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quarta-feira, janeiro 22, 2020

GRAMSCI, CEUCI, CAGLIOSTRO, HELOÍSA MILLET, ABELARDO DA HORA & ARTE PERNAMBUCANA


CONFISSÃO DE CAGLIOSTRO – Escrevo esta carta, a minha confissão. Escrevo com o coração, a quem interessar possa. Deram-me muitos nomes e denúncias, fui alvo de todos os ataques, caluniado, perseguido. Segui em silêncio. De tudo fui tratado: charlatão de todas as imposturas, curandeiro prodigioso de todas as enfermidades e mistificações, hipnotizador aventureiro de todas as trapaças, falsificador trapaceiro que adorava o diabo e bruxarias, criminoso siciliano de fortunas e infortúnios, mágico herético que blasfemava contra Deus, scammer de não sei quantas traições e de ficar invisível para feitos e maldades que nunca cometi. Uma coalizão de juízes em conluio com um corpo de jurados e advogados desonestos, trapacearam em meu nome e me chantagearam por intrigas: fui implicado no Caso do Colar de Diamantes da Rainha, razão pela qual fiquei recluso na Bastilha e expulso, obrigado a emigrar constantemente, carregando não sei quantos boatos de que fui um noviço expulso da ordem católica de São João de Deus; que eu sabia o grande truque dos ciganos e da variação do hokkani boro; que era farmacêutico que vendia amuletos egípcios e falsas obras de arte; que praticava o jogo do texugo, que encenava shows de mágica e sessões de truques com escritos espirituais; que eu detinha a pedra filosofal que transformava tudo em ouro e o elixir da juventude, até que eu testemunhei a crucificação de Jesus, santo Deus! Que era um falsário e vigarista forjador de cartas, diplomas e documentos oficiais; que fui preso muitas vezes e que escapei da prisão estrangulando o padre que me confessava e fugi com suas vestes, até que, enfim, fui capturado pela Inquisição, prisioneiro torturado: queriam que confessasse crimes que nunca cometi. Fui obrigado a abjurar meus erros e vestir roupas de penitentes diante da igreja, não fui perdoado. Fui acusado de herege, mago e pedreiro livre, condenado à morte. A sentença papal: a morte na fogueira. Minha obra e posses foram queimadas na Piazza della Minerva, diante da multidão eufórica. Preferiram, depois, comutar minha pena para prisão perpétua, encerrado no castelo de San Leo. Durante tudo isso, tive ao meu lado, apenas, a inocência dúbia de Lorenza, aquela a quem amei e foi corrompida pela policia papal e pela família para depor contra mim. Ah, minha pequena Lorenza, nossa união conturbada, cheia de cumplicidade. Diziam-me dela aparente ingenuidade quando dissimulação, a sua capacidade de sedução, tratada como uma alma perturbada que até hoje perambula na escuridão sem que ninguém saiba o túmulo. Ah, Lorenza, agora só no meu coração. Também deram-me por desaparecido misteriosamente de uma cela inacessível na prisão do Vaticano, enquanto inspirado pelo poder da Chama Violeta, cumpro a minha Obra, porque o Templo está em toda parte. Retiro-me em meditação e adquiro o conhecimento no meu coração e mente: quem conhece a morte possui a arte de dominá-la. O meu trabalho sempre foi e será para toda humanidade, indistintamente, a minha recompensa é o prazer de ser útil e cultuar a Luz e a esfera do infinito. Sofrerei ao pé da tartaruga e a serpente morderá a sua própria cauda. Não tenho nome porque sou livre; meu país é onde eu estiver. Ninguém sabe como nem quando nasci, muito menos se morri ou não. Não sou de lugar nenhum, nem pertenço a este ou qualquer tempo. Não nasci da vontade humana, todos os povos são meus em mim, todos os países. Quando a rosa florescer na cruz, então, eu serei, com tudo e todos, a paz perpétua entre os povos e meu ser viverá a existência eterna. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] em qualquer trabalho físico [...] existe um mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora. [...] todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais (assim, o fato de que alguém possa, em determinado momento, fritar dois ovos ou costurar um rasgão no paletó não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates). Formam-se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em conexão com todos os grupos sociais, mas sobretudo em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. [...] Uma filosofia da práxis só pode apresentar-se, inicialmente, em atitude polêmica e crítica, como superação da maneira de pensar precedente e do pensamento concreto existente (ou mundo cultural existente). E, portanto, antes de tudo, como crítica do “senso comum” (e isto após basear-se sobre o senso comum para demonstrar que “todos” são filósofos e que não se trata de introduzir ex novo uma ciência na vida individual de “todos”, mas de inovar e tornar “crítica” uma atividade já existente); e, posteriormente, como crítica da filosofia dos intelectuais, que deu origem à história da filosofia e que, enquanto individual (e, de fato, ela se desenvolve essencialmente na atividade de indivíduos singulares particularmente dotados), pode ser considerada como “culminâncias” de progresso do senso comum, pelo menos do senso comum dos estratos mais cultos da sociedade e, através desses, também do senso comum popular [...] conduzi-los a uma concepção de vida superior. [...]. Trechos extraídos da obra Escritos políticos (Civilização Brasileira, 2004), do filósofo e cientista político italiano, Antonio Gramsci (1891-1937). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CAGLIOSTRO – O ocultista, alquimista, místico e maçon italiano Alessando, Conde Cagliostro (1743-1795), durante sua vida, apaixonou-se por uma jovem romana de olhos azuis, cabelos dourados, feições delicadas, corpo delgado e esguio, Lorenza Seraphina Feliciani (1751-1810), com quem se casou e teve uma vida atribulada. Embora ela fosse a dona do seu amor e devoção pelo resto de suas vidas, ela nunca foi capaz de totalmente romper com a Igreja e seria usada como “a ferramenta dos Jesuítas”. Sobre sua vida e trajetória, encontrei publicações, tais como: Alessandro Cagliostro (AMORC, 1996), dois volumes de Ana Rimoli de Faria Dória; Memórias de um médico: Joseph Balsamo (Fitipaldi, 1959), de Alexandre Dumas; Cagliostro: o grande mestre do oculto (Madras, 2005), do estudioso Marc Haven; Cagliostro (Shearsman, 1931), do poeta chileno Vicente Huidobro; Cagliostro ou le dernier des alchemistes (The Last Alchemist, Count Cagliostro - Master of Magic in the Age of  Reason), do historiador australiano Iain McCalman; Il romanzo di Cagliostro (Rubbettino, 2012), de Giuseppe Quatriglio; Count Cagliostro: In Two Flights (1833), do historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle; Cagliostro - O Mestre Desconhecido (Nova Acrópole, 2016), de Marc Haven, O Grande Cagliostro (1905), de Carlos Malheiro Dias. Veja mais aqui & aqui.

