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domingo, novembro 05, 2017

LAFCADIO HEARN, JOAN DIDION, FEDERICO FELLINI, ERNST BLOCH, BERTRAND TAVERNIER, CIDADE, CULTURA, LITERÓTICA & ARTERÓTICA

A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). Veja mais aqui.

LITERÓTICA: NOSSA FESTA - Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, eu bato meu ponto pro que der e vier. Meio dia em ponto, toda sexta-feira eu chego já pronto e o que é o que é. E ela vem de viés com toda surpresa, rompendo a represa de querer mais. É tudo demais e ela só me fascina, jóia excepcional, uma real mina, bailarina de Degas. Ou nua vestal, dançarina de fuá. E eu sentimental com toda destreza arrasto essa presa, astuta indefesa do pito voar. E para empenar tomo a pele e o pulso, a deixo em soluço a gemer de manhar. A se espernear no corpo rendido, eu domino o seu urânio enriquecido pronto pra explodir e eu só pra acudir num bote certeiro, quando vou de matreiro adornar seus quadris. E se faz bela atriz ensaiando sem medo a me ter entre os dedos, a me lamber num enredo de São Paulo a Paris. O que eu sempre quis e me morde abusada, se entope e se engasga entornando o seu mel. Eu adoço seu fel e vou de gandaia com minha azagaia no seu beleléu. Já sou réu condenado a morrer um bocado no meio do céu. Onde ela faz escarcéu, reluta e se esgana, ela goza sacana no maior pitéu. Ao léu a valer, ela não satisfez. E vem tudo de novo pra glória de um rei, ela sabe e eu não sei, o que importa é viver e venha tudo outra vez. OUTRA VEZ: Toda sexta-feira, meio dia em ponto, ela apronta de tudo comigo e pronto! Ela chega e me olha e toda se desfolha para o bem-me-quer. Ela se abre mulher e eu sorrio, ela se rela e vira cadela no cio e me abraça e me beija, e se faz de puta e princesa quando me quer e eu sou sua passarela onde o sangue dá na canela pro que der e vier. Ela ronda, me cheira e me fela, ela usa e lambuza, se descabela e me acusa de só abusar dela. Ela lambe e abocanha, ela vence e me ganha na melhor de três. Ela me agarra medonha, ela me bate uma bronha na maior maciez. Ela chupa e me suga, ela aponta pra fuga e me faz descortês. Ela agita e me alisa, ela grita e repisa que é a última vez. E nem bem recomeça, ela me prega uma peça e posa sisudez. Ela bole, suspira e rebola, ela delira e quase degola a minha rigidez. E se aninha e engalfinha, ela jura que é minha por mais de um mês. Ela assunta e se enrosca, ela se faz mesa posta e eu seu freguês. Ela ajeita e retruca, ela monta mutuca e diz que não fez. Ela esfrega e renega, ela rega e pula a janela da minha timidez. Ela atiça e se esfola, ela então faz escola pela insensatez. Ela aguça e me inflama, ela me queima na chama da sua nudez. Ela se arrisca de fato, ela fica de quatro na maior viuvez. Ela torce e retorce, ela morde, rejeita e se ajeita e nem se refez. Ela goza e remexe, ela arrocha e debocha na maior altivez. Ela treme e me grita e quer sair muito bem nessa fita com toda malvadez. E quando eu gozo espalhafato de folia de bombo. Ela sorri que de fato fui salvo pela zoada do gongo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.


DITOS & DESDITOS - Em vários aspectos, escrever é o ato de dizer Eu, de se impor sobre as outras pessoas, de dizer escute-me, veja pelo meu lado, mude de ideia. É um ato agressivo, até mesmo hostil. Pensamento da escritora e jornalista estadunidense Joan Didion.

ALGUÉM FALOUCinema-verdade? Prefirto o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade. Sempre faço o mesmo filme. Não consigo distinguir um dos outros. Pensamento do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993). Veja mais aqui, aqui e aqui.

HERANÇA DESTE TEMPO – [...] Nem todos estão presentes no mesmo tempo presente. Aparentemente estão porque é possível vê-los aqui e agora. Mas não é só por isso que uns e outros vivem no mesmo tempo. Pelo contrário, alguns possuem um passado que se intromete. [...] Tempos mais antigos que os atuais continuam a viver nas camadas mais antigas [...] “As velhas formas”, dizia ele, colaboram em parte para a novidade, quando elas são bem dispostas. O inimigo viu melhor [...] que essas formas são extremamente eficazes. É tempo de recuperar algumas velhas coisas, a urgência da hora nos ordena. A indolente arrogância com que um Kautsky zombava dos “heróis” ou das “pequenas amostras da mística apocalíptica” e se contentava em ridicularizá-las está ultrapassada, tanto na teoria quanto na prática [...]. Trechos extraídos da obra Herança deste tempo (Payol, 1978), do filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977). Veja mais aqui.

