segunda-feira, abril 08, 2024

ALICE FLAHERTY, ELMA MURRUGARRA, CHANTAL AKERMAN & ARREIA!...


 Imagem: Acervo ArtLAM.

Costumo chamar meu piano de minha casa, minha primeira morada. Porque depois de comer, dormir e fazer as coisas do dia-a-dia, o que faço há mais tempo na minha vida é tocar piano... Mas ser brasileira e viver no Brasil é estar imersa nesta complexa cultura de muitas misturas e singularidades culturais muito ricas. As músicas, os sons, a corporeidade brasileiros nos habitam...

Ao som de Homenagem a Kilkerry (2005), Tríplice andar (2013), Vivaldiana (2017) e Hinos de Pendências (2022), da compositora e professora Denise Garcia, autora da obra inédita C.A.C.O.S. (Celebração da Arte e Cultura Ocidental Sinfônica). Veja mais aqui.

 

TRAJETÓRIA DO LUGAR, ARREIA!... - Duma margem à outra do Una: tudo podia acontecer. E se do lado de cá os Ambulantes de Deus atravessavam a cidade nos burburinhos de lestoeste ou vice-versa, do lado de lá não só havia Paul: ventos austrais das quenturas equatoriais traziam o pipoco da guerra e peido de véia pelos dias de Sol ou chuva - não era nada daquilo que queriam, mas só o que lhes restavam. Mais que entre parênteses: numa banda o alvoroço de curumins, cunhatãs, curibocas, quilombolas, Ganga Zumba de Amaro, Zumbis de Macaco, andorinhas, calungas, ticoqueiras, todos como se fossem os condenados de Fanon espiando a almadia caeté dum lado pro outro. Na outra se via o povo descendo só pra ver a previsão das enchentes, no meio de açucarocratas e cheleléus, cangalhas e zambetas, tão enfáticos quanto ruidosos e nenhum decoro pra destruição do passado e sucessão de golpes dos bedeguebas de mal-assombro, gente famélica metida a grã-fina que vinha da procissão de homúnculos com seu andor medievo, estupidificados como os que precisam do olhar alheio para se orientar, vida tão mais sem poesia, gente que saía aos montes dos esgotos. Entre os que vinham e iam, topei: Joab, mô fio, pronde cê vai? Tomar uma, a hora está avexada. Logo atrás quase nem vi: Como é que foi, Iolita? A meninada cresceu... E a gente de velho mais menino: será a Besta Fubana? Não, não era. Era o duo de Iara & Ísis Campos no apogeu do espetáculo: Arreia! E a gente renascia caboclinhos do Rabeca, no sopro de Veludo do pife, quantos carnavais da infância e isso era mais que vida. Arreia! E ataviaram jactando-se com itapabas que vinham de Capoeiras, e se enfeitaram de festa com as igapebas das Alagoas, e proveram remelexos com os piperis de Bonito, e folgaram com os candandus de Catende e catamarãs de Pirangi, e arregaçaram arrearre! E adernaram pelas águas pretas até a foz da coroa grande: Arareia! Arreia! Ah-rá! E quando a hestória começou, big bang! O carão das horas, já era tarde, parecia. Havia bem não sei quantos anos, sem o que dizer no porém, para saber de Morgan Llywelyn: Se quiser ter paz, paz genuína, você deve aceitar todos os aspectos da sua personalidade e aprender a se sentir confortável com eles... Entretido com a frivolidade do festeiro, nem dei conta do que dissipava diante do Lobo do Mar de London, com meus naufrágios teratológicos na ilha de outras terras: haveria de passar a noite e o dia depois, e nenhuma lisonja naqueles olhos perturbadores de nunca mais, mas nunca mais mesmo. Arreia! E Simbad não era; a maldição dum pseudo-Anteu, talvez. A vida não terminava com o fechado das portas, cada qual a sua própria escuridão. Quase nem ouvi Charlaine Harris: Não procure problemas; já está procurando por você... Às vezes você só precisa se arrepender das coisas e seguir em frente... Era tarde demais pra isso e o desjejum era meu epítome na catalepsia das escolhas e quase nenhuma alternativa: só desmascarei meus equívocos com os dos outros e, se deu certo, só me arrebentei em todos os evidentes sinais de alerta, os encontros esparsos, a fuga iminente – era uma ameaça que havia deixado pra trás. O que me dizia Ida Lupino: Há beleza na imperfeição. Quero capturar os momentos crus e autênticos que nos tornam humanos. Há sempre mais para descobrir e explorar. Não tenho medo de correr riscos. As maiores recompensas vêm de sair da sua zona de conforto e desafiar a si mesmo... Era uma única vez & alguns dias & sobrevivente náufrago com o castigo da intimidade revelada: era só o Nito da Zezé. Os dias nos olhos, coração adentro jangada de vara eu voo, ressurreto das encruzilhadas... Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

TERRA - aqui onde a vassoura já não floresce e o altar do fogo sagrado foi extinto pelos ventos do leste, um homem em pura raiva arrancou a perna de outro homem, uma mulher deu à luz silenciosamente o filho de seu pai e uma criança nasceu dormiu. abraçados pelo desgosto, ninguém se conhece, ninguém se reconhece, isso é o terrível, a poeira enterrou quase tudo.