CEUCI
Certo dia, Ceuci descansava à sombra da árvore do bem e do mal, cujo consumo de seus frutos era proibido às moças no dia que estivessem em período fértil. Ao avistar seus frutos grandes e maduros, não se conteve e apanhou um deles para comer. Ao morder o caldo do fruto escorreu pelo seu corpo nu e alcançou o meio de suas coxas. Meses após, revelou-se uma gravidez que encheu de indignação toda a comunidade de sua aldeia. O Conselho de anciões, achou por bem, puni-la com o exílio. Longe de sua aldeia, Ceuci deu a luz á seu filho Jurupari, "o filho do sol". Jurupari foi enviado a terra pelo próprio Sol para que pudesse reformar os costumes da terra e também encontrar a mulher perfeita para que ele pudesse se casar. Com apenas sete dias de vida, Jurupari já aparentava ter 10 anos, e sua sabedoria atraiu a atenção de todos, que passaram a ouvir suas palavras e ensinamentos de novos costumes, que colocavam um fim na sociedade matriarcal e instituíam o patriarcado. Jurupari instituiu grandes festas cerimoniais, as quais somente os homens podiam tomar parte, e onde ele aproveitava para passar seus ensinamentos. Isso acabou afastando-o de sua mãe. Inconformada com essas novas leis e também com saudades de seu filho, Ceuci resolveu uma noite ir espiar o cerimonial dos homens, uma infração que era punida com pena de morte. Furtivamente, ela entrou no território onde os homens estavam reunidos, mas antes do término do cerimonial, Ceuci foi fulminada por um raio enviado por Tupã (outras versões afirmam que o proprio Jurupari conjurou o raio, sem reconhecer que era sua própria mãe). Jurupari foi imediatamente chamado para ressuscitar Ceuci, mas nada fez, posi não podia abrir precedentes em suas leis. Jurupari então diz: "Morreste mãe, porque desobedeceste à lei de Tupã. É a lei que eu vivo a ensinar. Não vou te ressuscitar, mas te recomendo: Sobe, bela, raidante e pura para um mundo melhor. Cumpriste a verdadeira missão de mãe, que é cheia de amor, renúncia, desenganos e sofrimento. Meu pai vai recebê-la de braços abertos lá no céu". O corpo da deusa, então, cheio de luminosidade, começou a subir. Ele atravessou o espaço e transformou-se na estrela mais resplandecente da constelação das Plêiades. Ela permanece lá até hoje, para lembrar aos selvagens o respeito às leis de Jurupari, o Filho do Sol.
CEUCICeuci é uma deusa virginal tupi-guarani, protetora das lavrouras e das moradias, filha do deus Tupã e mãe de Jurupari, sendo uma virgem e sem nenhum consorte, sua gravidez se deu de forma miraculosa, conforme extraído do Vocabulário português-nheengatu, nheengatu-português (Ateliê, 2014), do folclorista, explorador, fotógrafo e etnógrafo ítalo-brasileiro Ermanno Stradelli (1852-1926), que tendo vivido e trabalhado na região amazônica, onde morreu, sendo fluente na língua geral, recolheu um vocabulário vivencial da língua nheengatu como língua dinâmica, o que explica sua vitalidade até os dias de hoje em várias regiões do Brasil, como o Alto Rio Negro, onde é língua oficial. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Sou pequena, baixa, e quando fiz aquela abertura, virei um mulherão de dois metros de altura. Então, acabaram-se os meus complexos.
HELOÍSA MILLET - A arte da bailarina clássica e atriz Heloísa Millet (1948-2013), que estreou em 1974 no teatro musical Pippin, descoberta por Ziembinski, e participou, em 1976, do corpo de dança da abertura do programa Fantástico, da Rede Globo. Atuou em novela e humorísticos da televisão, bem como no cinema, como As tranças de Maria (2003) e O rei e os Trapalhões (1979). No teatro, atuou nas peças A Chorus Line (1983) e Pippin (1973). Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A arte do artista plástico, professor, poeta, escultor, gravurista e ceramista pernambucano Abelardo da Hora (1924-2014) aqui e aqui.
A literatura do poeta, radialista e compositor Antônio Maria (1921-1964) aqui e aqui.
A arte do artista plástico e professor pernambucano Murilo La Greca (1899-1985) aqui e aqui.
Cinema Pernambucano: Eles voltam, do diretor Marcelo Lordello aqui.
O teatro pernambucano aqui.
Memórias de um senhor de engenho, do jornalista Julio Belo (1873-1951) aqui.
A música de Nado Rodrigues aqui.
&
O município de Tamandaré aqui e aqui.
 

