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quinta-feira, novembro 05, 2020

ALDA MERINI, RICARDO MIRÓ, ISAIAH BERLIN, MARCELO GRECO & TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO


  

TRÍPTICO DQC: BLUE GERSHWIN – Curtindo o Piano Concerto in F major (1925), de George Gershwin, com o piano de Yuja Wang & London Symphony Orchestra (2016) – O dia amanhece na janela para celebração da vida. O escarcéu do mundo no povo em polvorosa, nem se dá conta das estatísticas assustadoras, olvidam do genocídio e tudo como se nada acontecesse. Soletro um poema: Agonizo devagar. Não tenho nada a dizer, nada, absoluta catarse. Os meus pedaços se perderam de mim no labirinto da sobriedade de Cage. Devotei meu olhar a reinventar o muro à cabeça. Criei meu tautócrono com meus versos abstrusos. A loucura me cerca, comunhão. Ah! Meu tormento Van Gogh, minha solidão Almafuerte, sempre instigado pela descrença na frivolidade das coisas. Mal terminara de balbuciar meus versos, recepciono a imagem do filósofo letão Isaiah Berlin (1909-1997): Estamos condenados a escolher e toda escolha pode acarretar uma perda irreparável. Tal como aparecera, a sua efígie vai se apagando como se se dissolvesse aos raios solares. Contemplo o horizonte, a vida é a tônica em todos os lugares, ainda é possível viver.

 


A CENA NA COMPLETA ESCURIDÃO - Anoitecia e com a suspensão do fornecimento de energia elétrica. As sombras ocupavam seus espaços, cada vez maior a escuridão. De repente na parede oposta passou a rolar uma cena da comédia em um ato A família e a Festa na Roça (1840), de Martins Pena, quando personagem Juca sapecou: Se sabem que temos só por fortuna um coração amante e sincero, e quanto baste para viverem duas pessoas honestamente, mas sem luxo, adeus, minhas encomendas. Leva tudo o diabo. Batem com as janelas na cara, voltam as costas, não respondem... Ao final da encenação uma voz reiterou: Realmente, estamos fritos! É caso perdido. Procurei nos quatro cantos, era ela sentada como Sarah Bernhardt: A vida engendra vida. Energia cria energia. É gastando-se que se enriquece. Levantou-se e deixou escorrer a cortina na qual estava enrolada e caminhou nua até mim, recitando um poema de Alda Merini: Se eu repouso, no lento devir / dos olhos, me detenho / ao excesso feliz das cores: / aqui não temo mais fugas ou fantasias / mas a "penetração" me anula. / Amo as cores, tempos de um desejo / inquieto, irresolúvel, vital, / explicação humilde e soberana / dos cósmicos "por quês" do meu fôlego. / A luz me impele, mas a cor / me atenua, pregando a impotência / do corpo, belo mas ainda tão terreno. / E é pela cor a que me dou / que de repente me lembro do meu aspecto / e, assim, do meu limite. E com um beijo ela em mim ficou por todas as horas vindouras de nossa afogueada paixão.

 


OS TERRORES DA HORA & OS HORRORES HUMANOS - Imagem da série Helena (2019), do fotógrafo e professor/orientador, Marcelo Greco – No meio da madrugada ela despertou e me assustei com sua desolação. Entre lágrimas, debruçada na cama e sem cobertas, narrou: Era a madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971. Cerco montado, ela foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador... Liberada no início de novembro, estava profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Internada na clínica Almepe, em Salvador, no dia 4 de novembro. O estado se agravou com a invasão do major Nilton de Albuquerque Cerqueira ao seu quarto de hospital. Na presença da sua mãe, ele ameaçou que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. Ela foi transferida para o sanatório Bahia e morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou para a militância. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: edema cerebral a esclarecer. Um ano depois sua mãe Esmeraldina Carvalho Cunha, que denunciou incessantemente a morte da filha como consequências das torturas, foi encontrada morta em sua casa. Fez um silêncio tumular e sem se mexer por alguns instantes. Depois de algum tempo imóvel, virou-se e me disse: Sim, hoje sou Nilda: Nilda Carvalho Cunha (1954-1971), outra entre as filhas da dor: Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri. E me abraçou como nunca, carne trêmula, dores demais. Ao meu ouvido, ela era Malala Yousafzai: Falo não por mim mas por aqueles sem voz... aqueles que lutaram por seus direitos... Seu direito de viver em paz, seu direito de ser tratado com dignidade, seu direito à igualdade de oportunidade, o seu direito de ser educado. E me empurrou para que deitasse sobre mim e lábios rentes aos meus, mencionou uma célebre frase do escritor panamenho Ricardo Miró (1883-1940): O país é a memória… Pedaços de vida envolto em pedaços de amor ou dor; a palma farfalhando, música conhecida, o jardim e sem flores, sem folhas, sem vegetação. Oh tão pequena que você caber toda todo país sob a sombra da nossa bandeira: talvez você era tão jovem para que eu pudesse tomar em toda parte dentro do coração! E com um abraço firme e requisitante se entregou de corpo e alma para que eu pudesse usufruir da glória que é viver contemplado pelo amor de quem ama e é amada. Até mais ver.

 

TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO (TAP)

Criado em 1941, por Valdemar de Oliveira, o TAP reúne atores ao redor de um teatro de cultura que passou por diversas fases: a primeira, entre 1941-47, correspondentes aos anos de aprendizagem; a segundam, de 1948-58, concernente à renovação da cena; de 1959-1965, compreendendo a consolidação da cena; de 1966-1976, a ordenação do passado; e a partir de 1977, a cena refletida, montando espetáculos, entre eles, Um sábado em 30, de Luiz Marinho, em 1963. Hoje sediado no Teatro Valdemar de Oliveira, na Boa Vista Recife, apresentou ultimamente o espetáculo virtual E assim caminha a terceira idade, de Amanda Moraes, com atuação de Geninha da Rosa Borges. Veja mais aqui e aqui.


