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quarta-feira, junho 01, 2016

WALTER BENJAMIN, SAMICO, ANDREA DOS GUIMARÃES, ALEXEI BUENO, BELLA GEIGER, CARNA, LINGUÍSTICA & MATÉRIA INCÓGNITA


QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA (Imagem recolhida do Matéria Incógnita)– A primeira impressão é a que fica. Isso se a pessoa anda ligada nas coisas, espiando pra tudo. No caso do Zé Bilola não é bem assim, principalmente depois que o asno caiu nas graças de meia dúzia de pariceiros da laia dele, dando uma corda da gota pra logo o inepto se atarantar, de modo a andar de se gabar todo cheio das pacutias, já se tratando por eleito à vereança. Tão pabo de si que nem sacou das astúcias do Zé Peiúdo montando das boas pra cima dele, na maior engalobação. Pois, foi. Num é que o ardiloso tascou de golpe vezeiro pra cima do apalermado? Oxe, o negócio foi tão bem feito que o broco nem fé disso deu até hoje. Foi assim. Com a angariada de simpatia do povaréu pra cima do pacóvio, já que o Peiúdo não gozava de boa reputação com ninguém da freguesia depois das sacanagens pra cima do Zé Corninho – todos já davam conta dos maus bofes dele -, o maldizente achou de encher a bola de outro bocó com promessas de mundos e fundos na mais exitosa sociedade. Vendendo gato por lebre, o cavernoso encheu a cabeça e as ouças do toleirão com uma jogada das mais vantajosas transações, quando não passava de engodo dos brabos pra tirar proveito inescrupuloso, colocando-o como testa de ferro na empreitada. Passou a maior lábia e ensinou tintim por tintim pra ele dar numa promessa ruidosa de uma coisa impossível garantida por certeira pelo sacana. Assim o abestalhado caiu no papo e foi alugar a paciência dos eleitores com tal empreitada. Como se tratava de boa praça, logo a turma toda acreditou em tudo apalavrado. Estava armado o circo. E logo um monte de gente candidatou-se à compra dos terrenos num tal do lugar determinado, de ninguém nem sequer querer saber onde é que droga que ficava a coisa. No dia aprazado a fila de gente já se fazia estrepitosa para acertar os primeiros pagamentos da maior valsa, de forma que o Peiúdo providenciou planta baixa do loteamento de araque, explicando os mínimos detalhes pro parvo desenrolar tudo com os comparecentes, enquanto ele ficava às escondidas dizendo mesmo que ajeitava os trabalhadores para entregar tudo no certinho. No final do dia, o tonto estava com uma bolada de dinheiro da primeira parcela e com quase todas as ofertas praticamente fechadas. Foi ter com o sócio, mostrou tudo na prestação de conta e o sabido rachou na base de 80 por 20, guardando a maior parte no alforje dele e dando a menor parte pro besta do parceiro que abriu os olhos de quase saltarem fora de tão admirado. Nunca tivera nas mãos tanto dinheiro, agradeceu e saiu feliz da vida pra casa. – Esse Peiúdo é um cabra dos bons. Quando Ximênia soube disso, botou as mãos no quarto e asseverou na base da mão de pilão agitada nas fuças e pronta pra tascá-la no tantã: - Isso num tá certo, esse hômi num vale doistõi! Bilola agoniou-se, fez careta, pantim, virou-se como pôde e a mulher lá, irredutível e balançando a perna na espera de uma resolução ali na hora. Passou um dia, uma semana e um mês depois lá estava o povo todo na fila pra cumprir a segunda parcela. Tudo ajeitado na base do acertado e lá se vai Bilola feliz da vida, mas escondendo da mulher o sucedido. – Oxe, mulé como a minha, melhor sem saber de nadica de nada. Assim foi o terceiro, o quarto e quando chegou o quinto mês, era hora de apresentar o loteamento pra todos e ele deu por certo que na semana seguinte levava todos pra ver, conforme ficou definido no trato com Peiúdo. Eis que chega a semana seguinte e nem sinal do comparsa. Bilola coçou a cabeça e bateu os quatro cantos do mundo atrás do sócio. Nenhum sinal dele, pista alguma. Paradeiro que era bom, nada. Foi aí que um por um dos aquirentes começou a encher a paciência do Bilola em saber quando seria o dia da apresentação dos terrenos. Veio outra e mais outra semana e nada de Peiúdo aparecer, a coisa se avolumando, gente dando parte na polícia, noticiário com conto do vigário no ar, até a convocação do Promotor de Justiça e lá se foi Bilola dar mais explicações. Quando ele abre o jogo, todos perguntam: - Quem? E ele: - Zé Peiúdo. Foi aí que tudo fedeu. Como todo mundo já estava vacinado das aprontações dele e logo deram na conta que o Bilola foi a vítima do momento do desinfeliz, botaram o coitado na roda e tome esculacho. E agora? Como é que faz, como é que fica? Tinha de devolver o investimento feito por todos. E ele não tinha um tostão de nada no pé da algibeira. Se vira, macho, ou pega o pau-de-arara pra nunca mais dar as caras por ali. Foi nessa hora que caiu a ficha e ele viu que o negócio da China havia gorado e que, por tabela, enterrou seu sonho de ser vereador. – Bem feito -, sapecava ranzinza a gasguita da mulher. Por conta disso, passou o resto da vida vendendo brebote e o que não tinha para saldar a dívida que nunca acabou de quitar e até hoje está desmoralizado, fodido e mal pago, levando grito e cuspe na cara, afora as paneladas boas no quengo que a Ximênia não deixa por menos com um certeiro desabafo: - Num disse, traste! E como o amor que fica é aquele, era uma vez pra nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

  Imagem: arte do pintor, desenhista e gravurista Gilvan Samico (1928-2013). Veja mais aqui e aqui.

