terça-feira, agosto 18, 2020

MARYSE CONDÉ, GREENAWAY, MIRANDA JULY, RUY GAMEIRO, BIGAS LUNA, NÊNIA DE ABRIL & CINEMA PERNAMBUCANO


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DE DORES & ADEUSES - A cada dia entoar a Nênia de Abril e conto meus mortos ao amanhecer, são tantos, aos milhares, sem que possa velá-los ou sepultá-los, nem aceno de adeus. O meu e o choro dos meus jorram por todos os lugares dos tantos Brasis. Só a frase de Peter Greenaway e o meu desconsolo: As despedidas podem ser belas e desprezíveis. Dizer adeus a quem é amado é muito complicado. Uma mão não pode escrever sobre si mesma. O que dói é não ter esperanças, nenhuma medida preventiva, nem providências: e daí? O noticiário com todas as manchetes escusas, disfarces e orquestrações, é tudo muito pior. Maryse Condé me dá o tom da desgraça: A verdade sempre chega tarde demais porque anda mais devagar que as mentiras. A verdade rasteja no ritmo de um caracol. Enquanto isso tribunais omissos quando não coniventes, parlamento festejando suas manobras, governante piadista às gargalhadas e a pátria em ruínas serve apenas para o descanso de sepulturas. De novo, o mesmo filme.

DUAS CENAS QUANTAS MESMAS EM OUTROS FILMES – Adoro cinema e voo: o escurinho privado, a intimidade tenta imitar a cena: sonho alisando a perna lisa da mulher amada que abriga a minha aflição solitária no deserto do real: são outras cenas que me invadem além da minha imaginação por todo planeta, ou pelos muitos e tantos Brasis. Diante do meu desassossego, a ausência dela me fala Miranda July: Olhe para o céu: isso é para você. Olhe para o rosto de cada pessoa ao passar por elas na rua: esses rostos são para você. E a própria rua, e o solo sob a rua, e a bola de fogo sob o solo: todas essas coisas são para você. Recolho lembranças e projeções, dos muitos filmes as mesmas cenas devoradas.

TRÊS ACENOS TRIBUTANDO MEUS MORTOS – O primeiro, um aceno solidário: sei que muitos se foram quando eu poderia ter ido junto e arrastado todas as recordações dos sonhos de luta por um país melhor para todos nós. O segundo, um aceno de teimosia: mesmo derrotados, persisto em nome do que há de mais sagrado em viver e deixar viver, guardando comigo o que disse Bigas Luna: O êxito é um dos melhores caminhos para a infelicidade. O terceiro, um aceno de paz com a homenagem para os meus que se foram, como o Monumento aos Mortos, do escultor português Ruy Roque Gameiro (1906-1935). Saúdo os que escaparam e os que resistem, precisamos manter a chama acesa e agora mais do que nunca. Até mais ver.

ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA
O drama Era uma vez eu, Verônica (2012), dirigido por Marcelo Gomes, conta a história de uma jovem em fase de transição, que mora com o pai e acabou de se formar em medicina, quando se dedica à vida profissional num hospital público, suas condições precárias e o cotidiano agitado e cansativo.
&
CINEMA PERNAMBUCANO
Um sítio interativo e colaborativo que serve de base de dados online e gratuita do Cinema Pernambucano, concebido, dirigido e organizado por Germana Pereira e Isabela Cribari, disponibiliza a cronologia da história, passando pela filmografia da década de 1920 até a produção contemporânea, com um acervo de mais 400 filmes cadastrados entre curtas, médias e longas metragens nos mais diversos gêneros cinematográficos. Veja mais aqui e aqui.

