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domingo, novembro 05, 2017

LAFCADIO HEARN, JOAN DIDION, FEDERICO FELLINI, ERNST BLOCH, BERTRAND TAVERNIER, CIDADE, CULTURA, LITERÓTICA & ARTERÓTICA

A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). Veja mais aqui.

LITERÓTICA: NOSSA FESTA - Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, eu bato meu ponto pro que der e vier. Meio dia em ponto, toda sexta-feira eu chego já pronto e o que é o que é. E ela vem de viés com toda surpresa, rompendo a represa de querer mais. É tudo demais e ela só me fascina, jóia excepcional, uma real mina, bailarina de Degas. Ou nua vestal, dançarina de fuá. E eu sentimental com toda destreza arrasto essa presa, astuta indefesa do pito voar. E para empenar tomo a pele e o pulso, a deixo em soluço a gemer de manhar. A se espernear no corpo rendido, eu domino o seu urânio enriquecido pronto pra explodir e eu só pra acudir num bote certeiro, quando vou de matreiro adornar seus quadris. E se faz bela atriz ensaiando sem medo a me ter entre os dedos, a me lamber num enredo de São Paulo a Paris. O que eu sempre quis e me morde abusada, se entope e se engasga entornando o seu mel. Eu adoço seu fel e vou de gandaia com minha azagaia no seu beleléu. Já sou réu condenado a morrer um bocado no meio do céu. Onde ela faz escarcéu, reluta e se esgana, ela goza sacana no maior pitéu. Ao léu a valer, ela não satisfez. E vem tudo de novo pra glória de um rei, ela sabe e eu não sei, o que importa é viver e venha tudo outra vez. OUTRA VEZ: Toda sexta-feira, meio dia em ponto, ela apronta de tudo comigo e pronto! Ela chega e me olha e toda se desfolha para o bem-me-quer. Ela se abre mulher e eu sorrio, ela se rela e vira cadela no cio e me abraça e me beija, e se faz de puta e princesa quando me quer e eu sou sua passarela onde o sangue dá na canela pro que der e vier. Ela ronda, me cheira e me fela, ela usa e lambuza, se descabela e me acusa de só abusar dela. Ela lambe e abocanha, ela vence e me ganha na melhor de três. Ela me agarra medonha, ela me bate uma bronha na maior maciez. Ela chupa e me suga, ela aponta pra fuga e me faz descortês. Ela agita e me alisa, ela grita e repisa que é a última vez. E nem bem recomeça, ela me prega uma peça e posa sisudez. Ela bole, suspira e rebola, ela delira e quase degola a minha rigidez. E se aninha e engalfinha, ela jura que é minha por mais de um mês. Ela assunta e se enrosca, ela se faz mesa posta e eu seu freguês. Ela ajeita e retruca, ela monta mutuca e diz que não fez. Ela esfrega e renega, ela rega e pula a janela da minha timidez. Ela atiça e se esfola, ela então faz escola pela insensatez. Ela aguça e me inflama, ela me queima na chama da sua nudez. Ela se arrisca de fato, ela fica de quatro na maior viuvez. Ela torce e retorce, ela morde, rejeita e se ajeita e nem se refez. Ela goza e remexe, ela arrocha e debocha na maior altivez. Ela treme e me grita e quer sair muito bem nessa fita com toda malvadez. E quando eu gozo espalhafato de folia de bombo. Ela sorri que de fato fui salvo pela zoada do gongo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.


DITOS & DESDITOS - Em vários aspectos, escrever é o ato de dizer Eu, de se impor sobre as outras pessoas, de dizer escute-me, veja pelo meu lado, mude de ideia. É um ato agressivo, até mesmo hostil. Pensamento da escritora e jornalista estadunidense Joan Didion.

ALGUÉM FALOUCinema-verdade? Prefirto o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade. Sempre faço o mesmo filme. Não consigo distinguir um dos outros. Pensamento do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993). Veja mais aqui, aqui e aqui.

HERANÇA DESTE TEMPO – [...] Nem todos estão presentes no mesmo tempo presente. Aparentemente estão porque é possível vê-los aqui e agora. Mas não é só por isso que uns e outros vivem no mesmo tempo. Pelo contrário, alguns possuem um passado que se intromete. [...] Tempos mais antigos que os atuais continuam a viver nas camadas mais antigas [...] “As velhas formas”, dizia ele, colaboram em parte para a novidade, quando elas são bem dispostas. O inimigo viu melhor [...] que essas formas são extremamente eficazes. É tempo de recuperar algumas velhas coisas, a urgência da hora nos ordena. A indolente arrogância com que um Kautsky zombava dos “heróis” ou das “pequenas amostras da mística apocalíptica” e se contentava em ridicularizá-las está ultrapassada, tanto na teoria quanto na prática [...]. Trechos extraídos da obra Herança deste tempo (Payol, 1978), do filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977). Veja mais aqui.

CIDADE: A SEDUÇÃO DO LUGAR – [...] Mesmo com as instituições públicas distanciadas, a sensação da cidade e o seu tecido físico estão sempre presentes para os habitantes e visitantes. Apreciado, visto, tocado, cheirado adentrado, consciente ou inconscientemente, esse tecido é uma representação tangível daquela coisa intangível, a sociedade que ali vive e suas aspirações [...]. Trecho extraído da obra A sedução do lugar (Martins Fontes, 2004), do professor e historiador de arte britânico Joseph Ryckert.

QUANDO TUDO COMEÇA – O filme Quando tudo começa (1999), de Bertrand Tavernier, trata sobre a direção de uma escola pública infantil mutirracional, em uma pequena cidade francesa, com alto índice de desemprego. A situação confronta o cotidiano profissional, refletindo sobre o desempenho e o comportamento dos alunos. Utiliza historias reais relatadas por professores, discutindo problemas de educação, de comunidades excluídas, problemas éticos relacionados à exclusão socioeconômica, participação da comunidade, cidadania e solidariedade.


ARTERÓTICA –A coleção Erótica (Taschen, 2001), reunindo a arte de 17th – 18th Century: from Rembrandt to Fragonard, 19th Century: from Courbet to Gaugin, 20th Century Volume I – From Rodin to Picasso & 20th Volume II – From Dali to Grumb, do historiador e editor de arte francês Giles Néret, reúne a expressão artistica erótica dos séculos XVII ao XX. Veja mais aqui.