terça-feira, julho 16, 2019

GRAMSCI, PIERRE CLASTRES, DENISE MILAN, WAYNE WANG & ALAGOINHANDUBA


ERA ASSIM MESMO EM ALAGOINHANDUBA - Quando o juiz Teje-Preso tomou o poder, o alvo era pegar Zé Peiúdo que não era besta nem nada de esperar por tempo ruim e escapuliu, ficou escondidinho – todo mundo sabia, só o magistrado fez que não sabia aonde. Aí achou por bem meter Zé-Corninho na cadeia. Ué, fiz o quê? Tenho certeza que você é ladrão! Mas, mas, mas... Tenho convicção! Provas? Não adianta recorrer, você está fodido. E estava mesmo, coitado. Com isso, o povo ficou em polvorosa, quase meio a meio: os cheleleus, caboetas e oportunistas que eram a maioria de certa forma, na maior claque; os outros, os indignados, com o rabinho entre as pernas. Fazer o quê? Para se garantir, o togado inventou uma eleição extemporânea, assim, no vexame do capricho e sumiu. Ao reaparecer dias depois, estava legitimado com o dobro de votos dos eleitores. Vôte! Foi. Quem votou que não vi? Num sei. Duvidasse não, um panfleto pregado nas portas, esquinas e postes, serviço de som alardeando e carros volantes anunciavam a vitória esmagadora: agora era mais que autoridade, era o Imperador Teje-Preso I. Não deu tempo nem de piscar os olhos, recebeu na lata uma pesquisa: Como é que é? A cidade é doente, só tem doente. Como assim? Tem mais farmácia e igreja que gente! Aonde? No município, ora! Danou-se! Ah! No sopapo, a excelência achou por bem dividir todo território em dois: à direita, um complexo predial enorme. Para quê isso? Reunir a polícia e o Estado Maior; ao lado, outro edifício imenso comportando a escola, isso da educação infantil à universidade: Quero os acadêmicos com os generais das forças armadas, para detectar qualquer problema nas águas, na terra e nos ares. Comigo não escapa nada! Do outro lado, à esquerda, fez construir um arranha-céu maior que a doidice dele e que não tinha mais tamanho para juntar todos os hospitais, públicos e privados, com toda especialidade médica, enfermagem, psicólogos, religiosos de todo tipo – não sei quantos centros espíritas e um bocado de terreiro dos pais e mães de santo foram sacudidos dentro, junto com as clínicas, ambulatórios e laboratórios - e até advogados que estariam lotados num anexo suntuoso, no qual estava o Fórum com todos os cartórios, varas judiciais e escritórios advocatícios. Tudo junto e misturado! No acesso às edificações fez instalar num galpão quilométrico todos os supermercados e farmácias e, do outro lado da rua, todos os templos de todas as crenças se engalfinhando no maior pega pra capar. Tudo para agradar o freguês! No centro fez construir uma torre feito um panóptico, com faróis para inspecionar todas as atividades da cidade. Decretou o toque de recolher a partir das 21 horas, suspensão da energia elétrica a partir das 22 – com ordem de atirar em quem estivesse premiado zanzando fora de hora -, e aboliu todo tipo de arte, admitindo-se apenas a da guerra. Para tanto, reuniu-se com todas as manifestações religiosas para erradicar qualquer memória: fizeram um monturo e queimaram todos os álbuns de recordações familiares. Nenhuma lembrança mais – tanto que o fotógrafo do local, seu Uiço, foi instado a inventar uma foto que só durasse 24 horas, sob pena de ver seu negócio quebrado no pau! Por conta das escapulidas noturnas, o cemitério ganhou proporções latifundiárias, fato que o fez transformar-se em espaço agrícola público para manutenção da localidade, obrigando-se a todo morador a dar um expediente de no mínimo 6 horas diárias, e compulsoriamente os estudantes e professores ministrarem aulas duas vezes por semana sobre o desenvolvimento de culturas agricultáveis no local. Com tudo em ordem, sentenciou Zé Corninho à pena de prisão perpétua; Peiúdo aparecesse não, pena capital, mas estava soltinho para lá e para cá, armando das suas. O negócio ganhou na fuxicagem de bater em Brasília como reboliço. O rei Coiso temendo concorrência desleal, entrou logo em contato, atendido na hora: Aí quem manda é você, aqui quem manda sou eu; se der as caras por estas bandas, vai ser preso também e saiba: bala é bicho que faz um buraco medonho e pode borrar sua maquiagem. Tenho dito, Teje-Preso I. Estava prestes a maior quebra-de-braço, de não se saber como vai parar. Porém, para a autoridade alagoinhandubense, viverão todos felizes para sempre. Foi nada, ôxe, o tempo passa e a coisa dá um giro do dia pra noite de virar tudo de pernas pro ar. Quer ver? Destá. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] se por economia de subsistência não nos contentamos em entender economia sem mercado e sem excedentes – o que seria um simples truísmo, o puro registro da diferença –, então com efeito se afirma que esse tipo de economia permite à sociedade que ele funda tão-somente subsistir, afirma-se que essa sociedade mobiliza permanentemente a totalidade de suas forças primitivas para fornecer a seus membros o mínimo necessário à subsistência. Existe aí um preconceito tenaz, curiosamente coextensivo à ideia contraditória e não menos corrente de que o selvagem é preguiçoso. Se em nossa linguagem popular diz-se ‘trabalhar como um negro’, na América do Sul, por outro lado, diz-se ‘vagabundo com um índio’. Então, das duas uma: ou o homem das sociedades primitivas, americanas e outras, vive em economia de subsistência e passa quase todo o tempo à procura de alimento, ou não vive em economia de subsistência e pode, portanto, se proporcionar lazeres prolongados fumando em sua rede. Isso chocou claramente os primeiros observadores europeus dos índios do Brasil. Grande era sua reprovação ao constatarem que latagões cheios de saúde preferiam se empetecar, como mulheres, de pinturas e plumas, em vez de regarem com suor as suas áreas cultivadas. Tratava-se, portanto, de povos que ignoravam deliberadamente que é preciso ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Isso era demais e não durou muito: rapidamente se puseram os índios para trabalhar, e eles começaram a morrer. Dois axiomas, com efeito, parecem guiar a marcha da civilização ocidental, desde a sua aurora: o primeiro estabelece que a verdadeira sociedade se desenvolve sob a sombra protetora do Estado; o segundo enuncia um imperativo categórico: é necessário trabalhar. Os índios, efetivamente, só dedicavam pouco tempo àquilo a que damos o nome de trabalho. E apesar disso não morriam de fome. Os cronistas da época são unânimes em descrever a bela aparência dos adultos, a boa saúde das numerosas crianças, a abundância e variedade de recursos alimentares. [...] o que se constata no mundo dos selvagens é um extraordinário esfacelamento das ‘nações’, tribos, sociedades em grupos locais que tratam cuidadosamente de conservar sua autonomia no seio do conjunto do qual fazem parte, com o risco de concluir alianças provisórias com seus vizinhos, se as circunstâncias – guerreiras em particular – o exigem. Essa atomização do universo tribal é certamente um meio eficaz de impedir a constituição de conjuntos sócio-políticos que integram os grupos locais, e , mais além um meio de proibir a emergência do Estado que, em sua essência é unificador. [...] Na sociedade primitiva, sociedade essencialmente igualitária, os homens são senhores de sua atividade, senhores da circulação dos produtos dessa atividade [...] Tudo se desarruma, por conseguinte, quando a atividade de produção se afasta do seu objetivo inicial, quando, em vez de produzir apenas para si mesmo, o homem primitivo produz também para os outros, sem troca e sem reciprocidade. Só então é que podemos falar em trabalho: quando a regra igualitária de troca deixa de constituir o ‘código civil’ da sociedade, quando a atividade de produção visa a satisfazer as necessidades dos outros, quando a regra de troca é substituída pelo terror da dívida. Na verdade, é exatamente ali que se inscreve a diferença entre o selvagem amazônico e o índio do Império Inca. O primeiro produz, em suma, para viver, enquanto segundo trabalha, de mais a mais, para fazer com que os outros vivam – os que não trabalham, os senhores que lhe dizem: cumpre que tu pagues o que nos deves, impõe-se que tu eternamente saldes a dívida que conosco contraíste. [...]
Trechos extraídos da obra A sociedade contra o Estado (Francisco Alves, 1988), do antropólogo e etnógrafo francês Pierre Clastres (1934-1977). Veja mais aqui e aqui.

