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quarta-feira, setembro 18, 2019

STEVEN PINKER, NEILA TAVARES, ISADORA DUNCAN, RITA JOANA, GINÁSIO MUNICIPAL DOS PALMARES & RESSURREIÇÃO DO BARÃO


A PRIMEIRA RESSURREIÇÃO DO BARÃO - Depois da perda trágica do segundogênito, teibei! E da fuga ruidosa de sua primogênita atrepada na cacunda dum robusto afrodescendente pintudo mundo afora - deu o créu! -, o Barão andou trocando as catracas do quengo e birutou assim sem mais nem meses. Foi. Arriou acamado trocando os olhos e fazendo bico, depois de um aluamento sem precedentes na terrinha boa de Alagoinhanduba. O homem virava a noite aos boticões, a dizer coisa sem nexo dia atrás de outro. Será que se cura, cochichavam. De repente, ele acordou mais endoidado do cabeção, às providências: Quero gemadas! Cadê a garrafada? Chamou o primeiro xeleleu que apareceu e despachou providência: Vá lá no armazém e traga isso aqui. O chaleira espiou a lista que não tinha mais fim: dez caixas de catuaba da boa, duas mil caçambas de ovos de codorna, duas toneladas de pimenta malagueta e por aí vai, tudo de revigorante e afrodisíaco. Tomou um bom bocado de talagadas vitamínicas, arrumou-se todo, pisou forte, bateu na caixa dos peitos e atravessou a ponte como quem vai ganhar o mundo. Chegava aonde fosse, à marra, distribuía picadas adoidadas no primeiro rabo de saia que encontrasse pela frente e não parou mais. Estava virado, impando nos cangotes cheirosos, com umbigadas de garanhão no cio. Não demorou muito, superpovoou o lugar de perder a conta do tanto da filharada: ora bastardos, enfurecido; ora afilhados, indiferente; fila enorme de bênção daqui, dali e dacolá: Deus te abençoe comboio de peste!. Lá pras tantas teve recaída de um malthusianismo escatológico, resolveu botar ordem nas coisas e dividiu a localidade em três partes: a do meio, direto da ponte morro acima e que separava tudo de um lado a outro, o Domatouro: simples, de lá de cima ele cagava raio, mandava capar maluvidos e adiantados, acabando com as raposas do harém, a jogar tudo ladeira abaixo, pro lado da Reicoa – o lado esquerdo da ponte, no qual instalou prestigiado prostíbulo em homenagem ao inferno, propício para as orgias e velórios, sepultamentos e missas de sétimo dia, templo construído em homenagem ao santo São Benedito, e, logo ao lado deste, um cemitério novinho em folha: Passou da conta, quebro o espinhaço e, se morreu, lascou. Já do lado direito da ponte, o Chocantão, esse mais arrumado - que dará cloro para o reduto das afilhadas do Barão, as melindrosas queridinhas exclusivas dele. No meio desse pastoril, eis que de uma das suas apadrinhadas, surgiu uma beldade reboculosa – paga de língua, filha dele. Pense numa formosura de menina que virou moça de quebrar pescoços e açodar defunto. Imagine o vexame! A adolescente tomou corpo de atiçar almas do Hades e esbugalhar olhos de anjos e arcanjos, um colosso de perdição. Nome dela? Repara só: Lili. O que ela tinha de belezura, tinha de jeitosice. Avalie o desmantelo. O que apareceu de piração na macharia, não está nem no gibi nem nas manchetes jornalísticas que sequer havia por ali. O Barão perdeu o siso e as estribeiras, partiu pro incesto e findou infartado numa maca hospitalar, vítima de priaprisma – dizem que comendo merda e rasgando dinheiro de tão pinel, gritando: Lili, é ela! Liliiiiiiiith! Lililili! A menina dava trabalho. O pior: bonitona e inteligentíssima. Cada vez que ela aparecia, um alvoroço se armava: tal Paulina de Viguière do sonho de Vera. Pois é, a Frineia alagoinhandubense mexia, sem querer, com vivos e mortos de todas as classes sociais, fosse distinto, pé-rapado, plenipotenciários, caboetas e quejandos: todos enlouquecidos de paixonite aguda por ela. Era uma multidão na porta de sua residência, de não ter mais tamanho, tudo esperando qualquer pontinha da sua aparição. E quando ela dava as caras, valha-me quem quer que seja, lá estava ela nem aí, faceira às leituras - diz-se dela airosa filósofa de coisas, ditos e fatos de ontens e amanhãs; que aprendeu sem se ensinar, sabia de tudo e sobre todas as coisas pretéritas, porvires e devires. Dizem mais: escreveu um tanto incalculável de obras, desde alfarrábios volumosos sobre as teorias da origem da vida e da morte, como opúsculos e fascículos sobre as ocorrências diárias das mais inusitadas temáticas, desde a receita de arroz doce saboroso à sobremesa, à explosão galáctica de não sei quantos milênios de anos-luz de distância. Só dizem. De mesmo, ninguém nunca viu nem capa de relance, muito menos encadernação que fosse dos seus valiosos escritos. Mas que era douta, era, batiam o pé. Para encurtar a história, ninguém sabe dizer ao certo se ela casou, morreu ou como foi que deu a vida dela de certo, só reprodução da memória repetida dos avós, bisavós e tataravós. Bote lonjura no tempo, lá para nem sei quando. Depois conto mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A razão pela qual os especialistas têm dificuldade para se comunicar é que eles estão sujeitos à “maldição do conhecimento” – a dificuldade de entender como é não saber algo que eles sabem. Como resultado disso, autores usam abreviações e jargões ou falham em descrever o concreto, detalhes visuais de uma cena; eles pressupõem que seus leitores já sabem o que eles sabem e não se preocupam em explicar. Há inúmeras maneiras de evitar a maldição do conhecimento. A primeira é estar ciente dela, perguntar a si mesmo “o que meu leitor já sabe sobre o que eu estou escrevendo?”. Boa escrita requer empatia. A segunda coisa é colocar o texto de lado por um tempo e voltar para ele depois quando ele já não é familiar para você. Você se verá dizendo “o que eu quis dizer com isso?”. A melhor estratégia de todas é mostrar um rascunho para um leitor representativo e ver o que ele entende. Você se surpreenderá ao ver que o óbvio para você não é óbvio para todo mundo. [...] O erro é definido em relação às expectativas de determinado conjunto de leitores – um grupo de pessoas alfabetizadas que se importam com a escrita e esperam que determinadas convenções sejam seguidas. As línguas mudam, mas isso não acontece de terça para quarta-feira. Se sim, ninguém poderia compreender o outro e se você pegasse um jornal do ano anterior não entenderia nada [...] Os pensamentos ocorrem ao autor por meio de associações – uma ideia lembra outra que leva a uma terceira ideia. Em seguida, você se lembra que você quis dizer três coisas diferentes e que acabou omitindo-as. Aí você antecipa uma objeção e responde à essa objeção e assim por diante. Mas o fluxo da consciência de um autor não corresponde ao modo como o leitor consegue absorver uma informação. O mais importante princípio na hora de apresentar ideias é “dado, agora algo novo” – comece cada sentença com aquilo que o leitor já está pensando, então apresente a informação nova para o leitor no final da frase. Trechos de Boa escrita requer empatia (Carta Educação, 2016), entrevista do escritor, linguista e psicólogo canadense-americano Steven Pinker, concedida à jornalista Thais Paiva, sobre o lançamento da obra do autor, Guia de Escrita: como conceber um texto com clareza, precisão e elegância (Contexto, 2016). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: (Foto: Bárbara Nunes) - [...] Fico muitas vezes abismada com o desconhecimento geral das novas gerações de brasileiros (e nem sempre tão novas assim, já que isto inclui pessoas de 40, 50 anos de idade) de parte relevante de nossa História recente, relativa aos anos de ferro da Ditadura Militar no Brasil e América Latina. Saber daqueles dias é tão necessário para que se conheça a identidade de nosso povo e de nosso país e continente, de forma coletiva, como para que se entenda cada um de nós, pais e avós dos que chegam hoje à idade madura, que trazemos inevitavelmente no corpo e na alma as marcas e cicatrizes dos dias negros que vivemos. [...]. Trechos de Ditadura, esqueceu?, extraído do blog Geleia Geral, da atriz, escritora, jornalista e apresentadora de televisão, Neila Tavares. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

