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segunda-feira, março 18, 2024

JUDITH BUTLER, EDA AHI, EVA GARCÍA SÁENZ, DAMA DO TEATRO & EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

A música contemporânea possui uma ligação intrínseca com a música do passado; muitas vezes, um passado muito distante. Como um processo contínuo que nunca se rompeu completamente... Toquem, gravem e divulguem obras de compositoras, de compositores, de grupos étnicos não privilegiados pela mídia...

Ao som de O porto e outros portos (2020), Pêndulo (2021) e Canção de outono (USP-Filarmônica, 2023), da compositora Silvia Berg, que também é regente, professora e pesquisadora da USP.

 

SALVE A MÚTUA LOQUACIDADE DOS ENTROCAMENTOS ESCATOLÓGICOS... - Um passo, tal uma jogada: não atravessará impune o tabuleiro, ninguém. Uma tuia de imprevisibilidades no ar e por um triz. Livre-se ou passe bem. Pode-se, de qualquer forma, a tentativa de burlar pelo ileísmo e levar como se fosse fulano escapando de gaslighting, síndrome de juvenoia e outras sindêmicas calamidades dessa doida pós-modernidade. Lá ou cá, há quem sofra de abstinência financeira e do paradoxo de Salomão, quando menos mal: se o terraço caiu, logo logo não sobrará nada além do quintal devastado. Isso poderia ser o caos, para dizer o mínimo. O que não é nada para quem nunca teve moderação com gastos e cois&tal. Na vera, melhor seguir Ariana Harwicz: Devemos parecer entusiasmados, devemos mostrar aos outros que aproveitamos a vida... Mesmo que saiba que ninguém está isento de lapadas tidas por injustificáveis na vida, dizer asneiras ou blasfêmias será sempre como se aliviando na privada. Ato falho que seja é sempre ofensa e todo mundo vive de véspera: quando chega o grande dia já não tem a menor graça. E se não tiver uma panelinha agitando todo coreto, o resto é tudo do contra: todos são cúmplices até que se prove qualquer inocência. Vale o que disse Olive Schriner: Sem sonhos e fantasmas o homem não pode existir... Então, mãos à obra! Faz tempo que a estupidez chegou aqui pra ficar e isso há uns 500 anos... hoje quem não é estúpido na entrada, deixa o rastro fedorento na saída. Nem ligue se tudo parecia com as risadagens aos peidos de festa do Mozart - no cânone em si bemol maior, Leck mich im Arsch, para seis vozes em uma rodada de três partes, K231 (K.382c). Maior alarido. Acha pouco? Na verdade, a insegurança já faz parte do pacote! Não esquenta! Se o fim está próximo na ebulição global, com o negacionismo geral do alpinismo social das cantilenas daqueloutros tribalistas qua andam feito carros blindados nas nonsenses pirotécnicas espalhafatosas de sua Planolância: ars moriend! Já dizia Carla Porta Musa: O que conta, digo a mim mesmo, é o minuto claro... O outro pertence ao passado... Sim, porque o melhor mesmo seria ficar de bocaberta e papo pro ar diante duma Anjana da Cantábria, querendo fazer de mim o seu báculo. Seria uma cosmovisão viandante, maior regalo! Resta somente começar, recomeçar e de novo tudo outra vez e novamente. Do zero e, daí, sobreviver: luto e luta. Salvemo-nos, terrabolistas! Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

INVERNO NO LESTE - o inverno respira pela janela mais uma vez, \ telhados vazam e seu nariz pinga,\ já vem pontificando:\ e aí, inverno, o fim de todos é igual:\ austero, frio e escuro como neblina.\ algumas terras não estão cobertas por um manto de neve, \ mas uma mortalha funerária genuína.\ a luz desenha sulcos e a água congela nos canos.\ Fevereiro se estende como um sorriso amargo.\ mas na adega, como maçãs de inverno\ (nem tão rosado),\ as pessoas se guardam\ então eles podem durar até a primavera.\ alguém mais os está preservando?

