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sábado, outubro 10, 2026

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

 

Imagem: Contornos da ubiquidade, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

 


Ressaca aluada de panaceia insólita… - Zeca Biu chegou em casa avexado de sede e foi logo pra geladeira, pegou uma garrafa, sacudiu no copo e tomou de vez, de quase cair pra trás! Ah, bá! Não se sentiu lá assim muito bem, pois, logo a vista embaçou, uma tontura redemoinhada levou-lo aos giros do planeta, cambaleou, segurando-se como podia de tão grogue que ficou e, aos tombos desmazelados, arreou pesado no canto, arrastou-se à porta do quarto, jogando-se na primeira cama que encontrou: buft! Maior ronco. Eita! Logo deu de cara com um vetusto nigromante, no meio duma estrada perdida. Onde estou? Pronde vai? Ora, não sei! Prum menino atilado, parece ainda tão donzelão!? Oxe! Tome tento, rapaz! Quem é você? Digamos: YHWH! Hum? Deixa pra lá, alesado. SOS! Olhe: saia dessa anemoia, dessa monachopsis, torne-se você! Eu? De súbito o ensolarado nublou, raios e trovões, coisa de procela medonha logo estiada na percepção do cenário: A vida dele era um horripilante sorriso de Glasgow. Vôte! Ele enocegou apalermado e viu uma perna enganchar-se na outra, os braços esticarem-se às avessas, os dedos envergados na palma da mão desmunhecada, o braço dando volta, o muque amolecendo, as canelas entortadas, a corcunda inchar-se, os olhos destrambelharem-se, a boca entronchada nos beiços virados, a língua enrolada pra dentro da garganta, venta espragatada de tapar a respiração, os ossos crescendo, o quengo pesando, o peito abrindo-se, o bucho inchando, os pés se encolhendo, a bunda esticando, desmanchando-se numa autocalosotomia involuntária, aos peidos de cagar-se todo: Tô virando bicho, socorrrrrr...! Póim! E quase comeu-se a si mesmo, ouroboros. Tá doido? Nisso agitou-se desnorteado com seu imobilismo bizarro e só via o mundo rodando de pernas pro ar, e quanto mais corria, não saía do lugar, cansou-se e cambotou desabado: Ploft! Não se sabe quando, enfim, despertou ofegante de tão agoniado. A mãe do lado: Calma, meu filho! Onde estou? Na enfermaria do quartel! Como assim? Você pegou a folga e teve um piripaque lá em casa! Em casa? Sim. Há quanto tempo estou aqui? Mais de 6 meses em coma. E os bichos do quintal? Tudo sadio. Ah, bom, tive um pesadelo. Agora relaxe. Não lembro de nada! Vieram médicos e levaram-no pra exames: foi revirado, esmurrado, sacudido, estapeado; no final: jogaram pra cima e deixaram-no estatelar-se ao chão: Tá curado, pronto! Isso levou umas 8 horas de tetei e, depois, empurraram-no de volta, na marra. Cadê minha mãe? Já vem. Pouco tempo depois a genitora reapareceu enxugando os olhos. Que foi? Você está de alta, vamos pra casa já. Como? Foi uma correria. Ali mesmo já tramou escabroso, como quem pegou asa e mergulhou profundamente nas suas visagens tresloucadas. Foi obrigado a manter-se de resguardo, por um bom tempo acamado, o que não o deteve de suas neuroses estapafúrdias: danou-se a trocar pinto por hipopótamo, gogo por rinoceronte, fazendo conta cantarolando: Um pra eu, um pra tu, um pra eu!... Pagava 5, levava 10. De novo! Tais ligado, Anselmo? Nessa hora a mãe trouxe uma bombástica nova pro seu ganhador aberto: uma polpuda herança a que tinha direito do espólio de seu falecido genitor e do inventário da matriarca: Tava de cu pra lua, né? Regozijou-se: Pudera, pra compensar a dispensa da corporação militar, invalidez de biruta. A reserva chegou bem na hora: a ideia do zoo e ampliação do jogo já transmunicipal, bufunfa da muita: comprou um sítio, que queria como chácara, mas dizia ser parcela, na verdade, era um baita fazendão de zis hectares: Tais enganando a quem, hem? Oxe, logo as doidices de todo-poderoso pra risadagem de festa: Comigo ou vai, ou racha! Só faltam 3 dedinhos de nada, chego já lá! E partiu passando gato por lebre aos solavancos e, mesmo assim, caiu nas graças do povo e já sonhou vereador desbancando êmulos na defesa dos animais, prefeito mais votado que foi, antes de concluir o mandato, levado pelos braços do povo para Assembleia Legislativa, combativo eleito para a Câmara dos Deputados, pródigo Senador da República, conduzido a próspero governador do seu estado e, quiçá, presidente do Brasil, tudo na base da veniaga! Destá! Se achasse que estava do lado errado, saltava de banda, pinotava pro outro: o que era quilômetro, virava palmo e meio, só! Pra isso já se dispunha a virar a casaca, fiel ao perjúrio pra engalobar clichês, abjurar de contratos possivelmente avençados, dando saltos soltos no ar de tão sabido, desde que fora o Juquinha dos meninos, aprendiz de feiticeiro que foi pra cabeça da mesa, o Camonge da peitada, o Malasartes das jogadas, criando boatos, tudo só no pé pule, crime besta, sabe? Era só chegar com a dinheirama e tudo certo! Ô, zerola, peraí, pronde vai tão apressado? Ôpa, quem falou? Ih! Ô mãe! Que foi? Tô ouvindo coisas! Ligue não! O que foi mesmo que aconteceu comigo? Ora, não sei: você entrou azogado em casa, foi pra geladeira, agarrou-se na garrafa, encheu o copo, virou dum gole só e se envultou! Que água era aquela? Ah, meu filho, foi uma garrafada que comprei dum moço que passou vendendo na porta, um elixir para tomar em jejum, uma colher chá, todo santo dia. Como é o nome dela? Sei lá, o rótulo despregou-se! Ah, preciso encontrar essa milagrosa! E saiu e zanzou que só à procura, logo soube: era a Oráculo Teibei dum tal de Doro! Oxe, é com essa que eu voo!... E foi, parece que deu tudo certo, parece. Até mais ver.

