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quarta-feira, outubro 11, 2023

BIRUTĖ MAR, KRISTIN HANNAH, NARGES MOHAMMADI & PARADOXOS AZUIS.

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

O som pode realmente atuar como um gatilho para a memória e, em seguida, trazê-lo de volta a um lugar e hora específicos. Eu queria trazer essas vozes do passado para o presente.

Ao som do premiado We Shall Be All (Prêmio Turner de 2010) e Pledge (2002), instalações sonoras da artista escocesa Susan Philipsz.

 

 

PONTO DE DEBREAGEM, ARS ENVENIEND... - Versos soavam dos meus ossos, poema da carne – quantos pesos e muitas medidas. Nunca fui poeta, apenas vitimado. Sempre enfrentei o perigo da estagnação e do nada, embora imerso numa sufocante estase nada revigorante. Nunca temi a roda do arrependimento, era o sisifismo: os mistérios são muitos menos novidades, simulações apenas, simulacros do inacessível. O que não era poesia nem música o que seria se mexia dentro da gente e parecia outra coisa, laivos do futuro, talvez. Inaugurei o que poderia ser de festa e o olho no dilema: a jornada do herói imigrante condenado à queda, tal qual Bastian da História sem fim de Petersen – da obra de Michael Ende, quando, na verdade, apenas um leitor voraz na trama da Continuidade dos parques de Cortázar: jamais poderia me safar do sórdido, como se coagido pelos estudantes do colégio Marquês de Arapongas. Talvez essa a minha punição de Prometeu, a sanção nas opções de Camus. Optei por me rebelar à doença niilista e o absurdo, a fugir sobrecarregado – era eu na overwhelmed de Valéria Duca... Não me rendi jamais e fui ter com a imperatriz da fantasia, atingido pelo inesperado: lá estava eu dislálico diante de Nora Roberts: Algumas pessoas querem o simples, o banal e o tranquilo. Isso não faz com que as pessoas que querem o complicado, o extraordinário e o emocionante sejam gananciosas ou egoístas. Querer é querer, qualquer que seja o sonho... Apesar de parecer-me sardônica, não era: incentivava meus sonhos. Qual intrigante, e daí? Pessoas vivem, nenhum extremismo nem empolgação, pausas regulares, humor sombrio no julgamento dos outros. Interpelou-me Harriet Hosmer: Palavras são coisas frias e formais... Eu honro toda mulher que tenha força o suficiente para sair do caminho batido quando ela sente que sua caminhada encontra-se em outro... Tanto quis ao menos beletrista em estado de graça, impossível para quem pretenso Macunaíma – sirvo lá pra grande coisa... Disse-me então Mercè Rodoreda: É bom que, antes de escrever, se viva... Sim, as cartas da vida, o que foi abolido e a pedra de toque. Apesar de sempre tropeçar no meu próprio calcanhar dizia sempre me mandassem a bola que resolveria a parada. Era aquele que se achava pronto e toda vez me atrapalhava mãos pelas pernas. Sei, sempre jogaram às minhas costas, quase me convenci ser eu próprio meu inimigo, dei para isso minha ausência. O amor nunca foi fácil porque não será jamais um jogo. Conto meus botões, até mais ver.

 

COLAR DO SILÊNCIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

água pura derramada \ - mas turvo no chão havia gotas - \ algumas - de memória

linda que retorna de viagens distantes \ de cidades desconhecidas sorrindo para si mesmo \ misteriosamente silencioso linda, \ isso só antes da expressão

já está desolado, já amanheceu \ já crepúsculo da manhã \ alguns pensamentos de repente \ alguns pulsos de luz semeando tempo, \ mãos, corpos \ doce perturbação cidade derretendo \ colar do silêncio

de todas as minhas vidas \ Eu me lembro de um outono \ na memória daquele outono \ Eu espio por uma janela ribeirinha \ naquela janela \ Eu vejo um trecho aberto de estrada \ naquela estrada \ Eu encontro uma pegada \ naquela pegada \ Eu construo uma casa naquela casa \ Eu planto minha samambaia de infância \ naquela samambaia \ Eu sonho com uma flor brilhante naquela flor \ Eu vejo uma gota caída naquela gota \ Eu reconheço um rosto velho naquela cara \ - Eu ouço minha própria voz

Poema da atriz e escritora lituana Birutė Mar.

