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quinta-feira, julho 02, 2020

ERIKA MANN, NATALIA TASCHNER, GRACIELA ITURBIDE & GEISIARA LIMA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: AUTORRETRATO, ALTER MUITOS EGOS DEMAIS – In actu, entre simulacros e o que se passa por imperativo categórico, voo poema versos escapando pra lá e pra cá, até que um dia acerte a veia e eureka! Quem sabe, nem só de quedas e lapadas se vive. Zélia Gattai que o diga: Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores. Um sorriso engana até a morte.

DUAS: ENTRE INCÊNDIOS DOS ESCOMBROS E ESPALHAFATOS! – Quando o circo pega fogo, lá vou eu bombeiro para ver se dou um jeito. É certo que há coisas que já estão nas emergências hospitalares, quando não dando baixa de quase não ter mais jeito. Quem diria, levo comigo sempre o afeto de Wislawa Szymborska: A vida é tão rica e cheia de variedade que você tem que lembrar o tempo todo que há um lado divertido nisso tudo. Nem me rendo, nem me dou por vencido. Sigo adiante, peito aberto, vida afora.

TRÊS: PELEJANDO MESMO QUE CHOVA CANIVETES! – Faz tempo que as coisas não andam lá muito boas. Duns cinco anos para cá, só revestrés no toitiço. O que fazer, dou meu jeito. Hermann Hesse deixou riscado: Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido. Para que resulte o possível deve ser tentado o impossível. Se passei por muitas e boas, durmo sobre os escombros, acordo outro dia, pontapé no zero! E vambora! Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Diante de tantos movimentos anti-ciência, nos deparamos ainda com o criacionismo e as aulas de religião em nossas escolas. E eis que de repente, debaixo dos nossos narizes, o Brasil já não é laico, e as aulas de ciência tornam-se tão facultativas e desvalorizadas como nosso trabalho, e o ensino de evolução nas nossas escolas está ameaçado. Calados e desvalorizados por um governo que não entende a importância da ciência e da tecnologia para a sociedade, nos deparamos também com pesados cortes em nossas verbas. Milhões foram alocados para os testes com a fosfoetanolamina. Milhões foram cortados de nossas bolsas e de nossos projetos de pesquisa. Em meio à calamidade, a comunidade científica tentou falar. Percebemos enfim que a situação tinha ido longe demais. Protestamos. Organizamos marchas. Fomos ao Congresso, mandamos carta para o presidente da República. Mas era tarde. Já fomos todos acometidos pela síndrome de Cassandra. Não temos credibilidade. Ninguém acredita no que temos a dizer. Assim como Cassandra, nós enxergamos o futuro. Sabemos o que vai acontecer com a ciência brasileira se tudo permanecer como está. Mas assim como Cassandra, ninguém acredita em nós. Logo vários de nós estaremos desempregados ou fora do Brasil. Nossos pesquisadores irão embora, assim como nossos alunos. E desenvolverão tecnologias no exterior que o Brasil terá que importar, pois não teremos pessoal qualificado para desenvolvê-las no país, nem para ensinar a nova geração. Demoramos demais para falar com a sociedade. Falhamos quando deixamos de esclarecer o cidadão sobre as propagandas enganosas, as pseudociências e os movimentos anti-ciência, que colocavam em risco sua integridade, seu bolso e sua saúde. Nós não falamos quando foi preciso. E agora não sobrou ninguém para falar por nós. [...]. Trecho do artigo O cientista e a síndrome de Cassandra (Ciência e Cultura ,2018), da bióloga e professora Natalia Pasternak Taschner, fundadora do blog Café na Bancada e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), voltado para o usode evidência científica nas políticas públicas.

O TEATRO DE ERIKA MANN
[...] Sem dúvida que foi esta atração mórbida e satânica pela morte de que ele fala, uma das forças que atraíram os alemães para o Nazismo. Não é por acaso que o símbolo das tropas de elite de Hitler é um crânio (Totenkopf). E por muito dinâmico e vivo que o movimento nazi se tenha vendido na propaganda, a divindade a que eles se rendiam com êxtase era a morte. O romantismo Nazi não tinha qualquer lugar para a "luz" ou o "luminoso". Os seus espíritos eram sombrios. E no entanto o desastre alemão não foi uma capitulação consciente ou intencional perante a catástrofe, apesar de ter havido uma saudade inconsciente para com ela. Foi antes a pelo senhor Clemenceau desaprovada falta fundamental de cultura moral que arruinou a nação. [...]
ERIKA MANN - Pensamento da dramaturga, jornalista e atriz alemã Erika Mann (1905-1969), conhecida por seu cabaré humorístico antifacista na sua companhia de teatro die Pfeffermühle, que atuava regularmente em Munique, ridicularizando os nazistas. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Descobri o mundo das mulheres. Morei na casa delas. E me adotaram. Deram-me acesso a sua vida cotidiana e a suas tradições. Contavam histórias eróticas, faziam troça o tempo todo Não apenas permitiram que eu as fotografasse como tomaram a iniciativa de me mostrar coisas. Passei a descrever Juchitán através dos olhos delas e ao mesmo tempo dos meus.
GRACIELA ITURBIDE - A arte da premiada fotógrafa mexicana Graciela Iturbide. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Em agendas-de-presente-de-natal / Deus escreve seus poemas / Ela tenta costurar os versos-holofotes com os versos-nuvens-formadora-de-chuva / Tenta costurar os versos-carros-nos-cruzamentos com os-versos-dia-especial / O problema é que tudo que Deus escreve dá música / E a humanidade plagia e acrescenta seus versos-toscos, faz coreografias-do-bumbum. / Quando Deus descobre, ela fica puta / E solta seus raios-de-TPM em cima das casas / Deus fica muito sentimental nesses dias. / Deus não quer salvar o mundo com seus poemas, / Deus quer cuidar da própria vida / Deus quer suas calcinhas secas para sair à noite / Deus quer a casa sem pó / Deus quer um dia de emprego tranquilo sem assedio / Deus quer curtir uns dias sem ler cartas de pedidos-de-socorro, juramentos-quebrados / De promessa-para-emagrecer, sacrifícios-com-bodes-vivos e virgens- Árabes-mortas, pecados-já-cometidos , deixa para lá, / Deus está cansada de ter que se virar em mil para dar conta de tudo / É muita pressão, até para Deus que é mulher!
Poema da poeta, ilustradora e desenhista Geisiara Lima, que é graduada em Filosofia pela UFPB, autora do livro Corpo em chamas.
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Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido, do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997) aqui.
A guerrilheira perfumada: crônicas do amor diário, do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009) aqui.
A música do violonista e compositor Nando Lauria aqui.
Só às paredes confesso, de Vital Corrêa de Araújo aqui.
Neuroeducação & Práticas Pedagógicas no Ensino-Aprendizagem aqui .
Cordel na escola aqui.
&
Cortês aqui & aqui.
 