CHINESE BOX
Da sua vida você me dá um momento e eu sei que apesar do passado e apesar do futuro esse instante que é a nossa vida é o momento em que você me ama .
O drama Chinese Box (Último entardecer, 1997), dirigindo por Wayne Wang, conta a história de um jornalista que vive em Hong Kong e é secretamente apaixonado por uma chinesa hostess de um bar. Durante o período de apreensão e ansiedade que precede o Ano Novo, três vidas ligam-se intimamente, de forma exótica e passional. O filme e baseado no romance Kowloon Tong (1997), de Paul Theroux e foi ambientado e feito na época da entrega de Honk Kong à República Popular da China, em 1997. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Quero arte - essa pedra é o testemunho de união e separação, isto é, o que pode ser comum a dois continentes distintos, Africa e América, que antes da Grande Divisão, há 750 milhões de anos atrás, formavam uma só terra. Esta é a metáfora dessa pedra, que desperta a consciência da possibilidade de unificação.
A arte da escultora, pintora, artista multimídia e interdisciplinar Denise Milan, que usa em sua arte a pedra como eixo criativo, executando obras nas áreas de arte pública, escultura, artes cênicas, poesia, impressão e vídeo-arte. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE GRAMSCI
O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido.
A obra do filósofo e cientista político italiano, Antonio Gramsci (1891-1937) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Culto da Rosa no Rondonotícias aqui.


sexta-feira, abril 06, 2018

TAGORE, GRAMSCI, LECONTE DE LISLE, GROF, ANETA BARTOS, ZEQUINHA DE ABREU & CHIQUINHA GONZAGA

A PÁGINA VIRA - Imagem: arte da artista polonesa Aneta Bartos - O que restou de mim, página virada. A história se repete e como. Tantas vezes recomecei, perdi a conta; caí muitas vezes, estruturas abaladas, quão patéticas e cruéis são as quedas, a ponto de me acostumar com incompreensão, indiferenças, traições. Confesso, devo não ter entendido nada, ou ter falseado a verdade, ou mesmo distorcido as coisas que me surgiram, ofuscado por facilidades nem tanto proveitosas quanto pareciam, incapaz de refutar a mais simples inverdade na minha débil percepção. Algumas vezes parei pra pensar, na verdade, sempre segui em frente sem importar. Vez ou outra, esvaziado e inútil. É que ao chegar ao topo, não achei graça nenhuma. Estava sozinho e diante da imensidão, sem saber o que fazer. Ao descer tive a impressão de enorme tempo perdido com minha obstinação. Não valeu a pena tanto esforço, prazer e realidade em conflito, a mente cega, o caminho obstruído por escolhas que eu próprio tomei, sombrios caminhos desencorajadores. Repudiei vínculos antigos e esqueci-me de antedatar o futuro, não me interessava mais. Só me restava ser forte na tribulação. Precisei reaprender melhor a lição e recomecei, tudo revisto, o estimulante foi saber que do chão jamais passaria, a menos que batesse as botas e findasse de pés juntos, insepulto. Talvez servisse pra semente, se sim, me sentiria grato por ter alguma utilidade, teria valido a pena viver nesse mundo arrevirado e de porteira escancarada. O prêmio, a paz e a serenidade no coração, disposto sempre ao amor nas águas da vida, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, compositor e instrumentista Zequinha de Abreu (1880-1935): Tico tico no fubá, Branca & Valsas imortais; da compositora, pianista e maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935): Piano & violino por Maria Teresa Madeira & Leandro Braga; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA[...] A consciência ecológica, em seu nível mais profundo, é o reconhecimento intuitivo da unicidade de toda a vida, da interdependência de suas múltiplas manifestações e de seus ciclos de mudança e transformação [...]. Pensamento do médico psiquiatra tcheco, Stanislav Grof. Veja mais aqui.