 Curtindo o álbum Desvelo (Independente, 2015), da cantora, pianista, compositora e arranjadora Andrea dos Guimarães.

PESQUISA
Linguística e estilo (Cultrix/EdUsp, 1974), de Nils Erik Enkvist, Joohn Spencer e Michael J. Gregory, abordando sobre a definição de estilo e um enfoque ao seu estudo. Veja mais aqui.

LEITURA 
Antologia pornográfica: de Gregorio de Matos a Glauco Mattoso (Nova Fronteira, 2004), organizada pelo poeta, editor e tradutor Alexei Bueno, reunindo 19 poetas de língua portuguesa, entre eles Manuel Bandeira, Laurindo Rabelo, José Limeira, Caetano josé da Silva Souto-Maior, Antônio Lobo de Carvalho.

PENSAMENTO DO DIA:
Só conseguimos penetrar no mistério na medida em que o reencontramos no cotidiano, graças a uma ótica dialética que reconhece o cotidiano como impenetrável e o impenetrável como cotidiano. Por exemplo, a a mais apaixonada pesquisa dos fenômenos telepáticos não lançará tanta luz sobre o fenômeno da leitura (que é um processo eminentemente telepático), nem sequer a metade daquilo que a iluminação profana da leitura ensina a proposito dos fenômenos telepáticos [...] a mais apaixonada investigação do fum do haxixe não ensinará a respeito do pensamento (que um narcótico por excelência) nem sequer a metade do que a iluminação profana do pensar ensina sobre o fumo do haxixe. O leitor, o pensador, aquele que está à espera, o flâneur são tipos de iluminados como o consumidor de ópio, o sonhador, o extático. E tipos mais profanos. Para calar aquela droga mais terrível – nós mesmos – que tomamos na solidão.
Trecho de O autor como produtor (A modernidade – obras escolhidas, Assírio & Alvim, 2006), do filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Capa do livro Wunderblogs.com (Barracuda, 2004), reunindo posts de 11 autores blogueiros escritores.

Veja mais sobre Edgar Morin, Murilo Rubião, Jean Genet, Rainer Werner Fassbinder, Thomas Gainsborough, Alanis Morissete, Fernando Fiorese, Hanna Schygulla & Marilyn Monroe aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Hoje é dia da ninfa Carna – deusa Cardea ou Carma -, aquela que preside o coração e outros órgãos na mitologia romana. Ela habitava às margens do rio Tibre, protegendo os recém-nascidos contra os vampiros, e por quem Janus caiu de amor e deu-lhe o poder sobre os punhos e dobradiças das portas.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Imagem: Obra Orbis Descriptio, da série Fronteiriços (1995), da artista plástica, escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista intermídia e professora Anna Bella Geiger .
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

terça-feira, abril 24, 2012

VINICIUS, ALASDAIR GRAY, BALTASAR GRACIÁN, DELEUZE & GINOFAGIA


Imagem: Perspectiva 2 - Wicked Nurse of the West (nude painting of woman), da pintora estadunidense Victoria Selbach.

 

GINOFAGIA: QUATRO POEMETOS EM PROSA DE PAIXÃO POR ELA

 

AMBIÇÃO - O relógio. O beijo e seu contágio: o desejo. Revejo ontens, prevejo manhãs, dias. Toda orgia, teréns, Teerãs. Corpos expostos. Somos nós sem rostos, sem pudor. Valendo o amor dos inominados, endemoninhados nos ventres alados, insaciáveis. E que se entregam amáveis, felizes com seus atos condenáveis feito meretrizes com seus machos, no meio de trizes e esculachos mútuos, sem tudo a ver, revolutos, provocando circuitos por puro prazer de transgredir os limites, como reais pedintes em ação, com toda transgressão sexual, toda felação no plural, toda danação, toda ambição canibal tecendo o querer pra ser muito mais que barato de estupefato animal de estimação com meu pássaro na mão e ela voando à vela, eu viajando nela qual furacão que devasta sua compleição para nos satisfazer na paixão.

