quinta-feira, março 21, 2019

JOÃO UBALDO RIBEIRO, SLAVOJ ŽIŽEK, OSWALD DE ANDRADE, CHICO LUDERMIR & CADÊ O MAESTRO?


CADÊ O MAESTRO? - Dé de Duda ficou órfão aos dez anos de idade, coitado. Situação horrível: sem pai, nem mãe, parentes ou aderentes, todos pereceram num incêndio na comunidade de lona, ele o único sobrevivente no meio das cinzas. Pra sorte dele, logo um casal francês passava para ver a tragédia e comiserou dele num burocrático processo de adoção, quase um ano de lengalenga e, finalmente, foi embora. Cinquenta anos depois, lá estava ele: um retorno às raízes. Agora não mais Dé de Duda, era o afamado maestro Denilson Lawrence, conhecido no mundo todo, menos ali. Agora com sua coleção de fraques, cartolas, piteiras, bengalas, suspensórios, adorava vestir-se assim, pra lá e pra cá. Adquiriu de pronto a casa que supunha ter nascido e fez negócio com outras duas vizinhas de cada lado. Um casarão para morada, com um amplo espaço, cheio de instrumentos, estantes e partituras. Larali lará. Queria dar aulas, oportunidades praquela gente. Ao ver a mocinha sonsa passar, ei, seus olhos quase pularam fora. Como é seu nome? Dudinha. Quantos anos você tem? Dezessete. Quer trabalhar para mim? Sim. Cadê seus pais? Tão ali. E dirigiu-se a ele: É o senhor o pai dela? Sim. E daí? Quero contratá-la para trabalhar lá em casa, pode ser? Pago adiantado. E foi logo sacando dos bolsos um molho de dinheiro. O pai estava pronto para obstar com briga e tudo, mas quando deu fé das cédulas contadas no pau da venta, só notas de cem, arregalou os olhos. Pronto, está aqui, tome, um mês adiantado. Ah, pode levar, ela é toda sua. Todo mês, em dia de hoje, estarei aqui! Dito e apalavrado. Mais do que certo, patrão, o senhor manda. Vamos. E levou a mocinha. Sabe onde é minha casa? Sei. Vá pra lá, volto já. Ela foi e ele dirigiu-se à loja mais próxima, comprou vestidos, cosméticos, produtos de higiene pessoal e saiu cheios dos pacotes. Ela lá, sentada no batente da casa. Vamos! Entraram. Já pro banheiro, tire a roupa, tome sabonete, passe shampu, assim, assado, ela mal sabia usar aquilo, ele foi lá, excitado, ela embaixo do chuveiro, esfregou os cabelos, as costas, os braços, os seios, as partes pudendas, lave-se bem, quero arrumada e cheirosa, viu? Aprendeu? Ah, assim. E banhava de novo ensinando a como se lavar. Pronto! Deu-lhe o vestido, apalpou, rodopiou, ajeitou, penteou e deixou-la toda arrumadinha. Agora sim. Passou a rotina da casa, como queria isso e aquilo, varrição, limpeza, não mexa nisso nem naquilo, comida assim e assado. Agora vá. Foi até a varanda e saiu juntando uns meninos da comunidade para que aprendessem a tocar alguma coisa, aulas e nada, até um deles chamar sua atenção e, ao dispensar os demais no final da aula, pegou-lo pelo braço e levou pro banho. Vamos, se banhe, tire a roupa, vá! Lave a cabeça, tire os grudes, esfregue o couro. Ah, não sabe! Peraí que vou ensinar. Foi aí que viu que o menino era pintudo. Como é seu nome? Zé. Quantos anos? Treze. Quero falar com seu pai! Ele morreu. Sua mãe, também. Teve piedade, como ele, órfão. Ah, você vai ficar para ajudar Dudinha. E lavava e esfregava o menino todo, principalmente o pênis bem expressivo. Bora, já pras obrigações, chispa! Assim, os dias, as aulas, o tempo, dormiam na mesma cama de casal dele: os três nus, ele às costas dela, Zé às costas dele, tudo encangado. Ensinava pacientemente a todos a ouvirem Mozart, Beethoven, Dvorak, aos beliscões, demonstrava paixão pela obra de Mahler, morria de amores pela Jocy de Oliveira, mas ela nunca deu bola pra ele, e quem passasse ele chamava para ouvir Villa-Lobos, Stravinsky, uma vez até me pegou pelo braço e me fez ouvir o Pierrot Lunaire de Schönberg, ou o Klang do Stockhausen ou as Paisagens imaginárias de Cage, sempre olhando pra mim: Hem? Não entendia nada. Aquilo era um horror e ele maravilhado. Era assim, meio doidão, e tinha paroxismos ejaculatórios com o Le Poème de L’Extase de Scriabin, tantas vezes lavado de suor e completamente arrebatado. Aliás, regia sozinho tudo que ouvia e entrava em transe, descabelado, enlevado. Durante o dia quebrava muita cabeça com os alunos e nada deles aprenderem, nem na marra,contudo persistia, até descobrir que só Zé se insinuava indo bem na coisa de lidar com música e um outro claudicante. Estafante, todavia, feliz da vida. Durante a noite, o sossego entre os dois amores praticamente adotados, crescendo irmanados. Foi, então, já próximo ao carnaval, ouviu duma orquestra desleixada no frevo rua abaixo. Saiu chorando, aos gritos: Não é assim que se toca! Pararam, assutados. Quem é o maestro desse troço? Morreu. Então agora sou eu, entrem. Não sabia ele quem eram Os Assassinos do Frevo. Pronto, danou-se tudo. Mas organizou a turba. Ano após ano ele lá na frente, regendo, a cada folia de carnaval. Fizeram até um coreto para ele se apresentar todo final de semana com a sua orquestra de meninos. Era ele a principal atração de todos os festejos, suas estranhices, pulinhos, soberba, agito. Todos queriam ver dele as maiores presepadas. Só que no último carnaval, tudo pronto, fantasias, músicos, o povão todo esperando, cadê o maestro? Havia um alvoroço no ar, todos queriam saber o que ele aprontaria dessa vez, prefeito, bispo, delegado, tudo apinhado embaixo do coreto, cadê o homem, hem? A espera, os cambitos, a inquietação. Lá vem um na carreira e dá a notícia. Como? Achou de bater as botas justo hoje, terça-feira de carnaval, meu? Como é que pode? Ah, não! Acorda, ele tem que reviver pra festa, ora! Sacode o homem, vai. Adianta não, babau. Dá uns sopapos que ele acorda! Morreu mesmo? Mortinho da silva. E agora? O desejo dele: cortejo com frevo e muita folia. Não deu outra, assim foi sepultado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] hoje em dia, apressamo-nos a renunciar à noção de ideologia: acaso a crítica da ideologia não implica um lugar privilegiado, como que isento das perturbações da vida social, que faculta a um sujeito-agente perceber o mecanismo oculto que regula a visibilidade e a invisibilidade sociais? A pretenção de podermos aceder a esse lugar não será o exemplo mais patente de ideologia? Por conseguinte, no que se refere ao estado atual da reflexão epistemológica, a noção de ideologia não será auto-invalidante? Assim, por que havemos de nos apegar a uma ideia de implicações epistemológicas tão patentemente ultrapassadas (a relação de “representação” entre o pensamento e a realidade etc)? [...]. “Ideologia” pode designar qualquer coisa, desde uma atitude contemplativa que desconhece sua dependência em relação à realidade social, até um conjunto de crenças voltado para a ação; desde o meio essencial em que os indivíduos vivenciam suas relações com uma estrutura social até as ideias falsas que legitimam um poder político dominante. Ela parece surgir exatamente quando tentamos evitá-la e deixa de aparecer onde claramente se esperaria que existisse. [...].