RITA JOANA DE SOUSA, FILÓSOFA BRASILEIRA
[...] Tão inacreditável, contudo, é o fato, que os historiadores de nossa cultura tacham-na de lenda literária, muito embora a filósofa houvesse existido em carne e osso, lenda sendo apenas a sua filosofia ao que parece. E mais extraordinário que tudo, a filósofa brasileira foi uma dessas frutificações tropicalmente precoces. Fruta temporã, bem cedo amadureceu e bem cedo caiu do galho, como a camélia do samba. Aos vinte e dois anos de idade, finou-se, não deixando versos de amor à posteridade, em que chorasse a tristeza da morte prematura que antevia, ou as decepções amorosas da juventude, mas tratados de filosofia natural e memórias histórias. [...] D. Rita Joana de Sousa, única filósofa brasileira, de que se tem noticia quase cinco séculos de vida do Brasil [...] era uma flor, era uma rosa, pela beleza, pelo encanto, pelos dotes e prendas. Não somente se perdia em complicados raciocínios filosóficos, mas também pintava, dizendo seus biógrafos que deixou quadros dignos de louvor e, além de tudo, a filósofa era bonita. [...] Era dotada de imensa erudição, dizem os que a ela se referem, adquirida em tão poucos anos de vida não sabemos como. Atribuem-lhe contudo a autoria de memórias históricas e até mesmo um tratado de filosofia natural [...] A formosa filósofa olindense continua como um dos tantos mistérios de nossa história literária. Nem um retrato, nem um verso, nem um livro dessa que foi um fenômeno de precocidade na vida do Brasil colonial. [...].
RITA JOANA DE SOUSA - Trechos de Uma filósofa brasileira, extraído da obra Vamos conversar sobre... (Itatiaia, 1972), do advogado, crítico literário, tradutor e escritor Oscar Mendes (1902-1983), sobre a filósofa, pintora, poeta e historiadora Rita Joana de Souza que, segundo o autor, nasceu em Olinda –PE, no dia 12 de maio de 1696 e faleceu em abril de 1718, enquanto são registradas as datas de 1595-1618 em diversas outras publicações. Ela tornou-se conhecida torna-se conhecida em 1902, quando no Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro divulgou-se o livro, até então inédito, Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, de Domingos do Loureto Couto, beneditino pernambucano. Segundo o crítico José Roberto Teixeira Leite, o monge dedicou à pintora um dos 17 capítulos de sua obra, cujo tema são as mulheres famosas de Pernambuco. Essa artista é tida como a primeira mulher pintora que trabalhou no Brasil, tendo se dedicado também as letras e a filosofia. Todos os seus manuscritos e obras artísticas desapareceram. Outras referências dão conta com o nome dela surgiu por conta da obra do padre Manuel Tavares, sob o pseudônimo de Diogo Manuel de Azevedo, publicada em 1734, em Lisboa, dando conta de sua grandeza. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança! O corpo do bailarino é simplesmente a manifestação luminosa da alma. A arte não é, de modo nenhum, necessária. Tudo o que é preciso para tornarmos o mundo mais habitável é o amor.
A arte da bailarina estadunidense Isadora Duncan (1878-1927). Veja mais aqui & aqui.