PROMESSA QUEBRADA - [...] Nada aconteceu que pudesse perturbar a felicidade da jovem esposa até o sétimo dia após o casamento, quando seu marido foi convocado para executar algumas tarefas que exigiam a presença dele no castelo durante a noite. Na primeira vez que foi obrigado a deixá-la sozinha, ela se sentiu indisposta de um modo que não soube explicar, vagamente assustada sem saber por quê. Quando se deitou, não conseguiu dormir. Podia sentir uma estranha opressão na atmosfera, uma densidade inexplicável, como ocorre algumas vezes nos momentos que precedem uma tempestade. Quase na Hora do Boi, ela ouviu, no lado de fora, um sino tocar, o sino dos peregrinos budistas; e se perguntou que peregrino poderia estar passando pelo bairro do samurai àquelas horas. Logo em seguida, após uma pausa, o sino soou muito mais perto. Com certeza, o peregrino estava se aproximando da casa; mas por que o faria pelos fundos, onde sequer havia uma rua?… De repente, os cães começaram a ganir e uivar de uma maneira incomum e apavorante; e ela sentiu-se tomada pelo medo, como o medo que tinha dos sonhos… Aquele som vinha certamente do jardim… Ela tentou se levantar para acordar um serviçal. No entanto, percebeu que não conseguia se erguer, se mover e nem mesmo falar… E o som do sino mais perto, cada vez mais perto; e, nossa!, como os cães estavam uivando!… Então, ligeira como uma sombra furtiva, uma Mulher entrou no quarto, embora todas as portas estivessem trancadas e todas as janelas fechadas, era uma Mulher vestida numa mortalha , carregando um sino de peregrino. Cega, pois estava morta havia muito tempo, ela se aproximou… e seus cabelos soltos escorriam pelo rosto; e sem visão ela olhou através do emaranhado da sua cabeleira e falou sem a língua: — Você não pode ficar nesta casa! Ainda sou a senhora deste lar. Vá embora; e não diga a ninguém a razão de sua partida. Se contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Dizendo isso, a assombração desapareceu. A nova esposa do samurai ficou entorpecida de medo. E assim permaneceu até o dia raiar. Todavia, com a agradável luz da manhã, ela duvidou da realidade do que tinha visto e ouvido à noite. Entretanto, a lembrança daquela ameaça ainda pesava sobre ela com tanta força, que não ousou falar sobre a visão que tivera, nem com seu marido, nem com ninguém; acabou, porém, quase conseguindo persuadir a si mesma de que tudo havia sido apenas um pesadelo que a deixara indisposta. Na noite seguinte, porém, não teve dúvidas. Novamente, na Hora do Boi, os cães começaram a uivar e ganir; novamente o sino soou, aproximando-se lentamente pelo jardim; novamente ela tentou em vão se levantar e chamar alguém; novamente a falecida entrou no quarto e lhe sussurrou: — Vá embora; e não conte a ninguém o motivo de sua partida! Se você sequer contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Desta vez, a assombração chegou perto da cama, curvou-se sobre ela e murmurou, como se pairasse no ar… Na manhã seguinte, quando o samurai voltou do castelo, sua jovem esposa se prostrou diante dele e suplicou: — Eu imploro — disse ela —, perdoe minha ingratidão e minha extrema rudeza dirigindo-me desta forma a você: mas eu quero voltar para casa; quero ir embora imediatamente. — Você não é feliz aqui? — perguntou ele com sincera surpresa. — Alguém ousou ser indelicado com você na minha ausência? — Não, não é isso — soluçou a moça. — Todos têm sido muito bons co- migo… Mas não posso continuar sendo sua esposa; tenho que ir embora… — Minha querida — exclamou o samurai, incrivelmente espantado —, é muito doloroso saber que alguma coisa nesta casa causou-lhe infelicidade. Mas não posso imaginar um motivo para você ir embora, a menos que alguém tenha sido indelicado contigo… Espero que você não esteja dizendo que pretende se divorciar. Tremendo e chorando, ela respondeu: — Se você não me der o divórcio, morrerei! Ele ficou em silêncio durante um instante, tentando inutilmente descobrir alguma causa para aquela surpreendente declaração. Então, sem demonstrar qualquer emoção, disse: — Deixá-la voltar para sua família, sem nenhuma falha da sua parte, seria um ato vergonhoso. Se você me der uma boa razão para esta sua vontade, qualquer razão que me permita explicar honrosamente o que houve, eu concederei o divórcio. Mas, a menos que me dê uma razão, uma boa razão, você não terá o divórcio, pois a honra deste lar deve ser mantida acima de qualquer opróbrio. E assim ela se sentiu obrigada a falar; e lhe contou tudo, acrescentando, numa agonia de terror: — Agora que contei para você, ela me matará! Ela me matará!… Embora fosse um homem de coragem, e pouco inclinado a crer em fantasmas, o samurai ficou bastante sobressaltado por um instante. Mas uma explicação simples e natural logo veio-lhe ao espírito. — Minha querida __ disse ele —, você está muito nervosa agora; e receio que tenham lhe contado histórias absurdas. Não posso conceder-lhe o divórcio apenas porque você teve um pesadelo nesta casa. Mas lamento realmente que esteja sofrendo de tal modo durante minha ausência. Esta noite, também, tenho que ir ao castelo; mas você não ficará sozinha. Ordenarei a dois serviçais que vigiem seu quarto; e você poderá dormir em paz. São pessoas da minha confiança e cuidarão muito bem de você. Em seguida, falou com ela de um modo tão atencioso e afetuoso que a moça se sentiu quase envergonhada do seu terror, e resolveu permanecer naquela casa. Os dois serviçais encarregados de cuidar da jovem esposa eram homens simples, fortes e corajosos, que tinham experiência em proteger mulheres e crianças. Eles contaram à moça histórias divertidas para alegrá-la. Ela conversou com eles por um bom tempo, riu de suas tiradas bem-humoradas, e quase esqueceu seus receios. Quando finalmente ela se deitou para dormir, os dois guardiões tomaram seus lugares no canto do quarto, atrás da tela, e iniciaram um jogo de go, falando apenas em sussurros, para não incomodá-la. Ela adormeceu feito uma criança. Porém, mais uma vez, na Hora do Boi, ela despertou com um gemido de terror ao ouvir o sino lá fora!… O som já estava perto e cada vez se aproximava mais. Ela teve um sobressalto e gritou; mas não notou nenhum movimento no quarto, havia somente um silêncio sepulcral, um silêncio crescente, cada vez mais denso. Ela correu na direção de seus guardiões: estes estavam sentados diante do tabuleiro, imóveis, miravam-se um ao outro com os olhos fixos. A moça os chamou, os sacudiu: eles permaneceram paralisados, como se estivessem congelados… Mais tarde, eles disseram ter ouvido o sino, e também o grito da jovem esposa, até chegaram a sentir que ela os sacudia para despertá-los; e que, no entanto, não foram capazes de se mover nem de falar. No momento exato em que pararam de ouvir e enxergar, submergiram num sono sinistro. Ao entrar no quarto de casal, de madrugada, o samurai viu, na claridade de uma luz evanescente, o corpo sem cabeça de sua jovem esposa, deitado numa poça de sangue. Ainda agachados diante do jogo inconcluso, os dois serviçais dormiam. Ao ouvirem o grito do senhor eles despertaram, e com uma expressão estúpida, afrontaram o horror no chão… Não encontraram a cabeça; e a ferida horrenda mostrava que ela não havia sido cortada, mas arrancada. Um rastro de sangue se estendia do quarto até um ângulo da varanda, onde as portas que protegem das intempéries pareciam ter sido rachadas. Os três homens seguiram o rastro até o jardim, passando pelo gramado, pelos canteiros de areia, ao longo da margem de um lago iridescente sob a sombra espessa de cedros e bambus. E, repentinamente, num desvão, encontraram-se face a face com uma coisa horripilante que se agitava como um morcego: a figura da mulher há muito enterrada, ereta diante de seu túmulo, numa das mãos o sino, na outra a cabeça ainda gotejante… Por um momento, os três ficaram entorpecidos. Em seguida, um dos serviçais, pronunciando uma prece budista, avançou e desferiu um golpe sobre aquele vulto. Imediatamente o vulto se esfarelou no chão, não passava de um amon- toado de trapos de pano, ossos e cabelos; e o sino rolou retinindo para longe daquele dejeto humano. Mas a mão direita, descarnada, mesmo decepada do pulso, ainda se contorcia; e seus dedos comprimiam a cabeça ensangüentada, dilacerando-a e desfigurando-a, como as tenazes dos caranguejos amarelos estraçalhando uma fruta que caiu da árvore…— Esta é uma história cruel — disse eu ao amigo que acabara de contá-la. — Se a falecida queria se vingar de alguém, deveria ter escolhido o marido. — É assim que os homens pensam — respondeu. — Mas não é desse modo que as mulheres agem… Ele tinha razão. [...]. Trechos da obra do escritor japonês Lafcadio Hearn (1850-1904). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). 
Veja mais aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Leitora Tataritaritatá.

