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sábado, abril 02, 2016

HISTÓRIA SEM FIM

HISTÓRIA SEM FIM - A encontra B e pergunta: - Pronde você vai? Estou procurando C! Então vamos. E foram. Encontraram D, E, F e G, até o Z. Mas não acharam C. Ficaram conversando até que a C chegou e ficaram no maior papo. Aí conversa vai, conversa vem, formaram o Alfabeto, ou melhor o Abecedário - ABC. Ficaram na maior brincadeira. Então A achegou-se a M que estava com O chamando R e formaram a primeira palavra: AMOR. Aí L quando viu aqui achou muito legal e puxou U que trouxe Z e formaram a segunda palavra: LUZ. Nossa! Duas palavras! Do outro lado V viu aquilo e futucou I trazendo D pra mais perto e que puxou A e formaram uma terceira palavra: VIDA. Ora, como as letras eram muito buliçosas demais, tagarelando umas com as outras, formaram inúmeras palavras e deram conta que elas, as letras inventaram a primeira palavra e com ela outras tantas que trouxeram a ideia pra formação de frases que formaram períodos com muitos sentidos e nascia a primeira história assim: era uma vez... um menino que gostava de brincar com as letras e com elas conversava muito contando isso, perguntando aquilo e o maior teitei de quem bebeu água de chocalho no maior teretetei. Letra vai, palavra vem, estava inventado o Dicionário – isso porque deu uma mania nelas de querer organizar as coisas. Todavia, de tão inquietas que eram, tudo saía do controle porque tanto trelavam demais a torto e a direito, que novas palavras surgiram com novos significados – nem sabiam que inventavam agora a Semântica. Com tantas possibilidades de dançarem quadrilha e todos os ritmos inimagináveis, foram surgindo substantivos, adjetivos, artigos, pronomes, numerais, verbos e mais advérbios, preposições, conjunções e o escambau a quatro. Quando deram fé, haviam também inventado a Morfologia para primeira gramática. E muito admiradas com tudo que tinham a capacidade e o poder de realizar, perceberam que a palavra AMOR sozinha podia ser mudada adquirindo outros sentidos e tantos sentidos, e confirmaram trocando cada uma delas de lugar: OMAR, MORA, AROM, RAMO e ROMA. Cada mudança de posição, um novo sentido. Juntas resultavam numa coisa confura. Rearrumaram pra lá, trouxeram pra cá e findaram inventando a Sintaxe: Omar e Arom são membros de um ramo de família que mora em Roma. Pronto. Estava organizada a frase como queriam e muito felizes: inventaram também a estilística. A partir daí misturaram tanto que a palavra MISTURAR originou outras tantas como miscigenação, heterogeineidade – palavras grandonas, vixe! Uma nova descoberta: palavrinhas, palavras e palavrões. Adoravam as pequenininhas como Pé, Azul, Pelé. Também as palavras como Amarelo, brincar, cocada. E os palavrões como Pindamonhangaba, inconstitucionalissimamente! Eita, vamos deixar os palavrões pras horas emergenciais, pois são muito difíceis de dizer e escrever. E não pararam de formar novas frases que davam em muitas e tantas novíssimas histórias, do menino que com elas se deleitava no entretenimento, ficou tão feliz dando asas à imaginação. Principalmente quando ele percebeu que cada historia podia ser contada e recontada indefinidamente formando novas e muitíssimas histórias sem fim. É exatamente por isso que inventei de ser contador de histórias, entrando pela perna de pinto, saindo pela perna de pato, agora vou contar uma história que deu da conversa entre o pato e o meu sapato reclamando do rato que comeu no seu prato, isso um desacato pra ele, a ponto de quase ter um infarto e morrer ali na hora, no ato. Ah, isso é outro fato. Vamos fazer um trato: conto na outra, tá? Grato! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

 Imagem a arte do pintor britânico William Holman Hunt (1827-1910).
 