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segunda-feira, agosto 17, 2020

DRUMMOND, NAIPAUL, HERTA MÜLLER, ÓSCAR RIBAS, JUN IZUMI, KARA WALKER & ZÉ DANTAS


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DE OLORES & ODORES - O meu país é das flores mais cheirosas e dos fedores mais catingosos: entre oásis e misérias. Comigo, o que nos reserva o desenrolar dos acontecimentos: se das orquídeas aos lábios delicados das mulheres, das bromélias, ipês e caliandras, das begônias, camélias e alamandas, dos líros, flor-de-maio e jacarandás, flora colorida e perfumada; se das inhacas as dilapidações e trambiques, as assombrações das lêmures de colarinho-e-gravata, a fé sectária e a hipocrisia, tantas escusas intenções na anamorfose que faz do meu país o reino da picaretagem e tresloucado desgoverno. Ouço Naipaul: Como se, naquele mundo de conflitos que havíamos criado, fosse possível simplesmente pular fora e voltar a ordem do passado! O meu coração se espreme com a estupidez dos que não enxergam um palmo além do nariz. Logo o conselho de Herta Müller como alento: Para combater a morte não precisamos de muito da vida, apenas precisamos que ela ainda não esteja acabada. Assim seja e viva todos nós!

DOIS AROMAS DE PAZ NO MEIO DE TUDO ISSO – Entre o isolamento e a tragédia, a inquietação de saber como será depois que tudo passar, como será o beijo, o sexo, o amor, o afeto, se a normose é o disfarce do que será real, se nada mais será como antes. Entre a aflição e tremores, de longe os olores da música: os solfejos pianísticos da japonesa Jun Izumi: Vivo com o lema: Hoje, mas hoje. E o que ela expressa me soa como um verso de Óscar Ribas: Ao luar ou à chama de uma fogueira, não apenas as crianças sunguilam, seroam, mas também os adultos, em narrações de estórias e adivinhas. Quem me dera embalado numa fábula de sobreviver.

TRÊS ODORES & A REPUGNÂNCIA - O que nos acomete no meio da fetidez dos incompetentes, dos que desgovernam e dos que são indiferentes, já não é mais um risco: o meu país desmorona e quantas notícias-crimes serão necessárias, já não sei, resta desmitologizar tudo que nos embota e empala aqui e agora, na junção de muitas estradas. Tenho a sorte de KaraWalker me dizer entre amável e cética: Não há diploma no mundo que o declare como um artista. Não é como se tornar um médico ou algo assim. Você pode se declarar um artista e então descobrir como ser um artista. Sim, eu sei, quero apenas contar histórias, tal Drummond: tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Até mais ver.

O NORDESTE DE ZÉ DANTAS
Seu doutô os nordestino têm muita gratidão / Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão / Mas doutô uma esmola a um homem qui é são / Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão / É por isso que pidimo proteção a vosmicê / Home pur nóis escuído para as rédias do pudê / Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê / Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê / Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage / Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage / Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage / Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage / Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão / Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! / Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão / Como vê nosso distino mecê tem na vossa mão.
Vozes da seca, a arte do poeta, compositor, médico e folclorista Zé Dantas (José de Sousa Dantas Filho – 1921-1962), cujas canções alcançaram sucesso na voz de Luiz Gonzaga, clássicos do cancioneiro nordestino, retratando em suas letras os costumes do povo, as tradições culturais e o cotidiano de um pedaço do país esquecido pelo poder público. Veja mais aqui.

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sexta-feira, agosto 14, 2020