Todo dia é Dia da Cultura
&
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quarta-feira, agosto 27, 2014

ÁGOTA KRISTÓF, MACHI TAWARA, BOSTROM, DESMURGET, HOLLAND, DANTE & GESTÃO CULTURAL

 


O TRISTE EXÍLIO DE DANTE – Foi em Florença e um hipocorístico de Durante. Sua Bella mãe morreu quando ainda menino pelos cinco ou seis anos de idade. Nasceram-lhe irmãos de outra mãe. Aos doze anos obrigaram-no a casar-se com Gemma, filha de Messe Manetto Donati, com a qual teve muitos filhos. Tornou-se médico e farmacêutico na guilda dos boticários e a ascensão à vida política. Participou como prior do Conselho dos Cem de Florença e os problemas se agravaram. Seu pai um prior guelfo branco no confronto com os gibelinos não sofreu nenhuma represália com a vitória dos negros opositores. Julgado à revelia, foi culpado de corrupção e apropriação indébita: uma pesada multa, proibição de ocupar qualquer cargo público e o confisco de todos os seus bens. Em seguida, condenado à fogueira se ousasse retornar ao seu torrão. Anos depois, recusou a anistia e foi sentenciado à decapitação. Restou-lhe o exílio: a terra distante ao abandono dos parentes, vagava de uma cidade para outra. Errante com suas penas acumuladas e La Divina Commedia, o ajuste de contas: o inferno, o purgatório e o paraíso. Deu-se então o convívio com a Scuola poetica siciliana, menestréis e provençais, o culto a Virgílio, a predileção por Horácio, Ovídio e Cícero. Eis que nasce o Dolce Stil Nuovo. A paixão por Beatrice Portinari e a Vita Nuova: a poesia e a própria vida. Mas esta falece e com ela o cavaleiro ao lado dos florentinos contra os de Arezzo, na batalha de Campaldino. O regresso não permitido: havia superado todos os limites no confronto com os guelfos negros. E de que adiantava ter concebido De vulgari eloquentia, a serventia do Le Rime - Canzoniere, o banquete de Il Convivio, a política do De Monarchia, epístolas, éclogas e Quaestio de aqua et terra. De nada adiantou atribuir-lhe a alcunha de il sommo poeta, restava-lhe apenas a morte em Ravena. Salve Dante Alighieri (1265-1321). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - São vários os fatores que se conjugam para impedir o cidadão comum de formar facilmente uma opinião bem fundamentada... Tudo o que fazemos muda a estrutura e função de nosso cérebro. Em resposta ao uso das telas, certas regiões relacionadas ao processamento de sinais visuais se espessam. Inversamente, as redes linguísticas experimentam atrasos no amadurecimento... Pensamento do escritor, neurocientista e pesquisador francês Michel Desmurget.

 

ALGUÉM FALOU: Quando um novo alicerce é descoberto, o resultado geralmente é uma série de inovações. Com a teoria, podemos separar características fundamentais de idiossincrasias fascinantes e características incidentais. A teoria fornece marcos e orientações, e começamos a saber o que observar e onde agir. Pensamento do cientista e professor estadunidense John Henry Holland (1929-2015), criador dos algoritmos genéticos.

 

SUPERINTELIGÊNCIA, PERIGOS & ESTRATÉGIAS - [...] Longe de sermos as espécies biológicas mais inteligentes possíveis, somos provavelmente melhor considerados como as espécies biológicas mais estúpidas possíveis, capazes de iniciar uma civilização tecnológica - um nicho que preenchemos porque chegámos lá primeiro, e não porque estejamos, de alguma forma, perfeitamente adaptados a ele. [...] Deixemos que uma máquina ultrainteligente seja definida como uma máquina que pode superar em muito todas as atividades intelectuais de qualquer homem, por mais inteligente que seja. Como o projeto de máquinas é uma dessas atividades intelectuais, uma máquina ultrainteligente poderia projetar máquinas ainda melhores; haveria então, inquestionavelmente, uma “explosão de inteligência”, e a inteligência do homem ficaria para trás. Assim, a primeira máquina ultrainteligente é a última invenção que o homem precisará fazer, desde que a máquina seja suficientemente dócil para nos dizer como mantê-la sob controle. [...] Pode-se especular que o atraso e a instabilidade do progresso da humanidade em muitos dos “problemas eternos” da filosofia se devem à inadequação do córtex humano para o trabalho filosófico. Nesta perspectiva, os nossos filósofos mais célebres são como cães que andam sobre as patas traseiras – mal atingindo o nível limite de desempenho necessário para se envolverem na atividade. [...] Consideremos uma IA que tem o hedonismo como objetivo final e que, portanto, gostaria de revestir o universo com “hedônio” (matéria organizada em uma configuração ideal para a geração de experiências prazerosas). Para este fim, a IA pode produzir computrónio (matéria organizada numa configuração ideal para a computação) e utilizá-lo para implementar mentes digitais em estados de euforia. Para maximizar a eficiência, a IA omite da implementação quaisquer faculdades mentais que não sejam essenciais para a experiência do prazer, e explora quaisquer atalhos computacionais que, de acordo com a sua definição de prazer, não viciem a geração de prazer. Por exemplo, a IA pode limitar a sua simulação a circuitos de recompensa, eliminando faculdades como memória, percepção sensorial, função executiva e linguagem; pode simular mentes em um nível de funcionalidade relativamente grosseiro, omitindo processos neuronais de nível inferior; pode substituir cálculos comumente repetidos por chamadas para uma tabela de pesquisa; ou poderia estabelecer algum acordo pelo qual múltiplas mentes partilhariam a maior parte da sua maquinaria computacional subjacente (as suas “bases de superveniência” na linguagem filosófica). Tais truques poderiam aumentar enormemente a quantidade de prazer produzida com uma determinada quantidade de recursos. [...]. Trechos extraídos da obra Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies (Oxford University Press, 2014), do filósofo sueco Nick Bostrom.

 

O CADERNO, A PROVA & A TERCEIRA MENTIRA - [...] Respondo que tento escrever histórias verdadeiras, mas que a certa altura a história se torna insuportável por ser muito verdadeira, e então tento que mudá-la. Digo a ela que tento contar minha história, mas de repente não consigo, não tenho coragem, dói muito. E então eu embelezo tudo e descrevo as coisas não como aconteceram, mas como eu gostaria que acontecessem. Ela diz: “Sim, existem vidas mais tristes do que o mais triste dos livros”. Eu digo sim. Nenhum livro, por mais triste que seja, pode ser tão triste quanto uma vida [...] Assim que você começa a pensar, você não consegue mais amar a vida [...] Você esquecerá. A vida é assim. Tudo vai na hora certa. As memórias ficam confusas, a dor diminui. Lembro-me da minha esposa como alguém se lembra de um pássaro ou de uma flor [...] Não seja sentimental. Tudo morre [...] Temos todo o trabalho e toda a preocupação: crianças para alimentar, feridas para cuidar. Quando a guerra acabar, vocês, homens, serão todos heróis. Os mortos: heróis. Os sobreviventes: heróis. Os mutilados: heróis. É por isso que você inventou a guerra. É a sua guerra. Você queria isso, então vá em frente – heróis, minha bunda! [...] E a morte não chegou. Nunca acontece quando você liga. Ela gosta de nos torturar. Venho pedindo isso há anos e não me dá atenção [...] Convivo com medo desde criança [...] Cada um de nós comete um erro fatal em algum momento da vida. Quando percebemos, o estrago já está feito […]. Trechos extraídos da obra The Notebook, The Proof, The Third Lie: Three Novels (Grove Press, 1997), da escritora húngara Ágota Kristóf (1935-2011).