quarta-feira, julho 04, 2018

BORGES, HESSE, KHLÉBNIKOV, RICOEUR, NAGEL, PIAZZOLLA & NÉSTOR SARMIENTO


OS LABIRINTOS DE BORGES - Imagem: La biblioteca Borges en París (1995), do pintor argentino Néstor Sarmiento - Foi pelas mãos de HermilAfonso que soube quase menino homem feito da velha dama e outros duelos do encontro do indigno e da intrusa do Informe de Brodie, para me dar conta dos anacronismos deliberados e suas atribuições errôneas nos alicerces da inexistente História Geral dos Labirintos do igualmente irreal Herbert Quain. Marinheiro de primeira viagem, fui obrigado a refazer as rotas até chegar lá longe onde o heresiarca de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius abominava a cópula e os espelhos, para poder entrar no sonho do homem que sonhava e o sonhado despertou caminhando contra as línguas de fogo das Ficções mais ambíguas, disseram seus detratores, quando a ambiguidade era uma riqueza com o desvario laborioso e empobrecedor de compor vastos livros, menos tautológicos que outros não menos imaginários que o livro cíclico que é Deus. Não foi à toa que encontrei o premiado poeta maluco Carlos Argentino no Aleph a me apresentar das astúcias do descortês mestre-de-cerimônias Kotsukê No Suké a me contar do homem da esquina rosada e etcétera da História Universal da Infâmia com todo virtuosismo literário de coisas sérias e jocosas pela imaginação desenfreada, em que heréticos foram queimados e entraram no céu, e quem perdeu foi condenado à multa penosa na Loteria, só porque quem ganha pode presidir a vida e os tecidos do acaso povoado pelo monstro Aqueronte que é o inferno, o pássaro que traz a chuva, o galo celestial, o mirmecoleão, a serpente óctupla, as nagas, lêmures, fadas, sereias e valquírias e tantos seres do satírico e mistificador no infindável e impalpável Livro de Areia e o dos Sonhos manipulando as diversas línguas e épocas de coisas que nunca existiram nem foram escritas, coisas inventadas do gênio pelo universo indefinido e infinito da Biblioteca de Babilônia, com suas escadas e galerias hexagonais repletas de livros e livrinhos e livrões mortos para ninguém encontrar o que procura no meio do incompreensível das ruínas circulares com o pesadelo matemático de um sonho fantástico em que as paralelas se encontram no infinito coerentemente absurdo e poético. E ter-se com o imortal rejeitado entre a fama e a cegueira que vinham graduais, porque o mundo de Russel nasceu há poucos instantes e o tempo inteiro já passou e somos recordações do passado, e só brincou com um menino como quem brinca com algo próximo e misterioso de João, I, 14 no que É, Foi e Será do Elogio da Sombra: o dia regido pela divindade que nas selvas os corpos amantes entretece. Porque não há mandamento que não possa ser infringido e também os que digo e os que os profetas disseram, não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes nos Fragmentos de um evangelho apócrifo. Por fim, pôs a palavra em liberdade com o seu Ultraísmo celebrando Buenos Aires como se fosse as paisagens da europeias sonhadas e autobiografou seus perfis olvidando da fama e do fracasso na demasiada ambição de amar e ser amado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e bandoneonista argentino Ástor Piazzolla (1921-1992): Libertando, Mas cuatro estaciones porteñas, Live at the Montreal Jazz Festival & Concierto para Bandoneon & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Onde houve situação, haverá horizonte suscetível de se estreitar ou se ampliar. [...] significa que não vivemos nem em horizontes fechados, nem num horizonte único [...] O que pretendemos compreender não é o evento, na medida que é fugidio, mas sua significação que permanece [...] É na linguística do discurso que evento e sentido se articulam um sobre o outro. [...]. Trechos extraídos da obra Interpretação e ideologias (Francisco Alves, 1990), do filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005). Veja mais aqui.

ÚLTIMA PALAVRA - [...] As reduções comportamentais e as suas descendentes não são operativas na filosofia da mente porque as características fenomenológicas e intencionais que são evidentes a partir do interior da mente não são adequadamente explicadas da perspectiva puramente externa a que as teorias redutoras se limitam, devido à impressão errada de que só uma perspectiva externa é compatível com uma mundividência científica. [...] Para usar alguns exemplos grosseiros mas conhecidos, a única resposta possível à acusação de que uma moralidade dos direitos individuais não é senão uma carga de ideologia burguesa, ou um instrumento de dominação masculina, ou que a exigência de amar o próximo é afinal uma expressão de medo do próximo, ódio e ressentimento, é considerar de novo, à luz destas sugestões, se as razões para respeitar os direitos individuais ou para cuidar dos outros podem ser sustentadas, ou se disfarçam algo que não é de modo algum uma razão. E esta é outra questão moral. Não se pode pura e simplesmente sair do domínio da reflexão moral: está simplesmente aí. Tudo o que podemos fazer é levá-la por diante à luz de sejam quais forem as novas provas históricas ou psicológicas disponíveis. É o mesmo em todo o lado. Os desafios à objetividade da ciência só podem ser enfrentados usando mais raciocínio científico, os desafios à objetividade da história só pela história, e assim por diante [...]. Trechos extraídos da obra A última palavra (Gradiva, 1999), do filósofo estadunidense Thomas Nagel. Veja mais aqui.

