sábado, julho 23, 2022

EMMA LAZARUS, ARHUR DANTO, DARCY RIBEIRO, DUDA DO RECIFE & POETA PICAPAU

 

 

TRÍPTICO DQP: Assim como a noite, também vai o dia... - Ao som da Suíte Nordestina, com o maestro Duda do Recife e a Orquestra Experimental de Repertório, no lançamento do álbum Arranjadores (Memória Brasileira, 1997), no Theatro Municipal de São Paulo, em 11 de agosto de 2012. - Alguns anos atrás a situação estava clara e era improvável que um fato adverso ocorresse. Até fiz coro com os que também tinham a segurança que não aconteceria nada que pudesse atrapalhar a desenvoltura pálida tanto quanto teimosa da nossa incipiente e mal-amada democracia. Só que o improvável aconteceu: um duro golpe parlamentar bem tramado com a acoloiada geral da imprensa, Judiciário e outras nefastas forças até então ocultas. Quase perdi a crença em tudo, um fiapinho de esperança trazia deveras algum alento. Os anos se passaram, veio a desgraceira dupla: a pandemia e o Fecamepa do Coisonário. Uma desgraça nunca vem sozinha, sabia desde pirralho. Por isso mesmo agora a proximidade me faz mais que descrente, orelha em pé: o iminente e à espreita. Era eu menino quando ocorreu o Golpe de 1964. Todo dia minha casa era invadida por um batalhão que marchava pelos corredores, revirando quartos, salas e quintal. Foi muito jovem aprendi o que dissera Anthony D’Angelo: As coisas mais importantes na vida não são coisas. Toda minha juventude se esvaíra com a dedicação à luta por um país melhor. Quantos sonhos, tantos desenganos. E eu insistia recitando trechos dos versos de Emma Lazarus: Dai-me os seus fatigados, os seus pobres, / As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade / O miserável refugo das suas costas apinhadas. / Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades, / Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado... Entoei noitedia a minha Nênia de Abril, sabia: Sou um poeta obscuro. Os meus companheiros são poetas obscuros, nosso país é o amor subterrâneo em sagração de interiores catedrais... Toda minha vida aos sobressaltos, sabia: se cochilasse cairia não só o cachimbo como toda a dignidade. Não tenho a mínima ideia do que será daqui para diante, nem o que está por vir, sei da indagação de Arhur Danto: Ou toda a distinção entre arte e realidade caiu por terra?... Deve-se creditar à teoria antiga o mérito de ter compreendido corretamente a relação entre arte e realidade... Com a vista aguçada neste tempo impenetravelmente espesso de insegurança, apesar de diáfano na minha ideia, não concilio o sono nem posso negligenciar o perigo: assim como a noite, também vai o dia...

 


O papagaio do Azor de Aunnilon... – Imagem da artista estadunidense Sarah Sze. - A jovem Sileta era muda como os demais habitantes daquela ilha. Era a irmã mais jovem do príncipe Azor de Aunnilon. Um belo dia deparou-se com um pássaro para ela desconhecido. Quem era? Um papagaio que era dos sobreviventes de um naufrágio ali perto e que dormiam na praia: Zelindor e sua irmã Zelinda. Ambos foram bem recepcionados juntamente com o seu animal de estimação tagarela. Pois, o papagaio falava e muito, e ela, nada entendia. A ave então, paciente e dedicadamente amável, ensinou-a o dom da palavra. O aprendizado durou muito tempo e ao se expressar, ela pediu àquela adorável criaturinha que ensinasse aos demais ilhéus. Assim procedeu de forma admirável e cativante na alfabetização de cada um dos moradores dali: um ensino cheio de amor. Concluída a incansável tarefa, ela reuniu a todos e manifestou publicamente sua paixão recolhida, formalizando ali mesmo e naquele momento, o desejo de contrair matrimônio com a querida ave. Diante de todos, ela tomou o amado entre as mãos e o beijou. Deu-se, então, o inesperado: o papagaio desencantou tornando-se o príncipe humano que sempre fora. A ovação foi geral! Decidiu-se, então, como prêmio pela dádiva, a construção de uma pirâmide encimada por enorme estátua do papagaio. (Releitura de trecho da obra Azor ou o Príncipe Encantado: uma nova história para servir de crônica para a da Terra dos Papagaios (Valente , 1750), do escritor francês Pierre-Charles-Fabiot Aunillon (1685-1760).