CIDADE: A SEDUÇÃO DO LUGAR – [...] Mesmo com as instituições públicas distanciadas, a sensação da cidade e o seu tecido físico estão sempre presentes para os habitantes e visitantes. Apreciado, visto, tocado, cheirado adentrado, consciente ou inconscientemente, esse tecido é uma representação tangível daquela coisa intangível, a sociedade que ali vive e suas aspirações [...]. Trecho extraído da obra A sedução do lugar (Martins Fontes, 2004), do professor e historiador de arte britânico Joseph Ryckert.

QUANDO TUDO COMEÇA – O filme Quando tudo começa (1999), de Bertrand Tavernier, trata sobre a direção de uma escola pública infantil mutirracional, em uma pequena cidade francesa, com alto índice de desemprego. A situação confronta o cotidiano profissional, refletindo sobre o desempenho e o comportamento dos alunos. Utiliza historias reais relatadas por professores, discutindo problemas de educação, de comunidades excluídas, problemas éticos relacionados à exclusão socioeconômica, participação da comunidade, cidadania e solidariedade.


ARTERÓTICA –A coleção Erótica (Taschen, 2001), reunindo a arte de 17th – 18th Century: from Rembrandt to Fragonard, 19th Century: from Courbet to Gaugin, 20th Century Volume I – From Rodin to Picasso & 20th Volume II – From Dali to Grumb, do historiador e editor de arte francês Giles Néret, reúne a expressão artistica erótica dos séculos XVII ao XX. Veja mais aqui.