Trechos extraídos da obra Um mapa da ideologia (Contraponto, 1996), do filósofo, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Žižek. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O REI DA VELA
[...] Os mesmos e Abelardo II - ABELARDO I - Meu alter ego! Foi um suicídio autêntico. Abelardo matou Abelardo. ABELARDO II (Fingindo-se possesso de surpresa, deixa rolar a lanterna, enquanto Heloísa, na mesma posição, recomeça os soluços intérminos) - Mas que houve? Que foi? O que é isso? Meu Deus. (Aperta o botão da luz) Curto-circuito! ABELARDO I - Não. Foi você que quebrou ladrão de primeira viagem! Fez bem! Pouparemos a luz elétrica. A conta do mês passado foi alta demais! Acenda todas as velas! Economia em regressão. As grandes empresas estão voltando á tração animal! Estamos ficando um país modesto. De carroça e vela! Também já hipotecamos tudo ao estrangeiro, até a paisagem! Era o país mais lindo do mundo. Não tem agora uma nuvem desonerada... Mas não irá ao suicídio... Isso é para mim. ABELARDO II - Por que fez essa loucura? ABELARDO I - Um homem não têm importância a classe fica. Resiste. O poder do espiritualismo. Metempsicose social... ABELARDO II - Quer que chame um médico? ABELARDO I - Para quê? Para constatar que eu revivo em você? E portanto que Abelardo o rico não pagará a conta de Abelardo suicida? ABELARDO II - Pode salvar-se ainda. Como fica essa pobre moça... No desamparo. (Heloísa soluça fortíssimo) Quer um padre? Pode ainda realizar o casamento... ABELARDO I - Que necessidade tem você de casar com a minha viúva... Vai tê-la virgem! e de branco... ABELARDO II - Virgem! Heloísa virgem!(Heloísa diminui os soluços) ABELARDO I - Se o Americano desisti do direito de pernada... ABELARDO II - De pernada? ABELARDO I - Sim, o direito á primeira noite. È a tradição! Não se afobe, pequeno-burguês sexual imaginoso! Não se esqueça que estamos num país semicolonial. Que depende do capital estrangeiro. E que você me substitui nessa copa nacional! Diga, onde escondeu o dinheiro que abafou?... ABELARDO II - Que dinheiro? ABELARDO I - O nosso. O que sacou ás dez horas precisas da manhã.O dinheiro de Abelardo. O que troca de dono individual mas não sai da classe. O que, através da herança e do roubo, se conserva nas mãos fechadas do ricos... Eu te conheço e identifico, homem recalcado do Brasil! Produto do clima, da economia escrava e da moral desumana que faz milhões de onanistas desesperados e de pederastas... Com esse sol e essas mulheres!... Para manter o imperialismo e a família reacionária. Conheço-te, fera solta, capaz dos piores propósitos. Febrônio dissimulado das ruas do Brasil! Amanhã, quando entrares na posse da tua fortuna, defenderás também e sagrada instituição da família, a virgindade e ao pudor, para que o dinheiro permaneça através dos filhos legítimos, numa classe só... ABELARDO II - Eu sempre defendi a tradição... e a moral... ABELARDO I - E defende também a casa feudal!... Se salvares a fazenda das unhas militarizadas do Perdigoto, conserva a Casa da família. Não reformes nada! A casa feita para ter muitos criados, um resto de mucamas e negras velhas, lembrando o tronco! E um grande quarto frio para dois seres que se traem e se detestam dormindo na mesma cama e orando no mesmo oratório. A casa antiga, colonial, um mundo que resiste! Mais que eu... Foi a bala do cano que penetrou profundamente, a primeira... As outras rodearam o coração! Que dor... Decerto é porque o coração ficou intacto... O coração, esse útero do homem, onde a gente gera os filhos mais caros... a ambição, o amor, o desespero, a vontade de viver... a literatura... Escuta, Abelardo! Abandonaste o socialismo? ABELARDO II - Faço-lhe presente dele! ABELARDO I - Mas eu não aceito. Neste momento eu quero a destruição universal... O socialismo conserva... ABELARDO II - Virou Bolchevista! São todos assim... Quando era o grande milionário e emprestava a 15% os mês e eu lhe falava dos ideais humanitários e moderados do socialismo, caçoava. Conhecia tudo, lia tudo, mas se ria... Agora... ABELARDO I - Sempre soube que só a violência é fecunda... Por isso desprezei essa contrafação. Cheguei a preferir o facismo do Perdigoto. Mas agora eu queria outra coisa... ABELARDO II - O comunismo... ABELARDO I - Para te deixar um veneno pelomenos misturado com Heloísa e os meus cheques. Deixo vocês ao Americano... E o Americano aos comunistas. Que tal o meu testamento? ABELARDO II - São todos assim como você, passam para o outro lado quando estão arruinados! ABELARDO I - È um erro teu! Se todos fossem como o oportunista cínico que sou eu, a revolução social nunca se faria! Mas existe a fidelidade a miséria! Eu estou saindo da luta de classes... Já está ai a marca onde o meu corpo vestido e inerte substituirá o corpo voluptuoso de Heloísa.. Mas se sarasse... regressava à arena na posição que ocupei. Não aderia... Talvez mudasse de dono. Voltava a trabalhar para o imperialismo inglês... ABELARDO II - Pão- duro... ABELARDO I - Pão amanhecido! ABELARDO II - Eu fui o teu obstáculo! ABELARDO I - Mas a tua vida não irá muito além desta peça... ABELARDO II - Ma matas? ABELARDO I - Para quê? Outro abafaria a banca. Somos... uma barricada de Abelardos! Um cai, outro substitui, enquanto houver imperialismo e diferenças de classes... ABELARDO II - Ora, que sujeito! Fazendo visagem na hora da morte! ABELARDO I - Não sou nem sequer um demagogo. Esta cena é ainda um episódio da concorrência. Uma briga burguesa. Eu quero, mesmo depois da morte, te suplantar na memória dela que vai ser tua mulher. ABELARDO II - Minha mulher? ABELARDO I - Como meu irmão será o teu advogado! (Silêncio) [...] UMA VOZ (Grossa, terrificante, da porta escancarada que mostra a jaula vazia) - Eu sou o corifeu dos devedores relapsos! Dos maus pagadores! Dos desonrados da sociedade capitalista! Os que têm nome tingido para sempre pela má tinta dos protestos! Os que mandam dizer que não estão em casa aos oficiais da justiça! Os que pedem envergonhadamente tostões para dar de comer aos filhos! Os desocupados que esperam sem esperança! Os aflitos que não dormem, pensando nas penhoras. (Grita) A Amé-ri-ca - é - um - ble-fe!!! Nós todos mudamos de continente para enriquecer. Só encontramos aqui escravidão e trabalho! Sob as garras do imperialismo! Hoje morremos de miséria e de vergonha! Somos os recrutas da pobreza! Milhões de falidos transatlânticos! Para as nossas famílias, educadas na ilusão da Amé-ri-ca, só há a escolher a cadeia ou o rendez-vouz! Há o sui-cí-dio também! O Sui-cí-dio... ABELARDO I - É a revolução... Fogo! façam fogo... Silêncio pesado. Os soluços de Heloísa aumentam. [...].
Trecho extraído do 3º Ato da peça teatral O rei da vela (Globo, 1998), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A FOTOGRAFIA DE CHICO LUDERMIR
A arte do jornalista, escritor e artista visual Chico Ludermir. Veja mais aqui.
&
A obra do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