AULAS DE DANÇA COM GRAVIDADE - eles dançam com você, gravidade, todo mundo. \ mas só os corajosos sabem os passos que devem tomar. \ você tem aquela característica cruel, mas equalizadora: \ tanto a pedra quanto a pena são atraídas por você.\ usando sua coroa que desce em direção ao chão, \ eu caminho obedientemente para onde você me guia. \ Eu te amo muito, querida gravidade, \ e não trocaria você, nem por asas.

Poemas da poeta, diplomata e tradutora estoniana Eda Ahi, autora de obras como Maskiball (2012), Sadam (2018) e Sõda ja rahutus (2019).

 

O SILÊNCIO DA CIDADE BRANCA - [...] Às vezes, a memória enfia tachinhas em momentos triviais do passado e os fixa para sempre, mesmo que “para sempre” pareça muito tempo. [...] Entendi que a dor também une as pessoas, talvez mais do que as alegrias, porque, como as pessoas boas e ingratas que todos somos, logo nos esquecemos delas. [...] Pessoas feridas são perigosas porque sabem que podem sobreviver. [...] Às vezes o tempo no calendário não tem nada a ver com o tempo mental ou emocional que cada pessoa vive dentro de si. [...] Tem gente que sabe receber golpes, aprende a recebê-los de novo e de novo, essa é a sua força. Mas não sabem fugir, a mera ideia de um mundo desconhecido os paralisa. [...] Estou cansado de esperar que as circunstâncias sejam perfeitas, elas nunca são. [...] Ele não precisava de palavras para estar certo, geralmente estava. A razão do sensato. [...]. Trechos extraídos da obra El silencio de la ciudad blanca: Trilogia de la Ciudad Blanca (Planeta, 2016), da escritora espanhola Eva García Sáenz de Urturi. Veja mais aqui.

 

