Mostrando postagens com marcador Paracelso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paracelso. Mostrar todas as postagens

sábado, novembro 01, 2025

ISABELLE STENGERS, JACKIE KAY, SAMANTHA SHANNON & VAL MARGARIDA

 Imagem: Acervo ArtLAM.

A cor muda com cada modulação, mas a cor dominante é a da tonalidade em que a peça é escrita. Não acontece sempre que tocas ou ouves música e não ajuda necessariamente a memorizar a música, mas é, no entanto, uma coisa bonita de experimentar...

Pensamento ao som do álbum Water (Deutsche Grammophon, 2016), da pianista francesa, Hélène Grimaud (Hélène Rose Paule Grimaud), com peças de piano de autores como Berio, Ravel, Liszt, Debussy, Fauré, Albéniz, Janácek, Toru Takemitsu, Nitin Sawhney, entre outros. Ela é fundadora do Wolf Conservation Center, de New York, e autora dos livros Variations sauvages (Robert Laffont, 2003), Leçons particulières (Robert Laffont, 2005) e Retour à Salem (Albin Michel, 2013). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Pavoa real, o arco-íris de plumas... - Céu azul de muitas nuvens na brisa da tarde e a lua quarto crescente na boca da mata: era a ilha de João Ubaldo. O arco-íris de Rubem Braga em confronto na relva: a Pavoa diante de uma cobra-de-veado sibilando freneticamente. A réptil poiquilotérmica armou-se como uma naja, tal atroz inimiga atiçando-a sarcástica, como na fábula de La Fontaine das queixas à Juno Hera. A insolência da rastejante fê-la inchar o papo colorido proeminente do Anambé-preto, com o canto grave do grande Pavó, no pescoço vermelho do Jacu-touro, no bico azul-claro do Jacupiranga. E assim invocava os poderes mágicos do sagrado Pavão Celestial para enfrentar todos os monstros míticos, todos os dilemas éticos, rios caudalosos, florestas densas e montanhas magistrais. A ave vaidosa deixou-se envolver pela sinistra, enroscando-se pelas escamas grossas de suas patas, como se olvidasse Paracelso: a ousada venenosa era seu alimento predileto, ofiófaga – não sabia dela o anjo Melek Taus, que criou todas as coisas e disso se arrependeu a chorar por 7 mil anos, para que suas lágrimas enchessem 7 jarras na extinção do inferno; muito menos de Tawûsê Melek, dos presentes de Salomão e de Oxum. A serpente agarrou-se ao tronco dela, quem perdoaria a picada e o pecado mortal do golpe píton. A emplumada bípede então piou de novo e os italianos disseram: era a voz do demônio na plumagem de anjo. E inflou incorporando em si o que era azul indiano, o verde asiático, o congolês, o Spalding, o leucístico, o papa-moscas do Pará, o arlequim, o dos ombros negros, brancos e albinos, até o de Taubaté. Assim abriu a cauda grave, recolorida e, penas arqueadas, suas garras longas e afiadas, velozes e ágeis, por trás da cabeça da víbora, a sacudí-la vigorosamente e cada bicada a dilacerá-la, até matá-la e digeri-la. Assim, um homem mata outro e quantos predadores devoram suas presas. A cena se repetia, a mesma de zis outras, revistas, repassadas. E quem testemunha sonhou como num filme em cartaz, deleite da plateia, divertido passatempo. Mas quem incrédulo presenciou o triunfo de vê-la ao Natyadharmi, guardando os seus 100 olhos de Argos Panoptes num poema de Ovídio. Viu-me ali e abriu o coração com o mantra da compaixão do Bodisatva: Om mani padme hū, Avalokiteshvara. Fez o ritual do acasalamento na dança de Krishna, enquanto transmudava na guerreira Kaumari, girando para mostrar-se deusa Santoshi, e sucessivamente era Yashumin, era Lakshmi, enfim Iemanjá com a sua paz de jardim do éden. Aproximou-se para me levar sonâmbulo à Cachoeira dos Andrades, no Vale do Mucuri. Chegando lá me levou à formosa Pedra do Lambuza e já era mais de meia noite, lua cheia de sexta pela Lagoa do Come Calado, pulsante refulgia e o ser alado levitava ao meu lado. Acomodou-me no seu privado valhacouto, com a profusão de seus insondáveis abismos na dignidade do silêncio e em mim fez um mundo povoado de lembranças secretas. Até mais ver.

 

Cecília Meireles: Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade... Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Anne Sexton: Cuidado com o intelecto, porque ele sabe tanto que não sabe nada e te deixa de cabeça para baixo, balbuciando conhecimento enquanto seu coração cai da sua boca... Aproxime o ouvido da sua alma e ouça com atenção... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Erika Mann: As ações podem ser julgadas de acordo com o tempo e o lugar, e seus valores podem mudar; mas o estilo e a linguagem (além do conteúdo) são cristalizados no momento em que são criados... Veja mais aqui & aqui.

 

DELA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Já me falaram dela. \ Como ela sempre, sempre. \ Como ela nunca, nunca. \ Eu observei e ouvi, \ mas ainda assim me apaixonei por ela, \ como ela sempre, sempre. \ Como ela nunca, nunca. \ Na pequena noite corajosa, seus lábios, momentos de borboleta. \ Tentei pegá-la e ela riu uma gargalhada tão alta \ que me partiu em duas, \ mas então me contaram sobre ela, \ como ela sempre, sempre. \ Como ela nunca, nunca. \ Nós duas ouvimos o vento. \ Nós duas galopamos a passos largos. \ Nós duas, para cima e para longe, \ para longe, para longe. \ E agora ela se foi, como disse que iria. \ Mas então me falaram sobre ela \ – como ela sempre, sempre iria.

Poema extraído da obra Life Mask (Bloodaxe, 2005), da escritora e dramaturga britânica Jackie Kay (Jacqueline Margaret Kay), autora de obras como Other Lovers (1993), Trumpet (1998) e Red Dust Road (2011). Veja mais aqui.