PROMESSA QUEBRADA - [...] Nada aconteceu que pudesse perturbar a felicidade da jovem esposa até o sétimo dia após o casamento, quando seu marido foi convocado para executar algumas tarefas que exigiam a presença dele no castelo durante a noite. Na primeira vez que foi obrigado a deixá-la sozinha, ela se sentiu indisposta de um modo que não soube explicar, vagamente assustada sem saber por quê. Quando se deitou, não conseguiu dormir. Podia sentir uma estranha opressão na atmosfera, uma densidade inexplicável, como ocorre algumas vezes nos momentos que precedem uma tempestade. Quase na Hora do Boi, ela ouviu, no lado de fora, um sino tocar, o sino dos peregrinos budistas; e se perguntou que peregrino poderia estar passando pelo bairro do samurai àquelas horas. Logo em seguida, após uma pausa, o sino soou muito mais perto. Com certeza, o peregrino estava se aproximando da casa; mas por que o faria pelos fundos, onde sequer havia uma rua?… De repente, os cães começaram a ganir e uivar de uma maneira incomum e apavorante; e ela sentiu-se tomada pelo medo, como o medo que tinha dos sonhos… Aquele som vinha certamente do jardim… Ela tentou se levantar para acordar um serviçal. No entanto, percebeu que não conseguia se erguer, se mover e nem mesmo falar… E o som do sino mais perto, cada vez mais perto; e, nossa!, como os cães estavam uivando!… Então, ligeira como uma sombra furtiva, uma Mulher entrou no quarto, embora todas as portas estivessem trancadas e todas as janelas fechadas, era uma Mulher vestida numa mortalha , carregando um sino de peregrino. Cega, pois estava morta havia muito tempo, ela se aproximou… e seus cabelos soltos escorriam pelo rosto; e sem visão ela olhou através do emaranhado da sua cabeleira e falou sem a língua: — Você não pode ficar nesta casa! Ainda sou a senhora deste lar. Vá embora; e não diga a ninguém a razão de sua partida. Se contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Dizendo isso, a assombração desapareceu. A nova esposa do samurai ficou entorpecida de medo. E assim permaneceu até o dia raiar. Todavia, com a agradável luz da manhã, ela duvidou da realidade do que tinha visto e ouvido à noite. Entretanto, a lembrança daquela ameaça ainda pesava sobre ela com tanta força, que não ousou falar sobre a visão que tivera, nem com seu marido, nem com ninguém; acabou, porém, quase conseguindo persuadir a si mesma de que tudo havia sido apenas um pesadelo que a deixara indisposta. Na noite seguinte, porém, não teve dúvidas. Novamente, na Hora do Boi, os cães começaram a uivar e ganir; novamente o sino soou, aproximando-se lentamente pelo jardim; novamente ela tentou em vão se levantar e chamar alguém; novamente a falecida entrou no quarto e lhe sussurrou: — Vá embora; e não conte a ninguém o motivo de sua partida! Se você sequer contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Desta vez, a assombração chegou perto da cama, curvou-se sobre ela e murmurou, como se pairasse no ar… Na manhã seguinte, quando o samurai voltou do castelo, sua jovem esposa se prostrou diante dele e suplicou: — Eu imploro — disse ela —, perdoe minha ingratidão e minha extrema rudeza dirigindo-me desta forma a você: mas eu quero voltar para casa; quero ir embora imediatamente. — Você não é feliz aqui? — perguntou ele com sincera surpresa. — Alguém ousou ser indelicado com você na minha ausência? — Não, não é isso — soluçou a moça. — Todos têm sido muito bons co- migo… Mas não posso continuar sendo sua esposa; tenho que ir embora… — Minha querida — exclamou o samurai, incrivelmente espantado —, é muito doloroso saber que alguma coisa nesta casa causou-lhe infelicidade. Mas não posso imaginar um motivo para você ir embora, a menos que alguém tenha sido indelicado contigo… Espero que você não esteja dizendo que pretende se divorciar. Tremendo e chorando, ela respondeu: — Se você não me der o divórcio, morrerei! Ele ficou em silêncio durante um instante, tentando inutilmente descobrir alguma causa para aquela surpreendente declaração. Então, sem demonstrar qualquer emoção, disse: — Deixá-la voltar para sua família, sem nenhuma falha da sua parte, seria um ato vergonhoso. Se você me der uma boa razão para esta sua vontade, qualquer razão que me permita explicar honrosamente o que houve, eu concederei o divórcio. Mas, a menos que me dê uma razão, uma boa razão, você não terá o divórcio, pois a honra deste lar deve ser mantida acima de qualquer opróbrio. E assim ela se sentiu obrigada a falar; e lhe contou tudo, acrescentando, numa agonia de terror: — Agora que contei para você, ela me matará! Ela me matará!… Embora fosse um homem de coragem, e pouco inclinado a crer em fantasmas, o samurai ficou bastante sobressaltado por um instante. Mas uma explicação simples e natural logo veio-lhe ao espírito. — Minha querida __ disse ele —, você está muito nervosa agora; e receio que tenham lhe contado histórias absurdas. Não posso conceder-lhe o divórcio apenas porque você teve um pesadelo nesta casa. Mas lamento realmente que esteja sofrendo de tal modo durante minha ausência. Esta noite, também, tenho que ir ao castelo; mas você não ficará sozinha. Ordenarei a dois serviçais que vigiem seu quarto; e você poderá dormir em paz. São pessoas da minha confiança e cuidarão muito bem de você. Em seguida, falou com ela de um modo tão atencioso e afetuoso que a moça se sentiu quase envergonhada do seu terror, e resolveu permanecer naquela casa. Os dois serviçais encarregados de cuidar da jovem esposa eram homens simples, fortes e corajosos, que tinham experiência em proteger mulheres e crianças. Eles contaram à moça histórias divertidas para alegrá-la. Ela conversou com eles por um bom tempo, riu de suas tiradas bem-humoradas, e quase esqueceu seus receios. Quando finalmente ela se deitou para dormir, os dois guardiões tomaram seus lugares no canto do quarto, atrás da tela, e iniciaram um jogo de go, falando apenas em sussurros, para não incomodá-la. Ela adormeceu feito uma criança. Porém, mais uma vez, na Hora do Boi, ela despertou com um gemido de terror ao ouvir o sino lá fora!… O som já estava perto e cada vez se aproximava mais. Ela teve um sobressalto e gritou; mas não notou nenhum movimento no quarto, havia somente um silêncio sepulcral, um silêncio crescente, cada vez mais denso. Ela correu na direção de seus guardiões: estes estavam sentados diante do tabuleiro, imóveis, miravam-se um ao outro com os olhos fixos. A moça os chamou, os sacudiu: eles permaneceram paralisados, como se estivessem congelados… Mais tarde, eles disseram ter ouvido o sino, e também o grito da jovem esposa, até chegaram a sentir que ela os sacudia para despertá-los; e que, no entanto, não foram capazes de se mover nem de falar. No momento exato em que pararam de ouvir e enxergar, submergiram num sono sinistro. Ao entrar no quarto de casal, de madrugada, o samurai viu, na claridade de uma luz evanescente, o corpo sem cabeça de sua jovem esposa, deitado numa poça de sangue. Ainda agachados diante do jogo inconcluso, os dois serviçais dormiam. Ao ouvirem o grito do senhor eles despertaram, e com uma expressão estúpida, afrontaram o horror no chão… Não encontraram a cabeça; e a ferida horrenda mostrava que ela não havia sido cortada, mas arrancada. Um rastro de sangue se estendia do quarto até um ângulo da varanda, onde as portas que protegem das intempéries pareciam ter sido rachadas. Os três homens seguiram o rastro até o jardim, passando pelo gramado, pelos canteiros de areia, ao longo da margem de um lago iridescente sob a sombra espessa de cedros e bambus. E, repentinamente, num desvão, encontraram-se face a face com uma coisa horripilante que se agitava como um morcego: a figura da mulher há muito enterrada, ereta diante de seu túmulo, numa das mãos o sino, na outra a cabeça ainda gotejante… Por um momento, os três ficaram entorpecidos. Em seguida, um dos serviçais, pronunciando uma prece budista, avançou e desferiu um golpe sobre aquele vulto. Imediatamente o vulto se esfarelou no chão, não passava de um amon- toado de trapos de pano, ossos e cabelos; e o sino rolou retinindo para longe daquele dejeto humano. Mas a mão direita, descarnada, mesmo decepada do pulso, ainda se contorcia; e seus dedos comprimiam a cabeça ensangüentada, dilacerando-a e desfigurando-a, como as tenazes dos caranguejos amarelos estraçalhando uma fruta que caiu da árvore…— Esta é uma história cruel — disse eu ao amigo que acabara de contá-la. — Se a falecida queria se vingar de alguém, deveria ter escolhido o marido. — É assim que os homens pensam — respondeu. — Mas não é desse modo que as mulheres agem… Ele tinha razão. [...]. Trechos da obra do escritor japonês Lafcadio Hearn (1850-1904). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). 
Veja mais aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Leitora Tataritaritatá.