 


quinta-feira, maio 21, 2020

MANUEL PÉREZ Y CURIS, KATARINA MATIASEK, MARTINS PENA & JESSICA VANESSA



DIÁRIO DE QUARENTENA – ERA UMA VEZ... BANQUETE NA ESQUINA - Sim, esse meu ofício inútil de contar história, não faço outra coisa: era uma vez... não sei quando, se ontem, anteontem ou nunca, sei lá, sei que foi um banquete na esquina desses bem aloprado. O Coiso Rei poderoso com uma oposição esfacelada e o povo sequelado, desgovernava quando soube duma peste devastando o mundo lá fora. Reuniu os comparsas e ouviu de Ali Babão um relatório acurado: morria gente pelo ladrão, lá longe. Então, o rei teve um desmaio com a notícia e, ao voltar a si, gritou: Creolina! Foi o bastante, todos os cheleleus caíram na fabricação do dito que passou a ser usado como antidepressivo e complexo alimentar de grande apelo popular e saíram pelo mundo afora levando a boa nova da cura milagrosa. Não levados a sério, voltaram com o rabinho entre as pernas para o reinado e amargaram o insucesso: o negócio gorou! Um a um deles foram picados pela moléstia estrangeira, baixaram hospital e, na maior rebordosa, espalharam entre todos os súditos de forma devastadora. Chegou para valer e logo, com mais de milhares mortos, o rei ficou encurralado e respondeu: E daí? Houve colapso no sistema de saúde, mas o soberano ciente de seu autoendeusamento brincava de largar piadas: Tomem creolina e se salvarão, garanto! Só que a morte e vida Severina não foi avisada e só era avessa à água sanitária e sabão; ninguém sabia e, sem nada na terrina, até um curumim morreu aumentando as estatísticas astronômicas. Era uma situação mofina, deveras. O rei para provar de sua autoridade virava a terebintina de manhã, de tarde e de noite. Findou entupido e cagando raio ninguém sabe por onde, pois se empirulitou meio aluado ou está escondido no reinado, dizem. O povo? Entre néscios e ajuizados, um ou outro prefere a teibei cantando a Cajuína de Caetano: Existirmos, a que será que se destina... E há entre outros aquele que distribui conselhos pela vida, ou morte, não sei. DOIS: FANFARRA DA MILITARIZAÇÃO & O PERDÃO DA MAJESTADE – E num é que o rei piscou o olho e reapareceu com a cara meia troncha e falando das mãos prum bocado de fardados que ele convocou: As mãos... as minhas mãos... as nossas mãos... tornaram-se perigosas, capazes de nos matar com a peste. Por isso, as minhas mãos se tornaram misericordiosas com decreto que isenta a responsabilização de agentes públicos por ação e omissão em atos relacionados com a praga; compassivas para exculpar as dívidas milionárias das evangélicas que me ensinaram a rezar e me salvaram; bondosas para anistiar as sonegações dos ruralistas que são os amigos e o futuro do reinado; generosas para eximir as multas dos partidos políticos que aparecerem acaso por bem; caridosas para criar um núcleo filantropo para dispensar dívidas geradas por crimes ambientais, enfim, para que o povo viva e seja feliz! Foi uma saraivada de quepes e aplausos, claque da boa! Com esse discurso em cadeia nacional todo mundo ficou atordoado do juízo, porque no boca a boca todos sabiam de uma tuia de planos para derrubá-lo por um molho de coisas meio cabeludas, enquanto ele se virava nos trinta para salvar o trono em conluios com inimigos figadais agora amigos de cama e mesa, abafando investigações, CPIs e o escambau. Generais que davam cordas e voltas! Afora almirantes no bilu-teteia e brigadeiros no bolo. Estava armada a defesa nacional! Sabiam: O cara não é lá tão incompetente, é foda mesmo! Juntando as pedras: é que a creolina gerou milhares de conflitos agrários e fuga de mais de outros tantos de milhares de famílias ameaçadas que botaram a boca no trombone e a imprensa oficial nem deu bola. Todo mundo só virando o copo. Mas pegou, sim. Como dizia Bukowski: É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa. Eita Creolina danada essa, hem? E o que está acontecendo, na vera, nem sinal de se saber de mesmo, ao certo. TRÊS: LUTO! - Os pesares eram tantos, mas o rei já tomava um porre de estricnina de nunca mais entrar no ar. Abilolou, foi? Vixe! Ué, ele num morre não? Nada, ele é indestrutível, invulnerável! Será o SuperCoiso? Oxe, mas teco! E o povo num verdadeiro anojamento, morria. E diziam e arrostavam, nada; e contenderam e litigaram e renhiram e pugnaram e porfiaram mais pelejaram e nada. Fizeram mesmo o quê? Concordavam: Quando deus não quer, não adianta! Será deus o rei? E Maiakovski entre os mortos insepultos: Ressuscita-me! Hem? Quem é esse doido? E Niki de Saint Phalle: A vida... nunca é o caminho que se imagina. Ela te surpreende, te assombra, e faz você rir ou chorar quando menos espera. Vôte! Essa é biruta mesmo! Xá pra lá, doida! A vida passa. Ah, impermanência. Vou ali tomar uma para bolar outras histórias assim sem pé nem cabeça, visse? Enquanto isso: vamos aprumar a conversa, gente! Até amanhã! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Eu não sou um perdedor / nem o louro do triunfo cinge os meus templos. / Broches de aço mantêm meu espírito: / A calúnia nunca pode me machucar... / Eu não sou um perdedor, porque eu consegui fugir com uma testa limpa / do caminho fácil que os vilãos seguem / e voltei ao sábio em acelerar as costas virís / que não foram feitas para dobrar; / quando com bajulação os sábios queriam me levar ao cume / virei as costas para eles e entrei em um caminho vestido de cardos, / caminho da dor e do desespero / para os rebeldes, / para humanos, / para os humildes que nunca escondem a alma e a ideia, / para aqueles que dizem a verdade e esperam com o pescoço na vertical / alguém para responder, - magnata ou poeta, malabarista ou advogado, - / de ricos escritórios de advocacia cobertos / de fólios e folhetos; / dos terraços dos miradouros; / do estrado das academias / ou das torres de marfim fechadas / a todas as reclamações da multidão, / à voz sofredora de peregrinos e mendigos, / à sátira ardente dos Juvenales / e ao discurso sóbrio dos sonhadores imunes ao vício. / Há no meu cachecol / janelas abertas a todos os ventos / e para todas as luzes, / em cujas coisas ociosas / eu nunca coloquei mãos febris. / As flores me mandam seu perfume, / o sol brilha, sua frescura brisa / perfumado, e o eco me traz / de marginalizado transita e deserdou a justa queixa. / Entre no meu cachecol / todo sotaque humano, / e nele eles se harmonizam com a voz de cristal dos meus filhos / arpejos puros do meu parceiro. / Eu sonho na noite / enquanto o sussurro do vento nas folhas responde altamente / com seus latidos persistentes o cachorro que cuida da minha estadia / e fica ao meu lado como um amigo fiel, / sempre olhando para mim, como se quisesse ler nos meus olhos; / como se ele quisesse entender minha angústia / e olhar profundamente em minha alma. / Minhas roseiras geralmente se espalham por toda parte / seu perfume intenso / que ao mesmo tempo invade os quartos reais e as camas tristes. / Quando aquele perfume flutua ao meu redor / Eu penso nos míseros que escondem seu ouro, / nos sábios mesquinhos que eles carregam / para o túmulo sua sabedoria / e nos pedagogos e nas barreiras venais / que eles têm como culto a traição e o medro / e eles mostram amor pelo país, / com seus brinquedos fofinhos para a terra azul / pelo qual eles não fizeram sacrifício. / Todos eu, todos os escravos, me fazem chorar; mas eu tenho um escravo: / o ritmo, o glorioso / gladiador nu masterização arte / e ao esforço viril do meu músculo numen se rende e dobra. / Eu toco com o ritmo / que com uma chapa de aço flexível / ou a melhor vara de cana; / e é por isso que o ritmo está de acordo com minhas músicas / de amor, para a seiva dos meus anátemas / e ao hálito mórbido das minhas elegias / e à evanescência voluptuosa e calorosa dos meus madrigais. / A rima é uma transcrição desses arabescos / que brilham por um momento em nossa retina / e eles desaparecem, como uma bola de fogo, sem deixar sua marca. / Símbolo de bolhas e vangloriando-se, / feliz sombreamento de trastes e randas, / rima é charme para os sentidos... / Contudo, / sem ele, as cotovias e os rouxinóis nos fazem vibrar / que não se decoram quando melodizam, / e com isso eles costumam encobrir sua mídia / estros estéreis, bebidas espirituosas diminuídas / e consciências sombrias e sombrias. / Cairel de caireles, / é a rima a decoração do verso / que com a fragrância do ritmo é nutrido. / Meu numen reflete / todas as nuances das minhas emoções / e pela minha aparência; / e, como um rio que nunca extingue suas forças latentes, / ele não impede que minha alma generosa flua / que rezam são apaziguados docemente, docemente, como num remanso, / Agora eles estão em tumulto, como se anunciando vórtices ou quedas. / Rabien os cantores que impõem reivindicam norma ao sentimento! / Dê às auras o significado de suas blasfêmias / e derramar bile Aristarco e Zoilo! / enquanto isso meu numen traduz / Da mesma forma, o tremolo daquele sensível que carrego na minha alma / e o protesto acre do meu personagem de bronze retilíneo! Poema Prelúdio ético-estético, extraído da obra Ritmos sin rima y otros (Nabu, 2011), do poeta uruguaio Manuel Pérez y Curis (1884-1920).

