domingo, abril 26, 2026

HILDA TWONGYEIRWE, NANCY TUCKER, LUIZ RUFFATO & LUCILA NOGUEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da performance musical da flautista Tahyná Oliveira (Instrumental Sesc Brasil, Teatro Anchieta do Sesc Consolação, 2024), acompanhada de um quarteto de cordas, homenageando Wanessa Dourado, Heitor Villa-Lobos, Altamiro Carrilho e Radamés Gnattali.


 

Fecamepa: caraminholas na raiz do tempo... - No primeiro momento do Fecamepa, ali tudo era apenas dia no Vale do Una. A balbúrdia nativa fora surpreendida pelo alvoroço invasivo de naus alienígenas. E delas achegaram-se morigerados caras pálidas imponentes, que se passavam por íntimos folgazões. Não demorou muito e logo se fizeram descomedidos imprevisíveis, com a sanha escravocrata preando as posses dos autóctones indefesos. Fez-se conflito com o chicote do capataz e a ameaça de suas garruchas cuspindo fogo. Lanças, arcos e flechas jamais seriam páreo, puro erro de cálculo: a resistência foi surpreendente por sucessivos embates. Entre as perdas muitas e ganhos módicos, dos invasores proliferaram esquálidos homúnculos com seus sobrenomes bastardos, que soltavam fogo pelas ventas na captura dos inviáveis. A mamelucagem macunaímica prosperava, penderam pro outro lado e, num piscar de olhos, se empanturraram com a combustão setentrional. Reforçados, então, era a hora de trazer o meridional a reboque, desgraçados com o insucesso da catequese dos originários. Não deu, de novo. Aí traficaram e subjugaram pretos d’África, para sua laboriosa empreitada: patrulhas para as emboscadas no canavial e tiros pelas costas de supostos denegridos ou foragidos. E se de um lado eram abençoados pelo bom deus deles; de outro, pactos com o capeta – comiam dos dois lados, sabidos. Assim deu-se o segundo e lustros se acumulavam por décadas passadas quantas bodas de rancor e disputas. E se tornaram faustosos donos de engenho, abastados fornecedores de cana, todos montados dalguma patente bufada pela ordem açucarocrata, a capitanear jagunços metidos a caubóis, capangas sicários, cavaleiros que se dignavam corajosos e que recreavam a digladiar, uns contra os outros, para ver quem deles matava mais aborígenes e fujões negreiros. Reinavam dos seus casarões sobre os miseráveis, posto que, desde que foram todos abençoados pela batina cristã, os destemidos heróis da ignominia bufavam vogar o juramento de fidelidade a si próprio e tudo o mais submetido ao jogo de gatilho e munhecas, quando não facadas, foiçadas, mortandade. Aí deu no terceiro, quase mais de dois séculos engolidos virando páginas, na soberba dos que agiam por conta própria com suas leis exclusivas, puxando briga e, diante de qualquer óbice, pronto a desfeitar honra e implicâncias de pouca monta que, no final, resultavam numa bala cravada no peito alheio, como sinal de sua mandonista rubrica. Era o nascedouro de politiqueiros da verdade absoluta e vontade patenteada. E assim, no quarto, mais de meio milênio e todos os vícios por demais arraigados para serem extirpados, envenenavam a tudo e todos. Contagiavam virulentos. Rezava a lenda que se tornaram mais astutos que o rei dos falsários Smolianoff, com mais personalidades falsas que o Abagnale, mais golpistas que o Voigt na leva dos trocentos golpes por minuto; mais ousados que o criador do Esquema Ponzi, mais artísticos que o Meegeren, mais trambiqueiros que o Lustig, mais furiosos que o grande inquisidor Torquemada, mais apocalípticos que os Savonarolas do século 21. E sob seu poderio reuniam mais súditos seguidores que todos os tiranos infames, todos os execráveis líderes religiosos e a maior besta apocalíptica. Astuciosamente invadiram as delegacias e quartéis, prefeituras e câmaras de vereadores, afora as varas judiciais das comarcas; e se apossaram da assembleia legislativa, dos tribunais e órgãos governamentais; assaltaram a câmara dos deputados e o senado, invadiram a suprema corte e todo executivo, e promoveram a maior esculhambação: assumiram serem os 144 mil selados com as 7 dispensações dos cavaleiros do apocalipse e falsos profetas para varrer todas as falsidades do fim da habitabilidade, do colapso atmosférico e do risco existencial – coisas tratadas como roteiro de desenho animado e quem fosse do contra que fugisse para Ushuaia! E dane-se. Ou se engasgue com o enganchado do Doomsday Clock. Eita, boba torreiro! Afinal, tudo foi levado para a conta do duvidoso, de somenos. Ora, o que aconteceu era como se nem tivesse ocorrido, ignorado, ou pura invenção de falastrões indignados, anedotas de fim de dia, piadas de sala de aula. O que foi e será de hoje? Pinoia. Ontem nunca existiu, pura invencionice; amanhã, a esquina, viu? Já dobrou e lá vem outra. E o Fecamepa. Até mais ver.