 

FINGINDO ESPERAR POR ALGUÉM - Querendo ser Tinkerbell \ e pegar você em meus braços \ - sapatos rasos rosa perolados \ Depois de me despedir de você esta manhã, \ olho para o meu tubo de pasta de dente – \ o amassado nele é novo\ Partilhar convosco ao sol \ o primeiro tomate do verão, \ pele firme mas delicada\ Ele amou outra primeiro - \ e então fui escolhida como \ o 'tipo outra mulher'\ “Case com um cara legal, agora” \ diz esse cara, com um beijo, \ e não se casa comigo\ Cada um com alguém esperando, \ você e eu conversamos levemente sobre beisebol \ e nos separamos à tarde\ “Aqui” você diz e me entrega o anel \ “Obrigado” eu digo e pego \ como se fosse um doce\ Boa noite - \ esse homem que está me deixando \ tira uma foto minha\ Enquanto choro, outro eu \ se maravilha com meu choro - \ silenciosamente, o amor chega ao fim\ Cena de despedida: \ as paixões refrescantes \ explodem um pouco no final? \ Você e eu, sob a lua cheia, \tateando em busca de respostas - \ como um jogo de blefe de cego\ Amanhece em Tóquio; \ em uma máquina de venda automática em um canto da cidade, \ comprando duas latas de Coca-Cola\ Enquanto olho para o céu, isso flutua em minha mente - \ o nome da garota \que provavelmente está se despedindo de você \ Em uma colina a oeste da capital, \ onde estive antes, \ aceno para o Sunshine Building\ Segurando uma margarida no ar, \ com as duas mãos em volta do pescoço, \ pergunto: “Quem você ama mais?”\ A antiga donzela Sano no Chigami: \ a ela foi concedida \ a dor da espera\ Caminhada em câmera lenta, sozinha, \ por esta terra que ostenta a gentil palavra natanezuyu . \ chuva na época do florescimento do estupro\ Cozinho três castanhas \ para fazer um outono para uma - \ lembrando-me do mar distante, e você\ Com a voz baixa para um sussurro, \ a cartomante da calçada confidencia: \ “Vejo sinais de casamento pela frente”\ Noite de outono, querendo um pequeno romance - \ salsa na varanda \ ficando levemente amarelada\ Sobre a mesa \ guardo um pequeno coqueiro \ para minhas manhãs solitárias\ Não vai aliviar meu suspiro, eu sei, \ mas tento fatiar \ o presunto um pouco mais grosso\ De manhã cedo, \ flores de ciclâmen eretas - \ se eu pudesse ver com seus olhos\ Memórias – \ como um pacote de vegetais misturados \ que não devem ser descongelados\ Incapaz de seguir alguém que \ partiu em uma viagem por capricho - \ minha vida continua normalmente\ A maravilha disso - \ um pouco de amor repousa na palma da minha mão \ depois de cruzar o correio aéreo do oceano\ Solidão de estar apaixonado \ em dezembro - \ meu coração impermeável a “Jingle Bells”\ Mesmo vestida como uma boneca antiga, \ parte da lama da vida \ não pode ser escondida\ Para passar um dia sem nada para fazer \ eu jogo um jogo solitário: \ ‘fingir que espero alguém’\ Que voz triste e chorosa é essa? \ Vire e veja \ o vapor subindo da panela de arroz\ Mil novecentos e oitenta e cinco, o ano em que me \ apaixonei, \ chega ao fim - \ no meu quarto, só eu e minha dieffenbachia\ “Os açafrões acabaram” \ De repente tenho vontade de escrever uma carta \ abrindo com essas palavras\ Olhando para um cartão postal \ de um país de cores primárias – \ como a continuação de um sonho\ No terraço, vermelho com o nascer do sol, \ a samambaia abre novas folhas \ para marcar a chegada da primavera\ Na minha mesa, um aroma de café tão rico – \ pensar em viver \ só com amor! Poema da escritora e tradutora japonesa Machi Tawara. Veja mais aqui.

 

GESTÃO CULTURAL  - Tratar da temática acerca da gestão & produção cultural requer uma abordagem acerca de uma diversa rede de assuntos, que devem considerar o laboratório de criatividade e cultura, as políticas culturais, a economia da cultura, a comunicação e marketing para projetos culturais, a oficina de projetos com seu planejamento e desenvolvimento, a situação do fomento à cultura no Brasil – parâmetros legislativos e práticas jurídicas, gestão de equipamentos e bens culturais, as perspectivas críticas da cultura brasileira, a ética na perspectiva da gestão cultural, entre outros. Um referencial básico oriundo de leituras e estudos podem ser definidos na relação abaixo.

REFERÊNCIAS

AVELAR, R. O avesso da cena: notas sobre produção e gestão cultural. Belo Horizonte: Duo Editorial, 2008.

BARROS, J.; OLIVEIRA JÚNIOR, J. Pensar e agir com a cultura: desafios da gestão cultural. Belo Horizonte: Observatório da Diversidade Cultural, 2011

BRANT, L. Políticas culturais. Porto Alegre: Manole, 2002.

CESNIK, F.; MALGODI, M. Projetos Culturais: elaboração, administração. Aspectos legais e busca de patrocínio. São Paulo: Escrituras, 2001.

CHAUI, M. Cidadania cultural: o direito à cultura. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006

COELHO, J. O que é ação cultural. São Paulo, SP: Brasiliense, 2001.

COUTINHO, C. N. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre ideias e formas. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

DAGNINO, Evelina ticas Culturais, Democracia e Projeto Neoliberal. Revista Dossiê Nacional. Rio de Janeiro, 2005.

LEITÃO, C. Gestão cultural: significados e dilemas da contemporaneidade. Fortaleza: Banco do Nordeste, 2003.

MANITO, F. Cultura e estratégia de cidade. CIDEU, Barcelona, 2007

MILLER, T.; YÚDICE, G. Política cultural. Barcelona: Gedisa, 2004.

OLIVIERI, C.; NATALE, E. Guia Brasileiro de Produção Cultural – 2010-2011. São Paulo: Sesc, 2010.

RUBIM, A. A. C.; BARBALHO, A. (org.). Políticas culturais no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2007.

THIRY-CHERQUES, H. Projetos culturais: técnicas de modelagem. Rio de Janeiro: FGV, 2008.

VARGAS, R. Gerenciamento de Projetos. São Paulo: Brasport, 2002.

 

OUTRAS DIC’ARTES

 


INSTINTO - O filme Instinto (Instint), lançado em 1999, com direção de Jon Turteltaub baseado no romance filosófico Ismael, um romance da condição humana, de Daniel Quinn, conta a história das viagens do antropologista Dr. Ethan Powell, vivido pelo ator Anthony Hopkins, para pesquisa em Uganda, no continente africano, onde, ao conviver com gorilas renunciou aos estudos, anotação e pesquisa de campo, passando a experimentar a vida entre os antropoides. Desse convívio passou a defender e ser defendido, quando, ao proteger o bando, ele é preso por haver matando três homens e ferido outros dois. De volta ao seu país de origem, o cientista passa a ser analisado pelo Dr. Theo Calder, encarnado pelo ator Cuba Gooding Junior numa prisão de criminosos psicopatas. 



ISMAEL, UM ROMANCE DA CONDIÇÃO HUMANA – Já havia lido o livro escrito por Daniel Quinn, lançado em 1992. Quando assisti ao filme, não demorei muito para associar uma coisa à outra. O ponto convergente aparece logo no começo: “Professor procura aluno, deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente”. O encontro entre aluno e professor acontecerá para a realização de um diálogo socrático de forma telepática: Ismael é um gorila. No desenrolar, aparecem pegadores, largadores, o homem, os deuses, o mundo, o desejo do paraíso, a queda do homem, a humanidade sem saber como viver, a iminência da extinção humana. Ambos, livro e filme, deixam uma mensagem sumamente importante para melhor entendimento da vida humana.