GINÁSIO MUNICIPAL DOS PALMARES
Nesta terça-feira, dia 17 de setembro, foi dia de visita, juntamente com o parceiramigo Carlos Calheiros, ao Ginásio Municipal dos Palmares, ocasião que apresentamos à diretora da instituição educacional, professora Gelza Graça Barreto da Fonseca Assis, o projeto piloto do Festival TTTTT de Arte Estudantil, uma parceria deste blog com a SEMED/Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aqui.
&
Outras do Barão aqui & O sonho de Vera aqui.


terça-feira, setembro 18, 2018

RACHEL DE QUEIROZ, SUSAN SONTAG, XAVIER VILAURRUTIA, NEILA TAVARES, RADAMÉS GNATTALI, SPENGLER, ADÉLIA KLINKE & DERILDITA


A SINA DE DERILDITA - Imagem: arte da artista Adélia Klinke. - Derildita nasceu em Quiduru, um povoado vizinho de Alagoinhanduba. Sonhava ir lá: Pai, quando a gente vai? Logo, minha filha. Mãe, quando a gente vai lá? Depois. E cresceu com tudo ao redor, até o dia em que encontrou Deginaldo: Você é daqui? Não, sou de Alagoinhanduba. Pronto. Ele não era lá essas coisas, nem podia; mas ela se encheu de esperanças num namorico arrochado entre mãos, saias, braguilhas e sarro pesado. A coisa além dos limites quando o pai dela flagrou com os ouvidos na boca dos outros: deu-lhe uma pisa e no meio das lamboradas raivosas, ela teve a petulância vingativa de dizer que não tinha mais os três vinténs – mentira só sua para desmoralizar a ira do pai -, foi escorraçada pra rua sem bem nem terém. Não tinha pra onde ir e foi ter com Deginaldo que se escondia dela depois do incidente, encontrando-o surpreso numa esquina ao meio dia. Ela não esperava aquilo: uns trocados nas mãos e a fuga alvoroçada dele. Chorou sentada no batente. Apertou o peito, empinou a venta sem direção, seguiu adiante até a condução e se foi pra nunca mais voltar. O sonho, apesar dos pesares, era real: chegou lá e andou e pernoitou e sorriu e morreu, passou fome, perdeu-se, recolheu-se a céu aberto e se desfez de si para ser o que fosse. Era outra até ser recolhida morta de fome e sono de dias, por uma mão amiga. Aquela seria daí por diante a sua única parente. Comeu, asseou-se, ganhou presentes e vestes como se fosse de casa, e era pra ela. Estava feliz, menos com as mãos do atrevimento dos homens que iam e vinham por seu corpo. Fora persuadida: não reprima, entregue. Asco contido, deu-se apesar da repulsa aos beijos, mãos, tapas e pênis nas faces, entre as pernas, entre os seios, rasgando sua carne e alma. O que parecia amor era cruel: subjugada, subtraída, seviciada. Não era isso querer, nem poderia mais querer nada, era grata, só isso. Perdia tudo de seu: nome, dignidade, afeto. A violência era o seu convívio, fodida e mal paga. Quem era? Não sabia, deixou de ser: apenas uma inútil presença qual ínfimo descarte ou perda, resto. E dançava nua entre dedadas, puxavanques e pegações, até cair desacordada aos murros e esporros. No meio de tantos martírios de quase décadas, apareceu Venancinho, um gorducho catingoso que lhe chegou com acarinho, oferecendo casa, comida e agasalho. Fugiu com ele e dividiu a vida entre o conforto e as porradas: apanhava todo dia para não botar a cara na janela, porque era uma puta na casa dele e ninguém dali podia saber que lá estava. Escrava entre quatro paredes, preparando a comida, limpando a casa, lavando roupa, cuidando da higiene que ele não tinha. Quantas vezes fedendo e aos vômitos e entupido de álcool não a fez lambê-lo e chupá-lo dos pés à cabeça, removendo detritos entre as dobras da carne com a língua e, ao final do suplício, apanhar de render-se nua e em carne viva à sua crueldade. Outros tantos anos de tormento e ela muda e servil, atravessando a vida. Foi quando ele teve um troço, uma pilora descontrolada, de se debater por socorro, ela apenas via o seu estertor, paralisada. Não sabia o que fazer, nem queria. Viu-o estrebuchar agoniado e, de repente, dar um último suspiro aliviado e ficar imóvel até o sepultamento. A família revoltada não sabia quem era ela, naturalmente a escrava responsável pela morte dele. Como sempre enxotada, voltou pra rua sem ter ninguém nem pra onde ir depois de tantos anos. Passou a ser levada pelo vento até sumir definitivamente. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, pianista e arranjador Radamés Gnattali (1906-1988): Sinfonia Popular, Concerto de Copacabana, Concerto nº 3 & Concerta para Viola & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Aí está um estudo para se fazer. A gente procura resolver os mistérios da Lua e de Marte, mas com os mistérios que pululam ao nosso redor ninguém se preocupa. Trecho do artigo Os sobrenomes, extraído da obra Melhores crônicas (Global, 2004), da escritora, jornalista, dramaturga e tradutora Rachel de Queiroz (1910-2003). Veja mais aqui.

A DECADÊNCIA DO OCIDENTE – [...] Quem não compreender que tal desenlace é absolutamente inalterável; que nos cabe desejar isso ou nada; que temos de amar esse destino ou desesperar do futuro e da própria vida [...] quem perambular pelo mundo com idealismo provinciano, à procura do estilo de vida de épocas passadas, deverá desistir do proposito de entender a História, de viver a História, de criar a História. [...]. Trechos extraídos da obra A decadência do ocidente: esboço de uma morfologia da história (Zahar, 1964), do historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), que em outra obra, O homem e a técnica (Guimarães & C, 1980), assinalou que: [...] Estes homens têm um menosprezo, derivado da sua vontade de domínio, por todas as limitações temporais e espaciais, colocando o ilimitado e o infinito no centro dos seus objetivos possíveis; subjugam continentes inteiros, envolvem a Terra com as suas cerradas redes de comunicação e de transportes. É esta vontade de domínio que transforma literalmente o planeta, através da força da sua energia prática e do poder gigantesco dos seus processos técnicos.[...].