O PRINCÍPIO DO FIM - [...] Só nos últimos dias de outono é que fui enviado á frente de combate. A princípio, e apesar das sensações do combate, senti-me defraudado. Antes me havia perguntado muitas vezes por que eram tão poucos os homens que conseguiam viver por um ideal. Agora percebia que todos os homens eram capazes de morrer por um ideal. Mas não por um ideal seu, livremente escolhido, mas por um ideal comum e transmitido. Contudo, ao fim de algum tempo, tive de confessar-me que havia julgado os homens abaixo do que realmente valiam. Apesar da uniformidade que lhes impunha o serviço militar e o perigo comum, vi muitos se aproximarem arrogantemente à vontade do destino, em plena vida ou a ponto de morrer. Muitos mostravam a todo momento, e não só no ataque, aquele olhar firme, distante e alheado que não sabe de fim nenhum e implica uma completa entrega ao monstruoso. Fossem quais fossem suas opiniões ou idéias, aqueles homens estavam prontos, eram aproveitáveis e podiam servir para dar conformação ao futuro. Não importava que o mundo parecesse continuar obstinadamente fixo em seus antigos ideais, em seu conceito tradicional da guerra, do heroísmo e da honra, e que toda voz de verdadeira humanidade soasse mais longínqua e irreal do que nunca. Tudo isso era apenas superfície, igual aos fins exteriores e políticos da guerra. Sob ela, no fundo, formava-se algo novo. Algo como uma nova humanidade. Pois havia muitos homens, e alguns deles morreram a meu lado, para os quais era evidente que o ódio e a fúria, a matança e a destruição não se achavam ligados aos objetos. Não; os objetos, bem como os fins, eram puramente casuais. Os sentimentos primordiais, inclusive os mais violentos, não iam contra o inimigo; sua obra sangrenta era apenas uma irradiação do interior, da alma dissociada e dividida, que queria enfurecer-se e matar, aniquilar e morrer, para nascer de novo. Uma ave gigantesca rompia a casca. A casca era o mundo, e o mundo havia de cair feito em pedaços. Numa noite de primavera eu estava de sentinela diante de uma granja que havíamos ocupado naquele dia. Um vento sutil soprava em ondas caprichosas, e sob o alto céu de flandres cavalgavam exércitos de nuvens, atrás dos quais resplandecia indefinido um prenuncio de lua. Durante todo o dia me sentira já inquieto; uma preocupação indeterminada me agitava. Agora, em meu sombrio posto, pensava com fervor nas imagens de minha vida passada, em Eva e em Demian. Apoiado no tronco de um álamo, contemplava fixamente o céu inquieto, cujos resplendores, secretamente palpitantes, se converteram de súbito numa ampla série fluente de imagens. Na debilidade singular de minhas pulsações, na insensibilidade de minha pele para o vento e a chuva, e na vibrante vigília interior, senti que em torno de mim havia um guia. Via-se nas nuvens uma grande cidade, da qual fluíam milhares de homens que se espalhavam como enxames pelas amplas paisagens. Em meio a eles caminhava uma poderosa divindade, o cabelo semeado de estrelas reluzentes, alta como uma montanha. O rosto era o de Eva. Em seu interior entraramos homens em grupos como numa caverna gigantesca e lá desapareceram. A deusa sentou-se no chão. Em sua fronte o sinal resplandecia. Parecia sofrer o domínio de um sonho; fechou os olhos e o amplo rosto contraiu-se num gesto de dor. De repente, lançou um grito agudo e de sua fronte saltaram estrelas, muitos milhares de estrelas resplandecentes, que voaram para o negro céu em curvas magníficas. Uma das estrelas vinha, com vibrante cântico, em minha direção. Parecia procurar-me... De repente, explodiu com estrondo em milhares de estilhaços, elevou-me nos ares e arrojou-me novamente ao solo, enquanto o mundo caía fragorosamente sobre mim. Encontraram-me perto do álamo, coberto de terra e com muitas feridas. Estava estendido numa cova. [...]. Trecho extraído da obra Demian (Civilização Brasileira, 1972), do escritor alemão Hermann Hesse (1877 – 1962). Veja mais aqui.

POEMA - Herdades noturnas, gengiscantem! / Crepitai, bétulas azuis! / Albas da noite, zaraturvem / Ao céu cerúleo mozarteante! / Goyam trevas como nuvens! / Roops é um cirro soturno! / Voa uma tromba de risos, / Enfrento firme o verdugo, / Gargalham garras de gritos, / E em torno o silêncio escuro. / A mim convoco os valentes, / Saem dos rios os afogados, / O miosótis, estridente, / Declama a velames pardos, / Gira o eixo cotidiano, / Move-se a massa vespertina, / Nas águas da noite vogando / (Sonho) uma carpa-menina. / Mamáj – pinhos ao vento! / Nuvens nômades de Báti! / Como cains do silêncio / Palavras santas se abatem. / Passo tardo, cercado de tropas, / Asdrúbal azul vai ao baile das rochas. Poema do poeta da vanguarda russa Vielimir Khlébnikov (1885-1922). Veja mais aqui.