quarta-feira, março 20, 2019

GRACILIANO, BATESON, LENDA AFRICANA, CANTOCHÃO, CIRANDA & LIA DE ITAMARACÁ


CANTOCHÃO – Um diácono palestrava sobre o cantochão para uma plateia atenta. Falava das origens e transformações dos cantos moçárabe, ambrosiano ou gregoriano, desenvolvidos pelos monges reginaldinos, lá nos primórdios medievais. Empolgado em sua exposição, alguém da plateia fez sinal e ficou com a mão levantada, até interrompê-lo. Pois, não? O solicitante mencionou ao orador haver nas imediações da rodovia, uma placa com a inscrição cantochão no acostamento. O conferencista admirou-se da informação, alegando a possibilidade de um sinal de algum mosteiro existente nas proximidades o que, para ele, seria salutar se pudessem depois levá-lo até lá. O discurso prossegue e, ao término da conferência, um volumoso grupo se ofereceu de levá-lo ao local indicado, vez que todos mais ou menos sabiam onde era tal localização, muito embora desconhecessem a presença de monges pela redondeza. Isso não era problema, pois, providenciaram uma condução e na noite seguinte se dirigiram pela rodovia até a placa indicadora. Lá chegando, entraram na rodagem e deram num casarão aparentemente suspeito, com uma luz vermelha e, ao que parece, segundo comentário de um dos ocupantes, mariposas famélicas seminuas na entrada. Aqui não, com certeza. Realmente, não pode ser. Vamos adiante. Limítrofe ao suspicaz ambiente, havia uma outra edificação que dava ideia de uma mansão abandonada e em ruínas, que poderia ser sinal da austeridade dos monges que ali podiam viver, imaginavam. É, pode ser. Estacionaram o veículo e um deles desceu até a porteira e logo avistaram uma anciã inquieta de um lado a outro da janela, como se brincando de lá e cá, observando-os. É aqui a casa de Jesus? Hem? Um deles falou e ela não ouvia, como também não ouviam o que ela dizia. Quando mais ou menos entenderam: Aquele safado é ladrão, me roubou aqui e se vierem pra me matar, eu atiro em vocês. Estranharam o linguajar dela e dois outros desceram, o que fez com que a senhora da janela ficasse mais inquieta. Minha senhora, estamos falando de Jesus? O José? Jesus! Ah, o salafrário tá aí no cantochão com as safadas da laia dele. E apontava para o local que haviam passado. Jesus? Sim, esse safado mesmo, vão lá, ele tá lá e vejam! Entreolharam-se, essa velha deve ser louca. E ela repetia: Está aí mesmo, o safado tá aí, vão lá! E foram poque notaram que a macróbia já assustada empunhava uma espingarda. Entraram todos no veículo às pressas, fizeram a volta rapidamente e foram até a área duvidosa mencionada, onde, segundo a doidona, Jesus estava. Aproximaram-se desconfiados e logo avistaram lá dentro a placa “Cantochão”, manuscrita no interior do salão numa rústica placa de madeira. Será que estão com algum ritual que desconhecemos lá dentro? Estacionaram e logo três das aparentes vulgívagas seminuas se aproximaram, recepcionando a comitiva. Cantochão? Sim, aqui mesmo, podem entrar, a função acontece lá dentro e Monge aparece já já. Ah, tudo bem! É aqui mesmo, vamos conhecer o monge. Uma das madames dirigiu-se a uma delas: E vocês quem são? Somos as Vestais de Monge. Ah, tá. Virou-se para outra madame e sussurrou: Deve ser de algum ritual antigo mesmo, são vestais, por isso essa vestimenta estranha. A outra sorriu e nem entendeu direito, nem perceberam os demais quando uma delas gritou lá pra dentro: Organiza o puteiro aí que chegou uns casacudos com umas granfinas no pedaço, mundiça! Estavam os visitantes completamente exultantes, quando uma das fiéis perguntou para outra delas: E a senhora aí do lado? Ah, ela é a velha doida, é tia de Monge, ela tem mania de que é roubada, piração total. Nem ligue pra ela. Ah, tá. Então todos desembarcaram, ajeitaram suas vestes, esticaram as canelas e subiram calmamente e com certa algazarra a escadaria que dava para um amplo salão com uma luz vermelha ao centro. Quase nem dava direito para ver o que havia ali de tão escuro. As anfitriãs encaminharam todos para os assentos ao lado, perguntando se queriam beber alguma coisa. Vinho! É pra já. Enquanto eram servidos, relaxavam e brindavam. Nem deu tempo do vinho queimar as orelhas dos presentes, o levita impaciente cochichou no ouvido de um que estava ao seu lado: Parecem mais marafonas essas vestais, não acha? Hem? Mais parecem