 

O ROUXINOL - […] Se aprendi alguma coisa nesta minha longa vida, é isto: no amor descobrimos quem queremos ser; na guerra descobrimos quem somos. [...] Os homens contam histórias. As mulheres vão em frente. Para nós foi uma guerra sombria. Não houve desfiles para nós quando tudo acabou, nem medalhas ou menções em livros de história. Fizemos o que era necessário durante a guerra e, quando ela acabou, juntamos os cacos e recomeçamos nossas vidas. [...] Mas o amor tem que ser mais forte que o ódio, ou não haverá futuro para nós. [...] As feridas cicatrizam. O amor dura. Nós permanecemos [...] Sempre pensei que era isso que eu queria: ser amada e admirada. Agora acho que talvez eu gostaria de ser conhecido. [...]. Trechos extraídos da obra The Nightingale (11 x 17, 2021), da escritora estadunidense Kristin Hannah.

 

ATIVISMO – Pensamentos e sonhos não morrem. A crença na liberdade e na justiça não perece com a prisão, a tortura ou mesmo a morte e a tirania não prevalece sobre a liberdade. Continuarei os meus esforços até alcançarmos a paz, a tolerância para uma pluralidade de pontos de vista e os direitos humanos. Não estou desesperado nem perdi a motivação. Não podemos parar de tentar. Ainda espero e acredito profundamente que os esforços incansáveis dos nossos ativistas da sociedade civil acabarão por dar frutos. Matar, prender ou negar os direitos de um ser humano não é injustiça contra uma pessoa; ela acorrenta e mata toda uma sociedade. Pensamento da ativista iraniana e Prêmio Nobel da Paz, Narges Mohammadi.

 

PARADOXOS AZUIS

Sobreponha à palavra o abrupto da alma. \ E se livre da ausência de peso \ do verbo abstrato...

Extraído da obra Paradoxos azuis (CriaArt, 2023), do poeta Vital Corrêa de Araújo, organização, seleção e prefácio do poeta e professor Admmauro Gommes. Veja mais aqui e aqui.

 



terça-feira, fevereiro 21, 2017

APINAJÉ, BANSKY, ANELIS ASSUMPÇÃO, HARRIET HOSMER & JOSEFINA DE VASCONCELOS

Zenobia in Chains, da escultora Harriet Hosmer (1830-1908)
Veja a Fanpage aqui , os vídeos aqui e os textos  aqui

EXISTE GENTE PRA TUDO! - Imagem: grafite de Banksy - O que tem de gente ré-pra-trás na vida e na TV não está no gibi! É cada purgante dos brabos e pra todo gosto: abstêmio chato, imberbe crici, barbudo das ventas danadas, oxe! Afora aqueles maçantes que defendem os animais e maltratam o ser humano, médico no esquadrão da morte, advogado burlando leis, autoridade abusando de poder, engenheiro destruindo o meio ambiente, cristãos intolerantes, mafiosos bonzinhos e obrando caridade, até quem bote catinga em merda! Tem gente insossa como a praga, os do contra tudo e a favor do golpe, aqueles achamorrados pra desfazer o que se faz ou atrapalhar tudo, ô raça mais perniciosa de gente, a calamidade mais abjeta. Ah! Ainda tem os fumantes que são piores que as bombas de todas as guerras, emporcalham o mundo, fabricam lixo e poluição, roubam com o fedor o perfume de tudo, fabricam monturo para proliferação indesejável de insetos, enfermidades e destruição. Com a sua tragada contribuem para a desgraça humana, pior que todos os desastres naturais e quaisquer vírus contagiosos e letais. Com a bituca degradam o ambiente, pior que as minas explosivas, lixo atômico, eletrônico e hospitalar; polui sozinho o ar, a água, e toda Terra, se auto-envenenam e aos outros do mundo todo, sendo, por isso, o pior dos vícios e o maior dos assassinos que contaminam tudo, seduzem mais que as ofertas, são as portas para bebedeiras, drogas pesadas, contravenções e crimes. Isso um fumante, imagine os tantos que baforam por aí com a cara mais cínica! Isso são eles enquanto os bueiros das indústrias são o desenvolvimento sustentável & as motos roncam, os automóveis passeiam, os caminhões e ônibus carregam o progresso e todos fazem a felicidade do trânsito. Um fumante é uma catástrofe sem precedentes enquanto as aeronaves & navios & foguetes, a radioatividade e eletroeletrônicos, jogos, roubalheiras, malversação do erário público, trambicagem, safadeza, agiotagem, isso tudo é de menos, o péssimo mesmo é ficar fumaçando numa fedentina horrível que até o Ministério da Saúde desaconselha – que Ministério, hem? Ah, quem fumega mais? Apesar de tudo isso ainda há quem fume, tem gente pra tudo, ué! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns Sou suspeita, estou sujeita, não sou santa (2011) e Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários (2014), da cantora e compositora Anelis Assumpção.