OS LABIRINTOS DE BORGES

Simpósio Nacional de Educação (X SINCOL) & muito mais na Agenda aqui.
&
Recuerdos de un arlequín do pintor argentino Néstor Sarmiento
&
A paz que ninguém vê, Certo & errado de Thomas Nagel, o teatro de Nelson Baskerville, a música de Flora Purim, a escultura de Pietro Baratta & a arte de Tchello d'Barros aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

terça-feira, março 20, 2018

HESSE, CECÍLIA MEIRELES, PÓLYA, MEAD, XANGAI & JOANNA MACGREGOR & MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA

E CAETANA ALÇOU VOO – Imagem: El passeante invisible, da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). - Dia e noite, noitedia, a vida passa, a cidade dilacerada como os corações carentes almejando o abraço para ser feliz, súplicas e angustias que faziam Caetana levantar voo e os cães em roldão atrapalhassem o salto inicial e caísse do palco pela primeira vez, sem humilhação, às risadagens, zombando da derrocada. Não havia de ser nada. Era a lição de novo aprendizado e a esperança se desdobrava no gesto, ela alçava novo voo e, novamente, os cães que ansiavam voar com ela, atrapalharam mais uma vez e Caetana caiu pela segunda vez do palco, como se fosse o inevitável e o irreversível, o encontro avassalador entre o corpo e a alma. Mais uma vez sorriu para se defender das ameaças escondidas na escuridão, enfrentando-as, ignorando-as, até insuportáveis para a fuga na imigração da noite, como não se quisesse a presença da morte e da solidão, não era a hora delas, mesmo entre tremores de terra, relâmpagos, trovões, terremotos. Era um rebuliço sem precedentes, do qual se falava de sonhos, viagens, confissões e tudo era nada vezes tudo, noves fora nada e isso pouco importava nas estrelas do céu da boca, o hálito da interação – as bocas se confundiam na distância, tanto fosse meia noite ou meio dia, porque tudo rodopiava noitedia até o mundo esquecer que existiam em algum lugar perdido do mundo tão próximo do paraíso que fosse instaurado. Caetana sorria e era tão bela quanto nunca fora. E a noite fosse a festa de um carnaval exclusivo, fantasia foliã pra quem perdera todos os limites por transgressões explosivas de frevos inauditos, de maracatus em polvorosa, e não soubesse a lua entregando o amanhecer ao Sol e a manhã preparasse a tarde do sono evadido para passar a noite em claro e perder a completa noção do tempo. Caetana reticenciava, ouvia desatenta, falava pelos cotovelos até perder a voz porque quase havia dito da perda da identidade que dançava embrigada vulcões explosivos e, apesar dos passos capengas, as dores dos ossos, a carne destroçada, como se gêmeos fundidos em um, Caetana alçou seu voo para ser cada vez mais linda do que sempre fora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o cantor, compositor e violeiro Xangai: Estampas de eucalol, Qué que tu tem canário & ABC do preguiçoso; a pianista, maestro e compositora britânica Joanna MacGregor: Antiphonies for piano & orchestra, Messian Turanganlila Sumphony & Bacchanale de John Cage; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A investigação científica não termina com seus dados; ela se inicia com eles. O produto final da ciência é uma teoria ou hipótese de trabalho e não os chamados fatos. [...] Pensamento extraído de The Philosophy of the act (Charles Morris, 1938), do filósofo estadunidense George Herbert Mead (1863-1931), integrante da corrente do pragmatismo e do interacionismo simbólico, e militante da Escola de Chicago e que desenvolveu estudos para a sociologia e psicologia cosial.

A CIÊNCIA & A VIDA - [...] É tolo tentar responder uma questão que você não entende. É triste ter de trabalhar para um fim que você não deseja. Coisas tristes e tolas como estas frequentemente acontecem, dentro e fora da escola, mas o professor deve evitar que ocorram em classe. O estudante deve entender o problema. Mas não basta que ele o entenda. É necessário que ele deseje sua solução. [...] O professor, para ajudar o estudante de forma efetriva e sem atrapalhar sua iniciativa individual, deve levantar as mesmas perguntas e indicar os mesmos passos, uma vez atrás da outra. Assim, em problemas inumeráveis temos de levantar a questão: o que é o desconhecido? Podemos varias as palavras e perguntar a mesma coisa de formar diferentes: o que é necessário e exigido? O que é que você quer encontrar? O que é que você deve procurar? O objetivo dessas perguntas é fazer com que o estudante focalize sua atenção no desconhecido. [...]. Trecho extraído da obra How to solve it: a new aspect of mathematical method (Doubleday, 1957), do professor e matemático húngaro George Pólya (1887-1985). Veja mais aqui.

O CERCO À CIDADE DE CREMMA - [...] De uma pequena casa, em cujo térreo um entalhador tinha sua oficina, saiu, quando o bando acabara de desfilar, uma jovem alta e bela que levava uma ânfora ao ombro. Hefaisto que cavalgava por último, botou o olhar surpreendido da formosa donzela, que logo lhe agradou e muito, e dirigiu-lhe uma vênia cortês, acompanhada de um sorriso tranquilizador, a que juntou os versos finais de um antigo madrigal jônico. [...] Hefaisto, porém, alojara-se em casa daquele entalhador, logrando a simpatia dessa humilde família com algumas moedas de prata. Fechado o trato, dirigiu-se animadamente e sem pressas ao encontro de seu chefe, tendo ambos passado a tarde sozinhos a discutir planos e estudar deliberações. À noite, oferecia vinho aos anfitriões, tocava lira e lhe entoava canções alegres, falava de outros países por onde andara e tinha sentada a seus pés a moça esbelta de olhos castanhos, cuja cabeça repousava no colo do astuto grego, enquanto ele corria os dedos pela sua longe e sedosa cabeleira. Seu nome era Febe. Tarde da noite, Febe recusou-se a acompanha-lo à alcova mas prometeu que o faria no dia seguinte, com o que Hefaisto se conformou. [...]. Trechos extraídos da obra O livro das fábulas (Civilização Brasileira, 1975), do escritor alemão Hermann Hesse (1877 – 1962). Veja mais aqui.