 


Proseando com a cultura - Na boca da noitinha dum sábado desse passado recentemente, lá estava eu atendendo convite de Admmauro Gommes que chegava de Xexéu, acompanhado do seu filho, o editor Ademac, para um evento surpresa, era o que me parecia. A chuva começou a despencar do céu e logo fui me aboletando no banco traseiro do automóvel, puxando conversa com os dois parceiros disso e daquilo. Entra aqui e sai ali, pegamos a BR 101 e, depois de umas voltas e subidas íngremes e deslizantes – fosse eu ao volante já estava atolado e perdido no meio daquela lonjura -, nos deparamos com um recanto para lá de acolhedor. Nossa! Lugar muito bom e bonito. Fiquei admirando o ambiente, enquanto o cicerone não dava as caras. Qual não foi a minha surpresa de que o sujeito que eu pensava ser o anfitrião como um daqueles todo farofudo, qual nada, era a cara mais lisa do meu pariceiramigo das infâncias, o Poeta Picapau. Arreliamos logo umas pinoias, enquanto eu tomava pé da aconchegante paragem. Logo uma tuia de caixa foi aparecendo e se amontoando sobre a mesa. Que droga é nove? Rasguei uma delas e saquei: Proseando com a cultura! Esse era o título de uma simpática publicação que eu mesmo havia prefaciado e sequer me lembrava. A comemoração começou com o destampado dum uísque, muito gelo, tira-gosto e a poetada solta no meio de umas conversadas jogadas fora. Algumas confidências rolaram: Admmauro trouxe à tona a lembrança do seu avô que o havia ensinado as regras da poesia popular, sacando do celular um galope à beira-mar de sua autoria. Daqui a pouco Ademac surpreendeu ao violão, sapecando umas daquelas canções do repertório popular, arrancando da memória músicas do tempo do ronca e das paradas de sucesso dos últimos 50 anos. E isso do chué ao que se parece chique. O receptor da festança não se fez de rogado e largou uma tuia de chapoletadas poéticas que foram arremedadas pelos demais em tons e versos. Só eu que ficava calado ou soltando pilherias, nada mais além da virada de copo. Lá pras tantas eu já balançava a cabeça zonza, o Picapau sacudiu no meu pau da venta: nunca arrematei um mote / pra não ver a bagaceira / também não faço heresia / faço o que a mente cria / pois ela é de primeira / e sem insistir na natura / vou a mesma admirando / e a vida vou levando / proseando com a cultura. Isso me deu coragem de tomar a viola e dei umas trastejadas me esgoelando das tripas coração, e foi só uma mesmo, devolvi a viola pro Ademac que reassumiu o posto, porque eu mesmo já estava com o raciocínio apagando de tanta beiçada no álcool. Bem, para encurtar a hestória, só sei que cheguei em casa não sei como, bêbado que só de trocar as pernas e o solado, as calças arriando, o mundo rodando, a porta estreita e com uma caixa enorme e pesada atrapalhando a passagem nos braços (nela os exemplares da obra Ascese é uma mulher – CriaArte, 2022 -, do poeta Vital Corrêa de Araújo, volume este que é o quinto da série de publicações do autor que eu organizei, prefaciei e ilustrei). A comemoração era dupla e eu não sabia. Enganchado na entrada de casa, fui socorrido e despachei tudo caindo na cama que rodava mais que carrossel em noite de festa. Gostei, outra dessa não sei não, pelamordedeus, gente! Agora mais não, só na outra. Tirante as aumentadas propositais, a anedota está igualzinha ao que se sucedeu. Até mais ver.

 


Urge preveni-los do muito que se poderia fazer, com apoio no saber científico, e do descalabro e pequenez do que se está fazendo... Mestrado é só para mostrar que o sujeito é alfabetizado, pois a metade dos que estão na universidade não sabem ler. Viva aceso, olhando e conhecendo o mundo que o rodeia, aprendendo como um índio... A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto...

Pensamento do antropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, julho 11, 2022

LÍDIA JORGE, NANCY FARMER, ÉLE SEMOG, CECÍLIA MEIRELES & MANET

 

 

