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sábado, novembro 19, 2016

REPENTE DA MULHER, FRANCISCO MILANI & GILVAN SAMICO


O MELHOR DO DIA DO HOMEM É SABER QUE TODO DIA É DIA DA MULHER - Para glosar mote certeiro, vou sair já de peão: jogando no tabuleiro, geme o rico, o moço e o velho, gemem sem ter paradeiro. E o miserável do pobre, ai! Ui! Ui! Ui! Esse geme o tempo inteiro. Depois dessa gemederia, outro peão é jogado: e o pecado do perdão, volto o perdão no pecado. Isso é que é mourão voltado, isso é que é voltar mourão. Outro e mais outro mourão, vou arrumando ali a sela, amonto probo o alazão, vai ligeira, vai parcela, findo nos oito pés de quadrão: quando eu disser que é meia quadra, diga que é quadra e meia, quando eu disser quadra e meia, você diz que é meio quadrão. Outro peão no tabuleiro, outra casa vou pular: um galope à beira mar faz cantar o violeiro a maior das cantorias: se eu deixar de cantar, morro de fome, que a cantiga é meu pão de cada dia. Se avie outro peão, o quarto pro tirinete: vai martelo na função, embolada ou gabinete. Outro ginete soberano, sacado pra essa função, com rojão pernambucano ou dez de adivinhação. Um quinto peão no lembrete, cantador de goteira sem vintém: quem não canta gabinete, não é cantor pra ninguém. Solta um bispo na lapada, taboada miúda no jejum: quinze, treze, onze, nove, sete, cinco, três e um. Bota mais peão na trilha, solta a toada no festim: apruma direito a carretilha que quebra cabeça é assim. Não arme a sua rede, nem abra para um trem, puxe a rima no balaio e a torre na parede que tem: cantar um pé quebrado, não é bom para ninguém, se for, vá envergonhado, que aqui vou mais além! O último peão na jogada que não sou nenhum freguês: vamos ver se você canta nove palavras por três! Um bispo aprumando certo pra viola não emborcar: ai, d-a, dá! O que é que vai, não chega, nunca acaba de chegar? Com a torre dá um blefe, festa já de campeão: Jesuino já morreu, acabou-se o valentão, morreu no campo da honra sem se entregar à prisão! Não amanso a viola, a rainha é da vez: Já ensinei aos meus cabras a comer de mês em mês, beber água por semestre, dormir no ano uma vez, atirar em um soldador e derrubar dezesseis! Se o trabalho está feito no fandango ou marujada, o rei não pode esperar, o xeque mate na parada! E nessa vida moribunda, uma coisa faz alarde: é mais fácil chegar segunda, do que findar sexta essa tarde! É que toda sexta de tarde, a vida então entronca: é quando aparece um traste com o pior de toda bronca! De Leandro a lição, de Patativa o traçado, dos Batistas a louvação, de Oliveira o marcado, de Bentevi a porteira, findei cantador de goteira, poeta d’água doce lascado! E se hoje é Dia do Cordelista, é dia de festa pra minha homenagem! Ainda mais é o Dia Mundial do Xadrez e da Bandeira do Brasil, o estandarte da nossa Nação. Também é Dia Mundial da Prevenção a Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes: tá na hora da gente aprumar essa conversa, caboré! Mas só de uma coisa eu tenho a certeza: que o melhor do Dia Internacional do Homem é saber que todo dia é Dia da Mulher! © Luiz Alberto Machado.. Veja mais aqui e aqui.


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Vamos aprumar a conversa, Ariano Suassuna, Elomar Figueira de Mello & Camerata Kaleidoscópio, Luís da Câmara Cascudo, Leandro Gomes de Barros, Cantadores de Leonardo Mota, Lauro Palhano, Sylvie Debs, Mariana Pabst Martins & Ciro Fernandes aqui.

