Imagem: Contornos da ubiquidade, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.
Ressaca aluada
de panaceia insólita… - Zeca Biu
chegou em casa avexado de sede e foi logo pra geladeira, pegou uma garrafa,
sacudiu no copo e tomou de vez, de quase cair pra trás! Ah, bá! Não se sentiu lá
assim muito bem, pois, logo a vista embaçou, uma tontura redemoinhada levou-lo
aos giros do planeta, cambaleou, segurando-se como podia de tão grogue que
ficou e, aos tombos desmazelados, arreou pesado no canto, arrastou-se à porta
do quarto, jogando-se na primeira cama que encontrou: buft! Maior ronco. Eita! Logo
deu de cara com um vetusto nigromante, no meio duma estrada perdida. Onde
estou? Pronde vai? Ora, não sei! Prum menino atilado, parece ainda tão
donzelão!? Oxe! Tome tento, rapaz! Quem é você? Digamos: YHWH! Hum? Deixa pra
lá, alesado. SOS! Olhe: saia dessa anemoia, dessa monachopsis, torne-se você!
Eu? De súbito o ensolarado nublou, raios e trovões, coisa de procela medonha
logo estiada na percepção do cenário: A vida dele era um horripilante sorriso
de Glasgow. Vôte! Ele enocegou apalermado e viu uma perna enganchar-se na
outra, os braços esticarem-se às avessas, os dedos envergados na palma da mão
desmunhecada, o braço dando volta, o muque amolecendo, as canelas entortadas, a
corcunda inchar-se, os olhos destrambelharem-se, a boca entronchada nos beiços
virados, a língua enrolada pra dentro da garganta, venta espragatada de tapar a
respiração, os ossos crescendo, o quengo pesando, o peito abrindo-se, o bucho
inchando, os pés se encolhendo, a bunda esticando, desmanchando-se numa autocalosotomia
involuntária, aos peidos de cagar-se todo: Tô virando bicho, socorrrrrr...! Póim!
E quase comeu-se a si mesmo, ouroboros. Tá doido? Nisso agitou-se desnorteado com
seu imobilismo bizarro e só via o mundo rodando de pernas pro ar, e quanto mais
corria, não saía do lugar, cansou-se e cambotou desabado: Ploft! Não se sabe
quando, enfim, despertou ofegante de tão agoniado. A mãe do lado: Calma, meu
filho! Onde estou? Na enfermaria do quartel! Como assim? Você pegou a folga e
teve um piripaque lá em casa! Em casa? Sim. Há quanto tempo estou aqui? Mais de
6 meses em coma. E os bichos do quintal? Tudo sadio. Ah, bom, tive um pesadelo.
Agora relaxe. Não lembro de nada! Vieram médicos e levaram-no pra exames: foi
revirado, esmurrado, sacudido, estapeado; no final: jogaram pra cima e
deixaram-no estatelar-se ao chão: Tá curado, pronto! Isso levou umas 8 horas de
tetei e, depois, empurraram-no de volta, na marra. Cadê minha mãe? Já vem.
