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sábado, agosto 22, 2026

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinador - a cada obra adivinhava futuro ou passado, era. E diziam dele ser o profeta tebano reencarnado: Ora, se; tá na cara! Só faltava virar mulher, se num já foi uma vez na vida. Quando não dava forma obrando verdadeiros milagres no barro, nos tocos de madeira, tecidos, metais, fibras ou vidros, moldando, costurando, ajeitando, cortando, entalhando ou pintando, era o bulício das expectativas de entusiastas coscuvilheiros, o que é o que é, e ele, na ponta da língua, tome! Mão na massa só saía coisa bonita de se ver, enchiam mesmo os olhos, chega dava gosto: os bonecos escritinhos gente, só faltavam falar; os bichos tudo em ponto de andar, de quase ouvi-los barulhando no oitão. Ora, se. Bicho danado esse Tirésia, hem? E não faltava quem queria saber da sorte, cura ou desejo, aos muitos: pais ansiosos se menino ou menina no bucho e quem ia nascer dos dois, se ia ganhar litígio na justiça, se o negócio ia dar certo, se a safra ia ser boa, se ia ganhar a eleição, ora, afora outros tantos, cada qual com sua pendenga desvendada por antecipação. Mesmo assim, solitário invisual, valia-se da companhia de Maricota, sua assistente dedicada, que um dia fora uma órfã perdida no meio do mundo. Ele abrigou-a e, por gratidão, ela lavava, passava, cuidava, administrava a casa e as finanças. Sim, ela não escapou de vultosas propostas de noivados e casamentos, mas todas recusou: não tenho nada nem ninguém e, ao mesmo tempo, tenho tudo: este velho bondoso que nem precisa de mim, foi quem me deu guarida desde menina, a me servir por generoso pai até agora. Assim era. E um dia lá, no meio da lida, ele assuntou e saiu de casa desembestado. Que foi que houve? Quem sabe! Pronde ele foi? Ora. Dali um tempo retornou com uma chorosa menina – Juremilda, dita filha enjeitada dum tal de Zé Broco, abastado comerciante, que queria um filho homem para herdar sua fortuna; mas, por ironia do destino, só lhe vinham filhas encarreadas e já havia abandonado duas outras antes, agora mais uma, todas repelidas, lavado de desgosto. Aí ele recolheu e trazia pela mão a garotinha abandonada, deu guarida e dela passou a cuidar: Achei-la perdida na rua, coitada! Doutra feita, pouco tempo depois, ocupado que só, ouviu do nada um choro longínquo e aguçou as ventas, saiu sem dizer nada e, ao cabo de algumas horas, lá vinha ele trazendo um maltrapilho menino – Dioguito, filho duma viúva que durante a gravidez teve seu marido assassinado e repudiou o filho assim que deu à luz, porque seu sonho era uma menina para lhe acompanhar a sina. Mais um desamparado, agora tidos por seus netos, assim criados, mantidos, educados, crescidos e viraram gente, seguindo seus passos e, por artes do destino, proutras profissões, ganharam mundo, cada qual pro seu lado, foram-se. A vida seguia, quando, certa noite, ele chamou a inseparável Maricota e arrumou-se todo, como há anos não havia. Todo paramentado no seu cavalo-marinho, o agora capitão surgiu à porta e foi só alvoroço na rua: um bombo apareceu no improviso da batida chamando o povo. Foi juntando gente. Para onde fosse, o povo ia atrás. Pronde ele vai? Oxe! Num terreiro plano parou, deu dois apitos e, do meio da multidão, emergiu o banco da orquestra, com os tocadores de rabeca, pandeiro, ganzá e reco-reco. Tome função, o trupé na pisada solta. Foi na toada de chegada, a de Alevante, com os toadeiros na saudação: Viva Mestre Salustiano! Viva! Viva Mestre Duda Bilau! Viva! Viva Mestre Biu Roque! Viva! Viva Mestre António Teles! Viva os Filhos de Salú! Viva! Vamos barrer! E dava início ao mergulhão, sapateado no galope dos cavalos, passos rasteiros, saltos rápidos, levantava poeira. Vamos bater mergulho! E fizeram a roda do samba, entrou Ambrósio, o mercador das figuras: no pé da roda, saudou o capitão com mesuras, às pilhérias e pulhas, danou-se a dançar – Ô boca podre! Logo veio Mateus, o Caroca, pra fazer par no arrastado dos pés. Desorganizavam tudo e, no achegado da coisa, Bastião tomou conta pra aprontar das suas, às mungangas e caretas, a bexiga batendo nas canelas. Atrás dele, a feiosa Catirina toda assanhada, tocando fogo de arrepiar: Lá vem o soldado da Gurita! Bota ordem: Respeite a farda, seus folgados! E o bafafá seguia azeitado no balanço dos cacoetes, vícios e mazelas: Ô, seu guarda, o senhor fique quieto! Pode se mandar, somos donos do fuzuê! Se dane, vá! Tá presa a banca do som, Mateus, Bastião, Ambrósio, Catirina e os agaloados tão tudo parados e se bater eu furo! Calma, seu guarda, ordem de capitão! Tá tudo liberado! Despacharam-se todos e recomeçaram os Galantes, uma guarda de honra, dançavam com suas damas, maior galantaria. Mateus, Bastião e Catirina só atiçando o povo assistente. Aí o Empata Samba batia lata na toada, atrapalhando a festa. Sai-te pra lá, desgrama! Vou vadear! E o Mané do Baile: Sou Véi Barbaça e tudo resolvido. Abriu-se a eira pro baile na dança do magui: esvoaçavam saias, fitas e espelhos, chapéus com pingentes dourados, gingado. Bora, brincantes! Isso é que é assustado! Hora das loas e das toadas, o cangaceiro e o vaqueiro, o matuto da goma, o Mané Joaquim. A Véia do Bambu puxou maracatu pro povo de Itambé, Condado, Aliança e Itaquitinga. Segura a onda! Tem mais samba? Muito baião! E o Caboclo de Arubá: Olhaí o Caboclo de Pena, da linha de Jurema! Vamos forrozear! Lá vem o boi! – Leva pra vagem, hora da farra! Olha o apito! Do nada entrou Juremilda glosando motes. Eita! Apareceu, foi? Mas, menina! Atrás dela, Dioguito deu o ar de sua graça e batia palma no rastapé, um desafio no mourão, dela arremedar com quadrão; ele puxou gabinete, ela respondeu com martelo e vai e volta, a coisa se solta no maior festão. O truvuque ficou bão demais! Vamos pro maguião, a dança dos aicos e coco de despedida: o bailarico dos arcos das baianas. Ambrósio de volta imita todos da festa: o boi já morreu e ressuscitou, vamos rear! Simbora, gente, a noite se foi, o dia já veio! E o cego Tirésia se não via, sentia no mais fundo da alma e em família toda sua obra e feito, nem sabia o amanhecido que já era outro acumulando os tantos passados. Até mais ver.

 

Julio Cortázar: Somente vivendo de forma absurda é possível escapar desse absurdo infinito... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Iris Murdoch: A educação não nos faz felizes. Nem a liberdade. Não nos tornamos felizes apenas por sermos livres – se é que somos. Ou por termos sido educados – se é que fomos. Mas sim porque a educação pode ser o meio pelo qual percebemos que somos felizes. Ela abre nossos olhos, nossos ouvidos, nos mostra onde as delícias se escondem, nos convence de que existe apenas uma liberdade que realmente importa, a da mente, e nos dá a segurança – a confiança – para trilhar o caminho que nossa mente, nossa mente educada, nos oferece... Veja mais aqui & aqui.