A FORÇA DA NÃO-VIOLÊNCIA - [...] O fato de os esforços políticos de dissidência e crítica serem frequentemente rotulados como “violentos” pelas próprias autoridades estatais que são ameaçadas por esses esforços não é motivo para desesperar no uso da linguagem. Significa apenas que temos de expandir e refinar o vocabulário político para pensar sobre a violência e a resistência à violência, tendo em conta como esse vocabulário é distorcido e utilizado para proteger as autoridades violentas contra a crítica e a oposição. Quando as críticas à continuação da violência colonial são consideradas violentas (Palestina), quando uma petição pela paz é reformulada como um acto de guerra (Turquia), quando as lutas pela igualdade e pela liberdade são construídas como ameaças violentas à segurança do Estado (Black Lives Matter), ou quando o “género” é retratado como um arsenal nuclear dirigido contra a família (ideologia anti-género), então estamos a operar no meio de formas de fantasmagoria com consequências políticas. [...] Por que uma petição pela paz é chamada de ato “violento”? Por que uma barricada humana que impede a polícia é chamada de ato de agressão “violenta”? Em que condições e em que enquadramentos ocorre a inversão da violência e da não-violência? Não há como praticar a não-violência sem primeiro interpretar a violência e a não-violência, especialmente num mundo em que a violência é cada vez mais justificada em nome da segurança, do nacionalismo e do neofascismo. O Estado monopoliza a violência ao chamar os seus críticos de “violentos”: sabemos disso através de Max Weber, Antonio Gramsci e de Benjamin. Portanto, devemos ser cautelosos com aqueles que afirmam que a violência é necessária para conter ou controlar a violência; aqueles que elogiam as forças da lei, incluindo a polícia e as prisões, como árbitros finais. Opor-se à violência é compreender que a violência nem sempre assume a forma do golpe [...] Não há como nomear algo como violência ou não-violência sem invocar imediatamente o quadro em que essa designação faz sentido. Isto pode parecer uma forma de relativismo – o que vocês chamam de violência, eu não chamo de violência, e assim por diante – mas é algo bem diferente. Na opinião de Benjamin, a violência legal renomeia regularmente o seu próprio carácter violento como coerção justificável ou força legítima, higienizando assim a violência em jogo. Benjamin documenta o que acontece com termos como “violência” e “não-violência”, uma vez que compreendemos que os quadros dentro dos quais estas definições são asseguradas estão oscilando. Ele observa que um regime jurídico que procura monopolizar a violência deve chamar cada ameaça ou desafio a esse regime de “violento”. Portanto, pode renomear a sua própria violência como força necessária ou obrigatória, até mesmo como coerção justificável, e porque funciona através da lei, como a lei, é legal e, portanto, justificada. [...] Embora eu não siga inteiramente Benjamin até à sua conclusão anarquista, concordo com a sua afirmação de que não podemos simplesmente assumir uma definição de violência e depois começar os nossos debates morais sobre a justificação sem primeiro examinar criticamente como a violência foi circunscrita e qual a versão que se presume. no debate em questão. Um procedimento crítico perguntaria também sobre o próprio esquema justificativo em funcionamento num tal debate, as suas origens históricas, os seus pressupostos e execuções. A razão pela qual não podemos começar por afirmar que tipo de violência é justificada e o que não o é é que a “violência” é desde o início definida dentro de certos enquadramentos e chega até nós sempre já interpretada, “elaborada” pelo seu enquadramento. Dificilmente podemos ser a favor ou contra algo cuja própria definição nos escapa, ou que aparece de formas contraditórias que não temos explicação. [...] A tarefa passa, assim, a ser rastrear as formas padronizadas que a violência procura nomear como violento aquilo que lhe resiste, e como o carácter violento de um regime jurídico é exposto à medida que reprime à força a dissidência, pune os trabalhadores que recusam os termos exploratórios dos contratos, sequestra minorias , aprisiona seus críticos e expulsa seus potenciais rivais [...] Se a proibição de matar permanecer na presunção de que todas as vidas são valiosas – que têm valor como vidas, em seu estatuto como seres vivos – então a universalidade da afirmação só se mantém na condição de que o valor se estenda igualmente a todos os seres vivos. Isto significa que temos que pensar não apenas nas pessoas, mas também nos animais; e não apenas sobre criaturas vivas, mas sobre processos vivos, sistemas e formas de vida. [...] A questão seria repensar a relacionalidade da vida regularmente coberta por tipologias que distinguem formas de vida. Nessa relacionalidade, eu incluiria conceitos de interdependência, e não apenas aqueles entre criaturas humanas vivas – pois as criaturas humanas que vivem em algum lugar, necessitando de solo e água para a continuação da vida, também vivem num mundo onde as reivindicações das criaturas não-humanas à vida se sobrepõe claramente à reivindicação humana, e onde os não-humanos e os humanos são também, por vezes, bastante dependentes uns dos outros para a vida. Essas zonas de vida (ou vivência) sobrepostas devem ser pensadas como relacionais e processuais, mas também, cada uma delas, como exigindo condições para a salvaguarda da vida. [...]. Trechos extraídos da obra The Force of Nonviolence: An Ethico-Political Bind (Penguin Random House, 2020), da filósofa pós-estruturalista estadunidense Judith Butler. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

 

A DAMA DO TEATRO GENINHA DA ROSA BORGES

[...] É preciso sonhar, ousar e trabalhar. Assim os sonhos se realizam. [...]

Pra matar fome de vida \ só sendo atriz como sou: \ já fui pobre, já fui rica \ já fui freira e fui mendiga \ já fui branca e já fui negra \ casada, solteira, amante \ cadela gritando sexo \ e mãe também extremosa \ mas o que nunca pensei \ nessa carreira enfrentar \ foi viver a personagem \ Putain de Taperoá.

Pensamento e versos da premiadíssima atriz Geninha da Rosa Borges (1922-2022) – a Grande Dama do Teatro Pernambucano, num volume organizado por Márcia Botto. Veja mais aqui e aqui.