Veja mais sobre:
Simulacros, Roberto Remiz & Nina Kozoriz aqui.

E mais:
Bernardo Guimarães, Nina Simone & Darel Valença Lins aqui.
António Damásio, Pierre-Jean de Béranger & Marcia Lailin aqui.
Descartes & Margarethe Von Trotta aqui.
Coelho Neto & Logoterapia aqui.
A poesia de Wystan Hugh Auden, a literatura de Stanislaw Ponte Preta & Anaïs Nin, A música de Francisco Manuel da Silva, A pintura de Alberti Leon Battista, Maria de Medeiros & Luli Coutinho aqui.
Hypatia & Ágora, o filme aqui.
Inesquecível viagem ao prazer & Lucia Helena Galvão Maya aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a corda arrebenta, a covardia fica de plantão aqui.
O pensamento de Baruch Espinoza aqui, aqui e aqui.
Conversa de pé de ouvido, As presepadas de Doro, Erasmo de Roterdam, O peido & a Educação, Fernando Fiorese, A primavera de Ginsberg, Graciliano Ramos & Alagoas aqui.
A balsa da Medusa aqui.
Meu ensino de Jacques Lacan & Disco Friends aqui.
Antígona de Sófocles aqui.
Reflexões de metido em camisa de onze varas, Ralph Waldo Emerson, Síndrome de Klüver-Bucy, Isaac Newton, Viviane Mosé, Carl Gustav Jung & Sabina Spielrein, Cloltilde de Vaux & Auguste Comte aqui.
Remexendo as catracas do quengo e queimando as pestanas com coisas, coisitas e coisões, Débora Massmann, Boaventura de Souza Santos, Terêncio, O Fausto de Goethe, Ética, Saúde no Brasil & Big Shit Bôbras aqui.
A música de Nando Lauria aqui.
Charles Baudelaire, Gianni Vattimo, Sören Kierkegaard, Tribo Ik, Adriano Nunes & Do individualismo possessivo ao umbigocentrismo da futilidade aqui.
Pobreza aqui.
Paulo Leminski, Mestre Eckhart, Moisés Maimônides, Píndaro, A oniomania & o Shopaholic, Gilton Della Cella & Programa Tataritaritatá aqui.
A explosão do prazer no Recife, Educação, Manoel de Barros, Gaston Bachelard, Luiz Ruffato, John Dewey, Marcelino Freire, Ottto Maria Carpeaux, Armando Freitas Filho & Programa Tataritaritatá aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

