segunda-feira, fevereiro 18, 2019

MARCIO SOUZA, MARIA CARMEN, CONSUELO DE PAULA, HORTAS DO BEM COMUM & DA FELICIDADE COMUNITÁRIA, EDUCAÇÃO & COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO


DA EDUCAÇÃO AO COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO – Uma coisa é falar sobre educação para quem acha que isso é só papo de professor ou coisa que valha. Outra é tratar sobre o sistema nervoso quando isso é tratado como papo de gente doida, pinel de jogar pedras e outras zuretadas. Rótulos são o que não faltam ao senso comum. Há quem reduza a educação apenas à escolarização, sem levar em consideração a pesquisa e a extensão, afora outras coisas mais além do ensino. Há quem trate sobre neuroeducação restringindo tudo apenas às funções e potencialidades cerebrais, sem levar em conta que além do sistema nervoso central, há também o autônomo e o periférico, afora a importância das glândulas endócrinas e da homeostase para o equilíbrio do organismo humano. Mesmo assim, vai lá que a metáfora leve a conversa de lá praqui e vai dá cá para ali e acolá, enfim, a coisa dá uma engrenada boa e vai praquela do quer dizer então que... É, que bom, dúvidas e perguntas afloram e isso torna qualquer papo para lá de interessante, relacionando a sinapse neuronal e a articulação sistêmica com reciprocidade de relações entre seres humanos. Ou seja, assim como é o funcionamento do organismo humano, pode – e deve – ser também nas relações entre uns e outros no convívio cotidiano. O que ficou de mais positivo foi saber que não há órgão mais importante que outro no corpo humano, cada qual cumpre sua função e papel no contexto da anatomia e fisiologia corporal. Assim poderia ser com a gente: cada um funcionando conforme o projeto cósmico, interagindo com a natureza, no que se poderia chamar de cooperação colaborativa, sem nada de interesse por trás, assim, apenas por ser. Foi com essa condução que ocorreu o bate-papo no último sábado, com os comparecentes à Associação dos Artesãos Palmarenses, que atenderam o chamado da Escola de Filosofia, Artes e Política de Palmares, sob a coordenação do professor Carlos Calheiros. Uma conversa que começou pelas vinte horas e passou da meia noite, com muitas indagações e esclarecimentos, uma confraternização. Por minha conta, me dei para lá de satisfeito com a presença e participação de todos, tomara que assim também com cada um que lá esteve. O que ficou de evidente para mim, conclusivamente, foi a constatação da necessidade de se construir elos, utilizando a metáfora dos dedos e da mão, para que se possa realizar uma verdadeira revolução copernicana ao contrário: a mudança tem que começar por mim, no meu domicilio e comportamento, numa atitude de sujeito cônscio de suas responsabilidades com o seu tempo e a sua terra, para que, só depois disso, possa interagir e atuar em defesa da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, estado e nação. Minha gratidão paratodos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
Houve um tempo em que Manaus tinha calçadas, largos passeios em mármore de Liós, aqui e ali os canteiros de fícus-benjamim distribuindo sombra aos transeuntes. Não há mais calçadas. Caminha-se quase sempre numa terra de ninguém, entre o esgoto a céu aberto e a posta de trânsito. Uma cidade onde o tecido urbano foi destruído e não há uma rua, uma artéria intata. Atravessa-se a cidade e tem-se a impressão de que quase todas as edificações estão inacabadas. [...] O caldo dos trópicos. A alegria da agonia. Manaus é a cidade mais odiada do mundo. Não fosse assim, não a teriam enfeiado tanto [...] Manaus é odiada talvez por não cumprir com o que promete. Engana as gentes das barrancas, os inocentes dos rios. Engana os que chegam de muito longe, carregados de misérias e pesadelos. Essa gente enganada não perdoa a cidade, e castiga Manaus, cada uma delas como células fazendo crescer o tumor canceroso em que foi transformada a velha e orgulhosa capital dos barés. Cidade degenerada, de alegria favelada acostumada a se contentar com pouco. Talvez por isso odiada também pelos que juram amá-la, amor da boca para fora dos que deveriam amá-la ao menos por dever de ofício. Manaus dos últimos acenos de gentileza em meio ao alarido arrivista. Cidade mal-amada. Cidade acostumada a apanhar na cara, a ser violentada, a ser roubada vergonhosamente pelos seus amantes. [...]. Trechos extraídos da obra A caligrafia de Deus (Marco Zero, 1994), do escritor amazonense Marcio Souza. Veja mais aquiaqui.