&

EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA

[...] propor a criticidade na educação básica deve vir acompanhada do ensino da língua pela língua, o que nos levara a trabalhar de novas formas, com novas propostas, que não as estabelecidas normativamente. Isso pode querer dizer, por exemplo, fazer uso da língua materna em determinados momentos. [...]

Trecho do estudo Educação linguística, pós-memória e mudança: repensando aulas de língua inglesa na escola e na formação docente, desenvolvido e publicado pelos professores João Paulo de Souza Araújo e Samara Braga Jorge, extraído da obra Discussões sobre educação linguística e formação docente do e com o GEELLE – Grupo de Estudos sobre Educação Linguística em Línguas Estrangeiras - Serie GEELLE USP, Volume 1 (Pimenta Cultural, 2024), organizado por Daniel de Mello Ferraz e Luciana Carvalho Fonseca. Veja mais aqui e aqui.

 

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quinta-feira, novembro 05, 2020

ALDA MERINI, RICARDO MIRÓ, ISAIAH BERLIN, MARCELO GRECO & TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO


  

TRÍPTICO DQC: BLUE GERSHWIN – Curtindo o Piano Concerto in F major (1925), de George Gershwin, com o piano de Yuja Wang & London Symphony Orchestra (2016) – O dia amanhece na janela para celebração da vida. O escarcéu do mundo no povo em polvorosa, nem se dá conta das estatísticas assustadoras, olvidam do genocídio e tudo como se nada acontecesse. Soletro um poema: Agonizo devagar. Não tenho nada a dizer, nada, absoluta catarse. Os meus pedaços se perderam de mim no labirinto da sobriedade de Cage. Devotei meu olhar a reinventar o muro à cabeça. Criei meu tautócrono com meus versos abstrusos. A loucura me cerca, comunhão. Ah! Meu tormento Van Gogh, minha solidão Almafuerte, sempre instigado pela descrença na frivolidade das coisas. Mal terminara de balbuciar meus versos, recepciono a imagem do filósofo letão Isaiah Berlin (1909-1997): Estamos condenados a escolher e toda escolha pode acarretar uma perda irreparável. Tal como aparecera, a sua efígie vai se apagando como se se dissolvesse aos raios solares. Contemplo o horizonte, a vida é a tônica em todos os lugares, ainda é possível viver.

 


A CENA NA COMPLETA ESCURIDÃO - Anoitecia e com a suspensão do fornecimento de energia elétrica. As sombras ocupavam seus espaços, cada vez maior a escuridão. De repente na parede oposta passou a rolar uma cena da comédia em um ato A família e a Festa na Roça (1840), de Martins Pena, quando personagem Juca sapecou: Se sabem que temos só por fortuna um coração amante e sincero, e quanto baste para viverem duas pessoas honestamente, mas sem luxo, adeus, minhas encomendas. Leva tudo o diabo. Batem com as janelas na cara, voltam as costas, não respondem... Ao final da encenação uma voz reiterou: Realmente, estamos fritos! É caso perdido. Procurei nos quatro cantos, era ela sentada como Sarah Bernhardt: A vida engendra vida. Energia cria energia. É gastando-se que se enriquece. Levantou-se e deixou escorrer a cortina na qual estava enrolada e caminhou nua até mim, recitando um poema de Alda Merini: Se eu repouso, no lento devir / dos olhos, me detenho / ao excesso feliz das cores: / aqui não temo mais fugas ou fantasias / mas a "penetração" me anula. / Amo as cores, tempos de um desejo / inquieto, irresolúvel, vital, / explicação humilde e soberana / dos cósmicos "por quês" do meu fôlego. / A luz me impele, mas a cor / me atenua, pregando a impotência / do corpo, belo mas ainda tão terreno. / E é pela cor a que me dou / que de repente me lembro do meu aspecto / e, assim, do meu limite. E com um beijo ela em mim ficou por todas as horas vindouras de nossa afogueada paixão.