BRECHT, LILA RIPOLL, PIPILOTTI RIST, LETITIA ELIZABETH LANDON & O RECIFE DE RONILDO MAIA LEITE


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DIALETOS & ALGARAVIAS - Somos uma só língua, quantos sotaques, tantos dialetos. Há os que juram amor eterno & coração na mão, um olho fechado e o outro, nem nem, pálpebra de vigia. Há os que professam fé imorredoura, enquanto dão expediente ora pro santo, ora pro capeta, assim, assado. Há os que vivem e apenas, nada mais, são levados. Também os banguelas que soletram monossílabos esquálidos imitando gnomos e outras invencionices, isso para diálogos verossímeis, quando não coaxam para abolir a gramática, enquanto contam cédulas e moedas, benzodeus. Há os que gostam de solfejar verbo estrangeiro e se passam por imitação de poliglotas para embuste de querelantes inclementes, afinal daqui nada presta, dizem eles peito estufado, vergonha na lama, ora, ora. Há os que contam histórias engravatadas com suas parlapatices bem comportadas de conquistas e vitórias, cheias de lábias enquanto pigarreiam para determinação de preços e ganhos na sua matemática inventada pelas crises manipuladoras das projeções do desastre e se montam na mentira com gracejos deslavados para cócegas na turba hipnotizada. Desses, os que digladiam proparoxítonas decassilábicas com justaposições de étimos a ditar leis carregadas de neologismos, em tons de charadas e adivinhas, e só bestas cumprem por não saberem que os sabidos corrompem salvos pela impunidade com o que é seu e os seus. Afora os que jogam pulhas, latem, mugem, piam e outras onomatopeias impudicas para risadagem ridicularizante de quem quer que seja. Ainda há os que trabalham por não terem tempo a perder e cultuam o acaso à espera de um milagre cair dos céus para usarem seus gestos apontando para tudo onde nada acontece e tudo passa. Ah, têm os que zumbem suas dores no meio da colmeia dos infelizes e resmungam com rangidos de dentes cerrados nas mandíbulas dos guturais exageros. Tem mais e nem sei desses muitos. Só o que Bertolt Brecht provocou: Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la. Somos apenas uma língua e agora não há entendimento, dialetos da nossa Babel.

DUAS DOS VERSOS DITOS & DESDITOS - Meu coração é o eco do nosso desencontro. Até onde sei, estamos na mesma embarcação pela correnteza do incerto. E todos lamentamos e com dizeres diversos a nossa mesma sina. Como sei do Poder das Palavras de Letitia Elizabeth Landon, ela aproveitou e me recitou versos solidários do Peregrino: Volte, com oração e lágrimas, volte / aqueles que choram em casa; / Para secar suas lágrimas, mais use, / Esse é um mundo para viajar. Beijei suas mãos, eternamente grato. Só que soou mais alto os versos de Angelina da Lila Ripoll: Ninguém junto ao leme, /ninguém no comando. As palavras e os versos nas vozes das poetas, de mãos dadas, cantamos o sonho possível da nossa remissão.

TRÊS FOLHAS AO VENTO & UMA CANÇÃO NO PEITO - Nossas mãos eu cantei Entrega. Abri o peito e nossa voz aos ventos medonhos. Os dialetos da outra esquina são muitos Brasis em cada canto, que Deus nos livre do pecado de tudo igualzinho. E seguimos Uma folha ao vento, de Pipilotti Rist: ...em última análise, a uma certa ausência de fronteiras: as folhas são transportadas pelo vento ou pelos sapatos dos transeuntes da entrada da embaixada, e os desejos que se transmitem neles são distribuídos lentamente pela cidade. Somos varridos e onde houver sonhos a vida prospera. Até mais ver.

RECIFE QUIROMÂNTICO
Eis aí o Recife / - a mão aberta. / Difícil cidade fácil, / muito aberta sem se dar. / Todo mundo que a conhece / sabe que ela se conhece, / dispensa apresentações. Espalmada, / meio concha, / aconchegante / num gesto / de consentimento e de entrega. / Assim, / como alguém muito consciente / de seu próprio destino, / que se permite ao aperto / de cada mão que aperta / num gesto / de consentimento e de entrega. / Uma leitura de mão, / quase.
Poema extraído da obra Recife Quiromântico: roteiro sentimental ou repoetagem de uma cidade invicta (Bagaço, 1997), do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009). Veja mais aqui, aqui & aqui.

