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quinta-feira, novembro 05, 2020

ALDA MERINI, RICARDO MIRÓ, ISAIAH BERLIN, MARCELO GRECO & TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO


  

TRÍPTICO DQC: BLUE GERSHWIN – Curtindo o Piano Concerto in F major (1925), de George Gershwin, com o piano de Yuja Wang & London Symphony Orchestra (2016) – O dia amanhece na janela para celebração da vida. O escarcéu do mundo no povo em polvorosa, nem se dá conta das estatísticas assustadoras, olvidam do genocídio e tudo como se nada acontecesse. Soletro um poema: Agonizo devagar. Não tenho nada a dizer, nada, absoluta catarse. Os meus pedaços se perderam de mim no labirinto da sobriedade de Cage. Devotei meu olhar a reinventar o muro à cabeça. Criei meu tautócrono com meus versos abstrusos. A loucura me cerca, comunhão. Ah! Meu tormento Van Gogh, minha solidão Almafuerte, sempre instigado pela descrença na frivolidade das coisas. Mal terminara de balbuciar meus versos, recepciono a imagem do filósofo letão Isaiah Berlin (1909-1997): Estamos condenados a escolher e toda escolha pode acarretar uma perda irreparável. Tal como aparecera, a sua efígie vai se apagando como se se dissolvesse aos raios solares. Contemplo o horizonte, a vida é a tônica em todos os lugares, ainda é possível viver.

 


A CENA NA COMPLETA ESCURIDÃO - Anoitecia e com a suspensão do fornecimento de energia elétrica. As sombras ocupavam seus espaços, cada vez maior a escuridão. De repente na parede oposta passou a rolar uma cena da comédia em um ato A família e a Festa na Roça (1840), de Martins Pena, quando personagem Juca sapecou: Se sabem que temos só por fortuna um coração amante e sincero, e quanto baste para viverem duas pessoas honestamente, mas sem luxo, adeus, minhas encomendas. Leva tudo o diabo. Batem com as janelas na cara, voltam as costas, não respondem... Ao final da encenação uma voz reiterou: Realmente, estamos fritos! É caso perdido. Procurei nos quatro cantos, era ela sentada como Sarah Bernhardt: A vida engendra vida. Energia cria energia. É gastando-se que se enriquece. Levantou-se e deixou escorrer a cortina na qual estava enrolada e caminhou nua até mim, recitando um poema de Alda Merini: Se eu repouso, no lento devir / dos olhos, me detenho / ao excesso feliz das cores: / aqui não temo mais fugas ou fantasias / mas a "penetração" me anula. / Amo as cores, tempos de um desejo / inquieto, irresolúvel, vital, / explicação humilde e soberana / dos cósmicos "por quês" do meu fôlego. / A luz me impele, mas a cor / me atenua, pregando a impotência / do corpo, belo mas ainda tão terreno. / E é pela cor a que me dou / que de repente me lembro do meu aspecto / e, assim, do meu limite. E com um beijo ela em mim ficou por todas as horas vindouras de nossa afogueada paixão.

 