Pouco tempo depois a genitora reapareceu enxugando os olhos. Que foi? Você está
de alta, vamos pra casa já. Como? Foi uma correria. Ali mesmo já tramou escabroso,
como quem pegou asa e mergulhou profundamente nas suas visagens tresloucadas. Foi
obrigado a manter-se de resguardo, por um bom tempo acamado, o que não o deteve
de suas neuroses estapafúrdias: danou-se a trocar pinto por hipopótamo, gogo
por rinoceronte, fazendo conta cantarolando: Um pra eu, um pra tu, um pra
eu!... Pagava 5, levava 10. De novo! Tais ligado, Anselmo? Nessa hora a mãe
trouxe uma bombástica nova pro seu ganhador aberto: uma polpuda herança a que
tinha direito do espólio de seu falecido genitor e do inventário da matriarca:
Tava de cu pra lua, né? Regozijou-se: Pudera, pra compensar a dispensa da
corporação militar, invalidez de biruta. A reserva chegou bem na hora: a ideia
do zoo e ampliação do jogo já transmunicipal, bufunfa da muita: comprou um
sítio, que queria como chácara, mas dizia ser parcela, na verdade, era um baita
fazendão de zis hectares: Tais enganando a quem, hem? Oxe, logo as doidices de
todo-poderoso pra risadagem de festa: Comigo ou vai, ou racha! Só faltam 3
dedinhos de nada, chego já lá! E partiu passando gato por lebre aos solavancos e,
mesmo assim, caiu nas graças do povo e já sonhou vereador desbancando êmulos na
defesa dos animais, prefeito mais votado que foi, antes de concluir o mandato, levado
pelos braços do povo para Assembleia Legislativa, combativo eleito para a
Câmara dos Deputados, pródigo Senador da República, conduzido a próspero
governador do seu estado e, quiçá, presidente do Brasil, tudo na base da
veniaga! Destá! Se achasse que estava do lado errado, saltava de banda, pinotava
pro outro: o que era quilômetro, virava palmo e meio, só! Pra isso já se
dispunha a virar a casaca, fiel ao perjúrio pra engalobar clichês, abjurar de
contratos possivelmente avençados, dando saltos soltos no ar de tão sabido,
desde que fora o Juquinha dos meninos, aprendiz de feiticeiro que foi pra cabeça
da mesa, o Camonge da peitada, o Malasartes das jogadas, criando boatos, tudo
só no pé pule, crime besta, sabe? Era só chegar com a dinheirama e tudo certo! Ô,
zerola, peraí, pronde vai tão apressado? Ôpa, quem falou? Ih! Ô mãe! Que foi?
Tô ouvindo coisas! Ligue não! O que foi mesmo que aconteceu comigo? Ora, não
sei: você entrou azogado em casa, foi pra geladeira, agarrou-se na garrafa, encheu
o copo, virou dum gole só e se envultou! Que água era aquela? Ah, meu filho,
foi uma garrafada que comprei dum moço que passou vendendo na porta, um elixir
para tomar em jejum, uma colher chá, todo santo dia. Como é o nome dela? Sei
lá, o rótulo despregou-se! Ah, preciso encontrar essa milagrosa! E saiu e zanzou
que só à procura, logo soube: era a Oráculo Teibei dum tal de Doro!
Oxe, é com essa que eu voo!... E foi, parece que deu tudo certo, parece. Até
mais ver.
E. E. Cummings: É preciso coragem para crescer e se tornar quem você realmente é... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Carla Camurati: Existe
uma sociedade que só pensa e dá valor à aparência, onde todos são considerados
lindos. Há inúmeros filtros disponíveis para alterar a própria imagem. Isso
leva a um adestramento e a um culto onde o valor reside unicamente na relação
estética... deixando o interior vazio... Pensar na finitude nos ajuda a viver
melhor!... Veja mais aqui & aqui.
Gore Vidal: Imagine
a Terra como um organismo vivo que está sendo atacado por bilhões de bactérias,
cujo número dobra a cada quarenta anos. Ou o hospedeiro morre, ou o vírus
morre, ou ambos morrem... A genialidade da nossa classe dominante reside em
impedir que a maioria das pessoas questione a injustiça de um sistema onde a
maioria trabalha arduamente, pagando impostos pesados sem receber nada em troca...
Veja mais aqui.
DESCOBERTA
Imagem: Limiar da loucura poiética,
da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.
Sempre \ como a marcha fútil de
exércitos de caranguejos \ da fortaleza do mangue até a praia. \ Sempre \ como
a franja de palmeiras esperando \ para ser rompida. \ Já sei, no momento em que
você desembarcar, me \ tornarei uma ilha. \ Nas sombras da floresta tropical, \
espero em submissão. \ Em meio ao tremor das folhas, \ pratico um discurso
hesitante. \ Sempre \ meu coração impenetrável.
