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segunda-feira, julho 14, 2025

SAMANTA SCHWEBLIN, NANCY FRASER, PAULA ESPAÑA & PINTANDO NAS PRAÇAS DE PERNAMBUCO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Monte A (2006), Without Sinking (Touch, 2009), Leyfðu Ljósinu (Touch, 2012) e Saman (Touch, 2014), da musicista, violoncelista e compositira islandesa Hildur Guðnadóttir (Hildur Ingveldar Guðnadóttir).

 

O que de pai, amigos, vida, a mulher... - Zeladim sempre foi um cara de sorte! Desde a mais tenra idade brincava com fogo aprontando das suas, escapando dos flagras às sonsas escapulidas. Pudera, o pai era um tanto prestigiado, o que lhe valia alguns privilégios dos compadrios às regalias vantajosas. Isso sem contar a proteção dum amigo do peito à toda prova, que o acudia sem pestanejar! Eis que, no mais que de repente, o pai teve um piripaque e, vitimado por um sopapo cardíaco, bateu as botas. E mal caíra a ficha do luto, o inseparável amigo se esborrachou todo numa barruada feia no trânsito. Danou-se tudo agora! Foi então que viu a sua estrela na testa escorregando e amoitando-se noutro lugar pouco recomendável. E agora? Lá ia ele triste, chutando lata, mãos nos bolsos, sem perspectiva. Dava de bico do pé na vida ingrata quando, aos pontapés nas tranqueiras espalhadas pelo chão, um bregueço saiu colorindo no meio duma fumaça azulada que o envolveu todo. Vixe! Arregalou os olhos e se viu diante de um gênio holográfico apressado e pronto pra atender seus 3 pedidos. Hem? Bora, logo! O quê? Vai, pede logo. E nessa lengalenga recusou todos: Quero tudo! Como? Tuuuuudo! O djinn cerrou o cenho, fechou a cara, esbravejou, olhou dos lados, coçou o cocuruto e teve uma ideia: Toma! Entregou-lhe então um estojo empoeirado, parecia coisa do arco da velha. Isso é tudo? Toma, porra! Recuou: Que droga é 9? Pegue! Ah, não! Aí o abantesma explicou: Vai, pega logo: é como se fosse um cachorro portátil. Cachorro? Ué, não é o melhor amigo do homem e, ainda por cima, esse não late, não lambe, não balança o rabo e é a última tecnologia inventada, é só controlar qualquer função, um dispositivo de operação à distância, dê graças ao Nikola Tesla. Oxe, cadê! Ah, tenho mais o que fazer! E num estalo de dedos foi-se deixando-o desesperado. Aí Zeladim segurou as pontas, conteve-se e ficou conferindo direitinho: era um troço imprestável, cheio duns pitocos embutidos. Isso é uma porqueira! Apertou, experimentou, fincou o dedo no negócio e, do nada, apareceu uma tevê gigante! Tudo pelo telecomando! Hummmm... Foi gostando: tinha tudo que quisesse, bastava apertar e escolher. Mesmo? Fez o teste e saiu encarcando o polegar no brebote, metendo o dedo pra cima e as coisas aparecendo e logo se transformavam ao seu redor: comida pra encher a pança, bebida pra molhar o bico, até um foguetáxi pra ir pronde quisesse. Foi gostando: Eita! Num sou Aladim, mas tenho a verdadeira lâmpada maravilhosa! Foi pressionando ali, clicando acolá, viu-se detentor de poderes ilimitados: Vou ser o rei de Magreb. E diante de si todo tipo de cacarecos, bagulhos, bugingangas, trecos, joças, tudo ali ao dispor. Pense num cara espaventoso! Aí viu passar na tela a sua Galateia virtual. É ela! Voltou as imagens, deu pausa, enquadrou, ampliou a imagem da face, depois o corpo inteiro. Hummm... Ah, precisa duma turbinada! E caprichou no engenho: os olhos safados, a cútis de cetim, a boca de grandes lábios, o decote da vizinha – que glamourosos par de seios no decote, meu! -, os quadris da professora – que arte esteatopígica! -, as coxas colossais, o molejo das modelos na passarela. Depois de todo ajeitado, ele chamou na grande: Venha, minha escrava, dá aqui pro papai, vai! Ela saltou fora da tela e ali, diante dele, ao vivo e em cores, fitou com desdém e já ia se virando: Esse seu trono aí é muito frágil pra rainha aqui, viu? Ué, mas fui eu quem inventou você. Hem? Ela com uma olhadela desconfiada já ia saindo, deu-lhe as costas e seguiu, nem aí. Ele não caiu na real e nem deu tempo encará-la direito. Ei! Ei! Eiiiiii! Ela dobrou a esquina e já era. Cadê-la? Solitário resmungava: Logo hoje, merecia meu presente! Moral da história: o melhor do dia do homem é saber que todo dia é dia da mulher. Até mais ver.

 

Octavia Butler: Há um tempo para o silêncio. Um tempo para deixar ir e permitir que as pessoas se lancem em seu próprio destino. E um tempo para se preparar para juntar os cacos quando tudo acabar... Veja mais aqui & aqui.

Espido Freire: Numa época como a atual, em que nossos olhos mal pousam em um tema antes de saltar para outro, mais escandaloso, mais impactante, os livros precisam recuperar seu ritmo lento, a necessidade de transcendência essencial à reflexão e ao aprendizado para dar um mínimo de sentido à sociedade moderna... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Deborah Colker: Saber gritar e calar, agir e esperar, lutar e aceitar. Superação é inteligência, apropriação, conhecimento, disciplina. Superar é curar!... Veja mais aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

DESERTO - A paisagem ondulante e antiga, as falhas da terra \ e a história de um mundo entrou em colapso. \ Nunca houve ninguém aqui, por isso não há tragédia nas tuas palavras. \ É por isso que o vento cai. \ no rachinho da sua voz. \ Animais mal desenfreados voam \ com asas de morcego no barro e na rocha. \ Tudo isso não era nada. \ E nada era tudo: cordilheiras, geleiras, fundo de água \ petrificado com o sol. Perseguição da morte \ A vida e vice-versa. Falamos sobre essas coisas e outras \ na intimidade do carro, tão longe da sua boca \ - Há o meu. \ Onde havia amor antes.

POEMA 16 - Na selva, naquela noite \ Ele tomou o suco de uma planta \ mais amargo que vinho e concentrado \ Como medicamento ou veneno \ E depois de beber, eu sabia\ Que fui eu que escalou diante dos meus olhos \ Enquanto outros cantavam \ Era eu. \ Aquele que subiu como um emaranhado \ Pelo tronco de uma árvore \ E fui eu que descia mais tarde. \ E depois subi. \ todos os tempos necessários, isto é, \ Durante o tempo total da minha vida. \ É difícil dizer-lhes. \ O esforço com que abraçou essa crosta \ Colocando as unhas que a esmagaram. \ Minhas garras eram fortes como os gatos. \ Mas quando eu caí eu me tornei luz, e eu reformulei \ Sedoso, no chão. \ Era o início da manhã. \ Quando essa bebida deu o seu efeito \ E eu adormeci. \ Por muitos dias \ As imagens daquela noite \ Eles são deixados no meu coração. \ Eles fizeram isso doce como as pérolas \ que brotam no ramo e se desfazem \ Na boca sagrada da vida \ Depois de cada inverno.

