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quarta-feira, agosto 03, 2016

MAX BENSE, HORKHEIMER, AFFONSO ROMANO, PIERRE BOULEZ, SEBASTIÃO SALGADO, BELLA GEIGER, DRAPER, PI-HSIEN CHEN & BOCCIONI


A VIDA E A LÓGICA DA COMPETIÇÃO - Um dia lá, o coração resolveu botar as manguinhas de fora e contrariou: - Sou o mais importante aqui! Um pulmão olhou pro outro e se perguntaram: - Qual é a desse cara, hem? O cérebro, de soslaio, foi logo em cima: - Qual é a tua, meu? O restante logo se virou pra prestar atenção no que estava acontecendo, começando um burburinho que foi tomando conta de tudo. – Qual é? -, perguntou o estômago, o que fez com que os demais, num verdadeiro eco, fizessem a mesma indagação. Um alvoroço. Inchado de soberba o coração reiterou: - Sou o mais importante aqui e fim de papo! Aí começou o maior puxa-encolhe. Caretas, muxoxos e cacoetes compuseram a cena. Na teima do é não é, a coisa foi tomando corpo de envolver todos numa celeuma só. Quando a coisa foi perdendo as estribeiras, tive que intervir no tumulto: - Ôpa! Vamos botar ordem na casa que o buraco é mais embaixo. Com os meus bregues renitentes, por fim, todos se aquietaram. – Voltem todos ao trabalho que quero dormir, preciso descansar. Assim, retomaram seus afazeres. Entretanto, foi aí que começaram, aos cochichos, as dispustas escondidas para apurar o mais importante entre todos. Cada qual se autoestimava o maior entre os demais. E começaram as apostas, primeiro com competições de quebra-de-braço. Não satisfeitos com essa peleja, aumentaram as pugnas e, no meio disso, o fair play foi pro beleléu: partiram pro ringue e daí foi só empurrões, tapas, pé na goela, puxavanques, chutes e, logo no primeiro round, todos abriram da vela. Refeitos, retomaram a contenda. Uma verdadeira guerra sem que nenhum saísse vencedor. Afinal, cada um dependia do outro para poder cumprir a sua função natural. Todos possuíam a devida importância e como não se entendiam nem chegaram a acordo algum, findou eu em coma numa maca hospitalar. Quando dei por mim, estava tudo normalizado ao cabo duns seis ou sete meses fora do ar. Mas lá e acolá ouvia um rumor: o leão é o rei da selva e aqui eu sou o leão. Cala boca, bestão, maior é um javali. Toma tento, gente, maior é o hipopótamo. E o papo rolava de quem que era o maior não era o melhor, e novo desentendimento surgiu, tendo eu que intervir novamente: - Ô meu, vocês querem me matar é? Por conta disso me convocaram para eleger qual o melhor entre eles. Diante da cobrança tive que dizer que cada um cumpria um papel relevante na minha vida e que, por isso, cada qual assumia a devida importância em todo meu organismo. Por essa razão não havia hierarquia de preferência e ninguém tinha maior importância que o outro, vez que todos funcionam de forma integrada, sistemática e solidária: um pelo outro e todos por mim. Claro que me levaram na conta da conversa fiada e não engoliram meu argumento. Resultado: fui dado baixa e eles todos, comigo, fomos pro arquivo morto. Nisso fiquei a matutar: será mesmo que a vida é só pra competir? Ou pode ser outra coisa bem maior c0nstruída pela colaboração, cooperação, comunhão? Se eu tenho o direito de viver, tenho o dever de deixar tudo o mais viver. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Notations & Piano Sonatas (Harmonia Mundi GmbH, 2005), do compositor, maestro, pedagogo musical e ensaísta francês Pierre Boulez (1925-2016), na interpretação da pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Veja mais aqui e  aqui.