OS TERRORES DA HORA & OS HORRORES HUMANOS - Imagem da série Helena (2019), do fotógrafo e professor/orientador, Marcelo Greco – No meio da madrugada ela despertou e me assustei com sua desolação. Entre lágrimas, debruçada na cama e sem cobertas, narrou: Era a madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971. Cerco montado, ela foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador... Liberada no início de novembro, estava profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Internada na clínica Almepe, em Salvador, no dia 4 de novembro. O estado se agravou com a invasão do major Nilton de Albuquerque Cerqueira ao seu quarto de hospital. Na presença da sua mãe, ele ameaçou que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. Ela foi transferida para o sanatório Bahia e morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou para a militância. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: edema cerebral a esclarecer. Um ano depois sua mãe Esmeraldina Carvalho Cunha, que denunciou incessantemente a morte da filha como consequências das torturas, foi encontrada morta em sua casa. Fez um silêncio tumular e sem se mexer por alguns instantes. Depois de algum tempo imóvel, virou-se e me disse: Sim, hoje sou Nilda: Nilda Carvalho Cunha (1954-1971), outra entre as filhas da dor: Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri. E me abraçou como nunca, carne trêmula, dores demais. Ao meu ouvido, ela era Malala Yousafzai: Falo não por mim mas por aqueles sem voz... aqueles que lutaram por seus direitos... Seu direito de viver em paz, seu direito de ser tratado com dignidade, seu direito à igualdade de oportunidade, o seu direito de ser educado. E me empurrou para que deitasse sobre mim e lábios rentes aos meus, mencionou uma célebre frase do escritor panamenho Ricardo Miró (1883-1940): O país é a memória… Pedaços de vida envolto em pedaços de amor ou dor; a palma farfalhando, música conhecida, o jardim e sem flores, sem folhas, sem vegetação. Oh tão pequena que você caber toda todo país sob a sombra da nossa bandeira: talvez você era tão jovem para que eu pudesse tomar em toda parte dentro do coração! E com um abraço firme e requisitante se entregou de corpo e alma para que eu pudesse usufruir da glória que é viver contemplado pelo amor de quem ama e é amada. Até mais ver.

 

TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO (TAP)

Criado em 1941, por Valdemar de Oliveira, o TAP reúne atores ao redor de um teatro de cultura que passou por diversas fases: a primeira, entre 1941-47, correspondentes aos anos de aprendizagem; a segundam, de 1948-58, concernente à renovação da cena; de 1959-1965, compreendendo a consolidação da cena; de 1966-1976, a ordenação do passado; e a partir de 1977, a cena refletida, montando espetáculos, entre eles, Um sábado em 30, de Luiz Marinho, em 1963. Hoje sediado no Teatro Valdemar de Oliveira, na Boa Vista Recife, apresentou ultimamente o espetáculo virtual E assim caminha a terceira idade, de Amanda Moraes, com atuação de Geninha da Rosa Borges. Veja mais aqui e aqui.


 