Poema da premiada escritora jamaicana Olive Senior (Olive
Marjorie Senior).
COTRABANDISTA
DE LIVROS - [...] Meu xeique me advertiu contra os
livros dos filósofos, pois seus autores não eram muçulmanos e, portanto,
matá-los não seria pecado — e foi exatamente isso que me fez, ao cair da noite,
após o círculo de estudos dele, esgueirar-me até os mercados de papel ou à
biblioteca do cã em busca dos livros que meu xeique havia amaldiçoado! [...] Eu não
conseguia tirar os olhos dela, como se ela fosse uma das mulheres do Paraíso,
que não menstruam nem sofrem com secreções mucosas. [...]. Trechos
extraídos da obra The Book Smuggler: A Novel (Hoopoe, 2021), da premiada escritora saudita Omaima
Al-Khamis (Umaima Abdullah al-Khamis).
CONTRADIÇÕES
EUROCÊNTRICAS – [...] Há dois consensos
hoje entre os intelectuais europeus: a Europa só sobrevive a um conflito previsível
e de dimensões desconhecidas com direitos sociais e coesão interna; e a Europa
não sobrevive sem Europa. A Europa não é um continente. Não é uma moeda. Nem é
a União Europeia. A Europa é acima de tudo uma ideia, que dentro dela contém
dois projetos antagônicos: o Estado Social europeu e a União Europeia. Esta
contradição está, entre outras coisas, na origem da votação popular no Brexit,
mais do que os “populismos” (aliás, excessivamente levados ao colo pelos
media). Estamos num cruzamento histórico entre dois projetos, tudo indica,
irreconciliáveis. Que a rigor nunca estiveram juntos, apesar de o senso comum
insistir em associar União Europeia a Estado Social. O Estado Social nasceu na
Europa em 1945, de um pacto social inédito até então entre capital e trabalho.
Pacto que em 1947 e 1948 estava criado e consolidado, com uma vastidão de
direitos universais prestados pelos Estados nunca conhecida na história. A
União Europeia (antes CEE e CECA) nasce historicamente de um acordo entre as classes
sociais dirigentes dos países mais ricos, na Europa, sobretudo o motor
industrial, França e Alemanha. É um pacto entre capitais. O projeto europeu
começa em 1947, vai desenvolver-se muito lentamente, ter o seu primeiro ato em
1951, mas só nos anos 80, depois das crises de 1970-73 e 1981-84, é que vai
consolidar-se. [...] Da mesma forma que a crise de 1970 tinha dado um
impulso decisivo à criação da moeda única, o Tratado de Lisboa, que entrou em
vigor em 2009 e substituiu o direito ao trabalho pelo direito a procurar
emprego, pondo assim fim ao pacto social europeu, não pode ser desvinculado dos
efeitos da crise de esgotamento das “novas tecnologias” de 2001, e depois da
crise de 2008. Com a Europa a enfrentar a questão do mercado de trabalho
europeu como um dos pontos centrais do seu programa na última década
(2008-2018). A crise aprofundou-se, portanto. Menos investimento público, mais
imobilização da capacidade produtiva (desemprego), salários mais baixos,
desgaste cada vez maior da força de trabalho (em exaustão, burn out, sofrimento
generalizado), usada ao limite cada vez mais, com um aumento brutal da
intensificação dos ritmos e mesmo das horas reais trabalhadas. O que será da UE
quando chegar a crise do investimento em automação, com os esqueletos no
armário do Fundo de Estabilização de 2008? [...]. Trechos do artigo O
Estado Social e a União Europeia: “do berço à cova” - A Europa é acima de tudo
uma ideia, que dentro dela contém dois projetos antagónicos: o Estado Social
europeu e a União Europeia. (Público, 2019), da historiadora, escritora e
professora portuguesa Raquel Varela (Raquel Cardeira Varela), autora de
obras como A História do PCP na Revolução dos Cravos (2011), História
do Povo na Revolução Portuguesa (2014), Breve História da Europa
(2018), Breve História de Portugal (2023), O Canto do Melro - A Vida
do Padre José Martins Júnior (2024) e Do 25 de Novembro aos Nossos Dias
(2025).