TRÍPTICO DQP: Eclosão do canto, memória viva!... - Ao som de Uirapuru, da pianista, compositora e musicoterapeuta Gisele Mallon, na interpretação da instrumentista Talita Passoni e pássaros do Espaço Musicoterapia, Salto –SP. - Um piado e o espanto; depois do som, um tom: silvos e assovios, trinados e gorjeios, quantos estalidos & Néstogas: o verbo canta. Tudo pulsa - fusas, mínimas e colcheias nas águas da correnteza, no vento das folhas, chuva na relva, poeira da brisa nas pedras, no desabrochar colorido das flores, nas ondas dos mares e marés, tudo respira buliçoso, seres e coisas dançam. São pisadas e passos de todas as feras e mansas nos quintais de todas as frutas e infâncias, nos braços de todas as raças e crenças, várzeas e campos, naus dos brejos, lagos e lagoas. Tudo é céu no meu solfejo para Tupã dormir. Tudo o mais é o espetáculo do amor, o sumo da existência. Não há como olvidar de nada, porque ali é como se ouvisse a escritora estadunidense Nancy Farmer segredar: As almas das pessoas são como jardins. Você não pode virar as costas para alguém porque seu jardim está cheio de ervas daninhas. Você tem que dar a ele água e muita luz do sol. É como se ouvisse tudo isso na canora expressão do Xexéu à minha janela. Toda manhazinha e ele lá como se me dissesse Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas. O amor não é fácil, a gente sabe disso. Para conseguir, para manter, para conservar, para renovar, é pedido da gente que exista um trabalho psíquico, que exista um trabalho mental. A pergunta é saber como a gente começou a imaginar que o amor ia ser essa coisa fácil, ao alcance de todo mundo e ao alcance de um sujeito muito tempo na vida ou várias vezes na vida. Convém lembrar: a vida nos olhos de todas as manhãs, o direito de viver e deixar viver.

 


O que é de céu senão da Terra... – Imagem: A arte do artista espanhol multimídia pós-conceitual Antoni Muntadas. - Aqui dentro eu posso tudo até o céu. Lá fora irrespirável inferno dantesco, porque do átrio da civilização saíram todos direto pra caquistocracia da esgotosfera coisonária! É vigente o poetar d’O íntimo dado (A senha) do Éle Semog: Cada vez que gritam: pobre! / me assusto. Recuo ao canto / mais perto do rés do chão. / Negro, fico sem cor. / Fúria, fico sem fala. / Pois sei que as balas dos patrões, / que as balas dos políticos, da polícia / correm atrás de mim sem-terra, / correm atrás de mim sem-teto, / correm atrás das minhas razões / por esses labirintos finitos / enredados de justiça e democracia, / só para eu sair nos jornais, / morto na foto, / sangue vazando pelos ouvidos. / Toda vez que eles gritam: pobre! / é a tortura, é o estampido, é a vala. / É a nossa dor que tranquiliza os ricos. / Alô rapaziada... tem de antenar o dia: / o vento que venta lá, venta cá. Lá fora tudo se parece andar para trás e eu teimo seguir adiante com a dor de Lídia Jorge: Os olhos frios da história precisam das lágrimas ardentes da literatura... Se não sei mais o que fazer, opto pela vida, reitero teimar seguir em frente, sempre adiante.

 

O que é da vida senão amor... - Imagem: a arte da fotógrafa e artista conceitual holandesa Laura Zalenga. - Não tenho asas e nem sei onde estou. Ela me abre os braços Boadicea por alento para que eu não me sinta recusado Manet no Le Havre et Guadaloupe, pelos mares tenebrosos de Conrad: Não há linhas na natureza, apenas áreas de cor, uma contra outra. Seu abraço Susanne Leenhof - a amante de meu pai -, é o apoio que eu não tive quando precisei e como prêmio se fez a Ninfa surpresa que junta meus pedaços como cacos de vidro às mãos: Não há simetria na natureza. Um olho nunca é exatamente o mesmo que o outro. Há sempre uma diferença. Todos nós temos um nariz mais ou menos torto e uma boca irregular. Ela me chama à câmara fotográfica e é lá que a sua nudez me ilumina ao toque do piano de suas mãos divinas. E se faz mais que amante Victorine Maurent para escândalo do Almoço na Relva na pele da controversa Olímpia: Em uma face, procure a luz principal e a sombra principal; O resto virá naturalmente - muitas vezes não é importante. E então você deve cultivar sua memória, porque a natureza lhe fornecerá referências. A natureza é como um diretor em um asilo lunático. Ele impede que você se torne banal. Não fossem a infecção na perna e a insuficiência circulatória eu teria mais para que ela feita Berthe Morisot, elegante e refinada entre as violetas com seus olhos escuros, feições marcantes, seu leque e suas cartas: Toda vez que pinto, me lembro na água para aprender a nadar. Era ela a pujança da jovem estudante Eva Gonzales, o que me fez saber qual o meu lugar. E mesmo que eu não tenha para onde ir nem o que fazer é nela que eu sei que a vida vale o amor, isso é o que me basta. Até mais ver.


 

A educação é uma das coisas deste mundo em que acredito de maneira inabalável. Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem e que amanhã recomeçarei a aprender...