 

E. E. Cummings: É preciso coragem para crescer e se tornar quem você realmente é... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Carla Camurati: Existe uma sociedade que só pensa e dá valor à aparência, onde todos são considerados lindos. Há inúmeros filtros disponíveis para alterar a própria imagem. Isso leva a um adestramento e a um culto onde o valor reside unicamente na relação estética... deixando o interior vazio... Pensar na finitude nos ajuda a viver melhor!... Veja mais aqui & aqui.

Gore Vidal: Imagine a Terra como um organismo vivo que está sendo atacado por bilhões de bactérias, cujo número dobra a cada quarenta anos. Ou o hospedeiro morre, ou o vírus morre, ou ambos morrem... A genialidade da nossa classe dominante reside em impedir que a maioria das pessoas questione a injustiça de um sistema onde a maioria trabalha arduamente, pagando impostos pesados sem receber nada em troca... Veja mais aqui.

 

DESCOBERTA

Imagem: Limiar da loucura poiética, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

Sempre \ como a marcha fútil de exércitos de caranguejos \ da fortaleza do mangue até a praia. \ Sempre \ como a franja de palmeiras esperando \ para ser rompida. \ Já sei, no momento em que você desembarcar, me \ tornarei uma ilha. \ Nas sombras da floresta tropical, \ espero em submissão. \ Em meio ao tremor das folhas, \ pratico um discurso hesitante. \ Sempre \ meu coração impenetrável.

Poema da premiada escritora jamaicana Olive Senior (Olive Marjorie Senior).

 

COTRABANDISTA DE LIVROS - [...] Meu xeique me advertiu contra os livros dos filósofos, pois seus autores não eram muçulmanos e, portanto, matá-los não seria pecado — e foi exatamente isso que me fez, ao cair da noite, após o círculo de estudos dele, esgueirar-me até os mercados de papel ou à biblioteca do cã em busca dos livros que meu xeique havia amaldiçoado! [...] Eu não conseguia tirar os olhos dela, como se ela fosse uma das mulheres do Paraíso, que não menstruam nem sofrem com secreções mucosas. [...]. Trechos extraídos da obra The Book Smuggler: A Novel (Hoopoe, 2021), da premiada escritora saudita Omaima Al-Khamis (Umaima Abdullah al-Khamis).

 

CONTRADIÇÕES EUROCÊNTRICAS – [...] Há dois consensos hoje entre os intelectuais europeus: a Europa só sobrevive a um conflito previsível e de dimensões desconhecidas com direitos sociais e coesão interna; e a Europa não sobrevive sem Europa. A Europa não é um continente. Não é uma moeda. Nem é a União Europeia. A Europa é acima de tudo uma ideia, que dentro dela contém dois projetos antagônicos: o Estado Social europeu e a União Europeia. Esta contradição está, entre outras coisas, na origem da votação popular no Brexit, mais do que os “populismos” (aliás, excessivamente levados ao colo pelos media). Estamos num cruzamento histórico entre dois projetos, tudo indica, irreconciliáveis. Que a rigor nunca estiveram juntos, apesar de o senso comum insistir em associar União Europeia a Estado Social. O Estado Social nasceu na Europa em 1945, de um pacto social inédito até então entre capital e trabalho. Pacto que em 1947 e 1948 estava criado e consolidado, com uma vastidão de direitos universais prestados pelos Estados nunca conhecida na história. A União Europeia (antes CEE e CECA) nasce historicamente de um acordo entre as classes sociais dirigentes dos países mais ricos, na Europa, sobretudo o motor industrial, França e Alemanha. É um pacto entre capitais. O projeto europeu começa em 1947, vai desenvolver-se muito lentamente, ter o seu primeiro ato em 1951, mas só nos anos 80, depois das crises de 1970-73 e 1981-84, é que vai consolidar-se. [...] Da mesma forma que a crise de 1970 tinha dado um impulso decisivo à criação da moeda única, o Tratado de Lisboa, que entrou em vigor em 2009 e substituiu o direito ao trabalho pelo direito a procurar emprego, pondo assim fim ao pacto social europeu, não pode ser desvinculado dos efeitos da crise de esgotamento das “novas tecnologias” de 2001, e depois da crise de 2008. Com a Europa a enfrentar a questão do mercado de trabalho europeu como um dos pontos centrais do seu programa na última década (2008-2018). A crise aprofundou-se, portanto. Menos investimento público, mais imobilização da capacidade produtiva (desemprego), salários mais baixos, desgaste cada vez maior da força de trabalho (em exaustão, burn out, sofrimento generalizado), usada ao limite cada vez mais, com um aumento brutal da intensificação dos ritmos e mesmo das horas reais trabalhadas. O que será da UE quando chegar a crise do investimento em automação, com os esqueletos no armário do Fundo de Estabilização de 2008? [...]. Trechos do artigo O Estado Social e a União Europeia: “do berço à cova” - A Europa é acima de tudo uma ideia, que dentro dela contém dois projetos antagónicos: o Estado Social europeu e a União Europeia. (Público, 2019), da historiadora, escritora e professora portuguesa Raquel Varela (Raquel Cardeira Varela), autora de obras como A História do PCP na Revolução dos Cravos (2011), História do Povo na Revolução Portuguesa (2014), Breve História da Europa (2018), Breve História de Portugal (2023), O Canto do Melro - A Vida do Padre José Martins Júnior (2024) e Do 25 de Novembro aos Nossos Dias (2025).