ATANÁSIA - Eu sou a tempestade filha de Hera e Zeus \ que, como seu pai, chronos \ às vezes eles me engoliram vivo \ cansado disso \ certa noite \ Eu roubei uma pedra de Deucalião \ e solicitei a permissão das Moiras \ então eu cortei o fio \ Eu joguei a pedra \ e eu me criei \ Depois do sétimo jejum tomei banho de sol \ nu ao lado de Asclépio \ fora \ às portas do hospital \ até uma quarta-feira \ Subi às colinas agostinianas \ e hoje estou sentado à esquerda de Apolo \ e a partir daí eu zombo dos saudáveis e dos doentes.

Poemas da jornalista e poeta peruana Elma Murrugarra, autora dos livros Jogos (2002), A Função dos Destinos (2004), Al Sur en Caral (2006) e Cuentos de Domingo (2009).

 

UMA FAMÍLIA - [...] Eu sei que isto me cansa mas tudo me cansa de qualquer forma sou uma pessoa cansada exceto quando por vezes me esqueço de mim mesma. [...]. Trecho extraído da obra Una familia en Bruselas (Tránsito, 2021), da premiada escritora e cineasta belga Chantal Akerman (1950-2015), que ainda se expressa: Nunca me considerei estranha ou diferente de alguma forma... Eu apenas tinha um jeito, um jeito que era meu e somente meu. Um jeito que talvez fosse um pouco peculiar, mas gostei disso. Gostei do fato de as outras pessoas não serem estranhas da mesma forma... Senti que ser estranho me convinha... Minha estranheza tinha algo, pensei. Um estilo. Um estilo que me pertenceu. Aí virou um hábito e não pensei mais no meu estilo estranho, era assim que eu era e pronto... Veja mais aqui.

 

DOENÇA DA MEIA NOITE – [...] O cientista que há em mim teme que minha felicidade nada mais seja do que um sintoma de doença bipolar, hipergrafia de um distúrbio pós-parto. O resto de mim pensa que separar artificialmente o cientista que há em mim e o escritor que há em mim é na verdade uma espécie de transtorno bipolar cultural, que muitos de nós temos. O cientista pergunta como posso chamar minha vocação de escritor e não de vício. Não vejo mais por que deveria fazer essa distinção. Sou viciado em respirar da mesma maneira. Escrevo porque quando não escrevo é sufocante. Escrevo porque algo muito maior do que eu entra em mim e enche a página, o mundo, de significado. Embora eu tema constantemente que o que escrevo esteja à beira de ser falso, essa força que me move só pode ser real, ou nada jamais será real para mim novamente. [...] Como a poesia e a literatura poderiam ter surgido de algo tão plebeu quanto o equivalente cuneiforme dos códigos de barras dos supermercados? Prefiro a versão em que Prometeu trouxe a escrita dos deuses ao homem. Mas então lembro a mim mesmo que… não devemos ser muito meticulosos sobre a origem das grandes ideias. Em última análise, todos eles vêm de um órgão enrugado que, quando mais saudável, tem a cor e a consistência de uma pasta de dente e, no final, apenas murcha e morre. [...] O que os prisioneiros fazem? Escreva, é claro; mesmo que tenham que usar sangue como tinta, como fez o Marquês de Sade. As razões pelas quais escrevem, as restrições extremamente frustrantes da sua autonomia e o facto de ninguém ouvir os seus gritos, são todas as razões pelas quais as pessoas com doenças mentais, e mesmo muitas pessoas normais, escrevem. Escrevemos para escapar de nossas prisões. [...] Na medida em que a autoexpressão transmite e reforça o caráter de uma pessoa, ela esclarece a ligação entre arte, excentricidade e doença mental. Quanto mais parecidos com nós mesmos nos tornamos, mais estranhos nos tornamos. [...] O impulso de escrever produz um primeiro rascunho; é o desejo de escrever bem que produz o segundo, o terceiro, o vigésimo. [...] Nunca consigo esquecer a possibilidade de bloqueio. Paradoxalmente, é isso que impulsiona a minha escrita – obrigando-me a deixar todo o resto de lado devido à possibilidade de que hoje seja o último dia em que poderei escrever. É outra maneira pela qual o bloqueio de escritor às vezes não é o oposto da hipergrafia, mas a causa. Talvez os escritores pudessem recuperar o conceito de bloco, já que São Jerônimo, em seu estudo, usou um memento mori (uma caveira, ou uma ampulheta com as areias do tempo escapando) para conduzir seu trabalho, naquelas lindas pinturas renascentistas. [...] Os escritores têm mais depressão unipolar do que o resto da população; os mesmos estudos que encontraram uma incidência dez a quarenta vezes maior de doença maníaco-depressiva em escritores encontraram uma incidência oito a dez vezes maior de depressão unipolar. [...]. Trechos extraídos da obra The Midnight Disease: The Drive to Write, Writer's Block, and the Creative Brain (Harper Paperbacks, 2005), da neurologista, educadora e pesquisadora estadunidense Alice Flaherty. Veja mais aqui.

 

PÓ EXISTENCIAL

Imensidão de vagos \ evacuando na inanidade \ da vacuidade \ em viagem infinda \ de vácuo absoluto. \ Sentido, sem direção. \ Sentido, sem solução. \ Sentido, sem sentido.