A INDIFERENÇA & A VIDA - [...] Não pode existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. A indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. [...] A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte na qual frequentemente se afogam os entusiasmos mais esplendorosos [...]. A indiferença atua poderosamente na história. [...] Os fatos amadurecem na sombra porque mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões restritas, os objetivos imediatos, as ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa. [...] Extraído de La città futura (Turim, 1917), do filósofo e cientista político italiano, Antonio Gramsci (1891-1937). Veja mais aqui.

ÇATURANGA - [...] Extinta a chama, toda a luz desaparece de repente. Assim foi com Satish, depois da morte de Jagamohan. Desapareceu por completo da nossa vista. Nunca tínhamos podido sondar a profundidade do apego que Satish dedicava ao tio, Jagamojan era para ele, ao mesmo tempo, pai, amigo... e filho, poder-se-ia acrescentar, pois o velhote mostrava tal indiferença pelo que pessoalmente lhe dizia respeito, tal esquecimento de seus interesses materiais que um dos principais cuidados de Satish tinha sido ocupar-se dele e resguardá-lo de uma catástrofe. Satish havia, pois, tudo recebido do tio – e tudo lhe havia dado. [...] Satish levava vida errante. Não mais estávamos em contato com ele. Dedicamo-nos com maior desvelo à tarefa que nos tínhamos imposto. À nossa grande preocupação era escandalizar aqueles que professassem uma crença qualquer; e tal foi o campo das boas obras por nós escolhido que não sobrou uma boa alma para dizer uma boa palavra em nosso favor. Satish havia sido a nossa flor. Quando ela se desprendeu, nós, os espinhos, saímos do nosso invólucro e nos vangloriamos das nossas asperezas. [...]. Trecho extraído da obra Çaturanga (Delta, 1962), do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941). Veja mais aqui.

O PERFUME IMPERECIVELSe um dia a flor do sol, a rosa de Lahor / de sua aluna adorante encheu bem lentamente / o frasco de cristal, de argila ou de ouro, a gente / pode todo o entornar no solo abrasador. / Podem os rios, pode o mar se sobrepor / ao santuário estreito onde ela foi presente; / ao quebrar-se, conserva o aroma transcendente, / e há na poeira feliz o trescalante odor. / Já que no peito meu pela ferida hiante / assim te escoas tu, licor inebriante, / inefável amor de minha perdição, / seja-lhe o mal perdoado e o meu sofrer bendito! / através da hora humana e do tempo infinito, / satura-me um perfume eterna o coração! Poema do poeta francês Leconte de Lisle (1818-1894). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista polonesa Aneta Bartos.
Veja mais aqui.


V Congresso Brasileiro de Psicologia: Ciência e Profissão & muito mais na Agenda aqui.
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Quem pega no pesado não precisa lavar as mãos, o pensamento de Elbert Hubbard, a música de Almeida Prado, a pintura de Oswaldo Goeldi & Damian Klaczkiewic, a arte de Caetano de Almeida & Sonia Barros aqui.
 

