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segunda-feira, fevereiro 27, 2023

ROSALÍA DE CASTRO, GAYATRI SPIVAK, EDNA MILLAY & DUDA DO RECIFE

 

Ao som dos álbuns Maestro Duda & Orquestra de Frevo (Vols, 1, 2,3 e 4, 1999), e o concerto Suíte Nordestina (Arranjadores – Orquestra Experimental de Repertório, São Paulo, 2012) do maestro, arranjador, compositor e instrumentista Duda do Recife (José Ursicino da Silva), Patrimônio Vivo de Pernambuco. Veja mais aqui.

 

TRÍPTICO DQP: - Nunca pense antes de começar, faça... - Chegou a horagá, havia de mudar: inadiável. Logo me vi na mesma situação elegíaca de Manguel e comecei pela parte mais difícil: encaixotar os livros. Era uma tarefa das mais dolorosas, apertava o peito. Os invisíveis guardiões cabisbaixos me davam a sensação dos que pereceram nos repositórios do saber e remédios da alma – como se chegasse ao ponto da biblioteca de Alexandria com Hypatia soterrada, ou das desaparecidas de Nínive, Bergamo ou Menin e todo aprendizado milenar às cinzas. Era triste. Quantas vezes, confesso, não vivi na pele de Stephan Dédalos ou do Copperfield de Dickens, personagens outros quase íntimos saltavam dos volumes e invadiam os espaços da casa perpetuando fatos e memórias para meu regalo. Os meus rascunhos, palimpsestos muitos juntos às garrancheiras e aos da cabeceira como se fossem da Babel de Borges, os das páginas que mais risquei, grifando frases e rabiscos pelas margens com as hestórias flagradas por trás das palavras escritas, os que foram emprestados e jamais devolvidos, os que me esperavam pela leitura e os que sepultei sabendo que me matava junto cada vez mais. Nesta hora Gayatri Spivak: A autobiografia é uma ferida onde o sangue da história não seca... Agora me sentindo mais solitário que nunca, tombei alguns pra doação à biblioteca municipal, mais da metade de todo acervo. Tanto doía a ponto de ouvir alguém dizer sem saber quem: Na escuridão eles vão, os sábios e os amáveis... Sabia dos que jamais os leram e preferiam queimá-los todos, dos muitos que quando não detestavam mais zombavam daqueles que liam e que era coisa de doido essa coisa de queimar pestana sem pregar o olho sobre brochuras, capas duras e publicações grossas, gente que tinha horror às impressões, quando não abominavam quem inventou estudo. O que me consolava era a oportunidade de muitos outros o acesso aos que li. Era o que dava alguma satisfação, pelo menos isso. Os demais que ficaram comigo, amontoados agora nalgum canto esquecido e inacessível.


 

Diário das facécias... – Imagem da artista plástica Márcia Gebara, integrante do Grupo Ateliê Virtual 2022. - Com o ocorrido fiquei tão deslocado: os ideais me levaram ao desespero, a vida afundou no lamaçal, inconsolável, deprimente. Havia de superar e eu menino outra vez, uma mão na frente, outra atrás. Em meu consolo Edna Millay: A infância não vai do nascimento até certa idade, e a certa altura a criança está crescida, deixando de lado as coisas de criança. A infância é o reino onde ninguém morre... Tentei desfazer o nó na garganta e, quase refeito, segui adiante sobrecarregado de novas esperanças. Não fosse Elizabeth George estaria numa encruzilhada: As expectativas destroem nossa paz de espírito. São decepções futuras, planejadas com antecedência. O passado não pode ser mudado, pode? Isso só pode ser perdoado... E lá ia eu Senécio de Klee, pseudo Arlequim de Goldoni – nem para isso eu servia, levando tudo nos peitos como desse, no meu soturno ensimesmamento...