DUAS ELEGIAS1 - Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos./ Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. / No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva, / modelada pela noite, pelas estrelas, pelas, minhas mãos. / Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma / claridade da lua. / Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas / pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr / -sem que a recolhessem teus ouvidos inertes./ Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis? / no teto? / Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho, / E tristemente te procurava. / Mas também isso foi inútil, como tudo mais.- 2 - Neste mês, as cigarras cantam / e os trovões caminham por cima da terra, / agarrados ao sol. / Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas, / e depois a noite é mais clara, / e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão. / Mas tudo é inútil, / porque os teus ouvidos estão como conchas vazias, / e a tua narina imóvel / não recebe mais notícia / do mundo que circula no vento. / Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero / das vespas… / -e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra, / como água que borbulha. / Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro; / a areia queima, branca e seca. / junto ao mar lampejante; / de cada fronte desce uma lágrima de calor. / Mas tudo é inútil, / porque estás encostada à terra fresca, / e os teus olhos não buscam mais lugares / nesta paisagem luminosa, / e as tuas mãos não se arredondam já / para a colheita nem para a carícia. / Neste mês, começa o ano, de novo, / e eu queria abraçar-te. / Mas tudo é inútil: / eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece. Poemas da obra Mar absoluto (Globo, 1942), da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais aqui.

A ARTE DE MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA
A arte da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992).


Mapa Cultural de Pernambuco & muito mais na Agenda aqui.
&
Solilóquio na viagem noturna do sol, Educação no Brasil, o pensamento de Sêneca, a música de Maria Esther Pallares, a arte de Paula Águas, a pintura de Terry Miura & Amenaide Lima aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

sábado, dezembro 23, 2017

HESSE, EDUARDO GALEANO, KOESTLER, SAGRAMA, MAUDE DAVEY, MYRIAM FRAGA, MARINA DE LA RIVA, LIZ HILL & LAPINHA.


TODOS EM REVERÊNCIA, LAPINHA - Salve, salve, paratodos! Vamos todos então saudar! Da véspera para o dia, qualquer dia é Natal! Felicidade paratodos, meu senhor, minha senhora, vamos todos seguir em frete, que o coisa ruim não entra em casa que tem Lapinha! Ali tem Árvore de Natal, respeito é bom e eu gosto! Vambora pras Folias de Reis! Depois do Pastoril, lá vem o Reisado! Ô de casa, ô de fora! Maria vai ver quem é! São os cantadores de Reis, quem mandou foi São José! U-hu, entremeio do Bumba, os enfeites nos trajes, chapéu enfeitado de fitas, as gafurinhas e os espelhinhos por amuletos e capas de cetim, as peças dançadas, cantadas e contadas de amor e guerra, a vibração das espadas aos toques do maracás: todo o mal que vem e volta, e o mau, chô pra lá! Eita, lá vem Guerreiros multicoloridos, segura sanfoneiro e tocadores de tambor e ganzá, os chapéus e diademas, os à paisana e o que é que há? Miçangas e lantejoulas, o bailado da ressurreição com pedidos de abrição de porta, entrada de sala e louvação, o doido ou mata-mosquito: Abre a porta, pastorinha, que eu venho é com alegria! Te ajoelha, guerreiro, vai cumprir a tua sina! Seu papa-mosquito, donde vem? Tô matando mosquito pro seu bem! Viva a Lira, viva a Estrela de Ouro, viva a nossa Barbuleta e a Rainha Imperiá! Olê, olá viva nosso Índio Perí que é o dono deste arraiá! Ih, lá vem a Chegança: E assustado / Dei um pulo da rede / Pressenti a fome, a sede / Eu pensei: "vão me acabar" / Me levantei de borduna já na mão / Ai, senti no coração / O Brasil vai começar! Agora é Fandango com a Nau Catarineta que tem muito pra contar! Avistas terras de Espanha ou areias de Portugal? Sai-te pra lá, gageiro dos infernos, e não me faça mal! Olha os Caboclinhos, pinoteiam às gesticulações no bailado do pífano, ganzá e reco-reco, seguindo o rezador Caboco-velho, rezador de sentinelas pra enfrentar a morte! O cabaçal dos pifeiros fazem a festa, ambos biritados, encheram a cara de cachaça, dando dor de cabeça, vão terminar sendo expulsos e acabar a brincadeira. Olha o Maracatu! Tum dum dum, Tum dum dum, Tum dum dum! Agora é Bumba-meu-boi! De Mateus & Bastião, o morto-carrega-o-vivo, a burrinha e o Capitão, Caipora e Chorão! O Cabeceira puxa a rima do mote, pronto pra logo glosar! Eita que o boi morreu e já está vivo de novo! Eita, esse legado das usanças aprendidas! É Caretada na Bahia, o roubo do boi no Maranhão, o Reisado nas Alagoas, o Boi Calemba de Natal, o Lambe-sujo de Sergipe, o Boi-de-Reis do Ceará e Piauí, todo meu Pernambuco, viva o folclore do Nordeste! Isso é de dia vinte e quatro de dezembro até a Festa de Reis, em janeiro! Por enquanto, é hora da confraternização: quem levou o pé na goela de ficar com a língua de fora, as pisadas no calo, comeu carne de pescoço ou deixou as tripas fora, também os que se engalfinharam o ano inteiro, é chegada a hora, cada qual seu salseiro, as manguinhas de fora pra pedir perdão! Menino, isso é uma falsidade dos diabos! Diga isso não, rapaz! É hora de comemorar o nascimento de Jesus! Vixe, que é mesmo! Então vamos lá! Anunciação: Meu senhor, minha senhora, dê-me cá sua atenção, que eu venho trazer-lhe novas, não é não tapiação: hoje nasceu Jesus, Jesuisinho, o menino da nossa salvação! Lá está no firmamento, a estrela-guia por sinal, esse é o grande momento, pra gente fazer o Natal! Vamos todos pro Presépio, quem não tem vai de Lapinha, cada qual faz do seu jeito, que eu aqui faço a minha! Faço aqui meu ofertório, dou minha alma e meu quinhão, agradeço aos senhores e senhoras, pela sua atenção! Já vou embora, mas sei que vou voltar. Amor não chora, se eu volto é pra ficar! É Paz sobre a Terra e a todos a Felicidade, cantam todos tão felizes, pois é noite de Natal! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o grupo de música instrumental SaGrama, formado por professores do Conservatório Pernambucano de Música e integrado Sérgio Campelo (flauta e piccolo), Frederica Bourgeois (flauta), Jônatas Zacarias (clarinete), Claudio Moura (viola nordestina e violão), Fábio Delicato (violão), Thiago Fournier (contrabaixo), Antonio Barreto (marimba, vibrafone e percussão), Gilberto Campelo (percussão) e Neide Alves (percussão): Engenho & Auto da Compadecida; e a cantora Marina De La Riva: Central Constância. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - De um mesmo tronco criou Deus todas as famílias, tribos e idiomas. Seus são todos os templos e altares, embora, imenso seja o império do homem. E ainda que alguns desprezem outros, em essência são irmãos pelo sangue, e aprenderão em algum dia crucial como trilhar uma senda comum. Pensamento do escritor estadunidense Henry Burke Robins (1874-1942).