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quinta-feira, agosto 13, 2020

CARLOS EDUARDO NOVAES, DELACROIX, LUCIA SANTAELLA, BIRGIT JÜRGENSSEN & CAROL DE ANDRADE


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... IDADE, O TRÂMITE DA VIDA - Da infância, os dias fagueiros na companhia de avós, pais, tias e parentes até de um olho só. Todo dia descobria um primo distante, da gente chapinhar no brejo, invadir quintais, inventar presepadas. Todos estavam vivos e a mesa era farta. Da adolescência, as cabuladas de aula, a ojeriza pela marcha ginasial, a indiferença das moçoilas namoradeiras, os bregues constantes pelas escapulidas. Nem me dei conta do amadurecimento, nem aos trinta nem aos quarenta, novinho em folha, com tudo em cima e em dia. Só quando envelheci e a maturidade falou mais alto. Tinha que viver para ver cada coisa de retrocesso nesse Brasilzão e o mundo arrepiado parou de vez. Hoje, entre a quarentena e o genocídio, tal qual o deus Jano, miro o passado e o futuro. Ao me posicionar com esta atitude reflexiva, Delacroix explicita: Esta vida humana, tão breve para as mais frívolas experiências, é para as amizades uma prova difícil e demorada. Para não sofrer, trabalhe. Ouvi-lo e não olvidei: da labuta desde os dez anos de idade, ainda hoje um workaholic e resiliente, sem que tenha amealhado qualquer centavo, aposentadoria tão distante quanto inalcançável, perspectivas de muita mão-de-obra ainda pela frente. Lucia Santaella anima de lá: Agir, reagir, interagir e fazer são modos marcantes, concretos e materiais de dizer o mundo, interação dialógica, ao nível da ação, do homem com sua historicidade. Não sei mais, fecho os olhos e vivo agora, é o que me resta. Vou.

DUAS DE OUTRAS TANTAS DOS DITOS & DESDITOS - Ao fechar os olhos pude refletir melhor entre o apoteótico avanço tecnológico e a desigualdade social, a explosão produtiva e a desertificação de áreas continentais, o estratosférico conhecimento e a indigência intelectual, a riqueza paradisíaca de poucos e a pobreza grassando nas periferias das cidades e para muitos, demais. Contradições tantas quantas ideologias, até o capitalismo emperrar e se engasgar com a pandemia, enquanto direitos são usurpados como se mandonismo fosse um disfarce do que é democrático. Indagar sobre a vida, imediatamente na cara aquela: tudo tem um preço. Hem? Como sempre fui desindinheirado, tudo que tenho é a força do meu braço, é dele que me valho. Foi aí que me vi naquela do Carlos Eduardo Novaes, na sua As Confidências de um espermatozoide careca (Nórdica, 1986): Na verdade há um mundo de sensações a serem exploradas no corpo humano. Para excitar um parceiro você pode trabalhar com as mãos, os pés, os lábios e a língua. Melhor sorrir, como a piada de outro: A história de Cândido Urbano Urubu (Nórdica, (1975). Das companheiras, dei de pronto com Alice naquele A mulher integral (1975): Mas nós não vamos lutar pela igualdade de oportunidades, igualdade de salários, igualdade de direitos, enfim. E essa luta tem que começar aqui. Sim, sim, aquiesci. Aqui e agora, mesmo. Por isso mesmo, ao meditar, só tenho o presente, nada mais.

TRÊS PERSPECTIVAS SÓ COM A DA VEZ – Sim, apenas o presente, mesmo que reduzam a ganhar ou perder, ou empatar, das três, nenhuma: a vida intensa, plena, na condição de que possa ser o último dia. E fazer o melhor porque, na prova dos noves, somando experiências, dividindo emoções, subtraindo o desagradável e multiplicando as esperanças, ninguém amanhã, já que os mais próximos já pinotaram pra outra, os conhecidos estão longe e ao redor só expectativas. Afinal, amanhã nem existe de mesmo, só quando agora, ao flagrar o exato momento em que a fotógrafa e artista visual austríaca Birgit Jürgenssen (1949-2003) me diz: É como estar a par dos segredos do laboratório de um alquimista, animado por suas franquezas e fraquezas humanas. No horizonte quantas direções e lá vou eu. Até mais ver.