Veja mais William Shakespeare, Casanova, Rainha Zenóbia, Hans Christian Andersen, contos de Magreb, Émile Zola, Federico Fellini, Max Ernst, Emmylou Harris & Harriet Hosmer aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e escultor alemão Max Ernst (1891-1976).
Veja mais aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, abril 02, 2015

TERESA CÁRDENAS, SARAMAGO, ANDERSEN, ZOLA, SHAKESPEARE, CASANOVA & UMA DE DUAS

 


UMA DE DUAS (OU A FILHA PERDEU O PAI & A DOR DA IRMÃ CAÇULA) – Imagem: Mulher sentada, do pintor francês Georges-Pierre Seurat (1859-1891) – O primeiro regresso fora doloroso: recebera a notícia do pai hospitalizado sob assistência da irmã caçula. Findava o seu desterro de anos da terra natal e milhares de quilômetros percorridos para se defrontar com uma situação dramática. Moveu Deus e o mundo, resgatou os parentes e, graças a uma assistência milagrosa, o transporte aéreo devolveu-lhe ao amparo do exílio voluntário. Era onde se sentia em casa e dedicar-se à enfermidade paterna. Seus esforços resultaram inúteis e tudo começou com a amputação do dedo mindinho do pé esquerdo; depois a lombada do pé, a metade da canela, nem mais coxa para uma muleta. Logo se foi a outra perna, destruindo o ventre, os pulmões, as faces. Restaram as sobrancelhas pro velório, choros solidários entre as irmãs. Meses depois, a irmã caçula alegou precisão de desanuviar e rever as amigas de infâncias. Não havia mais parentes na terra natal, mesmo assim ela bateu o pé na insistência e, por fim, foi-se na viagem. A solidão reinou por um bom tempo, até que o telefone estridulou com uma notícia para lá de desagradável. Era a vez do segundo regresso para a localidade que ganhara prestígio na sua antipatia. Durante a viagem teve de trocar de condução e, à espera do ônibus, encontrou-se com uma estranha que logo abriu conversa. Desabafaram, lavaram a alma juntas, choraram suas sinas. Dali em diante seguiram juntas até tomarem destinos opostos com o desembarque. Promessas mútuas de reencontro, desejo de boa sorte e até mais. Chegou ao hospital e, como era enfermeira, logo teve acesso à irmã caçula em coma. Que houve? Estupro, espancamento torturante. Quem fizera isto? Sabe-se apenas que o responsável por aquele crime havia sido preso, não sabendo-se de quem se tratava. Jurou vingança, mas ocupou-se logo nas providências de cuidar da irmã e logo transferi-la para o seu habitat. Não foi fácil, demorou-se a recuperação e, desta vez, a assistência milagrosa não aconteceu. Mais de um mês e meio depois, faziam a viagem de volta num ônibus. Resignada compreendeu que seus últimos anos seriam apenas para servir dos cuidados familiares e assim havia de ser, afinal a irmã caçula era a última parente que lhe restara. A terra natal não lhe fora nunca berço para existência, tanto que mal adolescera e saiu de casa em busca vida melhor. Tanto lutou que conseguiu emprego e estabilidade. Cada um dos seus parentes foram sucumbindo, findava muito pouco para apagar aquela cidade da memória. Dedicou-se ao que restara com uma jura: nunca mais voltaria ao local onde nascera.  Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Fomos arrancados da África, mesclados, não temos árvore genealógica... Pensamento da escritora cubana Teresa Cárdenas, autora do poema Conte algo que não sei: No princípio, o universo era todo branco. \ Até o dia em que que alguém o puxou por uma ponta e o virou, \ como uma página. \ Foi o que descobri em meus novos escritos. \ São contos do início dos tempos, \ nos quais volto para além da minha ancestralidade \ e recrio o mundo, \ reviro os mitos africanos e os demais. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU:Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara... Pensamento do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