A CIÊNCIA E A ORTODOXIA - [...] A matriz coletiva da ciência, em certo momento, é determinada por um conjunto de instituições que incluem universidades, sociedades de cientistas e, mais recentemente, os corpos editoriais de jornais técnicos. Como outras instituições, elas se inclinam consciente ou inconscientemente pela preservação do status quo – em parte porque as inovações não-ortodoxas se constituem numa ameaça para sua autoridade, mas também pelo medo mais profundo de que o edifício intelectual, tão laboriosamente erigido, possa cair sob seu impacto. A ortodoxia corporativa tem sido a maldição dos gênios, de Aristarcos a Galileu, Harvey, Darwin e Freud. Ao longo dos séculos, suas falanges têm defendido tenazmente o hábito, em oposição à originalidade. [...]. Trecho extraído da obra The Act of Creation (Dell, 1967), do jornalista, escritor e ativista político judeu húngaro, Arthur Koestler (1905-1983). Veja mais aqui.

JANELA SOBRE A PALAVRA – [...] Os contadores de histórias, os cantadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seus filhotes. [...] No Haiti, não se pode contar histórias de dia. Quem conta de dia merece desgraça: a montanha jogará uma pedra em sua cabeça, sua mãe só conseguirá andar de quatro. Os contos são contados de noite, porque na noite vive o sagrado, e quem sabe contar conta sabendo que o nome é a coisa que o nome chama. Em guarani, ñé ~ e signifca “palavra” e também significa “alma”. Crêem os índios guaranis que os que mentem a palavra ou a dilapidam, são traidores da alma. [...] Magda Lemonnier recorta palavras nos jornais, palavras de todos os tamanhos, e as guarda em caixas. Numa caixa vermelha guarda as palavras furiosas. Numa verde, as palavras amantes. Em caixa azul, as neutras. Numa casa amarela, as tristes. E numa caixa transparente guarda as palavras que têm magia. Às vezes, ela abre e vira as caixas sobre a mesa, para que as palavras se misturem do jeito que quiserem. Então, as palavras contam para Magda o que acontece e anunciam o que acontecerá. Trechos extraídos da obra As palavras andantes (L&PM, 1994), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui e aqui.

VIAGEM AO ORIENTE - [...] Este homem simples tinha algo de tão agradável e discretamente atranete que atraíra a estima geral. Cumpria suas obrigações com alegria contagiante, quase sempre cantando ou assobiando, e jamais era visto, exceto quando dele precisávamos – em suma, o servidor ideal. Além do mais exercia enorme atração sobre os animais. Quase sempre fazíamo-nos acompanhar de um cão, que a nós se incorporava por causa de Leo. Era capaz de domesticar pássaros e atrair boborletas sobre seu corpo. Seu objetivo era encontrar a chave de Salomão, com a qual seria capaz de compreender a linguagem dos pássaros e que o conduzira ao Oriente. [...] Leo parecia tão simples e natural, tão saudável, enfim, um amigo inteiramente desinteressado. [...]. Estava em toda parte e em parte nenhuma. [...] por que os artistas geralmente pareciam semi-existir, ao passo que suas obras permaneciam tão incontestavelmente vivas. Leo fitou-me com surpresa, deixou então escapar-lhe das mãos o cãozinho com que brincava e respondeu: - Acontece o mesmo com as mães. Ao gerarem os filhos, amamentá-los e torná-los belos e fortes, elas próprias passam à insignificância e ninguém mais por elas se inquieta. – Mas isto é muito triste – disse eu, sem refletir profundamente sobre o fato. – Não creio que seja mais triste que tudo o mais – retrucou Lei. – Talvez seja triste ao mesmo tempo belo. A lei assim o determina. – A lei? – indaguei, curioso. – De que lei está falando, Leo? – A lei de servir. Quem desejar viver muito deve servir, mas aquele que desejar governar não viverá por longo tempo. – Então por que tantas pessoas lutam para governar? – É que elas não compreendem. São poucos os que nascem para governar: estes vivem sempre felizes e saudáveis. Todos os demais que se tornam senhores através do esforço morrem sem nada. – Como nada, Leo? – Em um hospital, por exemplo. Não consegui compreendê-lo muito bem, mas suas palavras ficaram-me na lembrança e me fizeram julgar que Leo sabia todas as coisas, talvez mais do que nós, ostensivamente seus senhores. [...]. Trechos extraídos da obra Viagem ao Oriente (Civilização Brasileira, 1971), do escritor alemão Hermann Hesse (1877 – 1962). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS1 - Fonte: A vida que passou / - água tombada / dos bordos / de tua taça. / O eterno fluir, / ó farfalhar de asas... / - Pássaros nascendo, / invisíveis, das águas. / Tua concha como / um cálice / borbulante, intocado, / música de sombras verdes / teu murmúrio em cascata. / E o tempo, o tempo, / o tempo... / gotejando sua mágoa. 2 – Possessão: O poema me tocou / com sua graça, / com suas patas de pluma, / com seu hálito / de brisa perfumada. / O poema fez em mim / o seu cavalo; / um arrepio no dorso, / um calafrio, / uma dança de espelhos / e de espadas. / De repente, sem aviso, / o poema como um raio, / - Elegbá, pomba gira! / Me tocou com sua graça. / Aceso como chicote, / certeiro como pedrada. Poemas da escritora e jornalista Myriam Fraga (1937-2016).