 


JEFTÉ & ENTREVISTA – O professor, poeta e produtor cultural, Janilson Sales, membro da Academia Palmarense de Letras (APLE), participou do XII Congresso Nacional de Educação (CONEDU) com apresentação do estudo O cordel no fazer pedagógico: estratégias lúdicas e alinhamento curricular nos anos iniciais. Ele concedeu uma entrevista em que fala de seus projetos Museu do Homem do Campo, Cordelteca e Cordeluna, entre outros, comprovando seu ativismo pedagógica na área do cordel. Confira aqui.

 


EDUCAÇÃO, TEMAS & DEBATES – Reunião de reflexões atinentes à temática dos debates da educação contemporânea, com questões sobre aprender, autonomia, leitura, contar história, racismo & diversidade, responsabilidade, política, violência, pós-humano, criatividade, entre outros, a partir do pensamento de Paulo Freire, Antônio Cândido, Kate Manne, Rosi Braidotti, Maryanne Wolf, Ana Mae Barbosa, Rubem Alves, Mia Couto, Narges Mohammadi, Beatriz Paredes Rangel, Veronica Gorrie, Stela Maris Sanmartin, Hélder Pinheiro, Jones Manoel, Ruby Bridges. Veja aqui.

 


CIRCO ITINERANTE – Uma experiência de produção cultural ocorrida em meados da década de 1980, em Palmares (PE), que durou 15 dias de muitas atividades artísticas. Foi neste evento que ocorreram shows musicais de Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Mazinho, Everaldo Souza & Zito Arão, entre outros; exposições pictóricas de Ângelo Meyer, Rollandry Silvério & outros artistas da região, recitais de poesias, afora apresentações teatrais, de guerreiros, de caboclinhos, de dança, com lançamento inaugural da revista em quadrinhos Aventureiros do Una. Além disso, matinês e recreações para a criançada durante o dia, com o Palhaço Pirulito e apresentações circenses, como a mulher-de-borracha, engolidor de fogo, acrobacias e equilibrismo. Veja mais detalhes aqui.


 

JUCATI – Este é 7º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, explorando o cenário de Jucati, no Sítio Ouricuri, antes Pindorama, tomando água de coco pra saber do pau-ferro Jucá, do povo da Vila Neves, do riacho da Pracinha e das coisas dos rios Chata e Canhoto. Confira aqui & aqui.

 


SETÍGONO – Está previsto para o dia 21/10, às 20h, na Fliarp, em Palmares (PE), o lançamento da antologia Setígono – Teoria, História e Poesia – Literatura Experimental. Para mais informações acerca dessa nova modalidade poética confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


Minha infância começou depois que virei adulta. Minha forma de brincar é fazendo meus filmes...

Depoimento da jornalista, cineasta, fotógrafa, atriz, publicitária e professora, Sandra Ribeiro, que realizou diversos filmes, entre eles, os documentários Teatro e a Música de Valdemar de Oliveira (1998) e Nóis Sofre Mas Nóis Goza (1999), o ficção O Recife que Aprendi a Amar Depois (2000), inspirado na Evocação do Recife de Manoel Bandeira; o ficção A Partida (2003), baseado no conto homônimo do escritor Osman Lins; o curta-metragem ARMORiALMA de Suassuna (2010), o ficção Yara (2011), baseado no poema da escritora Cida Pedrosa, faz parte do projeto Olhares sobre Lilith; o longa-metragem ARMORiALMA (2023), entre outros.

Veja mais aqui.


 

 


segunda-feira, fevereiro 15, 2016

PESSOA, DIDION, EINSTEIN, TENNOV, TATEV CHAKHIAN, BOURDIN, RABELAIS, WURTZEL, SAVATER, DORO & LITERÓTICA

 