AGROECOLOGIA: HORTAS DO BEM COMUM E DA FELICIDADE COMUNITÁRIA
A Economia do Bem Comum é um arranjo econômico alternativo e completo, atualmente em discussão e aprimoramento em vários países ao redor do mundo, motivada pela percepção dos múltiplos fracassos ambientais, sociais e econômicos do modelo econômico neoliberal vigente. Enquanto não temos condições diretas de mudar o atual arranjo econômico no Brasil, focado na acumulação de riquezas financeiras de investidores com atuação global, cada vez mais acelerada e concentrada na mão de poucos, podemos nos inspirar começando com uma economia de bem comum ao nível local. Com base comunitária, entre vizinhos, partindo dos nossos terrenos e quintais, para as “Hortas do Bem Comum e da Felicidade Comunitária em Aldeia”. O sistema das hortas do bem comum se fundamenta em oito elementos básicos e uma rede composta por cinco grupos de colaboradores. O sistema das hortas do bem comum é composto por cinco grupos de colaboradores, ou parceiros, formando uma rede. Nesta arranjo, colaboradores específicos podem se enquadrar em vários grupos. Os hortelãos, por exemplo, podem ao mesmo tempo ser beneficiadores, produzindo conservas da colheita, os consumidores podem ao mesmo tempo fazer parte dos apoiadores, entre outros.
Texto introdutório sobre o projeto agroambiental desenvolvido pelo engenheiro ambientalista alemão que atua na área de gestão de recursos naturais e resíduos sólidos, Thilo Smith & da agrônoma especialista em agroecologia, Simone Miranda, por meio de cursos de Cultivo Ecológico e práticas de agricultura urbana como forma de dialogar com as pessoas sobre novas formas de produzir, consumir e se relacionarem entre si e com o meio ambiente. Ambos prestam consultoria e ministram cursos voltados ao cultivo de hortas orgânicas em um projeto de economia solidária, na Rua Limeira – Km 12, da Estrada de Aldeia, Camaragibe – PE. Veja detalhes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da saudosa pintora, escultora e desenhista Maria Carmen (Maria Carmen de Queirós Bastos – 1935-2014), que realizou exposições em Recife, Salvador, Brasília, Aracaju, Vitória, São Paulo, Lisboa, Bélgica, França, Peru, República Tcheca, entre outras. Veja mais aquiaqui.

A MÚSICA DE CONSUELO DE PAULA
Tenho acompanhado há tempos o talento desta competente e belíssima cantora, compositora, poeta e produtora, Consuelo de Paula. Por conta disso, degusto quase que cotidianamente a encantadora voz e verve desta que, para mim, é uma das maiores e mais expressivas artistas da música brasileira contemporânea: uma voz de ontens e amanhãs que se fazem presentes em tons e versos que fascinam o coração e a alma de quem contempla o prêmio instantâneo de tamanha maravilha. No próximo dia 16 de março, a partis das 20:30hs, no Espaço 91, próximo ao Sesc Pompeia, São Paulo, ela anuncia Ventoyá, a próxima obra dela: Maryakoré. Ventoyá é movimento de amor e de luta, um mergulho no dentro do tronco da árvore, vôo rasante sobre as folhas das árvores resistentes. Veja mais dela aqui, aqui, aqui & aqui.
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sexta-feira, fevereiro 15, 2019

MURILO MENDES, CARLA SALAZAR, IRENA SENDLER, MATA DE PERNAMBUCO & OUTRA PARA NÃO DIZER NADA


OUTRA PARA NÃO DIZER NADA - Tantos caminhos percorridos e o arrastado de malas deram por perdidas viagens, desencontros de goteiras do teto pingando na cabeça e empoçando o piso escorregadio para desastradas venturas. Quantos meses de chuvas e de sol, a quentura do pulso ao peito para tudo e a frieza das portas e fisionomias. Das tentativas o alvo, a mira e o atoleiro: no balanço das águas só se pode nadar, não há quem se segure de pé. Quem sabe pra onde o dedo alheio no gatilho, não há de ser leso de ficar ali feito imã, plantado no meio de campo, se para escapar tem que estalar os dedos e tomar pé da situação, serei um garrancho qualquer na caligrafia de Deus, então. Mas se falo no escuro, teor do anonimato: se fosse para todos seria premiado, um de cada vez, todos; mas não, a implicância dos sonâmbulos tira vantagem de tudo, se ajeita como pode e nem adianta vinte e quatro horas de vigília se às quedas quarenta e oito vezes o aprendizado de dias e noites que se foram para nunca mais. Nem adianta vinte e quatro sonhos se eram apenas um dia a cada dia, refeitos tantas quantas vezes diante da boa vontade de se aprumar para vida e muita má vontade de sobra na má-fé para que nada desse certo nem fosse feito. Dos caminhos percorridos, lições de sobra do cabelo em pé e frio na barriga com as espalhadas nas curvas e as sobradas de nunca chegar a lugar algum, guardando no quengo e toitiço uma após outra cada lapada da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] índices pouco usuais de concentração fundiária refletem-se em precárias condições de acesso a terra e asseguram às usinas, principalmente, uma situação de quase monopolistas controladores da propriedade do solo, donde derivam relações econômicas e sociais bastante assimétricas. Por outro lado, vale observar que diante do elevado nível de endividamento das usinas para com os bancos oficiais, atualmente existentes, esse elevado índice de concentração de terras entre as usinas pode facilitar, por mais paradoxal que seja, um processo de negociação de dívidas em troca de terras para fins de reforma agrária. [...] Afora isso, boa parte das usinas de açúcar e álcool apresentam hoje problemas de endividamento que já levaram ao fechamento de algumas delas e impedem a recuperação de outras tantas.
Trechos extraídos da publicação Zona da Mata de Pernambuco; estudo de alternativas de geração de emprego e renda no meio urbano (Sebrae/Série Reflexões sobre a Zona da Mata, 1995), coordenado por João Policarpo Rodrigues de Lima, Abraham Benzaquem Sicsú, Osmil Torres Halindo Filho, José Biondi Ney da Silva e Maria Amália Albuquerque Almeida. Veja mais aqui.