Poemas da escritora, periodista e psicóloga argentina Paula Jiménez España, autora de obras como Ser feliz en Baltimore (2001), Formas, libro y cd (2002), La casa en la avenida (2004), La mala vida (2007), Ni jota (2008), Espacios Naturales (2009) La vuelta (2013) y la plaquete Las cosechadoras de flores (2014), além de Pollera pantalón / Cuentos de género (2012), Aventuras de Eva en el planeta (2005) e La calle de las alegrías (2006), entre outros. No livro La suerte (Caleta Olivia, 2021), ela expressa que: […] Se considerarmos a afinidade entre dissidência e esoterismo, acredito que deste lado, do lado da magia e da poesia, continuamos sendo aqueles que cultivaram uma sensibilidade mais refinada, nascida da experiência da exclusão e da vulnerabilidade. A resistência nos lançou ao deslumbramento. [...]. Trata-se de um livro de revelações com quatorze cartas em que cada poema abraçando o mistério e se tornando oracular, trabalhando com a palavra poética e a memória poética, acrescentando que: [...] Minha obra é caminhar, e eu obedeço, e quem lê sente a própria qualidade da volta do destino e do tempo simultâneo com suas derivas circulares, o alto que é baixo, o dentro que é fora, o passado que é presente e futuro. Sou eu quem lê ou quem é lido? [...].

 

O BEM & O MAL – [...] A loucura assusta você, distrai você, mas é preciso encará-la com cuidado. [...]. Trecho extraído da obra El buen mal (Randon House, 2025), da premiada escritora argentina Samanta Schweblin, que no seu livro Kentukis (Fósforo, 2021) ela expressa que: [...] A inartista. Ninguém, para ninguém, e nunca nada. A resistência a qualquer tipo de concretude. Seu corpo se interpunha entre as coisas, protegendo-a do risco de jamais alcançar qualquer coisa. [...] Regulamentação não tem nada a ver com estabelecer padrões; significa estabelecer regras que funcionem em favor de alguns. [...]. Na sua publicação Fever Dream (Riverhead, 2017) ela expressou: [...] Às vezes, eu me assentei a pensar que os problemas de todos os dias podem ser para mim um pouco mais terrível do que para o resto da gente [...] Há um limite para a quantidade de buscas que você pode fazer. Ou um cavalo está lá ou não. [...]. Veja mais aqui & aqui.

 

CAPITALISMO CANIBAL – [...] Um sistema econômico definido pela propriedade privada, a acumulação de valor “auto” expansivo, a alocação de mercado do excedente social e dos principais insumos para a produção de mercadorias, incluindo trabalho (duplamente) gratuito, é possibilitado por quatro condições de fundo cruciais, relacionadas, respectivamente, à reprodução social, à ecologia da Terra, ao poder político e às infusões contínuas de riqueza expropriada de povos racializados. [...] Ambos os "ex" contribuem para a acumulação, mas o fazem de maneiras diferentes. A exploração transfere valor ao capital sob o disfarce de uma livre troca contratual: em troca do uso de sua força de trabalho, os trabalhadores recebem salários que (supostamente) cobrem seus custos de vida; enquanto o capital se apropria de seu "tempo de trabalho excedente", ele (supostamente) paga pelo menos por seu "tempo de trabalho necessário". Na expropriação, por outro lado, os capitalistas dispensam todas essas sutilezas em favor do confisco bruto dos bens alheios, pelos quais pagam pouco ou nada; ao canalizar mão de obra, terras, minerais e/ou energia confiscados para as operações de suas empresas, reduzem seus custos de produção e aumentam seus lucros. Assim, longe de se excluírem, expropriação e exploração trabalham juntas. Trabalhadores assalariados duplamente livres transformam "matérias-primas" saqueadas em máquinas movidas a fontes de energia confiscadas. Seus salários são mantidos baixos pela disponibilidade de alimentos cultivados em terras roubadas por peões endividados e de bens de consumo produzidos em oficinas clandestinas por "outros" não livres ou dependentes, cujos próprios custos de reprodução não são totalmente remunerados. A expropriação, portanto, fundamenta a exploração e a torna lucrativa. Longe de se limitar aos primórdios do sistema, é uma característica inerente à sociedade capitalista, tão constitutiva e estruturalmente fundamentada quanto a exploração. [...]. Trechos estraídos da obra Cannibal Capitalism: How our System is Devouring Democracy, Care, and the Planet—and What We Can Do About It (Verso Books, 2022), da filósofa estadunidense Nancy Fraser, que no seu livro Feminism for the 99% (Verso, 2019), ela expressa que: […] Um feminismo verdadeiramente antirracista e anti-imperialista também deve ser anticapitalista. [...] A aliança do patriarcado e do capitalismo que quer que sejamos obedientes, submissos e quietos. [...]. Já no livro Capitalismo: Una conversación desde la Teoría Crítica (Ciências Sociales, 2019), ela comenta que: […] Se quisermos compreender a relativa ausência de crítica ao capitalismo nos últimos anos, devemos também considerar a ascensão espetacular do pensamento pós-estruturalista no final do século XX. Pelo menos no meio acadêmico americano, o pós-estruturalismo tornou-se a "oposição oficial" à filosofia moral e política liberal. E, no entanto, apesar de suas diferenças, esses oponentes manifestos compartilhavam algo fundamental: tanto o liberalismo quanto o pós-estruturalismo eram formas de escapar do problema da economia política e da própria economia social. Foi uma convergência de força extraordinária: um golpe, se preferir. [...]. Por fim, no seu livro The Old is Dying and the New Cannot Be Born: From Progressive Neoliberalism to Trump and Beyond (Verso, 2019), ela conclui que: […] O velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PINTANDO NAS PRAÇAS DE PERNAMBUCO

No próximo dia 16 de julho, a partir das 19h, na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares (PE), ocorrerá o lançamento do catálogo Pintando nas praças de Pernambuco, promovido pelo Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna), coroando a iniciativa do poeta e pintor Paulo Profeta. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.