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A teoria política do individualismo possessivo de Hobbes a Locke aqui.
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A qualidade na gestão escolar aqui.
Inclusão social pelo trabalho, Pitágoras, José Louzeiro, Samir Yazbek, Jacques Rivette, Xue Yanqun, Ednalva Tavares, Lisa Lyon, Música Folclórica Pernambucana & A imprensa na atualidade aqui.
Literatura de Cordel: Quadrilha junina, de Francisco Diniz aqui.
Literatura de Cordel: Sidrião e Maristela ou A goiaba da discórdia, de José Honório aqui.
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DESTAQUE: FRANCISCO MILANI 
No final dos anos 1980, tive a grata satisfação de recepcionar e entrevistar o ator, humorista, dublador e político Francisco Milani (1936-2005), na minha terra natal. Na ocasião, pude, ao lado do amigo Carlão Henrique, apresentar pra ele as belezas, a literatura e as artes do povo da terrinha, até tomar umas cervejas no saudoso bar do Rosalvo, na Cohab-I. Por conta da entrevista, pude saber que ele iniciou a carreira atendendo convite do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, quando começou a trabalhar no Centro Popular de Cultura (CPC), na União Nacional dos Estudantes (UNE). Perseguido pela ditadura militar, interrompeu sua carreira e se tornou caminhoneiro, até retornar à arte anos depois. Ele participou de filmes como Terra em Transe (1967), entre outros, até participar dos programas televisivos Armação Ilimitada, Viva o Gordo de Jô Soares, Chico Anysio Show, Zorra Total, A Grande Família, Casseta & Planeta e Escolinha do Professor Raimundo. A saudade traz essa homenagem.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: xilogravura do pintor, desenhista e gravurista Gilvan Samico (1928-2013).
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra, Paz no Brasil: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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quarta-feira, junho 01, 2016