A FÍSICA HOLÍSTICA DE FRITJOF CAPRA - [...] Quanto mais estudamos os problemas sociais do nosso tempo, mais nos apercebemos de que a visão mecanicista do mundo e o sistema de valores que lhe está associado geraram tecnologia, instituições e estilos de vida profundamente patológicos. [...] Eu vi cascatas de energia descendo do espaço exterior, nas quais as partículas eram criadas e desfeitas em pulsações rítmicas, eu vi os átomos dos elementos e os átomos de meu corpo participando dessa dança cósmica de energia; eu senti seu ritmo e ouvi seu som; e naquele momento, eu sabia que era a Dança de Shiva. [...] Considero a ciência e o misticismo como manifestações complementares da mente humana, de suas faculdades racionais e intuitivas. O físico moderno experimenta o mundo através de uma extrema especialização da mente racional; o místico, através de uma extrema especialização da mente intuitiva. As duas abordagens são inteiramente diferentes e envolvem muito mais que uma determinada visão do mundo físico. Entretanto, são complementares, como aprendemos a dizer em Física. Nenhuma pode ser compreendida sem a outra; nenhuma pode ser reduzida à outra. Ambas são necessárias, suplementando-se mutuamente para uma compreensão mais abrangente do mundo. Parafraseando um antigo provérbio chinês, os míticos compreendem as raízes do Tao mas não os seus ramos; os cientistas compreendem seus ramos mas não suas raízes. A ciência não necessita do misticismo e este não necessita daquela; o homem, contudo, necessidade de ambos. [...] A estreita relação entre a psicanálise e a física clássica torna-se flagrantemente obvia quando consideramos os quatro conjuntos de conceitos que formam a base da mecânica newtoniana: 1 Os conceitos de espaço e tempo absolutos, e os objetos materiais separados, movendo-se nesse espaço e interagindo mecanicamente; 2 O conceito de forças fundamentais, essencialmente diferentes da matéria; 3 O conceito de leis fundamentais que descrevem o movimento e as interações mútuas dos objetos materiais em termos de relações quantitativas. 4 o rigoroso conceito de determinismo e a noção de uma descrição objetiva da natureza, baseada na divisão cartesiana entre matéria e mente. O PONTO DE MUTAÇÃO – O livro O ponto de mutação: a ciência, a sociologia e a cultura emergente, do físico, escritor e teórico de sistemas austríaco Fritjof Capra, aborda temas como crise e transformação, a inversão da situação, os dois paradigmas, a máquina do mundo newtoniana, a nova física, a influência do pensamento carteriano-newtoniano, a concepção mecanicista da vida, o modelo biomédico, a psicologia newtoniana, o impasse da economia, o lado sombrio do crescimento, a nova visão da realidade, a concepção sistêmica da vida, holismo e saúde, jornadas além do espaço e do tempo, a passagem para a idade solar, entre outros temas. O TAO DA FÍSICA – O livro O Tao da Física: uma exploração dos paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental, de Fritjof Capra trata dos caminhos da física, o conhecimento e a observação, linguagem, a nova física, o caminho do misticismo oriental, o hinduísmo, o budismo, o pensamento chinês, o taoismo, o zen, os paralelos entre a física e o misticismo oriental, a simetria dos quarcks, padrões de mudança, entre outros assuntos. A TEIA DA VIDA – A obra A teia da vida: uma nova concepção científica dos sistemas vivos, de Fritjof Capra, trata da ecologia profunda e novo paradigma, ascensão do pensamento sistêmico, das partes para o todo, teorias sistêmicas, a lógica da mente, os modelos de auto-organização, a matemática da complexidade, a natureza da vida, estruturas dissipativas, autocriação, o desdobramento da vida, criando um jundo, entre outros assuntos. Veja mais aquiaquiaqui.

REFERÊNCIA
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física: uma exploração dos paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental. Lisboa: Presença, 1989.
______. O ponto de mutação: a ciência, a sociologia e a cultura emergente. São Paulo: Cultrix, 1993.
______. A teia da vida: uma nova concepção científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.


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sexta-feira, julho 18, 2014

LEHTE HAINSALU, ARINACCHI, DONELLA MEADOWS, MADAME DE LA FAYETTE, RENATO JANINE & XEXÉU


 