Camilla Läckberg: A literatura é vida e morte. As pessoas vêm e vão. Vivemos. Morremos. Mas a literatura que criamos continua viva... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALÉM DA ESTRADA DO RIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Era preciso olhar de perto, tão perto quanto a palma da mão. E era preciso olhar muito além para vê-los. Eles não se assemelhavam a nenhum tipo de Senhor: o Tempo, saltitante ou não — contudo, percorriam dimensões. Era preciso vê-los percorrendo a Estrada do Rio, aparando suas bordas; lançando à sombra todos que chegavam e todos que partiam — os que voltavam para casa, os que partiam sem rumo, os desgarrados, os perdidos; silenciando os pombos irreverentes e o bater de asas inerte das crianças correndo para a escola, com o leite da mãe ainda pingando em suas bocas abertas, maduras demais. Eles suavizavam as linhas borradas dos turistas, sorrisos tão tensos quanto cordas de orçamento, e reprimiam os motoristas de van que (mais uma vez) não se importavam com a própria segurança, tentando transformar uma confusão em briga — nenhum policial à vista — e o sol, o vilão em sua própria festa, incitando palavrões e rancor. Como se estivesse seguindo um roteiro. Um deles carregava um bastão, esculpido — ou talvez fosse um pedaço de cana. Era preciso olhar com atenção para ver as cabeças inclinadas em raciocínio; em cálculo. E eles se moviam como um só através daquele palco instável, os dreadlocks se fundindo aos torsos, aos braços e às pernas: dois irmãos cheios de conhecimento e recursos abarrotados em suas mochilas; Jedi africanos, samurais negros saindo diretamente de seus próprios segredos e sonhos. E pareciam estar tramando algo. E parecia a trama de uma demolição de muros. Mas parecia a construção urgente, primeiro, daqueles muros predestinados; ou antes disso, o plantio de árvores para se encontrarem embaixo e travarem campanhas para queimar os tijolos que construiriam esses mesmos muros. E parecia um sangramento. E parecia uma onda gigante de rio-mar-oceano-riacho. E parecia vislumbres de floresta esquecida, colina distante e campo que desaparece; e uma mistura, mistura de terra, argila, calcário coral, areia e pele. E parecia a luz nítida e Falernum da aurora ou o desvario de um sol em uma van, depois do meio-dia; a densa névoa da tarde. Parecia pores do sol flamejantes e um sacramento de luas de sangue e luas azuis e sem lua e meia-noites — tudo isso, infiltrando-se nas ruas para tingir os ventos. E pareciam estar prontos. E pareciam prestes a se impregnar no solo diante de nossos olhos. Mas era preciso ter boa aparência, porque eles não se demoravam. Moviam-se como aparições de sangue, de carne, de tendão. Não roubavam a cena, apenas a dominavam por um instante, lançavam alguma sombra sobre nós e silenciavam o palco. Um deles carregava um bastão. Talhado, talvez. Ou talvez apenas um pedaço de cana, para brandir. Tecendo feitiços. Ou afiando arestas. Difícil dizer com aquele passo solto e sem pressa, sem parecerem, como pareciam, senhores do tempo ou ladrões de holofotes, ou portadores de um silêncio frio e cristalino para congelar o sol. Nunca saberemos… Porque não estamos enxergando muito bem de perto e muito menos além da River Road.

Poema da premiada poeta, editora e contadora de histórias de Barbados, Linda M. Deane, cofundadora do fórum editorial e cultural ArtsEtc, coeditora de Shouts from the Outfield: The ArtsEtc Cricket Anthology e ativista literária.

 

BELLADONA – […] Não mude nada de si mesmo de que você gosta para deixar os outros confortáveis. Não tente se moldar para se adequar aos padrões que outra pessoa estabeleceu para nós. [...] Você não deve permitir que a morte o consuma tão completamente. Viver não é egoísmo. [...] Pare de se preocupar com a sociedade e de jogar o jogo dela, na esperança de ser bom o suficiente. Não existe essa coisa de verdadeira bondade; existe apenas a percepção. [...] Para mim, você é uma canção para uma alma que jamais conheceu a música. Luz para alguém que só viu a escuridão. Você desperta o que há de pior em mim, e eu me torno vingativo com aqueles que o tratam de maneiras que não me agradam. No entanto, você também desperta o que há de melhor em mim — quero ser melhor por sua causa. Melhor para você. [...]. Trechos extraídos do livro Belladonna (‎Plataforma 21, 2023), da escritora estadunidense Adalyn Grace, autora de obras como: Fluch der sieben Seelen (All the Stars and Teeth, 2020) e Erbe der sieben Inseln (All the Tides of Fate, 2021).

 

COMO HERDAR UMA CORAGEM? – [...] muitas vezes não sabemos quem foram os nossos doadores nem de que são feitos nossos tesouros. [...]. Trechos extraídos da obra Como Herdar uma Coragem? (KKYM+P.OR.K, 2021), do filósofo, historiador e crítico de arte francês, Georges Didi-Huberman, no qual indaga testemunhos dos sobreviventes judeus do gueto de Varsóvia, enquanto constatações de uma herança com contornos que dependem da multiplicidade das memórias e das concepções do tempo histórico, evidenciando as diferenças e paralelos que decorrem entre a luta corajosa dos judeus pela liberdade no gueto de Varsóvia e as ameaças atuais do totalitarismo, do colonialismo e do fascismo, que podem emergir em qualquer horizonte. A esse respeito ele expressa que: Ninguém pode olhar pelos outros... Para definir nosso desejo de futuro, temos que saber que memória herdamos... No seu livro Ninfa dolorosa: Essai sur la mémoire d’un geste (Gallimard, 2019), ele expressa que: [...] É um conjunto de imagens onde o motivo do feminino se aproxima perigosamente da negatividade violenta e mortífera […] Das bacantes pagãs às pranteadeiras cristãs, passando pela kinah judia ou o lamento muçulmano, é todo um motivo – essencialmente trágico – de uma Ninfa dolorosa que Warburg perseguia nas pranchas do seu atlas [...] os ‘corpos de dor’ e de ‘lamentação’ se verão animados de uma totalmente nova energia: o burguês se faz linchar, as mulheres urram de cólera, um tipo de alegria selvagem se apodera de toda a multidão em luto. Revolução, de fato: revolução nos afetos, nos gestos, nos corpos, nas decisões coletivas [...] da morte e da sobrevivência, do ser perdido e do ser enlutado, do silêncio e do grito, da ausência e da invocação. Não há lamentação sem esse ritmo profundo [...]. No seu livro Ninfa moderna: essai sur le drape tombe (2002), ele aborda o erótico, a sensualidade, o desejo dessas divindades menores sem poder institucional. Como ponto de partida, como imagem e como montagem2, tomou as figuras femininas da Antiguidade e do Renascimento. Para ele a ninfa, como a aura benjaminiana, declinou com os tempos modernos, problematizando a observação de duas sutis facetas dessa imagem, desse declínio: o drapeado e a queda. Já na obra Par les Désirs - Fragments sur ce qui nous soulève (Éditions Gallimard/Jeu de Paume, 2016), observa ele que: [...] Desobedecer, veja um verbo que rima tão bem com desejar. Desobedecer é tão antigo, frequentemente tão urgente, quanto desejar […] E como não convocar, uma vez mais, as mitologias do Atlas ou de Prometeu? Ou a história de Eva? […] Desobedecer: essa seria a recusa em ato e, ao mesmo tempo, a afirmação de um desejo enquanto algo irredutível [...]. Também é autor de obras como Kore (2011), Survivance des lucioles (2009), Images in Spite of All: Four Photographs from Auschwitz (2008) e Invention of Hysteria: Charcot and the Photographic Iconography of the Salpêtrière (2004), entre outras. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE MUSICAL DE MARINÊS

[...] Eu sou uma profissional, onde for o show, eu chego lá, seja de carro, avião ou em cima de um jumento. Eu adoro estar no palco, foi uma dádiva que Deus me deu. Não saio dizendo que sou Rainha do Forró, se fosse explorar seria Rainha do Xaxado, pois foi Luiz Gonzaga que me homenageou e não saio dizendo; dizem e apenas concordo. O importante não é o trono de Rainha, mas subir no palco e abrir o gogó. Então é um orgulho e honra de cantar as belezas, costumes e necessidades do nordestino. Eu me alugo para fazer o show, ninguém me compra; pagam os meus serviços prestados. [...] Sou uma pessoa comum e singular. Não me aproveito desse nome lutado e trabalhado ao longo dos 50 anos de carreira. Gosto de receber elogios sinceros. Vivo uma vida normal, como o que todo mundo come. Quando não tenho empregada, vou para cozinha. Dou prioridade à família (filhos, irmãos e pais) e estou sempre junto deles como uma galinha e seus pintos. Quando me aborrecem, se eu puder na hora dissolver o coágulo, dissolvo para não ficar engasgada. Mas muitas vezes engulo sapo para não passar por mal educada, não ser cem por cento nordestina. [...].