WALTER BENJAMIN, SAMICO, ANDREA DOS GUIMARÃES, ALEXEI BUENO, BELLA GEIGER, CARNA, LINGUÍSTICA & MATÉRIA INCÓGNITA


QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA (Imagem recolhida do Matéria Incógnita)– A primeira impressão é a que fica. Isso se a pessoa anda ligada nas coisas, espiando pra tudo. No caso do Zé Bilola não é bem assim, principalmente depois que o asno caiu nas graças de meia dúzia de pariceiros da laia dele, dando uma corda da gota pra logo o inepto se atarantar, de modo a andar de se gabar todo cheio das pacutias, já se tratando por eleito à vereança. Tão pabo de si que nem sacou das astúcias do Zé Peiúdo montando das boas pra cima dele, na maior engalobação. Pois, foi. Num é que o ardiloso tascou de golpe vezeiro pra cima do apalermado? Oxe, o negócio foi tão bem feito que o broco nem fé disso deu até hoje. Foi assim. Com a angariada de simpatia do povaréu pra cima do pacóvio, já que o Peiúdo não gozava de boa reputação com ninguém da freguesia depois das sacanagens pra cima do Zé Corninho – todos já davam conta dos maus bofes dele -, o maldizente achou de encher a bola de outro bocó com promessas de mundos e fundos na mais exitosa sociedade. Vendendo gato por lebre, o cavernoso encheu a cabeça e as ouças do toleirão com uma jogada das mais vantajosas transações, quando não passava de engodo dos brabos pra tirar proveito inescrupuloso, colocando-o como testa de ferro na empreitada. Passou a maior lábia e ensinou tintim por tintim pra ele dar numa promessa ruidosa de uma coisa impossível garantida por certeira pelo sacana. Assim o abestalhado caiu no papo e foi alugar a paciência dos eleitores com tal empreitada. Como se tratava de boa praça, logo a turma toda acreditou em tudo apalavrado. Estava armado o circo. E logo um monte de gente candidatou-se à compra dos terrenos num tal do lugar determinado, de ninguém nem sequer querer saber onde é que droga que ficava a coisa. No dia aprazado a fila de gente já se fazia estrepitosa para acertar os primeiros pagamentos da maior valsa, de forma que o Peiúdo providenciou planta baixa do loteamento de araque, explicando os mínimos detalhes pro parvo desenrolar tudo com os comparecentes, enquanto ele ficava às escondidas dizendo mesmo que ajeitava os trabalhadores para entregar tudo no certinho. No final do dia, o tonto estava com uma bolada de dinheiro da primeira parcela e com quase todas as ofertas praticamente fechadas. Foi ter com o sócio, mostrou tudo na prestação de conta e o sabido rachou na base de 80 por 20, guardando a maior parte no alforje dele e dando a menor parte pro besta do parceiro que abriu os olhos de quase saltarem fora de tão admirado. Nunca tivera nas mãos tanto dinheiro, agradeceu e saiu feliz da vida pra casa. – Esse Peiúdo é um cabra dos bons. Quando Ximênia soube disso, botou as mãos no quarto e asseverou na base da mão de pilão agitada nas fuças e pronta pra tascá-la no tantã: - Isso num tá certo, esse hômi num vale doistõi! Bilola agoniou-se, fez careta, pantim, virou-se como pôde e a mulher lá, irredutível e balançando a perna na espera de uma resolução ali na hora. Passou um dia, uma semana e um mês depois lá estava o povo todo na fila pra cumprir a segunda parcela. Tudo ajeitado na base do acertado e lá se vai Bilola feliz da vida, mas escondendo da mulher o sucedido. – Oxe, mulé como a minha, melhor sem saber de nadica de nada. Assim foi o terceiro, o quarto e quando chegou o quinto mês, era hora de apresentar o loteamento pra todos e ele deu por certo que na semana seguinte levava todos pra ver, conforme ficou definido no trato com Peiúdo. Eis que chega a semana seguinte e nem sinal do comparsa. Bilola coçou a cabeça e bateu os quatro cantos do mundo atrás do sócio. Nenhum sinal dele, pista alguma. Paradeiro que era bom, nada. Foi aí que um por um dos aquirentes começou a encher a paciência do Bilola em saber quando seria o dia da apresentação dos terrenos. Veio outra e mais outra semana e nada de Peiúdo aparecer, a coisa se avolumando, gente dando parte na polícia, noticiário com conto do vigário no ar, até a convocação do Promotor de Justiça e lá se foi Bilola dar mais explicações. Quando ele abre o jogo, todos perguntam: - Quem? E ele: - Zé Peiúdo. Foi aí que tudo fedeu. Como todo mundo já estava vacinado das aprontações dele e logo deram na conta que o Bilola foi a vítima do momento do desinfeliz, botaram o coitado na roda e tome esculacho. E agora? Como é que faz, como é que fica? Tinha de devolver o investimento feito por todos. E ele não tinha um tostão de nada no pé da algibeira. Se vira, macho, ou pega o pau-de-arara pra nunca mais dar as caras por ali. Foi nessa hora que caiu a ficha e ele viu que o negócio da China havia gorado e que, por tabela, enterrou seu sonho de ser vereador. – Bem feito -, sapecava ranzinza a gasguita da mulher. Por conta disso, passou o resto da vida vendendo brebote e o que não tinha para saldar a dívida que nunca acabou de quitar e até hoje está desmoralizado, fodido e mal pago, levando grito e cuspe na cara, afora as paneladas boas no quengo que a Ximênia não deixa por menos com um certeiro desabafo: - Num disse, traste! E como o amor que fica é aquele, era uma vez pra nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

  Imagem: arte do pintor, desenhista e gravurista Gilvan Samico (1928-2013). Veja mais aqui e aqui.

 Curtindo o álbum Desvelo (Independente, 2015), da cantora, pianista, compositora e arranjadora Andrea dos Guimarães.

PESQUISA
Linguística e estilo (Cultrix/EdUsp, 1974), de Nils Erik Enkvist, Joohn Spencer e Michael J. Gregory, abordando sobre a definição de estilo e um enfoque ao seu estudo. Veja mais aqui.