CONTOS DE MAGREB – Na coletânea Contos árabes (Cultrix, 1962), organizada por Jamil Almansur Haddad, encontrei entre os contos de Magreb – histórias populares contadas nas praças da região compreendida entre Marrocos, Argélia e Tunísia -, a História da jovem que nasceu de uma maçã, na tradução do organizador em parceria com José Paulo Paes: Era uma vez uma mulher que nunca tinha tido filhos. Seu marido, que desejava muito que ela os tivesse, dirigiu-se um dia à casa de um feiticeiro e disse: - Minha mulher é estéril. Eu quero um remédio que a cure. O feiticeiro deu-lhe duas maçãs e disse: - Fazei-a comer estas maçãs e ela ficará gravida, porem tu não podes comer. Levando as maçãs achou-as tão belas e tão odorosas que não resistiu à tentação e comeu uma. Depois deu outra à sua mulher. Imediatamente ela ficou grávida: mas à medida que seu ventre aumentava, a perna do seu marido se intumescia e tomava proporções enormes. Enfim, chegou o termo do nono mês: a mulher deu à luz um filho. Quanto ao marido, no mesmo momento as dores o tomavam na perna e de vergonha foi ocultar-se na solidão do deserto. Ao mesmo tempo que a sua mulher dava à luz a seu filho, sua perna fendeu-se e dali saiu uma menina bela como o dia. Ela tinha cabelos tão longos que cobriam inteiramente seu corpo. Sem mais ocupar-se dela, ele a abandonou ali e voltou para casa. Ora, uma gazela seguida dos seus pequenos que ela aleitava, passando por lá, ouviu os vagidos da criança. Aproximou-se, fê-la mamar e adotou-a. a menina cresceu com as pequenas gazelas. Um dia um rei que caçava percebeu o rebanho de gazelas e espantou-se ao ver esse animal estranho que parecia uma menina e vivia em pleno deserto. Fez preparar dois pratos de cuscuz, um com sal e outro sem sal e fê-los depositar perto da fonte onde as gazelas bebiam. E pensou: - Se este ser for humano, comerá o cuscuz salgado; se é uma jenniya comerá a comida sem sal porque os jenniyas não comem comida salgada. No dia seguinte, foi ver o que havia comido esse ser estranho e quando se certificou de que se tratava de um ser humano, procurou caçá-la. Agarrando-a depois, levou-a para casa, vestiu-a de suntuosos vestidos, fez construir um palácio para ela e desposou-a. mas suas outras mulheres, em numero de seis, ficaram muito ciumentas da nova desposada. Mostraram-se, no entanto, muito amigas para afastar dela toda a desconfiança e a atraiam frequentemente para as suas casas. Um dia o rei, vendo reinar concórdia em sua casa, decidiu visitar seus estados e recolher impostos. Recomendou às suas mulheres de bem se entenderem entre elas e partiu. Então elas combinaram a perda da jovem esposa. Um dia elas lhe disseram: - Vem que te pentearemos. A jovem sentou-se perto delas e deixou-se pentear. Mas sucessivamente cada uma delas lhe plantou um alfinete na cabeça e, instantaneamente, a pequena rainha foi metamorfoseada em pássaro e voou sob a forma de pomba. Ora, o rei, antes de sua partida, tinha começado a construção de um pavilhão no jardim e recomendado aos seus trabalhadores que o terminassem antes da sua volta. Mas a partir desse dia, a pomba vinha pousar sobre a parede construída durante a jornada e cantava: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Quando terminou sua queixa, voou e logo o muro, sobre o qual ela havia pousado, ruía. Os pedreiros ficaram muito infelizes e queriam agarrar o pássaro, o que lhes era impossível. Enfim o rei voltou. Quando chegou em casa dirigiu-se logo aos aposentos da jovem rainha que o amava. Achou-o vazio e as mulheres disseram: - Após a tua partida ela foi reunir-se às gazelas. Então o rei quis retirar-se para o pavilhão que havia mandado construir no jardim, e ficou surpreso ao achá-lo inacabado e no mesmo estado em que estava quando de sua partida. Chamou o chefe dos pedreiros e lhe disse: - O que acontece aqui? Merece que te faça cortar a cabeça. Eu havia ordenado terminar a construção quando da minha volta. Nesse momento, a pomba chegou ao muro e pôs-se a cantar: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Depois voou, o muro ruiu e o chefe dos trabalhadores disse ao rei: - Viste a razão. Isto vem acontecendo todos os dias após a tua partida; trabalhamos o dia inteiro e à tarde vem a pomba que canta a sua canção, e o muro tomba. Queríamos agarrá-la mas ela se esquiva e eu nada pude fazer. Então o rei disse: - Num dos quartos que terminaram, ireis pôr todos os grãos que agradam aos pombos, e deixarás as janelas e as portas abertas para que essa pomba possa entrar e alimentar-se. Depois colocou no interior do quarto dois guardas perto de cada entrada, com ordem de fechar as portas e janelas logo que o pássaro entrasse ali. E no dia seguinte ele próprio veio para apanhar a pomba. Mas ela, que o havia percebido na véspera, deixou-se apanhar sem dificuldade. Quando o rei a prendeu, ele pôs-se a chorar e a acaricia-la, e a pomba também cantou sua canção. De repente, passando-lhe docemente a mão pela cabeça, o rei encontrou seis alfinetes e arrancou-os. Logo a pomba retomou a forma de donzela, em toda a sua beleza. O rei apanhou-a nos braços e ambos choraram lágrimas de felicidade. Depois o rei lhe disse: - Conta-me o que houve. E quando ela terminou ele disse: - Decide da sorte delas. Farei o que quiseres. Então ela pediu: - Quero que a primeira seja transformada em trave da entrada do meu quarto, para que eu pise nela todos os dias. A segunda, em cadeira para as abluções para que eu me sente nela todos os dias. A terceira, em outra viga que eu pisarei no banheiro. A quarta, para o mesmo objetivo na cozinha. A quinta, a mesma coisa no estábulo. E a sexta, em tábua para o meu leito. Isto foi feito e ela viveu longos dias felizes com o rei... e minha história acabou. Veja mais aqui, aquiaqui.