Todo dia é Dia da Cultura
&
Cantarau Tataritaritatá!
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quinta-feira, dezembro 24, 2015

GOETHE, BAUMAN, FELLINI, PRIAPÉIA, BYINGTON, REDIG, EDUARDA & MUITO MAIS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? RENASCENDO DAS CINZAS - Renasço das cinzas. Desencavei sonhos, memórias, sangue e areia. Em janeiros viajei pelos devaneios da infância no mundo afora. Por fevereiros fui marujo dos carnavais adolescentes que ruíram de não sobrar escombros. Por marços as águas me lavaram a culpa e a alma. Por abris fui relegado a todos os segundos e terceiros planos. Por maios exorcizei paixões e renasci para novas catarses. Por junhos singrei o tempo sem nostalgia nos olhos quase adultos. Por julhos enfrentei adagas, punhos, espadas e estrépitos alarmantes. Por agostos atravessei desertos de sóis minguantes. Por setembros devorei primaveras esboçadas por mãos anônimas. Por outubros revivi a coragem dos sacrifícios. Por novembros cobicei conciliações que redundaram em nada. E por dezembro renovei a crença de que invernos passam e fui preparar o terreno com investidas sólidas por entre quase e talvez. E o que conta de tudo isso eu não sei, exilado, vez ou outra, senão sempre. Não maldigo o passado, lições que aprendi. Tirei as pedras do peito e ainda teimo em ser feliz. Não tenho que esperar por nada, nem rever as escolhas que fiz. Estou disponível pro que virá: o disforme que se desvela. Sabedor que o acaso não existe no voo das minhas incoerências, eu vou por minhas obsessões oníricas e autobiográficas. Pelo menos, sigo pelo transcurso da vida sem saber pra onde ir nem onde vai dar, à deriva, o que parece ser divertido. O bom disso é não ter que racionalizar pelas lógicas, só a intuição. Saio do nada e pulo pro ignoto futuro, na manhã que viceja: tenho todas as direções às mãos, sigo o Sol. O que vale é a vida e ela pra ser vivida e cumprir a missão. Aprume a conversa aqui.

PICADINHO


Imagem do pintor dinamarquês Nikolaj Wilhelm Marstrand (1810-1873).


Curtindo o álbum Perto (Biscoito Fino, 2014), da cantora e compositora Olivia Byington.

EPÍGRAFE – do sociólogo polonês Zygmunt Bauman: Ter uma identidade fixa é hoje, neste mundo fluido, uma decisão de certo modo suicida. Veja mais aqui e aqui.

DO CORPO E DA ALMA – No livro As doutrinas secretas de Jesus (Renes, 1975), do famoso Rosacruz, escritor, ocultista e místico Dr. Ph.D Harvey Spencer Lewis (1883-1939), encontro que: [...] Há séculos, as escolas de mistérios vinham ensinando que até o homem aprender a ver a terra, com tudo o que nela se contém, como um reino destinado apenas a servi-lo, e não a dominá-lo, e até que o homem aprenda a vibrar mais com o amor espiritual do que com o amor mundano ou físico, ele não pode salvar o eu interior da inevitável destruição ou aniquilamento. O eu interior, ao contrário da alma, não é essencialmente imortal, exceto pelas suas virtudes, sua moralidade e sua realização espiritual. A alma do homem é eternamente imortal e divina. O homem interior está livre para escolher e livre para alcançar seus objetivos espirituais ou ser engolfado nas chamas do inferno, onde será expurgado da associação com a alma e eternamente separado da expressão corporal. É o eu interior, como uma entidade, que pode erguer-se em ressurreição para entrar no Reino dos Céus, enquanto que o corpo físico volta ao pó da terra e perde sua entidade, sua individualidade, seu caráter e sua natureza. [...]. Veja mais aqui e aqui.