pécoras! Hem? Rascoas, não acha? Hem? Putas, ouviu? Gritou e todos ouviram. Era a senha, eles não sabiam. Imediatamente um holofote se acendeu e apareceu uma ruma de dançarinas sensuais ao som estridente de uma radiola de ficha com o maior jogo de luz, e o fuá comeu no centro. As odaliscas faziam mesuras para todos, sentavam nos colos dos homens, ou puxavam as mulheres para desatacá-las blusas e vestidos dos seios à mostra, fazendo-as remexer os quadris de forma sensualmente deliberada. Os homens pareciam uns donzelões de primeira vez e com a língua de fora. As mulheres nunca se viram tão exaltadas, a ponto de dançarem com as saias na cabeça, um espetáculo. O que o vinho não faz a um cristão, isso depois de umas duas ou três garrafas esvaziadas, avalie. A coisa arrepiou. Um dos convivas virou-se pro eclesiástico: Isso é que é mosteiro, homem, um paraíso! O céu existe! Foi aí que adentrou ao recinto o Monge, isso embaixo do maior zoadeiro: Quem é o chefe da comitiva? Hem? Que é o chefe? Eu! Como é que é: vai comer as que trouxe ou vai torar as minhas? Hem? Que horas começa a suruba, porra? Bem moderninho esse monge, diz cada coisa! Monge virou-se e chamou um dos capangas: Fica aí de olho nesse povinho embecado, organiza essa putaria e se saírem da linha, já viu né? Sim, senhor. A orgia soltou-se de virar a madrugada, o dia já amanhecia. Aos olhos cristãos deles, na vera, nem deram fé que o céu poderia ser um inferninho. Hem? Quem diria. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Nada – aquilo que não é – pode ser uma causa... Lembre que zero é diferente de um e porque zero é diferente de um, zero pode ser uma c a usa no mundo psicológico, o mundo da comunicação. A carta que você não escreve pode receber uma resposta zangada e o imposto de renda que você não declara pode iniciar uma ação energética dos técnicos da Receita Federal, porque eles também tomam seu café da manhã, comem seu almoço, chá e jantam e podem reagir com a energia que deriva de seu metabolismo. [...] É compreensível que, em uma civilização que separa mente e corpo, nós deveríamos tentar esquecer a morte ou fazer mitologias a respeito da sobrevivência da mente transcendental. Mas se a mente é intrínseca não apenas naqueles caminhos da informação que estão localizados dentro do corpo, mas também em caminhos externos, então morte toma um aspecto diferente. O nexo do indivíduo de caminhos que eu chamo “mim” não é mais tão precioso, porque este nexo é somente parte de uma mente maior. As idéias que pareciam ser podem também se tornar intrínsecas em você. Elas podem sobreviver – se for verdade. [...].
Trechos extraídos da obra Passos para uma ecologia da mente (Steps to na ecology of mind. Ballantine,1972), do biólogo, pensador sistêmico, epistemólogo da comunicação e antropólogo inglês Gregory Bateson (1904 – 1980). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Estava na beira da praia
Ouvindo as pancadas das águas do mar
Esta ciranda quem me deu foi Lia
Que mora na ilha de Itamaracá
A ciranda é uma dança típica das praias do litoral pernambucano e que surgiu simultaneamente no interior da Zona da Mata, pois neste estado é uma dança de roda comunitária que conta com a participação das mais diversas faixas etárias, os quais são denominados de cirandeiros. Entre os participantes também contam o mestre, o contra-mestre e os músicos, utilizando instrumentos como bombo ou zabumba, mineiro ou ganzá, maracá, caracaxá ou chocalho, a caixa ou tarol, cuíca, pandeiro, sanfona e algum instrumento de sopro. A origem do nome é atribuído ao vocábulo espanhol zaranda, que significa instrumento de peneirar farinha, uma evolução da palavra árabe çarand. O mestre “tira as cantigas”, improvisa versos, toca o ganzá e preside a brincadeira, utilizando um apito pendurado no pescoço para organizar as funções. Os passos mais difundidos são a onda, o sacudidinho e o machucadinho, afora criação de passos e movimentos de corpo obedecendo a marcação. Uma das cirandeiras mais famosas é a dançarina, cantora e compositora Lia de Itamaracá (Maria Madalena Correia do Nascimento) que, em seu aniversário, 12 de janeiro, por força da Lei Municipal 1.213/2012, passou a ser comemorado o Dia Municipal da Ciranda e a ilha a Capital da Ciranda. Extraído do estudo Ciranda (Fundaj, 2004), de Lúcia Gaspar. 
Veja mais aquiaqui, aqui & aqui.