 


OS TERRORES DA HORA & OS HORRORES HUMANOS - Imagem da série Helena (2019), do fotógrafo e professor/orientador, Marcelo Greco – No meio da madrugada ela despertou e me assustei com sua desolação. Entre lágrimas, debruçada na cama e sem cobertas, narrou: Era a madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971. Cerco montado, ela foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador... Liberada no início de novembro, estava profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Internada na clínica Almepe, em Salvador, no dia 4 de novembro. O estado se agravou com a invasão do major Nilton de Albuquerque Cerqueira ao seu quarto de hospital. Na presença da sua mãe, ele ameaçou que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. Ela foi transferida para o sanatório Bahia e morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou para a militância. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: edema cerebral a esclarecer. Um ano depois sua mãe Esmeraldina Carvalho Cunha, que denunciou incessantemente a morte da filha como consequências das torturas, foi encontrada morta em sua casa. Fez um silêncio tumular e sem se mexer por alguns instantes. Depois de algum tempo imóvel, virou-se e me disse: Sim, hoje sou Nilda: Nilda Carvalho Cunha (1954-1971), outra entre as filhas da dor: Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri. E me abraçou como nunca, carne trêmula, dores demais. Ao meu ouvido, ela era Malala Yousafzai: Falo não por mim mas por aqueles sem voz... aqueles que lutaram por seus direitos... Seu direito de viver em paz, seu direito de ser tratado com dignidade, seu direito à igualdade de oportunidade, o seu direito de ser educado. E me empurrou para que deitasse sobre mim e lábios rentes aos meus, mencionou uma célebre frase do escritor panamenho Ricardo Miró (1883-1940): O país é a memória… Pedaços de vida envolto em pedaços de amor ou dor; a palma farfalhando, música conhecida, o jardim e sem flores, sem folhas, sem vegetação. Oh tão pequena que você caber toda todo país sob a sombra da nossa bandeira: talvez você era tão jovem para que eu pudesse tomar em toda parte dentro do coração! E com um abraço firme e requisitante se entregou de corpo e alma para que eu pudesse usufruir da glória que é viver contemplado pelo amor de quem ama e é amada. Até mais ver.

 

TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO (TAP)

Criado em 1941, por Valdemar de Oliveira, o TAP reúne atores ao redor de um teatro de cultura que passou por diversas fases: a primeira, entre 1941-47, correspondentes aos anos de aprendizagem; a segundam, de 1948-58, concernente à renovação da cena; de 1959-1965, compreendendo a consolidação da cena; de 1966-1976, a ordenação do passado; e a partir de 1977, a cena refletida, montando espetáculos, entre eles, Um sábado em 30, de Luiz Marinho, em 1963. Hoje sediado no Teatro Valdemar de Oliveira, na Boa Vista Recife, apresentou ultimamente o espetáculo virtual E assim caminha a terceira idade, de Amanda Moraes, com atuação de Geninha da Rosa Borges. Veja mais aqui e aqui.


 