quarta-feira, março 11, 2020

DEBORAH COLKER, SACHA COUTINHO, MICHAELA DEPRINCE & EZILDA GOYANA


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA: COMO QUEM DANÇA A VIDA PASSA - Ao lado dela a vida sorri. Sou seu par: os passos dela, os meus descompassos. Ela sorri coreografando o momento; eu, equilibrista de sempre. Na ponta dos pés, a sua nudez desenhava os sonhos na realidade; eu, na corda bamba, nela a me agarrar. Se eu vacilasse na topada, ela era arrimo aos mimos e cuidados, hem hem. Se eu tropeçasse de novo, ela mais ria exagerada de compaixão. Ao me sentir desistente, era nua mais terna que solidária. Quem? Deborah Colker: Lute com determinação, abrace a vida com paixão, perca com classe e vença com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito bela para ser insignificante. Passim, a dança revelou o amor. DUAS: O QUE RESTA DE TÃO POUCA FELICIDADE - Poemas inconclusos e canções desfeitas sou pedra abstrata de monumento em ruínas, eternos sonhos jamais distinguidos entre sombras e pulsações. E ela seminua debruçada sobre a tela, esboços de uma gravura. Reinventava meu mundo, a poesia transcendia inalcançável, sou apenas sentimento humano, o silêncio me liberta: ela nua sobre seus versos manuscritos, poemas de amor e paixão. O cântico e ela, despida e singela no meu êxtase viril e brasa nas veias. Flor renascida e nos amontoamos a consumir o pouco de felicidade que nos resta. Quem? Wanda Gág: Não há nada melhor para fazer do que tomar a si próprio à medida que nos encontramos e fazermos o melhor de nós mesmos. Se me vejo como filha de um artista que me deixou de mente aberta e um caráter convenientemente forte para resistir à tentação, saio de lá e realizo o que posso... Sou o poema que escrevi na sua carne. TRÊS: QUEM ENTRA NA RODA SÓ TEM QUE DANÇAR - Era ela a vida e ardia um canto, o átimo enrubesceu a voz porque tudo era ela desnuda com o perfume de flores e às badaladas no meu coração. Livre e honesta expressão do movimento e mais que ela, braços de Allegheny, pernas da Pensilvânia e o que vivi de terrível e agradável, a desvendar a alma humana na sua nudez… Ela me deu a chave de Paris e a coroa japonesa, e até muito mais: o inevitável. Deu-me o que era de Deus e dos homens, e a sua prosa era mais que o verbo ou a palavra na sua pele: sem véus ou vestes, o embalo profundo de todas as formas, o ânimo da loucura com suas sílabas e vínculos, a música inaudível no enigma dos gestos despudorados. Quem? Martha Graham: O corpo diz o que as palavras não podem dizer. A dança é a linguagem escondida da alma. Semeou o amor para florir os campos da minha vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Nem sempre me chamei Michaela DePrince. Quando nasci, em um povoado no sudeste de Serra Leoa, na África Central, meus pais me batizaram Mabinty Bangura. Minha mãe me deu à luz em 1995, em plena guerra civil que matou mais de 50 mil pessoas - número que inclui meus pais -, ele foi assassinado pelos rebeldes da Frente Revolucionária na mina de diamantes onde trabalhava; ela morreu de febre de Lassa, uma das muitas doenças disseminadas pela guerra e pela falta de saneamento básico por lá. Aos 3 anos, me tornei órfã. Tenho vitiligo, doença autoimune que produz manchas brancas pelo corpo. Por isso, a maior parte dos moradores de nossa aldeia, incluindo meu tio, que cuidou de mim logo que meus pais morreram, achava que eu era uma maldição e passou a me chamar de “filha do diabo”. Por causa da doença, o irmão do meu pai me abandonou em um orfanato, onde vivi por pouco mais de um ano. Lá, éramos 27 crianças. A primeira recebia o maior prato de comida e a melhor roupa. Acabei escalada para ser a de número 27. Passei muita fome naquele ano e fiz apenas uma amiga, Mabindy Suma. Ela era a 26ª da lista porque estava sempre doente e fazia xixi na cama. Em poucos dias, nos tornamos praticamente irmãs - Mabindy Suma costumava cantar e contar histórias para eu dormir. Num dia de tempestade, os ventos trouxeram a capa de uma revista, que ficou presa no portão do orfanato. Agarrei aquela folha com toda a minha força. Nela estava estampada a foto de uma mulher branca - como fiquei surpresa ao ver pela primeira vez uma pessoa com outro tom de pele! - usando uma saia rosa curta e brilhante: era uma bailarina. O que me chamou mais a atenção naquela imagem, no entanto, foi a expressão de felicidade em seu rosto. Apesar de eu não saber ao certo o que era ser uma bailarina, naquele momento pensei que, se ela estava sorrindo, talvez um dia eu pudesse sentir sua alegria se fizesse exatamente o mesmo. Lembro-me de compartilhar esse sonho com a nossa professora de inglês, Sarah - estudávamos a língua porque o dono do orfanato esperava que fôssemos adotadas por famílias americanas. Eu era muito esforçada e apegada a essa professora, para quem sempre dançava na ponta dos pés. Um dia, ao acompanhar Sarah até o portão, então grávida de sete meses, vi alguns rebeldes da Frente Revolucionária se aproximando. Eles riam e gritavam - hoje, quando relembro essa cena, acredito que estavam bêbados ou sob o efeito de alguma droga - e rapidamente nos cercaram. Em voz alta, fizeram uma aposta sobre o sexo da criança que ela esperava: seria menino ou menina? Na sequência, um dos guerrilheiros puxou-a para perto de si e cortou sua barriga, arrancando o bebê de dentro dela. Se fosse um menino, talvez os rebeldes tivessem tentado salvá-lo, mas a criança era uma menina. Então, eles cortaram seus braços e pernas na minha frente. Sarah, claro, morreu na hora. Apesar de ter apenas 4 anos, essa cena ficou para sempre na minha memória. [...]. Depoimento da bailarina serra-leonesa Michaela DePrince, que escreveu sua biografia O voo da bailarina: de órfã de guerra ao estrelato (Best Seller, 2016), com sua mãe adotiva Elaine DePrince, uma narrativa envolvente e essencial para a desconstrução dos rígidos estereótipos raciais e padrões de beleza presentes no competitivo mundo do balé. Ao narrar as condições de vida numa terra devastada pela guerra, os primeiros anos de vida, a perda dos pais de maneira brutal, que foi abandonada pelo tio em um orfanato, onde ficou conhecida como "a número 27" e foi cruelmente apelidada de "criança demônio", devido a uma condição de pele que faz com seu corpo pareça manchado. A estadia no orfanato, no entanto, lhe forneceu uma bênção: foi lá que ela encontrou a capa de revista que determinaria seu futuro, estampada com uma linda bailarina na ponta dos pés. Adotada por uma família estadunidense que encorajou seu amor pelo balé, matriculando-a em escolas de dança, ela daria início à emocionante trajetória rumo aos maiores patamares do balé mundial. Sobre sua vida, ela diz: Vocês acham que é um conto de fadas? Veja mais aqui.

SACHA COUTINHO & O AMOR IMPOSSÍVEL
A resistência do povo pernambucano ao domínio holandês no século XVII custou a vida de muitos homens e mulheres, deixou muitos ao desabrigo e também desfez sonhos. Alguns personagens desta guerra foram lembrados pelos historiadores que recuperaram a memória da resistência pernambucana. Já outras figuras, como Sacha Coutinho, permaneceram na memória popular. Sua história começa no engenho Andirobeira, nas proximidades do Recife, onde ela vivia com a mãe, o único irmão Nuno e o pai, João Paulo Vaz Coutinho. Pernambuco caíra em 1630 sob o domínio militar holandês. Pouco depois, Sacha, então com 15 anos, conheceu o jovem Antônio Homem Saldanha de Albuquerque. Este viu recusado, pelo pai da moça, seu pedido de casamento. Afirmaram os escritores românticos do século XIX que Antonio Homem engajou-se com fúria na luta de resistência contra os holandeses, nos combates na Paraiba, morrendo na batalha do Rio Formoso, em março de 1633. Ao perder também seus pais, Sacha passou a viver com o irmão na ilha de Itamaracá. Um dia, no ano de 1646, bateu-lhe à porta pedindo pouso o padre Aires Ivo Correia. Diz a tradição que o padre Aires tinha a mesma fisionomia do falecido Antonio Homem e, por conta disso, Sacha teve um mal súbito e morreu. Outra versão corrente afirma que o padre Aires era o noivo de Sacha, Antonio Homem, que teria sobrevivido à batalha. Ainda segundo a tradição oral, o padre teria plantado uma mangueira sobre a sepultura da jovem. Diz-se no Nordeste que a doçura das mangas de Itamaracá – conhecidas como as mangas do jasmim – deve-se a Sacha. A figura de Sacha encantou os escritores pernambucanos, especialmente a geração romântica, que a imortalizou como “a mártir do amor contrariado”. Em 1854, o escritor Luís Vicente Simoni escreveu um drama lírico em quatro atos intitulado Marilia de Itamaracá ou a donzela da mangueira. Na mesma época, o poeta pernambucano José Soares de Azevedo escreveu o poema “As mangas de Itamaracá”.
SACHA COUTINHO - Verbete sobre a figura mítica e símbolo do amor impossível Sacha Coutinho (1615-1646), extraído do Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade, biográfico e ilustrado (Jorge Zahar, 2000),organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Tem coisa mais cruel que o espelho? Uma criação deixa sempre perguntas sem respostas que ficam ecoando na minha cabeça. Quando um novo processo se apresenta elas estão lá, gritando, discutindo e me fazendo encontrar novos caminhos. Os meus trabalhos são muitas vezes criados a partir de causa e consequência. O primeiro mundo ainda nos vê como terceiro mundo, não profissionais, atrasados.
DEBORAH COLKER – A arte da bailarina e coreógrafa Deborah Colker, autora de projetos realizados como Mix (1995), Rota (1997), Casa (1999), 4 x 4 (2002), (2005), Dínamo (2006), Cruel (2008), Tatyana (2011) Belle (2014) e Cão sem plumas (2017). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui. E muito mais aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
Imagem: Bloco da saudade, da artista plástica Ezilda Goyana (1922-2019), que elegeu como tema central das suas criações a paisagem e as manifestações culturais da sua terra natal, mostrando em suas telas a profunda paixão pelo Sertão do Pajeú.
A história de amor de Fernando e Isaura, do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014) aqui & aqui.
O arranha-céu e outros poemas, do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013) aqui & aqui.
Rio Una no Meu Cantar, do cantor e compositor Jorge de Altinho aqui.
Das musas de ontem e hoje, do poeta, professor e pesquisador Amaro Matias Silva (1922-2002) aqui.
O município de Bonito aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