A POESIA DE MURILO MENDES
UMA MULHER – Ela estava no círculo familiar como as outras, / folheando um livro de gravuras: / a noite nos cercava com seus abismos azuis / e a ideia de quase uma floresta próxima. / Alguém acendeu um candeeiro de petróleo, / as pessoas presentes recuaram no tempo. / Ela se levantou para abrir uma vidraça, / e muito branca, toda vestida de preto, / seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes / fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota, / hélices mexendo, mãos a correr no teclado. / Quando sentou-se era outra vez a mulher.
MULHER – Mulher / ora opaca ora translúcida / submarina ou vegetal / assumes todas as formas, / desposas o movimento. / Sinal de contradição / posto um dia neste mundo / tu és o quinto elemento / agregado pelo poeta / que te ama e te assimila / e é bebido por ti. / Tu és na verdade, mulher, / construção e destruição.
CERTA MULHER – A linha do horizonte / passa pelos teus cílios / tua fonte a inquietação murmura / a alta lâmpada do templo balançou / porque não brincaste nunca mais com o arco / nos lânguidos terraços / a onda vai e volta / na esperança de te ver / o trevo de quatro folhas / achou-te. / Estrelas gêmeas suspiram.
A MULHER ANÔNIMA – Lembra-te daquela mulher / que um dia te acenou do alto de uma varanda, / daquela forma admirável mas sem nome / que uma tarde te disse adeus / enquanto o automóvel parou um minuto na estrada. / Lembra-te da mulher pouco decorativa, mulher simples / que não tiveste coragem de arrancar violento ao espaço / e que certamente nunca mais tornarás a ver: / lembra-te da bela mulher que estremeceu por ti / e sê-lhe fiel até o último dia da tua vida.
Poemas extraídos da obra As metamorfoses (Record, 2002), do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da ilustradora chilena Carla Salazar
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As ações da enfermeira e ativista polaca Irena Sendler (1910-2008) aqui.
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quinta-feira, fevereiro 14, 2019

AUGUSTO DE CAMPOS, STANISLAVSKI, MARIA TERESA NIDELCOFF, FERNANDA PRETO & COISAS SÓ PRA DIZER NADA


COISAS SÓ PRA DIZER NADA – De agora é que desde não sei quando as aspirações comandam sobre as coisas, enquanto o aroma da incompletude perpassa por tudo e todo momento e vem não se sabe de onde. Prevalece a retomada persistente ao alvo, mira em dia, o coração no bolso, a alma nas vitrines, a incessante urgência do trânsito insólito e turvado dos interesses e quereres insones e a qualquer custo. Que seja já, logo, ou senão perde a graça e fica tarde demais. Pouco importa a consequência, vale acertar na veia, a medida exata da sorte, possivelmente nenhuma dessintonia com os rumores das águas, a aragem das tardes, as pedras revolvidas, o parque de diversões, o teto da noite, as paredes nuas, o quadrado da hipotenusa, a cereja do bolo, o golpe de mestre, a hélice da turbina, o dente do garfo, a mordida do tubarão, a tabela periódica, o vagão do trem, o xeque mate, a grampola da tatarineta, a muxiba no moquém, nada. À hora feita, ou tudo ou nada. Em cada um, dentro de si, caixas privadas e lacradas, empedrecidas e a vida e o mundo e tudo ao redor do umbigo e seja sempre. Não há por que me queixar das incompreensões, que se danem. A compreensão tem que ser minha, não de ninguém. Ninguém tem que entender nada do que se passa comigo nem do que sou, eu que tenho que entender que podem não entender aquilo que quero dizer ou fazer, ora bolas! Não é preciso saber do Verbo da Torá, desde muito antes de quarks, léptons ou bádrons, nem que um outro vocabulário seja possível vigorar, outra matriz, só porque tudo muda, a ação não estaciona e se desloca por percursos de outras direções, senão todas, dentro ou fora de nenhuma fronteira fixa. O que vejo pode não ser visto, o meu olhar apenas; o que sei pode não ser sabido, aprendi demais do inútil ou relevante; o que calo pode não ser falado, e se digo, profano ou se desvanesce; o que ouço pode não ser ouvido, o privilégio do silêncio. Se acho que o tempo é nunca, pode ser ouro pros que só sabem escavar a terra e revirá-la a seu bel prazer. Se sei que cada coisa tem seu momento, pode ser a vontade que dita a razão pra quem só sabe a necessidade. Se tomo o talho na minha pele, as rachaduras e as nódoas diáfanas por lições experienciadas, pode ser pra muitos golpes do destino ou punição pelo que fiz ou deixei de fazer. A escolha entre seguir ou ficar sentado à espera é minha ou sua, se quiser. Só sei que se eu for, terei de ir por caminhos possivelmente inimagináveis, sujeito às descobertas e intempéries; se a escolha é pela espera, o mundo gira e tudo passa. Prefiro ir e voo, sigo alguém me aceita e venha quem quiser seguir juntos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] A compreensão do mundo que nos rodeia e suas características, a procura de uma resposta às perguntas que a época atual nos apresenta, leva-nos sempre ao passado, à origem do processo que estamos procurando e vivendo [...] Desta forma, se a escola assume a missão de procurar situar as crianças na realidade com um senso crítico, sentido-se parte comprometida na mesma, a escola tem necessariamente que apelar para a dimensão passado para dar elementos necessários para a compreensão do presente. Por isso, conhecer e compreender como vivem os homens de nossa época, em nosso meio ou em outros lugares, implica também no conhecimento da vida dos homens em outros tempos. [...] Uma vez reconhecido o papel formativo do conhecimento do passado no ser que cresce e descobre o mundo, deve-se refletir sobre a História como ciência e em suas possibilidades e objetivos na escola. [...].
Trechos extraídos da obra A escola e a compreensão da realidade (Brasiliense, 1982), da educadora argentina Maria Teresa Nidelcoff. Veja mais aqui.