Imagem: Pleiades (1920), do pintor e escultor do Surrealismo alemão Max Ernst (1891-1976). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Ouvindo Red dirt girl (Nonesuch/Warner Broos, 2000), da cantora e compositora estadunidense Emmylou Harris.



A LITERATURA DE ANDERSEN – Uma das leituras que povoou a minha infância foi a do escritor dinamarquês de histórias infantis Hans Christian Andersen (1805-1875), que iniciou sua carreira literária escrevendo poesias, publicando o seu primeiro romance Inspirador, em 1837, seguindo-se toda a obra dedicada ao universo infanto-juvenil de grande sucesso até hoje. Veja detalhes aqui, aquiaqui e aqui.

SONETOS DE SHAKESPEARE – No livro Sonetos (Martin Claret, 2006), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), destaco dois deles, o primeiro: Dos seres ímpares ansiamos prole / para que a flor do belo não se extinga, / e se a rosa madura o tempo colhe, / fresco botão sua memória vinga. / Mas tu, que com os olhos teus contrais, / nutres o ardor com as próprias energias / causando fome onde a abundância jaz, / cruel rival, que o próprio ser crucias. / Tu, que do mundo és hoje o galardão, / arauto da festiva natureza, / matas o teu prazer inda em botão / e, sovina, esperdiças na avareza. / Piedade, senão ides, tu e o fundo / do chão, comer o que é devido ao mundo. O segundo soneto: Dois amores – de paz e desespero - / e tenho que me inspiram noite e dia: / meu anjo bom é um homem puro e vero; / o mau, uma mulher de tez sombria. / Para levar a tentação a cabo, / o feminino atrai meu anjo e vive / a querer transformá-lo num diabo, / tentando-lhe a pureza com a lascívia. / Se há de meu anjo corromper-se em demo / suspeito apenas, sem dizer que seja; / mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo / que o anjo no fogo já do outro esteja. / Nunca sabê-lo, embora desconfie, / até que o meu anjo se contagie. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