DORO, A TEIBEI & ORÁCULO... – Doro aperreou-se: a situação não estava nada auspiciosa; de promissor mesmo, só a vontade de tomar uma. Bote bronca nos costados dele. E tomou umas talagadas, enxugou uma quartinha, sorveu a meiota, mais de litro da tirana, lavou tudo com uma geladíssima cerveja, no vira vira como Deus quisesse que desse, nem aí, tropeçou nos frascos e foi pra casa, tangendo os carneiros de Panúrgio: Danou-se, bicho besta! Prosseguiu inglório a tanger os que sobravam na sua ebriedade. E tropeçou nos postes, arengou com passantes, chutou o que aparecesse, assim, à toa, até chegar ao domicílio: fogo aceso no quengo, língua grossa, gaguejando aos soluços, pra lá e pra cá, aos tombos, a porta estreita, deslizou encostado pelas paredes, insaciável, deu na cozinha, achou a teibei, agarrou-a pinguço pelo gargalo, catou o copo, escapuliu, pegou outro, encheu de esborrar e engoliu. Tonteou com careta, virou bicho e o diabo a quatro, arrastou-se como pode e amarrou o bode num cantinho do quintal. Amanheceu ateado, com o puxavanques da Bacbuc: Quem é essa? Sou a sacerdotisa do Oráculo. Tô variando! Beba! Oxe, assim de jejum? Já! Sorveu a pulso, espremeu-se todo, maior queimor da goela ao bucho convulsionado: Essa se num matar, acende tudo! Abriu os olhos com dificuldade e o canto mais limpo: Cadê-la? Vôte! Levantou-se, amparou-se ao muro e fez carreira atravessando o quintal; escorregou, bateu o quengo no chão e azoretou-se cheio das ideias: Eureka! Tive uma ideia: a teibei é um santo remédio! E correu desajeitado para vasculhar por umas etiquetas, sem saber aonde as havia guardado. Achou-as, sacou duns lápis de cor e foi ajeitá-las, pacientemente. Ao cabo dalguns minutos, estava com o rótulo pronto: Oráculo! Aí ele sorriu e correu pra escanear: Hummmm... Imprimiu uma tuia e saiu pegando todo tipo de garrafa, espatifou-se umas tantas e as que sobraram lavou-as bem, deixou-as enxugar de bico pra baixo, enquanto tentava se assear: aquele era o momento de mudar de vida. Lá pras tantas, quase sóbrio, conferiu todo garrafal, enxutinhos e limpos, colou a rotulagem. Agora sim! Foi pra barrica com uma concha enorme e encheu umas 20, danou cortiça, ensacolou e saiu de porta em janela oferecendo a milagrosa. Tá com dor de quê? Nos quartos! Tome desse elixir 3 vezes ao dia, em jejum. Aí, tá certo! Vendeu, guardou os trocados na algibeira. Devolva o casco, vá! Foi-se decidido. Pros que não se ressentiam de mal algum, ele não se apertava: Tome um gole dessa panaceia e você saberá do futuro, ou do que estão aprontando pra sua banda, teste, veja, tome! A lapada é grátis. O curioso: Dá o número da loteria? Adivinha tudo, mô fio! Manda. Veio outro: Cura gonorreia? Até o câncer, meu! Passa uma. Meia hora depois estava de volta todo felizardo, segurando os bolsos entupidos de cédulas e moedas, a sacola na cacunda só com garrafas vazias e catadas pelo meio da rua, lixões e monturos. Em casa lembrou-se que ainda estava de bucho vazio, as tripas arengavam e foi providenciar o mingau de cachorro. Ingeriu a gororoba e partiu pros seus esperançosos afazeres. Levou tempo montando a química da tirana: de uns pingos logo jorraram esborrando de alagar tudo. Segura! Foge não. Deu trabalho para represar. Daí moeu, filtrou, diluiu, ajustou, aqueceu, destilou, decantou plantando bananeira e, ao cabo de mais algumas horas, fez o ritual: benzeu, peidou, estalou os dedos, arrotou, sacudiu-se, rebolou, virou malassombro, desenvultou-se, cuspiu, escarrou e tocou fogo: Pronto, coisa mais linda! E as labaredas da fogueira quase queimaram tudo! Socorro! Controlou o incêndio não sabia como e partiu para encher as vasilhas, a mexê-las bem, aos requebros e, em seguida, sacudiu o conteúdo dentro das quartinhas e barris. Logo bateram à porta: Já vai! Insistiram: Já vai! E foi: Diga! Ô seu Doro, me dê um litro daquela sua garrafada que minha mulher tá endiabrada. Disse o preço e foi buscar, voltou: Saiu do forno agora, ainda está quentinha! Recebeu o dinheiro e foi se ocupar. Novamente, novas batidas à porta. Foi ver: uma fila imensa! Calma, tem pra todo mundo. E o atendimento entrou pela noite adentro, de quase nem deixá-lo dormir. Tomou uns goles para poder se sustentar em pé, decilitrou-se: Oxente! Já quase amanhecendo, virou a noite aos goles e conferindo os tostões dos bolsos: Tô rico! Nessa hora chegou Marcialita de viagem com os bruguelos agitados: Que catinga é essa? Ôi. Ô traste, armasse o quê, pra tá com tanto dinheiro, assim? Minha fia, tamos ricos! Dê logo pra cá que preciso fazer feira. Eita, num deixou nem sentir o gostinho direito? Desarreda!... Quando a mulher saiu, ele foi empreender: Taí, uma farmácia! E colocou na sala um balcão com meio mundo de prateleiras, colocou uma placa extravagante: Aqui cura tudo! A freguesia correu feito doida: Calma, o milagre demora um tiquinho! Não contava ele com fiscais da vigilância sanitária, nem da junta comercial: Cadê o alvará? O senhor tá bonzinho? Cadê a licença? Olhe, se o senhor ou alguém da sua família tiver algum problema de saúde, ou financeiro, ou atrapalho qualquer de aperto, para proteção das coisas ruins, conselhos ou afrodisíaco, o que for, tome um gole desse amuleto aqui, que resolve na hora: é cortesia da casa, vá? Assim engalobava uns & outros & tantos, até vê-se num imbróglio desgraçado, de pegar o corujão de quase se desacertar todo: Hem, hem, perdi; mas, pelo menos, salvei a bunfunfa, ô viagem boa! Nada melhor que uns dias de férias pinotando pelo meio do mundo, né, não?... Esqueceu Marcialita com a filharada fungando no seu cangote: Oxe, mulher, deixe quieto, arrumo já o que fazer, vou trabalhar e ganhar muito dindim. Se avie, cabra, a fome não espera! Ih. Onde chegasse, recomeçava a tramoia. E foi... Veja mais abaixo e aqui, aqui & aqui.