quinta-feira, dezembro 28, 2017

GRAMSCI, SÉRGIO PORTO, ELBA, STEVEN CONNOR, SPOK FREVO, KENNEY MENCHER, PATRIZIA SAVARESE, MARCOS CARNEIRO & BIRITOALDO

EPIFANIA TRUCULENTA DO BIRITOALDO – Biritoaldo não acertava uma. Naquele dia, entre uma golada e outra lapada, clariou as ideias: a cachaça obra generosidades. Uma mosca voava e foi justo cair para morrer afogada no copo de aguardente. Teve pena. Providentemente, de um salto salvou-la. Encheu-se de heroísmo. Quis mostrar pros outros, ninguém deu trela, só beiços puxados de reprovação na leseira dele. Bem que eu poderia ser salva-vidas, nos afogamentos do riacho, nos tanques fundos de água, nas cacimbas, nos banhos de rios, praia não que é muito longe. Pois é, podia ser, né? Podia. Antes teria de aprender a nadar, evidentemente, não sabia. Ah, é só saber mexer os braços e as pernas, resolvido. Procurou se inteirar: técnicas de respiração, ôxe, moleza. Não era. Massagens cardíacas? É só dar uns alisados com sopapos na caixa dos peitos, pronto, feito. Nada disso. Agilidade nas ações de prevenção, hein? Lascou! Entrevado como era, um traste. Um segundo e babau. Um segundo? Tá difícil, mas vou praticar. E foi. Saía dum lado a outro de uma margem a outra do rio, pra cima e pra baixo, caçando vítimas. Ué, parece mais que ninguém morre por aqui, ora. Um dia, dois, três e nada. Só se eu começar a salvar os peixes! De quê? Mergulhou, não sabia da infestação de piranhas. Hum! A primeira deu-lhe uma mordida nos colhões dele ver estrelas. Aí não teve partes do corpo que não tivesse dentadas delas. Vôte! De tão inchado ficou irreconhecível. Ao passar pelas ruas, as crianças só: Bicho feio! Bicho feio! Voltar ali, não dava, nunca mais. Foi pro riacho e logo viu um pato se debatendo, foi lá e o mundo escureceu com o grasnado de gansos. Era hora de se salvar e nem deu conta de que se aproximava de um jegue nas proximidades. Foi. Levou um coice de ficar desacordado por dias. E quando voltou não sabia onde estava nem mesmo quem era. Pronto. Melhor praticar num aquário, melhor não. Abandonou a carreira sonhada de super-herói. Queria fazer o melhor de si, não tinha jeito, era sempre arrastado pelo cabresto do azar, vencido pelas surpresas, destrambelhado. Sonhos, tudo pelos ares. Bom humor e fome ou sono, não combinam. Onde a sorte da sua vida? Só podia estar escondida em algum lugar: no cu da vida dele, reclamava. Apesar da ideia curta, da escassa inteligência desastrada, sabia que as guerras nasciam no coração humano, apenas, e não podia ser maior que seu próprio tamanho. Enquanto sonhava com as almofadas de seda do Alcorão, arrodeado de belas e nuas donzelas dos olhos de misteriosas pétalas, a sua vida era disco arranhado de imagens bufentas. Quem era ele senão escravo do labor infindável, tedioso e cruel de todos os dias, o pecador torturado, castigado que só, mas por quê? A maldita sorte. Maldisse a si próprio. Quem sou eu? O que estou fazendo aqui, de onde em vim, pra onde vou? Bateu com o quengo na parede: Tome, seu desgraçado. Começou a esmurrar o próprio peito, revoltado consigo mesmo. Aos murros contra si próprio, eis que do seu peito saíram pombos, borboletas, corujas, araras, passarinhos, aranhas, urubus. Vixe! Virei mágico, foi? Só era o que faltava! Não, não era, sabia lá o que droga foi que aocnteceu. Sabia que o seu coração mais parecia uma bola se debatendo aos pulos, saltando alto de querer sair pela boca. Vixe! Viu-se fora de si, um outro: cara dum, cu de outro, quem não ganhar é gafanhoto. E levou um bofetão dele mesmo: salafrário! E revidou, quebrou dois dentes. Punhos, munhecas e muques na contenda. Movido por um ódio terrível na bravata, fez força e se enfrentou sob furores de trovões e relâmpagos, em selvagem combate. Agarrou-se ao pescoço do adversário que era ele mesmo e viu-se desfalecer, queria aniquilar e pôr fim na luta mortal, quase mata, ou seja, na verdade, quase morre. Ué, lutei contra mim mesmo, foi? O outro era eu! Que doidice! Foi aí que a sua alma virou pássaro e saiu voando. Ele aterrorizou-se ao se deparar com o escaravelho, a balança e a pedra, não soube o que dizer. Que droga é nove, hem? Não sabia e só se sentia um imprestável girando na roda do renascimento pelo fluxo da existência. Do Livro dos Mortos: o que você quer ser: um cinzeiro, um seixo, uma andorinha, o quê? Sou aquilo que penso e faço: uma titica catingosa, uma catota nojenta, uma pereba remelenta, um vômito da miséria, uma gangrena mortal, um inchaço purulento, uma ameba no instestino do universo, de serventia alguma. De tanto se autoimolar deu-se a metamorfose: tornou-se uma barata asquerosa fugindo de sapatos e escorpiões. Correu, fugiu, sumiu. Cadê eu? Perdeu-se de si. Sacou que sua alma havia transmigrado para um tolote de bosta. Eita! Salvei-me, pelo menos. Será? Ah, nem morri e virei merda povoada por moscas e mosquitos. Se não prestava, agora é que deu mesmo. Aceitava a sua ruína, nem servia nem pro lixo, quanto mais para troco. Era dia dos santos inocentes: e eu que pago o pato. Enjeitado do mundo, ele se perdeu no pesadelo da sua vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá prévia do Revellon de Ano Novo com especiais de show ao vivo de frevos com Elba Ramalho & Vassourinhas, Ninho de Vespa & Passo de anjo com Spok Frevo & muito mais! Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Existem diversas filosofias ou concepções de mundo e sempre se faz escolha entre elas. Como ocorre esta escolha? É esta escolha um fato puramente intelectual, ou é um fato mais complexo? E não ocorre frequentemente que entre o fato intelectual e a norma de conduta exista uma contradição? Qual será, então, a verdadeira concepção do mundo: a que é logicamente afirmada como fato intelectual, ou a que resulta da atividade real de cada um, que está implícita, na sua ação? E já que a ação é sempre uma ação política, não se pode dizer que a verdadeira filosofia de cada um se acha inteiramente contida na sua política? [...]. Trecho extraído da obra Concepção dialética da história (Civilização Brasileira, 1978), do filósofo, cientista político e comunista italiano, Antonio Gramsci (1891-1937). Veja mais aqui e aqui.

CULTURA PÓS-MODERNA – [...] duas vertentes, a do surgimento do pós-modernismo a partir do modernismo e a do aparecimento da pós-modernidade a partir da modernidade, seguem caminhos adjacentes, que por vezes se cruzam, mas outras divergem entre si de maneiras significativas. [...] A comunicação de massa transferiria a vivência no real para a vivência no signo. Portanto, a cultura pós-moderna seria a cultura do simulacro. [...] A economia da cultura de massas, longe de exigir o congelamento das experiências humanas livremente contingentes em formas comerciáveis, promove conscientemente essas formas de intensidade transitória, visto que, no final, é muito mais fácil controlar e estimular a demanda de experiências espontaneamente (que de espontâneas, é claro, nada têm) sentidas como fora da representação. Do rock ao turismo, da televisão à educação, os imperativos publicitários e a demanda de consumo já não tratam de bens, mas de experiências. [...] a cultura capitalista contemporânea, longe de depender da incessante replicação dos mesmos produtos, na verdade alimenta as energias dissidentes de formas culturais marginais ou oposicionistas [...]. Trechos extraídos da obra Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo (Loyola, 1993), do professor e estudioso britânico Steven Connor.

