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sábado, outubro 10, 2026

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

 

Imagem: Contornos da ubiquidade, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

 


Ressaca aluada de panaceia insólita… - Zeca Biu chegou em casa avexado de sede e foi logo pra geladeira, pegou uma garrafa, sacudiu no copo e tomou de vez, de quase cair pra trás! Ah, bá! Não se sentiu lá assim muito bem, pois, logo a vista embaçou, uma tontura redemoinhada levou-lo aos giros do planeta, cambaleou, segurando-se como podia de tão grogue que ficou e, aos tombos desmazelados, arreou pesado no canto, arrastou-se à porta do quarto, jogando-se na primeira cama que encontrou: buft! Maior ronco. Eita! Logo deu de cara com um vetusto nigromante, no meio duma estrada perdida. Onde estou? Pronde vai? Ora, não sei! Prum menino atilado, parece ainda tão donzelão!? Oxe! Tome tento, rapaz! Quem é você? Digamos: YHWH! Hum? Deixa pra lá, alesado. SOS! Olhe: saia dessa anemoia, dessa monachopsis, torne-se você! Eu? De súbito o ensolarado nublou, raios e trovões, coisa de procela medonha logo estiada na percepção do cenário: A vida dele era um horripilante sorriso de Glasgow. Vôte! Ele enocegou apalermado e viu uma perna enganchar-se na outra, os braços esticarem-se às avessas, os dedos envergados na palma da mão desmunhecada, o braço dando volta, o muque amolecendo, as canelas entortadas, a corcunda inchar-se, os olhos destrambelharem-se, a boca entronchada nos beiços virados, a língua enrolada pra dentro da garganta, venta espragatada de tapar a respiração, os ossos crescendo, o quengo pesando, o peito abrindo-se, o bucho inchando, os pés se encolhendo, a bunda esticando, desmanchando-se numa autocalosotomia involuntária, aos peidos de cagar-se todo: Tô virando bicho, socorrrrrr...! Póim! E quase comeu-se a si mesmo, ouroboros. Tá doido? Nisso agitou-se desnorteado com seu imobilismo bizarro e só via o mundo rodando de pernas pro ar, e quanto mais corria, não saía do lugar, cansou-se e cambotou desabado: Ploft! Não se sabe quando, enfim, despertou ofegante de tão agoniado. A mãe do lado: Calma, meu filho! Onde estou? Na enfermaria do quartel! Como assim? Você pegou a folga e teve um piripaque lá em casa! Em casa? Sim. Há quanto tempo estou aqui? Mais de 6 meses em coma. E os bichos do quintal? Tudo sadio. Ah, bom, tive um pesadelo. Agora relaxe. Não lembro de nada! Vieram médicos e levaram-no pra exames: foi revirado, esmurrado, sacudido, estapeado; no final: jogaram pra cima e deixaram-no estatelar-se ao chão: Tá curado, pronto! Isso levou umas 8 horas de tetei e, depois, empurraram-no de volta, na marra. Cadê minha mãe? Já vem. Pouco tempo depois a genitora reapareceu enxugando os olhos. Que foi? Você está de alta, vamos pra casa já. Como? Foi uma correria. Ali mesmo já tramou escabroso, como quem pegou asa e mergulhou profundamente nas suas visagens tresloucadas. Foi obrigado a manter-se de resguardo, por um bom tempo acamado, o que não o deteve de suas neuroses estapafúrdias: danou-se a trocar pinto por hipopótamo, gogo por rinoceronte, fazendo conta cantarolando: Um pra eu, um pra tu, um pra eu!... Pagava 5, levava 10. De novo! Tais ligado, Anselmo? Nessa hora a mãe trouxe uma bombástica nova pro seu ganhador aberto: uma polpuda herança a que tinha direito do espólio de seu falecido genitor e do inventário da matriarca: Tava de cu pra lua, né? Regozijou-se: Pudera, pra compensar a dispensa da corporação militar, invalidez de biruta. A reserva chegou bem na hora: a ideia do zoo e ampliação do jogo já transmunicipal, bufunfa da muita: comprou um sítio, que queria como chácara, mas dizia ser parcela, na verdade, era um baita fazendão de zis hectares: Tais enganando a quem, hem? Oxe, logo as doidices de todo-poderoso pra risadagem de festa: Comigo ou vai, ou racha! Só faltam 3 dedinhos de nada, chego já lá! E partiu passando gato por lebre aos solavancos e, mesmo assim, caiu nas graças do povo e já sonhou vereador desbancando êmulos na defesa dos animais, prefeito mais votado que foi, antes de concluir o mandato, levado pelos braços do povo para Assembleia Legislativa, combativo eleito para a Câmara dos Deputados, pródigo Senador da República, conduzido a próspero governador do seu estado e, quiçá, presidente do Brasil, tudo na base da veniaga! Destá! Se achasse que estava do lado errado, saltava de banda, pinotava pro outro: o que era quilômetro, virava palmo e meio, só! Pra isso já se dispunha a virar a casaca, fiel ao perjúrio pra engalobar clichês, abjurar de contratos possivelmente avençados, dando saltos soltos no ar de tão sabido, desde que fora o Juquinha dos meninos, aprendiz de feiticeiro que foi pra cabeça da mesa, o Camonge da peitada, o Malasartes das jogadas, criando boatos, tudo só no pé pule, crime besta, sabe? Era só chegar com a dinheirama e tudo certo! Ô, zerola, peraí, pronde vai tão apressado? Ôpa, quem falou? Ih! Ô mãe! Que foi? Tô ouvindo coisas! Ligue não! O que foi mesmo que aconteceu comigo? Ora, não sei: você entrou azogado em casa, foi pra geladeira, agarrou-se na garrafa, encheu o copo, virou dum gole só e se envultou! Que água era aquela? Ah, meu filho, foi uma garrafada que comprei dum moço que passou vendendo na porta, um elixir para tomar em jejum, uma colher chá, todo santo dia. Como é o nome dela? Sei lá, o rótulo despregou-se! Ah, preciso encontrar essa milagrosa! E saiu e zanzou que só à procura, logo soube: era a Oráculo Teibei dum tal de Doro! Oxe, é com essa que eu voo!... E foi, parece que deu tudo certo, parece. Até mais ver.