 

Só diga até amanhã, nada mais... – Imagem do artista visual Ricardo Aydar, integrante do Grupo Ateliê Virtual 2022. – Entre as mãos, a surpresa do momento: o livro que ela me dera. Sim, foi numa tarde de décadas atrás, ela se parecia com A moça do brinco de pérola de Vermeer, sobressaindo-se a lágrima dos deuses iluminando seus olhos e lábios na face quase oriental. Pediu-me um favor e gratificou minha gentileza com Marlowe: Quem pode dizer que amou sem ter amado à primeira vista? Todos vivem para morrer e sobem para cair... Despediu-se graciosamente e, no dia seguinte, quase Hannah do Der Varleser de Schlink, quase a personagem de Kate Winslet das cenas do The Reader de Stephen Daldry, assim, ambivalente, na verdade, eloquentemente bela e muito mais que antes a me presentear um livro. Mais que grato, agora em dívida, ouvi-lhe Rosalía de Castro: Eu vejo meu caminho, mas não sei onde ele leva. Não saber para onde vou é o que me inspira a percorrê-lo... Para mim era o hálito da deusa Hator que debruava sobre mim, tratado agora como se fosse xilógrafo ou toreumatólogo pelo terraço perfumado pela presença daquela estranha simpática e a me mostrar o busto de quartzita rosada da Nefertiti, enquanto apontava para os desenhos das figuras nas paredes das grutas de Altamira e Lascaux. Estava, confesso, perdido e ela aproximando-se mais da parede, deslizou o dedo indicador acrescentando sorridente outros desenhos aos dali expostos. Sorriu com tanta graça que me flagrou olhos nela completamente aturdido. Não levou em conta a minha desorientação, começou a gesticular no ar e a paisagem ia mudando e já era outra localidade aos meus olhos ali na hora. Viu-me espantado, tomou minhas mãos às suas e levou-me a dançar uma ciranda envolvente corredor adentro, as vestes se soltando ao vento, deitando-se desnuda a um canto como se fosse a Vênus de Agatarco para me premiar muito mais por dias e noites. Quase um sonho, a névoa onírica se dissipava e previ ao longo do tempo a despedida. Pedi-lhe apenas um até amanhã, nem me disse adeus e nunca mais. Até mais ver.

 

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quarta-feira, abril 08, 2020