LEITURA 
Antologia pornográfica: de Gregorio de Matos a Glauco Mattoso (Nova Fronteira, 2004), organizada pelo poeta, editor e tradutor Alexei Bueno, reunindo 19 poetas de língua portuguesa, entre eles Manuel Bandeira, Laurindo Rabelo, José Limeira, Caetano josé da Silva Souto-Maior, Antônio Lobo de Carvalho.

PENSAMENTO DO DIA:
Só conseguimos penetrar no mistério na medida em que o reencontramos no cotidiano, graças a uma ótica dialética que reconhece o cotidiano como impenetrável e o impenetrável como cotidiano. Por exemplo, a a mais apaixonada pesquisa dos fenômenos telepáticos não lançará tanta luz sobre o fenômeno da leitura (que é um processo eminentemente telepático), nem sequer a metade daquilo que a iluminação profana da leitura ensina a proposito dos fenômenos telepáticos [...] a mais apaixonada investigação do fum do haxixe não ensinará a respeito do pensamento (que um narcótico por excelência) nem sequer a metade do que a iluminação profana do pensar ensina sobre o fumo do haxixe. O leitor, o pensador, aquele que está à espera, o flâneur são tipos de iluminados como o consumidor de ópio, o sonhador, o extático. E tipos mais profanos. Para calar aquela droga mais terrível – nós mesmos – que tomamos na solidão.
Trecho de O autor como produtor (A modernidade – obras escolhidas, Assírio & Alvim, 2006), do filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Capa do livro Wunderblogs.com (Barracuda, 2004), reunindo posts de 11 autores blogueiros escritores.

Veja mais sobre Edgar Morin, Murilo Rubião, Jean Genet, Rainer Werner Fassbinder, Thomas Gainsborough, Alanis Morissete, Fernando Fiorese, Hanna Schygulla & Marilyn Monroe aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Hoje é dia da ninfa Carna – deusa Cardea ou Carma -, aquela que preside o coração e outros órgãos na mitologia romana. Ela habitava às margens do rio Tibre, protegendo os recém-nascidos contra os vampiros, e por quem Janus caiu de amor e deu-lhe o poder sobre os punhos e dobradiças das portas.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Imagem: Obra Orbis Descriptio, da série Fronteiriços (1995), da artista plástica, escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista intermídia e professora Anna Bella Geiger .
Recital Musical Tataritaritatá
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quarta-feira, abril 06, 2016