Poema Vacuidade de sentido, extraído da obra Pó existencial (Criaart, 2024), do poeta e artista plástico José Durán y Durán. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

&

MEMÓRIA MATA SUL

Autogestão da Memória, Museus Comunitários e Museologia Política - De 11 a 13 de abril de 2024 Cidade dos Palmares, Mata Sul/PE. A oficina-vivência Autogestão da Memória, Museus Comunitários e Museologia Política em Palmares acontecerá na sede da Biblioteca Pública Fenelon Barreto, reunindo 25 articuladores de Movimentos Sociais de Buíque, Escada, Jaboatão dos Guararapes, Jaqueira, Olinda, Palmares, Paudalho, Paulista, Recife, Rio Formoso, Vitória de Santo Antão e São José do Egito. A articulação da ELMP na Mata Sul ocorreu em parceria com o Movimento de Retomada Mata Sul Indígena, Amigos da Biblioteca (ABI) & Semed-Palmares – Biblioteca Fenelon Barreto.

&

ARREIA!...

Espetáculo de dança da arte-educadora, bailarina, atriz e performer, Íris Campos, e da artista da dança e do teatro, arte-educadora e produtora cultural, Iara Campos, com enredo que constrói relação entre o universo dos sonhos e a criação da agremiação Caboclinho 7 Flexas do Recife, construindo uma narrativa que honra a ancestralidade indígena, inserindo novos conceitos de preservação da manifestação. O espetáculo conta com a direção de Paulinho 7 Flexas. Arreia. Dias 12 e 13 de abril, 20h, Teatro Cinema Apolo – Palmares - PE. Veja mais aqui.

 

UM OFERECIMENTO: SANTOS MELO LICITAÇÕES

Veja detalhes aqui.

&

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Curso: Arte supera timidez aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 

segunda-feira, abril 01, 2024

CECILIA VICUÑA, MELBA ESCOBAR, FREDRIC JAMESON, UMBILINA & AUTOGESTÃO DA MEMÓRIA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Pure (Decca Records, 2003), do DVD Live from New Zealand (Decca Records, 2004) e Pie Jesu – Vietnam no National Memorial Day Concert in Washington (2011), da soprano neozelandesa Hayley Westenra.

 

UMA QUASE CANÇÃO DE AUTOEXÍLIO... - Já morri duas vezes: a primeira aos 10 anos de idade; a outra, aos 23 – afora outras tantas passageiras no meu dia-a-dia. Como a morte se abestalhava, escapulia. Mas antes de anteontem ela reapareceu. Quem não desespera com a presença dela por perto? Ao contrário dos estereótipos todos, ela era fascinantemente sedutora. Achegou-se com elegância, aboletou-se ao meu lado e não perdeu tempo: E a vida, hem? Apesar dos pesares, muito bonita: É bom viver! Além de linda, sabia, era inarredavelmente poderosíssima! Ela, então, estalou os dedos e um caleidoscópio instantâneo fez-se filme com todo inventário humano: guerras, fome, injustiças, misérias. Isso é bom? Não. A quem você quer enganar? Tudo era impressionante e insistia em meus olhos não aceitar nada daquilo: uma flor desabrochava, uma criança estendia a mão, um gesto de solidariedade na esquina... Pode sonhar! Só acontece mesmo na sua cabeça de tolo. Não acredito. Quer subestimar minha inteligência? E disse-me Dorothy Eden: O perigo, claro, residia na sua curiosidade, na sua inteligência e nos seus olhos obstinadamente observadores... Sempre prestei atenção a tudo no mundo e na vida. Lendo-me os pensamentos sussurrou: Memento mori... Ao invés de mim isto deveria ser pronunciado pros que se acham donos do mundo e das coisas, surpreendendo os valentões, os ricaços de todos os mandos e os fanáticos da fé. Fitou-me grave e, novamente, os seus dedos agitaram no ar apontando para um salão que surgiu de repente e, no bico da quina do adeus, lá estava: a rainha neandertal ressuscitara mais agnotológica que antes, com suas muitas formas ageótipas de se mostrar tão bela e metida com seus bruxedos medievais - carecia de espiar direito ali os seus zis e ardilosos disfarces. Estava a dita ressurreta ali envolvida com uma romaria escatológica e um coro tóxico aos berros cantantes: A humanidade fracassou! Glória, Jesus! O além-humano morreu! Aleluia! Era uma louca Babel e tudo girava em delírio, como se o come-cu (STSS) devorasse silenciosa e mortalmente as suas entranhas. Uma cena deprimente aquela, mais uma. E o pior era a constatação de que a arte, a filosofia, as ciências, todas sucumbiram àquele ato, ali enterradas definitivamente. E logo vi todos se aprontarem para possante marcha sob os supostos auspícios do todo-poderoso deles. Oh! Era um sinal de rasga-mortalha: o mundo vai acabar! Arrodeavam o cerimonial de uma cova dantesca com enorme pedra sobre. Se era aterrorizante, o medo a favor. Muito desesperador. Enquanto presenciava tudo aquilo, a atraente parca visitante roubava a cena cochichando ao meu ouvido Cressida Cowell: As ações têm consequências e um preço deve ser pago; há coisas que não podem ser desfeitas... Era um alerta e me fez sofrer tanto de ficar com o juízo meio mole. Coisa boa aquilo não era, a insônia de Cioran. Sim, eu me sentia bipolar: uma montanha russa no escuro, cético, niilista. Tal Mark Twain diante de um urso polar, com minha amnésia infantil - cada um com a sua loucura: incompleto, finito e o inesperado esmagador. A senhora libitina percebeu o quanto tudo aquilo calou fundo dentro de mim: mais uma das minhas tantas quedas num poço sem fundo da já inexistente Alagoinhanduba. Socorreu-me remediável com a presença do Eduardo Marinho que aparecera alheio a tudo e pude levar um lero feito o emancipador conversável do Agostinho da Silva. Toda reunião desconfortável desaparecera. E a madame do exício sorriu com o meu pronto restabelecimento puxando-me a um canto secreto e beijou-me: Vá! Apressei o passo cada vez mais longe, ao deus dará! Sentia-me uma andorinha enfrentando sozinha todos os predadores algozes. Escapei fedendo, a alma quase se perdendo de desencarnar de vez pelo barro batido do caminho estreito e mais não tivesse a esperança inútil, o coração esmagado - a morte só poderia ser vida: o passado e tudo que já foi agora é dela. Ao meu ouvido sua voz ecoava Bella Akhmadulina: Quem sabe - a eternidade ou um momento \ Eu tenho que vagar pelo mundo. \ para este momento ou esta eternidade \ Agradeço também ao mundo... Sobrevivi aos seus múltiplos encantos e estou aqui, pela terceira vez, pronto pra contar hestória. Até mais ver.