O TEATRO DE STANISLAVSKI
No livro A criação de um papel (Civilização Brasileira, 1984), encontra-se: [...] Não pode haver arte verdadeira sem vida. Ela começa onde o sentimento assume os seus direitos. A atuação mecânica começa onde a arte criadora acaba. Na atuação mecânica não há lugar para um processo vivo e quando este ocorre é só por acaso. [...] Para reproduzir os sentimentos há que saber reconhecê-los pela experiência própria [...]. Já no livro A preparação do ator (Civilização Brasileira, 1989), está registrado que: [...] exprimir uma vida delicadíssima e em grande parte subconsciente, é preciso ter controle sobre uma aparelhagem física e vocal extraordinariamente sensível, otimamente preparada [...]. As obras em apreço é do escritor, diretor, pedagogo e ator russo Constantin Stanislavski (1863-1938). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens do DVD Ensaio sensual de mulheres comuns, com a arte da fotógrafa Fernanda Preto
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A obra do poeta, tradutor e ensaísta brasileiro Augusto de Campos aqui, aqui e aqui.
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quarta-feira, fevereiro 13, 2019

UMBERTO ECO & O ÍNDIO, JULIE GAUTIER & MANIFESTO NEOCORDELISMO, O PAPA-FIGO & A VIÚVA ALMA PENADA


O PAPA-FIGO & A VIÚVA ALMA PENADA - Antes de sumir do mapa, contam desde os mais velhos aos meninos mais tagarelas que nem tiraram a catinga do mijo ainda, afora os fantasmas que ainda zanzam por aí jogando conversa fora nas horas mais escuras de lua cheia, que Alagoinhanduba fora, ao longo dos tempos, sujeita a todo tipo de provação – isso ninguém sabe se lorota ou de vera, mas contadas amiúde. Foram acontecências recorrentes, por exemplo, como a de fogo – deu-se tantas vezes de um raio ineivado rachar árvore dela incendiar causando labaredas devastadoras, torrando tudo de não sobrar vivalma. Um ou outro sobrevivente desses acontecimentos funestos, quando não os próprios defuntos que ressuscitavam com a missão de repovoar o lugar, contam e descontam. Assim se deu com água, enchentes diluvianas arrasaram de levar tudo na gritaria das correntezas, batizando todo terreno e a mundiça toda cachoeira abaixo. De vento, ventanias de soterrar todo mundo chão abaixo, de ressurgirem tudinho dos galhos, pedras, coisas. E a cada uma dessas desditas, sempre ocorria o repovoamento, até desaparecer de vez de uma convulsão da terra para nunca mais. Mas antes desta última, reiteram nas conversas de sala, de bares, salões, esquinas e recantos, tantas outras calamidades, de gente que se envultou e se tornou malassombro, de botijas encantadas, de bichos correndo solto, de lápides com vultos esvoaçantes, coisas que desapareciam e tornavam a reaparecer assim do nada, pesadelos que viravam coisas reais, imagens que se transformavam nos espelhos e sombras, luzes que passeavam entre os viventes, gemidos e risadas ocultas que vinham ninguém sabia de onde, episódios recontados dos truques e delírios do sobrenatural que ninguém sabia explicar. Um dos mais repetidos à língua solta é o de uma moça bela e cobiçada, filha de um rico boticário que fabricava remédios que curavam todo tipo de doença e que, nas horas vagas e em dias de feira, se apresentava como poeta cordelista no meio da rua para vender suas invenções. A moça, dizem, era realmente vistosa, alta, corpuda e sedutora, porém não falava nem dava um riso pra ninguém. Vivia trancada com seus livros e, vez ou outra, aparecia na janela ou na porta da botica, sem dar conta das coisas e seres. Eis que um dia surge um galegão desses de dois metros de altura, todo arrumado e com pinta de galã de cinema, cheio das conversas de gringo, enfeitiçou o coração dela e roubou-la dali numa madrugada invernosa. O assunto foi manchete para todo tipo de conversas e fofocas. Tempos depois a moça reaparece branquelona e vestida de preto de fazer arrepiar por onde passasse até quem já tivesse morrido. Quase todo dia, na boquinha da noite, ela saía de casa de ninguém vê-la retornar, e se ouvia só uns uivos atribuídos a um Papa-figo que aparecera depois do seu regresso. Sabiam todos que ela saía todo dia no mesmo horário, antes da hora do ângelus, e vigiavam a volta dela todo o tempo, só se via mesmo a saída dela, coisa curiosa que levantou os pelos, cabelos e curiosidades de todos. Armou-se vigilância e perseguição, até se deparar com aquela alma penada, lá nos cafundós da lonjura, à beira da pedraria do rio, acariciando um ser estranho, o Papa-figo, ajeitado ao seu seio, por horas. O bicho ao dar conta da presença de estranhos na redondeza, botava todos pra correr pé-na-buda pernas-pra-que-te-quero, de ninguém nunca mais querer voltar lá por nada nesse mundo, nem passar por perto. Assim o local ficou conhecido como o canto do Papa-figo e da Viúva alma penada. Lugar desse não pode passar em branco, né? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
Uma vez que o futuro das nações indígenas parece estar selado, a única possibilidade de carreira para o índio jovem desejoso de ascender socialmente é aparecer num western. Para tanto, fornecemos aqui algumas instruções essenciais essenciais cobrindo toda gama de atividades, tanto pacíficas como belicosas, necessárias ao jovem índio para qualificar-se [...] Nunca atacar de surpresa: fazer-se notar ao longe, com alguns dias de antecedência [...] fazer-se notar em pequenos grupos na crista dos morros circundantes. [...] Deixar sempre vestígios evidentes de sua passagem [...] Respeitar sempre o princípio segundo o qual os índios só atacam de dia. [...] Usar rifles cujo funcionamento se desconhece comprados em mãos de mascates desonestos. Empregar sempre um tempo excessivo para carregá-los [...] Emergir no momento exato em que a mulher branca já tiver assinalado sua posição a um atirador de elite. Depois de alvejado, jamais cair para dentro da área do forte, mas de costas, para o lado de fora. Disparando de muito longe, pôr-se em evidência no ponto culminante de um morro, de modo a cair para a frente quando for atingido, espatifando-se nas rochas subjacentes. Em caso de confronto direto, demorar-se bastante na mira. [...] Em caso de ataque à aldeia dos índios, sair das tendas da maneira mais confusa possivcl, e correr em direções opostas procurando pegar as armas que terão sido previamente guardadas em lugares de difícil acesso. [...] Ao pular do alto sobre as costas de um branco, brandir a faca de maneira a não feri-lo imediatamente, permitindo o corpo-a-corpo. Esperar que o branco se vire de frente.
Trechos de Como ser um índio, extraído da obra O segundo diário mínimo (Record, 1994), do escritor, filósofo e bibliófilo italiano Umberto Eco (1932-2016). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
No curta-metragem Ama (2018) da artista, cineasta, bailarina e coreógrafa francesa Julie Gautier, que é mergulhadora e campeã de apneia na especialidade de peso constante, ela dança por seis minutos a 40 metros de profundidade, inspirada nas japonesas que coletam pérolas no mar, numa prática milenar e quase extinta. As amas, palavra que significa mulher do mar em japonês, mergulham sem equipamentos e compartilham valores como apoio mútuo e o amor pelo oceano. Veja mais aquiaqui.

MANIFESTO NEOCORDELISMO
O Manifesto Neoccordelismo concebido pelos poetas cordelistas Cárlisson Galdino e Zé de Quinô, considera que a literatura de cordel é toda obra de poesia popular nordestina, que tenha forte vínculo com os estilos da cantoria popular ou deles derivados, ou adaptados. É direito do artista criar. Tanto no conteúdo, quanto na forma. Assim, a própria estrutura pode ser repensada. Convidamos todos a experimentar novas formas de escrever cordel e novos cordéis. Podemos usar elementos de outros gêneros literários e criar novas derivações e novos conceitos. Este Manifesto que se encontra disponível em sua inteireza aqui, conta com o paoio e contribuições de participantes do Laboratório da Rima, e trata sobre um novo cordel, que respeita o antigo mas olha para o futuro, entendendo a Literatura de Cordel como cultura e, por isso, viva! O que significa que se mexe, se molda e se expande.
Veja mais:
Literatura de Cordel na Escola aqui, aqui e aqui.
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Outras acontecências de Alagoinhanduba aqui.
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terça-feira, fevereiro 12, 2019

PAULO FREIRE & NEUROEDUCAÇÃO, AS ESCULTURAS DE ALAYDE, SOLEDAD & PRIMA DA VERA.