Trechos de uma entrevista (Ritmo&Melodia, 2005), ao jornalista Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, concedida pela saudosa cantora, atriz, advogada e apresentadora Marinês (Inês Caetano de Oliveira – 1934-2007), a rainha do xaxado, a Luiz Gonzaga de saias, que foi casada com o acordeonista Abdias dos Oito Baixos (José Abdias de Farias – 1932-1991) e juntos atuaram juntos com Luiz Gonzaga & seus cabras da peste! Sobre ela encontra-se o livro Marinês Canta a Paraíba (2005), do sociólogo e professor Noaldo Ribeiro e a dissertação de mestrado A representação do Nordeste nas letras das músicas de Marinês (UEPB, . 2009), que redundou no artigo Representações do feminino na música do Nordeste (XII Conages, 2016), ambos de Claudeci Ribeiro. Na matéria Marinês: rainha do xaxado e dona de uma trajetória de pioneirismo na música nordestina (Jornal da Paraíba, 2022), está expresso que: [...] Não havia nenhuma tradição de mulher cantando xaxado, baião e xote. Também não era coisa de mulher essa roupa de couro que eu usava [...] sonho de criança se realizando, eu  ao lado de Luiz Gonzaga, olhando para a cara dele! [...]. a respeito dela disso o poeta, compositor e escritor Bráulio Tavares: Marinês é o grande nome, tendo criado uma escola de interpretação que é hoje seguida de ponta a ponta pelo Nordeste. Veja mais aqui.

 


TEMAS DE PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA – Os debates temáticos da psicologia contemporânea abordam as questões acerca da saúde mental na era digital, o estresse pós-traumático, os impactos da tecnologia na mente, a neurodiversidade, o esgotamento e Burnout, práticas baseadas em evidências e as novas configurações do trabalho, entre outros questionamentos. Para tanto reunimos reflexões de psicólogos, neurocientistas, filósofos e uma diversidade intelectual que se tem se debruçado sobre tais temáticas, como Elizabeth Loftus, Vera Iaconelli, Ignacio Martín-Baró, Vinciane Despret, Gloria Mark, Nancy Tucker, Rosa Mechiço, Brenda Milner, Diagne Mbengué, Diana Aurenque, Anna Lembke, Nita Farahany, Fabienne Brugère, Alice Flaherty, Elliot Aronson, Cida Bento, Florencia Abadi, Sally W. Johnston, Gabor Maté, Jaqueline Goes de Jesus, Elizabeth Blackburn, Patricia Smith Churchland, Katherine Johnson, Hal Foster, Janet Mock, Ursula Karven, Rachel Bloom, Judith Schalansky, Pamela Des Barres, Brené Brown, Yōko Tawada, Claudia Werneck, Chantal Akerman e Doris Dörrie. Confira aqui.

 


ONDE NASCE O RIO?... – O segundo episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, ocorre exatamente quando a Turma do Brincarte parte do sítio Falange, Falanginha, Falangeta, seguindo Pai Lula que resolve descobrir: Onde nasce o rio... Acompanhe a saga quando eles chegam todos na Serra do Quati clicando aqui.

 


KID MALVADEZA – Reunião de noveletas bem humoradas contando desde a epopeia do intrépido Kid Malvadeza, os vexames do Tripa com sua fubica ineivada, a decisão futebolística do ano em Alagoinhanduba, o diálogo entre a morte e a morta, a derrocada vertiginosa de Dudanildo Pontes, as paixonites do Mamão pela jumenta e a da briga dos garotos na loucura repulsiva do cotidiano alagoinhandubense. Confira aqui.

 


REENCONTRO MARCADO – Um conto, dois; um roteiro de curta metragem. Os 3: a solidão compulsória, a lucidez escassa e o tempo devastador. Do encontro, desabou desencontro. A hora é outra, o reencontro marcado. Confira o microconto, o conto e o roteiro aqui.

 


RAÍZES & FRUTOS – O livro Raízes & Frutos (Bagaço, 1985) foi lançado primeiramente numa noite bastante festiva no Teatro Cinema Apolo, em Palmares (PE). Depois foi a vez de uma tarde ensolarada de sábado na legendária Livro 7, em Recife (PE). No volume o poeta e a sua vida; em seguida, os poemas; e, por fim, uma Carta ao pai. Homenagem ao poeta Rubem de Lima Machado. Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

Arte de J. Borges. E veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


terça-feira, junho 09, 2015

SHAKESPEARE, GILMORE, MIA COUTO, PAGU, MURDOCH, KITANI & MUITO MAIS NO PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!!!


AS ALEGRES MATRONAS DE WINDSOR – A comédia de costumes farseca em cinco atos The Merry Wives of Windsor (As alegres matronas de Windsor, 1602), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), baseada nos costumes da classe média provinciana da época, conta a história de um cavalheiro falido, Sir John Falstaff, que se encontra num período de falta de sorte e resolve inventar um plano para enriquecer. Toma a iniciativa de seduzir duas senhoras da alta classe, com o objetivo de pôr as mãos na fortuna dos seus maridos, enquanto entra em apuros em situações recheadas de viravoltas. Da obra destaco a cena I do V Ato: [...] ATO V - CENA I Quarto na Hospedaria da Jarreteira. (Entram, Falstaff e Leva-e-Traz.) FALSTAFF: Por favor, já chega de conversa, vai! Estarei lá. É a terceira vez; espe-ro que o número três me seja leve. Vai logo! Dizem que o número três dá sorte no nascimento, amor e até na morte. LEVA-E-TRAZ: Vou lhe trazer uma corrente e farei todo o possível pra lhe arranjar um belo par de chifres. FALSTAFF: Mas vai! Depressa. O tempo foge. Como lá diz a Bíblia: levanta a ca-beça e aperta o passo. (Sai Leva-e-Traz. Entra Ford disfarçado.) Ôba, ôba, senhor Fontes! Olha, o assunto se resolve esta noite ou nunca mais. Se o senhor for ao parque à meia-noite e ficar perto do carvalho de Herne vai assistir a coisas espan-tosas. FORD: Mas o senhor não foi à casa dela ontem, como disse que tinha combinado? FALSTAFF: Fui à casa dela, amigo Fontes, assim como vê, um pobre velho. E saí de lá inda pior, meu grande amigo, uma pobre velhinha. O patife do Ford – que ago-ra considero o próprio demônio do ciúme – teve uma de suas crises e me espancou furiosamente quando eu havia assumido a forma de mulher: pois na forma de ho-mem, senhor Fontes, ninguém me bate não. Não temo nem Golias com a funda de Davi. Mas que sei? A vida é apenas uma máquina de fiar e ninguém sabe o novelo onde é que acaba. Mas estou com pressa: me acompanhe, que eu lhe conto tudo no caminho. Olha, já lacei novilhos, depenei gansos, andei em arame, furtei poderosos e nunca soube o que era ser surrado. Porém esta noite eu me vingo, senhor Fontes: vou entregar a mulher de Ford nas suas mãos. Me acompanha – coisas estranhas acontecem – me acompanha. (Saem.). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Queen Elizabeth Viewing the Performance of The Merry Wives of Windsor at the Globe Theatre (1840), do pintor escocês David Scott (1806-1849), inspirado na obra de William Shakespeare.

Curtindo Die lustigen Weiber von Windsor (1977), do compositor e maestro alemão Carl Otto Nicolai (1810-1849), Chor und Sinfonieorchester des Bayerischen Rundfunks, Rafael Kubelík, baseada na obra de William Shakespeare.


PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aqui. Na programação: Carl Otto Nicolai, Egberto Gismonti, Cole Porter, João Gilberto, Robert Schumann, Hermeto Pascoal, Ney Matogrosso, Ivan Lins, Bebel Gilberto, Beto Saroldi, Elisete Retter , Sonia Mello, César Weber, Monsyerrá Batista, Franco do Valle, Frederico Amitrano, Hélio Jenné, Paulynho Duarte, Marisa Serrano, Julia Crystal & Mônica Brandão, Ricardo Machado, Banda Belsen, Mazinho, Tirso Florence de Biasi, Ozi dos Palmares, Anabel Bian, Maurício Reis & Biafra, Moreno Overá, Adalton Miguel & Lia Helena Gianechinni, Eliane Bastos, Alexandre Caldi & muito mais! Veja mais aqui.