PESQUISA:
[...] Para os homens que vivem sob a dominação totalitária do mal, não somente suas vidas como o proprio Eu dependem do acaso. As retratações significam hoje menos ainda do que na Renascença. A filosofia que pretende se acomodar em si mesma, repousando numa verdade qualquer, nada tem a ver, por conseguinte, com a teoria crítica.
Trecho extraído da obra Filosofia e teoria crítica (Giulio Einaudi, 2003), do filósofo e sociólogo alemão Max Horkheimer (1895-1973).

LEITURA
Amigos, nada mudou / em essência. / Os salários mal dão para os gastos, / as guerras não terminaram / e há vírus novos e terríveis, / embora o avanço da medicina. / Volta e meia um vizinho / tomba morto por questão de amor. / Há filmes interessantes, é verdade, / e como sempre, mulheres portentosas / nos seduzem com suas bocas e pernas, / mas em matéria de amor / não inventamos nenhuma posição nova. / Alguns cosmonautas ficam no espaço / seis meses ou mais, testando a engrenagem / e a solidão. / Em cada olimpíada há récordes previstos / e nos países, avanços e recuos sociais. / Mas nenhum pássaro mudou seu canto / com a modernidade. / Reencenamos as mesmas tragédias gregas, / relemos o Quixote, e a primavera / chega pontualmente cada ano. / Alguns hábitos, rios e florestas / se perderam. / Ninguém mais coloca cadeiras na calçada / ou toma a fresca da tarde, / mas temos máquinas velocíssimas / que nos dispensam de pensar. / Sobre o desaparecimento dos dinossauros / e a formação das galáxias / não avançamos nada. / Roupas vão e voltam com as modas. / Governos fortes caem, outros se levantam, / países se dividem / e as formigas e abelhas continuam / fiéis ao seu trabalho. / Nada mudou em essência. / Cantamos parabéns nas festas, / discutimos futebol na esquina / morremos em estúpidos desastres / e volta e meia / um de nós olha o céu quando estrelado / com o mesmo pasmo das cavernas. / E cada geração , insolente, / continua a achar / que vive no ápice da história.
Carta aos mortos, do poeta Affonso Romano de Sant’Anna. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Diz-se que os cupins trabalham apenas em sociedade; os homens, como se sabe, pensam sozinhos. Todas as condições existenciais do homem são condições de sua individuação.  Contudo e exatamente por meio disso elas possibilitam a generalização do mundo inteligível. Quando escrevo, penso em todos.
Trecho extraído da obra Inteligência brasileira: uma reflexão cartesiana (Cosac Naify 2009), do filósofo, escritor e ensaísta alemão Max Bense (1910-1990).

IMAGEM DO DIA
Foto da série Gênesis (2011), do fotógrafo Sebastião Salgado.

Veja mais sobre Italo Calvino, Susan Musgrave, Jean Dubuffet, Carlos Careqa, Melisso de Samos, Roman Ingarden, King Vidor, Dolores del Río & Fenelon Barreto aqui.

DESTAQUE: 
História do Brasil (1975), da artista plástica, escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista intermídia e professora Anna Bella Geiger. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Aurora – study for the gates of dawn, do artista plástico do Classicismo inglês Herbert James Draper (1963-1920).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
La risata (The Laugh, 1911), do pintor e escultor do Futurismo italiano Umberto Boccioni.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