quinta-feira, março 26, 2020

VIKTOR FRANKL, JUNG CHANG, CARLOS PATRAQUIM, MÓNICA MAYER & ANA VAZ


NÃO ESTOU FAZENDO NADA, VOCÊ TAMBÉM. QUE TAL? - UMA: FAZER O QUÊ DIANTE DA RECLUSÃO SOCIAL? - Ora, ora. Agora é só você com os seus e o espelho. Essa a forma encontrada para que a gente supere e consiga escapar da adversidade do agora. Esse o jeito mais preventivo, inteligente e barato, acho. É só encarar. Já ouviu falar sobre a solidão criativa? Ela existe sim e traz possibilidades de melhoria individual: leituras para refletir, atividades lúdicas criativas e inovadoras, enfim, muitas coisas podem ser feitas sozinho e entre os seus, sobretudo, conhecer-se melhor. Acho mesmo que é uma oportunidade ímpar para fugir do umbigocentrismo social com sua competitividade desumana e cotidiana, descobrindo-se a própria personalidade para aceitação de si mesmo, o que levará, indubitavelmente, a uma melhor condução de convívio com o outro e todos. Acredito nisso. Foi como uma vez ouvi da Erica Jong: Todos são talentosos. Difícil é ter coragem de seguir pelo caminho sombrio através do qual o talento guia. Conduza sua vida com as próprias mãos, e o que acontece? Uma coisa terrível: ninguém para culpar. Desafiador, não? Afinal, somos resultados das nossas escolhas, o que quer dizer que somos os únicos culpados pelo que passamos e vivemos. Num é não? Como não sou o dono da verdade, vamos conversar e aprender melhor juntos, então. Vambora? DUAS: BRINCANDO DE ARENGAR COMIGO MESMO – Sério? Diante do espelho: sou eu mesmo. Tudo o que fiz na vida teve uma motivação. Cada decisão tomada tiveram as razões para tal, acertada ou não, eu decidi. E levado sempre pelo certo e o melhor possíveis, mesmo não fossem esses os entendimentos resultantes entre os outros envolvidos, decidi. Mas, se pelejei, foi buscando o certo e o melhor, pelo menos, para mim, a intenção era essa. Quando errei, aceitei a pena; ao acertar, prosseguia. E fui tentando sempre juntando as ideias para que fosse pelo menos fiel a mim e a todos, como Sarah Bernhardt: desafio todas as superstições e apenas ajo como quero. Devemos odiar muito raramente, pois é muito cansativo; permaneça indiferente a muito, perdoe com frequência e nunca esqueça. Um exercício brabo este. É que nunca fui bom o suficiente para me levar a sério de todo. Tive sempre comigo aquela do Walt Whitiman: Longa é a nossa caminhada, e sempre chegamos todos de volta ao mesmo ponto. Pois é, no final, só sobra comigo mesmo. TRÊS: NO FRIGIR DOS OVOS, SOU EU – Numa quebra-de-braço comigo mesmo, muita coisa me descobri deplorável. Verdade. Teve coisas que demorei muito a me perdoar. Só com o passar dos anos, revendo acontecidos, não conseguia entender como eu fui capaz de passar por situações tão vexatórias. Passou, passei. Assumi o erro. Confessei para mim mesmo e paguei o pato, evidentemente. Quase me tornei um juiz inexorável comigo no banco dos réus. Lavei a culpa espremendo todos os panos. Aliviei um pouco o pé no acelerador, não era bem assim: ou me aceitava, ou me lascava todo. Cortei na carne e me cobri de vergonha. Foi quando li um escrito do Tennessee Williams: Ninguém consegue ver alguém verdadeiramente, senão através das falhas de seus próprios egos. É assim que todos nos vemos uns aos outros, na vida. Vaidade, medo, desejo, competição - todas essas distorções dentro de nosso próprio ego - condicionam nossa visão daqueles com quem nos relacionamos. Fui, então, além disso: estava sozinho na roda, ora, e me encontrei. Prestei contas, dei a cara à tapa e meti os peitos pra vida, como se fosse o meu poema em linha reta. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Minha avó era uma beldade. Tinha um rosto oval, faces róseas e pele acetinada. Os cabelos longos e brilhantes eram entretecidos numa grossa trança que lhe chegava à cintura. Sabia ser recatada quando a ocasião exigia, ou seja, na maior parte do tempo, mas por baixo da aparência impassível estuava de energia reprimida. Era mignon, cerca de um metro e sessenta, com um corpo esguio e ombros arredondados, considerados o ideal. Mas seu grande tesouro eram os pés enfaixados [...] Os pés de minha avó foram enfaixados quando ela completara dois anos. A mãe, que tinha ela própria os pés enfaixados, primeiro enrolou um pedaço de pano branco de uns seis metros de comprimento em torno dos pés dela, dobrando todos os dedos, com exceção do dedão, para dentro, sob as solas. Depois colocou uma grande pedra em cima para esmagar o arco. Minha avó gritava de dor e pedia-lhe que parasse. A mãe teve de amarrar-lhe um pano na boca, para amordaçá-la. Minha avó desmaiou várias vezes de dor. O processo durava vários anos. Mesmo depois de quebrados todos os ossos, os pés tinham de ser enfaixados dia e noite com pano grosso, porque assim que eram soltos tentavam recuperar-se. Durante anos minha avó viveu com dores constantes e excruciantes. Quando implorava à mãe que desamarrasse as faixas, a mãe chorava e dizia-lhe que os pés desatados arruinariam toda a sua vida, e que fazia aquilo para a futura felicidade dela. Naquele tempo, quando uma mulher se casava, a primeira coisa que a família do noivo fazia era examinar seus pés. Achava-se que os grandes, ou seja, normais, traziam vergonha à casa do marido. [...] A prática do enfaixamento fora introduzida originalmente cerca de mil anos atrás, supostamente por uma concubina do imperador. Não apenas se considerava erótica a visão de uma mulher cambaleando sobre pés minúsculos, mas os homens se excitavam com eles, sempre ocultos sob sapatos de seda bordada. As mulheres não podiam retirar as faixas nem quando já estavam adultas, pois os pés recomeçariam a crescer. A faixa só podia ser afrouxada temporariamente à noite na cama, quando elas calçavam sapatos de sola mole. Os homens raramente viam nus os pés enfaixados, em geral cobertos de carne podre e malcheirosos quando se retiravam as faixas. Lembro-me de, quando criança, ver minha avó em sofrimento constante. Quando voltávamos das compras, a primeira coisa que ela fazia era mergulhar os pés numa bacia de água quente, suspirando de alívio. Depois punha-se a cortar os pedaços de pele morta, A dor vinha não apenas dos ossos quebrados, mas também das unhas, que se enterravam nas plantas dos pés. [...]. As meninas da terra tinham de caminhar seis quilômetros na vida e na volta todo dia; as crianças japonesas iam de caminhão. As da terra ganhavam uma papa rala feita de milho mofado, com bichos mortos flutuando dentro; as japonesas recebiam refeições embaladas de carne, legumes e frutas. [...]. Trechos extraídos da obra Cisnes Selvagens, (Companhia das Letras, 2006), , da escritora chinesa Jung Chang, contando sobre as perspectivas das mulheres a história da China, desde os tempos feudais até a Revolução Cultural, por meio de seus antepassados e presente, desde a mutilação dos pés até o interdito da demonstração de emoções por parte das mulheres.