 

A CIGANA ADORMECIDA

(Um leão cuida de seu livro de sonhos)

Imagem: Acervo ArtLAM.

La Gitana escreve há anos um trabalho secreto \ que ninguém nunca saberá, \ mas já começou \ para ser realizado na vida real. \ Enquanto ela continua a sonhar \ Seus sonhos compõem o mundo. \ O leão, porém, não posso dormir. \ Se você parar de observá-la, \ ela poderia acordar e nós desaparecemos imediatamente.

Poema da poeta e artista chilena Cecilia Vicuña. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

LA CASA DE LA BELLEZA - [...] A verdade é necessária quando há justiça. Mas a verdade sem reparação envenena a alma [...] Desde que me lembro, tivemos que cuidar de nossa segurança. Eu sou loira, olhos azuis, 1,75 de altura, algo cada vez menos exótico no interior, mas na minha infância tudo um ás na manga para ganhar o carinho das freiras e o tratamento preferencial dos meus colegas, bem como um foco de atenção que no caso do meu pai se tornou paranóia de um sequestro que felizmente nunca aconteceu na família, riqueza e traços Os anglo-saxões contribuíram para o meu isolamento. [...] Sua mãe, apenas dezesseis anos mais velha que ela, já foi a rainha do bairro, então Ela pensou que iria acabar pobre, mas acabou grávida de uma loira que falava pouco espanhol e que ele presumiu ser um marinheiro. Dessa visita furtiva de amor, a mulata que Ela compartilhou com a mãe não apenas seu sobrenome, mas também sua beleza e escassez. [...] Entre os apitos dos carros ele avançou saltando por poças de água até chegar à corrida 11, onde Ele embarcou em um ônibus em ruínas […] Um menino de cerca de onze anos entrou para vender balas. Ele disse que foi deslocado de Tolima. Ele disse que tinha quatro irmãos. Ele disse que era o “chefe da família”. Karen Ele enfiou a mão na bolsa e entregou-lhe quinhentos pesos antes de ligar para o ponto. [...] Ao cruzar a centena, ficou atordoada com as buzinas, a fumaça do escapamento, os ônibus verdes e tão antiga quanto a fome de quem pede esmola […] Algumas mulheres, quase sempre negras ou indígenas, com os filhos pendurados no peito ou nas costas, seguravam a criatura em um mão, o papelão na outra, o pote para receber moedas debaixo do braço, numa lamentável equilíbrio sempre atento à mudança de luz. Ao ficar vermelho, mendigos, deslocados, bandidos, viciados em drogas, aleijados, charlatões, desempregados, analfabetos, Abusadas, mutiladas, crianças e mulheres grávidas assaltam veículos em espetáculo diário tão repetitivo e previsível que já não surpreende ninguém. [...] Minha mãe morreu quando eu tinha onze anos. Sempre fui bastante feio. Em todo caso, nenhuma beleza. Eu sabia pouco sobre homens e relacionamentos, sabia principalmente por meio de livros. Decidi ser psiquiatra porque cresci ouvindo meu pai comentar casos e parecia o mais natural. [...] Ainda me lembro daquela vez em que ele me chamou de “mamãe”. Eu estava distraído olhando o jornal, Perguntei uma coisa para ele, se ele tinha marcado consulta no urologista, alguma coisa assim, e sem levantar O chefe do jornal me disse: “Não, mamãe”, aí ele ficou vermelho de vergonha e o que ele me disse Isso me deu um ataque de riso. [...] A verdade é que Karen Marcela Ardila, por ter nome do meio, era O sorriso permaneceu desde que ela ganhou o prêmio Colombian Girl, aos oito anos. anos. Sua persistência no gesto era tanta que quase não conseguia mais controlá-lo. Ele sorria o tempo todo momento, mesmo quando a situação era triste ou dramática, outra razão pela qual Jamais poderia apresentar algo diferente do segmento de entretenimento. [...] Karen sabia, sua mãe lhe dissera, que o maior infortúnio de sua mãe fora dar à luz uma mulher porque "os homens fazem o que querem, enquanto as mulheres "Fazemos o que temos que fazer." Karen lembra que tinha treze anos quando a ouviu dizer isso. De Então ele se perguntou, com cada mulher que conheceu, se ele realmente fazia o que queria ou o que queria. essa foi a vez dele. [...] Suas conversas com ele estavam se tornando cada vez mais um ritual dominical e ela temia que com a passagem Com o tempo ela se tornou uma daquelas mães que um dia foi trabalhar no capital, com quem aos poucos o tema da conversa se perdia nas ligações todas as vezes mais curto e mais esporádico [...] “Quando você vem, mãe?”, ele disse finalmente. Já fazia tanto tempo Eu não liguei para a mãe dela. Ao ouvir aquela palavra ele se sentiu distante. [...] Aquele cheiro de terra do mar, de água do mar [...] tirando uma soneca na cadeira de balanço e a mãe preparando bolinhas de tamarindo na varanda de casa, e dizendo “menina, não me procure”. porque você vai me encontrar", porque ninguém mais a chama de menina, ninguém mais a procura, muito menos ela. encontra, ela não se encontra mais, muito menos sabe onde está, cada vez mais perdida, cada novamente aqui e ali ao mesmo tempo e ainda em lugar nenhum ao mesmo tempo. [...]. Trechos extraídos da obra La Casa de la Belleza (Planeta, 2017), da escritora e jornalista colombiana Melba Escobar. Veja mais aqui.