quinta-feira, agosto 27, 2020

AMADO NERVO, BETINHO, AGOSTINHO DA SILVA, MAN RAY & GENINHA DA ROSA BORGES


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DAS COISAS DESSES TANTOS BRASIS... O Doro nunca se emendou, agora quer consertar tudo! Agora, pode um negócio deste? Nunca é tarde, mas pergunto: Vai dar tempo? Quem sabe. Desde que ele virou a cabeça fã daquela atriz que dizia durante a campanha de 2002 que tinha medo, ele mesmo passou a repetir por aí: Eu tenho medo do Brasil virar uma desgraceira braba! Ele, como a atriz, tinha medo de tudo, até da esperança equilibrista, do Natal sem fome e até do Betinho, aquele ser incandescente de dignidade: O que somos é um presente que a vida nos dá. O que nós seremos é um presente que daremos à vida. Isso o Doro não ouviu e na última eleição, idem ação da sua idolatriz, também coisou: com ele deu Coisonário na cabeça do primeiro ao quinto, no grupo, centena e milhar. Pois é, o tempo passa. Nem bem um ano e meio depois, ele entra em estado de soslaio: Como é, hem? Hummmm... E começou a assuntar: manchas de óleo nas praias do Nordeste, fogo assassino do Dia D na Amazônia e no Pantanal, Queiroz sumido da rachadinha e depois preso e com grana na primeira dama, o terraplanismo (oxe, mas a terra num é redonda, meu?), o negacionismo (ah, sim, nego enquanto puder e de pés juntos, abro não!), perdão das dívidas das evangélicas e do agronegócio em plena pandemia e isso, aquilo, aqueloutro, peraí! Como é que é? Etceteras outras e peibufe cois&tal, até adesão ao jogo do Centrão – aquele da velha política fisiologista formada por deputados dos PP, Republicanos, Solidariedade, PTB, PSD, MDB, DEM, PROS, PSC, Avante, Patriota & Pêessedêbê (PSDB meeeeesmo) e num sei quantos fdps dos pqps, articulados em torno da liderança do presidente do Congresso Nacional (quem é?!?) e, vixe, ainda perguntam por que o Maia não aceitou os trocentos pedidos de empeachment!?! Dá para entender ou quer que eu desenhe? Que é que foi, Doro? Rapaz, o negócio é sério! Como assim? Fui enganado, estou pior que corno quando descobre a furunfada da nega véia lá de casa com safadeza pra cima dum pintudo amolegado e saindo na minha testa! Que é que há, rapaz? Eu pensei que o cara fosse limpo, mas é mais sujo que pano de chão depois da maior farra, com a especialidade de matar e de usar tanto óleo de peroba a ponto de mentir chega o cu dele apita que ouço daqui, meu! Eita! Como é que fui cair numa esparrela dessa? Ah, Doro, você e 57 milhões de eleitores caíram nessa, até gente instruída, coisa inacreditável, afora mais de 42 milhões de votos nulos e mais de 2 milhões e meio em branco! Ah, eu sei, estou de olho neles, alguns tão acordando; outros, nossa, que povo mais dorminhoco! Pois é, Doro, o ódio já passou dos limites. É, vou chamar na grande: Acorda, gente! Ainda hoje passou por mim rouquinho da silva de tanto gritar!

DUAS CENAS & UM TEATRO SURREAL – Imagem: Black and White (1926), do fotógrafo, pintor e anarquista estadunidense Man Ray (1890-1976). - Cena 1: Duas lindas garotas discutiam com o garçom que se negava atendê-las. O atendente chamou o gerente e este reiterou a impossibilidade de atendê-las. Ora, mas por quê? Não dava para entender. Armou-se o maior escarcéu, protestos gerais. Já me levantando para mandar o garçom servi-las que eu pagaria, quando uma lindíssima jovem apareceu do nada – tinha as faces maquiadas com pétalas de gerânio e as sobrancelhas marcadas com cinza de fósforo, olhos vivos, lábios salientes, decote atravessando os seios, vestido colado às suas formas corporais e ao longo da cintura pelas coxas e pernas aos dedinhos dos pés delicados. Cena 2: A encantadora jovem que parecia não ter nada a ver com as duas insatisfeitas, arregaçou a saia até o joelho, pôs o pé na cadeira e subiu na mesa para um discurso com voz estridente: Nunca mais ponho o pé nesta espelunca! Sem chapéu, sem sapatos e sem calcinha! E levantou o vestido até a cintura, de fato: cabelos soltos, descalça e nua! Uma ovação. Cena 3: Intervi e contornei tudo, acertando logo com o garçom e o gerente, mandei servi-las no que quisessem, enfim, levei tudo a bom termo apaziguando o pandemônio, o que me fez ganhar a simpatia delas, logo aboletadas à minha mesa. Pronto. Conversa vai, conversa vem. Como é seu nome, linda? Kiki (na verdade Alice), falava pelos cotovelos nervosamente: Eu estava tão feliz que a pobreza não me afetou. A palavra pesar era como hebraico para mim. Simplesmente não significa nada. Olhava pros lados, inquieta, instigadora e, de repente, virou-se para mim e disse: Você fala muito sobre amor, mas não sabe como fazê-lo. Eu, como assim? Bláblábláblá! Olhei para as outras duas que apenas riam de tudo, inclusive de mim. Dei minhas risadas, mesmo sem entender as piadas ou o que eram delas. Ela então fitou decididamente nos meus olhos e inquiriu: Qual é a sua? Aí dei uma de Man Ray: As ruas estão cheias de artesãos admiráveis, mas tão poucos sonhadores práticos. Uma das satisfações de um gênio é sua energia e obstinação. Os truques de hoje são as verdades de amanhã. A conversa rolou meio sem sentido, com esquisitices, afirmações soltas e senso atordoado pela embriaguez, de bar em bar, no cinema, pensei pintá-la ou fotografá-la, ela recusou: Fotografia não é arte, hehehehe, eu e elas, noite madrugadadentro nem sei como, sei que amanhecemos juntos e ela topou posar nua para minha arte.