HYPATIA, DEBORA DINIZ, JANE AUSTEN, LUÍS GAMA, MARIE TAGLIONI & FÁTIMA GUIMARÃES


CATANDO NOS MANUSCRITOS AS GARATUJAS DO TEMPO - UMA: VIDA OBSCURA – Nesse período de clausura, resolvi rever alguns livros nas estantes. Alguns volumes, brochuras, livros que nem me lembrava que já havia lido e relido. Parei numas biografias bastante obscuras. Além de rever as anotações  que sempre fiz riscando, grifando e marcando os próprios livros durante as leituras, fui ver dar uma passeio naquelas que já estavam tanto em livros como levadas ao cinema. Uma delas, bastante obscura, a da Jane Austen: Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente. Coisa que talvez surpreenda muito a você, pois os seus sentimentos são tão guardados que parecem não existir realmente... Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos. Não tenho a menor noção de amar as pessoas pela metade, não é a minha natureza. Somos todos tolos no amor. Sou metade agonia, metade esperança. O mais curioso é que, apesar do sucesso obtido pela escritora, ela nunca se casou, escreveu a maior parte de seus sucessos na adolescência e, reduzida aos afazeres domésticos, morreu aos 42 anos de idade, supostamente envenenada. Nada pode ser lá muito apurado, a família destruiu muitas de suas cartas, restando apenas algumas que serviram de base para as biografias publicadas. O que ficou de mesmo foi a sua literatura, isso sim. DUAS: NO MEIO DUMAS SACADAS CERTEIRAS – Outra me levou a refletir sobre a questão da liberdade. O que tem de papo estéril a respeito, deixa para lá. Fui fundo, revendo meus garranchos nos alfarrábios a respeito deste verbete. E dei de cara com o Isaac Asimov: A liberdade não tem preço, a mera possibilidade de obtê-la já vale a pena. Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los. Apenas uma guerra é permitida à espécie humana: a guerra contra a extinção. O maior bem do homem é uma mente inquieta. Nada mais apropriado para este momento, hem? TRÊS: DO POSSÍVEL AO IMPOSSÍVEL, HAJA IMAGINAÇÃO - Realmente, para viver precisa-se de uma boa dose de imaginação. Principalmente porque aprendi que o desespero é exatamente a ausência dela. Então, sou como se diz no popular: vivo no mundo da lua. Mas nada que me acrescente ou me reduza, apenas voo. O bom mesmo foi pegar nos meus caderninhos de anotações o que viajei ainda menino nas obras de Júlio Verne: Neste mundo as coisas que nos dão prazer andam a par das que nos afligem e desgostam. Os obstáculos existem para serem vencidos; quanto aos perigos, quem pode se orgulhar de fugir deles? Tudo é perigo na vida. A imbecilidade humana não tem limite. É. E vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: A vida é crescimento, e quanto mais viajamos, mais verdade podemos entender. Entender as coisas que nos cercam é a melhor preparação para entender as coisas que estão além. Independentemente da nossa cor, raça e religião, somos irmãos. A verdade não muda porque é ou não é acreditada pela maioria das pessoas. Deus criou o homem como um animal social, com inclinação e sob a necessidade de viver com os seres de sua própria espécie, e também dotado de linguagem, para ser o grande instrumento comum à sociedade. Fábulas devem ser ensinadas como fábulas, mitos como mitos e milagres, como fantasias poéticas. Ensinar superstições como se fossem verdades é terrível. A mente da criança aceita e acredita, e só com grande dor e, talvez, a tragédia pode se livrar deles ao longo dos anos. De fato, as pessoas lutam por uma superstição tanto quanto por uma verdade, ou até mais. Desde uma superstição é tão intangível que é difícil provar para refutá-la, e a verdade é um ponto de vista e, portanto, pode ser alterado. Todas as religiões formais são falaciosas e não devem ser aceitas por respeito a si mesmas. Aquele que influencia o pensamento do seu tempo, influencia todos os momentos que o seguem. Deixe sua opinião para a eternidade. Pensamento da filósofa neoplatônica, Hypatia de Alexandria (350-415 d.C.). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O BRASIL IRRESPIRÁVEL - [...] Eu contagio no local que eu ocupo socialmente. Não sou desterrada. Não sou refugiada. Qual é a minha condição? Quando eu não consigo mais dar aula e nem retornar ao meu país, qual é a minha situação? Basicamente são homens ressentidos, de 30 a 40 anos, ligados a grupos de extrema direita, neonazistas e incels (celibatários involuntários que atrelam o fracasso de suas vidas amorosas a uma suposta banalização das relações sexuais). Enxergam a ascensão de mulheres e LGBTs como afronta à masculinidade e não costumam deixar rastros nem indícios de uma célula de articulação do movimento. Orientadas por uma lógica religiosa messiânica, as políticas anunciadas pelo governo e a ministra colocam em risco os direitos das mulheres. Embora eu mantenha a minha sanidade com a condição de que são bravateiros, eu não posso arriscar a vida de estudantes na minha condição. Temos que encontrar um caminho, além do penal, de provocação do Estado. Assim como outros defensores dos direitos humanos, não posso me permitir a cruzar limites sob o risco de virar mártir. É um perigo constante defender posições no país que mais mata ativistas dos direitos humanos. Não saí do Brasil porque fui ameaçada, mas para proteger outras pessoas. Se as ameaças fossem somente contra mim, eu jamais sairia. Mais do que nunca, mesmo à distância, eu sigo fazendo meu trabalho. Não vão me calar. Trecho do desabafo da antropóloga, professora universitária, pesquisadora, ensaísta e documentarista brasileira, Debora Diniz, que desenvolve projetos de pesquisa sobre bioética, feminismo, direitos humanos e saúde. Ela é pesquisadora do Centro de Estudos Latino-Americanos e Caribenhos na Brown University e foi contemplada com o prêmio internacional acadêmico, Dan David Prize, por sua atuação em prol da igualdade de gênero. Veja mais aqui.