Pensamento da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


Conrad

domingo, julho 03, 2022

ANNE-MARIE DE BACKER, EUGENIO MONTEJO, JASON STANLEY & ROALD DAHL

 

 

TRÍPTICO DQP: A certidão da sobrevivência... Ao som do concerto Delicate Sound of Thunder - Live in New York (1988), da banda britânica Pink Floyd. - Sobrevivo ao negrume da chuvarada torrencial, impossível quase é se poupar do afogamento. Alguma esperança insiste amanhecer lá longe, quase nada. E isso para quem não sabe da Política do amigo e do inimigo do filósofo estadunidense Jason Stanley: A peculiar antipatia do fascismo pela verdade não é um recurso adicional da ideologia... a centralidade da distinção amigo/inimigo implica que a única forma possível de disputa política é a guerra. Numa disputa amigo/ inimigo não há concessão, nem acordo, nem valores comuns. A verdade é a primeira vítima de uma ideologia que coloca em seu centro a guerra entre amigo e inimigo. Este o cenário hostil à recepção, imprópria desavença para quem não leu Número zero de Umberto Eco: Não há sucesso maior que o encontro agradável entre dois fracassos. A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Vivemos na mentira e, se você sabe que lhes estão mentindo, precisa viver desconfiado... A vida é suportável, basta contentar-se. Ah, como sou descontente, cada vez mais ouço bem mais altos os acordes com os sussurros da bela no The Great Gig In The Sky - epílogo da parte 1 do The Dark Side of the Moon de Pink Floyd. Queria ruas hospitaleiras como o riso da criança que brinca no meu peito. Contudo, o solfejo dela é maior no diário de sobrevivente, só sendo, arrepio da pele.

 


Pelos vales... - A arte do artista visual japonês Katsumi Komagata: tudo na vida é frágil – inclusive as relações humanas. - Sou um edifício quão estranha tarde mormaçada de arco-íris do outro lado na margem amena, longe dos rebocos da clausura e pronta gaiola escancarada. Desse no meio da solidão seria outro dia e estou naquela do poeta Alberto da Cunha Melo: O mundo anda tão falto de assuntos, todo dia é a mesma coisa: violência urbana, milhares de mortos, milhões de assaltos e as guerras de sempre, essa rotina que dá tédio. E muita indignação. Porque sou de nada e tenho em mim aquilo que disse o escritor britânico Roald Dahl (1916-1990): Escrever é percorrer vales e montanhas... E o meu país tornou-se um interdito nas encruzilhadas, a ponto de quase nem se saber o que há depois, o que sobrará e o que travou na garganta. Há quem espere Um teto todo seu de Virgínia Woolf: Pois as mulheres permaneceram dentro de casa por milhões de anos, então a essa altura até as paredes estão impregnadas com sua força criativa. Está nelas a última esperança, já que nublaram os semblantes, as pálpebras cobriram os olhos equivocados, não me veem e talvez não vejam nada além do umbigo.

 


Nela o trâmite... - A arte da fotógrafa, socióloga e artista visual russa Valeri Haravets. - Desse no meio da solidão seria outro dia. O que houve e não sei quão tardia a minha impressão na assimetria das horas. Quem disse que era ou deixou de ser. A sorte é ter ela surgido com a Melodia da poeta francesa Anne-Marie de Backer (1908-1987): Toda a felicidade que seu rosto havia dado para mim / Eu a cantei, eu a chorei, como um mártir. / Nosso futuro não passa de um parque deserto, / Mas a sombra é azul e, dentro da noite, flores respiram. / Há dias e estações em que é preciso sonhar. / Tu, que vais embora deslizando nas torrenciais cabeleiras das águas, sobreviverás? / Pássaros negros giram ao redor de teu castelo / E a Sereia fechou os olhos sobre tuas margens arenosas. / Há dias e estações em que é preciso viver. / Alguém me atou e eu segui as fendas desenhadas no mar. / Tu, que vais embora, pálido e cativo, sobreviverás / Quando o vento te agarrar em seus turbilhões?/ Toda a felicidade que teu rosto havia dado para mim / Eu a expiei como uma culpa sem perdão / Há dias e estações que nos conduzem / Em direção a nossos remorsos, a nossos jardins abandonados... A salvação é que ela chega do inopinado, sempre cheia de luz, fogos de artifícios nas minhas veias, trovões no meu coração. E se ela vai e volta é porque nossos caminhos se confundem paralelas e convergem aleatórias perpendiculares. Parece oblíqua às vezes, mesmo com sua contumaz transparência, seu olhar indômito, sua boca de véspera, e eu mais que assíduo no seu jeito entreaberto. Há quem foi e quase não voltou e nem é tão triste a solidão, solitude. Dela fica o melhor. Restam aqueles versos dum poema do Adeus, do poeta venezuelano Eugenio Montejo (1938-2008): Prossigo entre as pedras dos velhos subúrbios / por um trago, por um pouco de jazz, / contemplando os deuses que dormem dissolvidos / na serradura dos bares, / enquanto decifro seus nomes a cada passo / e sigo meu caminho. Mais que um dia, outra não seria a data diferente talvez com os ademanes de asnos que insistem emporcalhar tudo com seu reino de morte. O meu lucro é não ter nada para gastar no mundo. Até mais ver.