TRÊS OLHADELAS, NENHUMA CONCLUSÃO – Imagem do fotógrafo, pintor e anarquista estadunidense Man Ray (1890-1976) – Poderia dizer que já vi de tudo; não, acredito que não, mas já vi um bocado de coisa que fugiu do sensato para a calamidade. Sim, coisa para lá de impensável, doidice das grandes, mesmo para quem que, como eu, professo aquela do Agostinho da Silva: Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo, cada um deles só exprime metade da vida. Sou do paradoxo, que a contém no total. Sim, pois medo de nada nem da morte, enxergo razoavelmente bem apesar da idade, só tenho dores nas costas da coluna ou dos dentes, ou no anular da mão direita, entrevado que só ou um talho qualquer de perder o esparadrapo, esqueço de tudo, péssimo com datas, não sei do calendário e ando impressionado com o tanto de estúpidos que aparecem cada vez mais a cada momento, e lamento muito o crescente número de mortes deste genocídio, ouvindo Amado Nervo: Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. Aqui, pontualmente não sei que horas são e se vai dá pé, não sei. Sei que há sinais por todo canto e para todo lado, é só olhar direito, os sinais estão para serem descobertos. Descubra, eu persigo na minha. Até mais ver.

GENINHA DA ROSA BORGES, A DAMA DO TEATRO
É preciso sonhar, ousar e trabalhar. Assim os sonhos se realizam. Não tenho preferencias, qualquer personagem depois de vencida é por mim vivida e interpretada sempre com muito carinho e honestidade. Quando conseguimos senti-la integralmente é o que basta e estamos compensados. Fizemos um bom papel.
Trechos extraídos da obra Geninha da Rosa Borges, a dama do teatro (AIP/CEPE, 1997), de Márcia Botto, sobre a trajetória da premiadíssima atriz Geninha da Rosa Borges.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, janeiro 10, 2019