quinta-feira, agosto 07, 2008

CORDEL DE CAETANO, GERMAINE GREER, BLANCA VARELA, MARIA BONOMI, DEBORAH COLKER, LENA HEADEY, EDUCAÇÃO & EJA


A arte e a beleza da atriz britânica Lena Headey.

VALUNA: RIACHÃO DO GAMA & ELA É CACHOEIRINHA - Nem bem me dei conta, era novembro na cachoeira e ela, a várzea longe, tantos janeiros se passaram desde a última vez: estranhas fisionomias e nem os amigos eram mais amenos. Não mais a calmaria, vozes estranhas, outro idioma, do invasor peró. Tive que teimar para aprender. Era eu pescador de Cabanas e o meu oficio: refundar a esperança, servir ao amor, minha obrigação. No meu corpo as estórias do tempo, quanta memória e marcas que nem sei. Nenhuma hora de insones, hordas de múmias nuas, o convite ao ensaio, sabia: todos dependem uns dois outros no sopro da vida. Seguia para todo lado, Alazão, Maniçoba, Cafundó. Nem previa o avistamento de Tacaité e Cruanhas, a chegada do Milho e Chata, o transcurso de Olho d’Água, Catimbó, Queimada, Sacatinga, Flores e Verde, Caboclo e Quizanga. Apesar de festa, o tempo queimava ao vento na poeira das estradas vazias. Fui pras bandas de Pesqueira que era Monte Alegre e virou Cimbres da Capitania de Ararobá. Lá, o Poço Pesqueiro arrodeado pelos Pebas, Cana-Brava, do Boi, da Atravessada, do Guerra, do Bálsamo, e já era do Belo e Salobro, Santana, Gravatá, Ceguinha, Quebra-Roça, Baraúnas, Liberal, Papagaio. De lá Cimbres, Mimoso, Mutuca, Papagaio e os povoados Ipanema, Cajueiro, Beira Mar, Capim de Planta, Papagaio de Cima, Marimbas, Pacheco e Cacimbão. Ah, eu já estava além das serras do Mimoso e do Ororubá, onde os Xukurus faziam reduto e me contaram da extinção dos Paratiós. Aí apareceu a abelha negra zangada, a sanharó. Vôte! Era lugar para quem gostava do queijo e do leite, a feira e as vaquejadas, a Festa do Beco, a sancoquinho e a cavalgada das amazonas. Ah, aí sim. Elas. Ensinaram-me a dançar na aldeia dos abacaxizes, o jeito delas jambo maduro acudia meu gosto e ela cantando: “Vem Quinquim, temos para ti bobó, ambrazó, quingombó, jiló e excelente azeite de dendê” e eu na ambrosia dos deuses. A mãe parecia Tétis, só parecia e as águas lavavam meu corpo. Quando não, parecia Nix, só parecia e a brisa refrescava meus sonhos. Também parecia Gaia, só parecia e o chão era macio para meus passeios com outras que eram como se fossem greias, górgonas e sereias. Não eram, só pareciam. Ah, como eu gostava de tudo isso. E muito mais. Foi aí que a que se parecia Eumênide me deu a dádiva da humanidade para comer e as caçadoras donzelas me advertiram sobre amar e sofrer. Ao me falarem disso, de repente a surpresa: o cenário mudou e já estávamos no sopé do se parecia com o Monte Aréopago, onde outras delas me foram gentis e furiosas. Eita! Não sei das que esconderam a maçã dourada da imortalidade se é que esconderam mesmo, nem da dos crisântemos, leis e ordens. Cada uma delas me seduziu ao seu modo, cada uma delas, um presente: o brilho das estrelas, o pôr-do-sol, a serpente tricéfala, palavras que encantavam, a face gloriosa, o corpo alado, o rápido voo. As que pareciam moiras saíram da caverna pela fonte de água branca e me deram o destino, o sonho do sono, o remorso, a morte, a miséria e a discórdia. As que pareciam górgonas inspecionaram minha trajetória com a que se parecia Antígona e não me precipitei: seus rostos belos e corpos formosos, as asas douradas sobre os ombros. Eram guardiães do limiar que petrificavam. E me ensinaram: o sangue do lado esquerdo, ressuscita; do lado direito, mata. Eu tinha que saber disso. Outras mais vieram e me confundi quando as que se pareciam sereias me desviaram e as que se assemelhavam às greias eram, na verdade, cisnes nos lago divino e me olhavam enquanto eu as via entre as que aparentavam ninfas estígeas e marítimas, as que semelhavam harpias e as servas de Perséfone... e eu, assim do nada, era como se fosse Orfeu para cada uma delas e nelas. Eu não era Orfeu, era como se fosse delas e nelas. Falei algo e não foi tudo, nunca será. Das garras às caricias, minhas mãos deram e receberam delas, enquanto o meu povo que eu nem conhecia, sequer sabia da minha gente e já estava de volta, o regresso, o que me esperava. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.


DITOS & DESDITOS - Não creio que a realidade tenha começo e fim... Não gosto de olhar para trás, porque viraria estátua de sal. A maior virtude da boa arte é a síntese da pulsação. A arte surpreende a realidade. A arte tem que alcançar o maior número possível de pessoas. A arte pública transforma: a pessoa passa, vê aquilo e se questiona de alguma maneira. A pessoa é transformada por aquilo que vê, que ouve, que toca. Mesmo com novas linguagens para novas platéias. Sempre haverá. Mas o ponto de conclusão vai estar do outro lado da ponte. O ponto de conclusão não existe como conhecimento. É sempre indagação. É sempre busca. Pensamento da gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: A arte não deve representar interesses. Onde termina o rio e começa a lama, onde termina a lama e começa o homem? Quero falar desse homem caranguejo, que sobrevive à indiferença. O rio é a vida e a vida é irrigada pelo sangue. A dança me tirou daquela quase depressão, daquele buraco bravo que eu entrei. E parece que ela juntou o esporte, essa energia física, com a arte. Procuro trabalhar força dinamicamente, compondo todo o movimento. Fluindo energia até a ponta dos dedos. Ocupando o espaço sob todos os planos e níveis. Bailarino não pode parar. A dança está aí e cada vez conquistando mais praticantes. Tudo é válido. É preciso entender de uma vez por todas que um país sem cultura é um país sem memória. Pensamento da bailarina e coreógrafa Deborah Colker. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO – [...] Que a educação seja o processo através do qual o indivíduo toma a história em suas próprias mãos, a fim de mudar o rumo da mesma. Como? Acreditando no educando, na sua capacidade de aprender, descobrir, criar soluções, desafiar, enfrentar, propor, escolher e assumir as consequências de sua escolha. Mas isso não será possível se continuarmos bitolando os alfabetizandos com desenhos pré-formulados para colorir, com textos criados por outros para copiarem, com histórias que alienam, com métodos que não levam em conta a lógica de quem aprende. [...]. Trechos do livro Alfabetização de Adultos. Relato de uma experiência construtivista (Vozes, 1994), da professora e pesquisadora Irene Terezinha Fuck. Veja mais aqui.