SIM, AFINAL DE CONTAS... – Ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça. Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida. Cada vez mais, as pessoas têm os meios para viver, mas não tem uma razão pela qual viver. Devemos transformar os aspectos negativos da vida em algo construtivo. O amor é a única maneira de captar outro ser humano no íntimo da sua personalidade. Pensamento do neurologista e psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905-1997). Veja mais aqui.

MULHERES DE ÁGUA, DE LUÍS CARLOS PATRAQUIM
[...] É que eu tenho uma história!...Não sei se posso contá-la, abrir-me assim diante deste silêncio...vergastando as vossas sombras...Um mulher não pode utilizar esse verbo...Abrir...A-brir-se!... [...].
MULHERES DE ÁGUA – O monólogo Mulheres de Água, do poeta, autor teatral e jornalista moçambicano, Luís Carlos Patraquim, trata sobre uma jovem mulher que conta sua própria história, acerca do absurdo, da política, do cômico e social, dos dias de hoje, um conflito entre a intelectual e a prostituta. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte tem que ser o que precisamos que seja.
MÓNICA MAYER - A arte da premiada artista conceitual, ativista, curadora e crítica de arte mexicana Mónica Mayer, trabalha com fotografia, performance, gráficos digitais, desenho e teoria da arte, tendo participado de inúmeros eventos artísticos em diversos países, tornando-se a pioneira de performances e da arte feminista na América Latina. Participa do projeto De Archivos y Redes, criadora do projeto Pinto mi Raya e do grupo Polvo de Gallina Negra, publicando o Escandalario: los artistas y la distribucion del art (AVJ, 2008) e o livro infantil Juanita, las pochotas y una bolsa de preguntas (Instituto de la Mujar Oaxaqueña, 2008). Atualmente é membro do Conselho do Museo de Mujeres Artistas Mexicanas (MUMA) e do Consorcio Internacional Arte y Escuela AC. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
A ARTE DE ANA VAZ
A arte da premiada pintora Ana Vaz, que possui licenciatura em Artes Plásticas pela UFPE, doutoramento em Letras pela UFPE, e estudou na École Nationale Supérièure des Beaux Arts e na Université de Paris VIII, onde concluiu a sua Licenciatura. Já realizou exposições em países como França, Portugal, Mônaco, Suíça e Espanha, afora diversas capitais e cidades brasileiras.
A música de Vitor Araújo aqui.
A terra pernambucana do professor, jornalista e escritor Mario Sette (1886-1950) aqui & aqui.
As danças populares de Maria Goretti Rocha de Oliveira aqui.
A poesia de Alberto Lins Caldas aqui.
A casa do Alto do Inglês aqui & aqui.
A raposa, o sabiá e o cancão aqui.
O município de São Caetano aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