DESTAQUE: VANMEGAPRANA
Uma moça chamada Niimogo, ficou grávida. Certo dia, quando se banhava no riacho, o filho abandonou o ventre, nadou, transformado em paca, ao redor de sua mãe. Depois voltou ao lugar primitivo. Fez isso muito tempo, até que, por fim, não mais regressou ao ventre materno. Quando Niimogo ia com as outras mulheres cavar batatas na roça, ela deixava a criancinha deitada na sombra de uma árvore. Às vezes, as mulheres observavam de longe que o pequeno Vanmegrapana se punha de pé e, então, corriam para ver melhor. Mas quando chegavam junto dele, já tinha voltado a ser uma criancinha fraca. Quando Niimogo ia buscar água no riacho, levava o menino escanchado na cintura, mas assim que saía da aldeia, o menino crescia e se punha a correr a seu lado. No regresso, ele se transformava outra vez numa débil criancinha escanchada na cintura. O irmão da alegre Niimogo tinha ódio ao menino e exigia dela que o matasse, mas a moça não queria fazê-lo porque o menino era muito bonito. Diante disso, o tio fez um buraco e enterrou o sobrinho vivo, mas à meia-noite Vanmegaprana fugiu da sepultura e foi procurar a mãe, para mamar. No dia seguinte o irmão de Niimogo vendo-a com filho no colo, perguntou como era possível aquilo e ela contou que o menino, sem que ninguém o ajudasse, voltara pra casa. Disposto a dar fim ao sobrinho, levou Niimogo e o filho à beira de um abismo, arrancou Vanmegaprana do colo materno e, por mais que a avó deste chorasse e pedisse, arremessou-o despenhadeiro abaixo. O menino, porém, transformou-se numa folha seca e foi caindo devagar, dando voltas, até chegar ao chão. O irmão de Niimogo correu a procurar lá embaixo do despenhadeiro até que apanhou a folha, queimando-a numa fogueira longe dos olhos da avó e da mãe que choravam muito. E todos acreditaram que Vanmegaprana tivesse morrido dessa vez. Mas ele ressuscitou das cinzas em forma de um homem branco. Foi à beira do riacho e, tomando de uma cuia, atirou farinha de mandioca aos peixes. Imediatamente os peixes brancos se transformaram em gente branca e os peixes pretos, em negros. E Vanmegaprana disse: - Mais tarde vós também me perseguireis. Construiu uma oca grande e fez todas as coisas que hoje os cristãos possuem. Ao alvorecer, os índios da taba ouviram o amiudar dos galos a grande distância; a seguir, o rinchar dos cavalos e o mugir das vacas. – Que animais serão esses? – perguntaram admirados. Dali a pouco, viram subir fumaça na distância e compreenderam que tinham um vizinho. O mais curioso de todos foi até lá e Vanmegaprana mostrou-lhe os animais domésticos e lhe ensinou os seus nomes. Depois mandou chamar os parentes e lhes deu arroz e carne de vaca para comer, ensinando-lhes como deviam preparar tais pitéus. – Se não me tivesses perseguido, serias agora um homem rico. Perguntou a Niimogo se o estava reconhecendo. Ela, depois de encará-lo, disse que não. Então ele falou: - Pois eu sou o teu filho! Niimogo chorou muito. Vanmegaprana encheu-os de presentes e mandou-os embora, em paz. Vanmegaprana era o velho imperador Dom Pedro II.
Lenda extraído de Os Apinajé (Boletim do Museu Emilio Goeldi, 1956), transcrita por Curt Nimuendaju Unkel. Veja mais aqui

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora neoclássica estadunidense Harriet Hosmer (1830-1908).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Reconciliation, da escultura britânica-brasileira Josefina de Vasconcelos, J.B. Priestley Library, University of Bradford.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.