O TEATRO DE MARTINS PENA
[...] JUCA: Sei que temos só por fortuna um coração amante e sincero, e quanto baste para viverem duas pessoas honestamente, mas sem luxo, adeus, minhas encomendas. Leva tudo o diabo. Batem com as janelas na cara, voltam as costas, não respondem [...]
MARTINS PENA - Trecho da peça teatral A família e a festa na roça: comédia em 1 ato, do dramaturgo, diplomata e introdutor da comédia de costumes no país Martins Pena (1815-1848), que conta a história da família de Domingos João, um fazendeiro com problemas econômicos que vê a oportunidade de aumentar suas posses casando a filha Quitéria com Antônio do Pau D’Alho, já que este moço tem “um sítio com seis escravos e é muito trabalhador”. Mas Quitéria ama Juca, um estudante de Medicina, que também a ama e quer se casar com ela. Extraído da obra Comédias de Martins Pena (Ediouro, s.d.), organizada por Darcy Damasceno. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Reconheço os Guardiões Tradicionais das terras em que nossas entrevistas foram filmadas e presto meus respeitos ao passado dos Élderes, presente e emergente, pois eles são a chave para o futuro do nosso planeta.
KATARINA MATIASEK - A arte da fotógrafa e artista visual austríaca Katarina Matiasek, que questiona com suas obras a relação entre a imagem e realidade, investigando conexões estruturais entre mídia e imagens baseadas na percepção e operações cognitivas que levam à construção do mundo. Realizou uma pesquisa para o doutoramento em antropologia e fotografia, realizando uma coleção que levou a vários projetos de repatriação, como o retorno de restos ancestrais australianos a seus proprietários tradicionais em 2011. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Fotografar é acima da arte de escrever imagens com luz. É eternizar momentos, sorrisos e lágrimas, maneira de expressar o que se vê ou sente.
A arte da fotógrafa, produtora, cineasta, educadora social e ativista de causas sociais, Jessica Vanessa, que atua na presidência do Coletivo Centro de Comunicação e Juventude (CCJ/Recife), integra Fórum de Juventudes de Pernambuco (FOJUPE), o Movimento Negro Unificado (MNU), coordenadora estadual do Coletivo Nacional de Juventude Negra Enegrecer e articuladora nacional de politicas publicas de juventude.
&
A música do gaitista, violonista, compositor, arranjador, maestro e produtor musical Rildo Hora aqui.
A poesia do poeta, cantador, violeiro e repentista Otacílio Batista aqui.
A obra da educadora, jornalista, poeta e ativista feminina Edwiges de Sá Pereira (1884-1958) aqui.
Feminismo popular e lutas antissistêmicas, de Carmen S. M. Silva aqui.
O grupo teatral As Loucas da Mata Sul aqui.
A arte da artista visual Dulce Araújo, a D-Araújo aqui.
Mapa Cultural de Pernambuco aqui.
&
Lampioa & Zé Bunito aqui.
 