 

E. E. Cummings: É preciso coragem para crescer e se tornar quem você realmente é... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Carla Camurati: Existe uma sociedade que só pensa e dá valor à aparência, onde todos são considerados lindos. Há inúmeros filtros disponíveis para alterar a própria imagem. Isso leva a um adestramento e a um culto onde o valor reside unicamente na relação estética... deixando o interior vazio... Pensar na finitude nos ajuda a viver melhor!... Veja mais aqui & aqui.

Gore Vidal: Imagine a Terra como um organismo vivo que está sendo atacado por bilhões de bactérias, cujo número dobra a cada quarenta anos. Ou o hospedeiro morre, ou o vírus morre, ou ambos morrem... A genialidade da nossa classe dominante reside em impedir que a maioria das pessoas questione a injustiça de um sistema onde a maioria trabalha arduamente, pagando impostos pesados sem receber nada em troca... Veja mais aqui.

 

DESCOBERTA

Imagem: Limiar da loucura poiética, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

Sempre \ como a marcha fútil de exércitos de caranguejos \ da fortaleza do mangue até a praia. \ Sempre \ como a franja de palmeiras esperando \ para ser rompida. \ Já sei, no momento em que você desembarcar, me \ tornarei uma ilha. \ Nas sombras da floresta tropical, \ espero em submissão. \ Em meio ao tremor das folhas, \ pratico um discurso hesitante. \ Sempre \ meu coração impenetrável.

Poema da premiada escritora jamaicana Olive Senior (Olive Marjorie Senior).

 

COTRABANDISTA DE LIVROS - [...] Meu xeique me advertiu contra os livros dos filósofos, pois seus autores não eram muçulmanos e, portanto, matá-los não seria pecado — e foi exatamente isso que me fez, ao cair da noite, após o círculo de estudos dele, esgueirar-me até os mercados de papel ou à biblioteca do cã em busca dos livros que meu xeique havia amaldiçoado! [...] Eu não conseguia tirar os olhos dela, como se ela fosse uma das mulheres do Paraíso, que não menstruam nem sofrem com secreções mucosas. [...]. Trechos extraídos da obra The Book Smuggler: A Novel (Hoopoe, 2021), da premiada escritora saudita Omaima Al-Khamis (Umaima Abdullah al-Khamis).

 