 

quinta-feira, abril 02, 2015

TERESA CÁRDENAS, SARAMAGO, ANDERSEN, ZOLA, SHAKESPEARE, CASANOVA & UMA DE DUAS

 


UMA DE DUAS (OU A FILHA PERDEU O PAI & A DOR DA IRMÃ CAÇULA) – Imagem: Mulher sentada, do pintor francês Georges-Pierre Seurat (1859-1891) – O primeiro regresso fora doloroso: recebera a notícia do pai hospitalizado sob assistência da irmã caçula. Findava o seu desterro de anos da terra natal e milhares de quilômetros percorridos para se defrontar com uma situação dramática. Moveu Deus e o mundo, resgatou os parentes e, graças a uma assistência milagrosa, o transporte aéreo devolveu-lhe ao amparo do exílio voluntário. Era onde se sentia em casa e dedicar-se à enfermidade paterna. Seus esforços resultaram inúteis e tudo começou com a amputação do dedo mindinho do pé esquerdo; depois a lombada do pé, a metade da canela, nem mais coxa para uma muleta. Logo se foi a outra perna, destruindo o ventre, os pulmões, as faces. Restaram as sobrancelhas pro velório, choros solidários entre as irmãs. Meses depois, a irmã caçula alegou precisão de desanuviar e rever as amigas de infâncias. Não havia mais parentes na terra natal, mesmo assim ela bateu o pé na insistência e, por fim, foi-se na viagem. A solidão reinou por um bom tempo, até que o telefone estridulou com uma notícia para lá de desagradável. Era a vez do segundo regresso para a localidade que ganhara prestígio na sua antipatia. Durante a viagem teve de trocar de condução e, à espera do ônibus, encontrou-se com uma estranha que logo abriu conversa. Desabafaram, lavaram a alma juntas, choraram suas sinas. Dali em diante seguiram juntas até tomarem destinos opostos com o desembarque. Promessas mútuas de reencontro, desejo de boa sorte e até mais. Chegou ao hospital e, como era enfermeira, logo teve acesso à irmã caçula em coma. Que houve? Estupro, espancamento torturante. Quem fizera isto? Sabe-se apenas que o responsável por aquele crime havia sido preso, não sabendo-se de quem se tratava. Jurou vingança, mas ocupou-se logo nas providências de cuidar da irmã e logo transferi-la para o seu habitat. Não foi fácil, demorou-se a recuperação e, desta vez, a assistência milagrosa não aconteceu. Mais de um mês e meio depois, faziam a viagem de volta num ônibus. Resignada compreendeu que seus últimos anos seriam apenas para servir dos cuidados familiares e assim havia de ser, afinal a irmã caçula era a última parente que lhe restara. A terra natal não lhe fora nunca berço para existência, tanto que mal adolescera e saiu de casa em busca vida melhor. Tanto lutou que conseguiu emprego e estabilidade. Cada um dos seus parentes foram sucumbindo, findava muito pouco para apagar aquela cidade da memória. Dedicou-se ao que restara com uma jura: nunca mais voltaria ao local onde nascera.  Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Fomos arrancados da África, mesclados, não temos árvore genealógica... Pensamento da escritora cubana Teresa Cárdenas, autora do poema Conte algo que não sei: No princípio, o universo era todo branco. \ Até o dia em que que alguém o puxou por uma ponta e o virou, \ como uma página. \ Foi o que descobri em meus novos escritos. \ São contos do início dos tempos, \ nos quais volto para além da minha ancestralidade \ e recrio o mundo, \ reviro os mitos africanos e os demais. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU:Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara... Pensamento do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