TODO DIA, A PRIMEIRA VEZ

TODO DIA, A PRIMEIRA VEZ – Quando abriu os olhos naquele amanhecer, ele teve um primeiro pensamento: hoje será o dia. Hoje, o dia de realizar todos os seus anseios e desejos. E pensou como, começou pelas decisões que nunca tomou: hoje será diferente. E viveria cada segundo e cada coisa, cada momento. Precisava. Levantou-se decidido. E enquanto se dirigia para o asseio, uma imensa sensação de vida tomou conta do seu ser. Cada ato com a consciência de sua realização, vivia completamente cada momento. Ao espelho, viu-se outro. Quantas lembranças, era o passado. Dentro dele a criança que teimava; a efigie refletida, não era o mesmo. Os anos se passaram. Viu-se outro, ou quase. Agora, só presente. E resolveu: sou uma criança que a idade desaprendeu. Com isso, respostas irrespondíveis se desfizeram. Pela primeira vez estava cônscio de quem era. O presente. E fizou em paz. Cada passo, uma nova experiência. À janela o Sol rompia a escuridão no horizonte. Parecia que era a primeira vez que via o alvorecer: um lindo espetáculo. E sentiu-se integrante desse espetáculo: - Eu sou o Sol. E encheu-se de alegria e de uma poderosa satisfação. Fez-se grato pela oportunidade de testemunhar tão maravilhoso momento na vida, nunca antes sentido. Era o incentivo que precisava. Maravilhado, girou em torno de si. E um segundo pensamento aflorou: este poderia ser o seu dia ou o seu último dia. Uma razão ainda maior para o que determinara fazer e ser. Olhou ao seu redor e tomara pé do ambiente: coisas que nunca se dera conta. Realizações que se foram e que estão ali, pro seu conforto não desfrutado. E cada centímetro do seu lar fora explorado e reconhecido como nunca fizera: os quartos, o corredor, a cozinha, o quintal, a sala de estar, a varanda, a rua. Percebeu-se como se o dentro fosse maior que o mundo lá fora. Na verdade, não sabia que havia um lado de dentro que poderia ser maior que o lado de fora, a rua e o mundo. Isso é inconcebível, mas era. E foi até o portão, olhou a rua que jamais vira daquela forma, deu a volta e entrou em casa como se fosse pela primeira vez. Era tudo diferente. Iniciático. Fez questão, então, de conferir e reviver cada coisa que havia obtido e que, por mera acumulação, realmente nunca desfrutara. E saiu conferindo um a um de cada centímetro da sua residência, até chegar à cozinha, café da manhã servido na mesa. Ingeriu como se fora a primeira vez: cada gosto, um a um dos sabores devidamente degustado. Satisfeito, agradeceu à vida a oportunidade da primeira alimentação do dia. Levantou-se, foi até o quintal e ficou extasiado com essa parte da casa que só estivera viva na sua infância: outras tantas lembranças. Hoje, um outro sentido, um novo momento naquele reconhecimento: ontem ele era uma criança feliz nessa parte da casa. Hoje ele revive cada momento feliz da sua infância. E como o Sol que seguia no aclive do dia, ele se pôs a realizar tudo que não tivera tempo de viver. E se dispôs a viver cada minuto da sua manhã, quando se deu conta que era o meio dia, o Sol no alto do céu e o almoço posto à mesa. Pela primeira vez teve o prazer de saborear cada alimento, mastigando consciente do papel daquela refeição para sua vida. E sentiu-se agradecido pela oportunidade de viver o imenso prazer daquela refeição. E retomou suas providências pela tarde toda, cada minuto uma decisão a ser refletida, ponderada, decidida e tomada. Assim o fez pela tarde inteira até chegar à janela oposta a da manhã, qual não fora a sua surpresa de presenciar o crepúsculo. O Sol nasceu logo cedo; agora se punha e com ele a satisfação do dever cumprido. A noite viera e ele mais que agradecido, ceou como se fosse pela primeira vez na vida, agradecendo a oportunidade de viver aquele dia. Ao deitar-se, mais uma decisão tomada: a partir daquele dia ele resolveu ser ele mesmo e viver tão intensamente quanto fosse possível. Afinal, era a vida dele: merecia viver. O presente se instalara construindo um outro futuro. Assim o fez. Todo dia, a primeira vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor, desenhista e gravurista Gilvan Samico (1928-2013).

Veja mais: Afrodite, Lya Luft, Marcia Tiburi, José Celso Martinez Corrêa, Cacilda Becker, Krzysztof Kieslowski, Diana Krall, Jeanne Hébuterne & Amedeo Modigliani, Débora Arango, Enrique Simonet & Julie Delpys aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Female nude, de Paul Mathiopoulos.
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quarta-feira, julho 01, 2015

LEIBNIZ, ANTÔNIO CÂNDIDO, LOPE DE VEGA, EMMA GOLDMAN, MACKELLAR, KOZORIZ, ALCEU & SAMICO.

 VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DEVAGAR E SEMPRE! (Imagem: The Letter, da artista plástica Nina Kozoriz) - Sempre fui muito avexado, tanto que parecia mais que eu tinha um cotoco de não parar quieto. Era mesmo inheto e para quem já viu bem de perto cipó de boi zunindo no toitiço, eu era o que se convencionava chamar de os pés da doida – o nome popular do que hoje, com certeza, diagnosticam de TDAH. Galhos de urtiga? Da muita. A-há, era cada lamborada de esquentar o esqueleto. E não me emendava, sempre reincidente a maluvido: o casmurro das trelas. Tanto que fui criado na base de meizinhas e xarope brabo. Assim fui menino até adulto e, por isso mesmo, errei demasiadamente, mas o que acertei – certo que pouco – teve primazia. Afinal, quem anda apressado não acha o que procura. E o que achei não estava perdido, nem era de ninguém. Era o merecido. Por bem ou por mal. Tinha comigo que sapo não pulava por gosto, mas por precisão. E que precisão eu tinha? Sei lá, vexames da idade, urgência de viver. Hoje estou, como se diz no popular, tuxelando. Cinquentão, mais pra poeta de arrumação com meus versos de obra de carregação: só no balanço do navio. Já paguei todos os patos, os meus e até os dos outros. O que me resta? Feito xexéu, vou cantarolando Tocando em frente, dos poetas Almir Sater e Renato Teixeira: Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais... e vou arremedando com os versos da minha canção Cantador: ...vou com meu canto em cada canto, lado a lado, vou com cuidado e afinando o meu gogó, sem ter espanto todo só de luz armado, tino aceso e aprumado, evitando um quiproquó... Hoje estou mais para repetir o poeta romano clássico Virgílio: Omnia vincit Amor! Ou seja, o amor tudo vence. E o também escritor romano Publílio Siro: Nec mortem effugere quisquam, nec amorem potest. Ou melhor: Ninguém pode fugir nem ao amor, nem à morte. Sabedor disso, vou agora devagar e sempre! E vamos aprumar a conversa. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: xilogravura do pintor, desenhista e gravurista Gilvan Samico (1928-2013).

Curtindo o álbum ao vivo Oropa, França e Bahia (BMG Ariola, 1989) do cantor e compositor Alceu Valença. Veja mais aqui.

BRINCARTE DO NITOLINO – O projeto Brincarte do Nitolino compreende uma série de atividades voltadas para o público infanto-juvenil. Nasceu na segunda metade da década dos anos 1990, com o Prêmio Nascente de Arte Infanto-Juvenil que culminou com a publicação de duas antologias Brincarte, editadas pelas Edições Nascente, nos anos de 1998 e 1999. A partir de então foi transformado em blog, peças teatrais, recreações educativas, livros, músicas e estudos que envolvem as áreas de Educação Infantil, Psicologia Infantil e Direito da Criança e dos Adolescentes. A partir de 2008 foi transformado em programa radiofônico e que, nos últimos anos, é apresentado pela garota Isis Corrêa Naves, no Projeto MCLAM, todos os domingos, a partir das 10hs e com reprise todas as quartas, nos horários das 10hs e das 15hs. Confira detalhes aqui e aqui.