 

ANTINOMIAS DO REALISMO - [...] Observei um desenvolvimento curioso que sempre parece definir quando tentamos manter o fenômeno do realismo firmemente em o olho da nossa mente. É como se o objeto da nossa meditação começasse a oscilar, e a atenção para ele se afastar insensivelmente em dois direções opostas, de modo que finalmente descobrimos que estamos pensando, não sobre o realismo, mas sobre o seu surgimento; não sobre a coisa em si, mas sobre sua dissolução. [...] Também perde o grande jogo do narrador onisciente, que é conhecer segredos que nenhum dos personagens envolvidos jamais aprenderá, ironicamente levando para o túmulo sua infeliz ignorância. [...] Esta sinédoque, em que a escaramuça representa a batalha, como recomendou Balzac, é um ataque muito mais directo e enérgico ao problema impossível da representação colectiva do que qualquer coisa na Esquerda, que é reduzida a manifestações e marchas, e cujos dilemas são vividamente dramatizado pelo facto de terem participado nas filmagens de Outubro de Eisenstein mais actores e figurantes do que o número de participantes reais na própria revolução bolchevique. [...] Provavelmente todo o modernismo desperta isso não necessariamente impulso admirável que muitas vezes assimilamos à Interpretação como tal; mas aqui, pelo menos, podemos nos perguntar se o interesse está no conteúdo de tais temas simbólicos e interconexões ou no sentido ontológico primeiro plano do próprio processo. [...]. Trechos extraídos da obra The Antinomies of Realism (Verso, 2013), do crítico literário estadunidense Fredric Jameson, no qual trata a respeito das tinomeias do realismo, das fontes gêmeas e impulso narrativo, do afeto ou o presente do corpo; Zola, ou a Codificação do Afeto; Tolstoi, ou, Distração; Pérez Galdós, ou, o declínio da protagonicidade; George Eliot e Mauvaise Foi; a dissolução do gênero, a Terceira Pessoa Inchada, ou Realismo após Realismo, Coda: Kluge, ou Realismo após Afeto, a lógica do material, as experiências do Tempo: Providência e Realismo, Guerra e Representação, Vou ser o romance histórico hoje, ou ainda é possível, entre outros assuntois. Em seus estudos ainda expressou: Alguém disse uma vez que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Podemos agora rever isso e testemunhar a tentativa de imaginar o capitalismo através da imaginação do fim do mundo. Se tudo fosse transparente, não existiriam ideologias... Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

UMBILINA...

[...] todos os seres da terra são instrumentos de um mistério: tudo começa porque tem que acabar [...] concluiu que nada vale a pena – nem sofrer, nem ser feliz. Viver não é uma coisa nem outra, viver é cíclico. [...].

Trechos extraídos da obra Umbilina e sua grande rival (Autor, 2013), do escritor, dramaturgo e jornalista Cícero Belmar.

&

Oficina-vivência Autogestão da Memória, Museus Comunitários e Museologia Política, entre os dias 3 a 5 de abril de 2024, na sede da Sociedade de Cultura Artística 22 de Novembro, no Território Sagrado Ibarema/Paudalho, reunindo 20 articuladores(as) de Iniciativas de Memória, Museus Comunitários e Movimentos Sociais de Aliança, Nazaré da Mata, Olinda, Paudalho, Recife e Tracunhaém. Um evento da ELMP, IBRAM, Funcultura e NEPE/UFPE. Veja mais aqui.

 

UM OFERECIMENTO: SANTOS MELO LICITAÇÕES

Veja detalhes aqui.