A ARTE DE MAUDE DAVEY
My Life in the Nude (2013), espetáculo da atriz, diretora, escritora e professora australiana Maude Davey.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, fotógrafa e escultora Liz Hill.
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domingo, julho 15, 2012

ALMUDENA GRANDES, BEATRIZ SARLO, FRANCISCO MORA, UMBERTO ECO, RAYMOND WILLIAMS & LITERÓTICA.

A PONTE ENTRE O AMOR E A PAIXÃO - Entre o meu coração e a imensidão cosmogônica, ela se estira nua pro meu deleite na liberdade verdadeira – a sensação etérea em mim e ao meu redor. Não fosse ela a ponte entre o amor e eu, cego eu erraria por anos e farsas. Não fosse ela a ponte entre o factível e o inatingível, eu não saberia do nirvana, nem dos registros acásicos, nem da verdadeira arte de viver. Não fosse ela a ponte entre a minha heterodoxia e meus paradoxos, eu não descobriria jamais a vida em sua plenitude. A ponte, ela: entre o universo e minha existência. Eis que ela nua e linda, ora estatelada com quem adormece à espera da minha entrega, ora de bruços como que indefesa dos meus ataques e desvarios, mais maravilhosa que sempre, mais minha que nunca, a me oferecer sua carne e começo por tomar posse dos seus pés – ah, podólogo atrevido seria eu a sacralizar toda sua emanação -, e eu como um fiel fanático, ajoelho-me e acaricio toda extensão do seu solado, calcanhar, pernas, joelhos, coxas, até folgar-me no encontro do ventre e lá provar com toda gulodice de toda sua proveitosa delícia – o manjar da vida, o elixir da alma. No meio caminho da vida real, ouso atravessar essa ponte que quero morar embaixo, viver passeando por cima, vencê-la sempre, superá-la a todo instante, sabê-la minha e só minha em todo e mais completo momento. A ponte que me ensina além de mim e de tudo e não me canso de usurpá-la lambendo seu umbigo, sugando seus seios, acariciando o pescoço, beijando apaixonadamente seus lábios e flagrando seus olhos incendiados de prazer a me queimar na combustão dos desejos. E esse contato anímico com sua carne, lábios e sexo, apossado da volúpia de todos os desejos, mergulho no céu da sua boca e entre as estrelas do prazer, me faço inteiro a cobrir seu ser - a ponte que me faz macho e homem realizado. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui, aquiaqui.
 

 

DITOS & DESDITOSEu não posso lhes ensinar. O caminho está dentro de nós, nem nos deuses, nem nos ensinamentos, nem nas leis. Dentro de nós está o caminho, a verdade e a vida. Pensamento do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) sobre Metanoia, expressa em suas obras O livro vermelho (Liber Novus - Vozes, 2010) e A vida simbólica (Vozes, 2000), postulando como o momento de crise existencial da segunda metade da vida, dos 35 aos 45 anos, onde o eu busca a resolução de conflitos internos e autorrealização. Para ele é um momento de crescimento profundo em que a pessoa consegue ressignificar a sua atuação no mundo. O autor considera que a palavra metanóia significa mudar de conceito, mudar de ideia ou mudar seus próprios pensamentos. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. Nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo e isso é tudo. Pensamento do escritor alemão Hermann Hesse (1877 – 1962). Veja mais aqui.

 

O CAMINHO DA VIDA – [...] Na metade do caminho da vida pelo qual caminhamos acordei e me vi no meio de uma floresta escura onde a estrada certa havia desaparecido completamente [...]. Trecho da obra Divina Comédia (1321- Ateneu, 2011), do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321). Veja mais aqui.

 

NEUROEDUCAÇÃO - O cérebro precisa se emocionar para aprender. É preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos. São os professores que, além do conhecimento, transmitem os seus valores aos homens e mulheres do futuro. Expressões do neurocientista espanhol Francisco Mora que é autor do livro Neuroeducación: solo se puede aprender àquello que se ama (Alianza, 2013). Ele é doutor em Neurociências pela Universidade de Oxford e em Medicina pela Universidade de Granada, professor de Fisiologia na Universidade Complutense de Madrid. Tornou-se uma referência internacional em neuroeducação e autor de inúmeras publicações enfatizando a importância das emoções na aprendizagem. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

LEITURAQuem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida. Quem lê terá vivido 5 mil anos. A leitura é uma imortalidade de trás para frente. Vivemos para os livros. Os livros não foram feitos para serem acreditados mas para que os questionemos. Quando lemos um livro, devemos perguntar a nós próprios não o que diz mas o que significa. Tenho cerca de 50 mil livros. Quando a minha secretaria disse que ia catalogá-los disse-lhe para não o fazer, os meus interesses mudam constantemente. Para sobreviver é preciso contar histórias. Frases do escritor, filósofo e bibliófilo italiano Umberto Eco (1932-2016). Veja mais aqui e aqui.