quarta-feira, junho 01, 2016

WALTER BENJAMIN, SAMICO, ANDREA DOS GUIMARÃES, ALEXEI BUENO, BELLA GEIGER, CARNA, LINGUÍSTICA & MATÉRIA INCÓGNITA


QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA (Imagem recolhida do Matéria Incógnita)– A primeira impressão é a que fica. Isso se a pessoa anda ligada nas coisas, espiando pra tudo. No caso do Zé Bilola não é bem assim, principalmente depois que o asno caiu nas graças de meia dúzia de pariceiros da laia dele, dando uma corda da gota pra logo o inepto se atarantar, de modo a andar de se gabar todo cheio das pacutias, já se tratando por eleito à vereança. Tão pabo de si que nem sacou das astúcias do Zé Peiúdo montando das boas pra cima dele, na maior engalobação. Pois, foi. Num é que o ardiloso tascou de golpe vezeiro pra cima do apalermado? Oxe, o negócio foi tão bem feito que o broco nem fé disso deu até hoje. Foi assim. Com a angariada de simpatia do povaréu pra cima do pacóvio, já que o Peiúdo não gozava de boa reputação com ninguém da freguesia depois das sacanagens pra cima do Zé Corninho – todos já davam conta dos maus bofes dele -, o maldizente achou de encher a bola de outro bocó com promessas de mundos e fundos na mais exitosa sociedade. Vendendo gato por lebre, o cavernoso encheu a cabeça e as ouças do toleirão com uma jogada das mais vantajosas transações, quando não passava de engodo dos brabos pra tirar proveito inescrupuloso, colocando-o como testa de ferro na empreitada. Passou a maior lábia e ensinou tintim por tintim pra ele dar numa promessa ruidosa de uma coisa impossível garantida por certeira pelo sacana. Assim o abestalhado caiu no papo e foi alugar a paciência dos eleitores com tal empreitada. Como se tratava de boa praça, logo a turma toda acreditou em tudo apalavrado. Estava armado o circo. E logo um monte de gente candidatou-se à compra dos terrenos num tal do lugar determinado, de ninguém nem sequer querer saber onde é que droga que ficava a coisa. No dia aprazado a fila de gente já se fazia estrepitosa para acertar os primeiros pagamentos da maior valsa, de forma que o Peiúdo providenciou planta baixa do loteamento de araque, explicando os mínimos detalhes pro parvo desenrolar tudo com os comparecentes, enquanto ele ficava às escondidas dizendo mesmo que ajeitava os trabalhadores para entregar tudo no certinho. No final do dia, o tonto estava com uma bolada de dinheiro da primeira parcela e com quase todas as ofertas praticamente fechadas. Foi ter com o sócio, mostrou tudo na prestação de conta e o sabido rachou na base de 80 por 20, guardando a maior parte no alforje dele e dando a menor parte pro besta do parceiro que abriu os olhos de quase saltarem fora de tão admirado. Nunca tivera nas mãos tanto dinheiro, agradeceu e saiu feliz da vida pra casa. – Esse Peiúdo é um cabra dos bons. Quando Ximênia soube disso, botou as mãos no quarto e asseverou na base da mão de pilão agitada nas fuças e pronta pra tascá-la no tantã: - Isso num tá certo, esse hômi num vale doistõi! Bilola agoniou-se, fez careta, pantim, virou-se como pôde e a mulher lá, irredutível e balançando a perna na espera de uma resolução ali na hora. Passou um dia, uma semana e um mês depois lá estava o povo todo na fila pra cumprir a segunda parcela. Tudo ajeitado na base do acertado e lá se vai Bilola feliz da vida, mas escondendo da mulher o sucedido. – Oxe, mulé como a minha, melhor sem saber de nadica de nada. Assim foi o terceiro, o quarto e quando chegou o quinto mês, era hora de apresentar o loteamento pra todos e ele deu por certo que na semana seguinte levava todos pra ver, conforme ficou definido no trato com Peiúdo. Eis que chega a semana seguinte e nem sinal do comparsa. Bilola coçou a cabeça e bateu os quatro cantos do mundo atrás do sócio. Nenhum sinal dele, pista alguma. Paradeiro que era bom, nada. Foi aí que um por um dos aquirentes começou a encher a paciência do Bilola em saber quando seria o dia da apresentação dos terrenos. Veio outra e mais outra semana e nada de Peiúdo aparecer, a coisa se avolumando, gente dando parte na polícia, noticiário com conto do vigário no ar, até a convocação do Promotor de Justiça e lá se foi Bilola dar mais explicações. Quando ele abre o jogo, todos perguntam: - Quem? E ele: - Zé Peiúdo. Foi aí que tudo fedeu. Como todo mundo já estava vacinado das aprontações dele e logo deram na conta que o Bilola foi a vítima do momento do desinfeliz, botaram o coitado na roda e tome esculacho. E agora? Como é que faz, como é que fica? Tinha de devolver o investimento feito por todos. E ele não tinha um tostão de nada no pé da algibeira. Se vira, macho, ou pega o pau-de-arara pra nunca mais dar as caras por ali. Foi nessa hora que caiu a ficha e ele viu que o negócio da China havia gorado e que, por tabela, enterrou seu sonho de ser vereador. – Bem feito -, sapecava ranzinza a gasguita da mulher. Por conta disso, passou o resto da vida vendendo brebote e o que não tinha para saldar a dívida que nunca acabou de quitar e até hoje está desmoralizado, fodido e mal pago, levando grito e cuspe na cara, afora as paneladas boas no quengo que a Ximênia não deixa por menos com um certeiro desabafo: - Num disse, traste! E como o amor que fica é aquele, era uma vez pra nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