A LIBERDADE E A VIDA - O medo da liberdade é forte em nós. Quer a chamemos caos ou anarquia, as palavras são ameaçadoras. Vivemos num verdadeiro caos de autoridades contraditórias, numa idade de conformismo sem comunidade, de proximidade sem comunicação. Podíamos apenas temer o caos, caso o imaginássemos desconhecido para nós. Mas de fato o conhecemos muito bem. É improvável que as técnicas de libertação, adotadas pelas mulheres espontaneamente, entrem num conflito tão feroz como o que existe entre auto-interesses em choque e dogmas conflitantes, pois elas não buscarão eliminar todos os sistemas, mas o seu próprio. Por mais diversas que elas possam ser, não precisam ser totalmente irreconciliáveis, porque não serão conquistadoras. O guia mais seguro para a correção do passo que as mulheres dão é alegria na luta. A revolução é o festival dos oprimidos. Por um longo tempo pode não haver recompensa perceptível para as mulheres a não ser seu novo sentido de propósito e integridade. Alegria não quer dizer jubilo clamoroso, mas significa o emprego propositado de energia em empreendimento escolhido. Significa orgulho e confiança. Significa comunicação e cooperação com outras baseada na delícia de sua companhia e na sua própria. Ser emancipada de desamparo e necessidade e andar livremente sobre a terra é seu direito de nascimento. Pensamento da escritora australiana Germaine Greer. Veja mais aqui.

A MULHER - Nunca me senti inferior a um homem; sempre senti uma pessoa consciente de que um ser humano nunca será inferior a ninguém. Não importa qual seja sua condição. Não, não tenho medo da velhice e da morte. Eu adoraria, como existem velhos poetas que escrevem, escrever poemas de amor, para um possível amor no futuro. Mas não posso escrever sobre isso. Quero dizer, eu posso escrever, mas eu não me sentiria expressa se o fizesse, eu já tive essas experiências. Acho que todos temos frustrações, principalmente quando se tem modelos de vida superiores. Existe, de fato, falta de comunicação. Talvez o que eu não tenha sido capaz de dizer a alguém, em algum momento da minha vida, eu possa dizer isso em poesia. As mulheres, em geral, somos muito corajosas. Temos muito o que fazer pelas crianças, pela sobrevivência. Eu sempre fui muito solitária e também me diverti muito. Eu estava sempre criando situações e personagens, acho que não me senti sozinha. Pensamento da poeta peruana Blanca Varela (1926-2009). Veja mais aqui & aqui.


O ASSASSINO DA HONRA Ou A LOUCA DO JARDIM

Caetano Cosme da Silva

Vinde musa mensageira
Do reino de Eloim
Traz a pena de Apolo
E escreve aqui por mim
O Assassino da Honra
Ou a Louca do Jardim

Esta história é um exemplo
Pra qualquer mulher casada
Que respeita seu marido
E deseja ser honrada
Que para quem não tem honra
A honra não vale nada.

Só pune a honra o honrado
Porque é conhecedor
Pois o honrado conhece
Que a honra tem valor
E quem fere a honra alheia
Fica sendo devedor.

E o desonrado fica
Na maior lamentação
E quando sofre inocente
Já sente no coração
Uma sede de vingança
Pedindo a Deus punição.

E Deus que nunca dormiu
Nem de noite nem de dia
Vê quem é merecedor
De sua devocacia
E vê também quem merece
Pagar pela covardia.

O mau não é perseguido
O justo sofre demais
Onde reina a união
Tem inveja o satanás
Portanto conto um passado
De uns cem anos atrás

Foi no velho Portugal
Na capital de Lisboa
Que Orberto Alves Lins
A mais sincera pessoa
Casou-se com Julia Alves
Alma santa justa e boa.

Orberto era um exemplo
Da mais sincera união
Amava tanto a esposa
Como Deus ama a razão
Parecia que os dois
Tinham um só coração.

Sua esposa tinha um dom
Que a natureza lhe deu
Honrada e criteriosa
Julia era o nome seu
Justa igualmente a ela
No mundo inda não nasceu.

Dessa união santa e pura
Só nasceu uma menina
E os seus pais lhe puseram
O nome de Albertina
Que veio ajudar a Julia
Cumprir a tirana sina.

Quando a mesma nasceu
Inda mais multiplicou
]aquele amor santo e puro
como Deus lhe ordenou
somente pra Julia Alves
o amor nada durou.

Porque ao fazer seis meses
Que Albertina nasceu
Um grande conquistador
Para Julia apareceu
Paulo Ferreira da Silva
Era esse o nome seu.

Era amigo de Orberto
Porem era desordeiro
Contava dezoito anos
Ainda era solteiro
Vivia de roubar honra
Confiando no dinheiro.

E passando certo dia
Naquela santa morada
De seu bom amigo Orberto
Julia estava na calçada
De cobiça ele ficou
Com a alma marcheteada.

- Dona Julia, dê-me água
e ela sem maldade
trouxe água e deu a ele
com educabilidade
sem saber que ele queria
roubar-lhe a moralidade.

E perguntou por Orberto
Disse ela – Foi receber
Umas casas na cidade
Que deixou para vender
Disse Paulo: - Eu tenho pena
De ver Orberto sofrer.

Orberto era pra ser
Um homem mais felizardo
É bastante que possui
Um anjo delicado
Que pode dar-lhe um conforto
De viver mais descansado.

Dona Julia respondeu-lhe:
- Mas Orberto não é pobre
só não é milionário
porem possui certo cobre
e tem mais essa fazenda
que a nossa pobreza encobre.

Paulo lhe disse: - É verdade
Ele tem certo dinheiro
Porem não é como eu sou
Capitalista e banqueiro
E posso fazer Orberto
Meu sucessor e herdeiro.

A senhora neste sitio
Não está bem colocada
E a senhora não pode
Viver aqui sendo honrada
E Orberto na cidade
Até alta madrugada.

Vou propor-lhe uma proposta
Mas quero ser perdoado
Se não acertar perdoe
Esse seu menor criado
Que por seu amor se acha
Quase louco apaixonado.

Dona Julia conheceu
Ser caso de adultério
Lhe respondeu: - Senhor Paulo
O homem que tem critério
Não desonra o lar alheio
Que honra contem mistério.

- Quem diz assim não engana
o senhor fique avisado
o homem que tem vergonha
não é desmoralizado.
Eu vou contar a Orberto
Pra não trazê-lo enganado.

- Dona Julia tenha calma
não tenha perturbação
pois a senhora não sabe
quanto é minha paixão
tudo isso são fraquezas
de meu pobre coração.

Nisso Paulo avistou
Numa banca pequenina
De dona Julia o retrato
E outro de Albertina
Pegou-os e botou no bolso
Com sua ação assassina.

E perguntou: - Dona Julia
Vai contar ao seu marido
Que eu a si declarei-me?
Eu já estou prevenido
Com o seu retrato eu provo
Que de si sou querido.

Se a senhora contar
A Orberto este passado
Com os seus retratos eu provo
Que fui seu apaixonado
E a senhora só conta
Por eu lhe ter desprezado.