DITOS & DESDITOS

É tão difícil aprender a colocar a tristeza em perspectiva, tão difícil entender que é um sentimento que se manifesta em diferentes graus; pode ser uma vela queimando suavemente e sem causar danos em sua casa, ou pode ser um incêndio florestal devastador que destrói quase tudo e é controlado por quase nada. E pode ser também muitas coisas entre esses dois extremos... Não deu certo e não dá. Não há final feliz para a história da tristeza se você nasce com uma predisposição ao desespero. Afinal, o mundo é um lugar rude, brutal e cruel. É apenas uma questão de quanto tempo você consegue conviver com isso...

Pensamento da escritora e jornalista estadunidense Elizabeth Wurtzel (1967-2020). Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

As piores surpresas sempre vêm das pessoas mais próximas. Pessoas que pensamos conhecer como a palma da mão se revelam completos estranhos, capazes de tudo, inclusive das piores...

Pensamento da escritora francesa Françoise Bourdin (1952-2022), que ganhou dos leitores o slogan "Histórias que se parecem conosco".

 

ORÁCULO DA GARRAFA – ORAÇÃO: Garrafa, cujas Profundezas Misteriosas guardam dez mil Segredos, com o ouvido atento eu espero; alivia minha mente e fala meu destino. Verdades não nascidas teu Suco revela, que o Futuro oculta. Extraída da jornada satírica de Panurge e Pantagruel ( ), do humanista francês François Rabelais, um dos pseudônimos do jornalista e romancista pornógrafo português Alfredo Gallis (1859-1910), atinente ao Oráculo da Garrafa Divina (Oracle de la Dive Bouteille), na busca por uma resposta metafísica para o dilema de Panurge: se ele deve se casar e se será traído. Para obtê-la, o postulante precisa recitar a oração e aguardar. Ao chegarem no templo leram: Os destinos guiam quem quer; quem não quer, eles arrastam... Após o pedido, a resposta do oráculo resumiu-se a uma única palavra pronunciada pelo estalo do vidro: "Trinch!" (que significa "Beba!"). Para a sacerdotisa Bacbuc, a interpretação do Oráculo significa o ato de beber da fonte do conhecimento, da verdade e da própria vida: Aqui, bebendo, eu delibero, eu raciocino, eu resolvo e concluo. O apetite vem com o comer... mas a sede vai embora com o beber. Beba sempre antes da sede, e ela nunca te alcançará. Quando eu bebo, eu penso; e quando eu penso, eu bebo... Ao término da consulta, a sacerdotisa orienta: E agora sigam o seu caminho, em nome de Deus e sob a Sua orientação... Do livro ainda outro aprendizado: O Pantagruelismo é uma certa alegria de espírito que consiste no desprezo pelas armadilhas do destino... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ÉTICA PARA AMADOR - [...] A inteligência deve saber rir. [...] Levar as coisas com filosofia não significa encará-las com resignação, nem com gravidade, mas sim com alegria. [...] A única coisa em que todos concordamos, à primeira vista, é que não concordamos com todos. [...] Estamos destinados a inventar o nosso destino, sem segundas chances. Por isso, nós, seres humanos, erramos e decepcionamos uns aos outros, e cometemos atrocidades; mas também, graças a isso, podemos transformar a nossa vida e inventar o seu conteúdo. [...] E você sabe por que não é simples dizer quando um ser humano é "bom" e quando não é? Porque não sabemos para que servem os seres humanos. [...]. Trechos extraídos da obra Ética para Amador (Booket, 1991), do escritor e filósofo espanhol Fernando Savater (Fernando Fernández-Savater Martín), que produziu notável narrativa por meio do teatro e do ensaio.

 