CONTRADIÇÕES EUROCÊNTRICAS – [...] Há dois consensos hoje entre os intelectuais europeus: a Europa só sobrevive a um conflito previsível e de dimensões desconhecidas com direitos sociais e coesão interna; e a Europa não sobrevive sem Europa. A Europa não é um continente. Não é uma moeda. Nem é a União Europeia. A Europa é acima de tudo uma ideia, que dentro dela contém dois projetos antagônicos: o Estado Social europeu e a União Europeia. Esta contradição está, entre outras coisas, na origem da votação popular no Brexit, mais do que os “populismos” (aliás, excessivamente levados ao colo pelos media). Estamos num cruzamento histórico entre dois projetos, tudo indica, irreconciliáveis. Que a rigor nunca estiveram juntos, apesar de o senso comum insistir em associar União Europeia a Estado Social. O Estado Social nasceu na Europa em 1945, de um pacto social inédito até então entre capital e trabalho. Pacto que em 1947 e 1948 estava criado e consolidado, com uma vastidão de direitos universais prestados pelos Estados nunca conhecida na história. A União Europeia (antes CEE e CECA) nasce historicamente de um acordo entre as classes sociais dirigentes dos países mais ricos, na Europa, sobretudo o motor industrial, França e Alemanha. É um pacto entre capitais. O projeto europeu começa em 1947, vai desenvolver-se muito lentamente, ter o seu primeiro ato em 1951, mas só nos anos 80, depois das crises de 1970-73 e 1981-84, é que vai consolidar-se. [...] Da mesma forma que a crise de 1970 tinha dado um impulso decisivo à criação da moeda única, o Tratado de Lisboa, que entrou em vigor em 2009 e substituiu o direito ao trabalho pelo direito a procurar emprego, pondo assim fim ao pacto social europeu, não pode ser desvinculado dos efeitos da crise de esgotamento das “novas tecnologias” de 2001, e depois da crise de 2008. Com a Europa a enfrentar a questão do mercado de trabalho europeu como um dos pontos centrais do seu programa na última década (2008-2018). A crise aprofundou-se, portanto. Menos investimento público, mais imobilização da capacidade produtiva (desemprego), salários mais baixos, desgaste cada vez maior da força de trabalho (em exaustão, burn out, sofrimento generalizado), usada ao limite cada vez mais, com um aumento brutal da intensificação dos ritmos e mesmo das horas reais trabalhadas. O que será da UE quando chegar a crise do investimento em automação, com os esqueletos no armário do Fundo de Estabilização de 2008? [...]. Trechos do artigo O Estado Social e a União Europeia: “do berço à cova” - A Europa é acima de tudo uma ideia, que dentro dela contém dois projetos antagónicos: o Estado Social europeu e a União Europeia. (Público, 2019), da historiadora, escritora e professora portuguesa Raquel Varela (Raquel Cardeira Varela), autora de obras como A História do PCP na Revolução dos Cravos (2011), História do Povo na Revolução Portuguesa (2014), Breve História da Europa (2018), Breve História de Portugal (2023), O Canto do Melro - A Vida do Padre José Martins Júnior (2024) e Do 25 de Novembro aos Nossos Dias (2025).

 


JEFTÉ & ENTREVISTA – O professor, poeta e produtor cultural, Janilson Sales, membro da Academia Palmarense de Letras (APLE), participou do XII Congresso Nacional de Educação (CONEDU) com apresentação do estudo O cordel no fazer pedagógico: estratégias lúdicas e alinhamento curricular nos anos iniciais. Ele concedeu uma entrevista em que fala de seus projetos Museu do Homem do Campo, Cordelteca e Cordeluna, entre outros, comprovando seu ativismo pedagógica na área do cordel. Confira aqui.

 


EDUCAÇÃO, TEMAS & DEBATES – Reunião de reflexões atinentes à temática dos debates da educação contemporânea, com questões sobre aprender, autonomia, leitura, contar história, racismo & diversidade, responsabilidade, política, violência, pós-humano, criatividade, entre outros, a partir do pensamento de Paulo Freire, Antônio Cândido, Kate Manne, Rosi Braidotti, Maryanne Wolf, Ana Mae Barbosa, Rubem Alves, Mia Couto, Narges Mohammadi, Beatriz Paredes Rangel, Veronica Gorrie, Stela Maris Sanmartin, Hélder Pinheiro, Jones Manoel, Ruby Bridges. Veja aqui.

 


CIRCO ITINERANTE – Uma experiência de produção cultural ocorrida em meados da década de 1980, em Palmares (PE), que durou 15 dias de muitas atividades artísticas. Foi neste evento que ocorreram shows musicais de Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Mazinho, Everaldo Souza & Zito Arão, entre outros; exposições pictóricas de Ângelo Meyer, Rollandry Silvério & outros artistas da região, recitais de poesias, afora apresentações teatrais, de guerreiros, de caboclinhos, de dança, com lançamento inaugural da revista em quadrinhos Aventureiros do Una. Além disso, matinês e recreações para a criançada durante o dia, com o Palhaço Pirulito e apresentações circenses, como a mulher-de-borracha, engolidor de fogo, acrobacias e equilibrismo. Veja mais detalhes aqui.


 

JUCATI – Este é 7º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, explorando o cenário de Jucati, no Sítio Ouricuri, antes Pindorama, tomando água de coco pra saber do pau-ferro Jucá, do povo da Vila Neves, do riacho da Pracinha e das coisas dos rios Chata e Canhoto. Confira aqui & aqui.

 


SETÍGONO – Está previsto para o dia 21/10, às 20h, na Fliarp, em Palmares (PE), o lançamento da antologia Setígono – Teoria, História e Poesia – Literatura Experimental. Para mais informações acerca dessa nova modalidade poética confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


Minha infância começou depois que virei adulta. Minha forma de brincar é fazendo meus filmes...

Depoimento da jornalista, cineasta, fotógrafa, atriz, publicitária e professora, Sandra Ribeiro, que realizou diversos filmes, entre eles, os documentários Teatro e a Música de Valdemar de Oliveira (1998) e Nóis Sofre Mas Nóis Goza (1999), o ficção O Recife que Aprendi a Amar Depois (2000), inspirado na Evocação do Recife de Manoel Bandeira; o ficção A Partida (2003), baseado no conto homônimo do escritor Osman Lins; o curta-metragem ARMORiALMA de Suassuna (2010), o ficção Yara (2011), baseado no poema da escritora Cida Pedrosa, faz parte do projeto Olhares sobre Lilith; o longa-metragem ARMORiALMA (2023), entre outros.

Veja mais aqui.


 

 


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...