JEFTÉ & ENTREVISTA – O professor, poeta e produtor cultural, Janilson
Sales, membro da Academia Palmarense de Letras (APLE), participou do XII
Congresso Nacional de Educação (CONEDU) com apresentação do estudo O cordel no
fazer pedagógico: estratégias lúdicas e alinhamento curricular nos anos
iniciais. Ele concedeu uma entrevista em que fala de seus
projetos Museu do Homem do Campo, Cordelteca e Cordeluna, entre outros,
comprovando seu ativismo pedagógica na área do cordel. Confira aqui.
EDUCAÇÃO, TEMAS & DEBATES – Reunião de reflexões atinentes à temática dos debates da educação contemporânea, com questões sobre aprender, autonomia, leitura, contar história, racismo & diversidade, responsabilidade, política, violência, pós-humano, criatividade, entre outros, a partir do pensamento de Paulo Freire, Antônio Cândido, Kate Manne, Rosi Braidotti, Maryanne Wolf, Ana Mae Barbosa, Rubem Alves, Mia Couto, Narges Mohammadi, Beatriz Paredes Rangel, Veronica Gorrie, Stela Maris Sanmartin, Hélder Pinheiro, Jones Manoel, Ruby Bridges. Veja aqui.
CIRCO ITINERANTE – Uma experiência de produção cultural
ocorrida em meados da década de 1980, em Palmares (PE), que durou 15 dias de
muitas atividades artísticas. Foi neste evento que ocorreram shows musicais de
Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Mazinho, Everaldo Souza & Zito Arão, entre
outros; exposições pictóricas de Ângelo Meyer, Rollandry Silvério & outros
artistas da região, recitais de poesias, afora apresentações teatrais, de
guerreiros, de caboclinhos, de dança, com lançamento inaugural da revista em
quadrinhos Aventureiros do Una. Além disso, matinês e recreações para a
criançada durante o dia, com o Palhaço Pirulito e apresentações circenses, como
a mulher-de-borracha, engolidor de fogo, acrobacias e equilibrismo. Veja mais
detalhes aqui.
JUCATI – Este é 7º episódio das Aventuras do
Nitolino no Valuna, explorando o cenário de Jucati, no Sítio Ouricuri, antes Pindorama,
tomando água de coco pra saber do pau-ferro Jucá, do povo da Vila Neves, do
riacho da Pracinha e das coisas dos rios Chata e Canhoto. Confira aqui & aqui.
SETÍGONO – Está previsto para o dia 21/10, às
20h, na Fliarp, em Palmares (PE), o lançamento da antologia Setígono – Teoria,
História e Poesia – Literatura Experimental. Para mais informações acerca
dessa nova modalidade poética confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Minha infância começou depois que virei adulta. Minha forma de brincar é fazendo meus filmes...
Depoimento da jornalista, cineasta,
fotógrafa, atriz, publicitária e professora, Sandra Ribeiro, que
realizou diversos filmes, entre eles, os documentários Teatro e a Música de
Valdemar de Oliveira (1998) e Nóis Sofre Mas Nóis Goza (1999), o ficção O
Recife que Aprendi a Amar Depois (2000), inspirado na Evocação do Recife de
Manoel Bandeira; o ficção A Partida (2003), baseado no conto homônimo do escritor
Osman Lins; o curta-metragem ARMORiALMA de Suassuna (2010), o ficção Yara (2011),
baseado no poema da escritora Cida Pedrosa, faz parte do projeto Olhares sobre
Lilith; o longa-metragem ARMORiALMA (2023), entre outros.
Veja mais aqui.



