UMA MULHER QUE PASSOUEra uma mulher. Uma dessas mulheres de começo de verão, que passam num vestido justo, de cores vivas, sapato alto aberto em tiras e os cabelos soltos. Fiquei a admirar-lhe o passo despreocupado, o leve mexer dos quadris, em nada exagerado. Súbito me comoveu. Por que não sei. Mas há de ser sempre assim. Algumas mulheres nos surpreendem, muitas nos encantam e poucas – entre tantas – nos comovem. De algumas mulheres  ficam lembranças. Lembranças vagas, muitas vezes insuspeitadas e que não são necessariamente da mulher que mais amamos ou de outra por quem nos apaixonamos perdidamente – digamos – por uma semana. Nada existe de lógico nisso e muito menos de justo, porque ao homem não é dado nenhum poder sobre a memória, nem tampouco qualquer controle sobre suas sutilizas. Assim estamos redimidos perante a própria consciência. Não somos culpados de que nada, particularmente, nos faça recordar aquela a quem dedicamos um carinho maior e do qual nos orgulhamos; enquanto que outra, para a qual fomos menos afetivos, ficou para sempre num perfume, num som ou numa imagem. Para aquela namorada – furiosamente namorada em Teresópolis – ficou um apito de trem. A manhã fria da serra, quando atravessei a pracima rumo à estação, para uma despedida que sabia definitiva, poderia ter ficado para identificá-la na memória. Mas o que ficou foi o apito do trem, quando lentamente o comboio pôs-se em movimento e ela disfarçou as lágrimas com um sorriso triste. Sei disso porque – tantos anos depois! – estava passeando a cavalo pelis campos da fazenda quando um apito de trem me chamou a atenção. Vinha sozinho e alegre, todo voltado para a quietude e a beleza das paineiras, mas bastou que o trem apitasse lá longe, do outro lado do rio, para que no meu pensamento ela se fizesse tão nítida e tão fresca. Era como se ainda na véspera nós estivéssemos sentados juntos, na amurada da varanda, a dizer-nos coisas que depois não cumpriríamos. Foi aí que percebi: para sempre a sua lembrança estaria ligada ao apito distante de um trem. Onde quer que eu esteja, daqui a muitos anos, mesmo que ela não exista mais, voltará a viver no meu pensamento, com a nitidez que o tempo não vencerá. São coisas. E são inexplicáveis. Como a mulher que passou e súbito me comoveu. E a quem interessa uma resposta, quando lhe basta a sinceridade da emoção? Lá vai a moça balançando os cabelos cortados na altura da nuca, a cada passo. Vai inteiramente inocente dos sentimentos que provocou. Não teria nenhum sentido seguir ao seu lado e comunicar minha surpresa. Não teria sentido, nem seria correto. Ela não tem culpa nenhuma. Penso que se eu pudesse ser sempre assim, ponderado nas atitudes, doíam menos em mim as pequenas lembranças de que falei. Tudo pesado e bem medido, pouca esperança havia de que dela não ficasse alguma coisa na memória, para doer muito tempo depois, quando já mais nada houvesse da emoção de hoje. Foi bom que ela sumisse na esquina e eu a deixasse ir sem um gesto, uma tentativa de – pelo menos – fazer-lhe sentir o bem que me fez, vê-la passar. Foi bom ou então eu estou ficando velho. Extraído da obra A casa demolida (Agir, 2007), do escritor, radialista, jornalista e compositor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta, 1923-1968), Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMASDoces rios e canaviais da minha infância: Doces e belos rios ;/ Una, Panelas e Pirangi / onde nadei com meus sonhos / ouvindo canários, rolinhas, curiós e juritis. / Nas matas viam-se pacas, capivaras e tatus / nos céus gaviões, sabiás e lambus / como era lindo ver a revoada de outros pássaros / quando os trens passavam pelos bambus. / Ainda corre em meu coração / rios de saudade / que vão aguando memoráveis lembranças / da minha infância e mocidade. / Aquele bueiro, ainda apita dentro de mim / aquele saudoso trem, ainda me faz viajar no tempo / naqueles rios, navego em recordações / por verdes matagais / mato brilhante dos meus eternos canaviais. A lua e o poeta: A magia da lua / que tanto inspira o amar / e sempre está nua / esperando uma roupa de um poeta com seu rimar. / Lua de todas as noites / lua guia dos apaixonados / lua dos caçadores e pescadores / lua alma dos poetas inspirados. / Lua nova, cheia, ou minguante / lua dos rios, das marés, dos mares e dos bares / lua dos Joãos, das Marias e de todos os nomes / que são rimas para a poesia / lua nova, cheia ou minguante, lua de todos amantes. / Lua eterna morada do poeta / oxigênio do orquidário das poéticas do amor / onde se imortalizam poeticamente a crença e a razão / jardim enluarado da casa do poeta-coração. Poemas do professor, psicólogo e poeta Marcos Carneiro, pós-graduado em Saúde Pública, doutorando em Psicologia.

A FOTOGRAFIA DE PATRIZIA SAVARESE
A arte da fotógrafa italiana Patrizia Savarese.

Veja mais:
Proezas do Biritoaldo aqui, aqui, aqui, aqui. aqui & aqui.
As presepadas de Tolino & Bestinha aqui.
A literatura de Manuel Puig aqui.
A arte de Giulia Gam aqui, aqui & aqui.
A poesia de Olavo Bilac aqui, aqui & aqui.
A literatura de Susan Sontag aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, escritor e professor estadunidense Kenney Mencher.
Veja mais aqui.