NANA – O livro Nana: história natural e social de uma família sob o segundo império (Hemus, 1982), do escritor naturalista e libertário francês Émile Zola (1840-1902), é o nono volume da coleção Les Rougon-Macquart, conta a história de uma medíocre artista de teatro que faz fortuna por possuir um corpo de Vênus voluptuosa e vulcânica e se torna uma prostituta de luxo e cortesã da sociedade francesa, atraindo, corrompendo e arruinando ricaços e poderosos que se enfeitiçam por sua beleza. Da obra destaco o trecho: [...] Era ainda a mesma voz avinagrada, mas agora ela to­cava tanto a corda, não diremos sensível, mas sensual do público, que arrancava dele, por momentos, um leve estremecimento. Naná escondera o sorriso, que lhe iluminava a pequena boca vermelha, e resplandecia nos seus grandes olhos, de um azul muito claro. Em certos versos um pouco arrebatados, uma gulodice lhe arrebitava o nariz, cujas narinas róseas palpitavam, enquanto uma chama lhe passava nas faces. Ela continuava a balançar-se, não sabendo fazer mais do que isso. E já não achavam aquilo mau de todo, pelo contrário; os homens assestavam os binóculos. Quando ia terminar a copla, a voz faltou-lhe por completo, e percebeu que não poderia chegar ao fim. Então, sem se inquietar, sa­racoteou as ancas, que desenharam uma forma redonda sob a sua fina túnica, enquanto, de busto dobrado, o pescoço estirado para trás, estendia os braços. Rebentaram aplausos. Imediatamente ela se voltou, tornando a subir, deixando ver a nuca, onde os cabelos ruivos se ordenavam como no velo de um animal; os aplausos tornaram-se furiosos. O final do ato foi mais frio. Vulcano queria esbofetear Vénus. Os deuses estavam em concílio e decidiram proceder a uma sindicância na Terra, antes de atenderem os maridos enganados. Era ali que Diana, surpreendendo as palavras ternas entre Vénus e Marte, jurava não lhes tirar os olhos de cima durante a viagem. Havia também uma cena em que o Amor, representado por uma garota de doze anos, respondia a todas as perguntas: "Sim, mamãe... Não, mamãe...", num tom choramingas, com os dedos no nariz. Depois, Jú­piter, com a severidade de um professor que se enfada, fechava o Amor num quarto escuro, ordenando-lhe que conjugasse vinte vezes o verbo amar. O final agradou imenso, um coro em que a companhia e a orquestra se saíram brilhantemente. Mas descia o pano, e a claque tentou em vão obter uma volta; toda a gente se levantara, dirigindo-se já para as portas.Veja mais aqui, aquiaqui.

CASANOVA DE FELLINI – O aventureiro e escritor italiano, Giovani Jacopo Casanova (1725-1798), envolveu-se em inúmeras intrigas e aventuras com jogatina e libertinagens, desde o seu interesse pela carreira eclesiástica, findou expulso do seminário de Veneza. Depois tornou-se secretário de um cardeal, soldado, violinista, viajante, sendo, então, adotado por um rico senador, empenhando-se na busca da pedra filosofal. Com novas viagens finda preso e condenado pela Inquisição por magia, impiedade e maçonaria. Encerrado na prisão dos Piombi, consegue, ao cabo de cinco meses de maquinações, uma espetacular fuga para Paris onde introduziu a loteria e torna-se financista, quando faz grande fortuna até montar uma fábrica de tecidos que lhe arruína. Passa então a viajar por toda Europa, adotando o nome de Chevalier de Seingalt até ser expulso novamente de Veneza, fixando-se no castelo de Dux como conservador da biblioteca, aonde escreve suas famosas memórias. Tornou-se autor de versos, libretos de ópera, trabalho de matemática e filologia. Nas suas memórias ele descreve a vida dissoluta que levou e o mundo que conheceu. Pelo grande número de conquistas amorosas que narra, seu nome tornou-se tão provençal quanto o de Don Juan. Essas memórias foram publicadas em alemão, em 1882. Foi considerado por muito tempo como um autor pornográfico, obtendo reconhecimento posterior de grande escritor, pelo destaque de suas memórias que apresentam um retrato vivo da vida e dos costumes da Europa no sec. XVIII. Em 1976, o cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) realiza o filme contando sua história, com roteiro do próprio diretor e de Bernardino Zapponi, e música de Nino Rota. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


HOMENAGEM DO DIA
RAINHA ZENÓBIA
Imagem: Zenobia in Chains (1859) da escultora estadunidense Harriet Hosmer (1830-1908). Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

A bela, guerreira e digna Zenóbia (Bat-Zabbai, sec. III), rainha de Palmira que foi derrotada, levada prisioneira para Roma pelo Imperador Aureliano. Veja mais aquiaqui.