sexta-feira, julho 24, 2015

BOLÍVAR, NORBERT, NIETZSCHE, WILDE, SAURA, LOPE DE VEGA, SAINT-SAËNS, HOCHSCHARTNER & OS SONHOS.



Ernst Hochschartner (1877-1947)

Curtindo: Phryné (Frinéia, 1960/2013), do compositor, maestro e pianista do Romantismo francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), na interpretação da soprano Denise Duval com a Orchestre & Chorale Lyrique de l'ORTF & maestro Jules Gressier. Veja mais aqui.

PROCESSO CIVILIZADOR – Os dois volumes da obra Processo civilizador (1939 – Zahar, 1990), do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), abordam, no primeiro volume - Uma história dos costumes -, abordando temas como sociogênese dos conceitos de civilização e cultura, fisiocracia e movimento de reforma francês, civilização como comportamento humano, mudanças de atitude nas relações entre os sexos, da agressividade e cenas da vida de um cavaleiro medieval, entre outros assuntos, enquanto que no segundo volume – Formação do Estado e Civilização – trata sobre a sociogenese do absolutismo, dinâmica da feudalização, forças centralizadores e descentralizadora, migração dos povos, cruzadas, formação de novos órgãos e instrumentos sociais, estrutura e sociogenese do Estado, mecanismo monopolista, distribuição das taxas de poder, monopólio, processos civilizadores, psciologização racionalista, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] 0 homem ocidental nem sempre se comportou da maneira que estamos acostumados a considerar como típica ou como sinal característico do homem "civilizado". Se um homem da atual sociedade civilizada ocidental fosse, de repente, transportado para uma época remota de sua pr6pria sociedade, tal como 0 período medievo-feudal, descobriria nele muito do que julga "incivilizado" em outras sociedades modernas. Sua reação em pouco diferiria da que nele e despertada no presente pelo comportamento de pessoas que vivem em sociedades feudais fora do Mundo Ocidental. Dependendo de sua situação e inclinações, sentir-se-ia atraído pela vida mais desregrada, mais descontraída e aventurosa das classes superiores desta sociedade ou repelido pelos costumes "bárbaros", pela pobreza e rudeza que nele encontraria. E como quer que entendesse sua própria "civilização", ele concluiria, da maneira a mais inequívoca, que a sociedade existente nesses tempos pretéritos da bist6ria ocidental não era "civilizada" no mesmo sentido e no mesmo grau que a sociedade ocidental moderna. Este estado de coisas talvez parece óbvio a numerosas pessoas e alguns julgarão desnecessário referi-lo aqui. Mas ele necessariamente acarreta perguntas que não podemos, com a mesma justiça, dizer que estejam claramente presentes na consciência das atuais gerações, embora estas questões não deixem de ter importância para uma compreensão de nós mesmos. Como ocorreu realmente essa mudança, esse processo "civilizador" do Ocidente? Em que consistiu? E quais foram suas causas ou forças motivadoras? É intenção deste estudo contribuir para a solução dessas principais questões. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O CAMINHO DOS SONHOS – O livro O caminho dos sonhos: em conversa com Fraser Boa (Cultrix, 1988), de da psicoterapeuta analítica, pesquisadora e escritora alemã Marie-Louise von Franz (1915-1998), aborda temas sobre a psicologia básica de Carl Gustav Jung, descida ao mundo dos sonhos, mapeamento do inconsciente, a estrutura dos sonhos, sonhos na cultura, a escada para o céu, a linguagem esquecida, a psicologia masculina, a sombra sabe, a mãe devoradora, a morte do dragão, a psicologia feminina, guia interior, relacionamentos, o self, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Bem, todo sonho estabelece uma conexão essencial entre a nossa consciência de ego e o nosso centro interior. Uma conexão duradoura. Todo aquele que tiver observado seus próprios sonhos por alguns anos terá em mente uma série deles, da qual dirá: "Nunca me esquecerei daquele sonho e do que significa." Fica-se para sempre ligado a ele e, através dele, ao centro interior. "... Apanho uma lasca que se soltou do sonho. É feita de pão. Então digo ao rapaz: 'Isso mostra como o sonho deve ser interpretado. Você deve saber o que descartar. É como na vida.'... Ora, assim que a interpretação atinge o alvo, ou como dizemos, chega em casa, o sonho se transforma em pão da vida. Sempre que compreendemos um sonho adequadamente nos sentimos alimentados. Sentimos, por assim dizer, o alimento sobrenatural de que precisamos lá dentro e que vem do inconsciente. Isso é muitas vezes representado nos sonhos como o pão ou a água da vida, porque, quando atinge o alvo, sentimo-nos vivificados e alimentados, e temos uma sensação de felicidade e satisfação, como depois de uma boa refeição. Como se nos disséssemos: "É isso aí. Agora sei para onde estou indo. Agora posso prosseguir." Algo se tranquiliza e se satisfaz dentro de nós. Quando os penedos atingem o sonho, parte da substância, o pão, se desprega, e o que resta são parafusos e porcas que lentamente constituem uma estranha estrutura piramidal. Aí temos, por assim dizer, a forma exterior do sonho e sua substância. E podemos dizer: "Sim, a forma exterior do sonho é a sequência de imagens que precisamos ir compreendendo gradativamente." Mas então — e essa é a parte mais difícil da interpretação de sonhos — temos que nos perguntar: "Muito bem, mas qual é a essência da mensagem desse sonho? O que ele nos diz?" Faz-se necessário assim penetrar na essência da mensagem, da mensagem divina contida naquela