CÉU CAETÉ DE TUPÃ - “Os pássaros guardam entre nós alguma coisa do canto da criação”. Saint-John Perse. - O canto e o voo, toda minha vida. O canto do voo, voar a cantar: sou japim pela brisa como se pairasse sobre as águas primordiais. Antes não havia nada. Ao abrir meus olhos pela primeira vez: Tupã sorria e tudo passou a existir. Ele então me contou como tudo aconteceu. Contava e tudo eu via! A terra era o céu. Tudo era céu no meu solfejo. Piava com espanto: é que depois do som, um tom: silvos e assovios, trinados e gorjeios, quantos estalidos & Néstogas - o verbo cantava. E pulsava - fusas, mínimas e colcheias nas águas da correnteza, no vento das folhas, chuva na relva, poeira da brisa nas pedras, no desabrochar colorido das flores, nas ondas dos mares e marés. Havia um respirado buliçoso, seres e coisas dançavam. Eu também dançava e podia viver pelas paragens celestiais até testemunhar o caos primordial, enquanto Hoen-Tsin crescia a cada dia até se tornar grande demais para o universo e morreu. Dele brotou um ovo enorme que o vi quebrar: diante de mim estava P'an-ku que acabava de nascer: livrou-se das cascas do próprio ovo e selou seu nascimento quando o yang formou o céu e o ying a terra. P'an-ku estava entre os giros de nadas e tudo. O seu corpo se transformava nove vezes ao dia e sua cabeça apoiava o céu e seus pés estabilizavam a terra. Foi assim que o céu e a terra se separaram. Havia ali junto outro ovo e era a Grande Grasnadora. Eu vi. E passaram a um convívio íntimo. Deles nasceu Bennu com sua coroa branca sobre a cabeça repleta de plumas coroadas, repousando sobre a pedra Benben, o primeiro pedaço de terra emersa das águas primordiais de Nun. Do outro lado, na fonte de abundantes águas estava a Simorgh, a fabulosa criatura alada, que possui o conhecimento de todas as eras e purifica as águas e o chão da Terra. Sua determinação era uma só: manter a união da Terra com céu. Outra vez a Simorgh passou carregando um elefante para a Árvore da Vida, pelo mar de Vourukhasa. Ao se livrar do pesado animal, amamentou seu filhote. E ela era como se fosse um pavão gigante com penas da cor de cobre, ora com feição humana, ora como um cão com garras de leão. Ao ver-me disse que já presenciou a destruição do mundo por mais de três vezes e, a cada mil e setecentos anos, ela mergulha nas chamas e desaparece até ressuscitar. Doutra feita lá ia a Simorgh e levava uma baleia para o mesmo local onde deixou o elefante. Depois voava sacudindo as folhas de tudo-cura, cujas sementes flutuavam nos ventos de Vayu-Vata, ao redor do mundo, provocando as chuvas de Tishtrya para curar as enfermidades da humanidade. Não sei quantas vezes ela aparecia atacando cobras, só interrompendo para dar atenção às trinta poupas que procuravam por um rei entre elas ou quando se dirigia para amamentar seus filhotes. Para as poupas apenas disse que se quisessem tornar uma delas num rei, teriam de atravessar os vales de Talab, de Eshq, de Marifat, de Istighanah, de Tawhid, de Hayrat, de Fuqur e Fana, até chegarem ao Monte Qaf. E repetiu: atravessar os vales... E mais uma vez disse: atravessar os vales... Enfim, finalizou: Chegando lá é que terão a ciência de quem o eleito. Entenderam? Eles anuíram em silêncio e ela saiu sem mais nada dizer. As poupas em revoada. Não muito longe dali a Fênix entre labaredas: estava em combustão antes de morrer. Minha nossa! Ela estava mesmo pegando fogo. Como é que pode? Cheguei tarde para ver-lhe majestosa. Aquietei-me e fiquei espiando aquele estranho evento. Vi-lhe reduzida às cinzas. Não demorou muito e, aos poucos, numa ventania a poeira subiu e, aos poucos pude constatar: ela renascia. Tomava corpo e logo estava edificada na sua imponência. Completamente refeita ela aproximou-se e me fez um convite para a dança de Kinnaris na floresta Himavanta. Hem? Vamos! Aceitei e quando chegamos lá vi uma criatura que era metade mulher e metade ave: possuía a cabeça, torço e braços de mulher; também asas, cauda e pernas de cisne; e entoava poesias e canções. Com os seus meneios, logo chegou ali o Kinnara, oriundo dos Himalaias, para completar a música celestial. O casal cantante era benevolente e velava pelo bem-estar do universo em tempos de perigo ou tumulto. Ali fiquei embalado e nem percebi que a Fênix acompanhava satisfeita aquela poética apresentação. Com o término do imenso cantarau, ambos fizeram uma mesura elegante e agradeceram a nossa atenção. Aplaudimos efusivamente. Uma cortina de nuvem cobriu o palco e eu vi a Fênix com os olhos rasos d’água. Fitou-me, abraçou-me e se despediu com um aceno. Fiquei um tempo ali um tanto embevecido com tudo que fora encenado, até lembrar-me de retornar aos aposentos de Tupã. No caminho de volta, eis que presencio os últimos estertores de P’an-ku. Sim, ele morreu e sua respiração tornou-se o vento e as nuvens, sua voz o trovão, seus olhos o Sol e a Lua, seus membros os quatro cantos da terra, o seu sangue os rios, sua carne o solo, seu cabelo e barba as constelações, sua pele e pelos as plantas e árvores, seus dentes e ossos os metais e pedras, sua medula o ouro e seu suor a chuva. Os parasitas do seu corpo tornaram-se seres humanos. Com o meu regresso Tupã mostrou-me a noite no coco de tucumã com todos os seus bichos. Ouvi atento e sabia: a noite deve ser linda. Sim. Logo ele me chamou a atenção para outra coisa e me ensinou que se cansasse da escuridão era só olhar do lado para ver o voo do cajubi anunciando o dia com o Sol descendo até o chão do seu reinado sobre tudo e todas as coisas. Foi assim: a manhã vivia no coco de cajubi, guardado pelo urubu-rei que morava num buraco vermelho da Via Láctea. Um susto com a chegada do urubu-branco, sem querer, quebrou-se o coco e surgiu a alvorada. A partir de então reinava o dia e, com ele, Mbud-ti que logo desceu até a Terra e admirou-se com tudo, muito feliz pelas maravilhas. Dias se passaram e se sentiu sozinho. Toda manhãzinha e convém lembrar: a vida nos olhos de todas as manhãs, o direito de viver e deixar viver. Tudo o mais era o espetáculo do amor, o sumo da existência. Não havia como olvidar de nada, porque ali era como se eu vivesse com todos e ouvisse tudo. No entardecer era a vez de abrir o coco de tucumã e lá surgia a Lua com o séquito de estrelas e astros luminosos para trazer a chuva boa e regar as plantas esturricadas e adubar a terra para plantar e colher no pitéu toda mandioca, banana, jerimum, inhames e carás, fartando os potes e enchendo as malocas. A noite adormecia no fundo das águas, no coco do tucumã, guardado pela Cobra Grande e Azã gritando tati para acordá-la na vigilância. Mbud-ti não suportava o seu isolamento e queria a noite para dormir. Aproveitou-se do cochilo dos vigias e levou consigo o coco que fazia um barulhinho: tem, tem, tem - eram os grilos, corujas, rãs, sapinhos, urutaus, morcegos e todos os seres noturnos. Espicaçava a curiosidade, ansiava por libertar a noite daquela prisão. Tomando distância bateu com ele na quina duma pedra e, ao se quebrar, a noite apareceu com seu silêncio e trevas, bichos e coisas. Tudo se transformou na escuridão. Aracuã, Jacupeba, Urutau, antes homens, tornaram-se pássaros noturnos. Tudo era bonito de se ver. Tupã dormia com meu cantar. Ao despertar ele logo partia para as providências, ocasião em que eu estava livre para gozar da infinita imensidão o dia todo até de tardezinha, na boquinha da noite. Assim, depois que o sereno imperava entre as sombras, Mbud-ti viu pela primeira vez a sonâmbula Mbudu-vri-re, a linda e nua Capéi, vagando sem rumo. Saiu ele a toda carreira na direção dela, mas ela desapareceu repentinamente. Cadê-la? Num estava aqui indagorinha? Oxe! Prondela foi? Caçou pelos cantos, atravessou umbrais e nada de sinal dela. Não desistia e mais insistia: seus passos seguiram para longe no encalço da bela desaparecida. Mais tarde, então, Capéi acordou desnuda e a sua brancura alumiava tudo, regulando as marés e a germinação das sementes, o brilho das pedras, o fluxo das mulheres, o nascimento das crianças e bichos. Lá longe ela viu um belo vulto e era Mbud-ti que rondava. Assustada, escondeu-se numa moita. Ele passou tristemente de volta, procurando-a, sem que pudesse vê-la escondida. Ela viu melhor aquele por quem seu coração palpitou de amor no primeiro instante. E ao segui-lo, não mais conseguiu encontrá-lo. Havia sumido. Eita! Cadê-lo? Outro desencontro. O solitário coração de Mbud-ti tremia de paixão, levando-o a vagar por dias e noites à procura das pegadas da amada. O dela, também, entregue de amor por aquele que apenas viu passar. Aí, depois de muita busca e espera, deu-se um eclipse. Ah, encontraram-se pela primeira vez de verdade e suspiraram apaixonados. Até que enfim. Mas... Apesar da curta duração do evento, eles ansiaram por outro reencontro. Contudo, havia um problema a ser resolvido: como não conciliavam o tempo e o espaço, abateu-se uma grande tristeza nos enamorados. Durante o dia Mbud-ti perseguia de leste a oeste tentando reencontrá-la. E, por toda noite, Capéi sonhava com a chegada do seu amado. Os solitários cumpriam a sua sina. Logo as estrelas vieram consolar Capéi que lamentava a dura sorte, sempre cheia ou nova com as lembranças dos momentos com o seu amado, crescente ou minguante quando entristecida com sua ausência. Deu-se, então, muito tempo depois, um novo eclipse e puderam namorar: ele abraçou-a, deitou-se sobrecarregado de beijos sobre a sua alvura, envolveu-a com a chama do seu arrebatado desejo e se amaram com êxtase. Neste momento todos os seres do universo cantaram para alegria deles. Com o prazer de seus corpos foram elevados aos céus para o eterno amor entre o Sol e a Lua. Quem a este espetáculo assistiu regozijava como eu ali admirando o enlace dias e noites, noites e dias. Até eu cantava junto aos tangarás dançantes para festejá-los. Todavia, tinha compromissos inadiáveis: era a hora de Tupã repousar, os deixei com a chegada de vagalumes e pirilampos. Outro dia raiou porque Zhuque apareceu seguindo pela constelação do fogo em direção ao sul com o fito de buscar o verão. Era um faisão admirável, vez que reluzia com os seus cinco tons de vermelho coberto de chamas. Acenei pela sua passagem e me ocupei de embalar o banho de sol matinal de Selenita no topo de um vulcão lunar, enquanto lá longe Kalavinka pregava o Dharma com sua bela voz, cabeça humana, tronco de pássaro, cauda longa e esvoaçante. Agora mesmo me ocorreu da vez que Kalavinka me contou sobre a morte do velhíssimo abutre Jatayu. Coisa triste de lembrar: é que o vetusto, certa feita, tentou capturar Ravana quando este raptava Sita. Por causa disso teve suas asas cortadas na contenda. Entretanto, como era devoto de Vixnu, ele deixou escapar a mão de Hamsá, um amuleto de múltiplas proteções, sorte e fortuna, um símbolo de paz e esperança. E Kalavinka me deu este amuleto para que eu levasse e entregasse à deusa-égua Rhiannon, a divina rainha das fadas, deusa da lua e dos pássaros, dos encantamentos, da fertilidade e do submundo. A rainha vivia no Mabinogi de Pwyll, onde mantinha cuidadosamente vários pássaros que acordavam os mortos e adormeciam os vivos, com a suavidade de sua música. Entreguei-lhe o amuleto mandado e ela me sorriu em festa, ofertando a sua hospitalidade para sempre. Ali entretido com tudo o que acontecia, quase não ouvia Tupã me chamar para aplacar uma peste entre os caetés. Eita! Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - O mundo é um sistema complexo, interligado, finito, ecológico - social - psicológico - econômico. Nós o tratamos como se não existisse, como se fosse divisível, separável, simples e infinito. Os nossos problemas globais persistentes e intratáveis surgem diretamente deste desfasamento. O recurso mais escasso não é o petróleo, os metais, o ar puro, o capital, o trabalho ou a tecnologia. É a nossa disposição de ouvir uns aos outros e aprender uns com os outros e de buscar a verdade em vez de procurar estar certo... Pensamento da cientista ambiental, professora e escritora estadunidense Donella Meadows (1941-2001). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU - Se alguém pensa que é feliz, isso é suficiente para ser feliz... Levo comigo apenas o tempo bom e meus filhos, que é o quanto eu quero. Somos muito fracos quando estamos apaixonados... Pensamento da escritora francesa Madame de La Fayette (Marie-Madeleine Pioche de La Vergne, 1634-1693).