AMOR & LIMERÊNCIA – […] A limerência pode perdurar por muito tempo alimentada por migalhas. De fato, o excesso de alimento é talvez a melhor maneira de acabar com ela. Ela guarda uma semelhança nítida com a situação de ratos e pombos de laboratório que continuam a pressionar a alavanca ou a bicar o disco mesmo quando a probabilidade de receber comida como recompensa diminui gradualmente, de modo que, em média, apenas uma em centenas ou até milhares (no caso de pombos muito persistentes e velozes nas bicadas) de "respostas" realmente resulta em recompensa. Quando o animal é confrontado com uma relação incerta entre suas ações e o funcionamento do mecanismo de liberação de alimento, obtêm-se resultados notáveis. Mesmo para animais de laboratório, os elementos-chave parecem ser a dúvida e a esperança. Os jogos de azar comuns assemelham-se a esse comportamento de laboratório pela persistência demonstrada, mesmo quando as chances de vitória são mínimas. Talvez, tanto para as pessoas que vivenciam a limerência quanto para os jogadores compulsivos, o tamanho do possível prêmio também seja importante. Tanto os jogadores quanto os indivíduos limerentes encontram motivos para ter esperança em sonhos audaciosos. […] A limerência é, acima de tudo, uma atividade mental. Trata-se de uma interpretação de eventos, e não dos eventos em si. Você admira, sente atração física, percebe — ou acredita perceber (ou julga possível perceber sob condições "adequadas") — um indício de possível reciprocidade, e o processo é desencadeado. […] Os olhos, como veremos repetidamente, são tão importantes na limerência que eles, e não os órgãos genitais ou mesmo o coração, podem ser chamados de órgãos do amor. [...] A despeito de ideais e filosofias, você se vê como um jogador em um processo que guarda uma semelhança inquestionável com um jogo. O prêmio não é insignificante; a reciprocidade gera êxtase. Se ele será conquistado, se será compartilhado e qual será o desfecho final — tudo isso depende da eficácia de suas jogadas e das do seu LO; depende, de fato, da habilidade. [...] Uma pessoa que não vivenciava a limerência, ao conhecer a teoria sobre o tema, sentiu que, embora a dor da limerência possa ser intensa, não se deve esquecer que aqueles que não são limerentes também sofrem. Ele expressou seus sentimentos em um poema sobre a tristeza de ter de encerrar um relacionamento que lhe era caro, pois sua parceira começara a exigir o impossível em meio à sua limerência. "Sofremos demais, sabe? Não é fácil abrir mão de um bom amigo. Ver alguém mudar diante dos seus olhos — de alguém que você sente que o conhece e o ama para alguém que, de repente, exige o impossível. Como se você não fosse mais você mesmo." Esse poema revela a intensidade da tristeza que senti diante da necessidade da separação. Recebi permissão para guardar uma cópia do poema e mostrá-la a outras pessoas; foi o que fiz. Antes de lê-lo para alguns entrevistados, eu explicava as circunstâncias em que ele fora escrito. Uma pessoa limerente, que sofria com a dor da falta de reciprocidade, reagiu da seguinte forma: "Certo, entendo o que o poema diz e percebo que o autor realmente não queria que o relacionamento terminasse e tudo o mais. Mas, francamente, quase desde a primeira linha, minha empatia estava voltada para a pessoa a quem o poema se dirigia. A pessoa que ouve do parceiro que deve ir embora, quando seu único 'crime' foi amar". [...]. Trechos da obra Love and Limerence: The Experience of Being in Love (‎Rowman & Littlefield, 1998), da psicóloga estadunidense Dorothy Tennov (Dorothy J. Tennow – 1928-2007), considerando acerca do amor romântico – o estar apaixonado, ou apaixonado e a limerência, que é um estado involuntário, cognitivo e emocional de obsessão romântica por outra pessoa, marcada por uma necessidade profunda de reciprocidade e idealização extrema, termo cunhado pela autora em 1979.

 

O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO - [...] A vida muda num instante. No instante comum. [...] O luto revela-se um lugar que nenhum de nós conhece até chegar a ele. Antecipamos (sabemos) que alguém próximo pode morrer, mas não olhamos além dos poucos dias ou semanas que se seguem imediatamente a essa morte imaginada. Interpretamos mal a natureza mesmo desses poucos dias ou semanas. Podemos esperar sentir choque se a morte for repentina. Não esperamos que esse choque seja avassalador, capaz de desestruturar tanto o corpo quanto a mente. Podemos esperar ficar prostrados, inconsoláveis, enlouquecidos pela perda. Não esperamos ficar literalmente loucos — pessoas que mantêm a calma e acreditam que o marido está prestes a voltar e precisa de seus sapatos. [...] Somos seres mortais e imperfeitos, conscientes dessa mortalidade mesmo ao tentarmos afastá-la, traídos pela nossa própria complexidade; somos constituídos de tal forma que, ao lamentarmos nossas perdas, lamentamos também — para o bem ou para o mal — a nós mesmos: como éramos, como já não somos e como, um dia, deixaremos de ser por completo. [...]. Trechos extraídos da obra The Year of Magical Thinking (Vintage, 2007), da escritora e jornalista estadunidense Joan Didion (1934-2021), autora de obras como Blue Nights (2011), The White Album (1979) e Slouching Towards Bethlehem (1968), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MINHA ZONA DE CONFORTO - Conheço seis línguas – \ todas imperfeitamente. \ Isso significa que crio metade das conversas, \ construo metade do que leio, \ e esse monólogo interminável é a garantia da minha felicidade: \ qualquer livro pode terminar do jeito que eu quero. \ Amo entre as línguas \ e livro meus amantes do incômodo de sussurrar no meu ouvido \ orações subordinadas românticas complexas: \ eu mesma faço! \ Traduzir poemas incompreendidos \ toca meu paladar sensível \ como a hospitalidade de um dono de restaurante. \ Placas de trânsito em línguas estrangeiras \ protegem minha liberdade de movimento, \ mas, com mais frequência, me dão o direito de me perder. \ Sempre tenho o privilégio de concordar silenciosamente e sorrir. \ Sempre tenho a opção de não entender, mas continuar sorrindo. \ Não saber não é um fator atenuante, \ mas, como tudo o que sei são seis línguas, \ todas imperfeitamente, \ sempre tenho a vantagem de atenuar \ os fatores. Poema poeta, tradutora e artista armênia, Tatev Chakhian.

 

FERNANDO PESSOA – No livro Teoria da literatura (Almeidna, 1973), do escritor e professor português Vitor Manuel de Aguiar Silva, encontro que: Ao lírico é impossível exilar-se de si mesmo, alhear-se de sua interioridade a fim de se outrar, como diria Fernando Pessoa, a fim de criar seres e coisas que alcancem um subido grau de distanciamento em relação ao sujeito individual. O se outrar do poeta e filósofo português Fernando Pessoa (1888-1935), refere-se ao fenômeno de fazer-se outro, adotar várias personalidades, dando-lhes vida e independência. Outrar-se pode ser, também, definido, como deixar-se contagiar por algo de sentido novo e diferente, deixando-se transformar num ser novo, distinto, que veste uma nova personalidade ou forma de estar no mundo. Do mesmo modo, no livro O devir-eu de Fernando Pessoa (Relógio D’água, 2010), o filósofo, ensaísta e professor português José Gil considera o fenômeno estético Fernando Pessoa como detentor de uma potência que dá a pensar diversas questões filosóficas, que se configuram como um modo particular de promover a vibração das forças que dinamizam as intensidades impessoais de uma obra de arte, levando o próprio leitor a entrar no movimento “despessoalizante” do outramento, que estaria na base, por sua vez, do fascínio que ela, a poesia, exerce. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