estranha casca, aquela sequência de imagens absurdas e difíceis de compreender. Essa essência aponta para o Self. Os sonhos sempre apontam para o centro interior. São como centenas de formas que apontam para o mesmo centro interior. Cada sonho é uma tentativa da natureza de nos centrar, de nos religar ao nosso centro mais profundo e estabilizar nossa personalidade. A questão principal da interpretação dos sonhos é explicada ao sonhador: ou seja, o que descartar e o que reter. "E como a vida." O sonho, como ávida, tem uma superfície que deve ser descartada. Por exemplo, os sonhos, sendo natureza pura, usam alguns símiles absurdos, alguns de muito mau gosto. Lembro-me a propósito do sonho de um analisando pintor, no qual ele cagava tanto, tanto, que a merda inundava o banheiro. Daí descobrimos o que havia se passado. Na noite anterior ele tinha começado a pintar uma tela pequena. Muitas fantasias lhe vieram à mente, mas não havia espaço para elas na diminuta tela. Dá para ver — como ele era um tanto avarento, e não queria comprar uma tela maior, o sonho claramente lhe dizia o que achava de sua atitude. Percebe-se assim que os sonhos não respeitam as regras da boa educação ou as ideias de bons modos. Eles falam uma linguagem natural. A superfície é às vezes extremamente repelente, ou simplesmente estúpida. As pessoas dirão: "Esta noite tive um sonho absurdo e bobo." É preciso então descartar a imagem e atingir o significado. O importante não é a imagética, mas o sentido, a mensagem. E como diz o sonho, na vida é igual. "... Aí o sonho muda. Ainda estamos os dois sentados um de frente para o outro, mas na beira de um rio..." É como se a primeira parte do sonho tentasse explicar ao sonhador o que os sonhos são em essência e de onde eles vêm, enquanto a segunda parte procura lhe explicar como os sonhos funcionam no decorrer da vida, simbolizada pelo rio. O rio é uma imagem do fluir do tempo. Portanto não se trata apenas do que este ou aquele sonho significam, mas, antes, do sentido do grande rio da vida onírica, no qual a cada noite penetramos. O que é isso? O que significa? De onde vem esse rio, qual o princípio básico da sua vitalidade? [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O SIMÃO MACABEU DO NOVO MUNDO – O líder político sul-americano Simon Bolívar (1783-1830), nasceu na Venezuela. No seu batizado, o pai desejava chama-lo Santiago quando o padre alertou: “Tenho o pressentimento de que esse menino ainda será algum dia o Simão Macabeu do Novo Mundo”. Dizia isso, mas era perigosíssimo rebelar-se contra o governo espanhol na América Latina. Em 1781, quando Tupac Amaru tentou libertar o Peru, o governador espanhol mandou cortar-lhe a língua e depois o obrigou a assistir ao trucidamento de sua esposa e de seu filho, os quais foram atados pelos membros a quatro cavalos que os puxaram em direções opostas, despedaçando-lhes os corpos. No fim do espetáculo, a ele próprio foi dado o mesmo tratamento. Isso era ainda muito vivo no tempo que Bolívar considerava: “Neste mundo louco há duas coisas que devemos considerar antes de tudo: a santidade do corpo humano e a estupidez do espírito humano”. A sua vida era para as aventuras amorosas, até que em 1799 voltou-se para aventurar-se no Velho Mundo. Lá casou-se e ficou viúvo, até encontrar-se com intelectuais sul-americanos que, como ele, sonhava com a liberdade. Organizaram-se em sociedade secreta, tornando-se Bolívar um de seus chefes. Anos depois, regressou à terra natal pelos Estados Unidos, onde viu o espírito da independência na sua aplicação prática. Em 1811, na Venezuela, um libertador denominado Miranda, um soldado da desventura, propagava a Independência da América do Sul. Uniu-se na luta até a traição, quando Miranda foi preso e Bolívar conseguiu fugir, tendo suas propriedades confiscadas. Em seguida, organizou duzentos homens e lançou um manifesto de libertação. Enfrentou a força espanhola: derrotou um exército no grito: “Meu canhão? Eu não tinha nenhum”, conquistava Tenerife e seguiu para Mompox, pelas cordilheiras andinas. Em seis dias, travou seis batalhas e ganhou todas elas. E depois começou a galgar os Andes em direção à Venezuela: “Temos uma missão a cumprir, e nada nos deterá!”. Em meio de cenas de indescritível entusiasmo pela derrota espanhola, marchou através da Venezuela para a sua cidade natal, Caracas, na qual entraram vitoriosos em 1913. Bolívar vencera os inimigos, contudo foi incapaz de vencer os amigos que se tornaram invejosos de seus sucessos, acusando-o de ambições ditatoriais. Arruaças, motins, deserções, a Venezuela estava mergulhada em guerras civis. Venceu todos e a água em voo cobria uma espantosa vastidão de território para libertar a América de seus tiranos e traidores. Em toda parte era aclamado como um salvador: libertador da Venezuela, de Nova Granada, da Colômbia, do Equador, da Bolívia, do Chile, do Peru – “O domínio espanhol na América do Sul agora não é mais que uma recordação”. Em 1826 havia Bolívar completado a sua obra de libertação. A partir daí, a tragédia toma conta da sua vida: “Deixemos de regionalismos. Não mais Venezuela, não mais Equador, Chile, Bolívia ou Peru. Unamo-nos todos em uma só família de americanos”. Contudo, rivalidades, conspirações, assassinatos, Bolívar estava virtualmente sozinho, apenas acompanhado por sua amante Manuela, embarcando numa fragata silenciosamente para sua morte solitária, em Santa Maria, na costa da Colômbia, balbuciando em seu estertor: “Meu último desejo é ver os americanos unidos”. Veja mais aqui.