 


O ser humano é aquilo que a educação faz dele. É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade.

Pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, junho 27, 2022

HUMBERTO MATURANA, SAMANTA SCHWEBLIN, NÚRIA AÑÓ & LÍVIA FALCÃO

 

 

TRÍPTICO DQP: Sobrevivo... – Imagem: AcervoLAM: Antes do Verbo havia o antes e era Néstogas, ao som do Concert Barbakan Festival Bratislava, Slovakia Nova Cvernovka (Open air Park De Palma, 2021), da pianista, compositora e cantora polaca Hania Rani. - Meia década ou mais anos, nem sei quanto, perdi a conta e o tempo: o negrume perpassa ainda hoje, noit&dias. Durante toda minha vida despendi esforços inúteis, desperdicei demais, restou o que sobrevivi do tanto que arrastei degraus abaixo ou acima, quedas e errâncias. Sobrevivi ao que fui arrebatado pelo desencanto, quase condenado à podridão e resistindo à queda livre. Não fosse uma mão amiga, assim do nada, me acolher toda vez no desamparo, não saberia o que foram amores contrariados, arroubos litigantes da juventude às paixões cáusticas, nem que não precisava me penitenciar do que sobrou de relações tóxicas, das sombras do passado, das urgências dos venenos, dos nãos, dos cataclismos da reputação, nem de mais nada... Sei, sobrevivi inválido como quem se extraviou entre duas quedas de quase quebrar o pescoço, e um atropelamento. E era como se a sobrevivência resultasse vir probus sobre toda bufonaria de quantas tormentas e latomias. Algumas vezes perdi a mais completa noção, noutras passei despercebido, sequer ouvi Samanta Schweblin: O que o mundo vive é uma grande crise de amor porque, afinal, estes não são bons tempos para pessoas muito sensíveis. Agora sei o muito que chamei pelo nome coisa mais sem cabimento e o diabo a quatro, a vida ao rés do chão no pátio de nenhum lugar, qual o propício jamais escolhido ou achado, se é que já passei pelo pior ou pelo que mais merecia. Sobrevivo agora mais do que nunca e se sucumbi a minha salvação é uma quimera, inquietações da centelha ao incêndio. Jamais deixarei de ser grato pelo que vi e passei, tinha de aprender a lição e me vali do que sou mesmo que nada mais seja.

 


Não era Ennasin nem Cocanha, o que era... – Imagem da artista visual estadunidense Helen Frankenthaler (1928-2011). - Para onde fui não sabia onde, de fato a paisagem Brea-zill era do éden. Porém, a ganância de quem chegou para ver de perto, fez do que era mapa do Fabliau de Cocagne, ambições e toleimas: o terror entre nuvens de poeira pelo caminho. Eita! Por trás dos ouropéis se falava da guerra e a derrocada prevista. E se era mesmo o paraíso eu quase dei fé, não fosse o medievalista Hilário Franco Júnior, com toda facúndia, pôr tudo a perder a graça. Pois o que antes era placidez, tornou dóceis nativos em abrasados vermelhos mais canibais foderosos, o que viria a ser mesmo Ennasin de Rabelais desenhado por Doré. Apurando a vista, o ócio, a gulodice e a usura escondiam o flagelo da fome, nada mais que um pândego encaralhamento - na verdade Vidas Secas de Graciliano, ensinando pra gente o que um cachorro faz com o osso. Ah, um mico, paguei de tudo até o último vintém que restara ao bolso. Por causa disso não fui rumo ao Ocidente do Primo Levi, porque me perdi em naufrágios pelos mares das trevas de Conrad. Era como se eu tivesse de ser perseguido a todo instante a ler o trecho da Minima moralia de Adorno: Para quem não tem mais pátria, é bem possível que o escrever se torne sua morada. Não havia mais nada a fazer, senão contar hestória: o que era o meu país, outras versões nem tão simpáticas.