quinta-feira, novembro 05, 2015

CREMA, BEZALY, MOZART, LEILA, MARTINS PENA, ANGELI, CAPSI, EUDES, ZORN, JOÃO MONTEIRO & DAS IDAS E VINDAS DA VIDA.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DAS IDAS E VINDAS, A VIDA - Era um mormaço de tarde na segunda metade dos anos 1980. Local: a rua da delegacia de uma cidade pacata de interior. O povo em polvorosa, indignação geral. Foi que um mês antes, Judilidinho resolvera dar as caras depois de alguns bons anos de sumido na capital paulista. A mãe quase teve um troço, tinha-o na conta dos desencantados nas curvas do destino. Nada, vivinho da silva, gírias nas jaquetas, ginga nos blusões. Temperatura alta e ele vincado nos trinques do frio de sulista, pronúncia de erres e esses das aventuras de bafos ousados pra delírio das mocinhas debutantes. Encantadas, viam-no príncipe nas suas calcinhas úmidas de desejo embaixo das saias, seios buliçosos no decote do vestido. Ele, ancho pervertido, retribuía-lhes arrancando o cabaço dia a dia, uma a uma. Contava nos dedos, Francinilza, Leucidalva, Dilmanilde, Marizalda, Nilmaria, Belazita e quantas mais viessem assanhadas e oferecidas, papadas nos prêmios da conquista: – Hoje só três perdero os vinténs -, era o troféu da empáfia no pódio da galera. É-he! Quando sentiu o arrepio da Lurdivalnia, a sua própria mãe vem com carão de arrancar-lhe a pele. – Não mexa com a da cumade Dezinha, ela é minha afilhada! -, e sapecou-lhe jura de pisas em meio a beliscões. Ele enfureceu e revidou aos tabefes, dela estender-se aos gritos no chão. – Sou sua mãe! A vizinhança acudiu, ele escapulira. Coração de mãe abafa: - Foi ladrão! E tome caçada dele chegar depois, cara lisa: – Que s’assucedeu? Ciente do ocorrido, tal qual Édipo jurou vingança: - Vou capar o desgracento! Acreditaram, mãe de esguelha. Nisso deram por falta da Francinilza, enquanto a Lurdivalnia se enrabichava inquieta mais pra sua banda no brejo do quintal. Há dois dias Leucidalva não voltara pra casa, enquanto ele picava a sua peçonha no brejo da moça com a saia na cabeça. - Cadê a Dilmanilde? No meio do vuque-vuque, ele insaciável meteu-lhe martelada, o sangue descia pelo pescoço e entre as pernas dela. – Pronde foi Marizalda? Quase desfalecida, rasgou-lhe o esfíncter anal com seu mondrongo avantajado, do sangue descer pelo rego da bunda branca e sedosa. Ela desmaia. Ele aproveitou-se das folhas de zinco e cobriu-a deitada nua no brejo. A água fria, ela acordou-se desorientada. Novos golpes, pênis na vagina, pedras no peito para não boiar. Trabalho feito, arrumou-se e rumou pra rodoviária. – Quédi Nilmária? No guichê, passagem pra São Paulo, embarque 23hs. – Belazita sumiu! Foi pra casa, pegou a bolsa e começou arrumar seus pertences. – Pronde tu vai, desgraçado? – perguntou-lhe a mãe de través. – Já vou-me, as férias findaram. – Tu tais sabendo que tão querendo o paradeiro da minha afilhada? – Oxe, ela sumiu? – Tu num tem nada a ver com o sumiço das meninas que viviam tudo assanhada atrás de tu, né? Ele virou-se com um olhar implacável. Ela temeu, sentiu fedor de enxofre no ar. – Valha-me, Deus! Nem deu tempo dela findar balbucio, viu-lhe os olhos vermelhos de fúria. Saiu às pressas segurando as saias, chamando atenção. – Que foi? Aos prantos, voz enrolada, só sabia apontar pra sua casa. Vizinhos acorreram, não deram por nada. – Ele escapou de novo, vai pra rodoviária! -, conseguiu, enfim, avisar. Era o fim da picada, coração materno destroçado. E a população em peso na captura com toda justiça nas mãos. Foi preciso chegar a polícia para conter o linchamento. Levaram-no protegido pra delegacia. Os apupos de opróbrio geral. Horas de aperto e ameaça do povaréu de invadir o recinto, depôs tudo: o ódio da mãe desde que nascera, o abuso do pai escafedido, a rejeição do padre em dar-lhe primeira comunhão... o delegado impaciente já lhe dera uns tapas e logo o paradeiro dos corpos seminus das estupradas na grota do canavial, na gruta do rio, na beira do açude, nas valetas da estrada. Todas irreconhecíveis. Uma a uma pesou-lhe a sentença. Foi preciso um batalhão de soldados para protegê-lo no trajeto pro presídio. Nem esquentou canto, naquela mesma noite, madrugada no meio, um apenado primo das ofendidas estrangulou-o na cela. O povo de alma lavada; e os anjos no céu, amém. Veja mais aqui.

Imagem: Nude girl stretched out on her bed Art, do pintor sueco Anders Zorn (1860-1920).