SONETOS – No livro Sonetos (La isla de los ratones, Santander, 1960), do poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635), destaco dois deles, o primeiro Soneto de Repente: Um soneto me pede Violante, / nunca na vida estive em tal aperto; / quatorze versos dizem que é soneto: / brinca brincando lá vão três avante. / Não pensei que encontrasse consoante, / e na metade estou de outro quarteto; / mas, se me vem o início de um terceto, /cá nos quartetos nada há que me espante. / No primeiro terceto vou entrando, / e parece que entrei com o pé direito, / pois fim com este verso lhe vou dando. / Estou já no segundo, e ainda suspeito / que vou os treze versos acabando; / contai se são quatorze, e ei-lo: está feito. O segundo soneto Definição de Amor: Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso, / áspero, terno, liberal, esquivo, / alentado, mortal, defunto, vivo, / leal, traidor, covarde e valoroso; / não ver, fora do bem, centro e repouso, / mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo, / enfadado, valente, fugitivo, / satisfeito, ofendido, receoso; / furtar o rosto ao claro desengano, / beber veneno qual licor suave, / esquecer o proveito, amar o dano; / acreditar que o céu no inferno cabe, / doar sua vida e alma a um desengano, / isto é amor; quem o provou bem sabe. Veja mais aqui e aqui.