 

CULTURA – [...] Antigamente, a cultura era um bem, algo que se adquiria, se acumulava, se investia, se multiplicava. Um homem "de cultura" era alguém que, de posse desse capital ou cabedal, se credenciava a ocupar determinado lugar na hierarquia da sociedade.  Essa ideia perdeu quase toda a sua legitimidade, embora ainda persista em alguns meios. Não vale mais de direito, embora continue funcionando, um pouco, de fato. Porque cada vez consideramos menos aceitável utilizar a cultura como gazua na luta por posições sociais. Digamos que a cultura deixou de ser uma res, uma coisa, um bem, uma propriedade - e que se vai tornando uma postura, uma experiência, uma atitude. [...]. Trecho extraído da obra Unicultura (UFJRGS, 2002), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro. Veja mais aqui.

 

SIGNIFICADO DA VIDA - [...] Se... se você não sente nada por mim, então não me toque! Não aja como se você se importasse! [...] Eu gostei dela... eu realmente gostei dela. Eu queria protegê-la. Aproximei-me dela de uma maneira gentil e brincalhona, porque ela é tão preciosa e eu queria segurá-la em meus braços porque ela é tão despreocupada. Ela era meu tesouro [...]. Trecho extraído da publicação I.O.N (Viz Media, 2008), da escritora e ilustradora japonesa Arina Tanemura, muito conhecida como Arinacchi, autora de frases como: Você descobriu o significado da sua vida? 'Sim. Eu finalmente descobri. É encontrar algo mais importante para mim do que minha própria vida. Encontrar algo mais importante para nós do que nossas próprias vidas é a razão pela qual todos nascemos. Todos nós recebemos uma vida dentro de nós. E Deus quer que usemos essa vida para iniciar uma jornada ao longo da vida para encontrar algo que seja mais importante para nós do que nós mesmos.

 

JUNTO À LAREIRA - Estou sentado perto da lareira \ É aconchegante e aconchegante.\ E desperta pensamentos sonolentos\ esse calor na sala.\ O vento sussurra fora das janelas, \ ali a nevasca uiva e acena.\ E me convida, me convida junto\ sua voz lisonjeira e terrível.\ Uma vez antes eu tinha uma lareira\ Bati no peito com uma rajada de vento.\ Mas da lareira acesa\ você não se deixa levar tão facilmente.\ Por que você me mantém em uma prisão sonolenta?\ calor ambiente?\ Por que manter muitos na prisão \ calor ambiente?\ Por que nos permitimos ser mantidos em cativeiro? \ Por que estamos felizes na prisão? \Estou sentado perto da lareira. \ Não é aconchegante, não é aconchegante. Poema da escritora estoniana  Lehte Hainsalu.

 

YEVGENY YEVTUSHENKO – O escritor, ator e realizador de cinema russo Yevgeny Yevtushenko, escreveu esse belíssimo poema traduzido por Pedro Calouste: “As fronteiras oprimem-me, Sinto-o estranho, Não conhecer Buenos Aires, Nova Iorque. Quero vaguear o quanto me aprouver Em Londres, falar ainda que interruptamente, com todos. Trazemos também o poema Memento, traduzido por Rafael Leal: “Tal qual um lembrete dessa vida de bondes, sol, papagaios, o descontrole inconstante de correntes que fazem saltarem termômetros, e porque patos vão grasnar em outro lugar sobre o último gelo, fino como papel, e porque crianças choram com amargura (lembra-te a vida das crianças é tão doce!) e porque sob a luz ébria e cintilante das estrelas a lua nova abre espaço, e uma meia esgarça um pouco na altura do joelho, ouro em si, tingido pelo sol, tal qual um lembrete da vida, e porque há resina em troncos de árvores e porque me enganei loucamente pensando que minha vida tinha acabado, tal qual um lembrete da minha vida - tu entraste em mim pisando de meias. Tu entraste - nem muito cedo, nem muito tarde - exatamente no momento certo, o meu momento próprio, e com um sorriso, arrancaste-me das memórias como quem arranca de um túmulo. E eu, outra vez girando em meio a cavalos pintados, troco contente por um lembrete da vida, todas suas memórias. Veja mais aqui.

Imagem: Étude pour le portrait de la marquise Madeleine Thérèse Euphrasie de Marillac, marquise d’Ecquevilly et de ses trois enfants, do pintor francês Hyacinthe Rigaud (1659-1743)



Ouvindo: Concerto para piano nº 2, op. 18, de Rachmaninoff, com o pianista angolano Segueira Costa.

CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE, DE SIGMUND FREUD - [...] os histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências especiais (traumáticas). [...] os histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, corno ainda se prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente. [...] Tinha-se de admitir que a doença se instalava porque a emoção desenvolvida nas situações patogênicas não podia ter exteriorização normal; e que a essência da moléstia consistia na atual utilização anormal das emoções "enlatadas". Em parte ficavam estas como carga contínua da vida psíquica e fonte permanente de excitação para a mesma; em parte se desviavam para insólitas inervações e inibições somáticas, que se apresentavam como os sintomas físicos do caso. Para este último mecanismo propusemos o nome de "conversão histérica". Demais, uma certa parte de nossas excitações psíquicas é conduzida normalmente para a inervação somática, constituindo aquilo que conhecemos por "expressão das emoções". A conversão histérica exagera então essa parte da descarga de um processo mental catexizado emocionalmente; ela representa uma expressão mais intensa das emoções, conduzida por nova via. [...] a histeria é uma forma de alteração degenerativa do sistema nervoso, que se manifesta pela fraqueza congênita do poder de síntese psíquica. [...] Nesta ideia de resistência alicercei então minha concepção acerca dos processos psíquicos na histeria. Para o restabelecimento do doente mostrou-se indispensável suprimir estas resistências. Partindo do mecanismo da cura, podia-se formar idéia muito precisa da gênese da doença. As mesmas forças que hoje, como resistência, se opõem a que o esquecido volte à consciência deveriam ser as que antes tinham agido, expulsando da consciência os acidentes patogênicos correspondentes. A esse processo, por mim formulado, dei o nome de repressão e julguei-o demonstrado pela presença inegável da resistência. [...] A aceitação do impulso desejoso incompatível ou o prolongamento do conflito teriam despertado intenso desprazer; a repressão evitava o desprazer, revelando-se desse modo um meio de proteção da personalidade psíquica. [...] Mas o impulso desejoso continua a existir no inconsciente à espreita de oportunidade para se revelar, concebe a formação de um substituto do reprimido, disfarçado e irreconhecível, para lançar à consciência, substituto ao qual logo se liga a mesma sensação de desprazer que se julgava evitada pela repressão. Esta substituição da ideia reprimida — o sintoma — é protegida contra as forças defensivas do ego e em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável. No sintoma, a par dos sinais do disfarce, podem reconhecer-se traços de semelhança com a idéia primitivamente reprimida. Pelo tratamento psicanalítico desvenda-se o trajeto ao longo do qual se realizou a substituição, e para a recuperação é necessário que o sintoma seja reconduzido pelo mesmo caminho até a ideia reprimida. [...] Ou a personalidade do doente se convence de que repelira sem razão o desejo e consente em aceitá-lo total ou parcialmente, ou este mesmo desejo é dirigido para um alvo irrepreensível e mais elevado (o que se chama "sublimação" do desejo), ou, finalmente, reconhece como justa a repulsa. Nesta última hipótese o mecanismo da repressão, automático por isso mesmo insuficiente, é substituído por um julgamento de condenação com a ajuda das mais altas funções mentais do homem — o controle consciente do desejo é atingido. [...] Duas forças antagônicas atuavam no doente; de um lado, o esforço refletido para trazer à consciência o que jazia deslembrado no inconsciente; de outro lado a resistência, já nossa conhecida, impedindo a passagem para o consciente do elemento reprimido ou dos derivados deste. [...] O pensamento devia comportar-se em relação ao elemento reprimido com uma alusão, como uma representação do mesmo por meio de palavras indiretas. Conhecemos, no domínio da vida psíquica normal, exemplos em que situações análogas às que admitimos produzem resultados semelhantes. É o caso do chiste. O problema da técnica psicanalítica forçou-me a estudar o mecanismo da formação das pilhérias. Quero expor-lhes apenas um desses exemplos, aliás uma anedota da língua inglesa. Diz a anedota:16 Por uma série de empresas duvidosas, dois comerciantes tinham conseguido reunir grandes cabedais e esforçavam-se para penetrar na boa sociedade. Entre outros, pareceu-lhes um meio conveniente fazerem-se retratar pelo pintor mais notável e mais careiro da cidade, cujo quadro fosse um acontecimento. Numa grande reunião foram inaugurados os custosíssimos quadros, um ao lado do outro, e os dois proprietários conduziram até a parede o mais influente crítico de arte a fim de obterem o valioso julgamento. O crítico examinou longamente o quadro, sacudiu a cabeça como se achasse falta de alguma coisa e perguntou apenas, indicando o espaço entre os dois quadros: "But where’s the Saviour?"17 (Mas onde está o Redentor?) Vejo que todos se riem da boa pilhéria; penetramo-lhes agora a significação. Os presentes compreendem que o crítico queria dizer: vocês são dois patifes como aqueles que ladearam o Cristo crucificado. Mas não o disse; em lugar disso exprimiu coisa que à primeira vista parece extraordinariamente abstrusa e fora de propósito, mas que logo depois reconhecemos como uma alusão à injúria que lhe estava no íntimo, e que vale perfeitamente como substituto dela. Não podemos esperar que numa anedota sejam encontradas todas as circunstâncias que pressupomos na gênese das idéias associadas dos nossos doentes; queremos todavia realçar a identidade de motivação para a anedota e para a ideia. Por que é que o nosso crítico não lhes falou claramente? Porque nele outras razões contrárias também atuavam ao lado do ímpeto de dizê-lo francamente, face a face. Não deixa de ser perigoso desfeitear pessoas de que somos hóspedes e que dispõem de criadagem numerosa, de pulsos vigorosos. A sorte poderia ser a mesma que na conferência anterior serviu de exemplo para a repressão. Por tal razão o crítico atirou indiretamente a ofensa que estava ruminando, transfigurando-a numa "alusão com desabafo". É, a nosso ver, devido à mesma constelação que o paciente produz uma ideia de substituição, mais ou menos distorcida, em lugar do elemento esquecido que procuramos. [...] O modo de proceder dos doentes em nada facilita o reconhecimento da justeza da tese a que estamos aludindo. Em vez de nos fornecerem prontamente informações sobre a sua vida sexual, procuram por todos os meios ocultá-la. Em matéria sexual os homens são em geral insinceros. Não expõem a sua sexualidade francamente; saem recobertos de espesso manto, tecido de mentiras, para se resguardarem, como se reinasse um temporal terrível no mundo da sexualidade. E não deixam de ter razão; o sol e o ar em nosso mundo civilizado não são realmente favoráveis à atividade sexual. Com efeito, nenhum de nós pode manifestar o seu erotismo francamente à turba. [...] A propensão à neurose deve provir por outra maneira de uma perturbação do desenvolvimento sexual. As neuroses são para as perversões o que o negativo é para o positivo. Como nas perversões, evidenciam-se nelas os mesmos componentes instintivos que mantêm os complexos e são os formadores de sintomas; mas aqui eles agem do inconsciente, onde puderam firmar-se apesar da repressão sofrida. A psicanálise nos mostra que a manifestação excessivamente intensa e prematura desses impulsos conduz a uma espécie de fixação parcial — ponto fraco na estrutura da função sexual. Se o exercício da capacidade genética normal encontra no adulto um obstáculo, rompe-se a repressão da fase do desenvolvimento justamente naquele ponto em que se deu a fixação infantil. [...] A literatura alemã conhece um vilarejo chamado Schilda, de cujos habitantes se contam todas as espertezas possíveis. Dizem que possuíam eles um cavalo com cuja força e trabalho estavam satisfeitíssimos. Uma só coisa lamentavam: consumia aveia demais e esta era cara. Resolveram tirá-lo pouco a pouco desse mau costume, diminuindo a ração de alguns grãos diariamente, até acostumá-lo à abstinência completa. Durante certo tempo tudo correu magnificamente; o cavalo já estava comendo apenas um grãozinho e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum. No outro dia amanheceu morto o pérfido animal; e os cidadãos de Schilda não sabiam explicar por quê. Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de animal algum [...]. CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE – A obra Cinco lições de psicanálise, de Sigmund Freud, é o resultado de pronunciamentos efetuados por ocasião das comemorações do vigésimo aniversário da Fundação da Clark University, Worcester, Massachusetts, em setembro de 1909, tratando de temas como a histeria, trauma psíquico, método catártico, repressão, resistência, sublimação, catexia, associação livre, conteúdo manifesto e latente, condensação, deslocamento, ato falho, auto-erotismo, zona erógena, Complexo de Édipo, libido, sadomasoquismo, sexualidade infantil e a história da construção do pensamento psicanalítico. Veja mais aquiaqui.

REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Cinco lições de psicanálise. São Paulo: Abril Cultural, 1978.


LEILAH ASSUMPÇÃO – A dramaturga e pedagoga Leilah Assumpção surgiu no final dos 1960 com a sua premiada peça teatral Fala baixo senão eu grito, contando a história de uma solteirona cheia de frustrações e recalques que realiza uma viagem levada por um homem que invade seu quarto. A partir de então, torna-se autora de uma série de peças teatrais que abordam sobre o tema da mulher e sua situação na sociedade, explorando a questão feminina e criticando o dinheiro e as aparências da sociedade moderna capitalista. Entre entras destacamos as peças teatrais Kuka de Kamaiorá, Boca molhada de paixão calada, Lua Nua e Intimidade indecente. A respeito dela, a poeta e dramaturga Renata Pallotini diz: “Leilah Assumpção inventou uma nova forma de por em cena teatral suas intuições, descobertas e experiências: inovou de tal maneira a Dramaturgia em sua geração que se tornou a introdutora de um diálogo inusitado e de personagens inéditos. Nada mais seria necessário para o reconhecimento de uma autora absolutamente original e única". Veja mais aqui.



AILSON CAMPOS – Natural da terra de Alceu Valença, o cantor, compositor, poeta e graduado em Letras pela Fabeja, José Ailson Campos de Souza, ou simplesmente Ailson Campos, é herdeiro de uma família de músicos. Ele é um dos idealizadores do projeto Recordando São Bento, do qual resultou na gravação de seis CDs e dois DVDs. É autor dos livros de poesias Horas Vivas (1999), Eu comigo (2004), Das mais doces lembranças (2008) e Da vida do tempo (2009). Hoje ele aniversaria em meio aos versos e tons de suas composições poéticas e musicais, motivo pelo qual homenageamos com o nosso desejo de felicidades e sucesso.


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