 

O PRIORADO DA ÁRVORE LARANJA - [...] Podemos ser pequenos e jovens, mas abalaremos o mundo por nossas crenças. [...] Não consigo dormir porque tenho medo não só dos monstros que estão à minha porta, mas também dos monstros que a minha própria mente consegue criar. Aqueles que vivem dentro de mim. [...] Quando a história não consegue esclarecer a verdade, o mito cria a sua própria versão. [...] Algumas verdades são mais seguras quando enterradas. Alguns castelos são melhores quando permanecem no céu. Há esperança em histórias que ainda não foram contadas. [...] Mas quando o coração fica muito cheio, ele transborda. E o meu, inevitavelmente, transborda para uma página. [...]. Trechos extraídos da obra The Priory of the Orange Tree (Bloomsbury Publishing , 2020), da escritora inglesa Samantha Shannon, autora de obras como The Song Rising (2017), The Mime Order (2015) e The Bone Season (2013).

 

EM TEMPOS CATASTRÓFICOS: RESISTINDO À BARBÁRIE QUE SE APROXIMA - [...] Ao escrever este livro, situo-me entre aqueles que querem ser herdeiros de uma história de lutas travadas contra o estado de guerra perpétuo que o capitalismo impõe. É a questão de como herdar essa história hoje que me faz escrever. […] Esse ato primordial que torna o homem genuinamente ele mesmo precede todas as ações individuais; mas imediatamente após ser posto em liberdade exuberante, esse ato afunda na noite da inconsciência. Não se trata de um ato que possa acontecer uma vez e depois cessar; é um ato permanente, um ato sem fim e, consequentemente, nunca mais poderá ser trazido à consciência. Para que o homem conheça esse ato, a própria consciência teria que retornar ao nada, à liberdade ilimitada, e deixaria de ser consciência. Esse ato ocorre uma vez e imediatamente afunda novamente nas profundezas insondáveis; e a natureza adquire permanência precisamente por meio dele. Da mesma forma, essa vontade, posta uma vez no início e então conduzida para o exterior, deve imediatamente afundar na inconsciência. Só assim é possível um começo, um começo que não deixa de ser um começo, um começo verdadeiramente eterno. Pois também aqui é verdade que o começo não pode se conhecer. Esse ato, uma vez feito, é feito por toda a eternidade. A decisão de que de alguma forma deve realmente começar não deve ser trazida de volta à consciência; não deve ser revogada, pois isso equivaleria a ser retomada. Se, ao tomar uma decisão, alguém retém o direito de reexaminar sua escolha, nunca dará um passo adiante. […] É a barbárie que hoje é tristemente previsível. Mas o teste aqui é, mais uma vez, abandonar sem nostalgia nem desencanto o estilo épico e sua grande narrativa de emancipação, na qual o Homem aprende a pensar por si mesmo, sem precisar mais de próteses artificiais. Essa grande narrativa nos envenenou, não porque nos tivesse atraído com a perspectiva ilusória da emancipação humana, mas porque nos deu uma versão degradada dessa emancipação, marcada pelo desprezo por aqueles povos e civilizações que nossas categorias julgaram muito antes de nos comprometermos a trazer-lhes, com seu consentimento ou pela força, nossa iluminação. Não nos reconhecemos em seus rituais, suas crenças, seus fetiches, essas próteses artificiais das quais fomos capazes de nos libertar? […]. Trechos extraídos da obra In Catastrophic Times. Resisting the Coming Barbarism ( Open Humanities Press 2015), da filósofa e historiadora belga Isabelle Stengers. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE NAIF DE VAL MARGARIDA

A arte da artista e professora Val Margarida, que participou do Festival Internacional de Guarabira (FIAN); expôs na Feira de Arte de Goiás (Fargo) e foi selecionada para participar do Encontro Nacional de Arte Naif do Centro-Oeste-E BANCO/2019. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 

 

