Imagem: Acervo ArtLAM.
Ao
som da performance musical da flautista Tahyná Oliveira (Instrumental
Sesc Brasil, Teatro Anchieta do Sesc Consolação, 2024), acompanhada
de um quarteto de cordas, homenageando Wanessa Dourado, Heitor Villa-Lobos,
Altamiro Carrilho e Radamés Gnattali.
Fecamepa:
caraminholas na raiz do tempo... - No primeiro
momento do Fecamepa, ali tudo era apenas dia no Vale do Una. A balbúrdia
nativa fora surpreendida pelo alvoroço invasivo de naus alienígenas. E delas achegaram-se
morigerados caras pálidas imponentes, que se passavam por íntimos folgazões.
Não demorou muito e logo se fizeram descomedidos imprevisíveis, com a sanha
escravocrata preando as posses dos autóctones indefesos. Fez-se conflito com o
chicote do capataz e a ameaça de suas garruchas cuspindo fogo. Lanças, arcos e
flechas jamais seriam páreo, puro erro de cálculo: a resistência foi
surpreendente por sucessivos embates. Entre as perdas muitas e ganhos módicos, dos
invasores proliferaram esquálidos homúnculos com seus sobrenomes bastardos, que
soltavam fogo pelas ventas na captura dos inviáveis. A mamelucagem macunaímica
prosperava, penderam pro outro lado e, num piscar de olhos, se empanturraram
com a combustão setentrional. Reforçados, então, era a hora de trazer o meridional
a reboque, desgraçados com o insucesso da catequese dos originários. Não deu,
de novo. Aí traficaram e subjugaram pretos d’África, para sua laboriosa empreitada:
patrulhas para as emboscadas no canavial e tiros pelas costas de supostos denegridos
ou foragidos. E se de um lado eram abençoados pelo bom deus deles; de outro, pactos com o capeta – comiam dos
dois lados, sabidos. Assim deu-se o segundo e lustros se
acumulavam por décadas passadas quantas bodas de rancor e disputas. E se
tornaram faustosos donos de engenho, abastados fornecedores de cana, todos montados
dalguma patente bufada pela ordem açucarocrata, a capitanear jagunços metidos a
caubóis, capangas sicários, cavaleiros que se dignavam corajosos e que recreavam
a digladiar, uns contra os outros, para ver quem deles matava mais aborígenes e
fujões negreiros. Reinavam dos seus casarões sobre os miseráveis, posto que, desde que foram todos
abençoados pela batina cristã, os destemidos heróis da ignominia bufavam vogar o
juramento de fidelidade a si próprio e tudo o mais submetido ao jogo de gatilho
e munhecas, quando não facadas, foiçadas, mortandade. Aí deu no terceiro, quase mais de dois séculos engolidos virando páginas,
na soberba dos que agiam por conta própria com suas leis exclusivas, puxando
briga e, diante de qualquer óbice, pronto a desfeitar honra e implicâncias de
pouca monta que, no final, resultavam numa bala cravada no peito alheio, como sinal
de sua mandonista rubrica. Era o nascedouro de politiqueiros da verdade absoluta e vontade
patenteada. E assim, no quarto, mais de meio milênio e
todos os vícios
por demais arraigados para serem extirpados, envenenavam a tudo e todos. Contagiavam
virulentos. Rezava a lenda que se tornaram mais astutos que o rei
dos falsários Smolianoff, com mais personalidades falsas que o Abagnale, mais golpistas
que o Voigt na leva dos trocentos golpes por minuto; mais ousados que o criador
do Esquema Ponzi, mais artísticos que o Meegeren, mais trambiqueiros que o
Lustig, mais furiosos que o grande inquisidor Torquemada, mais apocalípticos que
os Savonarolas do século 21. E sob seu poderio reuniam mais súditos seguidores que
todos os tiranos infames, todos os execráveis líderes religiosos e a maior besta
apocalíptica. Astuciosamente invadiram as delegacias e quartéis, prefeituras e
câmaras de vereadores, afora as varas judiciais das comarcas; e se apossaram da
assembleia legislativa, dos tribunais e órgãos governamentais; assaltaram a câmara
dos deputados e o senado, invadiram a suprema corte e todo executivo, e
promoveram a maior esculhambação: assumiram serem os 144 mil selados com as 7
dispensações dos cavaleiros do apocalipse e falsos profetas para varrer todas
as falsidades do fim da habitabilidade, do colapso atmosférico e do risco
existencial – coisas tratadas como roteiro de desenho animado e quem fosse do
contra que fugisse para Ushuaia! E dane-se. Ou se engasgue com o enganchado do
Doomsday Clock. Eita, boba torreiro! Afinal, tudo foi levado para a conta do
duvidoso, de somenos. Ora, o que aconteceu era como se nem tivesse ocorrido,
ignorado, ou pura invenção de falastrões indignados, anedotas de fim de dia,
piadas de sala de aula. O que foi e será de hoje? Pinoia. Ontem nunca existiu,
pura invencionice; amanhã, a esquina, viu? Já dobrou e lá vem outra. E o Fecamepa.