Ao dizer essas palavras
Com Julia se abraçou
A fim de beijá-la a pulso
Mas dona Julia açoitou
A mão pela cara dele
Que até um dente quebrou.

Paulo então se retirou
Com a cara bem opada
E o dentro que quebrou
Botando sangue em golfada.
E disse pra dona Julia
- Esta desfeita é vingada.

Com meia hora depois
Em casa Paulo chegou
Fez depressa um curativo
E o rosto desinchou
E ele disse: - Vingar-me
Daquela maldita eu vou.

Deixemos Paulo o bandido
Pensando no que faria
Para se vingar de Julia
Por meio de covardia
E falaremos de Orberto
Que chegou no outro dia.

Quando Orberto chegou
Achou Julia descontente
Ele perguntou a ela:
- Que tens tu anjo inocente
que teu olhar está mostrando
que alguma coisa sente?

- Nada sofro, disse ela
apenas uma sombra escura
com vontade de jogar-me
na mais cruel desventura
da qual eu só me livrava
se baixasse à sepultura.

- Não querida, disse Orberto
entre nós não há ruína
isto é algum nervoso
que teu juízo imagina
viva sempre para mim
e nossa filha Albertina.

Com isso ela conformou-se
Porem com perturbação
Vendo a hora de cair
Na maior condenação
Porque o falso nodoa
O mais limpo coração.

Com trinta dias depois
O bandido novamente
Armou-se com os retratos
Daquela pobre inocente
E disse: - Hoje eu me vingo
Do que sofri cruelmente.

Quando ele chegou lá
Fazia apenas uma hora
Que Orberto viajava
E Paulo sem ter demora
Bateu na porta e falou
Dona Julia veio fora.

- Senhora, disse o bandido
amigo Orberto chegou?
Respondeu Julia que sim:
- porem hoje viajou
nessa conversa o bandido
abriu a porta e entrou.

Entrou com toda afoiteza
Com os retratos na mão
E disse pra dona Julia:
- Pra findar nossa questão
receba aqui seus retratos
e dê-me o seu coração.

- Bandido, eu já lhe disse
que você não é capaz
de entrar na minha casa
mas você é muito audaz
um ladrão conquistador
roubador da santa paz.

Eu só nasci pra Orberto
A quem amo e mais ninguém
E já disse que você
Pelo sentido que vem
Só entra em minha casa
Porque vergonha não tem.

Você é mais que covarde
Pela má inclinação
O homem que tem vergonha
Honra o outro cidadão
Não faz o que você
Disse Paulo: - Tem razão.

Paulo vendo que perdia
Fez um plano traiçoeiro
Pôde entrar no quarto dela
Como um lobo carniceiro
E botou uma cigarreira
Debaixo do travesseiro.

Dona Julia vendo ele
Entrar para o quarto dela
Nem sequer abriu a porta
Saiu por uma janela
Depois ele saiu como
Quem não perseguia ela.

Ela vendo ele sair
Pra sua casa voltou
Foi cuidar de Albertina
Na traição não pensou
Às 4 horas da tarde
Orberto Alves chegou.

Ela pensava em dizer
Aquele terrível maltrato
Que Paulo tinha lhe feito
Mas pensava em seu retrato
Que se achava em poder
Daquele bandido ingrato.

- Se eu contar a Orberto
vai se dar grande questão
Orberto quer se vingar
Quer o fato tem razão
O bandido se defende
E eu fico na perdição.

O meu caso está sem jeito
Só Deus pode me valer
Faz de conta que estou
Sentenciada a morrer
Só não morro se Orberto
Só der crença no que ver.

Orberto vendo a mulher
Quase sem consolação
Compreendeu ser nervoso
Ou gases no coração
Dizendo que tudo isso
Trazia perturbação.

Nessa mesma noite Orberto
Entrando no camarim
Chegou-lhe no pensamento
Uma idéia mesmo assim
De examinar seu leito
Com um desejo sem fim.

Firmado no pensamento
Ele logo examinou
Então no seu travesseiro
Sem querer ele encontrou
Uma linda cigarreira
Que achando desmaiou.

- Dona Julia venha cá
pra me dizer com franqueza
se aqui entrou alguém
que disto eu tenho certeza
é esse o motivo justo
de sua grande tristeza.

- Achei uma cigarreira
debaixo do travesseiro
quer dizer que quando eu saio
aqui me chega um herdeiro
me conte isso direitinho
que quero ser justiceiro.

Dona Julia quase tremula
A ele se apresentou
Orberto mostrou a ela
O que ali encontrou
Quando dona Julia viu
Do traidor se lembrou.

- Orberto, quero Orberto
só sendo uma tentação
satânica, onde alguém
que inveja nossa união
botou esta cigarreira
em cima do meu colchão.

Nada disso, disse Orberto:
- Você me atraiçoou
vai pagar com sua vida
o crime que praticou
nisso alguém bateu na porta
e bem alto assim falou:

- Dona Julia, olhe aqui
uma cartilha de amor
que seu amante querido
me pediu esse favor
dona Julia ouvindo isso
soltou um grito de dor.

Entregando aquela carta
Dali desapareceu
Nem sequer o portador
Orberto não conheceu
Porem quando abriu a carta
De raiva o corpo tremeu.

Na carta viu o retrato
De sua filha Albertina
E o de Julia também
Ele disse: - Oh! Assassina
Teu crime pede vingança
A Providencia Divina.

A carta dizia assim:
“Oh! Julia minha querida
eu estou arrependido
de me tornar homicida
porque te jurei deixar
Orberto no chão sem vida.

De gozar os teus carinhos
Não estou arrependido
Porque de fato eu já fui
Pela senhora vencido
E a senhora pediu-me
Que matasse seu marido.

Mas me acho sem coragem
De praticar tal horror
Pois conheço que a vida
É o ser de mais valor
Mesmo sem matar Orberto
Eu já gozei seu amor.

Estão aí os retratos
Caso não os queira mais
Divida lá seu amor
Com outro qualquer rapaz
Que possa fazer seus gostos
Desse seu gênio voraz.

A senhora já pediu
Pra eu matar seu marido
Pode ser que muito breve
Eu também seja traído
No dia que a senhora
Arranjar outro marido.

Orberto nem terminou
De ler a carta citada
Disse pra Julia assim:
- Minha honra é vingada
porque o homem sem honra
no mundo não vale nada.

- Bote a benção a sua filha
para deixar de viver
porque o que você fez
só paga quando morrer
o homem que pune a honra
está em cima do dever.

- Orberto venha mais calmo
não seja tão positivo
o próprio deus soberano
morreu sem ser vingativo
e o roubador da honra
não morreu, inda está vivo.

- Isto pode ser alguém
que tenha paixão por mim
e não podendo vencer-me
te fez esta carta assim
quer se vingar com a morte
fazendo meu triste fim.

- Orberto você não crê
que houve morte e paixão
de nosso mestre Jesus
a fonte do galardão.
Também creia como eu
Tenho limpo o coração.

- Bote a benção à sua filha
que seu tempo se venceu
mulher séria neste mundo
se nasceu mais já morreu
disse Julia: - Há mulher séria
e uma delas sou eu.

Orberto pega um punhal
Bem grande que possuía
Com dois palmos e quatro dedos
Desse que quando batia
Na matéria de alguém
Até a alma morria.

Julia pegou Albertina
Em soluço comovente
E disse: - Senhor Jesus
Ainda existe vivente
Que faça sofrer na vida
Uma infeliz inocente.

- Orberto vai me matar
porém vai se arrepender
porque o falsineroso
terá que apodrecer
pois dos castigos de deus
ninguém pode se esconder.