O AMANTE DO VULCÃO - [...] É a entrada de um mercado de pulgas. Não se paga ingressos. É grátis. Gente mal-ajambrada. Vulpinos, brincalhões. Por que entrar? O que você espera ver? Estou vendo. Estou constando o que há no mundo. O que sobrou. O que foi descartado. O que não se quer mais. O que teve de ser sacrificado. O que alguém pensou que poderia interessar a outro alguém. Mas é lixo. Se existe algo aqui ou ali, já foi peneirado. Mas lá pode haver algo valioso. Não exatamente valioso. Mas algo que eu que eu poderia querer. Querer resgatar. Algo que me fale. Que fale aos meus anseios. Que fale com alguém, fale algo. Ah... [...]. Trecho do romance O amante do vulcão (Companhia das Letras, 1993), da premiada Susan Sontag, pseudônimo da escritora, crítica de arte e ativista estadunidense Susan Rosenblatt (1933-2004), Veja mais aqui.

TRES POEMAS - A DÉCIMA MORTE – Se tens mãos, elas me sejam / de um tato sutil e brando, / apenas sensível quando / anestesiado me creiam; / e que teus olhos me vejam / sem olhar-me, de tal sorte / que nada me desconforte / ao te roçar, ao te ver, / para não sentir prazer, / e nem dor, contigo, Morte. / Por caminhos ignorados, / por secretos entremeios, / por misteriosos veios / de troncos recém-cortados, / te vêem meus olhos fechados / penetrar-me a alcova escura / e converter-me a figura / opaca, febril, cambiante, / em matéria de diamante, / luminosa, eterna e pura. / Não durmo, querendo vcr-te, / lenta, chegar, apagada, / querendo ouvir-te, pausada, / a voz que silêncios verte; / para que, tocando o nada, / que envolve teu corpo incerto, / e ao teu aroma deserto, / possa, sem sombra de engano, / a ti saber que me irmano, / sentir que morro desperto. / O ponteiro dos segundos / percorrerá seu quadrante; / será tudo em um instante / desse espaço moribundo / que, largo, só e profundo, / será dócil ao teu passo, de modo que o tempo forte / prolongará nosso abraço / e assim será possível / viver mais depois da morte. / Morte, em vão ameaçadas / fechar-me a boca à ferida / e pôr fim à minha vida / com uma palavra baça. / Que desejas mais que faça, / se, na dor que me devora, / violei a tua demora; / se pro ver tua tardança, / para encher-me a esperança / que não morra não há hora. INVENTAR A VERDADE - Faço atento o ouvido ao peito, / como, na praia, o caracol ao mar. / Ouço meu coração latir sangrando / e sempre e nunca igual. / Sei por quem ele late assim, mas não posso / dizer o porquê será. / Se começasse a dizê-lo com fantasmas / de palavras e enganos, ao acaso, / chegaria, tremendo de surpresa, / a inventar a verdade. / Quando fingi que te amava, não sabia / que já te amava! DESEJO - Amar você com fogo duro e frio. / Amar você sem palavras, sem pausas, silêncios. / Amar você tão-só quando você quiser / e tão-só com a presença muda dos meus atos. / Amar você na ponta da língua e enquanto a mentira / em você não se diferencia da ternura. / Amar você quando finge toda a indiferença / que seu abandono nega, que funde seu calor. / Amar você cada vez que tua pele e boca / procurem minha pele dormindo, minha boca desperta. / Amar você pela solidão, se você me abandona nela. / Amar você pela cólera que acende em meu coração. / E mais que pela alegria e o delírio, / amar você pela angústia e a dúvida. Poemas do poeta e dramaturgo mexicano Xavier Vilaurrutia (1903-1950).

A ARTE DE NEILA TAVARES
A atriz, escritora, jornalista e apresentadora de televisão, Neila Tavares, em momentos de arte: no filme Cada vez mais longe (2014), de Eveline Costa & Oswaldo Eduardo Lioi; na novela Gabriela (Globo, 1975); no filme Os sensuais: crônica de uma família pequeno burguesa (1978), de Gilvan Pereira; e A enúltima donzela (1969), de Fernando Amaral com música de Egberto Gismonti; e em fotos de Guillaume St Martin. Veja mais dela aqui e aqui e uma entrevista dela aqui.

AGENDA
No meio do caminho de Tchello d’Barros & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista Adélia Klinke.
Veja mais aqui.
&
Emoções que me dou feliz de sonhar, Ludwig Feuerbach, A arte visionária de Laurence Caruana, Antônio Torres, Aníbal Beça, Jacqueline Bisset, Natália Correia, Alex Grey, Colégio Estadual Eliseu Pereira de Melo, Arnold Schoenberg, Clara Schumann, Constança Capdeville & Itamar Assumpção aqui.


sábado, maio 28, 2016

GERSHWIN & GENEVIÈVE SALAMONE, GERALDO AZEVEDO & NEILA TAVARES, ARACELLI & JOSÉ LOUZEIRO, NINA KURILOFF, YUKARI TERAKADO & MARCHA DAS VADIAS