Curtindo Flute Concert - Wolfgang Amadeus Mozart (BIS, 2005), com a flautista israelita Sharon Bezaly & Ostrobothnian Chamber Orchestra, Juha Kangas.

VOCAÇÃO: A TAREFA PESSOAL – O livro Saúde e plenitude: um caminho para o ser (Summus, 1995), do antropólogo e psicólogo Roberto Crema, apresenta a contribuição da visão holística aplicada aos campos da saúde, educação, consultoria e pesquisa psíquica, com inspiração na antropologia, ética e prática dos terapeutas de Alexandria, cujos princípios são reforçados pelas evidências das descobertas científicas de ponta, oferecendo uma visão inovadora e criativa dos campos mencionados. O livro aborda temas como integração do método, desafios e liderança do facilitador holocentrado, memórias da prisão e espaço vivencial, metaprincípios para uma abordagem transdisciplinar em terapia, vestígios de encontros, entre outros temas. Da obra destaco os trechos da parte da Vocação a tarefa pessoal: [...] quando nos convocamos a existir, numa coordenada tempo-espaço, nós nos fazemos um propósito. Há uma promessa inerente ao nosso ser. Não estamos aqui apenas para um pic-nic ou aposentadoria. Estamos aqui para realizar uma tarefa pessoal intransferível. Estamos aqui para concretizar uma obra-prima; para trazer uma diferença ao universo. É o que denomino de vocação: a voz interna de nosso desejo mais fundamental e o imperioso impulso para realizarmos o que somos. [...] Há uma significativa dimensão educacional holística em psicoterapia. No seu sentido original, educação provém do latim educare, significando traze3r para fora a sabedoria inerente ao individuo: atualizar o seu potencial inato. Aprender a fazer delicada escuta e leitura da sintomatologia como denuncia de contradição e desvio, é uma importante etapa no caminho do autoconhecimento e individuação. [...] Uma só pergunta nos será feita, pelo senhor da totalidade psíquica, o Ser, na ocasião do ajuste de contas final, no findar de nossas existências: Você foi você mesmo? O que você fez com os talentos que lhe foram confiados? Bem ou mal, a esta pergunta haveremos de responder. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ROSA – No livro O lobisomem e outros contos (Pasárgada, 1994), do advogado, jornalista e escritor Eudes Jarbas de Melo (1925-1999), encontrei o conto A Rosa, o qual transcrevo a seguir: A moça descia a alameda em direção a casa. Caminhava despreocupada, na tarde indecisa que se avizinhava da noite. Os garis, que trabalharam o dia todo nas redondezas, já estavam prontos, aguardando o transporte da firma. Nesse interim, um homem dela se aproximou e falou do seu marido. “Olha, ele está bem e pede que não se preocupe...” A moça não se assustou com a abordagem. O homem prosseguiu: “...ele também me pediu que olhe desse essa rosa”. Embaraçada, sem raciocinar sobre o que se passava, ela agradeceu e retornou o seu caminho. Só em casa, recomeçou a lembra-se e disse a irmã: “Eu nunca vi aquele homem... e por que meu marido mandaria um estranho entregar-me uma rosa? Ah, eu quero esclarecer este fato. Vem comigo... é possível que o homem ainda se encontre nas redondezas...” Colocou a rosa em um copo com água e saiu com a irmã. Só encontrou os garis. Perguntou a um deles pelo homem com quem falara. “Eu vi a senhora olhando uma flor e falando sozinha. Pensei que houvesse perdido algum objeto...” A moça voltou para casa, cheia de pressentimentos. “Eu não estou maluca. Falei àquele homem... e a flor? Onde fui arranjá-la?” Naquela noite a insônia lhe fez companhia. Mas só quando o dia amanheceu, chegou a notícia. Seu marido morrera de um desastre de carro. Muitos dias se passaram para que a moça se refizesse do golpe. O tempo foi o analgésico de sua dor. Hoje, passados alguns meses, ninguém mais comenta sobre o falecido, mas, pergunta, sim, pela flor que permanece no copo, viva e freca, tal como no dia em que o homem a entregou... Veja mais aqui.

SONETO AOS SUJOS & OUTROS POEMAS – No livro Gavetário (Medusa, 2012), do poeta, músico e advogado João Monteiro - que edita o ótimo blog Momento Monteiro -, destaco inicialmente destaco o Soneto aos sujos: merda miséria / miséria de merda, / merda mui séria / de merda / dar-me de mudo / te merda que séria / em série de merdas e surdos / que merda! / séria miséria / te surtam que sabem / e gostam de sujos / de merda que mudos / só medram em miséria, / miséria de muitos. Depois, o poema Cânone: Dará vida forma em rica / e já sim de como dará vida / forma rica dava fome onde / modo já de sim e dívida / dado como ode fome onde / cara forma caricato rica / mofa dado dado já em vida / vinda cara dada já em onde / já em dado cara a cara fome / dado mas mas não encara e come / come sim e já não vê saída / forma vinda vida cara e onde / modo cada forma dado e come / já de sim de com jaz a vida. Também Cera quente: Dou-lhe um candelabro / e você com os lábios / vai-me atiçar os nervos. Mais o poema Solidão: despiu-se da carne arrebatada no peito / do sangue de todas as angustias tardias / infindas no tempo-estridor dos dias / calados em dor implodida, / tudo o mais claro intento, / satirizar a morte / e martirizar a vida. Por fim, Acalanto cordial: Um dia a mamãe me disse, / e eu jamais esqueci: / - Joãozinho, o mundo é triste, / mas não para ti! / Eu sou lindinho, sensível e especial / não há nada que me possa magoar / o coraçãozinho: / Dorme, neném, / que a vida ensinará, / descubra logo as coisas / o amor devorará. / Ai, mamãe, você tem sempre razão! Veja mais aqui.