FEBRE - Em tua carne febril de manhãs amorosas a libertação do poema pelo canto que ensaio presente em meu querer despudorado e que se multiplica e nos multiplicamos na minha canção visitante civil e indômita na tua agasalhadora sedução que me faz canção no teu ouvido e a minha volúpia danada não cabe entre teus seios de setembro ensolarado porque a primavera é viva demais no meu inquieto sexo que quer lambuzar com meus poemas atiçadores a tua pele corpo e alma azul inventando a vida para provar de todo o pomar que é a tua inteira carne como a noite e renascida como o dia até tê-la desalinhada e crua, ai meu deus do céu, com teu césio 137 na velocidade 5 dançando nua no meu créu.

INCÊNDIO DA PAIXÃO - Ela deu-me o seu corpo em brasa para incendiar os meus desejos indômitos. Ela deu-me a sua alma em chamas para incinerar minhas loucuras concupiscentes. Ela assim me veio como quem entrega a sua vida ao carrasco. E pronta para ser usada, seviciada, ultrajada, vilipendiada, até ver-se exaurida de todas as satisfações, ainda deu-me a boca sedenta de todas as sedes seculares. E ainda deu-me o ventre faminto de todo o cio acumulado. E ainda deu-me o gozo de todas as vontades satisfeitas. E assim viramos um do outro em si para sempre acasalados no incêndio das paixões.

CONSOLO - Quando ela me encara, linda, bela, deusa seminua, sussurra mansinho: sou tua! Tudo é festa no meu coração. É pra lá de bão. É quando ela me faz seu consolo, seu predileto bolo, seu saboroso pirão. Aí eu solto rojão pra que ela se molhe linda Lara Flynn Boyle só sedução. Maior perdição, sou só bola ao cesto com todos os poderes de Grayscow da minha possessão. Ela é minha salvação, a pedra de Esmeralda na verdadeira estrada da comunhão. Ela é minha oração, a pedra filosofal. A virgem vestal da minha celebração. E é meu verão, minhas poesias, meus versos, ela Marie Curie, eu Paracelsus, no fervor da paixão. Minha maior oração na nossa fantasia além da alquimia, além de Plutão, além do que tudo então o nosso convênio na paz dos essênios, no amor eterno temporão. Veja mais aqui, aqui e aqui.
 


DITOS & DESDITOS: [...] Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? E necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. E só deste modo que somos determinados a escrever. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois ou, antes, torná-la impossível. [...] Trecho extraído da obra Diferença e Repetição (Graal, 1988) do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Você sofre da ilusão mais antiga da política. Você acha que pode mudar o mundo conversando com um líder. Os líderes são os efeitos, não as causas das mudanças. Pensamento do escritor e artista britânico Alasdair Gray (1934-2019), autor da obra Lanark: A Life in Four Books (Harper, 19082), combinando representações surreais e distópicas de Glasgow. Veja mais aqui.

 

A ARTE DA PRUDÊNCIA – [...] Crê muito quem nunca mente e confia muito quem nunca engana. [...] É bom tornar-se conhecido por agradar aos outros. Especialmente se são seus subalternos. É útil aos líderes obter as boas graças de todos. A única vantagem do poder: poder fazer o bem mais do que qualquer outro. [...] Sábio é aquele que fica descontente quando suas coisas agradam a muitos! [...] O que é excesso para uns é fome para outros. Alguns desperdiçam alimentos finos porque não têm como digeri-los: Não nasceram para ocupações elevadas e não estão acostumados a elas. [...] O coração de uma mãe é um abismo profundo em que no fundo sempre se encontra o perdão. [...]. Trechos extraídos da obra Oráculo manual y arte de prudencia (Sextante, 2006), do escritor espanhol Baltasar Gracián y Morales (1601-1658), reunindo cerca de trezentos aforismos comentados, e oferece um conjunto de normas e orientações para obter triunfo em uma sociedade complexa e em crise, como era a do Barroco, contemporânea do autor. Veja mais aqui.

 

O HAVER - Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura / Essa intimidade perfeita com o silêncio / Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo / - Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido... / Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo / Essa mão que tateia antes de ter, esse medo / De ferir tocando, essa forte mão de homem / Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. / Resta essa imobilidade, essa economia de gestos / Essa inércia cada vez maior diante do Infinito / Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível / Essa irredutível recusa à poesia não vivida. / Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento / Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade / Do tempo, essa lenta decomposição poética / Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. / Resta esse coração queimando como um círio / Numa catedral em ruínas, essa tristeza / Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria / Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história... / Resta essa vontade de chorar diante da beleza / Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido / Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa / Piedade de si mesmo e de sua força inútil. / Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado / De pequenos absurdos, essa capacidade / De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil / E essa coragem para comprometer-se sem necessidade. / Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza / De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser / E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa / Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje. / Resta essa faculdade incoercível de sonhar / De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade / De aceitá-la tal como é, e essa visão / Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante / E desnecessária presciência, e essa memória anterior / De mundos inexistentes, e esse heroísmo / Estático, e essa pequenina luz indecifrável / A que às vezes os poetas dão o nome de esperança. / Resta esse desejo de sentir-se igual a todos / De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória / Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade / De não querer ser príncipe senão do seu reino. / Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade / Pelo momento a vir, quando, apressada / Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante / Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada... / Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo / Infantil de ter pequenas coragens. Poema do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980). Veja mais aqui e aqui.

 


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Ísis Nefelibata.
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