ALICE NO PAÍS DO QUANTUM – O livro Alice no país do quantum: a física quântica ao alcance de todos (Zahar, 1998), do físico e professor inglês Robert Gilmore, trata de temas como o banco de Heisenberg, o instituto de mecânica, a escola de Copenhague, a realidade virtual, átomos no vácuo. O castelo Rutherford, o baile de mascarados das partículas, a piteira fantástica da Física Experimental, entre outros assuntos. Dessa forma, o autor começa pela explanação dos conceitos básicos da mecânica quântica - seu caráter probabilístico, a dualidade onda-partícula, a quantização da energia - e da física moderna em geral - elementos sobre ondas, sobre relatividade e mesmo sobre a mecânica clássica -, fala das diferentes interpretações da teoria quântica, detendo-se sobre a interpretação mais aceita (a Interpretação de Copenhague), explora os fundamentos da física nuclear e da física das partículas, e termina com uma discussão sobre o paradoxo EPR (de Einstein, Podolsky e Rosen), um dos mais importantes da teoria quântica. Da obra destaco o trecho do prefácio: Na primeira metade do século XX, nossa compreensão do Universo foi virada de pernas para o ar. As antigas teorias clássicas da física foram substituídas por uma nova maneira de olhar o mundo - a mecânica quântica. Esta estava em desacordo, sob vários aspectos, com as idéias da antiga mecânica newtoniana; na verdade, sob vários aspectos, estava em desacordo com nosso senso comum. Entretanto, a coisa mais estranha sobre essas teorias é seu extraordinário sucesso em prever o comportamento observado dos sistemas físicos. Por mais absurda que a mecânica quântica possa nos parecer, esse parece ser o caminho que a Natureza escolheu - logo, temos que nos conformar. Este livro é uma alegoria da física quântica, no sentido dicionarizado de "uma narrativa que descreve um assunto sob o disfarce de outro." O modo pelo qual as coisas se comportam na mecânica quântica parece muito estranho para nossa maneira habitual de pensar e torna-se mais aceitável quando fazemos analogias com situações com as quais estamos mais familiarizados, mesmo quando essas analogias possam ser inexatas. Tais analogias não podem nunca ser uma representação verdadeira da realidade, na medida em que os processos quânticos são de fato bastante diferentes de nossa experiência ordinária. Uma alegoria é uma analogia expandida, ou uma série de analogias. Como tal, este livro segue mais os passos de Pilgrims Progress ou As viagens de Gulliver do que Alice no País das Maravilhas. [...]. Veja mais aqui.

O FIO E AS MISSANGAS – O livro de contos O fio das missangas (Companhia das Letras, 2009), do premiado escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, reúne vinte e nove histórias curtas representando o universo das mulheres no seu labor de fiar miçangas em Moçambique, por meio de temas como morte, violência, insanidade, rupturas, retaliações, incestos, suicídios, bem como a sujeição, o descaso e a inexistência, todas vinculadas ao machismo e ao seu desprezo às mulheres. Da obra destaco o conto homônimo: Encontro JMC sentado num banco de jardim. Está recatado, em solene solidão, como se só ali, em assento público, encontrasse devida privacidade. Ou como se aquele fosse seu recinto de toda a vida morar. Em volta, o tempo intacto, só com horas certas. Nunca soube o seu nome por extenso. Creio que ninguém sabe, nem mesmo ele. As pessoas chamam-no assim, soletrando as iniciais: jota emecê. Saúdo-o, em inclinação respeitosa. Ele ergue os olhos com se a luz fosse excessiva. Um sutil agitar de dedos: ele quer que eu me sente e o salve da solidão. - Lembra que sentamos neste mesmo lugar há uns anos atrás? - Recordo, sim senhor. Parece que foi ontem. - O ontem é muito longe para mim. Minha lembrança só chega às coisas antigas. - Ora, o senhor ainda é novo. - Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando velhices. E deixamo-nos, calados. Vou lembrando os tempos em que este homem magro e alto desembocava neste mesmo jardim. Acontecia todo o final de tarde. Recordo as suas confidências. Que ele, sendo devidamente casado, se enamorava de paixão ardente por infinitas mulheres. Não há dedos para as contar, todinhas, dizia. - A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas... Sempre que fazia amor com uma delas não regressava diretamente a casa. Ia, sim, para casa de sua velha mãe. A ela lhe contava as intimidades de cada novo caso, as diferentes doçuras de cada uma das amantes. De olhos fechados, a velha escutava e fingia até adormecer no cansado sofá de sua sala. No final, tomava nas suas as mãos do filho e ordenava que ele tomasse banho ali mesmo. - Não vá a sua mulher cheirar a presença de uma outra - dizia. E JMC se enfiava na banheira enquanto a velha mãe o esfregava com uma esponja cheirosa. Acabado o banho, ela o enxugava, devagarosa como se o tempo passasse por suas mãos e ela o retivesse nas dobras da toalha. - Continue, meu filho, vá distribuindo esse coração seu que é tão grande. Nunca pare de visitar as mulheres. Nunca pare de as amar... - E o pai, o pai sempre lhe foi fiel? - Seu pai, mesmo leal, nunca poderia ser fiel. - E por quê? - Seu pai nunca soube amar ninguém... Agora, tantos anos passados, quase não reconheço o mulherengo homem alto e magro. - Desculpe perguntar, JMC. Mas o senhor ainda continua visitando mulheres? Ele não responde. Está absorvido, confrontando unhas com os respectivos dedos. Ter-me-á ouvido? Por recato, não repito a pergunta. Após um tempo, confessa num murmúrio: - Nunca mais. Nunca mais visitei nenhuma mulher. Uma tristeza lhe escava a voz. Me confessava, afinal, uma espécie de viuvez. Foi ele quem quebrou a pausa: - É que sabe? Minha mãe morreu... Meu coração sapateia, desentendido. Pudesse haver silêncio feito da gente estar calada. Mas esse silêncio não há. E nesse vazio permanecemos ambos até que, por entre o cinzentear da tarde, surge Dona Graciosa, esposa de JMC. Está irreconhecível, parece deslocada de um baile de máscaras. Vem de brilhos e flores, mais decote que blusa, mais perna que vestido. Me soergo para lhe dar o lugar no banco. Mas ela se dirige ao marido, suave e doce: - Me acompanha, JMC? - E você quem é, minha flor? - O meu nome você me há-de chamar, mas só depois. - Depois? Depois de quê? - Ora, só depois... De braços dados, os dois se afastam. A noite me envolve, com seu abraço de cacimbo. E não dou conta de que estou só. Veja mais aqui e aqui.

PAIXÃO PAGU – O livro Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patricia Galvão (Agir, 2005), da polêmica, irreverente e emancipada escritora, diretora de teatro, tradutora, desenhista, jornalista e militante política Patricia Galvão – Pagu (1910-1962), é um texto autobiográfico com páginas confessionais e de alto impacto emocional, em forma de uma longa carta escrita pela autora, em 1940, quando saía de uma das inúmeras prisões como inimiga política número um da ditadura Vargas, destinada ao seu marido Geraldo Ferraz. Na obra autora fala das suas relações com seus pais e irmãos, de sua militância política, seu desencanto com o comunismo soviético, sua vida amorosa, seu casamento com Oswald de Andrade, seus encontros com escritores e políticos, num volume que se desenvolve na cronologia recheada de fotos. Do livro destaco os seguintes trechos: [...] Talvez eu tenha a expressão confusa. Há uma intoxicação de vida. Parece que a paralisia começa desta vez. É difícil procurar termos para expor o resultado da sondagem. É muito difícil levar as palavras usadas lá dentro de mim. [...] Mas o hoje será para depois, porque agora é o antes. Estou passeando pela vida que passou: volto para ela. [...] Não estou escrevendo autobiografia para ser publicada ou aproveitada. Isso é para você ter um pouco mais de mim mesma, das sensações e emoções que experimentei. [...]. Veja mais aqui.

A LITERATURA E A FILOSOFIA DE IRIS – O drama biográfico Iris (2001), dirigido por Richard Eyre, com roteiro do diretor e Charles Wood, música de James Horner, é baseado no livro A Memoir and Elegy for Iris, do escritor e critico literário britânico John Bayley (1925-2015), sobre a vida da escritora e filósofa irlandesa Jean Iris Murdoch (1919-1999). Ela escreveu vinte e seis romances, dois livros de poesia, um de contos, seis peças teatrais e diversos títulos sobre Filosofia, entre eles um sobre o racionalismo romântico de Sartre (1953). A soberania de Deus (1970), O fogo do Sol (1977), A metafísica como um guia para moral (1992) e Os existencialistas e os místicos (1997). O filme descreve os primeiros e os últimos momentos dela e a sua relação com o seu marido John Bailey, mostrando a vida do casal enquanto jovem até os seus últimos dias de vida, percorrendo o período compreendido dos anos 1990, quando ela começa a sentir as primeiras manifestações da doença - Mal de Alzheimer - e que por consequência a levaria a perder as suas faculdades, desde o começo pelo esquecimento das palavras, até a revelação da experiência frustrante de deixar de escrever e falar coerentemente. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Charge A nova geração (2012), do designer e ilustrador Adriano Kitani.