A OUTRA PRIMA DA VERA – Vera quase teve um troço ao receber a visita da prima Dalvinécia, aquela distante que ela tratava por Nevinha. As duas nunca se deram lá muito bem, por conta dumas coisitas de namoricos bobos dos tempos de adolescência. E mais: apesar da condição heterossexual da Vera, ela tinha lá seus princípios feministas quase ortodoxos. E a prima, como ela mesma dizia, era da pá virada. Além de desbocada, se defendia: Eu não era, fiquei sendo. E justificava: Pago com a mesma moeda. Como? A ficha corrida da Nevinha: enviuvou cinco vezes, tudo de morte morrida e na horagá cada um; descasou-se umas doze vezes, não antes distribuir uma tuia de duas de quinhentos na premiação dos ex; casos, uns tantos não exclusivos e para lá de escusos, afora dar em cima da própria Vera e de algumas amigas do seu relacionamento. Vê-se que a dita era bem rodada, esborrando experiências, das quais Vera se arrepiava: Peraí, mulher! Ah, minha filha – explicava Nevinha: - Sigo à risca o ditado da tia vitalina Cornelinda: homem não é bicho que se deva criar em casa! Além do mais, a vida é curta demais. Confira: o meu primeiro marido, o Dermelinaldo - que Deus o tenha lá longe -, era um santo que fazia gosto! Era do trabalho pra casa, agarrado ao cós da minha saia, beijinhos e presentes. Bastou bater as botas e apareceram logo umas três com filhos e tudo para dividir comigo o quinhão. O segundo, o Bastianildo, esse desarreda: só soube quando foi pro saco, pois nunca que me passou pela cabeça que fosse um raparigueiro de ter uma costela em cada banda da cidade. Aí, né! O terceiro, quase tirou um fino: um primo desmunhecava pras bandas dele; o quarto, o pior de todos: fazia a minha vez com os amigos, um horror! O quinto, fugiu com a minha melhor amiga. Ora, fui aprendendo! Do terceiro em diante, eu já tinha não só a orelha na frente da pulga, como já me adiantava em salvar meu couro: todos eles tinham um quebra-galho nas horas vagas e eu com a cara de tacho. Casei e descasei nove vezes, namorei gato e cachorro e quero ver um homem que ria das minhas costas ou me passe pra trás, faço meu próprio figurino, rá! Gosto mesmo é do remexido, seja com quem for, encara? E fazia mesmo de manhã, de tarde e de noite, saía um, entrava outro, ou que lhe desse na telha e na simpatia, dias, semanas, meses, anos. Isso até a hora dela botar os olhos no Tarcizildo, o que pra Vera foi um santo remédio: Agora ela abaixa o facho, tomara. Dito e feito. Como o rapaz era bem provido tanto de instrumento, como de disposição, bonito no gosto dela, jeitoso para tudo e de não arredar o pé de dentro de casa: pau pra toda obra. Estava feita. Ora, era a faca e o queijo, o útil ao agradável em cima da bucha: Nevinha se aquietou dentro de casa de quase nunca mais vê-la empiriquitada passando pela rua: Quanto tempo, hem? Ah, agora tô só entretida com meu parque de diversão, tenho agora meu brinquedo de estimação. Um amor roxo que dura até hoje para salvação da monogamia e para aliviar a alma aflita da prima que agora, quase santificada, tornou-se beata de ir à missa com seu distinto consorte quase todo dia, pronta para um matrimônio até que a morte os separe debaixo dos lençóis. Aí tá certo, dizem as más línguas de antes, agora sim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Quantos professores sabem que um simples trabalho de memorização de diferentes tipos de textos exige diferentes níveis de oxigenação do cérebro? Que quanto mais complexa a atividade proposta e à medida que se eleva o grau de raciocínio, o fluxo sanguíneo no cérebro é mais intenso? O professor tem noção de que sua ação pedagógica desencadeia no organismo do aluno reações neurológicas e hormonais que podem ter influência na motivação para aprender? Como pode o professor desconhecer a dinâmica mente/cérebro? Basta a análise dessas questões para que se compreenda a importância desse tipo de informação na adequação de metodologias de ensino [...].
Trecho do estudo Neurociências e educação: uma articulação necessária na formação docente (Revista Trabalho, Educação, Saúde, 2010/2011), da professora e neurocientista Fernanda Carvalho. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada escultora e pintora Alayde - Alaides Puppin Ruschel -, com suas obras em terracota, metal (bronze e alumínio), e resina, utilizando a estrutura helicoidal em esculturas que apresentam as características de leveza e movimento que se inserem dentro da Arte Moderna e Contemporânea. Ela já realizou exposições em Portugal, Itália e por todo Brasil. Veja mais aquiaqui.

SOLEDAD
O curta-metragem Soledad (2015), dirigido por Joana Gatis, Daniel Bandeira e Flavia Vilela Vieira, com elenco formado por Peter Ketnath, Joana Gatis e Thassia Cavalcanti, conta a história de um amor bandido envolvido por uma paixão implacável e um fogo avassalador que redundam numa saga de morte, traição e vingança, com dança flamenca, cavalgadas, sexo e violência, narrando a história daquela a quem chamavam de Soledad. Veja mais aqui e aqui.
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A educação do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997) aqui, aqui, aqui e aqui.
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Outra entre tantas & muitas da Vera aqui, aqui, aqui e aqui.
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segunda-feira, fevereiro 11, 2019