terça-feira, setembro 24, 2019

PARACELSO, VERDI, PAULINE RÉAGE, ARLINDO ROCHA, AMARELO MANGA & VA PENSIERO SUL’ALI DORATE


VA PENSIERO SUL’ALI DORATE – Minha mãe protegeu-me entre seus braços, escondida no campanário. Assim sobrevivi. Outras mulheres em oração, ali perto, foram trucidadas impiedosamente, homens e crianças foram chacinadas. Fui salvo do ódio da guerra. Menino silencioso, logo um acólito. Um dia, enlevado pela música, esqueci entregar a água ao padre no púlpito. Aos pontapés, fui jogado do altar, machucado e cheio de sangue, havia sido tocado pelo desconhecido. Anos mais tarde, um raio atingiu o pároco e uma lenda nasceu entre os aldeões. Não tinha nada em mim de divino, não era isso o que pensavam os meus conterrâneos, tudo por conta do ambulante Bagasset, que me tinha na promessa de gênio. Doutra feita, incapaz de emitir uma nota, martelei o velho instrumento. Danificado, teve conserto de um afinador que me presenteou seus serviços com um bilhete devotado. Adolescente melancólico, na véspera de um tempestuoso natal perdido na memória, caí num fosso quase impossível de me safar da situação. Perdia a fé e a fome fez da vida uma canção trágica: a escola do sofrimento ensinava a arte da piedade. Conheci Margherita no armazém onde era aprendiz e me deixei levar pelas leituras poéticas e duetos. Ah, Ghita, é dela Sei Romanze. Bonita e gentil, a música corria no sangue com faíscas românticas, a nossa paixão secreta. Havia de tomar pé na vida: fui reprovado pelos mestres examinadores. Abalado, ainda restava apoio quase unânime. Oberto foi suficiente para assegurar novas perspectivas e impunham-me uma comédia diante de tantas desventuras. Tornei-me uma presa de padecimentos, dívidas e ataques cardíacos. O filho, depois a filha e, em seguida, a esposa, todos finaram, um atrás do outro, em meio uma vaia desastrosa no teatro. Tudo dolorosamente particular. Doente e só, completamente só, arrasado, coração ardente pela libertação da pátria: era hora de levantar a cabeça, endireitar os ombros, e lançar de si fora a escravidão. Nabucco e o coro dos hebreus cativos: Va pensiero sul’ali dorate. Graças ao desconhecido, veio-me Giuseppina, a soprano atriz e o amor, a ventura e a fortuna no meu ceticismo agnóstico, entre o leme e o percurso. Uma adorável mulher de voz límpida, a Leonora de Oberto, a Abigaille de Nabucco, a Marchesa del Poggio em Un giorno di regno. Amei: fui e sempre serei um campônio, nunca livre dos tropeços. Eram os trabalhos forçados. Deu-se Rigoletto – a nota de comiseração pelos sofrimentos dos meus semelhantes, a rebelião e a tristeza, a dor e a esperança, a vida patética e o malogro: o fracasso humano, a herança das aflições. Aida tornou-se o meu credo, o silêncio. O canto do cisne: tudo na vida é uma enorme farsa – um voo levado pela vazante da vida: Vai, pensamento, em asas de ouro! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Na alcova, elas juntaram e fixaram as duas argolas nos braceletes, nas costas, colocaram-lhe sobre os ombros, presa na coleira, uma longa capa vermelha que a cobria inteiramente, mas que se abria quando ela andava pois não podia segurá-la, já que as mãos estavam presas nas costas [...] As mãos não tinham luvas e uma delas penetrou-a dos dois lados ao mesmo tempo, tão bruscamente que ela gritou. [...] e um dos homens, segurando-a pelos quadris com as duas mãos, penetrou-a. Depois, um segundo. O terceiro quis buscar o caminho mais estreito, forçando bruscamente, e ela berrou. [...] Você está aqui a serviço de seus mestres. [...] ao menor sinal ou palavra você largará o que estiver fazendo para prestar seu único e verdadeiro serviço, que é se entregar. Suas mãos não lhe pertencerão, nem os seios e, principalmente, nenhum orifício de seu corpo, que podemos explorar e penetrar como quisermos [...] As mãos dela, que estavam para trás [...] René lhe atara os punhos juntando a argola dos braceletes, foram tocadas pelo sexo do homem que se acariciava passando-o pelo sulco das ancas. [...]. Era surpreendente que ganhasse dignidade em prostituir, e, no entanto, era de dignidade que se tratava. Era como se tivesse sido iluminada por dentro, e nas suas atitudes via-se a calma, no seu rosto, a serenidade e o imperceptível sorriso interior que se adivinha nos olhos das reclusas [...]. Será que algum dia ela teria coragem de dizer a ele que nenhum prazer, nenhuma alegria, nenhuma imaginação, aproximava-se dessa felicidade proporcionada pela liberdade com a qual ele a usava, vinda do fato de que ele sabia que com ela não havia nenhuma precaução a tomar, nenhum limite à maneira pela qual ele podia buscar o prazer no corpo dela? [...]. Trechos extraídos da obra História de O (Delfos, 1973), de Pauline Réage – pseudônimo da escritora e jornalista francesa Anne Desclos (1907-1998), uma historia de sadomasoquismo onde a protagonista, uma jovem fotógrafa parisiense, é submetida a todo tipo de submissão feminina, tendo a vista vendada, acorrentada, chicoteada, marcada, obrigada a usar máscara e ensinada a estar sempre disponível para todo tipo de relação sexual, seja oral, vaginal ou anal. Em fevereiro de 1955, quando o livro ganhou um prêmio de literatura na França, seu editor foi acusado de obscenidade pelas autoridades. Apesar das acusações serem rejeitadas pelos tribunais, ocorreu um boicote publicitário que durou longos anos. Trata-se de um clássico do gênero erótico. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] O médico deve falar do que é invisível. O que é visível deve pertencer ao seu conhecimento, e ele deve reconhecer as doenças, assim como todo mundo, que não é médico, pode reconhecê-las pelos seus sintomas. Mas isto está longe de fazê-lo um médico; ele se torna um médico somente quando ele conhece aquilo que é o inominável, o invisível e imaterial e, todavia, eficaz [...]. O Grande Médico criou o minério, mas não o levou ao seu perfeito estado. Ele encarregou os mineiros da tarefa de refiná-los. Da mesma forma ele encarregou o médico de purificar o corpo de homem... de tal purificação emerge o homem tão indestrutível quanto o ouro... Esta é a ação que – como aquela realizada pelo fogo no ouro – livra o homem de impurezas que ele mesmo não conhece. E é como tal fogo que a medicina deve agir [...]. Trechos extraídos da obra Paracelsus: selected writings (Princeton University Press, 1995), reunindo os escritos do médico, filósofo e místico suíço-alemão Teophrastus Paracelso (1493-1541). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

AMARELO MANGA
O ser humano é estômago e sexo
AMARELO MANGA – O premiado drama Amarelo Manga (2002), dirigido por Claudio Assis, retrata a vida de alguns moradores do centro histórico de Recife, guiados pelas paixões e frustrações do dia a dia. Conta diversas histórias que envolvem cenas com necrofilia, homossexualismo e adultério, expressando a realidade miserável de seus personagens de forma natural e sem protagonistas, umas vez que o personagem principal é o povo brasileiro, personificado nos nativos de Recife. Os personagens povoam o Texas Hotel, envolvendo um homossexual, um cozinheiro faxineiro, um açougueiro que trai a esposa evangélica, um necrófilo que é encantado pela dona de um boteco e por aí vai. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor português Arlindo Rocha (1921-1999), integrante do grupo Independentes e considerado pioneiro da escultura abstrata e personalidade influente do movimento que emancipou a escultura da vocação estatutária. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE VERDI
Eu estava só, completamente só!... Com a alma torturada pelos infortúnios domésticos e magoada pela insensibilidade do público, eu tinha a certeza de que fora inútil buscar consolo na arte e decidi nunca mais compor. Minha melhor obra foi a dotação que fiz a uma casa para músicos pobres, em Milão.
A obra do compositor italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) aqui.
PS: A primeira paixão amorosa na vida de Verdi foi Margherita Barezzi (1814-1840) que foi a sua primeira esposa, deixando-o viúvo e amargurado pela perda anterior de seus dois filhos no mesmo ano: “E no meio de todas essas angustias terríveis eu tinha de escrever uma ópera cômica”. Em seguida apaixonou-se pela soprano operística italiana Giuseppina Strepponi (1815-1897) quando foi contemplado pela ventura e fortuna, que também o deixou viúvo pela segunda vez.


quinta-feira, março 06, 2008

MOACYR SCLIAR, FERNANDO PAIXÃO, PARACELSO, ARISTÓTELES, ENO WANKE, DONATELLA MARRAONI, TOLINHO & BESTINHA

 
A arte da artista plástica italiana Donatella Marraoni Dipinto.