Até mais ver.
Nélida Piñon: Só envelhece quem vive. Se a memória simula esquecer os mortos, o amor, albergado no coração e sempre à espreita, a qualquer sinal açoita quem sobrevive às lembranças. Se essas frases tocaram você, os livros vão marcar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Alejandra
Pizarnik:
A melancolia é, creio eu, um
problema musical: uma dissonância, uma mudança de ritmo. Enquanto por fora tudo
acontece com o ritmo vertiginoso de uma catarata, por dentro reina o adágio
exausto de gotas de água que caem de tempos em tempos. Por essa razão, o
exterior, visto do interior melancólico, parece absurdo e irreal, e constitui
'a farsa que todos devemos representar. Mas por um instante – por causa de uma
música selvagem, ou de uma droga, ou do ato sexual levado ao clímax – o ritmo
muito lento da alma melancólica não apenas se eleva ao do mundo exterior: ele o
ultrapassa com uma exuberância inefavelmente feliz, e a alma então vibra,
animada por novas energias delirantes...
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Mary
Wollstonecraft: O começo é
sempre hoje... Ninguém escolhe o mal por ser mal; simplesmente o confunde com a
felicidade, o bem que busca... Veja
mais aqui, aqui & aqui.
CÍRCULO
DE MULHERES
Imagem:
Acervo ArtLAM.
Sua cabeça é uma
colmeia, \ você não tem certeza se vai sobreviver. \ Mulheres formam um círculo
ao seu redor. \ Em seus olhos, suas histórias fluem como o Nilo. \ Elas as
recolhem \ e lhe entregam a taça. \ "Vá em frente", dizem, \ mas você
hesita. \ “Está tudo bem", dizem, \ e você aceita. Você leva a taça aos
lábios, \ passa-a para a próxima mulher \ e todas bebem um gole, uma de cada
vez. \ É um juramento de não perturbar as normas sociais em nome da veneração.
\ Você passa o cordão com mais força para a próxima geração \ de mulheres que
conhece, \ para mulheres que não conhece, \ até perceber que é um esquema \ e o
cordão \ começa a cravar na pele. \ Você o deixa cair \ e quebra o círculo.
Poema
da escritora e editora ugandense Hilda Twongyeirwe, autora
de obras como Fina, the Dancer (2007) e Summoning the Rains (2012), entre outros.