O DESENLACE DA PAQUERA ENTRE MELZINHA & BROTHÃO (Imagem: Norah, do ilustrador japonês Yukari Terakado) – Melzinha, estudante, 17 anos, linda de morrer, corpo escultural. A cobiça da rapaziada do colégio e da marmanjada da cidade. Queria namorar, pai não deixava. Às escondidas, ela ficava com um e outros: namorico adolescente de pega-pega e deixe disso, mas que tá bom, tá. Permitia, sarrava. Aí aparece o roliúde: quase que ela perde a calcinha na hora de tanto alvoroço. Era Brothão, solteirão filhinho de papai ricaço, endinheirado até o tampo, arrogante folgado, montado na máquina possante, bicho solto de munheca firme. Para ele não havia lei nem limite, muito menos reconhecia autoridade ou uma reles menina metida à cu-doce. Caiu na rede, é peixe; vaca vadia só serve pra lavar a jega - essa a sua ordem. Desbocado, nunca deu um prego numa cocada – tinha tudo às mãos. Quisesse, possuía. Tudo de seu. Botou mutuca em cima da mocinha: - É ela, a bola da vez. E foi, não teve jeito. Deu em cima, ela tentou ainda se desvencilhar, foi em vão: agarrou-lhe o pulso e levou-la pra dar uma volta por aí. No de menos. Era só um treino, o trato feito estava marcado pra de noite, 19 horas, na praça em frente da escola. – Chegaí, ô! Ela toda saltitante, linda além da conta e desfilando ao lado do ricaço: matava as coleguinhas de inveja. Pararam num bar, tomaram umas – ela desacostumada à bebedeira, logo danou a gargalhar achando graça em tudo. Chegou ao ponto até de levantar a blusa, mostrando os peitinhos lindíssimos. Ele só amolegando a peia: - Tô amolando, tô amolando. Uma música, ele puxa pra dança: coladinhos, pernas umas nas outras, mãos percorrendo seu corpo, sarro pesado, incêndio no tesão. Lá pras tantas, saem e vão direto pra casa de praia: beijos, desejos e nudez. Ela pra lá de tonta, nem se dava conta do que acontecia. Mais bebia, anestesiada. Ele não se fez de rogado: - Cu de bêba não tem dono! E ela berrou ao ser desvirginada. Tapou-lhe a boca e depois de ronronar seu gozo, deixou-la estirada, completamente ensanguentada sobre a cama. Saiu pra varanda bebendo e ligou pros amigos avisando que ela fora abatida. Urros e salvas. Aí convidou a tropa de comparsas para testemunhar o feito. Ao chegarem viram-na estirada nua na cama: - Tirei o cabresto, meu! – Que sangreiro, véi! E vou foder-lhe o cu já já, vocês vão ver. E viram. Apostas e desafios. Emborcou a moça, vergada sobre os joelhos, glúteos à mostra, o dedão com gel no ânus dela: - Vai levar peia no rabo, mocreia. Chamou atenção de todos e partiu para a prática anal. Ela gritou, amarrou-lhe a boca na marra para sufocar os gritos, segurou-la no muque e só parou quando explodiu seu gozo! Aplausos gerais. –Viram como é que se faz? Comigo é assim. E quem quer se servir? Eram ao todo uns quinze, um por um mandou ver. Álcool, fumo, drogas, lá pras tantas, todos já embriagados, resolveram amarrá-la pelas pernas e pendurá-la de cabeça pra baixo. Brothão sacou do revólver e ameaçou: - Se gritar morre com um tiro na cabeça, ouviu? Ele então tirou a mordaça, deu-lhe uma tapa firme nas faces e mandou que abrisse a boca e lambesse seu pênis na frente de todos. – Lamba direito! E novo tabefe no rosto dela. – Vou gozar e engula tudo! E começou a puxar seus cabelos enquanto enfiava o pênis inteiro até à garganta dela. Satisfeito depois do maior remexido, virou-se pros demais: - Quem quer se servir? Nova fila e cada um mais malvado que o outro não só lhe esbofeteava, como esmurravam seu corpo, chutavam sua cabeça, enfiavam garrafas e outros troços na vagina e no ânus dela, até um cabo de vassoura que empurraram com força até ela desmaiar de dor. – Ih, será que ela morreu? De tão bêbados não sabiam nada, apenas diziam: - Joga ela na beira da praia e chau. Joga! Joga! Isso mesmo. Jogaram-na nua ao mar. Imprensa, polícia, escândalo, choros de familiares: jovem estudante morta é encontrada nua na praia. Todos sabiam, nenhum réu. Conivência e omissão geral. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui. 

MULHER
Eu sou a mãe da praça de maio, sou alma dilacerada,
Sou Zuzu Angel, sou Sharon Tate
O espectro da mulher assassinada em nome do amor
Sou a mulher abandonada pelo homem que inventou
Outra mais menina
Sou Cecília, Adélia, Cora Coralina, sou Leila e Angela Diniz
Eu sou Elis, eu sou assim..
Sou o grito que reclama a paz, eu sou a chama da transformação
Sorriso meu, meus ais, grande emoção
Que privilégio poder trazer no ventre a luz capaz de eternizar
Em nós sonho de criança, tua herança...
Eu sou a moça violentada, sou Mônica, sou a Cláudia
Eu sou Marilyn, Aída sou
A dona de casa enjaulada sem poder sair
Sou Janis Joplin drogada, eu sou Rita Lee
Sou a mulher da rua, sou a que posa na revista nua
Sou Simone de Beauvoir, eu sou Dadá, eu sou assim...
Ainda sou a operária, doméstica, humilhada, eu sou a fiel e safada
Aquela que vê a novela, a que disse não
Sou a que sonha com artista de televisão
A que faz a feira, sou o feitiço, sou a feiticeira
Sou a que cedeu ao patrão, sou a solidão, eu sou assim...

