quarta-feira, fevereiro 14, 2018

SONETOS DE PETRARCA, CROCE, CARLOS NEJAR, RADAMÉS GNATTALI, ZUENIR VENTURA, MATSUURA, NATALIE CLEIN, PRADIER, DEVENDRA BADIGER & JORDAN MATTER

DE CINZAS, SIMULACROS & PRÓTESES – Imagem: arte do artista plástico indiano Devendra Badiger. - UMA: CINZAS & CARNAVAL – Ih, passou! Ainda ontem era sexta-feira, como é que pode? Dia comprido danado, repleto de afazeres, estresse, broncas, já estava por aqui: do gogó pras pestanas, tudo esborrando. Ou acabava a sexta, ou morria eu, ora! Já de saco estourado, nervos à flor da pele, toda pilha, e o dia nem passava, parecia mais emperrado de quase chegar amanhã e o de hoje nem sinal de terminar. Ou será que o relógio estava tramando suas trapaças com ardis de parar o tempo pra me matar do coração. Isso é que é maçada, coisa mais chata. Ah, vai ser chega pra lá até o dia emborcar e os ponteiros bater as dezoito badaladas! Depois de uma eternidade, coronárias por um fio, paciência já era, finalmente, fim do expediente. Ufa! É só jogar as gravatadas todas afrouxando as coisas e correr pro frevo e folia até quarta! Avisa lá! Fui! Timbungue! E comer tudo, beber demais, tudo pra puta que o pariu que nada mais, nem lei, nem ordem, só o que der na telha e seja lá o que Deus quiser! Viva o hedonismo! Timbungo, timbungar! Ué? Cadê o sábado que estava aqui? Botem de volta o domingo que nem vivi, faz favor! Votê! Engalobaram a segunda também, que coisa! Roubaram a terça, foi? Vôte! Quem foi que inventou que hoje é quarta, hem? Ninguém me disse nada, nem me avisaram, ora. Não vale, oxe, pode trazer tudo de volta, ou chama o Superman para restituir nossa dignidade, fazendo o mundo rodar até à meia noite da sexta e recomeçar tudo de novo que não vi nada. Também sou filho de Deus, mereço tudo de novo. Onde já se viu uma coisa desta! Quero meu carnaval de volta e avisem pro Bacalhau do Batata pra ele aparecer só na semana que vem! Ora, ora. Tá pensando o quê? Simbora! Arrocha putada! DUAS: NEM TUDO QUE BRILHA É OURO, NEM TODA FEIÚRA É TREPEÇA – Toda vez que vejo cenas das Paraolimpíadas, aprendo mais uma lição: como é bonita a superação! Sempre fico com a impressão de que a gente pode tudo e muito mais, isso eu sei. Tirante os preconceitos e discriminações - esses achaques dos frascários metidos a besta, que tanto sacodem qualquer um pras sarjetas -, aplaudo de pé todos aqueles que dão a volta por cima, renascendo das cinzas para brilharem por sua própria luz, enquanto os certinhos conspiradores morrem de inveja. Parece mais trama de novela da tevê, né não? Pois é, enquanto o que tem de bonitão eloquente e bem trajado aplicando golpe não está nem no gibi nem nas estatísticas, também vivem montados nas suas próteses: bengalas, pererecas, automóveis, óculos, aviões, bicicletas, relógios, etcétera, etcétera. Afora as cirurgias estéticas corrigindo o que os chateiam, quando não o nome, os documentos, a cara toda, a personalidade, o esqueleto e as frescuras. Pois é, o engodo é mais embaixo. Tem gente que mente até pra si mesmo e não desancam o rei na barriga: vai ali e, ao voltar, tudo novinho em folha, outra pessoa, o sonho do ideal. E o real onde é que fica? Igualzinho à moeda: engana que é dólar ou outra que valha, e se desvalorizando às escondidas, senão às claras e nem aí. Quantas máscaras pras ocasiões e situações, quase um Dorian Gray do Wilde e só pro espelho mostrar o que quer ver, e só, mais nada. Gente que se vende de rei e nem percebe que está nu e destronado. Gente que se acha o suprassumo e caiu no risível folclórico. Tem gente que não se enxerga mesmo, só no barrunfo e reiteração pra se autoconfirmar! Entre tantos simulacros já vi gente escondida na sua própria ilusão de seres com coração plástico e sangue de barata. O mundo tem cada uma e dá tanta volta! TRÊS: O HOJE É AMANHÃ E ONTEM – Já dizia Marcos Accioly no seu trabalho épico pelo pesadelo da história, recorrendo à memória dos temperamentos literários: Latinomérica. As cenas de agora emergiram dos pensamentos e imaginações: planos, projetos, hipóteses e checagens, objetivos e metas. Eu mesmo pés pelas mãos, ando no chão pelas nuvens, trancas, presilhas, ferrolhos e cadeados, recatos e percalços, raízes pros frutos, poeiras pro chão, buracos e grutas são descobertas, ladeiras pra subir e descer, entre avisos, acenos, horas e ventos, mesmo que não me banhe duas vezes nas mesmas águas, há sempre o retorno e recomeçar. Misturo notícias com retratos, previsões com fatos, o futuro com antiguidades. De tanto passar nunca cheguei. Só vai porque foi, dizem ou não, fechou o que abriu para abertura do que estava fechado: a chuva estiou, o calor das tempestades. A pressa de quem demora, encontro de quem espera. Eu rio e a foto da pose, eu canto e o som gravado, voo o que já fui, sou o que tinha sido e serei, essa a encruzilhada: enigmas que peno por desvendar. Nunca é tarde porque será, o cedo que se distanciou do que vem ao que passou. Sempre assim, entre o privilégio da gratuidade e o pagamento de alto preço, pelas esquinas, correntes, abismos e imensidões. Tudo fizera pra que um melhor amanhã começasse agora, neste momento. E me perco em meus próprios labirintos, confissões que não medem as batidas do coração. Cada qual luzeiros e escuridões. Eu era e não sou, serei o que fui. Assim sou, amém e amem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do maestro, instrumentista e compositor Radamés Gnattali (1906-1988): Sonfonia popular, Retratos & Choros para piano solo; da violoncelista britânica Natalie Clein: Concert nº 1 de Saint-Saens, Concert in C major de Haydn & Sonata in G minor de Rachmaninov; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. 