&

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Curso: Arte supera timidez aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 


segunda-feira, março 25, 2024

HIRONDINA JOSHUA, NNEDI OKORAFOR, ELLIOT ARONSON & MARACATU

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Refúgio (2000), Duas Madrugadas (2005), Eyin Okan (2011), Andata e Ritorno (2014), Retalhos do Brasil (2019), Noite e dias (2022) e Abertura das Águas (2024), da pianista, compositora, arranjadora e diretora musical Christianne Neves, que é Mestre em Música pela Unicamp e integrou a Orquestra Heartbreakers (1994-2000) e Havana Brasil (2000 a 2009).

 

PEQUENA FUZARCA DELIRIOSA... - Eternizar o momento e cada um dos que sucedem é o que faz cada ser pensante ascender ou desmontar a todo instante na vida, a ponto de assuntar acerca de um tanto de hipóteses agora tão exóticas. O certo é que a gente não diria tanta besteira se sacássemos a similaridade entre a teia cósmica e a rede neural. Afinal, a gente destrói tudo que é integração. E se chegamos ao ponto crítico da interconexão, outras interrogações nos assolam do absurdo pro que é conveniente, e o possível do que não é. Não fossem os paradoxos, a gente parava e ria à toa. Tome tento! Quem aparece no espelho pode ser outro e é preciso botar o lixo pra fora, dar fé da bússola e fazer o que precisa ser feito. Quem tem garrafa pra vender que se safe; quem não tem, que dê seus saltos soltos. O que foi de ontem não é mais, o de amanhã é pragora. Pois bem, uma situação dessa na esquina da hora, sem muxiba no moquem, nem ponto cardeal por direção, assim do nada, dei de cara com uma distinta jovem - coisa tão desmantelada que ouvia rufarem os tambores de Alagoinhanduba pelo que se parecia com a queda do Bennu. Tei bei. Pra se ter uma ideia, logo de sopetão, ela se achegou Annie Vivanti: Nasci com paixão pelas distâncias... Eu sou mulher, quero te ver... Precavido com o sopapo tentei dar um passo atrás, o que foi inútil, ela segurou-me pelo braço e desfiou o rosário: Sou Margarida Gretchen, filha do imperador da grande ilha de Nimpatan do Holmesby! Onde? Vamos. Oxe! Nem pisquei os olhos e já chegávamos à Kelso, que nem eu nem ela nunca tínhamos visto. Caminhamos por suas ruas estreitas e sujas, até adentrarmos ao palácio que se tornou um amontoado de barracas imundas. Ali ela assumiu o trono e não sabia o que fazer no meio daquela desordem total. Levou-me com alvoroço ao Repositório do Conhecimento e, entre os objetos nem tão valiosos ali expostos, estavam o enxoval do bebê que nunca fora, seu berço e urinol, brinquedos e utensílios infantis. Comovida saiu dali me puxando para gormarksees, o asilo dos lunáticos. Hem? Ah, era o recinto mais luxuoso daquelas paragens, ao que ela furiosamente desalojou os ocupantes para servir-lhe de morada com o futuro marido. Como? Explicou-me: ao nascer seus pais mandaram-na para um convento, no qual ficou enclausurada por muitos anos. Uma das freiras confidenciou reservadamente que ela era cobiçada pela paixão e luta fratricida entre dois irmãos apaixonados. Mesmo? Nem se animara direito e logo soube da causa perdida: ambos se mataram no confronto. Ah! Ao desanimar foi, então, avisada que o pior ainda estaria por vir. Seu pai acabava de falecer e, como princesa, precisava assumir o trono. E sua mãe? Ela olvidou e abria portas, até sumir corredor adentro, deixando-me no salão por algum tempo. Nada admirável nem pra se ver, mãos abanando por entretenimento. Pensei em dar no pé e ela logo retornou com as faces abusivamente cobertas por ruge, colares enormes e pesados ao pescoço, sufocando-se com os seios comprimidos por cotas de malha que se alargavam na cintura, a tropeçar na barra duma saia estendida por vários metros, dando-lhe a aparência de sinos, dizendo-me que assim se vestia em conformidade com os costumes femininos do lugar. Estou bonita? Ah, tá. Uma coisa me chamou a atenção: à cintura trazia uma corda enrolada, na qual aparecia uma garrafinha pendurada, com algo vivo se mexendo dentro, parecia. Ao flagrar minha olhadela no frasco considerou que eu não comiserasse, pois se tratava do Fausto de Goethe, um desgraçado que se aproveitou dela anos atrás. O farsante havia feito juras de amor e, no afã de ficar a sós com ela, propositalmente conduzindo-a a dar uma poção do sono para a vigilante mãe dela. Foi iludida pelo tal e assim procedeu inocentemente. Na verdade, ele queria só se aproveitar dela e partiu para abusá-la. Pior: não deu certo mesmo porque a coitada da genitora bateu as botas ali na hora, aos estertores e envenenada. Um escarcéu. Foi assim que ela engravidou dele sem saber como, fato que levou o seu irmão a amaldiçoá-la e, por isso, foi pelo desalmado devidamente assassinado. Dois crimes sem ter nem pra quê. Em sua fuga ela retornou atormentada para o convento, perseguida noites e dias pelo espírito maligno. De repente viu-se grávida e, pouco tempo depois, deu à luz. Uma bronca! Então, secretamente afogou o filho recém-nascido e livrou-se como podia, até ser capturada e condenada à morte por seu ato insano, aprisionada para cumprir a sentença em dia e horário marcados. A revogação da sua pena fora dada por Mefistófelis: Salvou-se! E ao mesmo tempo vingou-se dele transformando-o num diabinho coxo de Guevara, devidamente arrolhado nesta garrafinha e, finalmente, o desgraçado ainda foi salvo por ela mesma ao impedir que fosse dizimado no lago Vitória da Tanzânia, complicando ainda mais o Pesadelo do Darwin de Sauper. Fechou a narrativa com Sue Townsend: Sentimos as coisas mais do que outras pessoas. Sabemos que o mundo está podre e que os queixos estão arruinados por manchas... Após discorrer pela a espiral de seus ressentimentos, perguntou-me: Sabe quem sou, afinal? Depois de tudo ela foi abrigada por um Mestre que se esquecera do próprio nome e sequer lembrava-se de ter estuprado várias de suas alunas e fugido sem paradeiro. Caiu noutra? Não tendo opção na vida foi feita amante dele, porque estava entre a cruz e a espada: era a única forma de se desvencilhar das astúcias do malfeitor endiabrado. Acontece que no meio da perseguição implacável, conseguiu que muitas pessoas se deixassem iludir que ela seria a fugitiva noiva de Messina do Schiller. Não era e cadê saída? Aí segurou o soluço e aproximou-se quiromante a me segredar que recebera minha carta desesperada. O quê? Tomou-me as mãos e conferiu as linhas nas palmas: Sabia, o diabo coxo havia dito a verdade daquela vez! Quer se explicar? Para ela eu era um enviado dos deuses. Deneguei, reiteradamente. Dissimuladamente me presenteou o símbolo fulgurante dos adoradores crallilah, um indubitável suborno: uma pesada barra de ouro. E desesperou que não queria envelhecer, precisava manter-se a cada dia vindouro mais viva e fresca, era o que parecia e o que eu tinha a ver com isso, ora. Não era fácil precisar: propôs um pacto que era o meu desafio ao plenilúnio - teria eu de seguir o êxtase para obter o sucesso com as minhas escrevivências. Como assim? Chantageava aos dengos. Incrédulo, deu-me por prova que Jesus voltou e estava escondido no paradoxo de Spinoza, para jamais tornar-se cristão, nem nunca ser a adoração de nenhuma empresa do negócio religioso, muito menos símbolo do poder que usa, mata, estupra e violenta os sobreviventes de qualquer lixão. Ameaçou apontando-me pras as cabeças vivas de Hidra no alto da parede e o fim do mundo, caso eu não aceitasse. Escolha. Será louca? Só sendo. Franziu o cenho e raivosa desbocou: estamos todos enredados na trama de Bulgakov. Não entendi nada e já anoitecia, quando ela se saiu com Leonora Carrington: Nasce-se, vive-se, morre-se. O que é a morte, eu não sei... Provavelmente sinto falta do passado... E eu tive que pagar o pato, por bem ou por mal. No dia seguinte, o lugar mais limpo. Ufa! Não sei se foi um sonho ou se passei por uma escotomização: um sopro mágico e tudo sumiu ou esqueci. Até mais ver.