CONTOS DE MAGREB – Na coletânea Contos árabes (Cultrix, 1962), organizada por Jamil Almansur Haddad, encontrei entre os contos de Magreb – histórias populares contadas nas praças da região compreendida entre Marrocos, Argélia e Tunísia -, a História da jovem que nasceu de uma maçã, na tradução do organizador em parceria com José Paulo Paes: Era uma vez uma mulher que nunca tinha tido filhos. Seu marido, que desejava muito que ela os tivesse, dirigiu-se um dia à casa de um feiticeiro e disse: - Minha mulher é estéril. Eu quero um remédio que a cure. O feiticeiro deu-lhe duas maçãs e disse: - Fazei-a comer estas maçãs e ela ficará gravida, porem tu não podes comer. Levando as maçãs achou-as tão belas e tão odorosas que não resistiu à tentação e comeu uma. Depois deu outra à sua mulher. Imediatamente ela ficou grávida: mas à medida que seu ventre aumentava, a perna do seu marido se intumescia e tomava proporções enormes. Enfim, chegou o termo do nono mês: a mulher deu à luz um filho. Quanto ao marido, no mesmo momento as dores o tomavam na perna e de vergonha foi ocultar-se na solidão do deserto. Ao mesmo tempo que a sua mulher dava à luz a seu filho, sua perna fendeu-se e dali saiu uma menina bela como o dia. Ela tinha cabelos tão longos que cobriam inteiramente seu corpo. Sem mais ocupar-se dela, ele a abandonou ali e voltou para casa. Ora, uma gazela seguida dos seus pequenos que ela aleitava, passando por lá, ouviu os vagidos da criança. Aproximou-se, fê-la mamar e adotou-a. a menina cresceu com as pequenas gazelas. Um dia um rei que caçava percebeu o rebanho de gazelas e espantou-se ao ver esse animal estranho que parecia uma menina e vivia em pleno deserto. Fez preparar dois pratos de cuscuz, um com sal e outro sem sal e fê-los depositar perto da fonte onde as gazelas bebiam. E pensou: - Se este ser for humano, comerá o cuscuz salgado; se é uma jenniya comerá a comida sem sal porque os jenniyas não comem comida salgada. No dia seguinte, foi ver o que havia comido esse ser estranho e quando se certificou de que se tratava de um ser humano, procurou caçá-la. Agarrando-a depois, levou-a para casa, vestiu-a de suntuosos vestidos, fez construir um palácio para ela e desposou-a. mas suas outras mulheres, em numero de seis, ficaram muito ciumentas da nova desposada. Mostraram-se, no entanto, muito amigas para afastar dela toda a desconfiança e a atraiam frequentemente para as suas casas. Um dia o rei, vendo reinar concórdia em sua casa, decidiu visitar seus estados e recolher impostos. Recomendou às suas mulheres de bem se entenderem entre elas e partiu. Então elas combinaram a perda da jovem esposa. Um dia elas lhe disseram: - Vem que te pentearemos. A jovem sentou-se perto delas e deixou-se pentear. Mas sucessivamente cada uma delas lhe plantou um alfinete na cabeça e, instantaneamente, a pequena rainha foi metamorfoseada em pássaro e voou sob a forma de pomba. Ora, o rei, antes de sua partida, tinha começado a construção de um pavilhão no jardim e recomendado aos seus trabalhadores que o terminassem antes da sua volta. Mas a partir desse dia, a pomba vinha pousar sobre a parede construída durante a jornada e cantava: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Quando terminou sua queixa, voou e logo o muro, sobre o qual ela havia pousado, ruía. Os pedreiros ficaram muito infelizes e queriam agarrar o pássaro, o que lhes era impossível. Enfim o rei voltou. Quando chegou em casa dirigiu-se logo aos aposentos da jovem rainha que o amava. Achou-o vazio e as mulheres disseram: - Após a tua partida ela foi reunir-se às gazelas. Então o rei quis retirar-se para o pavilhão que havia mandado construir no jardim, e ficou surpreso ao achá-lo inacabado e no mesmo estado em que estava quando de sua partida. Chamou o chefe dos pedreiros e lhe disse: - O que acontece aqui? Merece que te faça cortar a cabeça. Eu havia ordenado terminar a construção quando da minha volta. Nesse momento, a pomba chegou ao muro e pôs-se a cantar: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Depois voou, o muro ruiu e o chefe dos trabalhadores disse ao rei: - Viste a razão. Isto vem acontecendo todos os dias após a tua partida; trabalhamos o dia inteiro e à tarde vem a pomba que canta a sua canção, e o muro tomba. Queríamos agarrá-la mas ela se esquiva e eu nada pude fazer. Então o rei disse: - Num dos quartos que terminaram, ireis pôr todos os grãos que agradam aos pombos, e deixarás as janelas e as portas abertas para que essa pomba possa entrar e alimentar-se. Depois colocou no interior do quarto dois guardas perto de cada entrada, com ordem de fechar as portas e janelas logo que o pássaro entrasse ali. E no dia seguinte ele próprio veio para apanhar a pomba. Mas ela, que o havia percebido na véspera, deixou-se apanhar sem dificuldade. Quando o rei a prendeu, ele pôs-se a chorar e a acaricia-la, e a pomba também cantou sua canção. De repente, passando-lhe docemente a mão pela cabeça, o rei encontrou seis alfinetes e arrancou-os. Logo a pomba retomou a forma de donzela, em toda a sua beleza. O rei apanhou-a nos braços e ambos choraram lágrimas de felicidade. Depois o rei lhe disse: - Conta-me o que houve. E quando ela terminou ele disse: - Decide da sorte delas. Farei o que quiseres. Então ela pediu: - Quero que a primeira seja transformada em trave da entrada do meu quarto, para que eu pise nela todos os dias. A segunda, em cadeira para as abluções para que eu me sente nela todos os dias. A terceira, em outra viga que eu pisarei no banheiro. A quarta, para o mesmo objetivo na cozinha. A quinta, a mesma coisa no estábulo. E a sexta, em tábua para o meu leito. Isto foi feito e ela viveu longos dias felizes com o rei... e minha história acabou. Veja mais aqui, aquiaqui.

