual se autoestimava o maior entre os demais. E começaram as apostas, primeiro com competições de quebra-de-braço. Não satisfeitos com essa peleja, aumentaram as pugnas e, no meio disso, o fair play foi pro beleléu: partiram pro ringue e daí foi só empurrões, tapas, pé na goela, puxavanques, chutes e, logo no primeiro round, todos abriram da vela. Refeitos, retomaram a contenda. Uma verdadeira guerra sem que nenhum saísse vencedor. Afinal, cada um dependia do outro para poder cumprir a sua função natural. Todos possuíam a devida importância e como não se entendiam nem chegaram a acordo algum, findou eu em coma numa maca hospitalar. Quando dei por mim, estava tudo normalizado ao cabo duns seis ou sete meses fora do ar. Mas lá e acolá ouvia um rumor: o leão é o rei da selva e aqui eu sou o leão. Cala boca, bestão, maior é um javali. Toma tento, gente, maior é o hipopótamo. E o papo rolava de quem que era o maior não era o melhor, e novo desentendimento surgiu, tendo eu que intervir novamente: - Ô meu, vocês querem me matar é? Por conta disso me convocaram para eleger qual o melhor entre eles. Diante da cobrança tive que dizer que cada um cumpria um papel relevante na minha vida e que, por isso, cada qual assumia a devida importância em todo meu organismo. Por essa razão não havia hierarquia de preferência e ninguém tinha maior importância que o outro, vez que todos funcionam de forma integrada, sistemática e solidária: um pelo outro e todos por mim. Claro que me levaram na conta da conversa fiada e não engoliram meu argumento. Resultado: fui dado baixa e eles todos, comigo, fomos pro arquivo morto. Nisso fiquei a matutar: será mesmo que a vida é só pra competir? Ou pode ser outra coisa bem maior c0nstruída pela colaboração, cooperação, comunhão? Se eu tenho o direito de viver, tenho o dever de deixar tudo o mais viver. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Notations & Piano Sonatas (Harmonia Mundi GmbH, 2005), do compositor, maestro, pedagogo musical e ensaísta francês Pierre Boulez (1925-2016), na interpretação da pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Veja mais aqui e  aqui.

PESQUISA:
[...] Para os homens que vivem sob a dominação totalitária do mal, não somente suas vidas como o proprio Eu dependem do acaso. As retratações significam hoje menos ainda do que na Renascença. A filosofia que pretende se acomodar em si mesma, repousando numa verdade qualquer, nada tem a ver, por conseguinte, com a teoria crítica.
Trecho extraído da obra Filosofia e teoria crítica (Giulio Einaudi, 2003), do filósofo e sociólogo alemão Max Horkheimer (1895-1973).

LEITURA
Amigos, nada mudou / em essência. / Os salários mal dão para os gastos, / as guerras não terminaram / e há vírus novos e terríveis, / embora o avanço da medicina. / Volta e meia um vizinho / tomba morto por questão de amor. / Há filmes interessantes, é verdade, / e como sempre, mulheres portentosas / nos seduzem com suas bocas e pernas, / mas em matéria de amor / não inventamos nenhuma posição nova. / Alguns cosmonautas ficam no espaço / seis meses ou mais, testando a engrenagem / e a solidão. / Em cada olimpíada há récordes previstos / e nos países, avanços e recuos sociais. / Mas nenhum pássaro mudou seu canto / com a modernidade. / Reencenamos as mesmas tragédias gregas, / relemos o Quixote, e a primavera / chega pontualmente cada ano. / Alguns hábitos, rios e florestas / se perderam. / Ninguém mais coloca cadeiras na calçada / ou toma a fresca da tarde, / mas temos máquinas velocíssimas / que nos dispensam de pensar. / Sobre o desaparecimento dos dinossauros / e a formação das galáxias / não avançamos nada. / Roupas vão e voltam com as modas. / Governos fortes caem, outros se levantam, / países se dividem / e as formigas e abelhas continuam / fiéis ao seu trabalho. / Nada mudou em essência. / Cantamos parabéns nas festas, / discutimos futebol na esquina / morremos em estúpidos desastres / e volta e meia / um de nós olha o céu quando estrelado / com o mesmo pasmo das cavernas. / E cada geração , insolente, / continua a achar / que vive no ápice da história.
Carta aos mortos, do poeta Affonso Romano de Sant’Anna. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Diz-se que os cupins trabalham apenas em sociedade; os homens, como se sabe, pensam sozinhos. Todas as condições existenciais do homem são condições de sua individuação.  Contudo e exatamente por meio disso elas possibilitam a generalização do mundo inteligível. Quando escrevo, penso em todos.
Trecho extraído da obra Inteligência brasileira: uma reflexão cartesiana (Cosac Naify 2009), do filósofo, escritor e ensaísta alemão Max Bense (1910-1990).

IMAGEM DO DIA
Foto da série Gênesis (2011), do fotógrafo Sebastião Salgado.

Veja mais sobre Italo Calvino, Susan Musgrave, Jean Dubuffet, Carlos Careqa, Melisso de Samos, Roman Ingarden, King Vidor, Dolores del Río & Fenelon Barreto aqui.

DESTAQUE: 
História do Brasil (1975), da artista plástica, escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista intermídia e professora Anna Bella Geiger. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Aurora – study for the gates of dawn, do artista plástico do Classicismo inglês Herbert James Draper (1963-1920).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
La risata (The Laugh, 1911), do pintor e escultor do Futurismo italiano Umberto Boccioni.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...