 

PLEURA

Imagem: Acervo ArtLAM.

1 - couraças abertas no primeiro do último século. órgão cimentado rubro. como no princípio: a dor era parte inferior. criaram um nome para tapar os buracos: chamaram-no coração. veio o tempo que é enganador. soprou sob os rostos das mulheres primeiro: fez delas coisas impraticáveis. e depois foi no olho esquerdo dos homens: os fez secretos. foi para as crianças criou a eternidade dentro. o coração verga – disse o X. era preciso um órgão que fosse seguro. atento aos delírios da visão.

2 - olharam-se: os únicos feitos para a sorte. caminharam endireitados sem saber onde se tinham escondido os ouvidos. os pés alados sofreram a pressa do sopro vindo das pedras. - para que servem os dedos? o mundo é um espelho centrado, ofusca as mãos. (uma voz diz): entras na porta transfigurada, força vulcânica. pulmões no clarão agudo da morte. entras na destreza das coisas com as glândulas por fora: invasão surda. imóvel. entras na carne da razão com a luz apagada. sabes e sabes que a luz apagada é a mais acesa. pela pálpebra entras no interior do redemoinho ou na ferida hermética.

3 - foi naquele dia em que o céu caiu para receber o poema da ditadura. as vozes dos homens amanheceram, quem podia cantar cantou. continuam eles à procura do órgão. – façam o que quiserem, dei-vos a liberdade. os cegos inundaram as vísceras. os surdos enlouqueceram. o mistério deambula no órgão primário. ossos do órgão podem se ver no firmamento.

4 - o mundo faz barulho à procura desse animal. ele que sobe e desce nas alturas supostas pelas grandes tempestades. deus vê as caras brutas dos sentimentos, perdoa e continua….o animal geme de fome. na nuca tem água violenta. sede mais antiga que o corpo com todas distâncias da terra. esse animal universal concentrado na insónia, arrasta para fora a estação circular das poças. veda a treva e a luz no mesmo saco. belo clarão o que se faz por cima das entoações secretas.