Veja mais sobre:
As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

E mais:
Dalzuíta: o infortúnio da prima da Vera aqui.
Os pipocos da loucura de Robimagaiver aqui, aqui e aqui.
A paixão avassaladora quando ela é a terrina do amor aqui.
Brincarte do Nitolino, O calor das coisas de Nélida Piñon, a poesia de Augusto dos Anjos, a música de Igor Stravinski, a pintura de Joan Miró, o teatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farme, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabús aqui.
Cordel do meio ambiente aqui.
Na avenida Jatiúca, Maceió, O império do efêmero de Gilles Lipovetsky, a História da feiúra de Umberto Eco, o Deserto do real de Slavoj Žižek, Moema, a música de Quinteto Armorial, a poesia de Juareiz Correya, a pintura de Victor Meirelles & Felicien Rops, o cinema de Michael Winterbottom & Anna Louise Friel aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
Mais que tudo o amor, a poesia de Pablo Neruda, o teatro de Antonin Artaud, o pensamento de Pierre Gringore, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, Mariza Lourenço & Luciah Lopez aqui.
Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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quarta-feira, setembro 03, 2008

RIMBAUD, MÉSZARÓS, CORNEILLE, MAX ERNST, MARYNA TIMCHENKO, LITERÓTICA & KARYME HASS

 
Art by Maryna Timchenko

LITERÓTICA: ENGATINHANDO NA NOITE AZUL – De repente tudo fica deliciosamente excedente entre nós. A dimensão dela deixa tudo com ar de fantasia cosmogônica num idílio para lá de transcendental. E isso era mais que um sonho real. Toda a via-láctea ali, ao nosso dispor. E ei-la linda mameluca com sua angélica brancura na noite azul, com sua franzinice primaveril e uma gula gigantesca no seu olhar Sinéad O´Conoor, com as querências inauditas dos seus desejos mais secretos. Tímida com o querer maior que o mundo. Parceira de ir além da última curva do universo. Por um lapso de tempo nos espreitamos atraídos pelo mútuo ardor das carnes incendiadas de paixão. Quase não ser possível manter-me distante da sua provocação corpórea nua, com seus peitinhos de goiaba-boa que me enche a boca d´água e deságua no meu sexo como lança pronta para desferir o golpe certeiro. Impossível desgrudar daquele corpo que é um verdadeiro aconchego de gozo. Para minha grata surpresa, ela arqueia e sai engatinhando na minha direção: língua lambendo os beiços, olhos imantados no meu sexo. Ousei uma artimanha: recuei dificultando sua chegada. Mas ela engatinhou e sorriu safada como quem se dispunha a bordejar genuflexa entre as estrelas oníricas do nosso cenário jubiloso. Perseguiu firme ela por todos os cantos da cama, perseverou com desassossego até que com seu jeito Cristina Kirchner, fermento do meu desejo a me envolver e se apoderar da minha emanação total, levando-me pelos limites do prazer. É quando ela jura todo o seu amor eterno e perjurando das suas para batizar-se nas minhas crenças, a se entregar por inteiro como quem vai pro carrasco no cadafalso da sua última hora. Ah, como tudo é tão bom! Bom demais. Muito demais. É quando todas as delícias degustadas, exauridas e satisfeitas, ela tão Marina Lima sela o nosso amor com um beijo de paixão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.


DITOS & DESDITOSQuando a razão dorme, as sereias cantam. Pensamento do pintor e escultor do Surrealismo alemão Max Ernst (1891-1976). Veja mais aqui.

ALIENAÇÃO – [...] É função essencial das mitologias transferir problemas sócio-históricos fundamentais do desenvolvimento humano para um plano atemporal, e o tratamento judaico-cristão da problemática da alienação não é exceção à regra geral. Ideologicamente mais típico é o caso de certas teorias da alienação do século XX, nas quais conceitos como “alienação do mundo” têm a função de negar categorias históricas autênticas e substituí-las pela pura mistificação [...]. Trecho da obra A teoria da alienação em Marx (Boitempo, 2006), do filósofo húngaro e um dos mais importantes intelectuais marxistas da atualidade István Mészarós. Veja mais aqui.