QUEM SOU EU?
Quem sou eu? Que importa quem? / Sou um trovador proscrito, / Que trago na fronte escrito / Esta palavra — Ninguém! — / Amo o pobre, deixo o rico, / Vivo como o Tico-tico; / Não me envolvo em torvelinho, / Vivo só no meu cantinho: / Da grandeza sempre longe, / Como vive o pobre monge. / Tenho mui poucos amigos, / Porém bons, que são antigos, / Fujo sempre à hipocrisia, / À sandice, à fidalguia; / Das manadas de Barões? / Anjo Bento, antes trovões. / Faço versos, não sou vate, / Digo muito disparate, / Mas só rendo obediência / À virtude, à inteligência: / Eis aqui o Getulino / Que no pletro anda mofino. / Sei que é louco e que é pateta / Quem se mete a ser poeta; / Que no século das luzes, / Os birbantes mais lapuzes, / Compram negros e comendas, / Têm brasões, não — das Kalendas, / E, com tretas e com furtos / Vão subindo a passos curtos; / Fazem grossa pepineira, / Só pela arte do Vieira, / E com jeito e proteções, / Galgam altas posições! / Mas eu sempre vigiando / Nessa súcia vou malhando / De tratantes, bem ou mal / Com semblante festival. / Dou de rijo no pedante / De pílulas fabricante, / Que blasona arte divina, / Com sulfatos de quinina, / Trabusanas, xaropadas, / E mil outras patacoadas, / Que, sem pinga de rubor, / Diz a todos, que é Doutor! / Não tolero o magistrado, / Que do brio descuidado, / Vende a lei, trai a justiça / — Faz a todos injustiça — / Com rigor deprime o pobre / Presta abrigo ao rico, ao nobre, / E só acha horrendo crime / No mendigo, que deprime. / - Neste dou com dupla força, / Té que a manha perca ou torça. / Fujo às léguas do lojista, / Do beato e do sacrista — / Crocodilos disfarçados, / Que se fazem muito honrados, / Mas que, tendo ocasião, / São mais feroz que o Leão. / Fujo ao cego lisonjeiro, / Que, qual ramo de salgueiro, / Maleável, sem firmeza, / Vive à lei da natureza; / Que, conforme sopra o vento, / Dá mil voltas num momento. / O que sou, e como penso, / Aqui vai com todo o senso, / Posto que já veja irados / Muitos lorpas enfunados, / Vomitando maldições, / Contra as minhas reflexões. / Eu bem sei que sou qual Grilo, / De maçante e mau estilo; / E que os homens poderosos / Desta arenga receosos / Hão de chamar-me Tarelo, / Bode, negro, Mongibelo; / Porém eu que não me abalo, / Vou tangendo o meu badalo / Com repique impertinente, / Pondo a trote muita gente. / Se negro sou, ou sou bode / Pouco importa. O que isto pode? / Bodes há de toda a casta, / Pois que a espécie é muito vasta. / Há cinzentos, há rajados, / Baios, pampas e malhados, / Bodes negros, bodes brancos, / E, sejamos todos francos, / Uns plebeus, e outros nobres, / Bodes ricos, bodes