EU COMIGO MESMO – No livro Bisa Bia, Bisa Bel (Moderna, 2001), da escritora e jornalista Ana Maria Machado, destaco: [...] De tanto ela falar em experiência, experimentei tapar os ouvidos com algodão, mas não deu certo, porque a voz dela vem de dentro de mim. Aí resolvi cantar bem alto, mais alto do que ela, e canto uma música que eu mesma inventei: Experimenta Experimenta Quem não pimenta Nunca se esquenta Quem nunca tenta Jamais inventa Experimenta Experimenta Com minha música cantada bel alto, a voz dela fica mais baixinha para eu ir em frente fazendo o que quero, sem que se intrometa muito. Mas, um dia, eu estava com dor de garganta, no começo de uma gripe que depois virou uma tragédia. Em vez de cantar, assoviei. Aí, bem, foi outro deus-nos-acuda! Sabe o que foi que Bisa Bia disse? Foi isto: - Meninas que assoviam e galinhas que cantam nunca têm bom fim... [...]. Veja mais aqui e aqui.

DA PRIAPÉIA – No livro A busca fálica: Príapo e a inflação masculina (Paulus, 1994), de James Wyly, encontro dois poemas da Priapéia, o primeiro traduzido por Parker: Ei você, que mal consegue conter a tentação / de em nossa rica horta deitar a ágil mão: / este vigia vai sair e entrar por sua porta traseira / com o maior gosto, até você cair de canseira; / e dois mais virão dos seus dois lados, / com belos pênis ricamente equipados / pondo-se ao trabalho, a cavar mais fundo; / um asno, depois, vai se empenhar sobre você. / Claro que não tentar truque algum fará sentido /quando se tratar de por tantos pintos ser punido. O segundo poema foi traduzido por Buck: Este estúpido apêndice não mais quer crescer / como antes fazia, e nem com força decente / se erguer, mesmo com a mão pra o socorrer. / Ah, que desgraça grande, a minha! / E que desastre para as minhas namoradas / é esta inútil coisinha, vergonha estranha e nova, / vou acabar irritando-as com meu jogo. / Maior valor tinha Tideu, se o que Homero diz é certo, / pois em seu pequeno corpo guardava a natureza / jamais por nada rebaixada. Veja mais aqui, aqui e aqui.

DO FAUSTO DE GOETHE – No poema trágico – uma peça teatral com diálogos rimados - O Fausto (1808), do poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), destaco o diálogo: Mefistófeles – Parabéns, antes que você se separe de mim! Você conhece o demônio, é fácil convir. Tome, pegue esta chave aqui. Fausto – Uma coisinha dessas? E para quê? Mefistófeles – Primeiro pegue; não é nada para se desmerecer. Fausto – Isto tem luz, brilha, cresce na minha mão. Mefistófeles – Do seu valor pleno, logo, você terá compreensão. Esta chave fareja a origem de todas as outras, suas irmãs. Siga-lhe a pista e ela o levará às Mães! Veja mais aqui e aqui.

EU SOU UM GRANDE MENTIROSO – O documentário Fellini: eu sou um grande mentiroso (Sono um Gran Bugiardo, 2003), dirigido por Damian Pettigrew, analisa a vida e a carreira do cineasta italiano Federico Fellini (1829-1993), com entrevistas de amigos e colaboradores, além de trechos de seus filmes. O próprio Fellini fala a respeito do papel do artista na sociedade e de como seus filmes se ajustam nesse contexto. No elenco, o próprio homenageado, Donald Sutherland, Italo Calvino, Roberto Benigni, Terence Stamp, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A beleza da jovem graduanda em Comunicação Social (Cesmac), Maria Eduarda Rodrigues, eleita por unanimidade Musa Tataritaritatá 2015!

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à cantoramiga Clara Redig. Veja aqui e aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PARA 2016
Confira aqui.