LA SUIVANTE[...] Amo seguir as regras; mas longe de mim tornar-me escravo delas, eu as afrouxo e as estreito de acordo com a necessidade que tem o meu tema, e quebro mesmo sem escrúpulos aquela concernente à duração da ação, quando a sua severidade parece-me absolutamente incompatível com as belezas dos acontecimentos que descrevo. Saber as regras e entender o segredo de manejá-las habilmente em nosso teatro são duas ciências bem diferentes; e talvez agora, para alcançar êxito em uma peça, não seja suficiente estudar os livros de Aristóteles e de Horácio. [...] Contudo o meu parecer é o de Terêncio: dado que fazemos poemas para serem representados, o nosso primeiro objetivo deve ser o de agradar a corte e o povo e de atrair um grande número de pessoas para as representações. É necessário, se possível for, nelas acrescentar as regras, a fim de não desgostar os doutos e receber um aplauso universal; mas, sobretudo, ganhemos a voz pública; de outro modo, a nossa peça em vão será regular; se ela sucumbir no teatro, os doutos não ousarão se declarar a nosso favor, e preferirão dizer que nós entendemos mal as regras, que oferecer-nos elogios quando somos desacreditados pelo consentimento geral dos que veem a comédia apenas para divertir-se. [...]. Extraído da obra Théâtre complet (Bordas, 1993), do dramaturgo do Neoclassicismo francês Pierre Corneille (1606-1684). Veja mais aqui.

SONETO DO BURACO DO CUFranzida e obscura flor, como um cravo violeta, / Respira, humildemente aninhado na turva / Relva úmida de amor que segue a doce curva / Das nádegas até ao coração da greta. / Filamentos iguais a lágrimas de leite / Choraram sob o vento ingrato que as descarna / E as impele através de coágulos de marna / Para enfim se perder na rampa do deleite. / Meu sonho tanta vez se achegou a essa venta; / Do coito material, minha alma ciumenta / Fez dele um lacrimal e um ninho de gemidos. / É a oliva extasiada e a flauta embaladora, / O tubo pelo qual desce o maná de outrora, / Canaã feminil dos mostos escondidos. Poema do poeta Arthur Rimbaud (1854-1891). Veja mais aqui.


Art by Maryna Timchenko


MUSA DA SEMANA: KARYME HASS
KARYME HASS – A linda cantora, interprete e compositora paranaense Karyme Hass é uma artista das mais promissoras.Ela lançou seu primeiro cd “Tempo de gritar”, álbum independente aos 21 anos de idade. Depois lançou o cd “Amor solene”, realizando shows e levando ao público o seu trabalho que mistura pop, bossa, MPB e eletrônica. Eis algumas letras das canções dela.




CARNE VERMELHA

EI!Feche a porta e venha fazer um carinho em mim;
Fique a vontade, pois só esta noite é que vai ter sim;
A vida ao teu lado não está nada fácil;
Meus planos, meus sonhos escorrem pelas mãos;
Te provei vai embora, você é só carne eu não to com fome não;
Você pensa que eu não vou embora, que eu não sumo;
Que não sei viver no rumo;
Sem o teu dinheiro entrar;
Minha cama não mais nossa, não há quem possa;
Agüentar essa cachaça todo dia;
De manhã quando o sol vai levantar;
Sei lá, sei lá, sei lá não sei;
To indo embora pra bem longe eu te falei!
Sei lá, sei lá, sei lá, não sei, não;
Na tua vida eu vou faltar, mas passe bem!
Sei lá, sei lá, meu bem eu sei sim;
To indo embora da tua vida e passe bem!


ESTRADA DE FLORES

Não me encontro neste dia;
O meu nome não é o mesmo;
A cidade está vazia;
A minha vida está tão cheia;
Ouço a voz de uma montanha;
Me dizendo pra partir;
Dessa gente que não explode;
Que não sabe sorrir;
Eu vou, vou pegar uma estrada estranha;
Eu vou me perder de vez no meu país;
Eu vou mergulhar no mar os meus problemas;
Eu vou respirar.
Tomo vento no meu corpo;
Sinto o sol e a maresia;
Me completo pouco a pouco;
Eu me enxergo neste dia;
Eu agora vejo flores;
Já sou parte desse mundo;
Faço pouco do meu tempo;


ESTRANHO ESTAR

Eu aqui sem sorrir;
Num mudo mundo;
Não ouço mais;
Sentimento me trai;
Fico longe de tudo;
Longa noite que acorda meu sono;
Sempre aberta minha mente está;
Mas eu não entendo estar;
Você ontem me prometeu quase tudo;
E teu corpo se uniu ao meu, fato profundo;
Beijou saiu, deixou meu quarto vazio;
A solidão me incomoda então, de manhã espero você ligar


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