PENSAMENTO DO DIA – [...] é indispensável realizar uma grande, profunda e duradoura mudança de atitudes, uma mudança de comportamentos. E mudar as atitudes e os comportamentos das pessoas não é impossível, porém nunca é fácilExtraído de La Unesco y la idea de humanidade (Unesco, 2004), do advogado e economista Koichirō Matsuura.

A ARTE & O SER HUMANO - [...] em cada palavra de poeta, em cada criança de sua fantasia, está todo o destino humano, todas as esperanças, as ilusões, as dores, as alegrias, as grandezas e as misérias humanas, o inteiro drama do real, que acontece e cresce continuamente sobre si mesmo, sofrendo e alegrando-se [...]. Trecho extraído da obra Breviário de estética (Ática, 1997), do filósofo, historiador e escritor italiano Benedetto Croce (1866-1952). Veja mais aqui.

ISTO É BRASIL –[...] De um país em crise e cheio de mazelas, onde, segundo o IBGE, quase um quarto da população ganha R$ 4 por dia, o que se esperaria? Que fosse a morada de um povo infeliz, cético e pessimista, não? Não. Por incrível que pareça, não. Os brasileiros não só consideram seu país um lugar bom e ótimo para viver, como estão otimistas em relação a seu futuro e acreditam que ele se transformará numa superpotência econômica em cinco anos. Pelo menos essa é a conclusão de um levantamento sobre a "utopia brasileira" realizado há pouco pelo Datafolha. Esse instituto já em 1997 constatara, em outra pesquisa também nacional, que o brasileiro era feliz com a vida que levava. [...]. Trecho extraído de Retrato do Brasil quando ainda jovem (Revista Época, 2010), do jornalista e escritor Zuenir Ventura.

O TÚNEL PERFEITO – [...] Estarei esvaindo a memória. Ou a memória que se vai estreitando com os espaços de viver? Queria ir onde nenhum homem foi antes. Mas jaziam amontoadas e encardidas as imagens. Como nos lembrarão? Resistia. Ao redor, escombros. O que me basta é a toca. Tem a conformação dos direitos, deveres. Brasas e estão desativadas? Frutos voltam à flor. E a morte envelhece devagar. [...] O paraíso é cair devagar na madureza. E madurar a polpa. Nua, nua é a morte. Não posso ir além da eternidade. Cairei, cairei. Com o fragor de cântaros quebrados. O que aparece, pode se extinguir. Mesmo o vento. Um dia acordarei e a luz será diferente. Em alta rotação. Água de poço cintilando n’água. Entrarei na vida para dentro. Olharei e não haverá mais Túnel. Apodrecido em suas colunas. Murchou o mar e o monte que gorjeava. O Túnel fora. Pedras e pedras desabando. Desmoronou o tempo. O Túnel mudo. E eu ressuscitando na palavra. Trechos extraídos da obra O túnel perfeito (Relume Dumará, 1994), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar. Veja mais aqui.