CRÔNICAS NATALINAS 
Confira aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem do artista plástico russo Yuri Krotov.
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, dezembro 17, 2015

PARACELSO, ÉRICO, FELLINI, MÁRIO, BORNHEIM, NEILA BARALDI & 600 MIL BEIJABRAÇÕES PROCÊS!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? 600 MIL BEIJABRAÇÕES PROCÊS!!!! – Há motivo, mas não há momento pra festa, nem pra comemoração. Nem poderia, o Brasil está de cabeça pra baixo e a minha vida está talqualmente Brasília: desgovernada. E como todo mundo só quer ver o circo pegar fogo, melhor guardar os festejos pra momentos propícios, já que o ano todo foi só maré da braba. Entretanto, devo considerar que uma marca alcançada como esta merece pelo menos algum destaque e registro apropriados, não apenas pelo prazer individual ou egoístico, mas pelas pessoas envolvidas e que contribuíram decisivamente para que esse número fosse alcançado. No início do ano, contava apenas com 200 mil visualizações. Em agosto, comemorei os 500 milacessos. Agora, 3 meses depois, já chegou à marca das 600 mil visitas, significando mais de 1 mil visitas diárias a este modesto blog. Essa é a razão pela qual, devo, portanto, registrar que não foi um trabalho apenas desenvolvido por mim, aqui não é um bloco do eu sozinho. Mãos solidárias aqui chegaram e se juntaram voluntariamente para que pudesse chegar a essa conquista. Primeiro, devo expressar minha gratidão aos que em 2002, quando existia ainda a plataforma Weblogger, eu mais perdido que cego em tiroteio, queria ter um espaço na rede do tipo blog – já tinha meu site, mas queria uma plataforma que eu mesmo mexesse sem entender patavina de informática, nem lidar direito com o computador que eu já possuía desde 1997. E não fosse a iniciativa dos amigos Márcio Baraldi, que fez a marca deste blog, e Mariza Lourenço, que planejou e executou toda a estrutura, eu não saberia o que fazer. Para eles, os meus primeiros agradecimentos. Segundo, o trabalho dedicado por mais de quatro anos no apoio gráfico desenvolvido neste espaço pela saudosa e inesquecível Derinha Rocha, fundamental na transformação deste em folheto de cordel, zine, programa de rádio e show musical, inclusive contando com o apoio inestimável das parceiramigas Mirita Nandi e Ana Bia Luz. Terceiro, a parceria apaixonante, determinada e aguerrida nos últimos três anos de quase dedicação exclusiva, integral e entregas corpóreas e anímicas, da queridamada Meimei Corrêa, tornando-se, por isso, a verdadeira responsável pela marca alcançada neste blog que é, na verdade, a meritória para levantar os louros e comemorar vitória. Devo a ela não só essa meta atingida aqui, como nos clipes do YouTube, em todos os trabalhos que desenvolvo e no reconhecimento que meu nome obteve nesses anos de parceria apaixonada. Por fim, evidentemente que nada disso aqui faria o menor sentido se não fosse a presença diária de amigos e amigas que me visitam e prestigiam no meu dia a dia. A partir de agora, trilho o meu caminho, aquele que o Gil nos faz refletir: tem que morrer pra germinar. Principalmente quando se encontra com portas fechadas, esquecendo-se que há um horizonte escancarado do lado de fora. Quem vê portas, não enxerga futuro algum. Além do mais, cada qual tem que assumir o ônus das escolhas! A gente segue em frente, apesar dos pesares, mais determinado que antes, mais perseverante que nunca! A todos, o meu mais afetuoso muito obrigado. E confiram mais aqui e aqui.


Imagem: a arte da artista plástica polonesa Ewa Gawlik.


Curtindo a ópera em dois atos Cleópatra (1789 - Bomgiovanni, 2006), do compositor italiano Domenico Cimarosa (1749-1801), com Franco Piva & Cudade de Adria Phillarmonic Orchestra & Cidade de Adria Chorus, Patricia Morandini, Luca Favaron e Maria Pia Moriyon.