VERÃO
TARDIO
– [...] Uma fraca luminosidade azulada desenha um retângulo imperfeito na
poeira do piso. Tiro a calça e os óculos, ajeito o virol, deito. Em outros
tempos, a essa hora, talvez fosse feliz. Às vezes, despertava apenas para,
suspirando, me mover para o canto e dormir mais um pouco, satisfeito, a certeza
de que ali ao meu lado encontrava o João Lúcio, na parede-meia ressonavam a
Rosana a Lígia a Isinha, no outro aposento o pai e a mãe descansavam. O passado
são ruínas [...]. Trecho extraído da obra O verão tardio (Companhia das Letras, 2019),
do escritor Luiz Ruffato, contando a história de um homem abandonado por mulher e filho, Oséias,
que depois de mais de vinte anos, decide regressar a sua cidade-natal,
Cataguases, em Minas Gerais. Durante seis dias suas andanças, visitas a
familiares, encontros com velhos personagens locais, a sombra do suicídio de
uma de suas irmãs, Lígia, e a comunicação falha com praticamente todos a sua
volta, persistindo nas suas tentativas de reatar os fios do passado. A obra propõe
uma reflexão sobre uma sociedade em que as classes sociais romperam
completamente o diálogo, prontos para entrarem em rota de colisão e se
destruírem. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
O
PRIMEIRO DIA DA PRIMAVERA – [...] Mamãe
sempre gostou de Deus, mesmo quando não gostava de mim. [...] Quando alguém que você conhecia morria, você
não morria com essa pessoa. Você seguia em frente, passando por fases e
capítulos tão diferentes que pareciam vidas completamente distintas, mas em todas
essas vidas a pessoa morta continuava morta. Morta, quer você estivesse triste
ou feliz, morta quer você pensasse nela ou não, morta quer você sentisse falta
dela ou não. Se não durasse, não era uma morte de verdade, era apenas alguém
que se importava tão pouco que desapareceu. [...] Você não conseguia
entender o que era justo e injusto quando tinha uma mãe que fazia cones e um
pai que escrevia seu nome em canções [...] Sentir falta dele era como
uma queimadura de fumaça no meu corpo: um pequeno buraco redondo, preto nas
bordas. [...] Eu fiz muitas coisas ruins. Era bom ser abraçada. Eu
gostava de ficar mole nos braços deles e ouvi-los dizer: 'Pronto. Muito bem por
se acalmar. Boa menina, Chrissie. Boa menina.' Era quase como se eu não fosse
má de verdade. [...] Se você quiser, você dá um jeito. Na maioria das
vezes é muito difícil e chato, mas não é impossível. Você só precisa querer
muito fazer isso. [...] Na manhã seguinte, prometi a mim mesma que
machucaria alguém, qualquer um, quantos eu quisesse. Peguei um pedaço de travesseiro
na boca e rugi. [...] Liberdade não era o mesmo que se sentir livre.
[...] estou
longe de casa, quase ninguém por família e nunca matei ninguém, mas sinto que
perdi tudo que tive e foquei no meio do caminho. [...]. Trechos extraídos
da obra The First Day of Spring (Riverhead, 2021), da psicóloga e escritora inglesa, Nancy Tucker, autora
dos livros The time in
between (Icon Books,
2015) e That was when people started to worry (Icon Books, 2018).
A POESIA DE LUCILA
NOGUEIRA
E se inda houver amor eu me apresento, \ E me
entrego ao princípio do oceano, \ E se me atinge a onda, úmida eu tremo \ esquecida
de insones desenganos. \ E se inda houver amor eu me arrebento \ feliz,
atravessada de esperança \ e mesmo lacerada inda assim tento \ quebrar com meu
amor todas as lanças. \ E se inda houver amor terei alento \ para aguentar o
inútil destes anos. \ E não me matarei, sonhando o tempo \ em que me afogarei
no seu encanto \ E se inda houver amor, ah, me consente \ ser pasto de tua
chama, astro medonho. \ e se inda houver amor, eu simplesmente \ apago esta
ferida do meu sono.
Poema E se inda
houver amor, da escritora, professora, crítica literária e tradutora Lucila Nogueira (1950-2016), autora de obra como Almenara (1979), Peito Aberto (1983), Quasar (1987), A Dama de
Alicante (1990), Livro do Desencanto (1991), Ainadamar (1996),
Ilaiana (1997), Zinganares (1998), Imilce (1999), Amaya
(2001), A Quarta Forma do delírio (2002), Refletores (2002), Bastidores
(2002), Desespero Blue (2003), Estocolmo (2004), Mar
Camoniano (2005), Saudade de Inês de Castro (2005), Poesia em
Medellin (2006), Poesia em Caracas (2007), Poesia em Cuba (2007),
Tabasco (2009), Casta Maladiva (2009), Mas Não Demores Tanto (2011),
Poesia em Houston (2013) e Imilce (2014). Veja mais aqui & aqui.
&
PANORAMA DO
TEATRO: DE PERNAMBUCO PARA O MUNDO
Roberta Guimarães aqui & aqui.
Isa Pontual aqui.
Jaci Bezerra aqui, aqui, aqui, aqui &
aqui.
Adriana Lima – a
Adriana do Frevo aqui.
Leidson Ferraz aqui, aqui & aqui.
Maíra Passos
aqui.
Flávio Gadêlha
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