A ARTE DE CAROL DE ANDRADE
Em tudo que eu fotografo, eu procuro poesia. Procuro uma forma de passar aquele quadro que eu estou imaginando, aquele recorte lúdico do que é, na verdade, uma cidade caótica. O Recife-sonho seria um lugar com mais gente sentada na calçada, na cadeira de balanço vendo criança brincar na rua. E não o trânsito, barulho e sujeira.
A arte da fotógrafa Carol de Andrade, que é formada em Fotografia pelas Faculdades Integradas Barros Melo (AESO). Veja mais aqui e aqui.

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quarta-feira, agosto 12, 2020

MIGUEL TORGA, HELENA BLAVATSKY, EMMY HENNINGS & ACUPE GRUPO DE DANÇA


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... INVENÇÃO DE ASA - Para quem a pedra se Sísifo sou e muitos para tantas que rolaram ribanceira abaixo, trajetos interrompidos, errâncias no desiderato. Para quem o chão, abrigo e punição, se Anteu sou na imensidão do ermo, desvalido e só, nada mais. Para quem o ar se Ícaro sou entre tempestades e asteroides, voos abissais e em queda livre. Para quem as cinzas se Fênix sou entre ciclones, furacões, tornados e tufões, à deriva pelas correntezas. Dos tantos redemoinhos, a primeira paragem me trouxe Helena Blavatsky: Os ramos da árvore são sacudidos pelo vento; o tronco permanece imóvel. A mais importante de todas as obras é o exemplo da própria vida. Do que sou, apenas invenção de asa.

DUAS ENTRE DITOS & DESDITOS - Juntar os a favor, conto nos dedos e olhe lá. Um... dois? Ninguém. Os do contra, o mundo inteiro. Por ali, não; acolá, muito menos. Por onde? Valha-me! E se era difícil, ficou muito pior. E em dose dupla, arre! Valho-me mesmo da invenção de asa. Não dá pra ser de outro jeito, nunca mais alvíssaras. Ouço Miguel Torga: Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade. Essa a lição: ou tudo, ou nada. Para quem não tem nenhum, resta mesmo começar sempre do zero para ver se um dia uma combinação binária dá certo. Voo.

TRÊS: A DANÇA DO ARCO-ÍRIS – Era eu ainda menino quando me contaram sobre a lenda indígena da dança do arco-íris. Era quando o chão dava umas sacudidas da gente não parar em pé, cada sopapo. Era assim: um dia fui caçar e ao tentar acertar uma ave, errei a pontaria. Puxa! Nenhuma novidade nisso. Sim, a flecha enfincou-se no chão e, ao puxá-la, vi que havia uma fenda: era um outro mundo. Eita! Espantei-me e avexado tampei o buraco e fui embora. Fiquei em casa matutando. Não contei para ninguém, tá doido? Dias depois, a curiosidade me levou de volta. Fui lá. Criei coragem e desci pela fenda, às escondidas. Declive íngreme, escorregava, me segurava como podia. Insisti. Um longo tempo descendo, maior dificuldade. Até que escapuli e caí não sei onde. Era um lugar muito bonito. Foi surpreendido pela recepção de uma linda índia: Aqui é o mundo das nuvens. E é? Encantado e tímido, entabulamos conversa, cheios de interrogações. Esse sou eu e você? Patati, patatá, conversamos muito e me esqueci de voltar. Todos os dias, ela lá, aquilo é que era paraíso. E me ensinava coisas maravilhosas, até deu-me de presente um cristal que toda vez que o Sol brilhava nele abria-se um lindo arco-íris que a gente corria para escorregar e conhecer outros tantos mundos maravilhosos. Minha nossa! Enquanto caminhávamos ela bailava entre pássaros e árvores, a recitar poemas que me tocavam a alma, linda demais. Depois de muitos encantadores passeios, perguntei-lhe o nome: Emmy Hennings. Hem? E me recitou A última alegria (Segundo poema de Die Letzte Freude): A chuva bate nas janelas. / Uma flor brilha em vermelho. / Ar frio sopra contra mim. / Estou acordado ou morto? / Um mundo está longe, longe / Um relógio bate quatro vezes lentamente. / E eu não sei por quanto tempo / em seus braços eu caio. Aí eu acordei, era um sonho mais que real. E ela, a escritora, bailarina e atriz alemã Emmy Hennings (1885-1948), integrante do Cabaré Voltaire com inestimável contribuição para o Dadaísmo. Veja mais aqui.