 


Entre teres e haveres... – Imagem da artista australiana Mere Langmaid. – Tudo se parecia onírico e era Cocaigne, o reino de Anaitis, a Dama do Lago: Faze o que parece bom para ti. Quando a vi era a atriz Lívia Falcão se passando no cenário pela Boieira reluzente da minha vida, apontando o dedo para uma placa no cemitério do Butantã: Os meus olhos choram por dias amargos. Não entendi porque ela se parecia aquela da Vênus de Ille do Merimée no meu quintal: pele deslumbrante, vestido decotado de alças, translúcida, e se desfazia ataviada pelas águas, com a sua espantosa e empalidecida cútis, a me dizer: doravante o prazer não tem preço, sou sua polaca. E mais se fez Naná de Zola com sua vulcânica sexualidade, mais tarde a Bola de Sebo do Maupassant no que me deu de seu, e logo amanhecia Anita Ekberg para me levar na La Dolce Vita de Fellini – eu o seu Mastroiani naquela cena, quando escondeu embaixo da saia molhada o segredo de Matrona de Êfeso. Ali me beijou plenamente como se fosse pela última vez e me recolheu em seu regaço para nunca mais. Depois de tudo, disse-me Núria Añó: Qualquer um poderia ver que esta mulher está vivendo um pesadelo. Exceto que ela passa por sua vida diária bem acordada, sabendo que pode cometer um erro a qualquer momento. Nada entendia e com ela o fio de todos os enredos difíceis, caminhos aos solavancos, os passos saldados nos autos da existência. Nela eu tive paz e nem sabia. Até mais ver.

Quando dizemos que amar educa, o que dizemos é que o amar como espaço de acolhida ao outro, que o deixamos aparecer, no qual escutamos o que diz sem nega-lo desde um preconceito, suposto ou teoria, vai se transformar na educação que nós queremos. Como uma pessoa que reflete, pergunta, que é autônoma, que decide por si mesma. Amar educa. Se criamos um espaço que acolhe, que escuta, no qual dizemos a verdade, respondemos as perguntas e nos damos tempo para estar ali com o menino ou a menina, essa criança se transformará em uma pessoa reflexiva, séria, responsável que vai escolher desde si mesma. O poder escolher o que se faz, o poder escolher se se quer o que escolheu ou não. Quero fazer o que digo que quero fazer? Gosto de estar onde estou? Essas são algumas das perguntas que surgem. Para que o amar eduque há que amar e ter ternura. O amar é deixar aparecer. Dê-lhe espaço ao outro para que nossos filhos, amigos e familiares mais velhos tenham presença.

Pensamento do neurobiólogo chileno e criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer, Humberto Maturana. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.


 


domingo, junho 19, 2022

JAIME BATEMAN, KRENAK, ARNE NÆSS, MARCO BOBBIO, DOMENICO UHNG HUR & DAVI KOPENAWA

 

 

TRÍPTICO DQP: Insone insânia... - Ao som das obras Di-stances (Sistrum, 2006), Memórias Abstratas e Abstraídas (Funarte, 2012) e Karysma (Funarte, 1987), da compositora, pianista, professora e regeste Vânia Dantas Leite (1945-2018). - Onde estou quase não sei, nem consigo dormir e quem poderia depois do alarme 24/7 de Jonathan Crary. Já me sinto enterrado vivo, talvez restem sonhações: apenas pesadelos distópicos, Sidarta Ribeiro. E cada vez mais os piores povoados por ressurretos abomináveis e estúpidos dagora. Entre eles topo O doente imaginado (Bamboo, 2014), do médico italiano Marco Bobbio: A medicina obteve muitos sucessos ao salvar vidas humanas, mas poucos para garantia de vida sadia aos sobreviventes. Ninguém sabe que o céu caiu e quase nem ouço Davi Kopenawa: Tanta destruição nos deixa muito preocupados... Sei apenas que a Terra é mais sólida do que nossa vida e que não morre. Sei também que ela nos faz comer e viver... A constatação que fica é a de Domenico Uhng Hur: Estamos desterrados, com a sombra da morte, e sem modelos pressupostos a seguir. Sim, já é detectável o fim dos nossos mundos, Ailton Krenak, posso ver em cada olhar, em cada esquina, em cada gesto. Precisávamos saber o que diz Maffesoli: A vida só existe porque a morte tem nela seu papel. Melhor quem sabe seria o que diz o filósofo norueguês Arne Næss: A Terra não pertence aos homens. Sim, aqui tudo se parece com aquela nigeriana de Tremearne, o país todo se tornou o Vale do Javari. Como é doloroso amar em tempos de ódio...

 


Funâmbulo na corda bamba... - Imagem da artista, dramaturga e escritora russo-estadunidense Svetlana Boym. - Desperto no meio de uma tempestade onírica como se eu tivesse que reler as lições dos Cadernos de Rilke: viajar por muitas cidades e ver seres e coisas como o voo dos pássaros, as flores desabrochando, as regiões desconhecidas, as noites de amor, ter de acompanhar moribundos e ouvir os ruídos da rua pela janela, até que as lembranças se tornem sangue, olhar e gesto. Já me condenei a ousar previamente cônscio da lapada inexorável que virá depois: aqui se faz, aqui se paga. Sei que não é bem assim, essa a voz do povo; sou responsável por tudo que cometi e traço. Do que aprendi das leituras, às vezes um soco no estômago – o melhor é quando me defronto com o colombiano Jaime Bateman (1940-1983) cantando: Você tem que dançar e você tem que cantar. E não só para a morte, nem cantar só para as derrotas. Você tem que cantar para a vida, porque se você vive baseado na morte, você já está morto. As pessoas que vivem só de memórias estão mortas, a memória sem futuro a única coisa que traz é a tristeza, e a tristeza nunca gera briga, nunca... Há um fiapo de vida pela fresta do que flagro. E isso me basta, disso faço a imensidão do Universo...