  Imagem: arte do pintor, desenhista e gravurista Gilvan Samico (1928-2013). Veja mais aqui e aqui.

 Curtindo o álbum Desvelo (Independente, 2015), da cantora, pianista, compositora e arranjadora Andrea dos Guimarães.

PESQUISA
Linguística e estilo (Cultrix/EdUsp, 1974), de Nils Erik Enkvist, Joohn Spencer e Michael J. Gregory, abordando sobre a definição de estilo e um enfoque ao seu estudo. Veja mais aqui.

LEITURA 
Antologia pornográfica: de Gregorio de Matos a Glauco Mattoso (Nova Fronteira, 2004), organizada pelo poeta, editor e tradutor Alexei Bueno, reunindo 19 poetas de língua portuguesa, entre eles Manuel Bandeira, Laurindo Rabelo, José Limeira, Caetano josé da Silva Souto-Maior, Antônio Lobo de Carvalho.

PENSAMENTO DO DIA:
Só conseguimos penetrar no mistério na medida em que o reencontramos no cotidiano, graças a uma ótica dialética que reconhece o cotidiano como impenetrável e o impenetrável como cotidiano. Por exemplo, a a mais apaixonada pesquisa dos fenômenos telepáticos não lançará tanta luz sobre o fenômeno da leitura (que é um processo eminentemente telepático), nem sequer a metade daquilo que a iluminação profana da leitura ensina a proposito dos fenômenos telepáticos [...] a mais apaixonada investigação do fum do haxixe não ensinará a respeito do pensamento (que um narcótico por excelência) nem sequer a metade do que a iluminação profana do pensar ensina sobre o fumo do haxixe. O leitor, o pensador, aquele que está à espera, o flâneur são tipos de iluminados como o consumidor de ópio, o sonhador, o extático. E tipos mais profanos. Para calar aquela droga mais terrível – nós mesmos – que tomamos na solidão.
Trecho de O autor como produtor (A modernidade – obras escolhidas, Assírio & Alvim, 2006), do filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Capa do livro Wunderblogs.com (Barracuda, 2004), reunindo posts de 11 autores blogueiros escritores.

Veja mais sobre Edgar Morin, Murilo Rubião, Jean Genet, Rainer Werner Fassbinder, Thomas Gainsborough, Alanis Morissete, Fernando Fiorese, Hanna Schygulla & Marilyn Monroe aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Hoje é dia da ninfa Carna – deusa Cardea ou Carma -, aquela que preside o coração e outros órgãos na mitologia romana. Ela habitava às margens do rio Tibre, protegendo os recém-nascidos contra os vampiros, e por quem Janus caiu de amor e deu-lhe o poder sobre os punhos e dobradiças das portas.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Imagem: Obra Orbis Descriptio, da série Fronteiriços (1995), da artista plástica, escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista intermídia e professora Anna Bella Geiger .
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...