SONETOSI - E amor não é qual é este sentimento? / Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal? / Se boa por que tem ação mortal? / Se má por que é tão doce o seu tormento? / Se eu ardo por querer por que o lamento / Se sem querer o lamentar que val? / Ó viva morte, ó deleitoso mal, / Tanto podes sem meu consentimento. / E se eu consinto sem razão pranteio. / A tão contrário vento em frágil barca, / Eu vou para o alto mar e sem governo. / É tão grave de error, de ciência é parca / Que eu mesmo não sei bem o que anseio / E tremo em pleno estio e ardo no inverno. II - Longe de Laura inveja a região que a possui / Nem ave em ninho ou fera em selva obscura / Houve triste como eu no apartamento / Desde que se afastara o encantamento / Do sol que o meu olhar sempre procura. / Tenho o pranto por única ventura, / É dor o riso e absinto o mantimento, / E eu vejo turvo o claro firmamento, / E o leito é campo de batalha dura. / O sono é na verdade qual se diz / Irmão da morte e o peito nosso priva / Deste doce pensar que sempre o aviva. / Só no mundo felice e almo país / Verdes ribas e flórido recanto, / Vós possuís o bem que eu choro tanto. III - Se a minha vida do áspero tormento / E tanto afã puder se defender, / Que por força da idade eu chegue a ver / Da luz do vosso olhar o embaciamento, / E o áureo cabelo se tornar de argento, / E os verdes véus e adornos desprender, / E o rosto, que eu adoro, empalecer, / Que em lamentar me faz medroso e lento, / E tanta audácia há de me dar o Amor, / Que vos direi dos martírios que guardo, / Dos anos, dias, horas o amargor. / Se o tempo é contra este querer em que ardo, / Que não o seja tal que à minha dor / Negue o socorro de um suspiro tardo. VIII - Ó Pai, depois dos dias ociosos, / Depois das noites a velar em vão, / Com este anseio no meu coração, / Mirando os atos por meu mal viçosos, / Praza-te, ó lume, que a outros mais formosos / Caminhos e a mais bela ocupação / Eu me volte, fugindo à dura ação / Do inimigo e aos seus meios cavilosos. / Dez anos mais um hoje faz, Senhor, / Que me vi submetido à tirania / Que sobre o mais sujeito é mais feroz. / Piedade tem do meu não digno ardor, / Conduz meu pensamento a melhor via, / Lembra-o de que estiveste numa cruz. XXXII - Quanto mais perto estou do dia extremo / Que o sofrimento humano torna breve, / Mais vejo o tempo andar veloz e leve / E o que dele esperar falaz e menos. / E a mim me digo: Pouco ainda andaremos / De amor falando, até que como neve / Se dissolva este encargo que a alma teve, / Duro e pesado, e a paz então veremos: / Pois que nele cairá essa esperança / Que nos fez delirar tão longamente / E o riso, e o pranto, e o medo, e também a ira; / E veremos o quão frequentemente / Por coisas dúbias o ânimo se cansa / E que não raro é em vão que se suspira. CLXXXIX - Vai o meu barco, cheio só de olvido, / À meia noite, ao árduo mar, no inverno, / Entre Cila e Caríbdis; e ao governo / Vê-se o senhor, melhor: meu inimigo. / A cada remo um pensar atrevido / Parece rir à vaga e ao próprio averno: / Rompe as velas um vento úmido, eterno / De esperanças, desejos e gemidos. / Chuva de pranto, névoa de rancor / Afrouxa e banha os cabos extenuados, / De ignorância trançados e de error. / Foge-me o doce lume costumeiro, / Razão e engenho da onda são tragados; / E eis que do porto já me desespero. CXC - Uma cândida cerva me surgiu / sobre o verde gramado – os cornos de ouro –, / entre dois riachos, à sombra de um louro, / na estação fria, mal o sol se abriu. / Tão doce em mim tal vista se imprimiu, / que por segui-la toda lida ignoro, / como o avarento em busca de um tesouro, / tanto assim meu tormento se evadiu. / Ninguém ouse tocar-me” – escrito havia / no colo, entre topázios e diamantes, / “que eu fosse livre César ordenou”. / Já o claro sol chegava ao meio-dia, / quando eu, de olhos absortos, ignorantes, / escorreguei para a água, e ela escapou. CCXXXIV - Ó minha alcova, que já foste um porto / Às tempestades que cruzei diurnas, / Fonte agora de lágrimas noturnas, / Que no dia, por pejo, ocultas porto; / Ó leito, onde encontrei paz e conforto / De tanta mágoa, que dolentes urnas / Sobre ti verte o Amor com mãos ebúrneas, / Só para mim crueza e desconforto! / Porém do meu retiro e do repouso / Não fujo, mas de mim e do pensar, / Que tanta vez segui num devaneio; / E em meio ao vulgo adverso e inamistoso / (Quem diria?) refúgio vou buscar, / Tal é de ficar só o meu receioPoemas do escritor, intelectual humanista e filosofo italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Veja mais aqui.

AS ESCULTURAS DE PRADIER
A arte do escultor francês James Pradier (Jean-Jacques Pradier – 1790-1852);

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Arte & Entrevista de Luciah Lopez aqui.
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A FOTOGRAFIA DE JORDAN MATTER
A arte do fotógrafo estadunidense Jordan Matter.
 

ADÉLIA PRADO, LOBO DE MESQUITA, CLEMENT TSANG & MOSTRA DE CINEMA ALAGOANO

AS CRIANÇAS BRINCAM - Imagem: arte do artista visual honconguês Clement Tsang - O dia azul e a manhã ensolarada na tarde viva, as crianç...