 


No seio de Ixchel... - Imagens do artista conceitual argentino León Ferrari (1920-2013). - Entre acordormir sonhadiço, efialtas sobrevêm por entre dandões e quase me sinto esvair pelas espirais da loucura. Só me salvei porque daquela vez ela era Malinche e me contou desde quando menina e era Malintzin que cresceu Doña Marina até ser acusada de traição. Foi condenada e só conseguiu escapar porque era uma feiticeira de Trobriand, e se envultando dacolá pra depois, enfim, tornar-se a incólume deusa lunar Ixchel. Foi quando me chamou de Itzama e nem olvidei porque me levou para a ilha de Dcuzamil, na província de Ecab. Lá eu vi chegarem canoas de peregrinos, enquanto me mostrava manequins manuscritos com meus versos e canções. Entre um atrativo e outro chegou a me dizer que conheceu pessoalmente o lendário violonista e compositor conterrâneo, Normando Marques dos Santos – aquele mesmo professor que se apresentou em 1962, no histórico show bossanovista do Carnegie Hall, em New York – e que muito apreciou os álbuns de Siba – principalmente Avante (2012) e Coruja muda (2019) -, desde que ele fazia parte do Mestre Ambrósio e da Fuloresta do Samba. Não podia ser! E estalou os dedos e ouvi a música rolando no ar. Só tempos depois embalado pelos ritmos foi que me vi só, não estava mais ali. Ao procurá-la dou pra janela a surpresa: levantou a saia e mostrou-me as belas nádegas arredondadas e a sorrir safada de linda. E virou-se mantendo a saia levantada enquanto se tocava sedutoramente... Não sabia o que fazer, apreciava atento seus gemidos e mexidas. Ela saiu correndo, arrodeou o terreiro, adentrou ofegante e me encontrou priápico aceso para envolver-me com um beijo astucioso. Não, ela era humana demais para ser deusa. E mais cavalgava em meu ventre, recitando ao meu ouvido um poema de Cristina Peri Rossi: Nenhuma palavra / nenhum discurso / – nem Freud, nem Martí – / serviu para deter a mão / a arma / do torturador. / Mas quando uma palavra escrita / na margem na página na parede / serve para aliviar a dor de um torturado / a literatura tem sentido. E arreou exaurida sobre meu peito depois das faíscas do gozo extremo. Foi então que esticou o braço, pegou num banco perto e me entregou dois volumes: o livro do Popol-vuh e o códice de Dresden. Já anoitecia quando me disse TÚmiPoema e era María de España. Vê-la assim e em mim, talvez ainda seja possível sonhar mesmo. Até mais ver.

 

A meta fundamental da educação holística é promover uma educação integral, que permita à pessoa conectar-se consigo mesma e com tudo aquilo que a rodeia. Isso inclui o meio social e o meio natural. A vida na cidade, a vida moderna, altamente tecnicizada, afastou cada vez mais a pessoa do meio natural, sendo este um cenário distante, incompreendido e, portanto, não sentido. Perde-se, assim, a noção de que nossa vida depende dos recursos que nos são proporcionados por ecossistemas que não estão na cidade, normalmente muito longe, que são esgotáveis e cuja extração e transporte muitas vezes causam danos. Perdemos também a noção de que, embora os recolhamos diariamente, nossos resíduos, próprios de nossa forma de vida, produzem danos em ecossistemas mais ou menos próximos. Com esse conhecimento, o certo é adotar um comportamento pessoal e coletivo que minimize esses danos e não esgote os recursos para que as gerações futuras de nossa espécie e de outras espécies em geral habitem um planeta limpo e com recursos suficientes para viver. Por isso, a educação holística inclui a educação ambiental ou a educação para a sustentabilidade.

Pensamento do pedagogo e entomologista espanhol Rafael Yus. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.