MONADOLOGIA – A obra Os princípios da filosofia ditos a monadologia (1714), do cientista, filósofo, matemático, diplomata e bibliotecário alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), foi publicado postumamente em 1720, apresentando a sustentação de uma metafísica das substâncias simples e expondo globalmente o seu sistema das mônadas – elementos máximos do universo: eternos, indecompostos, individuais, sujeitos às suas próprias leis, refletindo o universo dentro de uma harmonia preestabelecida. As mônadas estão fundamentadas na matemática pelo cáculo infinitesimal e suas conclusões antiatomistas; na física pelas teorias das forças vivas; na metafisica pelo principio da razão suficiente; na psicologia pelo postulado das ideias inatas dos Novos ensaios sobre o entendimento humano; e na biologia pela pré-formação seminal dos corpos e a subdivisão de funções em seu desenvolvimento orgânico. Da obra destaco os trechos: [...] Ora, onde não há partes, não há extensão, nem figura, nem divisibilidade possíveis. E tais Mônadas são os verdadeiros Átomos da Natureza e, em uma palavra, os Elementos das coisas. [...] Tampouco há dissolução a temer e não há como se conceber um modo pelo qual uma substância simples possa perecer naturalmente. Pela mesma razão, não há modo pelo qual uma substância simples possa começar naturalmente, já que não pode ser formada por composição. Portanto, pode dizer-se que as Mônadas só podem começar e acabar instantaneamente, isto é, que só podem começar por criação e acabar por aniquilamento, ao passo que o composto começa e acaba por partes. Tampouco há meios de explicar como uma Mônada possa ser alterada ou modificada internamente por qualquer outra criatura, pois nada se lhe pode transpor, nem se pode conceber nela qualquer movimento interno que possa ser excitado, dirigido, aumentado ou diminuído lá dentro, tal como ocorre nos compostos, onde há mudança entre as partes. As Mônadas não possuem janelas através das quais algo possa entrar ou sair. Os acidentes não podem destacar-se, nem passear fora das substâncias, como faziam outrora as espécies sensíveis dos Escolásticos. Assim, nem substância, nem acidente podem entrar em uma Mônada a partir do exterior. Todavia, as Mônadas precisam ter algumas qualidades, do contrário nem mesmo seriam entes. E se as substâncias simples não diferissem por suas qualidades, não haveria modo de apercebermos qualquer modificação nas coisas, já que aquilo que está no composto só pode vir de seus ingredientes simples, e se as Mônadas carecessem de qualidades, seriam indistinguíveis umas das outras, já que também não diferem em quantidade; e, conseqüentemente, suposto o pleno, cada lugar receberia sempre, no movimento, só o Equivalente do que antes havia tido, e um estado de coisas seria indiscernível de outro. É mesmo necessário que cada Mônada seja diferente de qualquer outra. Pois nunca há, na natureza, dois seres que sejam perfeitamente idênticos e nos quais não seja possível encontrar uma diferença interna, ou fundada em uma denominação intrínseca. Dou também por aceito que todo ser criado está sujeito à mudança, e, consequentemente, também a Mônada criada e inclusive que tal mudança é contínua em cada uma delas [...]. Veja mais aqui ,aqui e aqui.

ESTUDO DO POEMA – O livro O estudo analítico do poema (Humanitas/USP, 1996), do ensaísta e escritor Antônio Cândido, realiza comentários e interpretações literárias acerca do poema, da teoria de Grammont, rima, o destino das palavras no poemas, as modalidades de palavras figuradas, a retórica tradicional, a natureza da metáfora, estudo analítico do poema, os fundamentos, a sonoridade, ritmo, metro, figura, unidades expressivas, imagem, tema, alegoria, símbolo, estrutura, princípios estruturais e organizadores, os significados, sistemas de integração, sentido ostensivo e latência, tradução ideológica, poesia direta e oblíqua, clareza e obscuridade, unidade, entre outros temas. Da obra destaco o trecho Os fundamentos do poema / Sonoridade: [...] Todo poema é basicamente uma estrutura sonora. Antes de qualquer aspecto significativo mais profundo, tem esta realidade liminar, que é um dos níveis ou camadas da sua realidade total. A sonoridade do poema, ou seu "substrato fônico" como diz Roman Ingarden, pode ser altamente regular, muito perceptível, determinando uma melodia própria na ordenação dos sons, ou pode ser de tal maneira discreta que praticamente não se distingue da prosa. Mas também a prosa tem uma camada sonora constitutiva, que faz parte do seu valor expressivo total [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MY COUNTRY – A escritora australiana Dorothea Mackellar (1885-1968) possui um dos poemas mais belos e dedicados a um país de nascimento, denominado My Country (Meu País) do qual destaco os versos a seguir: O amor pelo campo e moitas, / Pelo verde e pelas veredas sombreadas, / Pelas madeiras ordenadas e jardins, / Está correndo em suas veias. / Amor forte pela distância azul-acinzentada, / Córregos marrons e macios céus turvos, / Eu conheço mas não posso compartilhar, / Meu amor é diferente. / Amo um país bronzeado, / Uma terra de planícies vastas, / De uma cordilheira escarpada, / De secas e chuvas inundantes. / Amo seus horizontes distantes, / Amo a jóia de seu oceano, / Sua beleza e seu terror, / Esta vasta terra marrom pra mim. / As florestas de áspera cobertura branca, / Todas trágicas para a Lua, / As montanhas de névoa safira, / A tranquilidade dourada do meio-dia, / A bagunça verde das moitas, / Onde as flexíveis trepadeiras se enrolam, / E orquídeas vestem as copas das árvores, / E samambaias aquecem o solo quente. / Essência do meu coração, meu país! / Seu incansável céu azul, / Quando doente no coração ao nosso redor / Vemos o gado morrer – / Mas as nuvens cinzas se ajuntam, / E podemos dar graças outra vez, / O rufar de um exército, / A constante chuva que encharca. / Essência do meu coração, meu país! / Terra do ouro arco-íris, / Por inundação e fogo e penúria / Ela nos retribui três vezes. / Sobre os pastos sedentos / Assiste, depois de muitos dias, / O indistinto véu de verdura / Que engrossa enquanto encaramos. / Um país de coração opala, / Uma terra teimosa, pródiga – / Todos vocês que não a amaram, / Não irão entender – / Mesmo a terra tendo muitos esplendores, / Aonde quer que eu morra, / Sei pra qual país marrom / Meus pensamentos patriotas irão voar. Veja mais aqui.