A CIDADE ONDE NINGUÉM PODE DORMIR
Uma mulher tinha duas filhas. Uma delas desposou um homem que vivia numa cidade onde não era permitido dormir; a outra casou com um de uma cidade onde ninguém podia cuspir. Um dia a mulher preparou um prato de doce para levar à filha que vivia na cidade onde não era permitido dormir. [...] a filha saiu, a mãe, durante algum tempo, conseguiu reavivar o fogo, mas por fim, vencida pela sonolência, deitou-se e adormeceu profundamente. Justamente nesse instante, uma vizinha veio pedir um pouco de fogo e, quando viu a mulher adormecida, exclamou: - Ai de mim! A sogra de fulano-de-tal está morta. Então chamaram os tocadores de tambor, e em breve toda a cidade se juntou diante da casa e abriram uma cova. [...] E, quando chegou a casa, sacudiu a mãe e disse: - Acorda, acorda! – Então a mãe acordou de sobressalto e todos ficaram aterrados, mas logo viram que não tinham de que ter medo, e toda cidade começou a aprender como se dormia. [...].
Trecho extraído das Lendas africanas: o reino do homem (Cultrix, 1967), organizadas por Fernado Correia da Silva. Veja mais aqui e aqui.
&
A obra do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, março 19, 2019

CÉSAR VALLEJO, MARIA RITA KEHL, LOUIS MALLE, JULIETA DE FRANÇA & MAURIZIO RUZZI



DE VÍTIMAS & MACHADO! - Gentamiga, na croniqueta de hoje, pelo menos para mim (ninguém escapa à ignorância, há sempre coisas novas por aí), duas novidades: a primeira, incontestavelmente boa demais, risível. Trata-se do livro 13 vítimas da política brasileira, ou seja, a primeira vítima (ou vítimo ou todas as) da vitória de cada um dos presidenciáveis no pleito de 2018. Já pensou? Se fosse eleito presidente o Daciolo do Pode Olê Olá que nasceu do “milagre termodinâmico do foda-se. Ou foi obra do demônio de Maxwell... Mas alguém vai se foder. Disto não se tem dúvida”. Simplesmente arretado, já imaginou? Mas se o eleito fosse o Avaro que Pode Dias espelhando todos os banheiros públicos com as tintas para disfarçar as reivindicações dos doidos todos! Rir é pouco, eu gargalhei! Ou o Amoêdo Novo Banca Velha e o prisioneiro resistente e libertário do sistema que ameaçava as estruturas do poder! Ora, bote engenho! A do Ciro Denorex – esse nunca me enganou! – e a violência grassando tudo. Que coisa! A do Dindin Meirelles que só tinha paulista na porratoda! O vítimo da Marina que afinal rede não é latrina diante do assassinato de um trabalhador por sua mulher! Impagável. Ah, a posse do cristão Ei-ma-é, é? Sim, e a carta branca pro físico ateu que virou ministro do demônio em pessoa! A do Alckmin Walkman e a “péssima combinação de grande poder e pequenos poderes”; a do Goularzinho Pátria Livre – com o cu na mão do Putin e que ninguém quis pagar pra ver! Ah, a da Vera que caiu com a determinação de encerramento das redes sociais! Sim, a do Haddad nos Trinques do estranho Brasil das funkadas e outras umbigadas de respostas embutidas; ou a do Boulos Fofo dos boatos não confirmados; tudo muito bom, até demais. Pense numa narrativa de criação engenhosa, simplesmente: ótima. Só a do Coiso respondendo ao tarado agente X: “No da mulher deus deixa” ficou por menos. Calma lá! Deixa explicar, ora! Claro, não porque pimenta no furico dos outros não seja só refresco, nada disso. A história está boa demais, no grau mesmo! Só que, para mim (deixo isso bem claro), faltou à posse uma milícia com uns skinheads aloprados, uns hooligans fuderosos e um ressurreto Osama bin Laden de pau duro, dançando com panos azuis e rosa, e se passando por Jesus para a ministra atrepar na goiabeira. Aí sim, estava de bom tamanho, tintim por tintim, do mesmo tope, isso pra mim, tá? Mas, considero: mesmo que ele comesse bosta de cigano todo dia ou qualquer unguento adivinhatório das previsões escalafobéticas, quem adivinharia mesmo no que ia dar a posse real? Estava na casa do imprevisível, todo mundo careca de saber, mas deixa isso pra lá, só detalhe de pirraça dum linguarudo cheio das pregas. Destá. Por fim, ainda, a primorosa Carta ao Homem Futuro que, como o próprio autor diz ser um conto bônus, com toda História de Museu que virou “Papel velho e ressecado, foi uma das primeiras coisas a queimar”. Esse o primeiro livro, nada melhor. Já o segundo, Contos do Machado, uma publicação criativamente bem feita: contos medievais com tratamento gráfico competente de historias em quadrinhos, tudo sobre um legendário machado. Do volume, destaco de chapa a primeira narrativa: Da madeira torta que é feito o homem. Muito bom. E a última: O espírito do Machado: “Da batalha por uma vida que olha nos olhos da morte e diz: Leva-me, eu basto”. Li tudo e digo: gostei e muito. Os contos são ótimos e tratam da cobiça e das quedas humanas, excelentes. Aí fui ver o autor, tanto no primeiro como no segundo: Maurizio Ruzzi. Quem? Ele assim se apresenta no primeiro: “Este autor dispensa apresentações. Não por que seja extremamente conhecido (muito pelo contrário), mas porque ele próprio faz questão de dispensá-la”. Não me dei por satisfeito, né? Que se esconda ou não, descobri: trata-se de um bacharel que é doutor em Física com vários livros publicados na área. Certo. Essas publicações que trato aqui são a sua incursão pela Literatura, e digo: começou bem e em dose dupla. Outra coisa, no segundo, ele tem uma parceria: Juno Nedel, um artista gráfico que se apresenta como “Dissidente de gênero, criatura de ficção e realidade social”. Uma parceria feliz que deu um bom e suculento caldo. Parabéns e aplausos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Nas sociedades do espetáculo, só valem os sentimentos que prostram às imagens adequadas do discurso midiático. Os “sentimentos desprovidos de mídia” não tem reconhecimento, não tem expressão. Os sofrimentos normais da vida, os lutos, as perdas, as fases da timidez, de desânimo, os momentos de recolhimento necessários à reflexão e à contemplação não encontram lugar, não são respeitados – ou então se tornam imediatamente alvo da medicina psiquiátrica. [...].
Trecho extraído de O que é o corpo (Itaú Cultural, 2005), da poeta, psicanalista, jornalista, ensaísta e crítica literária Maria Rita Kehl.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada escultora e professora Julieta de França (1870 – 1951), uma das pioneiras da arte no Brasil. Um fato registrado na sua vida foi o de haver sido recusada à participar de um concurso que escolheria um monumento comemorativo à República, o que a revoltou levando a obra para ser submetida aos mestres franceses, entre eles Rodin, todos favoráveis pela técnica e qualidade do trabalho. Com isso ela retornou ao Brasil, solicitando a reconsideração da decisão da comissão de reprová-la, o que gerou um escândalo, por colocar em questão os critérios e decisões da Academia de Belas-Artes, o que foi tida como afronta ao esperado “recato feminino”. A decisão não foi revista, prejudicando a carreira da artista mãe solteira que sustenha sua filha sozinha. A partir disso seu nome caiu em esquecimento. Ela deixou em livro, “Souvenir de ma carrière artistique”, com recortes de jornais, cartas pessoais e fotos de seu trabalho, numa tentativa de documentar uma carreira que carecia de reconhecimento do meio artístico nacional. Texto e imagens recolhidas do estudo Souvenir de ma carrière artistique: Uma autobiografia de Julieta de França, escultora acadêmica brasileira (Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, vol. 15, nº 1, São Paulo, Jan/Jun, 2007) de Ana Paula Cavalcanti Simion.
 Veja mais aquiaqui.