- Minha Albertina coitada
vai ficar sem o amor
de sua mamãe querida
por causa dum traidor
que me fez merecedora
do sofrimento e da dor.

- Só peço para que deus
abençoe minha filhinha
enquanto viver no mundo
porque a língua mesquinha
pode roubar a honra
já como roubou a minha.

- Só peço que tu Orberto
para vingar tua paixão
me cortes a orelha esquerda
uma perna e uma mão
porém me deixes com vida
até nascer a razão.

- Porque nascendo a razão
eu sendo mesmo aleijada
podes pegar teu punhal
e dar-me uma punhalada
eu morrerei satisfeita
porque morro sendo honrada.

- Qual lá honra, qual lá nada
bote Albertina no chão
ou mesmo no berço dela
que já perdi a razão
e levantou o pinhal
com toda força da mão;.

- Orberto quero esposo
pelo leite que mamou
Jesus, na Virgem Maria
Quando deus lhe enviou
Pra terra, perdoa a mim
Porque inocente estou.

Ao dizer estas palavras
Orberto o punhal soltou
porque naquele momento
Albertina ali chorou
Mais vendo o punhal no chão
A menina se calou.

E assim continuou
Que quando Orberto pegava
No punhal a criancinha
Abria boca e chorava
Ele soltava o pinhal
A criança se calava.

Assim Orberto ficou
Que já não se dominava
Era pegar no punhal
A criancinha chorava
Orberto conheceu que
Dessa forma não matava.

Resolveu mandá-la embora
Para nunca mais voltar
Então Julia garantiu
Não vir mais nesse lugar
No mesmo instante saiu
No mundo a peregrinar.

Enlouqueceu de repente
Por pensar na Albertina
Embrenhou-se na montanha
Lamentando a sua sina
Onde foi viver igual
Uma ave de rapina

Portanto deixemos Julia
Na montanha abandonada
E vamos ver Albertina
De que forma foi criada
E como chegou a ver
Sua vida angustiada.

Orberto logo mudou-se
Para o centro da cidade
E trouxe para Albertina
De sua propriedade
Uma velha caridosa
Que lhe criou sem maldade.

E não tentou mais casar
Porque de fato arranhou
Essa velha já idosa
Que muito lhe agradou
A qual criou Albertina
Até quando se formou.

Quando Albertina contou
Quatorze anos de idade
Sua mãe de criação
A velhinha de bondade
Por ordem da Providência
Herdou a eternidade.

Já foi o segundo golpe
Que Albertina sofreu
Pois a mãe que conhecia
Foi aquela que morreu
Sabia que teve outra
Porem não a conheceu.

O leitor está lembrado
Que a mãe de Albertina
Do traidor foi traída
E saiu cumprindo a sina
Como louca pelo mundo
Feita a maior peregrina.

Pasou um ano na mata
Mais cavernosa que havia
Na hora que estava sã
Se ajoelhava e pedia
Vingança do crime injusto
Que sendo justa sofria.

Seu vestido, coitadinha
Já fazia piedade
Não havia quem dissesse
Qual foi sua qualidade
De cipó, folha e embira
Já era mais da metade.

Assim passou doze anos
Pelejando com a sorte
Chorava e depois gemia
E pedia a deus a morte
Até que um dia viu-se
Com seu espírito mais forte.

Abandonou a montanha
E seguiu para a cidade
Só em dizer heresia
Avançava sua idade
Antes de chegar passou
Em sua propriedade.

Na fazenda viu Orberto
E logo reconheceu
Lhe pediu uma esmola
Ele sem ter dúvida deu
Ela disse: - deus lhe dê
O que já lhe pertenceu.

Orberto lhe perguntou:
- Que conversa é essa sua?
A louca respondeu: - Nada
Me ensine o caminho da rua
E não olhe para mim
Que me acho quase nua.

Com as palavras da louca
Orberto se conformou
E a louco com dois dias
Na cidade chegou
E dos bancos do jardim
Ela se apoderou.

Sorria sem ver de que
Chorava sem sentir dor
Chamava dizendo assim:
- Oh! Jesus meu salvador
vingança, Jesus vingança
sobre aquele traidor.

- Considera oh! Meu Jesus
quem já fui eu nessa vida
de par com o meu esposo
e minha filha querida
tudo tinha e hoje aqui
me vejo quase despida

- Meu vestido e minha sombra
se findaram eu estou nua
descalça de pé no chão
peregrinando na rua
igual uma nuvem escura
que cobre o sol e a lua.

Então naquele momento
Foi chegando perto dela
Paulo Ferreira da Silva
O que atraiçoou ela
Foi conhecido e não soube
Nem sequer que era aquela.

Perguntou o nome dela
Respondeu ela: - Uma louca
E você monstro assassino
Se tiver língua na boca
Aumente minha miséria
Que essa inda foi pouca.

Ouvindo essas palavras
Paulo logo caminhou
Para loja e um vestido
Muito decente comprou
Costurou no outro dia
E para a louca levou.

- Senhora tome um vestido
a louca respondeu: - Não
receba 5 moedas
a louca disse: - Patrão
pegue seu dinheiro e guarde
pra sua condenação.

Nada disso, disse Paulo:
- Tome minha boa louca
o vestido e as moedas
e com a voz muito rouca
a louca lhe perguntou:
- Sua consciência é pouca?

Quando a louca disse assim
Uma mendiga chegou
Trazendo um fraco vestido
E pra louca assim falou:
- Aceite esse mulambinho
então a louca aceitou.

A louca muito contente
O vestido recebeu
E depois com um palito
Ela no chão escreveu
O nome do assassino
Por quem sofria e sofreu.

Lendo aquele escrito
Retirou-se o traidor
Portanto vamos falar
Sobre o ente sofredor
Que só herdou nesta vida
O sofrimento e a dor.

Vou citar para os leitores
O que a louca cantava
Quando ela mais ou menos
Da filhinha se lembrava
E do marido também
Que na mente ainda estava.

“Minha vida é um romance
desde o meu nascimento
o amor me iludiu
e fez meu sofrimento
tudo isso são lembranças
do maldito casamento.

“Enquanto eu era solteira
não tive perseguição
porem depois de casada
me veio grande tentação
sou justa porem o mundo
fez minha condenação.

“Satisfeita com a sorte
sofro mesmo sendo honrada
da maior língua ferina
eu me vejo desonrada
porque na mulher honesta
a honra é precipitada.

Leitores deixemos a louca
E falemos de Albertina
Contando seis quinze anos
Que para cumprir sua sina
Destinou-se a conhecer
Esta louca peregrina.

Pediu a seu pai Orberto
Ele sem duvida aceitou
Ela foi até a praça
E assim que lá chegou
Vendo o estado da louca
De comovida chorou.

Abraçou-se com a louca
E pegou-a com a mão
Até que levou-a logo
Para a sua habitação
Sem conhecer sua mãe
Naquela situação.

Trocou as vestes da louca
Por outra que já foi dela
E quando ela vestiu
Deu muito certinho nela
Nisto foi chegando Orberto
Perguntou quem era aquela.

- Essa é a louca, papai
Albertina assim falou.
= Aquela que o senhor disse-me
que vivia no jardim
eu fui visitá-la e trouxe
ela hoje para mim.

- Não filhinha, disse Orberto
- Assim não dá certo não
dê roupa a ela e dinheiro
e uma boa refeição
depois mande ela voltar
para a sua habitação.

Albertina foi levar
A louca lá no jardim
Deu-lhe dinheiro e comida
E findou dizendo assim:
- Boa louca tu vais ser
apadrinhada por mim.