SARAMAGO, WALTER BENJAMIN, ALICE VINAGRE, ANDRÉ MEHMARI & NEUROEDUCAÇÃO


A SOLIDÃO DE BENJAMIN – A berlinense manhã invernosa da infância e a maçã dos oito anos: a amaldiçoada adâmica. De seus pais, Pauline e Emil, o judaísmo e os negócios prósperos: os pobres não vivem além do fim do mundo. O que seria da vida se não visse em todas as direções. O menino no fausto aprendia a ficar só. Quando Aroob, o codinome e os desencontros com estudantes livres: não poderia concordar com a guerra. O aconchego de Dora e o casamento para Berna, Stephan e a deserção. Ali já o enigmático e contraditório, o melancólico homem da arte, o outsider intelectual que sabia de Goethe, Baudelarie, Brecht, Proust, Gorki, Poe, Kipling, Valéry, Kafka. As dificuldades financeiras, a recusa por emprego e a rejeição da tese de livre docência. Nenhuma mão na bancarrota dos pais, o sustento por Dora e o exílio em Paris: o Surrealismo já previa os horrores do holocausto. As passagens, coisas e pessoas, a atriz Zacis, o pessimismo e a desconfiança com o que viria depois. A vida espectral e os infortúnios: seus pais faleceram sem menos esperar, o divórcio e a ascensão do nazismo ameaçador, o desencanto: Weimar, o stalinismo, a guerra fria, tudo quase tão triste e real ao redor. O refúgio em Nápoles pros braços da bela letã Asja Lacis, o teatro infantil na rua de mão única: o corpo aberto em Riga, as imagens do pensamento e as recíprocas atrações e conflitos. Dali pra Moscou, o escritor dos diários na depressão e o haxixe, experiências e cartas com um novo nome, Detlef Holz: a solidão é um vórtex puxando o mundo com a força de um turbilhão. Completamente rejeitado e só: o fracasso da naturalização francesa, não há mais cidadania alemã. A arte de narrar caminhava para o fim, não mais a troca de experiência, o estatuto dos artesãos: “O tédio é o pássaro onírico que choca o ovo da experiência”. As ruinas do passado assombravam o presente e o esquecimento dos vencedores: a memória, a lembrança, a esperança, Scherazade e os solitários desenrolavam as teias e os ornamentos do esquecimento, o tempo perdido, palimpsestos, o trabalho de Penélope e a irrecuperabilidade do que foi para mitigar e inocular o sofrimento, a perda. O socorro da lembrança sacudia a letargia com o sonho coletivo diante do que caiu ou foi desprezado: a memória é teatro e era preciso escavar e reescavar: espraiar e revirar, atualizando do presente. Mil vezes pediu para dormir até se fartar: a morte é a sanção do relato. Não há para onde ir: a fuga dos refugiados, Port Bou, Lisa e os USA, a ameaça na fronteira franco-espanhola, o desespero, a dose letal de morfina. Os demais seguiram para Portugal, restaram escritos perdidos e a solidão de morrer sepultado com a sua agonia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no gênero masculino. Todos os poderes políticos, econômicos, militares, são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que podemos viver assim tanto tempo, condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação? [...].
Trecho de As mulheres são mais fortes (L’orient le jour, 2007), do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada artista Alice Vinagre que desenvolve atividades artístico-culturais como pintora e desenhista, com as séries No coração de todas as coisas (1988), Amarelo (1993), Bonecas (1994), Coração (1999) e Azul (1998), Anotações (sobre o céu), Anotações sobre pintura e a individual Com olhos de náufrago ou onde fica o próximo porto (2018) - esta última em exposição até 24 de fevereiro, no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães – Recife – PE, tendo realizado exposições na Alemanha, Equador, França e Japão. 
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A MÚSICA DE ANDRÉ MEHMARI
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o pianista, compositor e arranjador André Mehmari. Para conferir ligue o som e veja mais aqui e aqui.
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A obra do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) aqui, aqui, aqui e aqui.
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Palestra Neuroeducação aqui
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sexta-feira, fevereiro 08, 2019