LES AMANTS, DE LOUIS MALLE
O drama Les Amants (1958), do cineasta francês Louis Malle (1932-1995), conta a história de uma jovem esposa de um diretor de jornal, entediada com a desconfiança de que é traída pelo marido, começa a fazer visitas frequentes a uma amiga de infância e, por meio dela, conhece um playboy que se torna amante. O lançamento à época do filme causou bastante polêmica entre os setores conservadores e a fúria católica em todo mundo, tendo problemas para ser exibido em diversos países, inclusive o Brasil, onde foi alvo de processo criminal promovido pela Confederação de Famílias Cristãs, que conseguiu proibir o filme. Destaque para atuação da atriz francesa Jeanne Moreau. Veja mais aqui e aqui.
&
A obra do poeta vanguardista e dramaturgo peruano César Vallejo (1892-1938) aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, março 18, 2019

ERIK SATIE, MALLARMÉ, SUZANNE VALADON, KATHARINE BRUSH, SÍLVIO HANSEN & ÚNICO AMOR



ÚNICO AMOR – A vida de Honfleur, para quem veio criança órfã de lá de Pont-l’Evêque, criado pelo tio boêmio que inventava navios inúteis e carros bonitos para ninguém guiar. Herdou dele a fantasia, afora a imaginação aos voos com as leituras de Andersen. Aprendeu piano, sem quase saber do pai, de Olga ou Conrad, seus irmãos. Adolescente em Paris ingressou no conservatório para ser humilhado pelos professores: um metro e sessenta centímetros de mediocridade e preguiça, sujeito imprestável sem o menor senso de ridículo. Procurava emprego se apresentando como Gymnopedista. Enfim, conseguiu emprego de pianista no Chat Noir, morando em um quarto pequeno de Montmarte. Depois, no Auberge du Clou, conheceu Claude e, em seguida, Maurice. Para eles expôs o que havia de insólito, ilógico, ambivalente, enigmático, irreverente, mordaz místico, todo seu teatro do absurdo no minimalismo musical, repetitivo. Surgia Gymnopédies ou Três Peças em Forma de Pera, uma obra com título estranho derivado do antigo festival grego Gymnopaedia, dedicado ao deus Apollo, no qual jovens nus dançavam ao som da música de flauta e lira. Na sua loucura hermética fundou sua própria igreja, L'Eglise Métropolitaine d'Art de Jésus Conducteur: era o único membro e excomungava quem discordasse. Compôs as Trois Gnossiennes, um conjunto de composições para piano. De repente, alguém chegou à sua vida como a tempestade. Era a vizinha, uma paixão. Ao primeiro contato com ela, pediu-lhe a mão em casamento. Nem sabia quem era. E ela, uma bela filha duma lavadeira de pai desconhecido, acrobata desde menina com sequelas da queda. A enfeitiçante boniteza dela estava exposta como garçonete em cafés e modelo para pintores como Renoir, Tolouse-Lautrec, Degas, Puvis de Chavannes. Era a Biqui dele, a musartista, que reluzia como a rainha da boêmia no Société Nationale des Benaux-Arts. Era caprichosa, extravagante, carregava cenouras e cuidava de gatos e de uma cabra num escritório. Era levada pela estética de Pont-Aven e a má reputação dos bares. Ele a amava, o amor e a descoberta: ela pintava e fez o retrato do amado. Idílio infinito, avassalador. Durou seis meses apenas, o coração partido, a solidão e mais de trezentas cartas de amor, o único amor dele, Biqui, ah Biqui. Ela casou-se com outro. Ele então se mudou com sua irreverência e excentricidade para o subúrbio, caminhando longamente, nove quilômetros todos os dias para tocar em Montmartre. Escrevia e caricaturava a si e aos outros. Rascunhava e da sua caligrafia autobiográfica surgiu Mémoires d'um Amnésique, Escritos em forma de Grafonola e Cahiers d'un Mammifére, um livro com poemas, canções e relatos que revelam sua irônica verve. Ficou famoso por suas estranhezas: possuía doze ternos de cinza de veludo idênticos e colecionava guarda-chuvas e cachecóis: Embora sejam falsas as nossas informações, nada podemos garantir. Era maníaco por comida branca, sempre um prato com ovos, arroz, coco, nabo, peixe, queijo. Detestava o sol, na solidão e maturidade. Foi, então, que ingressou na Paris Schola Cantorum e estudou contraponto e orquestração. As suas partituras continham anotações com instruções na interpretação, todo mundo espantado. Inventou a música ambiente, usada como mobília, neutralizando os ruídos da rua com seus naturais e estranhos silêncios e barulhos: a sua musique d'ameublement. O público atento à performance e ele nervoso: Falem alguma coisa! Mexam-se! Não fiquem aí parados só escutando! Não era piada e ninguém entendeu. Ele aboliu as estruturas sofisticadas e complexas, despojando-se em forma simples, o seu minimalismo: Vexations, trinta e dois compassos repetidos oitocentas e quarenta vezes. Escreveu a comédia lírica em um ato A armadilha de