ACUPE GRUPO DE DANÇA
O desejo de saber o que é o amor esbarra no que não pode ser dito com palavras.
O Acupe Grupo de Dança foi criado em 2007 e coordenado pelo produtor cultural, bailarino e arte-educador Paulo Henrique Ferreira, para fomento da criação artista em dança contemporânea no Estado de Pernambuco, oferecendo cursos de formação. Nas comemorações de 10 anos, em 2009, o grupo encenou o espetáculo Banquete de amor e falta, com dramaturgia de Flávia Gomes e reflexões nas perspectivas filosóficas e psicanalíticas acerca das possibilidades de amar, a criação de movimentos e como essas dinâmicas se modificam. Em 2019, o grupo comemorou 12 anos de trajetória com a temporada do espetáculo Tijolos do esquecimento, criado a partir da obra Cidades invisíveis, de Italo Calvino, com uma dramaturgia da poeta Flávia Gomes, propondo um mergulho imaginário urbano e na memória afetiva da cidade. (Foto: Rogério Alves). Veja mais aqui e aqui.

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terça-feira, agosto 11, 2020

FERNANDO ARRABAL, LIZA LOU, KABENGUELE MUNANGA, ENID BLYTON & VILLARES


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DO APOCALIPSE JÁ! - Meu olhar vai além da minha rua estreita onde eu moro, extrapola meus limites e a cidade é repleta dos passos daqueles que precisam cavar o ganha-pão e que são muitos no paroxismo da fome e cruzam outros tantos famélicos do consumo com suas gargalhadas alheias à mortandade, como se uma festa sobre cadáveres para celebrarem as explosões de Beirute e as chamas de um posto em Volgogrado e as cinzas nuvens da erupção do Sinabung lá de Sumatra, só que tudo aqui e ao mesmo tempo. Ouço o alarido entre vozes que sussurram um Pai nosso que estais no banco, duzentos reais, por favor! Ave Maria cheia de grana, uma moeda de real ao menos! Jesus, manda um milagre aí, vai! Seja louvado! E nos templos do tórax dele saísse um implacável para queimar no inferno aqueles que se encontrassem lá fora da fé geral que é só deles! Ah, nada de mais, só ameaça do vírus rondando com as queimadas amazônicas e pantaneiras, passando boiada e lucros, como se a cena mostrasse quem pisasse pescoços, joelhos espremessem faces no asfalto, mãos ao alto e a desordem dos que mandam! Há quem grite no meio do pandemônio: Cidadão, não; beije meu anel que sou doutor e melhor que você! Quantos sonâmbulos desumanos! Alguém sobrevive aí? Não sei, só a normose fabricada na loucura racional econômica – alguém bate o olho, pelo menos? Não, estou submersos ao zoadeiro no pé do ouvido, até no baticum há quem diga: se eu não endoidar, eu morro! E atiram sua fuzilaria em todas as direções, chafurdam e se empulham com a indigência dos bestializados: aviltar não é nenhuma novidade com a liderança da estupidez porque tudo parou em ponto morto. Querem apenas qualquer coisa para se livrarem do tédio, como se comessem filé na latrina, e os outros que se danem comendo ratos, pouco importa. Cenário dantesco, há quem precise desanuviar, mesmo que tudo esteja destroçado, desunião geral. No pandemônio, Kabenguele Munanga me diz algo e quase nem consigo ouvir: É preciso unir as lutas, sem abrir mão das especificidades. Nosso racismo é um crime perfeito. Não sei aonde vamos, se é que sabemos parar, só a vertigem dos fatos.