INFLUENCIA DOS ASTROS NA NATUREZA HUMANA – No livro A chave da Alquimia (Tres, 1973), médico, filósofo e místico suíço-alemão Teophrastus Paracelso (1493-1541), destaco o trecho que compreende o Capítulo II – Onde se discute a influência dos astros na natureza humana: Devemos advertir todo médico que as entidades do homem são duas: a entidade do sêmen e a entidade da potência (ens seminis e ens virtutis), que devem reter cuidadosamente e se lembrar no momento oportuno. Neste texto iniciatório do Tratado da Entidade Astral enunciaremos um axioma que consideramos perfeitamente adequado: Nenhum astro do firmamento, seja planeta ou estrela, é capaz de formar ou provocar alguma coisa em nosso corpo, seja a beleza, a cor, a força ou temperamento. Sem dúvida, como foi dita que a entidade astral pode nos prejudicar de diversas maneiras, devo dizer que isso é falso e que já é hora de tirarem dos espíritos esses juízos absurdos baseados na natureza ou na posição das estrelas, que somente podem nos fazer sorrir. Neste ponto vamos nos deter sem haver adiante este discurso contra nossos adversários: primeiro porque a finalidade deste parêntesis não é responder a cada instante a todas as questões que nos apresentam para o que seria necessário uma grande quantidade de tinta e papel, tão grande como a nossa capacidade de contestar, por mais ajudados que estivéssemos pela inspiração e a proteção divina. E em segundo lugar porque, apesar de terem compreendido que os astros não conferem nenhuma propriedade nem natureza individual, continuarão adotando a opinião contrária, baseada no fato de que às vezes, são capazes de nos atacar e nos causar a morte. A verdade é que por não ter nascido sob a influencia de Saturno podemos ter uma vida mais ou menos longa; isto é completamente falso. o movimento de Saturno não afeta a vida de nenhum homem e muito menos a prolonga ou abrevia. Fora isso, ainda que este planeta não tivesse feito sua ascensão na esfera celeste, teriam existido e existiriam homens dotados do caráter deste astro. E igualmente existiriam lunáticos se nunca houvesse existido nenhuma lua na natureza do firmamento. Também não devem acreditar na ferocidade e na crueldade de Marte como responsáveis pela existência e a descendência de Nero, pois uma coisa é que ambas as natureza tenham coincidido nesse ponto e outra coisa é que tenham se misturado ou tomado entre si. Como exemplo do que acabamos de dizer, podemos recordar entre outros o caso de Helena e Vênus. Ambas foram indiscutivelmente da mesma natureza, e sem duvida Helena teria sido adúltera mesmo que Vênus nunca tivesse existido. A isto ainda acrescentaremos que, mesmo Vênus sendo na história muito mais antiga do que Helena, as cortesãs existiram muito antes que uma e outra. Veja mais aqui.

INCIDENTE EM ANTARES – O livro Incidente em Antares (Globo, 1971), do escritor Érico Veríssimo (1905-1975), conta por meio do Realismo Fantástico o incidente que vitimou sete pessoas quando os coveiros se encontravam de greve, provocando o passeio dos defuntos pela cidade, vasculhando a intimidade de parentes e amigos. Da obra destaco os trechos: Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da Paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacape ricado de espigões pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há cerca de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde – só Deus sabe ao certo quando – veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que época da Era Cenozóica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espécimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de cartógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, n|o mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada têm servido os memoriais assinados pelo Prefeito Municipal, pelos membros da Câmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, protestando contra a acintosa omissão. O Pe. Gerôncio Albuquerque, quando ainda vigário da Matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vão, idêntica reclamação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente. No entanto a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio. O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia – fama um tanto ambígua e efêmera, é verdade – não só no Estado do Rio Grande do Sul como também no resto do Brasil e mesmo através de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, não sensibilizou até agora geógrafos e cartógrafos. Tão insólitos, lúridos e tétricos – e estes adjetivos foram catados no artigo alusivo àquele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu diário A Verdade, porém jamais publicado, por motivos que oportunamente serão revelados – tão fantásticos foram esses acontecimentos, que o Pe. Gerôncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o começo do Juízo Final. Nesse momento de susto e angústia coletiva, um cético gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: “A troco de quê Deus havia de começar o Juízo Final logo neste cafundó onde Judas perdeu as botas?” Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idéia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaxia, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana. [...] Quando o Brasil entrou em guerra com o Paraguai, Vacarianos e Campolargos enrolaram os seus estandartes tribais e, à sombra da bandeira do Império, lutaram juntos contra a “indiada de Solano Lopes”. Chico Vacariano queixou-se-. “Só não me agrada é que desta vez temos castelhanos peleando de nosso lado”. Referia-se às forças da Argentina e da República Oriental do Uruguai, que haviam formado com o Brasil a Tríplice Aliança, para enfrentar o temível ditador paraguaio. Como Anacleto e Francisco tivessem já passado da idade militar, cada um deles mandou dois de seus filhos alistarem-se como Voluntários da Pátria. A guerra durou de 1865 a 1870. Foram tempos de tristeza, apreensões e durezas para os habitantes de Antares. Só depois que a campanha terminou é que chegou à vila a notícia de que Antônio Maria, o primogênito de Chico Vacariano, havia tombado morto na batalha de Lomas Valentinas. Os dois Campolargos voltaram vivos mas estropiados. Benjamim, o mais velho, que havia perdido um olho num combate corpo a corpo, trazia as divisas de major e uma medalha militar. Seu irmão Gaudêncio tivera de amputar um braço. Antão Vacariano, que deixara a mão esquerda enterrada em solo paraguaio, voltara feito coronel e também condecorado por atos de bravura. Foram esses três antarenses recebidos em sua terra com honras de heróis. Cada qual contava as suas estórias da campanha – algumas horripilantes, outras pitorescas e até jocosas. Num ponto, porém, Benjamim Campolargo e Antão Vacariano discordavam. É que cada um deles reclamava para si a dúbia glória de ter matado com um pontaço de lança o ditador Solano Lopes, na batalha de Cerro-Corá. A História, porém, desmentiu ambos. [...] Veja mais aqui.