Medusa, precursora do teatro dadaísta e do teatro do absurdo, bem como portadora da verdadeira música do surrealismo, platitudes e lugares-comuns. E compôs a ópera Geneviève de Brabant. Na amizade se avalia da de Pablo, grandes amigos, corroborou na revolução cubista. E Jean. O trio trabalhou no ballet Parade, pro Ballet Russo de Diaghilev. Ao compor a música inovadora, incorporou sirene, tiros de pistolas e uma máquina de escrever. Um escândalo por explorar o mundo dos sonhos e do subconsciente, não menos pelo cenário e vestuário de Pablo, como pelo argumento escrito por Jean: o surrealismo para Appolinaire. Com o drama sinfônico para quatro sopranos e pequena orquestra, Socrate, textos platônicos e extrema austeridade: a mudança de estilo que ganhou desprezo. Para críticos e compositores, sua obra não passava de miniaturas musicais com harmonias estranhas, escalas pouco convencionais e ausência de virtuosismo instrumental, justamente por possuir recursos técnicos insatisfatórios e sua deficiente formação de compositor e pianista. Era escárnio. Mas ele sabia das suas debilidades. O Gymnopédiste estava enclausurado por quase quinze anos sem compor, regressou à vida noturna parisiense com sua Música de Mobiliário. E vieram Sonatina Burocrática, Vestido de Cavalo, A Bela Excêntrica, Esboço e Provocações de um Gordo Bonachão de Madeira. Vagava incansável: inundado por uma solidão glacial que enche a cabeça de vazio e o coração de tristeza. Ah, Biqui, a vida entre os guarda-chuvas, lenços, colarinhos, tiras de papel, desenhos, partituras, dois pianos desafinados e amarrados por cordas, a pobreza, a cirrose e nada mais, até se render à morte, enquanto ela navegava pelo céu de Montmartre com outros amores. Dele apenas anotações em pedaços de papel: O meu nome é Erik Satie, tal como todas as outras pessoas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Servia coristas e estudantes, matronas jovens e alegres, jovens amantes ainda mais alegres, uma senhora que se divorciara de quatro maridos, outra que havia apunhalado alguém, a noiva mais ou menos secreta de um nome dos mais distintos e o cérebro de um bando de contrabandistas de álcool. Via coisas... Viu uma face amarela, onde a tinta secara. Viu quatro equimoses minúsculas, tais como poderia ter sido deixadas por dedos sobre um braço. Viu uma rapariga bater em outra, sem ser por brincadeira. Viu um maço de cartas que um homem preferira não ter escrito, guardado, escondido, no fundo de uma bolsa de brocado [...].
Trecho do conto Night Club (Ediouro, 2004), da escritora estadunidense Katharine Brush (1902-1952).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Não se pode fazer nada muito bem a não ser com muito amor.
A arte da  pintora francesa pós-impressionista Suzanne Valadon (1865-1938), único amor do compositor e pianista francês Erik Satie (1866-1925). Sobre o romance de ambos, o cineasta canadense Tim Southam dirigiu Satie & Suzanne (1994), contando as memórias agridoces do compositor com a sua amada, num café parisiense, enquanto as águas do rio Sena transbordavam.
A pintora foi uma personalidade marcante na cena artística parisiense antes do cubismo, tendo sido acrobata, garçonete e modelo dos pintores Renoir, Degas e Toulouse-Lautrec.
Foi a primeira mulher admitida na Société Nationale des Beaux-Arts. Sobre sua vida foi publicada a obra Suzanne Valadon (Martins Fontes, 1989), de Jeanne Champion e, também, Suzanne: of love and art (1959), de John Storm com ilustração da própria artista. Veja mais aquiaqui e aqui.

A MÚSICA DE ERIK SATIE
A música do compositor e pianista francês Erik Satie (1866-1925) está no cenário da vanguarda parisiense do início do século XX, sendo ele o precursor dos movimentos minimalista, do teatro do absurdo, da música repetitiva e do ragtime, este último um estilo pré-jazz. Ele exerceu influência até tornar-se cult entre os contemporâneos Debussy e Ravel, mudando o curso da história da música. É autor de obras como Gymnopédies ou Três Peças em Forma de Pera (1888), Gnossiennes (1890), Sonatina Burocrática, Vestido de Cavalo, A Bela Excêntrica, Esboço, Provocações de um Gordo Bonachão de Madeira, Canções, Socrate, Jack in the Box e da ópera Geneviève de Brabant, entre outras. É também autor da comédia lírica em um ato A armadilha de Medusa, de 1913, precursora do teatro dadaísta e do teatro do absurdo, bem como portadora da verdadeira música do surrealismo, carregadas de platitudes e lugares-comuns. Veja mais aqui.
&
A arte do artista visual Sílvio Hansen aqui, aqui, aqui e aqui.
&
A obra do poeta e crítico literário francês Stéphane Mallarmé (1842-1898). Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui & aqui.
 