TOLINHO & BESTINHA - VI - Quando Boca-de-frô engrossou o caldo para formar a tríade amalucada - O primeiro amigo pra valer do Tolinho foi o Boca-de-frô. Amizade essa que persiste até hoje, apesar dos xingamentos, intrigas, dedadas, boatos, esfregões e injuriamentos. Depois de trocarem muito cavalo-mago, descobriram um parentesco longínquo daqueles de dar uma volta pelo fim do mundo e findar lá pelos oitavos ou décimos graus dos cafundós nos quintos das famílias possíveis e inimagináveis: primos, que se dizem consangüíneos. Não sei muito bem como é que entendem essa parentalha, mas fica sendo assim. Daí unha-e-carne. Este relacionamento mais que estreitíssimo promoveu o maior pisoteio por aquelas bandas, vez que ambos num largavam quietos nada que caísse na conquista. Fosse doidivana aloprada, daquelas mais mocréias das piores catraias, até bichos e indecisos. Não passavam apertado, logo tomavam a iniciativa de abocanhar algo na tresloucada mania de se aproveitarem de tudo quanto houvesse na vida. O Boca-de-frô mesmo era astuto ao máximo, mas fraquejando sempre de levar pisa todo dia e o dia todo por causa dos flagras libidinosos dele com os seus mais insólitos concubinatos. Para se ter idéia, a primeira mancebia dele fora com a galinha Grenalda. Oxe, a bicha num podia dar um piado que ele crás! E esse idílio durou uns cinco ou seis meses, até que ela fora estrangulada, depenada, assada e servida numa ceia domingueira. Desse episódio, o cara ficou desolado, macambúzio, atarantado noites e dias com aquela perda. Essa, então, a primeira desilusão na vida que marcara a alminha tola do Lombreta. Depois viera a porquinha Juremita que as más línguas insinuam ser uma fêmea javali. Teimava ele tratar-se de uma duroc, mas outros menos especialistas diziam tratar-se de uma pecari domesticada. Pode? Nossa, o débil amante cuidava dela com especialidade de suinocultor. Para ele, aquela era um colosso: carnuda, aprumada e jeitosa. O insaciável seguia a regra, ração com cereais proteinosos até cuidar da poliestria anual. E quando ela estava no cio o maloqueiro se lambuzava. Para suas fantasias sexuais comprara até enfeites e acessórios femininos para melhor ornar com elegância a sua escrava sexual. A suína, por isso, possuía todo tipo de lingerie, estojos de maquiagens, fio-dental, babydol, sutiã, liganete, brincos, pulseiras, anéis, relógios, correntes, piercing, tatuagem, tiara, gargantilha, perucas, além de sofisticados adereços usuais da tipologia sadomasoquista. Vote! Um verdadeiro Marquês de Sade! Imagino, cá comigo, o zoadeiro que a leitoa não fazia no meio da emboança sexual. Não consegui apurar o período desse enlace, sei que ela pariu várias ninhadas jamais vista. Diziam alguns que já nasciam com o focinho e os beiços feito um botão de flor, denunciando-lhe a paternidade. Ninguém, na verdade, nunca viu nem tivera notícia de ter visto os filhotes, vez que os pais dele davam-na por estéril, retalhando-a no açougue para a freguesia freqüente. Era uma vez e foi-se mais uma. Nova tormenta no toitiço do enamorado. Não parou por aí. Depois deste desatino, veio a jumenta Cremildita, essa durou anos. O apaixonado cuidava com aplicação de fiel da venta até a cauda, afeiçoando-se mais pela garupa da jega, a qual adaptou todos os adereços pertencentes à finada Juremita. Paixão duradoura essa que só foi interrompida com o flagra dele atrepado num tamborete e abusando da donzela. Foi um deus-nos-acuda com estardalhaço. Resultou numa esmerada educação religiosa, daquelas fanáticas, dele exibir camisetas com motivos católicos exacerbados, audiófilo de gospel e da juventude Jesus Super-Star, até hoje. Na verdade, quem consolou Boca-de-frô foi Tolinho que desviou o rapaz apresentando-lhe um horizonte imenso por explorar entre todo tipo de orifício para se aproveitarem insaciavelmente. Mas Boca-de-frô não conseguia superar a fatalidade amorosa sucumbindo na maior roedeira, ao que Tolinho prescreveu-lhe, com o fito de debelar aquele mal que atormentava o cristão, um inusitado suco de cu. - Que porra é nove? - É a maior panacéia, doido! - Piorou! - É o siguinte: vou pegar a piquineira negona lá de casa, vou mandá ela ficá uns três dias encarreados sem tomá banho, depois boto-la prá s´assentar na bacia cheia d´água e ficá por umas três horas acocorada lá. - Vote! - Depois de tudo, pego a água e iencho um copo e dou procê tomá. - Tá doido, tá? - Santo remédio, meu fio. - O quê? - Verdade, santo remédio, duvido quem num fique novinho em folha depois de tomar o suco de cu. Quem toma fica todo aceso com a manjuba cheia de vida. Eu mermo tomo dia sim, dia não. Tomaram, não antes fazerem todo tipo de careta quase botando fora os bofes. Este vigoroso e estranho complexo vitamínico habilitou o católico a se iniciar noutra sórdida iniciativa de se proteger de males danosos com a medicina milenar ayurvédica, de ficar ingerindo constantemente o próprio mijo. Quando não era o suco de cu, era beberagem de urina. Isso tudo às escondidas, claro. Tá doido de alguém saber disso, ora. Mas, pelo visto, o Boca-de-frô vendia saúde, vigoroso espadaúdo que crescia robusto e cheio de pantim. - Tais arripunando pro quê? -, instigava Boca-de-frô. - Sô lá doido de beber mijo, cara! -, rejeitava Tolinho. - Ué, quem bebe suco de cu num tem que estranhar caldo de mijo não! - Um é um, outro é outro. Mijo de boceta ainda vai. - E qualé a diferencia? - Ôxe, beber mijo de macho, sou lá maluco? - Seu mijo mesmo... - E daí? - Ocê fica todo fortificado mais ainda além da conta. - Ara! A dupla fazia festa. Tolinho, mais tinhoso, iniciara Boca-de-frô nos meandros da pirobagem, evitando o conversê do mijado. A maior deles desse período foi uma trampolinagem que ninguém, mas ninguém mesmo, sabe ao menos, levemente, explicar. É que de repente, assim, sem mais nem menos, Lombreta apareceu todo espaçoso nas risadas, parecendo mesmo que nada houvesse acontecido na sua vida. Era outro. Tolinho intrigado com aquela saltitante alegria do amigo, digo, primo. - Quê s´assussede, Lombreta? - Pro quê? - Tô veno ocê, assim, todo folgado, levezão, sem remorso, sem nada, como si num tivesse mais saudade das paixonites... - Ah! viveno e aprendeno, besta. - Ôxe!? - Nada como um dia encangado no outro e uma lua no meio... - Tem cu nesse meio! Tem cu nesse meio.... - Tô pra cima, só, num posso tá de risadagem mais não?? - Pode, pode. Arretiro tudo qui disse... - Por um acauso só qué vê o sujeito nos escanteio, manemolento, é? - Já disse, arretiro tudo que disse... E se entendiam e se desentendiam ora sim, ora não. Até que conheceram Bestinha formando, assim, a trindade imprestável. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
VEJA MAIS:


PENSAMENTO DO DIA - [...] A alquimia não é para fazer ouro nem prata; sua utilidade é para fazer as essências supremas e dirigi-las contra as doenças. [...] Um doutor não pode se tornar eficiente na univeridade. Como é possível compreender em três ou quatro anos a natureza, a astronomia, a alquimia ou a física? Um doutor deve ser um viajante, porque deve indagar diretamente ao mundo. Experimentos não são suficientes. A experiência deve comprovar o que pode ser aceito ou não. Conhecimento é experiência. [...]. Os doutores que se fizeram doutores mediante dinheiro, ou após longo período de tempo, leram seus livros apressadamente e retêm pouca coisa em sua cabeça. Mas esses asnos circulam na cidade como se fosse um crime para o doente contradizer um doutor. Pensamentos extraídos de Três qualificações que um bom e perfeito cirurgião deve possuir, do médico, filósofo e místico suíço-alemão Teophrastus Paracelso (1493-1541). Veja mais aqui e aqui.

FILOSOFAR - [...] A maravilha sempre foi, antes como agora, a causa pela qual os homens começaram a filosofar: a principio, surpreendiam-se com as dificuldades mais comuns. Depois, avançando passo a passo, tentavam explicar fenômenos maiores, como, por exemplo, as fases da lua, o curso do sol e dos astros e, finalmente, a formação do universo. Procurar uma explicação e admirar-se é reconhecer-se ignorante. Por isso, pode-se dizer que sob um certo aspecto o filósofo é também amante do mito: uma vez que o mito se compõe de maravilhas [...] Trecho extraído da obra Metafísica (Globo, 1969), do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CONTAR HISTÓRIA - [...] - Quantas histórias você vai me contar? – Uma. – E uma é quantas? [...]. Trecho extraído da obra Mundinho infantil (Codpoe, 1990), do poeta, engenheiro civil, tradutor, antologista, pesquisador, historiador e polemista paranaense, Eno Teodoro Wanke (1929-2001). Veja mais aqui.

POR ONDE EMÍLIA? Dona Benta e Tia Anastácia faleceram, Rabicó virou presunto há muito tempo, Pedrinho e Narizinho tornaram-se adultos e sumiram. Mas Emília continua viva. Idosa agora – mesmo bonecas envelhecem -, ela continua a mesma contestadora de sempre. Continua em busca da Casa das chaves, aquela em que penetrou buscando desligar a Chave da Guerra (mas enganou-se: desligou a Chave do Tamanho, e tornou-se a precursora – bem melhor que a sequela – do filme Querida, encolhi as crianças). As chaves que Emília agora quer desligar são as chaves da Pobreza, do Desemprego, da Fome. Mas será difícil. Se não conseguiu isso há 50 anos, não conseguirá agora, que sua energia é muito menor. Emília sonha. Com que sonha? Com o Sítio do Picapau Amarelo. E sonha que o sítio está sendo invadido pelos sem-terra, que ali tentam se instalar. Querem plantar, no que era o território da fantasia, milho e feijão. Emília hesita; seu lado anarquista quer aderir aos invasores, seu lado conservador acha isso uma barbaridade. Procura uma resposta, mas não acha; o único que poderia aconselhá-la, o amável escritor chamado Monteiro Lobato, morreu há muito tempo. Do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1927-2011). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A CONTORCIONISTA - É necessário que sejas jovem e bela / as pernas entre a flecha / e a curvatura. / Mas isso não basta / tem de haver cabelos longos e dóceis / qual um cálice negro / descendo por trás / o rosto / invertido / em boca e olhos / rara figura / como seria uma sibila dos infernos. / Então nos diga: que conquista é essa / de recriar tronco e membros / sem obedecer ao engenho do corpo / metade feminina metade monstro? / Não te iludas: os aplausos do circo / são tingidos de medo quando chega a tua hora. / Ofereces dobras / que as pupilas rejeitam / o espaço nega. Temos um tremor / de desequilíbrio. / Cegam as palmas. / 0 teu corpo visitado por flores do mal / como afastá-lo das retinas? Poema do poeta, editor e ensaísta português Fernando Paixão.


A arte da artista plástica italiana Donatella Marraoni Dipinto.




Veja mais sobre
O encontro das sombras e olores, Cyro dos Anjos, Denis Diderot, Violeta Parra, Marieta Severo, István Szabó, Leo Putz, Erika Marozsán, Ida Rubinstein aqui.

E mais:
A Trupe do Fecamepa aqui.
Proezas do Biritoaldo Quando Risca Fogo, o Rabo Inflamável Sofre Que Só Sovaco de Aleijado aqui.
Painel das fêmeas, Lao Zi, Richard Flanagan, Heinrich Heine, Sally Nyolo, Fabiana Karfig, Gaspar Noé, Howard Rogers, Musetta Vander & Ação civil pública aqui.
Big Shit Bôbras: a chegada & primeira emboança aqui.
A Primavera de Ginsberg, Frederick Chopin, Valentina Igoshina, Paula Vogel, Jane Campion, Karl Briullov, Andréa Beltrão, Meg Ryan, Mademoiselle Dubois, Psicologia & Direitos Humanos, Cordel do Professor & Ísis Nefelibata aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá (Arte Ísis Nefelibata).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

BLAISE CENDRARS, GUSTAVE COURBET, GINOFAGIA & TATARITARITATÁ!!!!!