PESQUISA
Violência dói e não é direito: a violência contra a mulher, a saúde e os direitos humanos (Unesp, 2005), de Lilia Blima Schraiber, Ana Flávia Pires Lucas D'Oliveira , Marcia Thereza Couto Falcão , Wagner dos Santos Figueiredo, livro que aborda a questão sobre a ótica social e de saúde pública, questionando as causas do problema, os limites dos serviços de saúde, as mudanças culturais necessárias para alterar esse quadro e o impacto da violência na saúde da mulher, analisando os aspectos éticos e jurídicos da agressão e fornecem informações úteis a respeito da rede de assistência à mulher em situação de violência. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
O romance-reportagem Aracelli, meu amor (Civilização Brasileira, 1975), do escritor e jornalista José Louzeiro, foi censurado durante a ditadura militar a pedido de advogados dos acusados responsáveis pelo estupro e assassinato da criança de 8 anos de idade Aracelli Cabrera Crespo, ocorrido no dia 18 de maio de 1973, tornando-se símbolo do Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, uma impunidade de décadas.Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
A violência praticada pelos homens contra as mulheres demonstra a intenção explícita de submeter a mulher às suas vontades. Representa um abuso físico, psicológico e sexual, deixando marcas profundas no corpo e na vida das mulheres. [...] Os maus tratos domésticos são uma realidade que afeta uma alta percentagem de mulheres em nossa sociedade. Geralmente, permanecem ocultos, escondidos no âmbito das relações familiares por medo ou vergonha e por ter sido trabalhada a idéia de "roupa suja se lava em casa", e por considerar que os maus tratos são assuntos privados do casal. [...] Historicamente, o corpo da mulher, de cada uma em particular, e de todas, é tratado como propriedade dos homens, que se fundamentam na manutenção da supremacia masculina e na visão de uma sexualidade constituída a partir dessa supremacia.
Trecho do artigo A violência doméstica e sexual contra as mulheres: algumas reflexões sobre uma questão complexa (Consejo Latinoamericano de Ciências Socialis – CLACSO), da assessora jurídica do Programa de Apoio às Mulheres Vítimas de Violência Doméstica e Sexual - Centro das Mulheres do Cabo – PE., Lucidalva Mª do Nascimento.


Veja mais sobre Espera na Primeira Reunião, Karl Marx, Florbela Espanca, Maki Ishii, Licia Maglietta, João do Pulo, Silvio Soldini, Arthur Kaufman, Carl Larsson & Musicoterapia aqui.

Curtindo Gershwin's 'It Ain't Necissarily So' - performs the Heifetz arrangement of Gershwin's 'It Ain't Necissarily So' from Porgy and Bess for her Bachelor's Recital, da violinista canadense Geneviève Salamone: The One Woman Symphony.

IMAGEM DO DIA
Marcha das Vadias.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica Nina Kuriloff.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

PARACELSO, ÉRICO, FELLINI, MÁRIO, BORNHEIM, NEILA BARALDI & 600 MIL BEIJABRAÇÕES PROCÊS!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? 600 MIL BEIJABRAÇÕES PROCÊS!!!! – Há motivo, mas não há momento pra festa, nem pra comemoração. Nem poderia, o Brasil está de cabeça pra baixo e a minha vida está talqualmente Brasília: desgovernada. E como todo mundo só quer ver o circo pegar fogo, melhor guardar os festejos pra momentos propícios, já que o ano todo foi só maré da braba. Entretanto, devo considerar que uma marca alcançada como esta merece pelo menos algum destaque e registro apropriados, não apenas pelo prazer individual ou egoístico, mas pelas pessoas envolvidas e que contribuíram decisivamente para que esse número fosse alcançado. No início do ano, contava apenas com 200 mil visualizações. Em agosto, comemorei os 500 milacessos. Agora, 3 meses depois, já chegou à marca das 600 mil visitas, significando mais de 1 mil visitas diárias a este modesto blog. Essa é a razão pela qual, devo, portanto, registrar que não foi um trabalho apenas desenvolvido por mim, aqui não é um bloco do eu sozinho. Mãos solidárias aqui chegaram e se juntaram voluntariamente para que pudesse chegar a essa conquista. Primeiro, devo expressar minha gratidão aos que em 2002, quando existia ainda a plataforma Weblogger, eu mais perdido que cego em tiroteio, queria ter um espaço na rede do tipo blog – já tinha meu site, mas queria uma plataforma que eu mesmo mexesse sem entender patavina de informática, nem lidar direito com o computador que eu já possuía desde 1997. E não fosse a iniciativa dos amigos Márcio Baraldi, que fez a marca deste blog, e Mariza Lourenço, que planejou e executou toda a estrutura, eu não saberia o que fazer. Para eles, os meus primeiros agradecimentos. Segundo, o trabalho dedicado por mais de quatro anos no apoio gráfico desenvolvido neste espaço pela saudosa e inesquecível Derinha Rocha, fundamental na transformação deste em folheto de cordel, zine, programa de rádio e show musical, inclusive contando com o apoio inestimável das parceiramigas Mirita Nandi e Ana Bia Luz. Terceiro, a parceria apaixonante, determinada e aguerrida nos últimos três anos de quase dedicação exclusiva, integral e entregas corpóreas e anímicas, da queridamada Meimei Corrêa, tornando-se, por isso, a verdadeira responsável pela marca alcançada neste blog que é, na verdade, a meritória para levantar os louros e comemorar vitória. Devo a ela não só essa meta atingida aqui, como nos clipes do YouTube, em todos os trabalhos que desenvolvo e no reconhecimento que meu nome obteve nesses anos de parceria apaixonada. Por fim, evidentemente que nada disso aqui faria o menor sentido se não fosse a presença diária de amigos e amigas que me visitam e prestigiam no meu dia a dia. A partir de agora, trilho o meu caminho, aquele que o Gil nos faz refletir: tem que morrer pra germinar. Principalmente quando se encontra com portas fechadas, esquecendo-se que há um horizonte escancarado do lado de fora. Quem vê portas, não enxerga futuro algum. Além do mais, cada qual tem que assumir o ônus das escolhas! A gente segue em frente, apesar dos pesares, mais determinado que antes, mais perseverante que nunca! A todos, o meu mais afetuoso muito obrigado. E confiram mais aqui e aqui.