sexta-feira, setembro 22, 2017

GRAMSCI, HILDA HILST, GILVAN LEMOS, RUBEM ALVES, PALMARES & ATONMIRIO BARROS

A RESSURREIÇÃO DO CASANOVA – Uma enchente avassaladora varreu Alagoinhanduba do mapa. Bastou uma barragem duma multinacional que ninguém sabe o nome rachar em bandas, de um tsunami mandar ver levando tudo correnteza abaixo. Milhões de desabrigados, maior tragédia da história. Não sobrou nem lembranças do que era, findando o povo todo ter de morar embaixo da ponte que, de tanto balançar, não cabia mais ninguém pendurado. Com a situação, Zé Peiúdo se aproveitou na maior caranha: vendia tudo por preço exorbitante. Não concorrência, ou comprava, ou comprava. Era de lascar, fazer o quê? Ajuntando uns trocados bons com as negociatas, deu ele de ir tomar já a segunda meiota, quando ouviu pelo nome Casanova. – Ah, esse nome eu conheço, vai dá preu armar em cima. Nem perdeu tempo, foi bordejando entre as mesas e encostou-se numa em que dois estranhos conversavam: - Quem é Casanova? Sou eu. Rapaz, preciso ter uma conversa séria com vosmicê, vamos pra emissora preu entrevistá-lo! Hem? Vambora, venha. E puxou o distinto pela mão, arrastando morro acima, pras instalações do serviço de alto-falantes que ele chamava de AM/FM Alagoinhanduba, coisa de um tico de ouvinte, só ouvida até a primeira esquina no pé da montanha. Apossou-se dum megafone e saiu gritando: - Hoje Casanova faz revelações do estopô calango, exclusividade da sua emissora, a mais ouvida da região. Aos berros, repetia o nome do entrevistado que estranhava aquele estardalhaço todo, principalmente quando ouviu o locutor segredando pra sua banda: - Vamos lá, passe logo todo serviço! Hem? Mal começara a se organizar pra começar o teitei, eis que entra o calunga que lhe cochicha ao ouvido: - A mundiça toda tá aí atrás dum tal de Casanova! Eita, porra! Tenho nada a ver com isso não, vou me esconder. Peraí, rapaz, acalme-se! Calunga, venha cá! Diga! Pegue as armas, vamos enfrentar logo esse povo que deve ter vindo pra capar o rapaz, não podemos deixar acontecer isso. Fique calmo aí que vou resolver isso em dois tempos. Pega aí a Rio Una 12 e os armamentos todos, vamos preparados. Aí lá vem o calunga com um bacamarte, uma garrucha do cano envergado, uma soca-tempero que dispara na base de traque de sala e uma pistola bala U enferrujada, tudo descarregado. Cadê a munição? Tem não. Vixe! Só tem uns peido-de-veia que acho que nem pipoca mais. Eita! E agora? Agora a gente corre. Nada disso, vamos tapiar, a gente faz que está carregado até o tampo e o povo todo corre com o primeiro estalo. Vamos lá! Quando deparou com a populaça toda, ele achou de dar logo uns bregues: - Que é que vocês querem invadindo propriedade privada, hem? É que a gente veio se inscrever na casa nova, é a mesma coisa do Minha Casa, Minha Vida! Vai-te embora comboio de fidapeste! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o saxofonista, flautista, arranjador e professor de música Mauro Senise interpretando músicas do seu álbum Danças + Alergia de viver, Olinda Guanabara & Chegando a Japeri; da pianista e diretora musical russa Elena Bashkirova interpretando concertos de Mozart, Brahms & Shostakovich; do pianista e compositor Luiz Avellar Improvisando no piano, Rio de Janeiro & bailarina; e a maravilhosa, divertidíssima, engajada, premiada e internacionalzada cantora, violonista e compositora Célia Mara, cantando Solidão Urbana, Anamaria, We’re not alone & Fábrica de armas. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A ESCOLA DE GRAMSCI - [...] A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A complexidade da função intelectual nos vários Estados pode ser objetivamente medida pela quantidade de escolas especializadas e pela sua hierarquização: quanto mais extensa for a “área” escolar e quanto mais numerosos forem os “graus verticais” da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização, de um determinado Estado [...]. Trechos extraídos dos Cadernos do cárcere (Vol.2 – Civilização Brasileira, 2001), do filósofo, cientista político e comunista italiano, Antonio Gramsci (1891-1937). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O PAPEL DA CIÊNCIA - [...] Já que a ciência não pode encontrar sua legitimação ao lado do conhecimento, talvez ela pudesse fazer a experiência de tentar encontrar seu sentido ao lado da bondade. Ela poderia, por um pouco, abandonar a obsessão com a verdade e se perguntar sobre seu impacto sobre a vida das pessoas: a preservação da natureza, a saúde dos pobres, a produção de alimentos, o desarmamento dos dragões (sem dúvida, os mais avançados em ciência!), a liberdade, enfim, essa coisa indefinível que se chama felicidade. A bondade não necessita de legitimações epistemológicas. Com Brecht, poderíamos afirmar: “Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a miséria da existência humana”. Trecho extraído da obra Filosofia da ciência: introdução ao jogo e as suas regras (Loyola, 2000), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

A LENDA DOS CEM – [...] Da mata chegava outra espécie de alarido. Em coro repicavam as seriemas, as maracanãs se comunicavam aos berros, esvoaçavam ruidosos tetéus; em negro, os urubus; cautelosos, os rapinantes. Abriam caminho aos animais pequenos, que deconsetados deixavam o próprio abrigo á procura de tocas talvez inexistentes. Raposas, como bêbadas, varavam o descampado, coelhos trocavam saltos sem proveito, pebas se topavam cegos, obtusos, enquanto as preás, mais cautelosos, quedavam nas fendas dos pedregais. Mas a ninguém interessava aquilo. [...] Trecho extraído da obra A lenda dos cem (Bagaço, 2008), do premiadíssimo escritor Gilvan Lemos (1928-2015). Veja mais aqui e aqui.

CANTARES DE HILDA HILSTIV – Eu não te vejo / quando teu ódio aflora. / Como poderia / ver teu ódio e a ti. / Iludida / por uma só labareda da memória? / Cegos, não somos dois. / Devorados e vastos / temos um nome: EFÊMEROS. Poema dos Cantares de perda e predileção, extraído da obra Cantares (Globo, 2004), da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004). Veja mais aqui e aqui.

PROFESSORES NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Participando com professores da rede pública de ensino nos eventos da Biblioteca Fenelon Barreto.

Veja mais:
A arte musical de Elena Bashkirova aqui.
A arte de Mauro Senise aqui e aqui.
A arte da cantora e compositora Célia Mara aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

LEMBRANÇAS E TRADIÇÕES DA MATA SUL
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul
Corre o Rio Una
Grita pela liberdade
No silencio vai em frente
Oh meu Deus que tanta saudade
Nos dias de hoje, já não existe felicidade
Minha paz foi destruída pelo inverno da verdade
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul
No Redondinho, nas ruas e todas as praças
O povo achava graça e o que é bom existe aqui.
Carrossel, caboclinho de Rabeca,
A bandinha de Veludo
E o guerreiro faz a festa.
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul
A terra é fértil, as sementes são poéticas
Em cada rua e cada esquina
A história é sempre esta.
A Meia-Noite, cantava o seresteiro
O poema ovacionado pra seu amor verdadeiro.
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul.
Música & letra de autoria de Atonmirio Barros (Miro Barros), parceiro do escritor Juarez Carlos na peça teatral O Herói Nordestino. Veja a entrevista de ambos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...