Imagem de Amadeo Modigliani.

BLAISE CENDRARS, GUSTAVE COURBET, GINOFAGIA & TATARITARITATÁ.

Gentamiga do meu Brasil véio, arrevirado e de porteira escancarada!

Tive a oportunidade de ler um livro: Morravagin, de Blaise Cendrars. Por esta razão, convido você a sacar as ideías do escritor expressas nesse livro:

“(...) As máquinas mais complicadas e as sinfonias de Beethoven se movem segundo as mesmas leis, progridem aritmeticamente, são regidas por uma necessidade de simetria que decompõem seus movimentos numa série de medidas minúsculas, ínfimas, e que se equivalem. O baixo-cifrado corresponde àquela engrenagem que, infinitamente repetida, desencadeia, com um mínimo de esforço (desgaste), o máximo de estética (força utilizável). O resultado é a construção de um mundo paradoxal, artificial, convencional, que a razão pode demonstrar e tornar a montar à vontade (paralelismo dinâmico: um sábio físico vienense não se deu ao trabalho de traçar todas as figuras geométricas projetadas pela Quinta Sinfonia e, recentemente, um sapientíssimo inglês não traduziu em vibrações coloridas as vibrações sonoras dessa mesma sinfonia? Esse paralelismo se aplica a todas as “artes” e, portanto, a todas as estéticas (...) No princípio era o ritmo, e o ritmo fez-se carne”.

A ciência não passa de uma história supersticiosamente adaptada ao gosto do momento”.

Mulier tota in utero, dizia Paracelso, por isso é que todas as mulheres são masoquistas. O amor, para elas, começa com o rebentar de uma membrana para terminar na total laceração do ser na hora do parto. (...) O homem e a mulher não foram feitos para entenderem-se, amarem-se, fundirem-se e confundirem-se. Pelo contrário, detestam-se e dilaceram-se mutuamente; e nessa luta que tem o nome de amor a mulher passa por eterna vítima, na verdade o homem é que é morto e outra vez morto. Pois o macho é o inimigo, um inimigo desajeitado, hábil, especializado demais. A mulher é todo-poderosa, mais bem assentada na vida, possui vários centros erotógenos, sabe então sofrer melhor, possui mais resistência, sua libido lhe dá peso, ela émais forte. O homem é seu escravo, ele se rende, se estende aos seus pés, abdica passivamente. (...) A mulher é maléfica (...) Pois a mulher triunfa de todas as abstrações. Nenhuma civilização jamais escapou da apologética da muilher, salvo algumas raras sociedades de jovens machos guerreiros e ardentes, cuja apoteose e declinio foram tão rapidos quanto breves, como as civilizações pederásticas dos ninivitas e dos babilônios, antes consumidoras que criadoras, que não conheciam nenhum freio para a sua atividade febril, nenhum limite para o seu enorme apetite, nenhum termo para as suas necessidades e que, por assim dizer, devoram-se a si mesmas, desaparecendo sem deixar rastro, como morrem todas as civilizações parasitárias, arrastando com elas um mundo inteiro. Amo demais a mulher para não ser misógeno

Trinta anos! Era o prazo que tinha me dado para me suicidar, outrora, quando acreditava no gênio da juventude. Hoje, não acredito em mais nada, a vida não me enche mais de horror do que a morte, e vice-e-versa. Não quero mais saber do cerebralismo, dos estetas, dos literatos militantes, das rivalidades entre pequenas e grandes panelinhas, da maledicência profissional, nem da vaidade que corrói os autores e os infla, nem do seu arrivismo nojento”.

BLAISE CENDRARS é o pseudônimo do novelista e poeta suiço Frédéric Louis Sauser (1887-1961), um dos mais importantes representantes das vanguardas artísticas do começo do século passado. Em 1912, publicou em Paris a obra Les Hommes Nouveaux. No mesmo ano publica Les Pâques à New York. Em 1915 perde a mão direita na guerra e, dois anos depois, amputam-lhe todo o braço. A vida de Blaise Cendrars foi uma constante aventura, com viagens pelas sete partes do mundo e outras tantas ocupações para ganhar a vida. Fortemente influenciado pelos primeiros ventos futuristas, Cendrars alistou-se como voluntário na Legião Estrangeira durante a Primeira Guerra. Foi enviado ao front e, em 1915, perdeu o braço direito no campo de batalha. No começo dos anos 20, Cendrars veio ao Brasil e travou amizade com os modernistas Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Identificou-se imediatamente com as contradições dos trópicos a ponto de dizer que o país era a sua "pátria espiritual". Foi condecorado com a Légion d’Honneur por André Malraux, no ano de 1958, E faleceu em 1961 na sequência de vários ataques. O seu livro Morravagin: Fim do Mundo Filmado Pelo Anjo Notre-Dame, foi escrito em 1926. O livro é uma biografia de um monstro. O personagem é a encarnação do século XX, com sua vertigem da violência e sua compulsão à guerra. A edição também traz a delirante narrativa "O fim do mundo filmado pelo anjo Notre-Dame", cuja autoria o escritor atribuía ao personagem Morravagin que é a encarnação da doença do século XX, com sua vertigem da violência e sua compulsão à guerra em escala internacional. Parte do romance Morravagin foi escrita no Brasil, por onde o poeta passou em 1926, ano de lançamento do livro. Como escreve Carlos Augusto Calil na orelha do romance, "a saga de Morravagin é a ilustração de um percurso sinistro da história recente, em que a guerra se torna aceitável, lógica, necessária e profilática".

Ao ler o livro, escrevi “DE MORRAVAGIN DE CENDRARS PARA VIVAGIBRA! (VIVAGINA!)