QUEM CASA QUER CASA – A peça teatral em 1 ato Quem casa, quer casa (1845), do dramaturgo e diplomata Martins Pena (1815-1848), introdutor da comédia de costumes com obras recheadas de ironia e humor, graças as desventuras da sociedade brasileira. Da obra destaco a cena inicial: Sala com uma porta no fundo, duas à direita e duas à esquerda, uma mesa com o que é necessário para escrever-se, cadeiras, etc. Paulina e Fabiana. Paulina junto à porta da esquerda e Fabiana no meio da sala; mostram-se enfurecidas. PAULINA (batendo o pé) - Hei de mandar!... FABIANA (no mesmo) - Não há de mandar!... PAULINA (no mesmo) - Hei-de e hei-de mandar!... FABIANA - Não há-de e não há- de mandar!... PAULINA - Eu lho mostrarei. (Sai.) FABIANA - Ai que estalo! Isto assim não vai longe... Duas senhoras a mandarem em uma casa... é o inferno! Duas senhoras? A senhora aqui sou eu; esta casa é de meu marido, e ela deve obedecer-me, porque é minha nora. Quer também dar ordens; isso veremos... PAULINA (aparecendo à porta) - Hei de mandar e hei de mandar, tenho dito! (Sai.) FABIANA (arrepelando-se de raiva) - Hum! Ora, eis aí está para que se casou meu filho, e trouxe a mulher para minha casa. É isto constantemente. Não sabe o senhor meu filho que quem casa quer casa... Já não posso, não posso, não posso! (Batendo com o pé:) Um dia arrebento, e então veremos! (Tocam dentro rabeca.) Ai, que lá está o outro com a maldita rabeca... É o que se vê: casa-se meu filho e traz a mulher para minha casa... É uma desavergonhada, que se não pode aturar. Casa-se minha filha, e vem seu marido da mesma sorte morar comigo... É um preguiçoso, um indolente, que para nada serve. Depois que ouviu no teatro tocar rabeca, deu-lhe a mania para aí, e leva todo o santo dia - vum,vum,vim,vim! Já tenho a alma esfalfada. (Gritando para a direita:) Ó homem, não deixarás essa maldita sanfona? Nada! (Chamando:) Olaia! (Gritando:) Olaia! Veja mais aqui e aqui.

AMOR, CARNAVAL E SONHOS – No Dia Nacional do Cinema Brasileiro, nada mais justo que trazer aqui a homenagem oportuna ao drama Amor, carnaval e sonhos (1972) dirigido pelo cineasta Paulo César Saraceni (1933-2012), conta a história que ocorre nas vésperas do carnaval, quando uma jovem suplica um milagre a uma santa de sua devoção: quer um rapaz com quem possa brincar durante a folia. E, quando todas as esperanças parecem perdidas, o milagre acontece; um malandro surge pela janela. A partir daí, o filme mostra dramas íntimos que se extravasam nos quatro dias de folia, tendo como pano de fundo o carnaval. O destaque do longa-metragem é nada mais nada menos que a grandiosa atriz Leila Diniz (1945-1972) que ao concluir as filmagens, faz a viagem que não tem volta e o país fica órfão desta grande mulher. Veja mais aqui e aqui

CONTANDO HISTÓRIAS - O Centro Acadêmico de Psicologia Martin-Baró (Capsi) realizará neste dia 11 de novembro, no horário das 17:30 às 19:30 hs, no adutirótio do curso de Direito do Centro Universitário Cesmac, o evento Conversas em Psicologia: contando histórias, que contará com a presença e apresentação de abordagem temática pelo psicólogo, psicoterapeuta e professor Afonso Henrique Lisboa Fonseca, e pela psicóloga e professora Daniela Botti da Rosa. Informações no Capsi Cesmac. Entrada: um livro infantil novo ou usado ou R$ 5,00. Certificação: 2 horas. Realização: Centro Acadêmico de Psicologia Martin-Baró, do Cesmac. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte & as mulheres de Angeli.
Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

CURSO DINÂMICO DE ORATÓRIA
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quinta-feira, junho 25, 2015

GAUDÍ, ORWELL, PALLOTTINI, TALES, MARTINS PENA, LOREN, TOBIASSE & MARTINS.


PECHISBEQUE - Imagem: Opal, do artista plástico estadunidense Sam Francis (1923-1994) – A cada dia que se passa – e cantando os versos Cantador: a vida passa em cada passo do caminho, vou passarinho professando a minha fé... -, tenho cá comigo que o inopinado é surpreendente, mesmo quando se tem a percepção de que não há nada de novo sob o sol. Tenho sempre a impressão de que vagamos tangidos por algo que sinto no ar de manipulação e que não é fácil de detectar: anúncios, semáforos, barulhos, correria. Algo me diz respeito. Pare o mundo que eu quero descer, ora. Vou no devagar, quase a esmo. Na vera: nunca acertei um ipsilone de nada que valha; errático, fugindo do ócio. Feliz sou de atirar na doida e acertar no cachaço do enterro voltando. Dou meu testemunho: se a audácia já suplanta as desventuras, viver só não basta! Exploro o horizonte. Afinal, onde é que vamos pousar, hem? Vivemos do uso das próteses com os atrativos do magnetismo escuso e predominante dos simulacros, no dilema vicariante sem a interação corpo a corpo, só na superfície, vivendo do Panem et Circenses no país de Cucanha. Fico com a sensação de que a ninguém é dado o direito de ter acesso à caixa-preta, só nas beiradas. Mas eu fuço. Mesmo que a gente só se atrepe na oportunidade, driblando os pingos da chuva pra não se molhar, pendurado no tênue cordão da vida – só um fiapo -, chega prevejo a qualquer momento rebentar tudo e despencar no abismo. E babau de ziriguidum. Foi pro saco, já era. Agora, só na outra. Sensação braba essa, cotidiana. Destá. Respiro fundo e sigo o dia pela noite adentro até o amanhecer: tem outro sentido pra tudo isso que os olhos nem sentido algum percebem. Estou atento e vou adiante: olhos grandes, quero ver o que não enxergo. Veja mais aqui.

Imagem: Les Canques de Cantiques - The song of songs (1996) do pintor, ilustrador e escultor francês Theo Tobiasse (1927-2012).