SALOMÉ – A tragédia em um único ato Salomé (1894), do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900), conta a história bíblica de Salomé (14-71dC), eleita a musa da estética decadentista e enteada do tetrarca Herodes Antipas, que, para desgosto de seu padrasto, mas para o deleite de sua mãe Herodias, pede a cabeça de Jokanaan (João Batista) em uma bandeja de prata como um recompensa para dançar a a dança dos sete véus. A peça foi escrita em francês em 1892 para ser representada por Sarah Bernhardt em Paris. Também foi adaptada para o cinema em 2002, pelo cineasta e roteirista espanhol Carlos Saura, contando a história a partir de uma perspectiva de uma companhia de dança flamenca, sobre o amor e a vingança da figura mítica e bíblica. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Homenagem à atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) que em sua vida teve mais de 1.000 homens diferentes.

Veja mais sobre:
O amor de Naipi & Tarobá, Arte e percepção visual de Rudolf Arnheim, Eles eram muitos cavalos de Luiz Ruffato, Improvisação para o teatro de Viola Spolin, a música de Vivaldi & Max Richter, a fotografia de Fernand Fonssagrives, a coreografia de Regina Kotaka, a pintura de Fernand Léger & a arte de Eugénia Silva aqui.

E mais:
Nitolino na Escola Estadual Josefa Conceição da Costa aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Duofel, três por um, A sociedade do consumo de Jean Baudrillard, Histórias extraordinárias de Edgar Allan Poe, Tristão & Isolda de Richard Wagner, a coreografia da arte de Pina Bausch, o cinema de Roger Vadim, a pintura de Alice Kaub-Casalonga & Vicente do Rego Monteiro, a arte de Miles Williams Mathis, Amores impossíveis, Poetas de Palmares & Jayme Griz aqui.
Passando a limpo, O mundo líquido de Zygmunt Bauman & muito mais aqui.
A cidade, a urbanização e as enchentes & a arte de Márcia Spézia aqui.
Reino dos sonhos, a literatura de Osman Lins, a poesia de Denise Levertov, A palavra na democracia e na psicanálise de música de Renato Borghetti, a fotografia de Laszlo Moholy-Nagy, a arte de Mike Todd aqui.
Padre Bidião, extraterrestres & novo messias, a pintura de Gino Severini & Liu Yuanshou aqui.
Aquele torneio de chimbra & a pintura de Almada Negreiros aqui.
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A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: The Last Chapter, da pintora australiana Janet Agnes Cumbrae Stewart (18883-1960)
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

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