Veja mais sobre:
Semáforos de sempre, vida adiante, Amor em tempos sombrios de Colm Tóibín, A mundialização de Marilda Villela Iamamoto, Ética e Marketing Social, a música de Claudio Nucci,  a pintura de Vik Muniz, Natal & o Morro do Careca, a fotografia de Spencer Tunick & Esdras Rebouças Nobre aqui.

E mais:
Alice no país do quantum de Robert Gilmore, O fio e as miçangas de Mia Couto, A paixão Pagu de Patricia Galvão, Memória & elegia para Iris de Jean Iris Murdoch, o teatro de William Shakespeare, a música de Carl Otto Nicolai, a pintura de David Scott, a charge de Adriano Kitani & Programa Tataritaritatá aqui.
Cantiga de amor pra ela & Programa Tataritaritatá aqui.
O prazer do amor na varanda da noite aqui.
Propriedade industrial no código civil aqui.
Brincando com a garotada, Canções de inocência & experiência de William Blake, a música de Maria Josephina Mignone & Francisco Mignone, o soneto de Joana de Menezes, O pintor de retratos de Luiz Antonio de Assis Brasil, a arte de Thomas Saliot, Lagoa Manguaba & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
As trelas do Doro: querem me matar, Medo de quem sou de John Powell, A hora aberta de Gilberto Mendonça Teles, Bom dia para nascer de Otto Lara Resende, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha & Sede e seda de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O brincar como acontecimento de Johan Huizinga, O porquê de todas as coisas de Quim Monzó, A sexualidade de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
Do amor e da vida, Guardar de Antônio Cícero & a entrevista de Marina Lima, História da Sexualidade de Michel Foucault, Educação Sexual de Isaura Guimarães, a música de Giacomo Meyerbeer, a pintura de Di Cavalcanti & Daphne Todd aqui.
Cantos do meu país, Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, o pensamento de Mário Schenberg, a música de Ivan Lins & Vitor Martins, o teatro de Plínio Marcos, o fotojornalismo de Marcia Foletto, o cinema de José Mojica Marins & a arte de Claudia Alende aqui.
Pelo jeito, o doro agora vai, a literatura de Antônio Alcântara Machado, a poesia de Eugénio de Andrade, a música de Mary Jane Lamond, Biopsicologia de John P. J. Pinel, Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a fotografia de Harry Fayt & a arte de Ana Maia Nobre aqui.
Até onde o amor levar, A preparação do ator de Constantin Stanislavski, o pensamento de Sidarta Gautama, a música de Maria Rita, a poesia de Ieda Estergilda de Abreu, a escultura de Carlos Baez Barrueto, a pintura de Clare Rose & a arte de Luciah Lopez aqui.
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sexta-feira, janeiro 16, 2009

FLORBELA ESPANCA, LOU SALOMÉ, IRIS MURDOCH, FERNANDA BOTELHO, ANNE BRADSTREET, DESEJO & EDUCAÇÃO

 