Imagem: a arte da artista plástica polonesa Ewa Gawlik.


Curtindo a ópera em dois atos Cleópatra (1789 - Bomgiovanni, 2006), do compositor italiano Domenico Cimarosa (1749-1801), com Franco Piva & Cudade de Adria Phillarmonic Orchestra & Cidade de Adria Chorus, Patricia Morandini, Luca Favaron e Maria Pia Moriyon.

INFLUENCIA DOS ASTROS NA NATUREZA HUMANA – No livro A chave da Alquimia (Tres, 1973), médico, filósofo e místico suíço-alemão Teophrastus Paracelso (1493-1541), destaco o trecho que compreende o Capítulo II – Onde se discute a influência dos astros na natureza humana: Devemos advertir todo médico que as entidades do homem são duas: a entidade do sêmen e a entidade da potência (ens seminis e ens virtutis), que devem reter cuidadosamente e se lembrar no momento oportuno. Neste texto iniciatório do Tratado da Entidade Astral enunciaremos um axioma que consideramos perfeitamente adequado: Nenhum astro do firmamento, seja planeta ou estrela, é capaz de formar ou provocar alguma coisa em nosso corpo, seja a beleza, a cor, a força ou temperamento. Sem dúvida, como foi dita que a entidade astral pode nos prejudicar de diversas maneiras, devo dizer que isso é falso e que já é hora de tirarem dos espíritos esses juízos absurdos baseados na natureza ou na posição das estrelas, que somente podem nos fazer sorrir. Neste ponto vamos nos deter sem haver adiante este discurso contra nossos adversários: primeiro porque a finalidade deste parêntesis não é responder a cada instante a todas as questões que nos apresentam para o que seria necessário uma grande quantidade de tinta e papel, tão grande como a nossa capacidade de contestar, por mais ajudados que estivéssemos pela inspiração e a proteção divina. E em segundo lugar porque, apesar de terem compreendido que os astros não conferem nenhuma propriedade nem natureza individual, continuarão adotando a opinião contrária, baseada no fato de que às vezes, são capazes de nos atacar e nos causar a morte. A verdade é que por não ter nascido sob a influencia de Saturno podemos ter uma vida mais ou menos longa; isto é completamente falso. o movimento de Saturno não afeta a vida de nenhum homem e muito menos a prolonga ou abrevia. Fora isso, ainda que este planeta não tivesse feito sua ascensão na esfera celeste, teriam existido e existiriam homens dotados do caráter deste astro. E igualmente existiriam lunáticos se nunca houvesse existido nenhuma lua na natureza do firmamento. Também não devem acreditar na ferocidade e na crueldade de Marte como responsáveis pela existência e a descendência de Nero, pois uma coisa é que ambas as natureza tenham coincidido nesse ponto e outra coisa é que tenham se misturado ou tomado entre si. Como exemplo do que acabamos de dizer, podemos recordar entre outros o caso de Helena e Vênus. Ambas foram indiscutivelmente da mesma natureza, e sem duvida Helena teria sido adúltera mesmo que Vênus nunca tivesse existido. A isto ainda acrescentaremos que, mesmo Vênus sendo na história muito mais antiga do que Helena, as cortesãs existiram muito antes que uma e outra. Veja mais aqui.

INCIDENTE EM ANTARES – O livro Incidente em Antares (Globo, 1971), do escritor Érico Veríssimo (1905-1975), conta por meio do Realismo Fantástico o incidente que vitimou sete pessoas quando os coveiros se encontravam de greve, provocando o passeio dos defuntos pela cidade, vasculhando a intimidade de parentes e amigos. Da obra destaco os trechos: Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da Paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacape ricado de espigões pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há cerca de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde – só Deus sabe ao certo quando – veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que época da Era Cenozóica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espécimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de cartógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, n|o mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada têm servido os memoriais assinados pelo Prefeito Municipal, pelos membros da Câmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, protestando contra a acintosa omissão. O Pe. Gerôncio Albuquerque, quando ainda vigário da Matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vão, idêntica reclamação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente. No entanto a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio. O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia – fama um tanto ambígua e efêmera, é verdade – não só no Estado do Rio Grande do Sul como também no resto do Brasil e mesmo através de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, não sensibilizou até agora geógrafos e cartógrafos. Tão insólitos, lúridos e tétricos – e estes adjetivos foram catados no artigo alusivo àquele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu diário A Verdade, porém jamais publicado, por motivos que oportunamente serão revelados – tão fantásticos foram esses acontecimentos, que o Pe. Gerôncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o começo do Juízo Final. Nesse momento de susto e angústia coletiva, um cético gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: “A troco de quê Deus havia de começar o Juízo Final logo neste cafundó onde Judas perdeu as botas?” Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idéia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaxia, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana. [...] Quando o Brasil entrou em guerra com o Paraguai, Vacarianos e Campolargos enrolaram os seus estandartes tribais e, à sombra da bandeira do Império, lutaram juntos contra a “indiada de Solano Lopes”. Chico Vacariano queixou-se-. “Só não me agrada é que desta vez temos castelhanos peleando de nosso lado”. Referia-se às forças da Argentina e da República Oriental do Uruguai, que haviam formado com o Brasil a Tríplice Aliança, para enfrentar o temível ditador paraguaio. Como Anacleto e Francisco tivessem já passado da idade militar, cada um deles mandou dois de seus filhos alistarem-se como Voluntários da Pátria. A guerra durou de 1865 a 1870. Foram tempos de tristeza, apreensões e durezas para os habitantes de Antares. Só depois que a campanha terminou é que chegou à vila a notícia de que Antônio Maria, o primogênito de Chico Vacariano, havia tombado morto na batalha de Lomas Valentinas. Os dois Campolargos voltaram vivos mas estropiados. Benjamim, o mais velho, que havia perdido um olho num combate corpo a corpo, trazia as divisas de major e uma medalha militar. Seu irmão Gaudêncio tivera de amputar um braço. Antão Vacariano, que deixara a mão esquerda enterrada em solo paraguaio, voltara feito coronel e também condecorado por atos de bravura. Foram esses três antarenses recebidos em sua terra com honras de heróis. Cada qual contava as suas estórias da campanha – algumas horripilantes, outras pitorescas e até jocosas. Num ponto, porém, Benjamim Campolargo e Antão Vacariano discordavam. É que cada um deles reclamava para si a dúbia glória de ter matado com um pontaço de lança o ditador Solano Lopes, na batalha de Cerro-Corá. A História, porém, desmentiu ambos. [...] Veja mais aqui.