pobres, / Bodes sábios, importantes, / E também alguns tratantes... / Aqui, nesta boa terra / Marram todos, tudo berra; / Nobres Condes e Duquesas, / Ricas Damas e Marquesas, / Deputados, senadores, / Gentis-homens, veadores; / Belas Damas emproadas, / De nobreza empantufadas; / Repimpados principotes, / Orgulhosos fidalgotes, / Frades, Bispos, Cardeais, / Fanfarrões imperiais, / Gentes pobres, nobres gentes / Em todos há meus parentes. / Entre a brava militança / Fulge e brilha alta bodança; / Guardas, Cabos, Furriéis, / Brigadeiros, Coronéis, / Destemidos Marechais, / Rutilantes Generais, / Capitães de mar-e-guerra, / — Tudo marra, tudo berra — / Na suprema eternidade, / Onde habita a Divindade, / Bodes há santificados, / Que por nós são adorados. / Entre o coro dos Anjinhos / Também há muitos bodinhos. — / O amante de Syiringa / Tinha pêlo e má catinga; / O deus Mendes, pelas contas, / Na cabeça tinha pontas; / Jove quando foi menino, / Chupitou leite caprino; / E, segundo o antigo mito, / Também Fauno foi cabrito. / Nos domínios de Plutão, / Guarda um bode o Alcorão; / Nos lundus e nas modinhas / São cantadas as bodinhas: / Pois se todos têm rabicho, / Para que tanto capricho? / Haja paz, haja alegria, / Folgue e brinque a bodaria; / Cesse pois a matinada, / Porque tudo é bodarrada!
QUEM SOU EU? – Poema do escritor, jornalista, rábula e orador Luís Gama (1830-1882), considerado o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil e que conquistou judicialmente a própria liberdade, atuando na advocacia em prol dos cativos. Sua obra foi reunida no volume Luiz Gama e suas poesias satíricas (Cátedra/INL, 1981), por Júlio Romão da Silva. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina sueca Marie Taglioni (1804-1884), a Condessa de Voisin da era do balé romântico, uma figura central na história da dança europeia. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
A dança exige dedicação e disciplina. Tenho compromisso e exigência com cada aluno. Mas lembro que a dança sempre permite mais. A dança não tem limites.
FÁTIMA GUIMARÃES & BALLET ENDANÇA
A arte da coreógrafa e professora Fátima Guimarães, criadora do Espaço Endança, que tem por objetivo a formação em Ballet Clássico, baseada na metodologia Vaganova.
A literatura de Sebastião Uchoa Leite (1925-2003) aqui & aqui.
A poesia de Vernaide Wanderley aqui.
A música de Irah Caldeira aqui.
(Des)encantos modernos: histórias da cidade do Recife na década de vinte, de Antonio Paulo Rezende aqui.
O cordel de Jorge Filó aqui.
A arte de Fernando Alves aqui.
Jaqueira aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, fevereiro 18, 2020