 

Nélida Piñon: Só envelhece quem vive. Se a memória simula esquecer os mortos, o amor, albergado no coração e sempre à espreita, a qualquer sinal açoita quem sobrevive às lembranças. Se essas frases tocaram você, os livros vão marcar...  Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Alejandra Pizarnik: A melancolia é, creio eu, um problema musical: uma dissonância, uma mudança de ritmo. Enquanto por fora tudo acontece com o ritmo vertiginoso de uma catarata, por dentro reina o adágio exausto de gotas de água que caem de tempos em tempos. Por essa razão, o exterior, visto do interior melancólico, parece absurdo e irreal, e constitui 'a farsa que todos devemos representar. Mas por um instante – por causa de uma música selvagem, ou de uma droga, ou do ato sexual levado ao clímax – o ritmo muito lento da alma melancólica não apenas se eleva ao do mundo exterior: ele o ultrapassa com uma exuberância inefavelmente feliz, e a alma então vibra, animada por novas energias delirantes... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mary Wollstonecraft: O começo é sempre hoje... Ninguém escolhe o mal por ser mal; simplesmente o confunde com a felicidade, o bem que busca... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CÍRCULO DE MULHERES

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sua cabeça é uma colmeia, \ você não tem certeza se vai sobreviver. \ Mulheres formam um círculo ao seu redor. \ Em seus olhos, suas histórias fluem como o Nilo. \ Elas as recolhem \ e lhe entregam a taça. \ "Vá em frente", dizem, \ mas você hesita. \ “Está tudo bem", dizem, \ e você aceita. Você leva a taça aos lábios, \ passa-a para a próxima mulher \ e todas bebem um gole, uma de cada vez. \ É um juramento de não perturbar as normas sociais em nome da veneração. \ Você passa o cordão com mais força para a próxima geração \ de mulheres que conhece, \ para mulheres que não conhece, \ até perceber que é um esquema \ e o cordão \ começa a cravar na pele. \ Você o deixa cair \ e quebra o círculo.

Poema da escritora e editora ugandense Hilda Twongyeirwe, autora de obras como Fina, the Dancer (2007) e Summoning the Rains (2012), entre outros.

 