Curtindo: Bach: Concertos for Piano & Orchestra (2006), do pianista brasileiro João Carlos Martins & Sofia Soloists Chamber Orchestra, conductor Plamen Djurov.

NÃO É O HOMEM, MAS A ÁGUA, A REALIDADE DAS COISAS – O filósofo, matemático, engenheiro e astrônomo grego Tales de Mileto (623aC.-548aC), considerado um dos setes sábios da Grécia Antiga, fundou a escola de Mileto – Escola Jônica -, expressando a autenticidade do espirito jônico, ao qual se opõem os eleatas, representantes do espírito dórico. Com ele ocorre o advento da ciência, caracterizada pela universalidade e pelo aspecto lógico e racional. A sua escola foi decisiva para a mentalidade, método e nova perspectiva da qual se passou a se considerar o mundo. Os milesianos procuraram um princípio único ou substância fundamental, que permanecesse estável, ao longo do vir-a-ser. Para Tales, essa substancia era a água, pois o que é quente precisa da umidade para viver, o morto resseca, todos os germes são úmidos e os alimentos estão cheios de seiva. É natural que as coisas se nutram daquilo de que provém. A água é o princípio da natureza úmida, que entretem todas as coisas, e a terra repousa sobre a água. Os seus estudos sobre geometria e proporcionalidade possibilitaram a determinação da altura de uma pirâmide, o que o levou a ser considerado o pai da geometria descritiva e desenvolveu o seu teorema que é determinado pela intersecção entre retas paralelas e transversais que formam segmentos proporcionais. Certa feita, ele asseverou que não há diferença entre a vida e a morte, fato que levou a perguntarem por que não morrera, ao qual respondeu: - Porque não faz diferença. E arrematou: - É difícil, porem bom, conhecermos a nós mesmos, pois, isto é viver conforma a natureza. Veja mais aqui, aqui e aqui.

1984 – O romance distópico clássico 1984 (Nineteen eighty-four 1949, Companhia Editora Nacional, 1979), do escritor e jornalista britânico George Orwell (Eric Arthur Blair – 1903-1950), é uma metáfora sobre o poder e as sociedades modernas, retratando o cotidiano de um regime político totalitário e repressivo, mostrando uma sociedade oligárquica coletivista e sua capacidade de reprimir qualquer que oponha a ela. Conta, portanto, a história de Winston, um funcionário do governo da Oceania que se revolta contra a sua realidade sob o regime totalitário do Big Brother, o Grande Irmão, e sua ideologia IngSoc. Descobre ele, ao se apaixonar por Julia, que o sexo deve ser apenas usado para a procriação, senão é considerado crime. Da obra destaco o trecho inicial: Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele. O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO E M VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo. No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

PAÍS DE CUCANHA - Imagem: A era do ouro, do pintor e gravurista germânico renascentista Lucas Cranach (1472-1553) – No Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos, bem como de curiosidades verbais, frases feitas, ditos históricos e citações literárias, de curso corrente na língua falada e escrita (Documentário, 1974), organizado pelo escritor, historiador, jornalista, escritor e teatrólogo Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981), consta que a expressão País de Cucanha é o mesmo que país da abundancia e da fatura, terra das coisas mirabolantes, onde tudo são gozos e deleites. É a terra da árvore das patacas, onde se amarravam cachorro com linguiça. Criação do fabulário da Idade Média, chama-se, na França, Terra de Cucagna. Segundo Maurice Rat, a expressão aparece pela primeira vez num fabliau – narrativa jocosa em versos, geralmente grosseira - do século XII, intitulado Ayneri de Narbonne. No século XIII, serve de título a outro, em que o autor narra que, tendo ido a Roma, pedir ao papa a absolvição dos seus pecados, foi mandado para penitência a um país cujas casas tinham as paredes construídas de comestíveis de toda espécie e cujos rios eram divididos ao meio, correndo de um lado vinho tinto e do outro vinho branco. Diz o comentarista que se tratava de uma adaptação do fabliau de descrições greco-romanas de L’Age d’Or (A Idade de Ouro), também adaptado por Fenelon em sua Viagem à Ilha dos Prazeres. A palavra francesa cocgne é de origem ítalo-provençal e a expressão foi utilizada por muitos autores franceses. O poeta e crítico francês Nicolas Boileau (1636-1711), na sua sátia Embarras de Paris, deu-lhe a carta de nobreza das letras clássicas, escrevendo os versos: Paris é para o rico um país de Cucanha: / sem sair da cidade, ele encontra o campo. O poeta e libretista francês Pierre Jean Béranger (1780-1857), cantou numa de suas canções: Ébrio de champanha / percorro os campos / e vejo de Cucanha / o país sedutor. O escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850) usou a expressão vida de cucanha, em relação a um de seus personagens. O dramaturgo veneziano Carlo Goldoni (1707-1793), compôs uma comédia de três atos, Il Paese dela Cucagna, assinalando que ela está em toda parte, mas infelizmente dua muito pouco. Foi a conclusão que também chegou Capistrano de Abreu ao referir-se, em um artigo publicado em O Jornal (1925), que tal país não estaria longe do Brasil primitivo, descrito entusiasticamente por Gabriel Soares e pelo padre Fernão de Cardim: As águas prodigiosas eram inexauríveis; os senhores de engenhos tinham sempre todo gênero de pescados e mariscos de toda a sorte por terem deputado certos escravos pescadores para isto e de tudo tinham essa tão cheia que na fartura pareciam condes. Nos engenhos mais afastados do mar existia toda a variedade de carnes, galinhas, perus, patos, leitões e cabritos. Por Gabriel Soares sabemos que a gente de tratamento só comia farinha de mandioca fresca, feita no dia. O mesmo autor dá uma lista, forçosamente incompleta, das conservas e doces, transplantados uns além-mar, aprendidos outros na terra. Dir-se-ia um país de Cocagne. Além disso, encontra-se a expressão nas narrativas sobre a terra maravilhosa de Bengodi, as aventuras de Calandrino, nos contos de Bocaccio, na Ilha dos Amores de Camões e no Eldorado que Voltaire apresenta em Candide ou L’Optimiste, no qual as crianças brincavam nas ruas com moedas de ouro, como noutros lugares brincam com seixos. Veja mais aqui e aqui.