 


domingo, junho 12, 2022

MARIAMA BÂ, BORIS VIAN, LAURA RIDING, PEPETELA & JOSÉ BARBOSA

 

 

TRÍPTICO DQP: Viver arte... - Ao som da obra musical do compositor, regente, poeta e artista plástico Jorge Antunes. - Sou um grito noite afora, as luzes distantes da cidade alheia, inaudito sonho de contar nos dedos quantos dias eu teria a cada passo: pedras e charco. Não saberia dizer das horas e medições, talvez lembranças ateias que se esvaíssem entre os tremores indizíveis e sem alarde aparente. Do nada aparecesse Gianni Vattimo na minha desolação: ...significa que hoje temos laços comunitários menos fortes, enraizamentos menos profundos na família e com a comunidade do território, não acreditamos mais na raça... Dele tive então a ciência de que o frio ameaçava chover e quantos desapareceram nas emboscadas amazônicas pela violência armada, pela fome endêmica, pelo tráfico de tudo, pela omissão nos casos de coronavírus ou da varíola dos macacos e de outras sequer inimagináveis na nossa desgraça. Procuro inutilmente pelos imprescindíveis de Brecht. Todos dormem porque não ouviram Boris Vian: O trabalho é o ópio do povo, e eu não quero morrer drogado. E quantos não trocam os pés pelas mãos, sem saber qual direção. Não tenho mais que esperança de um dia ensolarado, um dia sei lá, do inexistente à criação e o existir, o que se realiza na outridade. A vida assim é bem melhor... Acho...

 


Meia Noite... – Imagem: A ideia de tudo de todos num sentido só, do escultor, pintor, ilustrador, gravador e entalhador José Barbosa. - Os ponteiros se encontraram, perdi o relógio e todas as certezas, sou só desencontro: ângulos desfeitos na quase nenhuma surpresa da esquina. A vida pelas paralelas e transversais, resta o quase silêncio dos barulhos noturnos que se misturam e quase nem ouço Pepetela avisando: Todos devemos ter percepção das nossas responsabilidades. Não se deve morder a mão que nos dá a comida. É isso o amor. Manter a ternura pelo mesmo homem, embora se deseje outros a momentos diferentes. Se é tudo tão incerto, o que seria de mim não fosse acertar, pelo menos uma vezinha que fosse, depois de tantos erros recorrentes. Quase não lembro nada vezes nada, fizesse o contrário seria celeuma na alma. Daria o céu fosse diferente, haveria o que fazer não fossem as errâncias quase insuplantáveis.

 


Dez para as cinco... – Imagem da artista visual argentina Ornela Spadaro. - Os raios do dia no horizonte e minha cabeça é dela, Olympia de Manet que eu queria levar para o almoço na relva. Só de lembrá-la meu sexo se insinua: dos seus lábios sedentos entreabertos para se aninhar em mim recém-amanhecida, sua nudez inteira e tão descalça quanto servil no gozo da paixão... E depois do amor ela sussurrava um verso de Laura Riding: Não ultrapasse, ou em minha boca, meus olhos, você vai despencar. Chegue perto, encare e olhe bem através de mim, fale enquanto você vê... E mais queria que eu usurpasse seus limites escancarados, não precisava mentir Victorine Meurent nua na pose dos meus desejos, e por que não dizer a verdade das tantas vezes que se passou pela Vênus de Urbino do Ticiano ao meu lado por dias perdidos, para quê esconder sobre quantas vezes não foi a Vênus adormecida de Giorgione nos braços da minha insônia e quantas vezes não foi todas elas da Crônica de amor por ela na minha vida mais que erradia. A memória é pouca para tantos momentos que nela estive em claroscuros de entregas. Se faltam cinco pras nove ou seis pras dez, tanto faz, é o que menos importa agora depois de tantos anos ao deus dará. Ela deveria saber o quanto eu estava perdido no labirinto sem saber que saída ou qual entrada, só sei que fui devorado porque decifrei. Agora nenhum olhar, nem afago das mãos que me buscavam pelos lençóis de nuvens nos cenários dos prazeres – com ela qualquer lugar era paraíso. Hoje o olhar dela e o meu destino, o que se evita ou já é tarde demais, e se retomo parece que passou, porque não sou mais que uma paisagem desbotada e esquecida nos quadrões do passado, nem quisera. Ah, até mais ver.

 

Deformar uma alma é tão sacrilégio quanto matar. Os professores - tanto do jardim de infância quanto da universidade - formam um nobre exército de façanhas diárias, nunca cantadas, nunca decoradas...

Pensamento da escritora senegalesa Mariama Bâ (1929-1981). Imagem da artista visual francesa Claire Gaudriot. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


LYGIA FAGUNDES TELLES, RIM BATTAL, MILTON HATOUM, BEATRIZ PAREDES RANGEL & ANASTÁCIA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Vênus da Lua de Fel na Serra das Russas... - Lá ia Tó Zeca , sobe-desce na sua fubica incrementada, todo a...