DUAS DOS DITOS & DESDITOS: OUTRA VEZ ENTRE TANTAS OUTRAS – Não dá para raciocinar direito, tudo muito rápido. Estou como quem errasse o alvo sem nunca ter acertado mosca alguma, mesmo que me valha dos meus bons antecedentes, enquanto macróbio no orgulho de outras idades, outrora tão firmes, sempre encontrava uma saída e agora não mais, só a surpresa do torpor geral. Enid Blyton me avisa: Acho que as pessoas fazem seus próprios rostos, conforme crescem. Os olhos dela, a face dela linda e eu não sei, nos outros são muitos disfarces, máscaras sobrepostas, devem ter lá suas razões, talvez dissimulações para se defenderem dos seus próprios simulacros. Não sei, talvez eu nem saiba que a pedra filosofal fosse um caleidoscópio e, por um instante, eu tomasse pé da situação, mesmo que para isso fosse nada mais que meu próprio equívoco, não sei, estou aqui.

TRÊS RELANCES DA PEDRA FILOSOFAL, CENAS E ESTÁTUAS - Sou quase cenas de Fernando Arrabal e uma criança diante do assassinato do pai tivesse o exílio só porque me disseram e não ouvi direito que tinha que amar o meu país e me sacrificar por ele, e que me orgulhasse dos heróis fabricados pelo comando e respeitasse a ordem implantada para denunciar os traidores e odiar os inimigos e que eu não fosse tão inflexível a ponto de desobedecê-los nem desconsiderá-los. Mas eu sabia: Os fanatismos que mais devemos temer são aqueles que podem ser confundidos com tolerância. Sim, como você a minha Melilha é o meu desterro na França, também preciso evitar a loucura a qualquer preço: Portanto, devo praticar algumas formas falsas de loucura. E ter uma falsa vida e me enganar o quanto for possível, fazendo de conta, para na intimidade eu possa entrar em convulsão e cometer a arte de Liza Lou, ouvindo-a escondido: Você é atraído pelo grande volume de material, forma, cuidado e amor. Meu trabalho quase argumenta que o prazer de olhar faz parte do que é estar vivo. Sim, sei o que vejo e deixo que me vejam como se estivesse completamente enganado de tudo, a fazer de conta que vou com eles no redemoinho deles porque eu sou tal como e neles vida e sonho.

A ARTE DE VILLARES
A arte do escultor, pintor, desenhista e caricaturista Lauro de Vasconcelos Villares (1908-1987). Veja mais aqui.

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segunda-feira, agosto 10, 2020

BARBARA KRUGER, RAUL PASSOS, MALEBRANCHE, BLANCA VARELA, LÉLIA GONZALEZ, CIRCO & OS ESCRITOS DO RECIFE


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DA QUARENTENA AO OZÔNIO NO TOBA: Olá, gentamiga! Depois duns dias de descanso merecido, nem havia coragem para retomar agora as atividades. Contudo, acontece tanta coisa nesses tantos Brasis aloprados, que não dá para cochilar na risadagem. Sei, de antemão, que não é de bom tom rir da desgraça alheia. Mas a estupidez dos coisominions & o terraplanismo médico passou das contas, que o diga Nicolas Malebranche: A imaginação é a louca da casa. Só é, haja pano pras mangas estupidológicas. Principalmente diante das alarmantes estatísticas dando o teor da nossa tragédia desgovernada. Não dá para resistir diante das recomendações da cloroquina & hidroxicloroquina, ivermectina & outras baboseiras do negacionismo descarado, agora com a prática da ozonioterapia no reto! A ponto de se arvorar batendo nos peitos: Em breve o Brasil todo ozonizado! Coisa de enrustidos que se mostram homofóbicos, só sendo. Ou de quem apela pro benefício emergencial e não deu em nada. Eu que não vou expor meu frosquete e sair com blábláblá feito um pato rouco por aí, nem amarrado! Vou mesmo com o Currículum da Blanca Varela: digamos que ganhaste a corrida / e que o prêmio / fosse outra corrida / que não bebeste o vinho da vitória / mas teu próprio sal / que jamais escutaste ovações / mas latidos de cães / e que tua sombra / tua própria sombra / foi tua única. Aprendi demais, desaprendi de menos para tanto. Veja mais aqui.