Imagem: Pleiades (1920), do pintor e escultor do Surrealismo alemão Max Ernst (1891-1976). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Ouvindo Red dirt girl (Nonesuch/Warner Broos, 2000), da cantora e compositora estadunidense Emmylou Harris.



A LITERATURA DE ANDERSEN – Uma das leituras que povoou a minha infância foi a do escritor dinamarquês de histórias infantis Hans Christian Andersen (1805-1875), que iniciou sua carreira literária escrevendo poesias, publicando o seu primeiro romance Inspirador, em 1837, seguindo-se toda a obra dedicada ao universo infanto-juvenil de grande sucesso até hoje. Veja detalhes aqui, aquiaqui e aqui.

SONETOS DE SHAKESPEARE – No livro Sonetos (Martin Claret, 2006), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), destaco dois deles, o primeiro: Dos seres ímpares ansiamos prole / para que a flor do belo não se extinga, / e se a rosa madura o tempo colhe, / fresco botão sua memória vinga. / Mas tu, que com os olhos teus contrais, / nutres o ardor com as próprias energias / causando fome onde a abundância jaz, / cruel rival, que o próprio ser crucias. / Tu, que do mundo és hoje o galardão, / arauto da festiva natureza, / matas o teu prazer inda em botão / e, sovina, esperdiças na avareza. / Piedade, senão ides, tu e o fundo / do chão, comer o que é devido ao mundo. O segundo soneto: Dois amores – de paz e desespero - / e tenho que me inspiram noite e dia: / meu anjo bom é um homem puro e vero; / o mau, uma mulher de tez sombria. / Para levar a tentação a cabo, / o feminino atrai meu anjo e vive / a querer transformá-lo num diabo, / tentando-lhe a pureza com a lascívia. / Se há de meu anjo corromper-se em demo / suspeito apenas, sem dizer que seja; / mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo / que o anjo no fogo já do outro esteja. / Nunca sabê-lo, embora desconfie, / até que o meu anjo se contagie. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