- Oh! Minha boa menina
que palavra de valor
foi deus que te deu a vida
um coração de amor
para te compadecer
de um ente sofredor.

Albertina despediu-se
Mui chorosa e regressou
Com dez minutos depois
Em sua casa chegou
Já um rapaz conversando
Com Orberto ela encontrou.

Esse rapaz era Paulo
O maldito traidor
O assassino da honra
A cobiça do amor
Com a presença de santo
Mas sendo um devorador.

Assim que viu Albertina
Tratou de lhe conquistar
E disse sou bocado rico
Bom de um homem gozar
Vou roubar-lhe a virgindade
Ou então lhe difamar.

Porem a moça pra ele
Não soltou um ar de riso
E Paulo de cá dizendo:
De te gozar eu preciso
E assim se retirou
Quase doido do juízo.

Com quinze dias depois
Ele foi lá novamente
Com o coração do mal
Natureza de serpente
Com vontade de manchar
A linda jovem inocente.

Nesse dia Orberto Alves
Para o sitio viajou
E Paulo chegando lá
Orberto não encontrou
Mas pelo atrevimento
Abriu a porta e entrou.

Albertina saiu fora
E ele apertou a mão
E Paulo decente achou
Da moça a educação
Da vontade com o desejo
Chegou a ocasião.

Paulo disse: - Minha santa
Me encho de alegria
Em ter a honra de entrar
Nesta sua moradia
Somente para lhe dizer
Que lhe tenho simpatia.

Albertina então lhe disse:
- Muito obrigada senhor
pela sua exaltação
sua honra e seu valor
só não fale para mim
em assunto de amor.

- Por qual razão a senhora
deseja me recusar?
Eu sendo milionário
E você a me rejeita?
A moça disse: - Riqueza
Nem fez nem faz eu amar.

- Ainda que o senhor
possua todo brasão
tenha honra muito mais
de que mesmo D. João
eu não lhe amo porque
lhe odeio de coração.

Paulo Ferreira ouvindo
Albertina falar assim
Retirou-se angustiado
Pensativo a estudar
Um meio com que pudesse
Ele dela se vingar.

Enquanto o bandido estuda
A forma de traição
Vamos ver um grande exemplo
Do autor da criação
Porque o falso só reina
Enquanto dorme a razão.

Albertina foi buscar
A louca lá no jardim
E quando ela chegou
Albertina disse assim:
- Minha louca, Paulo, ontem
veio seduzir a mim.

A louca chorando disse:
- Boa menina cuidado
Paulo é um roubador
Da honra do povo honrado
Pois eu conheço um casal
Já por ele desonrado.

- E era um casal honrado
a quem ele atraiçoou
com dois objetos alheios
que ele mesmo roubou
feriu uma mulher justa
e o marido acreditou.

- Ainda não satisfeito
com o falso traiçoeiro
foi no quarto do casal
e deu um golpe certeiro
deixando uma cigarreira
debaixo do travesseiro.

Albertina ouvindo isso
Um grande choque tomou
Porem conservou-se muda
E quando seu pai chegou
O que a louca lhe disse
Ao pai ela contou:

- Esta história tem areia
Orberto lhe disse assim:
- A história dessa louca
caiu em cima de mim
e se ela não mentiu
o caso vai ser ruim.

Não deixou mais que a louca
Voltasse para o jardim
Mas a louca disse: - Eu vou
Que lá há de ser meu fim
Se for mentira o que eu disse:
- Pode castigar a mim.

Albertina mui chorosa
Lhe abraçou soluçando
E disse: - Boa mulher
És louca mas estás mostrando
Que não és mulher ruim
Pois teu gesto está provando.

O leitor sabe que Paulo
Jutou manchar a donzela
Então neste mesmo dia
Ele com muita cauteça
Tentado pelo diabo
Pode entrar no quarto dela.

Agora o leitor vai ver
Quanto vale a virgindade
Paulo foi ferir a honra
Mas deus da eternidade
Fez ele pegar no sono
E pagar a crueldade.

Mesmo debaixo da cama
Da mochila ele ficou
E prometido por deus
O sono lhe agarrou
Porque só assim pagava
Os crimes que praticou.

Albertina à meia noite
Avistou Paulo destado
Dormindo de boca aberta
E chamou seu pai de lado
Orberto chegando disse:
- Me considero vingado.

Orberto acordou Paulo
Já debaixo do facão
E quando ele acordou-se
Conheceu a perdição
Pra não morrer acusou-se
Como assassino e ladrão

Paulo tinha um bom revolver
Mas com ele não armou-se
Forçado pelo remorso
Então ele acovardou-se
Que de fato era assassino
Da honra, então declarou-se.

Contou que entrou no quarto
Da moça para se vingar
Porque ela em outro dia
Tratou de lhe recusar
Veio roubar-lhe a virgindade
Ou então lhe difamar.

Contou também que peitou
A mulher do seu amigo
E a mulher lhe cuspiu
Ele se vendo em perigo
Roubou os retratos dela
Temendo um certo castigo.

Contou como colocou
Debaixo do travesseiro
A cigarreira cromada
Achando um golpe certeiro
E falou também na carta
Que mandou por desordeiro

E jurou por todos santos
Que dona Julia era pura
E que lamentou depois
Em ver uma criatura
Tão justa e por sua língua
Sofrer tanta desventura.

É aquela pobre louca
Que está lá no jardim
A tua mulher que foi
Martirizada por mim
Um bandido como eu
Só presta levando fim.

Ao dizer estas palavras
Pelo revolver puxou
Em cima do peito esquerdo
Em si mesmo detonou
Morreu no mesmo momento
Pelo mal que praticou.

Orberto e Albertina
Derramaram prantos tantos
Chegou a louca dizendo:
- O que é isso meus santos
essa louca é Julia Alves
que veio enxugar seus prantos.

Considere meu leitor
Que honra santa e feliz
Julia Alves como esposa
Orberto Lins inda quis
E foram viver felizes
Segundo a história diz.

A louca vendo tombar
No chão sem vida o bandido
Ficou sã igual a quem
Inda não tinha sofrido
De loucura e foi viver
Com a filha e o marido.

Albertina, Orberto e Julia
No mesmo dia levaram
Paulo numa padiola
E à policia entregaram
E como tinha razões
No mesmo dia voltaram.

Disse Albertina: - O futuro
Será o que deus quiser
Esse exemplo é um conselho
Só não toma quem não quer
Homem nenhum nesse mundo
Terá a mim por mulher.

Com papai e com mamãe
A vida tem mais prazer
Eu vou viver mais feliz
Todo mundo pode crer
A minha mãe conheci
No santo dia que vi
O assassino morrer.

CAETANO COSME DA SILVA – Caetano Cosme da Silva nasceu em Nazaré da Mata, PE, no dia 25 de novembro de 1927. Autor muito fecundo, seus temas favoritos são histórias dramáticas, algumas delas "continuações" de outras obras conhecidas (A filha da louca do jardim, O filho de João de Calais). Compôs também algumas "pelejas". É falecido. Viveu na cidade paraibana de Campina Grande. Ele é autor dos cordéis “Assassino da honra ou a louca do jardim, O (FC-115)”, . Exemplo de um homem que atirou em uma imagem de São Severino do Ramos, O (FC-165) . Farrapo humano (FC-448) . Helena a deusa de Tróia (FC-413) . Lágrimas de amor ou a vingança de um condenado (FC-533) . Moça cendendo tabaco no mercado em Catolé, Uma (FC-834) . Peleja de Ana Roxinha com Maria Roxinha (FC-611) . Pescaria em Boqueirão, a vara, o anzol, o minhocão, Uma (FC-963) Traição de Alfredo e a vingança de Justino, A (FC-753) .

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