5 - uma fotografia guiada por uma criança, - dizem a única que pode ver o animal: “era uma árvore rosada, com ramos magros altos oblíquos, em cada ramo havia um livro fechado na parte superior e noutros menores livros abertos. dificultavam o tórax, traziam abelhas nas flores rasas. como a árvore tinha olhos, o peso não se aguentava sob as pálpebras. por isso surgiram as membranas revestidas de leveza, pareciam esponjas. pareciam algodões.”

Poema da escritora e jurista moçambicana Hirondina Joshua, integrante da Associação dos Escritores Moçambicanos e autora dos livros Os ângulos da casa (2016), Córtex (2021) e Câmara de Ar (2023), entre outros livros.

 

BINTI - [...] Preferimos explorar o universo viajando para dentro, em vez de para fora. [...] só porque algo não é surpreendente não significa que seja fácil lidar com isso. [...] Dizem que quando se depara com uma luta que você não pode vencer, você nunca pode prever o que fará a seguir. Mas eu sempre soube que lutaria até ser morto. [...] Meu pai não acreditava em guerra. Ele disse que a guerra era um mal, mas se acontecesse, ele se deleitaria com ela como areia em uma tempestade. [...] Eu acreditava que só poderia ser grande se tivesse curiosidade suficiente para buscar a grandeza. [...] Não importa qual escolha eu fizesse, eu nunca teria uma vida normal, na verdade. Olhei em volta e imediatamente soube o que fazer a seguir [...]. Trechos da obra Binti (Tordotcom, 2015), da premiada escritora e educadora nigeriana-americana Nnedi Okorafor. Veja mais aqui.

 

ANIMAL SOCIAL - [...] A pessoa mais fácil de fazer lavagem cerebral é aquela cujas crenças são baseadas em slogans que nunca foram seriamente desafiados. [...] quanto mais semelhante uma pessoa lhe parece em atitudes, opiniões e interesses, mais você gosta dela. Os opostos podem se atrair, mas não permanecem. [...] Assim, se o amor apaixonado é como a cocaína, então o companheiro é mais como uma taça de bom vinho – algo delicioso e prazeroso, mas com menos palpitações de saúde e menos mania. [...] Notícias são uma forma de entretenimento. [...] Uma apreciação do poder da auto-estima ajuda-nos a compreender porque é que as pessoas que têm baixa auto-estima ou que simplesmente acreditam que são incompetentes em algum domínio não ficam totalmente felizes quando fazem algo bem, porque pelo contrário muitas vezes sentem-se como fraudes [...] Talvez mais pessoas estivessem inclinadas a agir se, tal como o estereótipo do terrorista, o aquecimento global tivesse bigode [...] alguns psicólogos evolucionistas sustentam que os sistemas de crenças ideológicas podem ter evoluído nas sociedades humanas para serem organizados ao longo de uma dimensão esquerda-direita, consistindo em dois conjuntos centrais de atitudes: (1) se uma pessoa defende a mudança social ou apoia o sistema como ele é, e (2) se uma pessoa pensa que a desigualdade é resultado de políticas humanas e pode ser superada ou é inevitável e deve ser aceita como parte da ordem natural. Os psicólogos evolucionistas apontam que ambos os conjuntos de atitudes seriam tiveram benefícios adaptativos ao longo dos milénios: o conservadorismo teria promovido a estabilidade, a tradição, a ordem e os benefícios da hierarquia, enquanto o liberalismo teria promovido a rebeldia, a mudança, a flexibilidade e os benefícios da igualdade. Os conservadores preferem o familiar; os liberais preferem o incomum. Todas as sociedades, para sobreviver, teriam feito melhor com ambos os tipos de cidadãos, mas podemos ver porque é que liberais e conservadores discutem de forma tão emocional sobre questões como a desigualdade de rendimentos e o casamento homossexual. Eles não estão apenas discutindo sobre a questão específica, mas também sobre suposições e valores subjacentes que emergem de seus traços de personalidade. É importante ressaltar que estas são tendências gerais. A maioria das pessoas desfruta de estabilidade e de mudanças nas suas vidas, talvez em proporções diferentes em idades diferentes; muitas pessoas mudarão de ideias em resposta a novas situações e experiências, como foi o caso da aceitação do casamento gay; e até há relativamente pouco tempo, na sociedade americana, a maioria dos membros de ambos os partidos políticos estavam dispostos a comprometer-se e a procurar um terreno comum na aprovação de legislação. Ainda assim, tais diferenças na orientação básica ajudam a explicar o facto frustrante de que liberais e conservadores tão raramente conseguem ouvir-se uns aos outros, e muito menos conseguir mudar a opinião uns dos outros. [...]. Trechos extraídos da obra The Social Animal (Worth Publishers, 2011), do psicólogo estadunidense Elliot Aronson. Veja mais aqui.

 

MARACATU DE BAQUE SOLTO

[...] essa gente das terras da cana espera ansiosa pelo Carnaval. Só então a cidade, transfigurada, voltará para eles de novo a brilhar. É o tempo do Maracatu. [...] Até onde a memória alcança, sempre foram gente da cana ou de emprego humilde do pequeno comércio das vilas e povoados. [...].

Trechos extraídos da publicação Maracatu do baque solto (Quatro Imagens, 1998), do fotógrafo Pedro Ribeiro e da socióloga e pesquisadora Maria Lúcia Montes. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

UM OFERECIMENTO: SANTOS MELO LICITAÇÕES

Veja detalhes aqui.

&

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Curso: Arte supera timidez aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...