HILDA HILST, CLIFFORD GEERTZ, CAMILA DO ROSÁRIO & A BARRAGEM AMEAÇA O POVO NA PRAÇA


A BARRAGEM AMEAÇA O POVO NA PRAÇA - O povo de Serro Azul estava na Praça e era dia de feira, a barragem ameaçando esborrar cheia de vazamentos por todos os lados, coisas de tragédia que o Brasil tem demais de anunciada, só de fechar a porta depois que não tem mais jeito e tudo está feito pela desgraça e o que é que se pode fazer diante de uma situação dessas, porque é problema dos outros e cada um que se defenda como puder, ah, que a coisa está feia e vai piorar na torcida da calamidade, bate boca e tralalá. O povo de Serro Azul estava na Praça e era dia de feira, Sol de verão depois duns dias de chuvada torrencial, alagando tudo de ficar quase intransitável, mas não é nada demais, uma cheia a mais ou a menos, tanto faz, tanto fez, quantas não e já quase acabaram com tudo e ninguém morreu, até agora, todos salvos pela graça de Deus, oxalá. Agora quem alagava a Praça era o povo de Serro Azul, cartazes e indignação, o medo da inundação e de morrer escorregando o aguaceiro para se enterrar no mar. O povo de Serro Azul estava na Praça e era dia de feira (Ninguém ria com Toínho DuRego porque não eram as umbigadas de Genival Lacerda nem as trelas e loas do Forró Povão, era sério, na vera, olho no olho) e nas lojas e supermercados e farmácias e ambulantes, o formigueiro de gente nem aí, era só o povo de Serro Azul com medo da morte e ninguém tomava pé da situação, coisa deles lá, não daqui, porque pros daqui importava comprar o queima de preços do comércio, a urgência dos negócios, o expediente bancário, os compromissos inadiáveis e emergenciais do dinheiro no bolso, o suor pingando do trampo e a vida é difícil para viver e tem que correr atrás porque a barragem só ameaça Serro Azul e quando romper e a inundação chegar invadindo tudo, aí se resolve na horagá porque é cada um por si, ninguém é de ninguém e salve-se quem puder. O povo de Serro Azul estava na praça, desamparado e deprimido, quem quer saber disso, ora, era só gente daquele povoado à beira do abismo na praça central e que só é daqui porque é distrito de um fogo morto que só se quer saber da bica ou do nome da estrada quando se vai pra Catuama dar adeus a quem foi dos daqui apagado pela morte, sepultado pelo esquecimento depois do chororô e das lembranças no dia de finados, oh, xô pra lá. O povo de Serro Azul estava na praça e voltou para casa do mesmo jeito que chegou: como se os daqui estivessem dormindo noite alta, rompesse a barragem e a água afogasse todos os dorminhocos para que sequer vissem o povo de Serro Azul temendo o pior, uma cidade alvoroçada de fantasmas que zanzavam como se nada tivesse acontecido, quiçá. O povo de Serro Azul estava na praça e voltou para casa do mesmo jeito que chegou: com a dor de estarem todos ali, esquecidos sem nenhuma solidariedade, voltaram à beira da barragem que ameaça romper, Deus dará. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] A análise da cultura se reduz aqui, portanto, não a um ataque heróico e "sagrado" às "configurações básicas da cultura", a uma "ordem das ordens" exageradamente dolorosa, a partir da qual se pode ver configurações mais limitadas como meras deduções, mas a uma pesquisa dos símbolos significantes, feixes de símbolos significantes e feixes de feixes de símbolos significantes — os veículos materiais da percepção, da emoção e da compreensão — e a afirmação das regularidades subjacentes da experiência humana implícitas em sua formação. Uma teoria da cultura plausível só pode ser alcançada, se um dia o for, construindo a partir dos modos de pensamento diretamente observáveis, primeiro para determinar as famílias desses modos de pensamento, prosseguindo depois para sistemas "polvóides" desses modos de pensamento, mas variáveis, menos estreitamente coerentes, porém ordenados, não obstante, confluências de integrações parciais, de incongruências parciais e de independências parciais.A cultura também se movimenta como um polvo — não ao mesmo tempo, como uma sinergia de partes perfeitamente coordenadas, como uma compulsão maciça de todo, mas através de movimentos desarticulados desta parte, depois daquela, e depois ainda da outra, que de alguma forma se acumulam para uma mudança direcional. Deixando de lado os cefalópodes — onde surgirão os primeiros impulsos para uma progressão numa determinada cultura, de que forma e em que grau eles se espalharão através do sistema, tudo isso ainda é altamente imprevisível, se não totalmente, no atual estágio do nosso entendimento. Entretanto, não parece ser uma suposição irracional dizer que, quando tais impulsos surgirem em alguma parte do sistema intimamente interligada e socialmente consequente, sua força impulsionadora será certamente bastante elevada. [...] Da mesma forma que nos exercícios familiares de leitura atenta, pode-se começar em qualquer lugar, num repertório de formas de uma cultura, e terminar em qualquer outro lugar. Pode-se permanecer, como eu, numa única forma, mais ou menos limitada, e circular em torno dela de maneira estável. Pode-se movimentar por entre as formas em busca de unidades maiores ou contrastes informativos. Pode-se até comparar formas de diferentes culturas a fim de definir-lhes o caráter para um auxílio mútuo. Entretanto, qualquer que seja o nível em que se atua, e por mais intrincado que seja, o princípio orientador é o mesmo: as sociedades, como as vidas, contêm suas próprias interpretações. É preciso apenas descobrir o acesso a elas.
Trechos extraídos da obra A interpretação das culturas (LTC, 2008), do antropólogo e professor estadunidense Clifford Geertz. Veja mais aqui.

CANTARES DE HILDA HILST
I - Que este amor não me cegue nem me siga. / E de mim mesma nunca se aperceba. / Que me exclua do estar sendo perseguida / E do tormento / De só por ele me saber estar sendo. / Que o olhar não se perca nas tulipas / Pois formas tão perfeitas de beleza / Vêm do fulgor das trevas. / E o meu Senhor habita o rutilante escuro / De um suposto de heras em alto muro. / Que este amor só me faça descontente / E farta de fadigas. E de fragilidades tantas / Eu me faça pequena. E diminuta e tenra / Como só soem ser aranhas e formigas. / Que este amor só me veja de partida.
II - E só me veja / No não merecimento das conquistas. / De pé. Nas plataformas, nas escadas / Ou através de umas janelas baças: / Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias. / E só me veja no não merecimento e interdita: / Papéis, valises, tomos, sobretudos / Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar / de púrpura e desgosto, vendo através de mim / navios e dorsos). / Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes. / Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis / Machucadas de gozo. / E que jamais perceba o rocio da chama: / Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
Poemas dos Cantares do sem nome e de partidas, extraído da obra Cantares (Globo, 2004), da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista e ilustradora Camila do Rosário que explora temáticas regionais, folclóricas e fantásticas como forma de representação de questões e reflexões do feminino e do corpo como discurso poético. Veja mais aquiaqui.
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...