DESEJO, A HISTÓRIA DE UM POEMA EM CANÇÃO – A minha música “Desejo” nasceu de sopetão. Foi assim mesmo: teibei. Tudo começou um dia quando a namorada me ligou de manhã com um convite para o almoço. Estava eu, na época, como redator geral de uma emissora de rádio, carregado de trabalho até as pestanas. Coisa de louco. Toda manhã era correria da grande, iniciada pelas 4 da madrugada e só se concluía por volta do meio dia, quando eu entrava no ar para apresentar outro programa jornalístico. Era uma barra ter que preparar um jornal com uma crônica diária que ia pro ar às 7 em ponto, elaborar notícias para serem veiculadas de meia em meia hora, até fechar o programa noticioso de meio dia. Estafante, porém, tarefa deliciosa demais. Foi exatamente no meio dessa loucura, que recebi a intimação com hora e local marcados e, não tendo escapatória, aceitei. Afinal, era uma convocação irrecorrível. Lá, por volta das 13 horas, eu cheguei todo avexado, como sempre. O suor correndo da tampa aos fundos aumentava mais o meu vexame. Entretanto, era hora de relaxar da labuta diária e tomar ciência da razão do convite. Foi quando de forma inexorável e com cara de poucos amigos, a namorada tascou: - Sabe que dia é hoje, Luiz Alberto Machado? Ih! Pelo soletrado do meu nome completo, sabia que coisa boa não viria para minha banda. - Sei -, respondi. - Então, me diga que dia é hoje? - Sexta-feira! - Sexta-feira de que mês? - Sexta-feira, 18 de abril de mil novecentos e…. -, soltei sem nem saber direito mesmo que ano era (acho que foi de 86, 87 ou 88, por aí, um desse). - Certo. E o que isso representa, Luiz Alberto Machado? -, cada vez que ela dizia meu nome de forma repuxada, enfática e detalhada, mais eu percebia que o mar não estava para peixe. - Hum?!? - Isso mesmo, senhor Luiz Alberto Machado. O que representa o dia de hoje? Gente, eu vasculhei todos os arquivos do cérebro e só me vieram à memória as comemorações do Dia de Monteiro Lobato e, por causa disso, o Dia Nacional do Livro Infantil, também Dia do Amigo, aniversário de morte de Einstein e… (era me lembrando e gaguejando em voz alta, e ela só sim, sim, sim…. e que mais?). Vixe, que aperto! Que mais? Será que esqueci algo importante? Danada dessa minha ignorância, sempre passando batido em tudo. Ô memoriazinha essa para me deixar sempre na mão. - Que mais? -, indaguei com a cara mais atarantada de quem perdeu o bonde do mundo e com a sensação mais cínica de que estava passando em branco por algo que não deveria jamais farrapar. - Sim, isso mesmo, senhor Luiz Alberto Machado. - Peraí -, pedi arrego e fiquei matutando enquanto tapiava com pedido de cerveja. - Hum…. deixa ver, 18 de abril, é… e…. -, rebuscava até dos registros acásicos para minha salvação naquele momento cilada e ingerindo ligeiramente a cerveja. Que saia-justa! E me arrependi de ter aceitado o convite na hora. - Pois é, senhor Luiz Alberto Machado. Já que não se lembra, vou refrescar sua cabecinha tola: hoje é meu aniversário. E agora vou deixá-lo num mato sem cachorro: cadê meu presente? Minha nossa! E agora? Procurei terra no chão, não encontrei. Procurei um buraco para me socar e nada. Danou-se! Como sair dessa, hem? Não deu outra. Com o riso mais amarelado impossível, peitei: - Surpresa! O seu presente está na mala do carro! Queria mesmo ver a sua carinha de invocada! Peraí, deixa eu tomar uns goles que já vou trazer o seu presente. Fiz o que pude para empurrar com a barriga a situação. O que eu tinha para dar de presente? Nada. Sair correndo para comprar àquela hora só confirmaria que eu esqueci bonitinho da data. Não podia. Tinha que sair do aperto de qualquer jeito e tome gole e as catracas do quengo fumaçando. Gente, que viela! Pensei comigo: agora tô fudido mesmo. E tome gole de cerveja e blá blá blá. - Luiz Alberto Machado não enrole, cadê meu presente? As ideias davam nó no juízo quando arrisquei: - Vou buscar, dois minutos só. Virei o copo, saí do restaurante sem saber o que fazer enquanto ela me acompanhava com o olhar aos mínimos movimentos. Abri a mala do carro e só tinha uns papéis, dois gravadores e o violão. Ih! E agora? Fiquei remexendo na mala do carro como que estivesse procurando algo. De vez em quando eu voltava o olhar para ver a situação e ela lá vigilante, inexorável. Fiz uma procura demorada mexendo nas coisas, remexia tudo, revirava, mãos na cabeça, coração saindo pela boca, garganta seca, a terra rodando, a coisa ficando feia, quando resolvi pegar um calhamaço de papel, um dos gravadores e o violão. Voltei atrapalhado, papel voando, gravador se espatifando no chão me fazendo voltar para pegar outro providente gravador, apanhei o rebentado e segui pra mesa. Quando me sentei, ela cruzou os braços e fez a cara mais reprovadora do mundo. Ora botava as mãos nos quartos com ar nada açucareiro, ora se fechava com a mão no queixo, sobrancelhas cerradas e olhar interrogativo de quem vai mandar ver numa sentença pra lá de condenatória. Ah essa minha mania de estar sempre pulando aperto. Sempre assim. Contudo, não dei o braço a torcer e comecei a dedilhar o violão dizendo: - Olha só, o seu presente está pronto, só que não decorei ainda. Vou ver se me lembro detalhadamente. É assim…. E fiquei enrolando versos criados na hora, cantarolando uma melodia que não existia e fazendo e refazendo tudo, sempre dizendo que havia lembrado, eita, já esqueci, ah, lembrei de novo, sim, é isso e assim foi. Ao cabo de meia hora mais ou menos de peitica e peleja, eu disse: - É isso, seu presente é esse: Quero ficar no seu coração / E assim poder sonhar / Toda aventura que pintar da emoção / Toda fervura que brotar da sua mão / Para iluminar a reticência que aprumou a minha vida / E um dia ser feliz e nada mais / Quero ficar no seu coração / E assim me agasalhar / Do frio impune que semeia a solidão / E feito imune repetir a sensação / Que vai para lua na volúpia mais fervida / E um dia ser feliz e nada mais / E quando o jeito de você virar absoluta adoração / Será o véu perfeito e a ternura abraçará minha ilusão / Quero o meu destino a confundir-se com o seu / E sermos um, o que a sina prometeu / E o que sobrar de nós será um ninho verdadeiro / E um dia ser feliz e nada mais. Gente, verdade! Do jeito que fiz, ficou. Enrolei tanto que a música ficou prontinha com a letra e tudo. Ufa! Como estava em processo de criação não deu para acompanhar as feições que ela deve ter exposto na maior das desconfianças. Só sei que ao terminar de cantá-la todinha (devidamente registrada no gravador para não perdê-la e nem confiar na memória), eu abri os olhos e flagrei um lindo sorriso dela. - É pra mim? -, perguntou-me com o jeito de menina angelical e com as faces risonhas de quem ganha um presente daqueles sonhados e que muito gostou. - Sim, pra você. É sua. - Não acredito! - Verdade. Vou copiar a letra agorinha aqui para que você guarde como o meu presente pro seu aniversário. E copiei a letra numa folha, coloquei a data e assinei. Pronto, estava dado o presente. Passaram-se os anos, o namoro se foi, mas a música ficou. Incorporei a letra nos meus livros publicados “Paixão Legendária”, de 1991, e na antologia “Primeira Reunião”, de 1992. E eu sempre cantarolei a canção nas minhas modestas apresentações musicais, em recitais, saraus, lançamentos e por aí, até o dia, muito tempo depois, em que Derinha Rocha pegou uma câmara e me filmou cantando a dita canção. A minha performance não estava lá grande coisa, mas gostei e aceitei a indicação de abrir uma página no YouTube. Por causa disso a coisa pegou e com poucos dias tinha mais 2 mil acessos. Fiquei, claro, maravilhado com isso. Por causa disso, em 2007 (ou foi 2008?), a Sônia Mello me liga e diz que quer gravar essa e outras músicas minhas. Sonia Mello? Exatamente a cantora que nos anos 70 e 80 gravou uma penca de long-playngs só com músicas de Roberto & Erasmo Carlos. Eu mesmo já havia me apaixonado por ela só por causa da capa de um dos discos em que ela está encostada num SP2 (lembram? Era o carro dos meus sonhos de adolescente!). Oxe! Então, um pedido desses a gente não nega, né? Fiquei mais assanhado que pinto no lixo. E todo atabalhoado fiz atender seu pedido. Peguei o violão, gravei do jeito que saiu, passei pro computador e enviei duas: “Desejo” e “Aurora/Minha Voz”. Fiquei com o coração na mão. A expectativa, nossa! Um abismo de espera. Quando ela falou comigo pedindo as músicas, ela me disse que era para integrar um projeto de um cd que ela estava gravando sob o título de “Destino” e que, entre outras músicas, uma delas era uma feita pela respeitável dupla Roberto & Erasmo exclusivamente para ela. Ora, estar ao lado dos compositores mais aclamados pela população brasileira, não era coisa para se relevar, não acha? E apois, foi. Quando dei por nada na vida, recebo um mail e uma ligação dela. - Luiz, dá uma olhada e me diz se Desejo ficou ao seu gosto. Como é? Abri a caixa de mail e lá estava. Ouvi, ouvi, reouvi e não me contive. Estava bem demais com o arranjo que o Guga Mendonça fez. Nossa, dessa vez o presentão era meu. E o melhor ainda estava por vir. É que ao invés de “Destino”, ela nomeou seu disco “Desejo”, ou seja, a minha música se tornava o carro-chefe do seu projeto. E Roberto & Erasmo? Claro, não só inseriu a música deles, como também a minha “Aurora/Minha voz”. Nossa, uma festa! Em 2008, mais de 20 anos depois da criação da música, me encontro com a Sônia Mello e ela me entrega o cd em mãos. Fiquei tão abestalhado que falei pelos cotovelos, a ponto de me esquecer uma coisa importante: de agradecer. Pois, foi. Veja que sujeito mais melepeiro sou eu. Esqueci do aniversário da musa, esqueci de agradecer também a intérprete. Coisa de ingrato brabo. uando é em 2010, “Desejo” me proporciona mais um momento de alegria: foi premiada com o primeiro lugar no FEMI 2010 (Festival da Música Independente), promovido pelo Projeto Sociocultural Vozes do Meu Brasil e do Clube Sua Arte na Rede, que reuniu no Japão mais de 64 mil composições do planeta, peneiradas para 60 avaliações, resultando em 20 escolhidas. Eita! Realmente foi. Fiquei todo ancho, chega me senti maior que o meu próprio tamanho (desce, desgraçado!). Só me restava uma coisa: a minha gratidão pela interpretação e iniciativa da Sônia Mello. Também do flagrante para criação dos clipes (primeiro, o meu solo; depois, a homenagem à Mônica Belucci com a canção na voz de Sônia) feitos pela saudosa Derinha Rocha. E mais ainda agora quando a querida Memei Correa realiza mais uma expressão de sua arte, primeiro com a interpretação de Sônia Mello e, em seguida, com a minha apresentação no show Crônica de amor por ela, em 2011, ao me presentear com mais esses clipes para essa canção. Se sou merecedor ou não, não importa, o fato é que essa canção tem sido agraciada pela simpatia de pessoas tão especiais para mim, o que já é o suficiente para me fazer feliz além do mérito. Nada mais justo, então, demonstrar para vocês que fizeram dessa canção o meu grande prêmio, por isso, o meu muito obrigado eterno. PS: Publicado originalmente no dia 13/08/2010 no Tudo Global e todos os registros da canção no BlogAgenda. Veja mais Crônica de amor por ela. Veja mais aqui & aqui.


DITOS & DESDITOS - O Bem é único, está acima do ser, promove nosso sentido de realidade como o sol promove a vida na Terra. As virtudes, as outras formas morais, são aspectos desta idéia central, compreendidas progressivamente como partes interligadas ao Bem. Os atributos da Divindade podem também (na teologia cristã) ser deduzidos a partir de um conceito intuitivo original de Deus. Deve ser lembrado que Platão está se referindo a metáforas, mitos, imagens: não há “outro lugar platônico” similar ao “outro lugar cristão”. O que é mais elevado, como Eckhart observou, está dentro da alma. Pensamento da escritora e filósofa irlandesa Jean Iris Murdoch (1919-1999), que escreveu vinte e seis romances, dois livros de poesia, um de contos, seis peças teatrais e diversos títulos sobre Filosofia, entre eles um sobre o racionalismo romântico de Sartre (1953), A soberania de Deus (1970), O fogo do Sol (1977), A metafísica como um guia para moral (1992) e Os existencialistas e os místicos (1997).

ALGUÉM FALOU: A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente. Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder...para me encontrar.... É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres as garras que dilaceram. Se penetrássemos o sentido da vida seríamos menos miseráveis. A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento. Eu quero amar, amar perdidamente. Amar só por amar. Pensamento da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930). Veja mais aqui.

O AMOR – [...] No mais profundo de si mesmo, o nosso ser rebela-se em absoluto contra todos os limites. Os limites físicos são-nos tão insuportáveis quanto os limites do que nos é psiquicamente possível: não fazem verdadeiramente parte de nós. Circunscrevem-nos mais estreitamente do que desejaríamos. [...] Quanto maior o desejo, maior a subordinação. [...]. Trechos da poeta e psicanalista russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937), extraída da obra escrita por Stéphane Michaud (Asa, 2001), dando conta de que ela era intrépida, arrapazada, de cabelos curtos e frisados, um olhar independente e firme, uma personalidade enigmática e uma tendência imaginativa, que a levava a fechar-se na solidão de um mundo encantado. Veja mais aqui.