NANA – O livro Nana: história natural e social de uma família sob o segundo império (Hemus, 1982), do escritor naturalista e libertário francês Émile Zola (1840-1902), é o nono volume da coleção Les Rougon-Macquart, conta a história de uma medíocre artista de teatro que faz fortuna por possuir um corpo de Vênus voluptuosa e vulcânica e se torna uma prostituta de luxo e cortesã da sociedade francesa, atraindo, corrompendo e arruinando ricaços e poderosos que se enfeitiçam por sua beleza. Da obra destaco o trecho: [...] Era ainda a mesma voz avinagrada, mas agora ela to­cava tanto a corda, não diremos sensível, mas sensual do público, que arrancava dele, por momentos, um leve estremecimento. Naná escondera o sorriso, que lhe iluminava a pequena boca vermelha, e resplandecia nos seus grandes olhos, de um azul muito claro. Em certos versos um pouco arrebatados, uma gulodice lhe arrebitava o nariz, cujas narinas róseas palpitavam, enquanto uma chama lhe passava nas faces. Ela continuava a balançar-se, não sabendo fazer mais do que isso. E já não achavam aquilo mau de todo, pelo contrário; os homens assestavam os binóculos. Quando ia terminar a copla, a voz faltou-lhe por completo, e percebeu que não poderia chegar ao fim. Então, sem se inquietar, sa­racoteou as ancas, que desenharam uma forma redonda sob a sua fina túnica, enquanto, de busto dobrado, o pescoço estirado para trás, estendia os braços. Rebentaram aplausos. Imediatamente ela se voltou, tornando a subir, deixando ver a nuca, onde os cabelos ruivos se ordenavam como no velo de um animal; os aplausos tornaram-se furiosos. O final do ato foi mais frio. Vulcano queria esbofetear Vénus. Os deuses estavam em concílio e decidiram proceder a uma sindicância na Terra, antes de atenderem os maridos enganados. Era ali que Diana, surpreendendo as palavras ternas entre Vénus e Marte, jurava não lhes tirar os olhos de cima durante a viagem. Havia também uma cena em que o Amor, representado por uma garota de doze anos, respondia a todas as perguntas: "Sim, mamãe... Não, mamãe...", num tom choramingas, com os dedos no nariz. Depois, Jú­piter, com a severidade de um professor que se enfada, fechava o Amor num quarto escuro, ordenando-lhe que conjugasse vinte vezes o verbo amar. O final agradou imenso, um coro em que a companhia e a orquestra se saíram brilhantemente. Mas descia o pano, e a claque tentou em vão obter uma volta; toda a gente se levantara, dirigindo-se já para as portas.Veja mais aqui, aquiaqui.

CASANOVA DE FELLINI – O aventureiro e escritor italiano, Giovani Jacopo Casanova (1725-1798), envolveu-se em inúmeras intrigas e aventuras com jogatina e libertinagens, desde o seu interesse pela carreira eclesiástica, findou expulso do seminário de Veneza. Depois tornou-se secretário de um cardeal, soldado, violinista, viajante, sendo, então, adotado por um rico senador, empenhando-se na busca da pedra filosofal. Com novas viagens finda preso e condenado pela Inquisição por magia, impiedade e maçonaria. Encerrado na prisão dos Piombi, consegue, ao cabo de cinco meses de maquinações, uma espetacular fuga para Paris onde introduziu a loteria e torna-se financista, quando faz grande fortuna até montar uma fábrica de tecidos que lhe arruína. Passa então a viajar por toda Europa, adotando o nome de Chevalier de Seingalt até ser expulso novamente de Veneza, fixando-se no castelo de Dux como conservador da biblioteca, aonde escreve suas famosas memórias. Tornou-se autor de versos, libretos de ópera, trabalho de matemática e filologia. Nas suas memórias ele descreve a vida dissoluta que levou e o mundo que conheceu. Pelo grande número de conquistas amorosas que narra, seu nome tornou-se tão provençal quanto o de Don Juan. Essas memórias foram publicadas em alemão, em 1882. Foi considerado por muito tempo como um autor pornográfico, obtendo reconhecimento posterior de grande escritor, pelo destaque de suas memórias que apresentam um retrato vivo da vida e dos costumes da Europa no sec. XVIII. Em 1976, o cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) realiza o filme contando sua história, com roteiro do próprio diretor e de Bernardino Zapponi, e música de Nino Rota. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


HOMENAGEM DO DIA
RAINHA ZENÓBIA
Imagem: Zenobia in Chains (1859) da escultora estadunidense Harriet Hosmer (1830-1908). Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

A bela, guerreira e digna Zenóbia (Bat-Zabbai, sec. III), rainha de Palmira que foi derrotada, levada prisioneira para Roma pelo Imperador Aureliano. Veja mais aquiaqui.


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As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

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Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
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Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
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