LEGADO & O GRITO – Já tendo destacado aqui a obra poética e teatral da poeta, professora e advogada Renata Pallottini, destaco aqui dois poemas dela recolhidos na edição nº 10, Ano III, de maio de 1983, da revista Poesia – Uma revista da gente com o sentimento do mundo (Nordestal,1983). O primeiro deles, Legado: Conta a teu filho, meu filho / da que que nós passamos; / que havia fitas gravadas / retratos de corpo inteiro. / Conta que nos encolhemos / como animais espancados; / que ninguém teve coragem, / que respirávamos baixo, / olhos fugindo dos olhos. / as mãos frias e suadas. / E conta que faz dez anos, / que temos pouca esperança, / que pedimos testemunho / e não aguentamos mais. / Talvez teu filho, meu filho, / viva em um mundo mais aberto, / mas é grave / que lhe contes calmamente / e nos mínimos detalhes / a historia desses punhais / cravados em nossas tardes. / Porém se por tudo isso / renuncias a ter filhos / como (alguns) renunciamos / deixa inscritos, como eu deixo, / sinais em troncos de árvores / letra em papéis esquivos / para que não escureça / esta lâmpada mesquinha / ralampago,  fogo fátuo / pura lembrança dos dias ; em que livres fomos filhos / de pais muito felizes. / Conta a quem possas, meu filho; / o que em ti forem palavras / nos outros serão raízes. E o belíssimo poema O Grito: Se ao menos esta dor servisse / se ela batesse nas paredes / abrisse portas / falasse / se ela cantasse e despertasse os cabelos / se ao menos  esta dor se visse / se ela saltasse fora da garganta como um grito / caísse da janela fizesse barulho / morresse / se a dor fosse um pedaço de pão duro / que a gente pudesse engolir com força / depois cuspir a saliva fora / sujar a rua os carros o outro / esse outro escuro que passa indiferente / e que não sofre tem o direito de não sofrer / se a dor fosse só a carne do dedo / que se esfrega na parede de pedra / para doer doer doer visível / doer penalizante / doer com lágrimas / se ao menos essa dor sangrasse... Veja mais aqui e aqui.

AS CASADAS SOLTEIRAS – A comédia em três atos As Casadas Solteiras (1845), do dramaturgo, diplomata e introdutor da comédia de costumes no país Martins Pena (1815-1848), trata com ironia e humor as graças e desventuras da sociedade brasileira e suas instituições, contando a história de dois amigos ingleses apaixonados por duas irmãs, com quem fogem para se casar escondido do furioso pai das moças. Envolvidos em confusões e desencontros, os personagens prometem momentos de muita diversão. Da obra destaco o trecho compreendido pela Cena XI: CENA XI Narciso e as ditas. NARCISO, entrando - Ai, que estou estafado! Muito tenho andado (sentando-se), e muito conseguido... CLARISSE - Meu pai resolveu-se a jantar em casa? NARCISO - Sim, estou com muitas dores de cabeça, e o jantar fora incomodar-me-ia... Mas quê? Esta mesa... HENRIQUETA, à parte - Mau... NARCISO - Tantos talheres? VIRGÍNIA - Henriqueta e seu marido jantavam conosco. NARCISO - Ah, está bom. Acrescentem mais dois talheres. CLARISSE - Para quem? NARCISO - Para os amigos Serapião e Pantaleão. VIRGÍNIA - Pois vêm jantar conosco? SERAPIÃO, dentro - Dá licença? NARCISO - Ei-los. (Levantando-se:) Podem entrar. (Indo ao fundo.) CLARISSE, para Virgínia e Henriqueta - E então? VIRGÍNIA - Não sei no que isto dará... [...] Veja mais aqui.

THAT KIND OF WOMAN – O drama That Kind of Woman (Mulher daquela espécie, 1959) do cineasta estadunidense Sidney Lumet (1924-2011), baseado no conto Layover in El Paso, do professor de literatura e compositor estadunidense Robert Lowry (1826-1899), conta uma história passada em junho de 1944, quando uma sofisticada imigrante italiana se torna amante de um milionário de Manhatan, conhecido apenas como The Man. Ela tem uma amiga que é usada sexualmente para facilitar contatos do milionário com pessoas influentes do Pentágono. O filme é estrelado pela belíssima e premiada atriz italiana Sophia Loren. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Trencadís do arquiteto espanhol Antoni Gaudí (1852-1926).

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As astúcias do juiz Teje-Preso aqui e aqui.
Preconceito, ó! Xô pra lá, Diários de viagem de Franz Kafka, Cantos de Giacomo Leopardi, A revolta de Atlas de Ayn Rand, a música de Leoš Janáček & Cheryl Barker, o cinema de Alessandro Blasetti & Sophia Loren, Jacques Lacan & Maguerite Anzieu: o caso Aimée, a arte de Liliana Castro, a pintura de Helmut Breuninger & Hermann Fenner-Behmer aqui.
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A lenda do açúcar e do álcool, Educação não é privilégio de Anísio Teixeira, História da filosofia de Wil Durant, a música de Yasushi Akutagawa, Não há estrelas no céu de João Clímaco Bezerra, Cumade Fulôsinha de Menelau Júnior, Maria Flor de João Pirahy & a arte de Madison Moore aqui.
Cruzetas, os mandacarus de fogo, Concepção dialética da história de Antonio Gramsci, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, Sob os céus dos trópicos de Olavo Dantas, a pintura de Eliseo Visconti & Benício, a fotografia de Rita-Barreto & a arte de Rosana Sabença aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: La liseuse (1890) do artista plástico francês Jean-Jacques Henner (1829-1905).
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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...