 

CULTURA & MATERIALISMO - [...] A interpretação específica dada então foi, naturalmente, a de um declínio cultural; o isolamento radical da minoria crítica foi, nesse sentido, tanto o ponto de partida quanto a conclusão. Mas qualquer teoria do declínio cultural ou, colocando de forma mais neutra, da crise cultural [...] adquire, inevitavelmente, uma explicação social mais ampla: nesse caso, a destruição de uma sociedade orgânica pelo industrialismo e pela civilização de massa [...] Devido aos críticos de Scrutiny serem muito mais próximos da literatura, não se adequando às pressas a uma teoria concebida a partir de outros tipos de evidência, sobretudo da evidência econômica? Creio que foi por isso, mas a razão real era mais fundamental. O marxismo, como comumente entendido, foi fraco justamente na área decisiva em que a crítica prática foi forte: na sua capacidade de oferecer explicações precisas, detalhadas e razoavelmente adequadas para a consciência real — não apenas um esquema ou uma generalização, mas obras reais, cheias de uma experiência rica, significativa e específica. E não é difícil encontrarmos a razão para a fraqueza correspondente do marxismo: ela estava na fórmula herdada de base e superestrutura que, em mãos pouco treinadas, converteu-se rapidamente em uma interpretação da superestrutura como mero reflexo, representação ou expressão ideológica [...]. Foi a teoria e a prática do reducionismo — as experiências e as ações humanas específicas da criação convertidas de forma rápida e mecânica em classificações que sempre encontraram a sua realidade e significância última em outro lugar — que, na prática, deixaram o campo aberto a qualquer pessoa que pudesse dar uma explicação à arte que, em sua proximidade e intensidade, correspondesse à verdadeira dimensão humana [...]. Tenho grande dificuldade em ver os processos da arte e do pensamento como superestruturais no sentido da fórmula tal como ela é comumente usada. Mas em muitas áreas do pensamento social e político — certos tipos de teoria ratificadora, de lei e de instituição que, afinal, nas formulações originais de Marx, eram de fato parte da superestrutura —, em todo esse tipo de aparato social e em uma área decisiva da atividade de construção política e ideológica, se não formos capazes de ver um elemento superestrutural, não seremos capazes de reconhecer a realidade. Essas leis, constituições, teorias e ideologias que são tão frequentemente defendidas como naturais ou como tendo validade ou significância universal devem ser vistas como simplesmente expressando e ratificando a dominação de uma classe particular [...] Trechos extraídos da obra Cultura e materialismo (Unesp, 2011), do acadêmico, crítico e novelista galês Raymond Williams (1921-1988). Veja mais aqui.

 

MODERNIDADE PERIFÉRICA – [...] Observar o espetáculo: um flâneur é um espectador imerso na cena urbana e, ao mesmo tempo, faz parte dela: numa sequência infinita, o flâneur é observador por outro flâneur que por sua vez é visto por um terceiro [...] O circuito do passante anônimo só é possível na cidade grande, que é uma categoria ideológica e um universo de valores, mais do que um conceito demográfico e urbanístico. Arlt produz seu personagem e sua perspectiva nas Aguafuertes, tornando-se ele próprio um flâneur modelo. Diferentemente dos costumbristas que o antecederam, mistura-se na paisagem urbana como um olho e um ouvido que se deslocam ao acaso. Tem a atenção flutuante do flâneur que circula pelo centro e pelos bairros, penetrando na pobreza nova da grande cidade e nos meios mais evidentes da marginalidade e do crime. [...] Assim escreve uma mulher que quer ser poeta, mas também quer continuar a ser aceita. Norah apaga tudo o que pode colocar em questão sua respeitabilidade pós-adolescente e juvenil; apaga o que a visão social dos pais não deve ler. O ultraísmo lhe dá a irrestrita liberdade das imagens. Norah usa em seu esforço de tapar o inconveniente, e nesse esforço pode-se ler, no entanto, o trabalho da censura. [...]. Trechos extraídos da obra Modernidade Periférica (Cosac & Naify, 2010), da escritora e crítica literária argentina Beatriz Sarlo. Veja mais aqui e aqui.

 

CONFISSÕES - Eu estava esperando por você. Além do inverno, em cinquenta e oito, das letras sem pulso e verão da minha primeira carta, pelos corredores lentos e o exame, através de livros, tardes de futebol, da flor que não quis virar almofada, além do menino ligado à lua, Sob tudo o que eu amei Eu estava esperando por você. Eu estou esperando por você. Atrás das noites e das ruas, das folhas pisadas e obras públicas e comentários das pessoas acima de tudo o que sou, de alguns restaurantes que já não frequentamos, com mais pressa do que o tempo que me foge, mais perto da luz e da terra, Eu estou esperando por você. E vou continuar esperando. Como os amarelos do outono, ainda uma palavra de amor diante do silêncio, quando a pele desliga, quando o amor abraça a morte e nossas fotos ficam mais sérias, no penhasco da memória, depois que minha memória vira areia, por trás da última mentira, vou continuar esperando. Poema da escritora espanhola Almudena Grandes Hernández (1960-2021).

 

PROGRAMA DOMINGO ROMÂNTICO – O programa Domingo Romântico que vai ao ar todos os domingos, a partir das 10hs (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação deste domingo aqui. Na edição deste 15/07 do programa Domingo Romântico, uma produção da radialista e poeta Meimei Correa e apresentado por Luiz Alberto Machado, além de comemorar 2 mil membros parceiros no Grupo do Facebook, está com uma programação especial pra você, confira as atrações: Antonio Carlos Gomes, Pablo Neruda, George Gershwin, Carlos Drummond de Andrade, Arthur Moreira Lima, Herbert Von Karajan, Mário de Andrade, John Coltrane, Paulo Moura, MPB4, Milton Nascimento & Wagner Tiso, Yes, Djavan, Denise Stoclos, Ney Matogrosso, Oduvaldo Vianna Filho, Geraldo Azevedo, Joe Satriani, Edu Lobo, Elizeth Cardoso, Billie Holiday, Cyro Monteiro, Tito Madi, Agostinho dos Santos, João Bosco, Renato Teixeira, Tianastácia, Kleiton e Kledir, Tunai, Samuel Rosa, Paulinho da Viola, Natiruts, Fafá de Belém, Elba Ramalho, João Figuer, Ronnie Von, Almir Guineto & Racionais, Netinho de Paula, Edu George, Jorge Medeiros & muito mais. Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Leitoras comemorando a festa Tataritaritatá!
Art by Ísis Nefelibata.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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