NÍKOS KAZANTZÁKIS, JURGA IVANAUSKAITĖ, MAX KLINGER & SOM AO REDOR


O TEMPO PASSA E A GENTE NA MESMA DESDE NUM SEI QUANDO – UMA: AGORA É TARDE! ANTES DELA, OUTRA INÊS JÁ ERA MORTA – Todo mundo já ouviu: agora é tarde, Inês é morta! Pois é, isso porque lá pelo século 14, o primeiro D. Pedro estava enrolado com a dama de companhia Inês de Castro. Ele foi obrigado a casar com outra, a Constança, e assim, tornaram-se amantes. Como sempre ocorre aqui, ali e acolá, deu o maior escândalo. De repente, ela aparece degolada. Como? Quando? Onde? Quase como ainda hoje em dia, soube-se logo quem mandou e quem executou. Ele vingou-se dos assassinos, arrancando o coração deles com as mãos. Aí, só depois de morta, ela tornou-se rainha. É isso. Antes dela, porém, uma outra Inês, a Inês Visconti, senhora de Mântua e esposa do rei, teve sina semelhante. Foi assim: o pai dela era um déspota que vivia em guerra contra o papado. Por conta disso, foi deposto, aprisionado e morreu envenenado. Morreu, mas o prestígio ficou. Ela, aos 13 anos, casou-se com outro menino de 12, que era filho dum rei. Aí, um belo dia, casamento consumado, o marido armou uma trama: precisava romper a aliança com o pai dela por outra mais vantajosa e, por conta disso, acusou-a de traí-lo com um certo cavaleiro de nome Antonio da Scandiano. Pelo crime de adultério, os supostos amantes adúlteros, foram executados no dia 7 de fevereiro de 1391 e enterrados na Piazza Pallone. O impune se deu bem. Cá comigo: isso se repete todo dia até hoje, hem? DUAS: OUTRA BRABA - Não menos diferente foi o destino de Hypatia de Alexandria, lá pelos 4 séculos depois de Jesus. Isso porque, entre outras e tantas coisas, ela costumava dizer: Defenda seu direito de pensar, porque pensar de maneira errada é melhor do que não pensar. Foi o bastante para o cristianismo ceifar a vida dela. Ih, os tempos atuais não são muito diferentes desse tempo não. TRÊS: SERÁ QUE A GENTE PODE INVENTAR UMA NOVA FORMA DE VIVER? – Sei não, hem? Entre mentiras disfarçadas de verdades e verdades que se produzem encapadas dum bocado de equívocos interpretativos, valho-me de Clarice Lispector: Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade. Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: uma, a ascendente, rumo à síntese, à vida, à imortalidade; segunda, a descendente, rumo à dissolução, à matéria, à morte. [...] E as duas correntes se originam no imo da substância primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima, desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas; mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens - à luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas. Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem fim, e por ela regular o nosso pensamento e ação. [...] Entre todos os impulsos de Deus, qual o que o homem pode perceber? Somente este distinguimos: uma linha rubra sobre a terra, uma rubra linha de sangue que luta por ascender, da matéria inanimada às plantas, das plantas aos animais, dos animais ao homem. Esse indestrutível ritmo pré-humano é o único curso visível, sobre esta terra, do Invisível. Plantas, animais e homens são os degraus que Deus criou para poder pisar e ascender. Árdua, terrível, infinda ascensão. Nesse assalto, Deus vencerá ou será vencido? Existe vitória? Existe prêmio? Nosso corpo se arruinará, voltará ao seio da terra, mas Àquele que por um instante o atravessou, que acontecerá? [...] Não me importa que rosto deram outras épocas e outros povos à prodigiosa essência sem rosto. Encheram-na de virtudes humanas, de recompensas e punições, de certezas. Deram um rosto às suas próprias esperanças e temores, impuseram um ritmo à sua própria anarquia, encontraram uma justificação superior para viver e labutar. Cumpriram seu dever. [...] É, pelo contrário, homem e mulher a um só tempo, mortal e imortal, excremento e espírito. Concebe, fecunda e mata; amor e morte, conjuntamente, torna a conceber e matar - e em largos passos de dança vai além dos limites da lógica, onde não há lugar para antinomias. Meu Deus não é onipotente. Peleja, enfrenta o perigo a todo momento, treme, tropeça em cada ser vivo, grita. É incessantemente vencido, mas torna a erguer-se, sujo de sangue e terra, e recomeça a luta. [...] Meu Deus não é todo bondade. Está cheio de aspereza, de selvagem retidão, e é sem piedade alguma que escolhe sempre o melhor. Não se compadece, não se importa nem com seres humanos nem com animais, muito menos com virtudes ou ideias. Ama-os por um instante, esmaga-os para sempre e segue adiante. [...] Meu Deus não é onisciente. Seu cérebro é um novelo de luz e trevas que ele forceja por desembaraçar dentro do labirinto da carne. [...] Havia uma prisão; a prisão se rompeu, foram libertadas as forças terríveis ali encerradas e o ponto não existe mais! Esse grau último da ascese se chama Silêncio. Não porque seu conteúdo seja o supremo, inexprimível desespero ou a suprema, inexprimível alegria e esperança. Nem porque seja o supremo conhecimento que não se digna a falar, ou a suprema ignorância que não consegue falar. Silêncio quer dizer: Cada qual, após cumprir seu tempo de serviço como combatente, chega ao mais alto cimo do esforço - passados os combates, não luta mais, não grita mais: amadurece por inteiro, silenciosamente, indissoluvelmente, eternamente, com o Universo. [...] não existe doutrina, não existe Redentor para abrir caminho. Não existe tampouco caminho a ser aberto [...]. Trechos extraídos da obra Ascese: Os Salvadores de Deus. (Ática, 1997). do escritor e pensador grego Níkos Kazantzákis (1883-1957). Veja mais aqui & aqui.