VERÃO TARDIO – [...] Uma fraca luminosidade azulada desenha um retângulo imperfeito na poeira do piso. Tiro a calça e os óculos, ajeito o virol, deito. Em outros tempos, a essa hora, talvez fosse feliz. Às vezes, despertava apenas para, suspirando, me mover para o canto e dormir mais um pouco, satisfeito, a certeza de que ali ao meu lado encontrava o João Lúcio, na parede-meia ressonavam a Rosana a Lígia a Isinha, no outro aposento o pai e a mãe descansavam. O passado são ruínas [...]. Trecho extraído da obra O verão tardio (Companhia das Letras, 2019), do escritor Luiz Ruffato, contando a história de um homem abandonado por mulher e filho, Oséias, que depois de mais de vinte anos, decide regressar a sua cidade-natal, Cataguases, em Minas Gerais. Durante seis dias suas andanças, visitas a familiares, encontros com velhos personagens locais, a sombra do suicídio de uma de suas irmãs, Lígia, e a comunicação falha com praticamente todos a sua volta, persistindo nas suas tentativas de reatar os fios do passado. A obra propõe uma reflexão sobre uma sociedade em que as classes sociais romperam completamente o diálogo, prontos para entrarem em rota de colisão e se destruírem. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O PRIMEIRO DIA DA PRIMAVERA – [...] Mamãe sempre gostou de Deus, mesmo quando não gostava de mim. [...] Quando alguém que você conhecia morria, você não morria com essa pessoa. Você seguia em frente, passando por fases e capítulos tão diferentes que pareciam vidas completamente distintas, mas em todas essas vidas a pessoa morta continuava morta. Morta, quer você estivesse triste ou feliz, morta quer você pensasse nela ou não, morta quer você sentisse falta dela ou não. Se não durasse, não era uma morte de verdade, era apenas alguém que se importava tão pouco que desapareceu. [...] Você não conseguia entender o que era justo e injusto quando tinha uma mãe que fazia cones e um pai que escrevia seu nome em canções [...] Sentir falta dele era como uma queimadura de fumaça no meu corpo: um pequeno buraco redondo, preto nas bordas. [...] Eu fiz muitas coisas ruins. Era bom ser abraçada. Eu gostava de ficar mole nos braços deles e ouvi-los dizer: 'Pronto. Muito bem por se acalmar. Boa menina, Chrissie. Boa menina.' Era quase como se eu não fosse má de verdade. [...] Se você quiser, você dá um jeito. Na maioria das vezes é muito difícil e chato, mas não é impossível. Você só precisa querer muito fazer isso. [...] Na manhã seguinte, prometi a mim mesma que machucaria alguém, qualquer um, quantos eu quisesse. Peguei um pedaço de travesseiro na boca e rugi. [...] Liberdade não era o mesmo que se sentir livre. [...] estou longe de casa, quase ninguém por família e nunca matei ninguém, mas sinto que perdi tudo que tive e foquei no meio do caminho. [...]. Trechos extraídos da obra The First Day of Spring (Riverhead, 2021), da psicóloga e escritora inglesa, Nancy Tucker, autora dos livros The time in between (Icon Books, 2015) e That was when people started to worry (Icon Books, 2018).

 

A POESIA DE LUCILA NOGUEIRA

E se inda houver amor eu me apresento, \ E me entrego ao princípio do oceano, \ E se me atinge a onda, úmida eu tremo \ esquecida de insones desenganos. \ E se inda houver amor eu me arrebento \ feliz, atravessada de esperança \ e mesmo lacerada inda assim tento \ quebrar com meu amor todas as lanças. \ E se inda houver amor terei alento \ para aguentar o inútil destes anos. \ E não me matarei, sonhando o tempo \ em que me afogarei no seu encanto \ E se inda houver amor, ah, me consente \ ser pasto de tua chama, astro medonho. \ e se inda houver amor, eu simplesmente \ apago esta ferida do meu sono.

Poema E se inda houver amor, da escritora, professora, crítica literária e tradutora Lucila Nogueira (1950-2016), autora de obra como Almenara (1979), Peito Aberto (1983), Quasar (1987), A Dama de Alicante (1990), Livro do Desencanto (1991), Ainadamar (1996), Ilaiana (1997), Zinganares (1998), Imilce (1999), Amaya (2001), A Quarta Forma do delírio (2002), Refletores (2002), Bastidores (2002), Desespero Blue (2003), Estocolmo (2004), Mar Camoniano (2005), Saudade de Inês de Castro (2005), Poesia em Medellin (2006), Poesia em Caracas (2007), Poesia em Cuba (2007), Tabasco (2009), Casta Maladiva (2009), Mas Não Demores Tanto (2011), Poesia em Houston (2013) e Imilce (2014). Veja mais aqui & aqui.

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PANORAMA DO TEATRO: DE PERNAMBUCO PARA O MUNDO

Formação nos dias 28 (tarde) e 29 (manhã) de abril, no Centro de Formação Douglas Miranda Marques, em Palmares (PE). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Roberto Benjamin aqui & aqui.

Roberta Guimarães aqui & aqui.

Cláudio Bezerra aqui & aqui.

Isa Pontual aqui.

Jaci Bezerra aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Adriana Lima – a Adriana do Frevo aqui.

Leidson Ferraz aqui, aqui & aqui.

Maíra Passos aqui.

Flávio Gadêlha aqui

Christiana Ubach aqui & aqui.

 


HILDA TWONGYEIRWE, NANCY TUCKER, LUIZ RUFFATO & LUCILA NOGUEIRA

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