FRANÇOISE DOLTO. GENINHA DA ROSA BORGES, FRANCESCA WOODMAN & SOLILÓQUIO VESPERTINO


SOLILÓQUIO VESPERTINO - A tarde é viva inteira nesta quinta, enquanto o Sol reina inextinguível em mim e emigro às doze horas como quem singra o ignoto a me projetar adiante do que posso e voo. Quatrocentas estrelas brilham no meu sorriso, tudo é tão imenso e real. Ninguém sabe, eu sei, onde está quem procuro o coração revelado na escolha da voz doce para celebrar seja qual for o seu nome bendito além do que espero. Às treze horas digo ponteiro impreciso que não posso viver livre se das entranhas privo o que anseio, como se me bastasse uma benção da mãe morta por refúgio, entregue às feras, atirado ao penhasco, entre o propício ou nefasto, não importa mesmo que à tarde o céu risonho nuble as florescidas cores da vida e eu tenha errado de mim sem saber pra onde na tempestade repentina que se anuncia. Tudo é tão estranho, quatrocentos sonhos tombados no caminho, a glória entre blasfêmias. Chegar onde estou não é pouco, quase um cidadão da cidade das ideias, pelo menos uma janela aberta e tanta coisa pra fazer. Valho-me do encorajamento das fisionomias carrancudas e nenhuma coroa de louros, o que há de ser minha vida mendigando afetos entre malogros, súplicas e lamentações de fracos e risíveis, porque às quinze e cinco a luz no quarto fechado, o postigo e à porta estou para que às dezesseis eu saiba o tempo passar imperceptível, anos e décadas que esqueci desde às dezessete e trinta de ontem, desabotoando o peito, olhos no espelho, detritos que preciso varrer, funerais, sepulturas, às duras penas com a frescura do entardecer refrescando o calor da intérmina solidão e tarda a noite à alvorada, ninguém responde, nenhum consolo e uma mão toca ao ombro e não vi pálpebras curiosas as quatrocentas cicatrizes do corpo. Voo só, nada é mais preciso que o imprevisível. Quem, às quatorze em ponto chamou por meu nome e não vejo se bem ouvido familiar menção que não lembro dalgum tempo longe como a lembrança perdida. Não há porque me apegar com a esperança imprescindível e hei de viver a cada ausência o que me resta e ser levado a morrer longe em terra estrangeira numa invernada de extrema urgência que sou aqui mesmo pelo que foi de reinos e nações, para ressurgir na primaveril salvação de naufrágio com sonhos podres que nem amanheceram. E se demoro agora de outono a verão com ar de pouco caso pelas difusas sensações fustigantes e os calafrios solitários medindo os astros e as obras do amor nos mil pedaços de mim, só para que eu tenha vida o porvir. É que não hesito entre a chance e a adversidade, o que me inquieta são às dezoito horas ter de hastear a noite ao crepúsculo, e sorrir de bom grado, grato ao ventre em que fui gerado com todos os tormentos humanos e um suspiro se esvaindo ao derradeiro aceno do tempo de areia a escorrer entre os dedos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] As pessoas que, como eu, amam a vida acham que é idiota suicidar-se. [...] Anuímos à vida: vamos dar-lhe nossa anuência até o fim. [...] Ajuda-se uma pessoa mostrando-lhe que não é um pária por pensar nisso. Ela achava que isso era ruim, mas vê que faz parte da cultura, que é exprimível, é o drama humano de todos. A solidão não é evitável, a angústia não é evitável, as fantasias de suicídio não são evitáveis. Todos temos de passar por isso. Não é nem bom nem mau. É a condição humana. Então, podemos colaborar uns com os outros. É viver. Que nem sempre se consegue, é verdade. [...] A solidão está mais no desamparo de não ter linguagem, muito mais do que no fato de não ter complemento físico para produzir frutos. [...] A maior dor, quando amamos alguém, é não podermos impedir que ela sofra da solidão. Sofrer de solidão faz parte da existência humana. Pessoas que se amam não podem impedir que o outro sofra de solidão. Não é uma questão de amor de uma pessoa pela outra, mas da qualidade da falta, que a outra não pode suprir. [...]. Trechos extraídos da obra Solidão (Martins Fontes, 1999), da médica e pediatra francesa Françoise Dolto (1908-1988). Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

A ARTE DE GENINHA ROSA BORGES
A premiadíssima atriz Geninha da Rosa Borges – a Grande Dama do Teatro Pernambucano -, construiu uma trajetória iniciada com sua formação em Pedagogia e Letras na Faculdade de Filosofia do Recife, realizando na sua carreira exitosa iniciada em 1941, resultando na realização de 63 peças teatrais, 10 filmes e dirigiu 21 espetáculos. Participou do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), coordenou a partir de 1968 a equipe do Sistema Nacional de TV e Rádio Educação, designada pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), participando de programa pioneiro de aulas teatralizadas para o rádio. Atuou, entre outros filmes, de Parahyba Mulher Macho, em 1983, e Baile Perfumado, em 1997. Participou do elenco das novelas A Favorita e Da cor do pecado, da Rede Globo. Ocupa a cadeira 33 da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa estadunidense Francesca Woodman (1958-1981). Veja mais aquiaqui & muito mais na Agenda aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...