O POETA COME AMENDOIM & EU SOU TREZENTOS – No livro Poesias completas (Martins, 1955), do escritor Mario de Andrade (1893-1945), destaco inicialmente o poema O poeta come amendoim: Noites pesadas de cheiros e calores amontoados... / Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil / Andou marcando de moreno os brasileiros. / Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer... / A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos... / Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos. / Os Caramurús conspiram na sombra das mangueiras ovais. / Só o murmurejo dos cre'm-deus-padres irmanava os homens de meu país... / Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos, / Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu... / Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta república temporã. / A gente inda não sabia se governar... / Progredir, progredimos um tiquinho / Que o progresso também é uma fatalidade... / Será o que Nosso Senhor quiser!... / Estou com desejos de desastres... / Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas / Se encostando na cangerana dos batentes... / Tenho desejos de violas e solidões sem sentido / Tenho desejos de gemer e de morrer. / Brasil... / Mastigado na gostosura quente do amendoim... / Falado numa língua corumim / De palavras incertas num remeleixo melado melancólico... / Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons... / Molham meus beiços que dão beijos alastrados / E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas... / Brasil amado não porque seja minha pátria, / Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der... / Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso, / O gosto dos meus descansos, / O balanço das minhas cantigas amores e danças. / Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, / Porque é o meu sentimento pachorrento, / Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir. E também o poema Eu Sou trezentos: Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / As sensações renascem de si mesmas sem repouso, / Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras! / Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro! / Abraço no meu leito as milhores palavras, / E os suspiros que dou são violinos alheios; / Eu piso a terra como quem descobre a furto / Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos! / Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei comigo... / Tenhamos paciência, andorinhas curtas, / Só o esquecimento é que condensa, / E então minha alma servirá de abrigo. Veja mais aqui e aqui.

TEATRO POPULAR – No livro Teatro: a cena dividida (L&PM, 1983), do filósofo, professor e crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002), destaco o trecho Sobre o teatro popular: A determinação do que seja popular em teatro tornou-se tão complicada em nosso tempo, que não poucos dramaturgos e diretores de cena viram-se obrigados a reinventar as suas atividades como que a partir de um ponto zero, introduzindo o elemento popular à maneira de uma novidade ou de uma descoberta que, esquecida pela tradição mais recente, deveria reconquistar o lugar que sempre lhe coubera. E é aí que começam a despontar os problemas. Pois se se pretende que o caráter popular do teatro lhe pertence de modo congênito, que constitui sua dimensão por assim dizer natural, - e que as origens e o passado do teatro atestam que essa tese nem poderia deixar de ser abonada – cabe acrescentar que ela é válida, sem dúvida, mas para o passado, apenas para o passado. Não me refiro aqui a uma suposta falta de casas de espetáculo ou ao enganoso problema da ausência de pública, mas de uma certa ruptura que terminou por impor-se, sub-repticiamente, desligando a vida teatral do solo popular em que sempre medrara, desde as origens gregas até a “barbárie” de Shakespeare. O primeiro sintoma importante dessa ruptura pode ser visto no desconforto com que Rousseau assistia aos espetáculos da época, que o levavam a sonhar com os gregos e a preconizar festas populares de índole autenticamente nacional. Essa nostalgia das raízes populares indica bem o lugar em que aconteceu a ruptura: seu surto se faz notar com a ascensão da burguesia, e, ao que tudo deixa presumir, sua superação liga-se à decadência dessa mesma burguesia [...]. Veja mais aqui e aqui.

LA STRADA – O filme La strada (A estrada da vida, 1964), dirigido pelo cineasta italiano Federico Fellini (1829-1993), conta a história de uma jovem mulher crédula, que descobre que sua irmã morreu, e que vai tomar o lugar dela com um artista de rua itinerante, rude e brutal, ensinando-a a tocar tambor e trompete, dançar e se tornar palhaço para o pública. A partir de então uma série de acontecimentos vão mudar completamente o modo de vida da jovem, num filme neorrealista que retrata a Itália do pós-guerra, decadente e pobre. O filme tornou-se um dos mais influentes de todos os tempos, ganhando diversos prêmios e sendo inserido na lista dos melhores filmes do cinema. O destaque vai para a atriz italiana Giulietta Masina. Este, portanto, para mim, o mais encantador de todos os filmes desse genial cineasta que acompanho toda obra desde que vi pela primeira vez o filme Amarcord, filme que marcou a minha vida e me fez conhecer autor tão importante do cinema mundial. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA:
Capa do litro Moro num país tropicaos (Publisher, 2002) e a arte do cartunista Marcio Baraldi.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritora, jornalista e atriz de teatro, cinema e televisão, Neila Tavares. Veja aqui , aqui e aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...