 COMO VEJO O MUNDO, DE ALBERT EINSTEIN -  Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas. E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito. Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo. Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava. Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente. A virtude republicana corresponde a meu ideal político. Cada vida encarna a dignidade da pessoa humana, e nenhum destino poderá justificar uma exaltação qualquer de quem quer que seja. Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrível e excessiva admiração e veneração. Não quero e não mereço nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas quimérica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas ideias que descobri. Mas a elas consagrei minha vida, uma vida inteira de esforço ininterrupto. Fazer, criar, inventar exigem uma unidade de concepção, de direção e de responsabilidade. Reconheço esta evidência. Os cidadãos executantes, porém, não deverão nunca ser obrigados e poderão escolher sempre seu chefe. Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrático de domínio se instala e o ideal republicano degenera. A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itália fascista de hoje e contra a Rússia soviética de hoje. A atual democracia na Europa naufraga e culpamos por esse naufrágio o desaparecimento da ideologia republicana. Aí vejo duas causas terrivelmente graves. Os chefes de governo não encarnam a estabilidade e o modo da votação se revela impessoal. Ora, creio que os Estados Unidos da América encontraram a solução desse problema. Escolhem um presidente responsável eleito por quatro anos. Governa efetivamente e afirma de verdade seu compromisso. Em compensação, o sistema político europeu se preocupa mais com o cidadão, com o enfermo e o indigente. Nos mecanismos universais, o mecanismo Estado não se impõe como o mais indispensável. Mas é a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento. A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia. No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político. O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espírito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta. Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida. [...] SOBRE A TEORIA DA RELATIVIDADE – [...] as ideias básicas mais essenciais da física teórica. Penso em primeiro lugar na teoria do movimento das massas e da gravitação, obra de Newton; penso em seguida na noção do campo eletromagnético, graças à qual Faraday e Maxwell repensaram as bases de uma nova física. Tem-se razão ao dizer que a teoria da relatividade deu uma espécie de conclusão à grandiosa arquitetura do pensamento de Maxwell e de Lorentz, pois ela se esforça por estender a física do campo a todos os fenômenos, inclusive gravitação. Ao tratar do objeto particular da teoria da relatividade, faço questão de esclarecer que esta teoria não tem fundamento especulativo, mas que sua descoberta se baseia inteiramente na vontade perseverante de adaptar, do melhor modo possível, a teoria física aos fatos observados. Não há necessidade alguma de falar de ato ou de ação revolucionária, pois ela marca a evolução natural de uma linha seguida há séculos. A rejeição de certas concepções sobre o espaço, o tempo e o movimento, concepções julgadas fundamentais até esse momento, não, não foi um ato arbitrário, mas simplesmente um ato exigido pelos fatos observados. A lei da constância da velocidade da luz no espaço vazio, corroborada pelo desenvolvimento da eletrodinâmica e da ótica, junto com a igualdade de direito de todos os sistemas de inércia (princípio da relatividade restrita), indiscutivelmente revelada pela célebre experiência de Michelson, inclina desde logo a pensar que a noção de tempo deve ser relativa, já que cada sistema de inércia deve ter seu tempo particular. Ora, a progressão e o desenvolvimento desta ideia realçam que, antes da teoria, a relação entre as experiências pessoais imediatas, de uma parte, e as coordenadas e o tempo, de outra parte, não fora observada com a indispensável acuidade. Eis sem contestação um dos aspectos fundamentais da teoria da relatividade: é sua ambição explicitar mais nitidamente as relações dos conceitos gerais com os fatos da experiência. Além disso, o princípio fundamental permanece sempre imutável, e a justificação de um conceito físico repousa exclusivamente sobre sua relação clara e unívoca com os fatos acessíveis à experiência. De acordo com a teoria da relatividade restrita, as coordenadas de espaço e de tempo ainda conservam um caráter absoluto, já que são diretamente mensuráveis pelos relógios e corpos rígidos. Mas tornam-se relativos já que dependem do estado de movimento do sistema de inércia escolhido. O continuum de quatro dimensões realizado pela união espaço-tempo conserva, de acordo com a teoria da relatividade restrita, o caráter absoluto que possuíam, conforme às teorias anteriores, o espaço e o tempo, cada um tomado à parte (Minkowski). Da interpretação das coordenadas e do tempo como resultado das medidas, chega-se à influência do movimento (relativo ao sistema de coordenadas) sobre a forma dos corpos e sobre a marcha dos relógios, e à equivalência da energia e da massa inerte. A teoria da relatividade geral funda-se essencialmente sobre a correspondência numérica verificável e verificada da massa inerte e da massa pesada dos corpos. Ora, este fato capital, jamais a mecânica clássica o pudera explicar. Chega-se a esta descoberta pela extensão do princípio de relatividade aos sistemas de coordenadas, possuidoras de uma aceleração relativa de uns em relação aos outros. Assim, a introdução de sistemas de coordenadas possuidoras de uma aceleração relativa em relação aos sistemas de inércia mostra