O POETA COME AMENDOIM & EU SOU TREZENTOS – No livro Poesias completas (Martins, 1955), do escritor Mario de Andrade (1893-1945), destaco inicialmente o poema O poeta come amendoim: Noites pesadas de cheiros e calores amontoados... / Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil / Andou marcando de moreno os brasileiros. / Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer... / A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos... / Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos. / Os Caramurús conspiram na sombra das mangueiras ovais. / Só o murmurejo dos cre'm-deus-padres irmanava os homens de meu país... / Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos, / Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu... / Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta república temporã. / A gente inda não sabia se governar... / Progredir, progredimos um tiquinho / Que o progresso também é uma fatalidade... / Será o que Nosso Senhor quiser!... / Estou com desejos de desastres... / Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas / Se encostando na cangerana dos batentes... / Tenho desejos de violas e solidões sem sentido / Tenho desejos de gemer e de morrer. / Brasil... / Mastigado na gostosura quente do amendoim... / Falado numa língua corumim / De palavras incertas num remeleixo melado melancólico... / Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons... / Molham meus beiços que dão beijos alastrados / E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas... / Brasil amado não porque seja minha pátria, / Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der... / Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso, / O gosto dos meus descansos, / O balanço das minhas cantigas amores e danças. / Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, / Porque é o meu sentimento pachorrento, / Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir. E também o poema Eu Sou trezentos: Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / As sensações renascem de si mesmas sem repouso, / Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras! / Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro! / Abraço no meu leito as milhores palavras, / E os suspiros que dou são violinos alheios; / Eu piso a terra como quem descobre a furto / Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos! / Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei comigo... / Tenhamos paciência, andorinhas curtas, / Só o esquecimento é que condensa, / E então minha alma servirá de abrigo. Veja mais aqui e aqui.

TEATRO POPULAR – No livro Teatro: a cena dividida (L&PM, 1983), do filósofo, professor e crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002), destaco o trecho Sobre o teatro popular: A determinação do que seja popular em teatro tornou-se tão complicada em nosso tempo, que não poucos dramaturgos e diretores de cena viram-se obrigados a reinventar as suas atividades como que a partir de um ponto zero, introduzindo o elemento popular à maneira de uma novidade ou de uma descoberta que, esquecida pela tradição mais recente, deveria reconquistar o lugar que sempre lhe coubera. E é aí que começam a despontar os problemas. Pois se se pretende que o caráter popular do teatro lhe pertence de modo congênito, que constitui sua dimensão por assim dizer natural, - e que as origens e o passado do teatro atestam que essa tese nem poderia deixar de ser abonada – cabe acrescentar que ela é válida, sem dúvida, mas para o passado, apenas para o passado. Não me refiro aqui a uma suposta falta de casas de espetáculo ou ao enganoso problema da ausência de pública, mas de uma certa ruptura que terminou por impor-se, sub-repticiamente, desligando a vida teatral do solo popular em que sempre medrara, desde as origens gregas até a “barbárie” de Shakespeare. O primeiro sintoma importante dessa ruptura pode ser visto no desconforto com que Rousseau assistia aos espetáculos da época, que o levavam a sonhar com os gregos e a preconizar festas populares de índole autenticamente nacional. Essa nostalgia das raízes populares indica bem o lugar em que aconteceu a ruptura: seu surto se faz notar com a ascensão da burguesia, e, ao que tudo deixa presumir, sua superação liga-se à decadência dessa mesma burguesia [...]. Veja mais aqui e aqui.

LA STRADA – O filme La strada (A estrada da vida, 1964), dirigido pelo cineasta italiano Federico Fellini (1829-1993), conta a história de uma jovem mulher crédula, que descobre que sua irmã morreu, e que vai tomar o lugar dela com um artista de rua itinerante, rude e brutal, ensinando-a a tocar tambor e trompete, dançar e se tornar palhaço para o pública. A partir de então uma série de acontecimentos vão mudar completamente o modo de vida da jovem, num filme neorrealista que retrata a Itália do pós-guerra, decadente e pobre. O filme tornou-se um dos mais influentes de todos os tempos, ganhando diversos prêmios e sendo inserido na lista dos melhores filmes do cinema. O destaque vai para a atriz italiana Giulietta Masina. Este, portanto, para mim, o mais encantador de todos os filmes desse genial cineasta que acompanho toda obra desde que vi pela primeira vez o filme Amarcord, filme que marcou a minha vida e me fez conhecer autor tão importante do cinema mundial. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA:
Capa do litro Moro num país tropicaos (Publisher, 2002) e a arte do cartunista Marcio Baraldi.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritora, jornalista e atriz de teatro, cinema e televisão, Neila Tavares. Veja aqui , aqui e aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...