Foi com uma surpresa enorme que tive acesso ao livro de Blaise Cendrars, “Morravagin”, escrito entre 1913 e 1925, onde o leitor logo se depara com a biografia de um monstro misógino que encarna o século XX, com sua vertigem de violência e compulsão à guerra.
O poeta de origem suíça Frédéric Louis Sausser (1887-1961) adotara o pseudônimo de Blaise Cendrars, segundo suas próprias definições, por causa de brasa e cinzas, parecendo que o autor queria referenciar a sua pátria espiritual, o Brasil, onde esteve por algumas vezes participando do movimento Pau Brasil na pintura e na poesia, realizando conferências e que muito bem se identificou com o seu temperamento plural e despojado, virando, inclusive, cenário de algumas passagens de suas obras.
Como a matéria-prima do poeta era a realidade e o Brasil com toda sua rica fabulária, conseguiu levá-lo para encantamentos que viraram páginas literárias das mais aprazíveis, reconhecidas, inclusive, pela imprensa especializada como um dos maiores romances franceses do século recém passado.
Curiosamente o título misógino leva à escatológica expressão: “Morra vagina”. E na recente edição lançada pela Companhia das Letras, com coordenação editorial, notas e posfácio de Carlos Augusto Calil, reúne, também, “O fim do mundo filmado pelo anjo Notre-Dame”. O livro é imperdível, assevero.
Com uma expressão indubitavelmente incrível, Blaise Cendrars chega, em certa parte do livro, a vociferar: “O amor é masoquista. Esses gritos, lamentos, doces sustos, esse estado de angústia dos amantes, esse estado de espera, esse sofrimento latente, subentendido, mal-e-mal expresso, essas mil inquietações acerca da ausência do ser amado, essa fuga do tempo, essas suscetibilidades, essas variações de humor, esses devaneios, essas criancices (...) O amor para elas, começa com o rebentar de uma membrana para terminar na total laceração do ser na hora do parto. (...) O amor não tem outro objetivo e, sendo o amor a única motivação da natureza, a única lei do universo é o masoquisto. (...) O homem e a mulher não foram feitos para entenderem-se, amarem-se, fundirem-se e confundirem-se. (...) A mulher é todo-poderosa, mais bem assentada na vida, possui vários centros erógenos, sabe então sofrer melhor, possui mais resistência, sua libido lhe dá peso, ela é a mais forte. (...) pois a mulher triunfa de todas as abstrações”.
Mais adiante ele assinala: “Só o que pode admitir, afirmar, a única síntese, é o absurdo do ser, do universo, da vida. (...) E o universo não passa, no caso mais otimista, da digestão de Deus. (...) A maior desgraça que pode acontecer a um homem, e não é tanto um desastre moral como um sinal de velhice prematura, é levar a mulher a sério. A mulher é um briquedo”.
Não vou aqui ter a petulância de resenhar o livro, muito menos de cogitar um ensaio a respeito, mas atrevidamente reportar que tais colocações me levaram a escrever “Vivagibra!” que depois virou “Vivagina!”. Ou seja, levado pela adoração de Blaise Cendrars pelo Brasil e sua misoginia em “Morravagin”, reiterada, segundo Carlos Augusto Calil no pós-posfácio desta, que no seu “O homem fulminado”, de 1945, assinalou “Amo demais a mulher para não ser misógino”, reuni a idéia de criação do mundo retirada do versículo I do “Evangelho segundo padre Bidião”, que foi inspirado no quadro homônimo de Gustave Courbet, além da constatação de que o Brasil, com nome oriundo de um sem número de significações, dentre elas fervências e quenturas extremas só encontradas no coito, enfim, na expressão geográfica do país como um isósceles invertido, seria, assim, uma vagina, o que me enche de tentação e brasilidade.
E não me faço de rogado e sapeco:

Não meiar mais desamores.
Ozoras, ningum assopra demudências:
Sobranças de amoridades perspetinas
A quem nasceclodiu navidavaga
Brasilva flancanhoto nordesatino:
Vivagibra! Vivagibra!

Assim sendo, revelo minha filoginia, ou melhor, ginofagia considerando o Brasil, este país de doidos, desvalidos e desembestados, a pátria amada na simbologia da vagina escancarada da mulher, onde me sinto sempre muito bem acomodado, gozando das delícias e sempre dentro: Vivagibra!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Daí, inspirado na misoginia de Morravagin e no maravilhamento doido pelo Brasil do autor, trago aqui o meu poema VIVAGINA na íntegra.

Imagem: L’origine du monde, de Gustave Courbet. Veja mais aqui e aqui.

VIVAGINA!