e descobre campos de gravitação relativos a estes últimos. Daí se torna evidente que a teoria da relatividade geral, baseada na igualdade da inércia e do peso, autoriza também uma teoria do campo de gravitação. A introdução de sistemas de coordenadas aceleradas, um em relação a outro, como sistema de coordenadas igualmente justificadas, como parece exigir a identidade entre a inércia e o peso, conduz, juntamente com os resultados da teoria da relatividade restrita, à consequência de que as leis dos movimentos dos corpos sólidos, em presença dos campos de gravitação, não correspondem mais às regras da geometria euclidiana. Observamos o mesmo resultado na marcha dos relógios. Então, impunha-se, necessariamente, uma nova generalização da teoria do espaço e do tempo, já que, doravante, se mostram absolutamente caducas as interpretações diretas das coordenadas do espaço e do tempo pelas medidas habituais. Esta generalização de nova maneira de medir já existia no setor estritamente matemático, graças aos trabalhos de. Gauss e de Riemann. E descobrimos que se fundamenta essencialmente sobre o fato de que a nova maneira de medir empregada para a teoria da relatividade restrita, limitada a territórios extremamente pequenos, pode se aplicar, com todo o rigor, ao caso geral. Tal evolução científica, narrada como foi vivida, tira das coordenadas espaço-tempo toda a realidade independente. O real, em sua nova medida, agora só se apresenta pela ligação de suas coordenadas com as grandezas matemáticas que reconhecem o campo de gravitação. A concepção da teoria da relatividade geral aplica-se a partir de uma outra raiz. Ernst Mach realçara de modo singular o fato de que na teoria newtoniana havia um ponto verdadeiramente pouco explicado. Com efeito, considera-se o movimento sem referência a suas causas, mas simplesmente enquanto movimento descrito. Por conseguinte, não vejo outro movimento a não ser o movimento relativo das coisas umas em relação às outras. Mas a aceleração que descobrimos nas equações do movimento de Newton continua inconcebível desde que se raciocine a partir da ideia do movimento relativo. Então Newton viu-se obrigado a imaginar um espaço físico com relação ao qual deveria existir uma aceleração. Este conceito de um espaço absoluto introduzido ad hoc mostra-se, é certo, logicamente correto, mas não satisfaz o sábio. Por este motivo E. Mach procurou modificar as equações da mecânica de modo que a inércia dos corpos fosse explicada por um movimento relativo, não por referência ao espaço absoluto, mas por referência à totalidade dos outros corpos ponderáveis. Em vista dos conhecimentos científicos do tempo, a combinação devia fracassar. Mas esta questão atormenta sempre nossa razão. A indução do pensamento impõe-se com uma força ainda muito maior quando se pensa em função da teoria da relatividade geral, pois, segundo ela, sabe-se que as propriedades físicas do espaço são influenciadas pela matéria ponderável. Minha profunda convicção reconhece que a teoria da relatividade geral não pode superar estas dificuldades de maneira verdadeiramente satisfatória a não ser que se pense o universo como um espaço fechado. Os resultados matemáticos da teoria nos impõem esta concepção, se se admitir que a densidade média da matéria ponderável no universo possui um valor finito, por menor que seja. COMO VEJO O MUNDO – A obra Como vejo o mundo, do físico alemão Albert Einstein (1879-1955), trata em seu primeiro capítulo acerca da visão do autor sobre o mundo, o sentido da vida, como julgar o homem, o porquê da riqueza, comunidade e personalidade, o Estado diante da causa individual, o bem o e mal, religião e ciência, a religiosidade da pesquisa, paraíso perdido, a necessidade da cultura moral, fascismo e ciência, liberdade de ensino, métodos modernos de inquisição, educação em vista de um pensamento livre, métodos modernos de inquisição, educação em vista de um pensamento livre, Educação/Educador, alunos japoneses, mestres e alunos, os cursos de estudos superiores de Davos, alocução pronunciada junto do túmulo de H. A. Lorentz, Joseph Popper-Lynkaeus, Arnold Berliner, G.B. Shaw, Bertrand Russell e o pensamento filosófico, as mulheres americanas, entre outros assuntos. No segundo capítulo trata sobre política e pacifismo, o sentido atual da palavra paz, a guerra, o problema do pacifismo, o serviço militar, Sigmund Freud, as mulheres e a guerra, pacifismo ativo, sobre a questão do desarmamento. a Corte de Arbitragem, a Internacional da ciência, as minorias, civilização e bem-estar, reflexões sobre a crise econômica mundial, a produção e o poder de compra, produção e trabalho, a proteção do gênero humano, entre outros assuntos. No terceiro capítulo trata sobre a luta contra o nacional-socialismo e a profissão de fé. No quarto capítulo trata sobre problemas judaicos, o cristianismo e judaísmo, anti-semitismo e juventude, a necessidade do sionismo, entre outros assuntos. Por fim, no quinto e último capítulo aborda sobre os estudos científicos, os princípios da pesquisa, princípios da física teórica, o método da física teórica, a teoria da relatividade, a teoria da relatividade geral, o problema do espaço, do éter e do campo físico, Johannes Kepler, a  mecânica de Newton e sua influência sobre a formação da física teórica, a influência de Maxwell sobre a evolução da realidade física, o barco de Flettner, a causa da formação dos meandros no curso dos rios. Lei de Baer, a verdade científica e a degradação do homem de ciência. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA;

 ELA, A CONCHA: TORSO A DORSO

Ela linda e nua cumpriu a danação:

Promessa de afagos, olhos em chamas, de concha

Fez o que tinha de fazer: de si para mim,

Nela meu torso contra seu dorso.

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