DUAS: AQUELA OUTRA DOS DITOS & DESDITOS - A discriminação é altamente nefasta. Parece mais que ninguém se deu conta das previsões constitucionais vigentes, nem o tanto de marco legal para combate. A torto e a direito flagrantes inexoráveis, sem falar do disfarçado Efeito Matilda execrável. Lélia Gonzalez nos dá o tom do descalabro: Estamos cansados de saber que nem na escola, nem nos livros onde mandam a gente estudar, não se fala da efetiva contribuição das classes populares, da mulher, do negro do índio na nossa formação histórica e cultural. Na verdade, o que se faz é folclorizar todos eles. No momento em que começamos a falar do racismo e suas práticas em termos de mulher negra, já não houve mais unanimidade. Nossa fala foi acusada de emocional por umas e até mesmo de revanchista por outras; todavia, as representantes de regiões mais pobres nos entenderam perfeitamente (eram mestiças em sua maioria). É o que nos sobra destes tantos & muitos Brasis arrevirados e de porteiras escancaradas, gentamiga!

TRÊS: DO CIRCO ITINERANTE - Hoje tem espetáculo? Tem, sim senhor! Todo dia terá! O Circo Itinerante flagra tudo do Oiapoque ao Chuí, das beiradas do Atlântico até as bandas do Pacífico. Em cena pode estar o que não é nada agradável aos olhos, o cotidiano das mazelas e o imprevisível. O que nos salva é o solo do piano com Oblivion de Raul Passos: Tua dúvida, minha ciência / - Porque eu me debruço em ti / Pareces não estar ali - / Não fuja! / És uma ilusão cristalizada / Amargo pensamento de amanhã / - Lamento ou lamúria vã - / Não fale! / Madrugada imaterial - tesouro ardente / Tua sombra, vago relance... / Te peço, para que eu descanse, / Não durma! Ou o recado inflamado Barbara Kruger: Ver não é acreditar. A própria noção de verdade tem sido posta em crise. Em um mundo inchado com imagens, estamos finalmente aprendendo que as fotografias de fato são mentiras. Assim, a gente aprende a discernir do que é e não, o que deve ser feito e o necessário para viver e deixar viver neste tempo e mundo.

O RECIFE DOS ROMANCISTAS
A publicação O Recife dos romancistas: paisagens, costumes, rebeliões (FacForm, 2010), organizado por Abdias Moura, reúne textos Clarice Lispector, Josué de Castro, Mauro Mota, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Osman Lins, Paulo Leminski, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Franklin Távora, Aguinaldo Silva, Amílcar Doria Matos, Raimundo Carrero, Gilvan Lemos, Evaldo Cabral de Melo, Luzilá Gonçalves Ferreiras, Josefa de Farias, Luis Jardim, Israel Felipe, Gastão de Holanda, Bernardo Freire, Mário Sette, Luiz Delgado, Jonas Taurino, Bernardo Guimarães, Lucilo Varejão, Perminio Asfora, José Nivaldo, Theotonio Freire, Faria Neves Sobrinho, Zeferino Galvão, Carneiro Vilela, Manoel Arão, entre tantos outros. Veja mais aqui.

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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...