NO AVIÃO – Aqueles sentados perto / a saída de emergência / deveria abandonar tudo / mas esperança. / Sem dúvida sem dúvida / bolsas e maletas / impedirá uma queda de cabeça / do forro que cai. / Envoltórios, mantas ou mantos / também não são necessários, / espíritos interespaciais famintos / pode ficar enredado neles. / As barbas dos poetas / são menos do que desejáveis, / o diabo os agarra / em primeiro lugar. / É aconselhável fazer a barba / até pêlos nas pernas, / quando eretos eles se tornam afiados / e pode rasgar as nuvens. / É necessário / tire todas as roupas / estar nu como recém-nascidos, / amantes ou cadáveres. / A nudez é inevitável / em momentos cruciais / como no Paraíso e no Inferno da Bosch / ou no Juízo Final de Memling. / Todo mundo caiu uma vez / já está fervilhando / com sorrisos cruéis / entre as asas da hélice. Poema da escritora, pintora e fotógrafa lituana Jurga Ivanauskaitė (1961-2007).

SOM AO REDOR
O premiado longa-metragem Som ao redor (2013), dirigido por Kléber Mendonça Filho, conta a história da chegada de uma milícia de rua no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife e a reação dos moradores com a sua atuação na segurança local. Na verdade, a vida dos residentes de uma rua de classe média de Recife toma um rumo inesperado quando uma empresa de segurança particular é contratada para trazer paz aos moradores. Para alguns deles, a presença dos guardas cria mais tensão do que alívio. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor, pintor e artista gráfico alemão Max Klinger (1857-1920). Veja mais aquiaqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre aqui, aqui e aqui.
Educação como prática da liberdade de Paulo Freire (1921-1997) aqui.
A poesia de Jayme Griz aqui, aqui & aqui.
A arte de Maurício Silva aqui.
A sedutora da noite aqui.
O município de Quipapá aqui, aqui & aqui
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terça-feira, março 08, 2016

TEREZA COSTA REGO, HYPATIA, CHARLES WILLIAM MITCHELL & TODO DIA É DIA DA MULHER


TODO DIA É DIA DA MULHER – Desde as mais remotas eras que as mulheres têm enfrentado o predomínio do homem, principalmente com a adoção do patriarcalismo. Contudo, tem-se observado que até na vertente criacionista, dá-se a existência de Lilith, como aquela que não se curvou ao jugo de Adão. Além do mais, há registros históricos na antiguidade, de exemplos como o de Nefertiti, Cleópatra, entre outras tantas mulheres que desde o período antigo se tornaram rainhas e assumiram postos de comando, exercendo o poder e o mando em pé de igualdade com o homem, conforme já registrado nos estudos aqui publicados e que estão logo abaixo relacionados com seus respectivos links de acesso.


Imagem: Hipátia antes de ser morta na igreja (1885), do pintor inglês Charles William Mitchell (1854-1903).

Um caso simbólico das lutas das mulheres desde os mais antigos registros históricos, é o da filósofa neoplatonista grega Hypatia (351-415), chefe da escola de Alexandria e que lecionava filosofia e astronomia. Ela foi assassinada por uma multidão enfurecida de cristãos, arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi cruelmente torturada até a morte, depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre o governador Orestes e o bispo Cirilo de Alexandria. Depois de morta, o seu corpo foi lançado a uma fogueira e o seu assassinato, segundo historiadores, marcou o fim da antiguidade clássica, efetivando a queda da vida intelectual em Alexandria. Veja mais a respeito aqui e aqui.
Diversos acontecimentos se sucederam durante a Idade Média e Moderna, conforme registrado e verificável nos links abaixo, bem como em outros posts aqui publicados.
Já no século XX, deu-se o movimento do operariado estadunidense iniciado em 1903, proporcionando a criação da Women’s Trade Union League, enfrentando as crises industriais de 1907 e 1909, redundando na grande manifestação realizada em 1908, quando as mulheres socialistas denominaram esse movimento de Dia da Mulher.
As greves de 1910 levadas a cabo por protestos étnicos e políticos, levaram ao atendimento de uma série de reivindicações da classe trabalhadora.
Em 1911, um grande incêndio irrompeu na Triangle Shirtwaist Company, no qual morreram 146 pessoas, 125 mulheres e 21 homens, a maioria deles judeus.
Já em 1917, exatamente no dia 8 de março, trabalhadoras russas do setor de tecelagem entraram em greve por melhores condições de vida e trabalho, e contra a entrada do czar na Primeira Guerra Mundial. A partir de então, passou-se a defender essa data como o dia que deveria ser dedicado à mulher, abrangendo as lutas delas tanto no continente americano, como no continente europeu e asiático, por melhores condições de vida e de trabalho, como também pelo direito de voto.
Nas décadas seguintes uma série de acontecimentos foi deflagrada e até os dias hoje, as mulheres mantêm em pleno século XXI, o combate a eventos de natureza sórdida e misógina.
Faz-se necessário mencionar que todas as lutas das mulheres incorporaram não só as suas reivindicações, como a das crianças, dos idosos, dos oprimidos, de sufrágio, da educação para todos e de todas as pautas contendo as condições necessárias para o respeito à dignidade do ser humano.


Imagem. A arte da pintora Tereza Costa Rego. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:


Imagem. A arte da pintora Tereza Costa Rego. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais: Andrômaca & as Troianas de Eurípedes, Helena Blavatsky, Sylvia Plath, Antonio Maria Esquivel, Carole Bayer Sager, Andrea Gastaldi, José Vilche, Eloá Jacobina & Maria Helena Khüner, Mulheres no Mundo, Maria Nonita & Baile Perfumado aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem. A arte da pintora Tereza Costa Rego.
Veja aqui, aqui, aqui e aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...