GRITOS DA MINHA DANÇA – [...] Estou a ver-me daqui a algum tempo sentada numa cadeira de esplanada. O dia é estival e o sol, claro e pleno. Temperatura amena. Sinto-me bem. Então agarro a minha Caran d’Ache de estimação (passe a publicidade), abro o meu caderno A4, disposta a estabelecer um breve contrato escrito entre mim e o ambiente circundante – e então acabou-se, não há nada para escrever, bloqueei. [...] Tudo à minha volta assume um cariz gerôntico. Estou a viver como uma espécie em vias de rápida extinção, ao lado da minha irmã, também ela invadida pela poeira branca do tempo, a esboroar-se rapidamente. [...] Não sinto nostalgia do passado. Pois que fiz eu na minha vida que mereça a sacralização das lágrimas fora de prazo? Escrevi uns livros que o tempo vai escorrer para a poeira das coisas esquecidas. [...]. Trechos da obra Gritos da minha dança (Presença, 2003), da escritora portuguesa Fernanda Botelho (1926-2007).

DOIS POEMAS - ANTES DO NASCIMENTO DE UMA DE SUAS CRIANÇAS - Neste mundo inconstante tudo morre, / E um dia ao riso a adversidade ocorre. / Nenhum laço tão forte ou amizade / Fica, se a morte chega de verdade. / As coisas do passado não se cassam, / Coisas comuns que, oh!, sempre, sempre passam. / Cedo que a mim a morte desintegre, / Mais cedo é que ela ceife quem te alegre. / Nós somos ignorantes, mas o amor / Me manda que isto eu venha a te compôr, / Pra que quando o nó que nos fez só uma / Se desfaça, em ti eu viva, embora eu suma. / Se eu viver nem metade da existência, / Que o resto Deus te dê de recompensa. / As faltas que tu sabes que possuo, / Enterrem-nas na cova onde me incluo; / E se alguma virtude houver em mim, / Vívida viva em tua alma e, alfim, / Quando não mais sentires dor, como eu, / Ama quem antes já te protegeu. / Se tuas perdas com ganhos se atestam, / Olha esses bebezinhos que me restam. / E se amares a ti mesma, ou me amares, / Guarda-os das detrações dos mais vulgares. / E se o acaso te mostrar meu verso, / Dê tristes honras a meu fim adverso / E beija este papel por bem dos teus / E receba este último e amargo Adeus. PARA MEU QUERIDO E AMOROSO MARIDO - Se alguma vez dois foram um, então certamente nós. / Se alguma vez foi um homem por sua esposa amado, então você. / Se alguma vez foi feliz uma esposa com um homem, / Comparem-se comigo, vós mulheres, se puderem. / Mais do que minas de ouro valorizo seu amor / Ou do que todas as riquezas do Oriente. / Tal qual rios que não se extinguem é o meu amor, / Nem deve senão o amor por você recompensar. / Seu amor é tal que de modo algum retribuir eu posso. / Que os céus muitas vezes o recompensem, eu suplico. / Que perseverar possamos enquanto vivermos / E quando não mais vivermos, que para sempre viver possamos. Poema da poeta estadunidense inglesa Anne Bradstreet (1612-1672).