ARTE DE FAZER COMÉDIAS – A obra A arte nova de fazer comédias neste tempo (1609), do poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635), realizou uma nova concepção do teatro por meio de uma ruptura com os preceitos do teatro classicista, misturando o trágico e o cômico, versos e estrofes, intercalação de elementos líricos e variedade de estilo: Quando tenho de escrever uma comédia, / encerro os preceitos com seis chaves; / saco a Terencio e Plauto de meu estudo, / para que não me dêem vozes: que costuma / dar gritos a verdade em livros mudos; / e escrevo pela arte que inventaram / os que o vulgar aplauso pretenderam; [...] Mas contra nenhum deles me permito / levantar minha voz, porque me atrevo / a dar preceitos de arte e na corrente / vulgar me deixo ir... Já ignorante / me chamam França e Itália! Que fazer?!? / Que poderei fazer, se tenho escritas, / com uma que acabei esta semana, / quatrocentas e oitenta e três comédias, / e, fora seis, todas as mais pecaram, / pecaram gravemente contra a arte? / Sustento, enfim, o que escrevi e eu sei / que, embora bem melhor de outra maneira, / não teriam o gosto que tiveram, / que, às vezes, o que está contra o que é justo / por essa razão mesma apraz ao gosto. / porque, como as paga o vulgo, é justo / falar-lhe em néscio para dar-lhe gosto. Ele é autor de mais de mil e quinhentas obras teatrais, em sua maioria perdidas no tempo. Veja mais aqui.

LOPE – O drama espanhol brasileiro Lope (2011), do cineasta brasileiro Andrucha Waddington com roteiro de Jordi Gasull e Ignácio del Moral, e música de Fernando Velázquez, é baseado na vida do poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635), contando a história de um jovem poeta ambicioso e eterno apaixonado que vive mais o presente que pensar no futuro, entregando-se ao amor de duas mulheres para desafiar as regras que podem transformá-lo de herói a vilão, trazendo ao mesmo tempo glória e desgraça para sua vida. Diante desses conflitos, surgem centenas de peças teatrais, poemas, romances, comédias, lirismo, tragicidade e força dramática do autor. Como apresentado mais acima, o autor teve uma atividade artística bastante criativa e envolvendo os mais diversos gêneros, desde teatro, poesias, romances e outras modalidades literárias para expressão do seu talento. Destaque para atuação das atrizes Leonor Watling e Pilar López de Ayala. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Foto em homenagem à anarquista e ativista libertária lituana Emma Goldman (1869-1940), o livro da sua autobiografia Living my life (1931), cartaz da IWW (1911) ilustrando a pirâmide de exploração do capitalismo e uma faixa sustentada por jovens anarcofeminista com citação do seu pensamento: Aos que ousam o futuro pertence.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Imagem: Ciranda, Cirandinha, do artista popular e xilogravador Amaro Francisco Borges.


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