Viva, vivagina! Vivâncias: não meiar mais desamores. Ozoras, ningum assopra demudências: sobranças de amoridades nas perspertinas que nasceclodiram-me navidavaga brasilva nordesatino, flancanhoto, anatemático. Do olhamapá ao arroio-chué, verbundante mortevida: videfemurosa, mortimorata, remorrente... Brasilabril na vivabrasilva e eu, do que me resta, nadamente alémdalém das gostosuras fodelícias nas bocetígradas & falâncias minhas remorrendo estertorinhas de brasilvagamundo de mulher, encantopando no seu delito de ser a maravilha benfazejaseja do bem kanteano da lindeza nua pro meu ufanotívago bem do bem-querer e não o eufescenino das pusilanimidades nem o subterfúgio da cretinicisse dos timoratos porque sou de mim o que me faz o corpo nu e lindo da mulher amadadada como toda a floresta que a faz Manaus sedutora nos meus olhos que nem sei mais se ávido Galvez pelos seringais de Xapuri ou rumo ao Cruzeiro do Sul, ou onde começa tudo e vai pra floresta equatorial de Roraima, ou segue os minérios de Macapá, ou se pelas chapadas de Guaporé que dá no matagal de Rondônia, ou se vai pela Chapada dos Guimarães ao longo dos vales beirando Bolívia e Paraguai para dar no Pantanal ou em Tocantins na direção da Serra do Estrondo de Goiás, pela Belém-Brasília onde o Norte, Nordeste & Sudeste se encontram e confluem a mim pro Distrito Federal com todos os candangos de sempre. Brasilva eu sei que vou por seu corpo nu de maravilha alada escancarada que me afoga caudalosa Amazonas do prazer no encontro de nossa alma Solimões/Rio Negro a se desmanchar nos igarapés sob o manto da floresta que cresce por planícies, terraços até terra firme de Parintins pra Ver-o-peso em Belém do Grão-Pará & sacar da castanha descendo manha pela Serra do Tiracambu, indo da civilização do babaçu até a ilha de São Luís do Maranhão e depois folgazão chegar pro limítrofe piauiense onde as Sete Cidades do inconsciente dormem para a avença dos carnaubais e sai nos levando por aiais encantados pela Curva da Jurema onde a fêmea nua não deixa que eu não seja vela solitária na tarde de Mucuripe nem retardária que relembre as dores de antanho carregadas sempre na luta de hoje e nem quero esquecer de dias melhores e mais justos em meu país. Brasilva chega aqui e nua e linda vamos singrar planícies e chapadas do sertão até o mar quando chega Pirangi e sou sal potiguar ali pra lá de Mossoró e eu zoró na sua carne de mar do paraíso de Cabedelo & chegar o desmantelo na depressão da chapada da Borborema onde sou mais que Paraíba e você poema do meu Pernambuco, raiz da minha alma de mameluco, carne do meu sangue que se estende ao rés-do-chão para sobrepujar a paradisíaca Maceió do ninho de cobras de Ledo e oh de todas as práticas ilícitas que são costumeiras desde que Pinzón fincou pé por toda América Latina com todos os criminosos embaixo das asas do santo lusitano da peneira furada & da auréola negra de nojo dos ibéricos e carcamanos que serão peças de cabrunco no xadrez do tabuleiro da capital sergipana, onde a Atalaia Velha nos servirá crustáceos & ufanismo no jenipapo para que a gente possa depois se esbaldar na Baía de Todos os Santos & soteropolitanamente transcender até a Chapada Diamantina onde a mulher linda e nua se faz menina para correr livre até os gerais das Minas do Rio das Velhas, das Mortes e dos Caetés e das Matas, Campos e Sertões das veredas de Rosa & menina-moça toda prosa nua embalada mulher que se quer maior linda & nua qual sol excitado na serra dos Aimorés onde lascivamente alcançamos a Vitória de amar demais sob a bênção pagã capixaba & comemoramos com sua fulgurante sedução que se faz mulata nua reboladeira no cio da minha noite carioca & sobre o meu ibirapitanga a brincar pelos penhascos dos meus desejos até se deitar na baía de Guanabara onde a vida renasce rara e feita & fazemos sexo e festa sem nexo no rumo pros campos de Piratininga & de todas as serras da Mantiqueira que venha Cantareira pra dar na metrópole do concreto que roça a pele na garoa que molha a boa encruzilhada que vai dar de lá para Mato Grosso do Sul ou se arrear pela Paranapiacaba ou no azul destino dos tropeiros para os campos gerais de seu corpo nu que me aquece insone na noite fria curitibana de Trevisan dos sonhos levam pra zona de Canoinhas, onde nua e toda minha desce pela Bacia do Itajaí até chegar no arquipélago catarinense e daí a me banhar no atlântico sobejo de sua farta delícia corporal a pegar reta pela serra Geral para gozar além da conta de todos os músculos, sede, vazões nos domínios da sua maravilha gaúcha dos pampas e serões & seguindo a risca da trajetória do seu corpo que mergulho no Oiapoque e sou feliz por suas entranhas, revolvendo seus porões, valetas, submundos, para explodir de gozo no Chuí da sua volúpia a me certificar que por trás de toda riqueza dos mandões furiosos desta Nação dormente muitos crimes impunes repousam na nossa crédula boa-fé por garantia do aparato legislativo patrimonialista que sempre legaliza a nociva ganância dos surrupiadores sabidos desde que imaginaram ser aqui o Cabo de Santo Agostinho ou as falésias que deram em Porto Seguro e em detrimento da nossa mais legítima esperança equânime, só para saber de verdade que por trás de toda riqueza existe um crime, um crime dos muitos crimes que só no seu corpo sou choro, sou prazer, sou a dor de poder ser brasileiro e me redimo e me saro da repulsa por essas injustiças, mentiras forjadas, desigualdades gritantes, contradições terríveis, fraudes exorbitantes sepultadas sob o manto da lei vigente que diviniza a propriedade dos que se locupletam da vida como a confirmar o versículo bíblico de que o que mais tem mais se lhe dará, enquanto ao que não tem, até o que tem lhe será tomado. Por isso eu bebo, brasilvamente, tomo brasilvamente, como e me refaço em tudo que é do seu corpo nu na límpida vida do amor, onde dedetizo as nojeiras dos fantasmas do executivo dos interesses alienígenas, a fedentina do legislativo dos estranhos ariscos e a podridão do judiciário dos que se curvam cagando na vela dos que dominam fodendo tudo, enquanto eu vigilante de deus e do universo do amor fodo você mulher linda e nua no ápice do nosso prazer & vou diligente por suas curvas, manhas, sanhas, andanças, reentrâncias, convexidades com as botas impávidas do querer no mormaço da tarde pelo asfalto de 7 de setembro, onde uma canção de independência chora a nossa preterida agonia de liberdade & carrega as marcas da trajetória de nossa esperança impressa na palma da mão com a revanche de que o gozo seja inteiro com todos os fuzis do desejo, com o pelotão dos meus quereres mais ternos, com todos os tanques, aviões, navios de guerra das minhas carícias por essa vagina gostosa que é o meu Brasil colossal na zênite de nosso ardoroso prazer, o Brasil de verdade que é a minha guarida e realização de homem e o meu país seria outro escandalosamente feliz se valesse essa loucura de amar feita de luz no corpo nu da mulher amada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Crônica de Amor por Ela. Veja aqui + Ginofagia, os estudos bundológicos, abundâncias fabísticas e outras bundas do Tataritaritatá.



VEJA MAIS:
A praga do voto vendido aqui
Maceió & Lagoa Mundaú aqui.
Piondorama & pré-história aqui.


Pirangi, Rabelais, Máximo Gorki, Jocy de Oliveira, Cícero, A família eudemonista, Patrice Chéreau, Kerry Fox, Konstantin Razumov & Tchello D´Barros aqui

Nênia de Abril, Octavio Paz, Jorge Tufic, Joseph Haydn, René Descartes, William Morris Hunt, Império dos Sentidos & Nagisa Oshima aqui.

Karlheinz Stockhausen, Rubem Braga, Catulo da Paixão Cearense, Psicologia da Aprendizagem, Julio Conte, Dominique Regnier, Herbert James Draper & Sigourney Weaver aqui. 


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Secretária Tataritaritatá iniciando seu dia de trabalho.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...