A EDUCAÇÃO - A educação tem assumido importante papel nas pautas de discussões mundiais, depois, principalmente, da Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em março de 1990, em Jontien, na Tailândia, onde foram debatidas as necessidades de se compreenderem tanto os instrumentos fundamentais da aprendizagem, como a alfabetização, a expressão oral, a aritmética e a solução de problemas; quanto o conteúdo básico da aprendizagem nos  conhecimentos, capacidades, valores e atitudes, de que necessitam os seres humanos para sobreviver, desenvolver plenamente suas possibilidades, viver e trabalhar dignamente, participar plenamente do desenvolvimento, melhorar sua qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas e continuar aprendendo. Essa importância da educação se reproduz no re-encaminhamento de propostas, revalorização e restauração de realidades, possibilitando um refazer paradigmático adequado às novas realidades proporcionadas pela pós-modernidade, no sentido de acompanhar a velocidade transformadora que caracteriza o tempo presente com as suas mutações constantes e peculiares, exigindo de cada um que se encontre antenado com a habilidade especializada, para que o indivíduo possa agir tanto na direção de metas individuais, quanto na coletividade e no seu meio. Neste tocante, observa Arroyo (1999:36) que: A educação moderna vai se configurando nos confrontos sociais e políticos, ora como um dos instrumento de conquista da liberdade, da participação e da cidadania, ora como um dos mecanismos para controlar e dosar os graus de liberdade, de civilização, de racionalidade e de submissão suportáveis pelas novas formas de produção industrial e pelas novas relações sociais entre os homens. Desta forma, a educação se reposiciona no sentido de alcançar uma amplitude multicultural, se propondo a analisar, criticamente, os currículos monoculturais atuais e procurando formar criticamente os professores, para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres ou com problemas de aprendizagem, e elaborarem estratégicas instrucionais próprias a educação das camadas populares, procurando, antes de mais nada, compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. Ou seja, como bem diz Gadotti (2000:42) "uma estratégia de alfabetização, numa concepção multicultural, deveria partir do relato da experiência do trabalho e de vida deles mesmos, isto é, da biografia dos próprios educandos e não do desenho das letras que é uma técnica anticientífica". Além disso, a educação se articulando com uma política de formação para os direitos humanos, inicialmente centrada no mero estudo e conhecimento dos direitos humanos, e em sua difusão, derivando posteriormente para uma necessidade de aprofundar na matéria. Mais ainda, na ampliação do debate de sua função para a igualdade, na necessidade de propor mudanças mais profundas, que partam da aceitação do próprio sexo, dos diferenciais raciais, das potencialidades e das limitações pessoais, do conhecimento do outro e a convivência enriquecedora de ambos, em condições reais de igualdade de oportunidades. Isso, enfim, levando a um processo que se destine ao desenvolvimento, inicialmente ligada ao âmbito da cooperação, que não se isole dos problemas mais diretamente e amplamente observados, na tentativa de compreender os conflitos se socorrendo de uma explicação global, o que demanda uma resposta cultural diferente, um novo comportamento de indivíduos e sociedades em relação a outras culturas, opondo-se a toda manifestação de discriminação e violência, em favor da justiça (Gadotti, 2000; Yus, 1998; Bordenave & Pereira, 1977).Assim, a escola, neste sentido,  na observação de Gaddotti (2000:41) "(...) precisa atuar num cenário policultural numa época de globalização da economia e das comunicações, de acirramentos das contradições inter e intrapovos e nações, época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo" necessitando, portanto, de uma educação, uma ética e uma cultura da diversidade. Tal colocação chama a atenção para que nesse contexto global, duas dimensões, a seu ver, devem ser destacadas, dentre as quais, a dimensão interdisciplinar, experimentando a vivência de uma realidade global que se inscreva nas experiências cotidianas do aluno, do professor e do povo, articulando o saber, o conhecimento, a vivência, a escola, a comunidade, o meio ambiente, que é o objetivo da interdisciplinaridade traduzida na prática por um trabalho escolar coletivo e solidário; e uma dimensão internacional, engajando as crianças e adolescentes para viver no mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes, preparando o cidadão para participar de uma sociedade planetária, sendo local, como ponto de partida, internacional e intercultural como ponto de chegada (Gadotti, 2000). Neste sentido, defende-se que a escola não deve apenas transmitir conhecimento, mas, também, preocupar-se com a formação global dos alunos, numa visão onde o conhecer e o intervir no real se encontrem. Para isso é preciso saber trabalhar com as diferenças, isto é, é preciso reconhecê-las, não camuflá-las, e aceitar que para se conhecer, precisa-se conhecer o outro. Assim, a escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa, partindo para respeitar a identidade cultural das crianças e adolescentes populares (Gadotti, 2000). É nesta direção que se encaminha o processo educacional para exercício da cidadania, na aquisição de uma consciência de direitos e deveres consignados no processo democrático, construída como um  processo oriundo da prática social e política das classes. Neste sentido, Arroyo (1999:79) defende que "a luta pela cidadania, pelo legítimo, pelos direitos, é o espaço pedagógico onde se dá o verdadeiro processo de formação e constituição do cidadão. A educação não é uma precondição da democracia e da participação, mas é parte, fruto e expressão do processo de sua constituição". O que quer dizer que o conhecimento, a informação e uma visão mais ampla dos valores, são a base para a cidadania em sociedades plurais, cambiantes e cada vez mais complexas, nas quais a hegemonia do Estado, dos partidos ou de um setor social específico tende a ser substituída por uma pluralidade de instituições em equilíbrios instáveis, que envolvem permanente negociação dos conflitos para estabelecer consensos. (Mello: 1998). A necessidade de se voltar as atenções para a cidadania frente a era de competitividade atual que provoca uma luta desigual entre os indivíduos, via aprimoramento, competência e qualificação, traz à lume uma série de questionamentos necessários ao resgate do cidadão mediante as mudanças implementadas pela política da nova ordem expressa através da globalização, vez que os mercados precisam de indivíduos preparados que sejam capazes de desempenhar todo o tipo de atividades e tarefas que definam as novas formas de trabalho, pelo fato que, indivíduos com um nível mais alto de formação, são os que melhores se adaptam às exigências de um mercado de trabalho mutante. O compromisso com a construção da cidadania pede, necessariamente, uma prática voltada para a compreensão da realidade e dos direitos e responsabilidades em relação à vida pessoal inserida na coletividade e, consequentemente, com o seu meio. Isso se reflete de forma tal, no sentido de que o homem não pode mais pensar na vida ou no seu bem-estar, prescindindo de inerências fundamentais que estão peculiarmente interligadas ao seu convívio social, político, educacional, ambiental, dentre outras. E a educação tem sido fortalecida nessa busca de encontro entre a realidade e a consciência cidadã. Neste sentido, observa Bordenave & Pereira (1977:78) que: (...) a educação é um processo social indispensável à formação da mentalidade dos cidadãos de uma sociedade e, assim, inequivocamente, fundamental para a construção das estruturas cognitivas (no nível do indivíduo) e conceituais (no nível da produção social do conhecimento) que lastreiam o desenvolvimento de uma sociedade. Isto quer dizer que será necessário um redimensionamento na exploração das potencialidades produtivas individuais arregimentadas para uma consciência cidadã que qualifique o atual modelo e consagre a liberdade e a igualdade como meio de alcançar o fim educacional no desenvolvimento almejado. E, diante desse fato, a educação é convocada, prioritariamente, para expressar uma nova relação entre o desenvolvimento e os diversos fatores que possam contribuir para associar o crescimento econômico à melhoria da qualidade de vida sem prejuízo à consolidação dos valores humanos. A educação, portanto, vai se dirigindo a levar o ser a um ato cognoscente, tornando indispensável o diálogo, a crítica fundada na criatividade, estimulando a reflexão e ação verdadeira dos homens sobre a realidade, atenta às mudanças e que corresponda à condição dos homens no contexto do exercício da cidadania. Assim, defende Ferreira (1993:221) que "a educação para a cidadania precisaria empenhar-se em expurgar de cada homem as crenças, as fantasias, as ilusões e, quem sabe, as paixões que em nada contribuem para o desenvolvimento de uma consciência crítica". Com isso, observa, então, que as pessoas precisam do conhecimento sistemático para chegar a ser cidadãos, tratando que a cidadania vai além da aquisição do conhecimento de conteúdos sistematizados, necessitando a racionalidade técnica, com o interesse de dominação, ligada aos princípios epistemológicos do positivismo, trabalhando com os pressupostos da predição e controle, com o pressuposto do consenso social; a hermenêutica, cujo interesse é a comunicação, filiada à perspectiva da fenomenologia, na qual o binômio intencionalidade/significação é o ponto fundamental; e a emancipatória, cujo interesse básico é a libertação do homem, e avança na crítica às relações sociais, nas quais se estabelecem os óbices à emancipação dos homens: as relações de poder, as normas e as significações elaboradas pelo próprio sistema. Assim, a cidadania aparece como o resultado da comunicação intersubjetiva, através da qual indivíduos livres concordam em construir e viver numa sociedade melhor (Ferreira, 1993; Giroux, 1986). Mediante isso, destaca-se que educar o homem para a cidadania, significa, então, prepará-lo para viver em sociedade de classe, seguindo padrões de uma política necessária à existência de um mínimo de consenso social. Neste sentido, apreende-se que o homem precisará estar sintonizado de forma equilibrada consigo e com o seu ser, enquanto indivíduo coletivo, agindo interativamente e sendo co-responsável por seus aspectos positivos e negativos advindos das metamorfoses da atualidade.
A EDUCAÇÃO PARA A VIDA E PARA O TRABALHO - Com a promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988, principalmente, a partir do seu art. 205, que define as regras que regerão as coisas afeitas à educação e que será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento do cidadão, preparando-o para a cidadania e qualificando-o para o trabalho. Tais determinações levaram à Lei 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996, estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional, reafirmando que a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. O que quer dizer que fica especificado que as práticas sociais e políticas e as práticas culturais e de comunicação, são integrantes do exercício do cidadão. Inspirada nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, a presente LDB passou a ter a finalidade de desenvolver o educando de forma a prepará-lo para o exercício da cidadania e sua qualificação para a vida e para o trabalho. A sua característica fundamental é tratar a educação delineando princípios norteadores suficientemente maleáveis para que o ensino aconteça em cada momento e em cada local de acordo com as condições necessárias e características próprias, valorizando a integração da escola com o mundo real e do trabalho, além do aproveitamento pela escola, de todo e qualquer conhecimento ou habilidade adquiridos pelo educando em sua vida (Dornas,1997). Tal lei, entretanto, defende que a aprendizagem não esteja condicionada apenas a conteúdos específicos da pedagogia tradicional, mas que além da instrução conteudística de um currículo pré-estabelecido, estejam presentes, transversalmente, temas outros que possibilitem a formação do sujeito, a globalização do conhecimento, a preparação para o trabalho e o exercício da cidadania. Neste tocante, comenta Carneiro (1998:10) que: O texto da 9394/96 oferece um espaço de flexibilidade para que os sistemas de ensino operem, criativamente os seus ordenamentos. A lei respalda a prática da autonomia pedagógica e administrativa e da gestão financeira como condição para a escola executar, realmente, o seu projeto pedagógico. A Lei abrangente como se constata, trata dos princípios básicos, da estrutura do ensino, do calendário escolar, da incumbência de todos, da gestão democrática no ensino público, da competência do estabelecimento de ensino, da educação infantil, passando pela educação especial, à distância e experimental, até o superior, calcada na estética da sensibilidade, na política da igualdade e na ética da identidade, orientando, assim, as escolas pelos valores apresentados nos fundamentos de interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, no respeito ao bem comum e à ordem democrática e no fortalecimento dos vínculos da família, os laços de solidariedade humana e tolerância recíproca. Com isso, a escola proposta será aquela que se direcionará a produzir cidadãos e cidadãs alfabetizadas na compreensão, na atitude crítica e no uso de linguagens várias, dentre elas as audiovisuais e as da informática, no contexto de indivíduos com um conhecimento cultural de base que lhes permita situar a informação e dar-lhe sentido, como, por exemplo, o de integrarem-se a um mercado de trabalho possibilitando o processo de inclusão, além de se tornarem mais solidários e tolerantes. E, neste sentido, a LDB se organiza a partir dos princípios da estética da sensibilidade, que estimula a criatividade, o espírito inventivo, a curiosidade pelo inusitado, a afetividade para facilitar a constituição de identidades capazes de suportar a inquietação, conviver com o incerto, o imprevisível e o diferente; a política da igualdade, no reconhecimento dos direitos humanos e exercício dos direitos e deveres da cidadania como fundamento da preparação do educando para a vida civil com condutas de participação e solidariedade, respeito e senso de responsabilidade, pelo outro e pelo público; e a ética da identidade, que se constitui a partir da estética e da política, para o ideal do humanismo num processo de construção de identidades, pelo desenvolvimento da sensibilidade e pelo reconhecimento do direito à igualdade, além do reconhecimento da identidade própria e do outro. Sedimentada a partir destes pressupostos, a LDB dedica do art. 58 ao 60, todo aparato legislativo para desenvolvimento da educação especial, como sendo a modalidade de educação escolar oferecida preferencial para educandos portadores de necessidades especiais. Tais artigos tratam do atendimento educacional, da oferta, do sistema através de currículos, métodos, técnicas, recursos, dentre outros, visando a terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido, bem como da formação para o trabalho visando a efetiva integração na vida em sociedade e o acesso igualitário aos benefícios. Será, portanto, desenvolvido, em seguida, todo o processo de desenvolvimento da educação especial no sentido de que possibilite a inclusão do portador de deficiências físicas no contexto educacional.

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