sexta-feira, março 15, 2019

O CORPO DE LELOUP, GILBERTO FREYRE, GEORG SIMMEL, MARI PAVANELLI, JOEMA CARVALHO & ADRIANO SALES



O CORPO DE LELOUP – Uma leitura além de esclarecedora foi a que fiz da obra O corpo e seus símbolos (Vozes, 1999), do PhD em Psicologia Transpessoal, doutor em Teologia e professor de Filosofia, Jean-Yves Leloup. O livro de forma geral chama atenção para o fato de que o corpo não mente, uma vez que ele conta muitas histórias que deixam marcas profundas e que é preciso descobri-las para que se tenha paz, satisfação e tranquilidade na vida. Observa a flexibilidade de todas as articulações do corpo, além das de natureza psíquica e da inteligência humana, fazendo leituras e reflexões tanto física quanto psíquica de cada parte corporal. Começa pelos pés que são os alicerces e raiz do corpo, a semente, aqueles que escutam a terra. Saber o seu cheiro ou odor, o prazer ou não de pisar a terra, lavá-los a si e os de outros, como proporcionar capacidade de prazer e amor. Segue para os tornozelos que são as primeiras articulações, das quais dependem a harmonia e livre circulação da energia, assim como sua relação com o momento entre a vida antes e depois do nascimento: a saída do útero e a vida. Já os joelhos são importantes porque a sua rigidez afeta diretamente a coluna vertebral e os rins, fato que evidencia torná-los bastante flexíveis, uma vez que possuem relação direta com o peito e os seios, o colo e as lembranças orais da infância, relacionando-se, portanto, com as causas da bulimia ou anorexia, entre outras enfermidades. Por sua vez, as pernas e as coxas são responsáveis pela postura, condução, caminhar e de apresentar-se, a identidade e perfil de cada um. O destaque para a região sagrada por ser aquela que define os sentimentos de perda, guarda ou falta, fazendo com que seja necessário respeito com esta dimensão para se livrar dos tabus e seguir para a integração, recomendando: “A matéria só se salva se deixarmos que a luz atinja suas profundezas”. Enfatiza ainda que o estudo do sacro envolve a imagem que a sociedade e as religiões têm da sexualidade, as atrações e repulsões individuais, a qualidade dos orgasmos e, por consequência, o bem-estar e a felicidade. Com relação aos genitais, o autor chama atenção: o encontro de dois seres não é apenas o encontro de duas libidos, mas de duas almas, de dois espíritos, dois seres interiores que se completam. Portanto, observa que “O sexo é o local onde se encarna a vida, onde se transmite a vida. Por isto é algo muito sagrado”. Por conseguinte, o ventre é o local onde existem o pai e a mãe, pelo qual o corpo é religado ao que se passa no mundo e as emoções: escutá-lo significa ter o centro da gravidade, a possibilidade das transformações, exigindo-se de cada um a postura justa, relaxada, adequada para acolher o sopro. Além do mais, o fígado está associado com o humor, sujeito a sintomas e distúrbios que influenciam diretamente o comportamento. Assim como juntamente com a vesícula biliar, o baço, o pâncreas e o estômago que são identificados como os caminhos do autoconhecimento, o discernimento. É essa parte do corpo que se relaciona com o perdão e o rancor, a digestão. Os rins têm a forma de semente: escutam as mensagens interiores e são os filtros que retiram as impurezas orgânicas. Por outro lado, referem-se à escuta para enfrentar a existência e os acontecimentos. A coluna vertebral é o local da escuta das solicitações da vida, como uma escada a subir e a lei estruturante, o elo, a árvore da vida. As vértebras precisam estar ajustadas à sua estrutura interior, mantendo-se ereta para estar em pé face às provações da existência. O coração e os pulmões possuem relação direta com uma vida saudável: respirar adequadamente para que se possa viver bem. O pescoço é o elo entre a cabeça e o coração, o local onde a palavra nasce e se conhece o desejo, o sussurro que nasce do interior, o contato com a identidade verdadeira. A nuca precisa ser a mais flexível possível porque dela se amplia a inteligência. As mãos representam a transmissão de conhecimento e carregam uma riqueza simbólica como guia e auxílio. A cabeça e as linhas do rosto, a boca, o nariz e as orelhas, estas possuem a forma de semente e escutam os dizeres e informações, e nos revela a identidade e comportamento. Em suma, o que o autor chama atenção é que o corpo inconsciente guarda os segredos tanto pessoais como os da história coletiva, donde fica evidenciado que o corpo somatiza problemas que não são apenas de cada um, mas a memória da família e da coletividade. Por fim, o autor aconselha escutar o corpo, uma escuta infinita para conhecê-lo e respeitá-lo, sobretudo aceitá-lo para tornar-se feliz e, com isso, proporcionar a cura individual para curar o mundo. Por tudo isso é uma leitura para lá de recomendável, necessária em todos os sentidos do conhecer-se a si mesmo, conhecer o mundo ao redor e a própria razão de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o significado do dinheiro junta-se com o do poder; como este, o dinheiro é uma pura potência que acumula uma mera antecipação subjetiva do futuro na forma de um presente objectivamente existente. [...] dinheiro pode ser comparado com a linguagem que também se transporta às mais divergentes direções de pensamento e sentimento; o dinheiro pertence àquelas forças cuja peculiaridade é a falta de peculiaridade, mas apesar disto, pode colorir a vida de muitas cores porque a sua natureza meramente formal, funcional e quantitativa é confrontada com conteúdos qualitativamente determinados e direções de vida e induzi-las a gerarem novas formações qualitativas. [...] Podemos então caracterizar o efeito do dinheiro como uma atomização da pessoa, como uma individualização que ocorre na pessoa. É uma tendência geral na sociedade que se estende ao interior do indivíduo. [...] O mesmo processo de diferenciação que deu ao indivíduo um significado especial tornando-o relativamente único e insubstituível torna o dinheiro o equivalente e padrão de muitos e diferenciados objetos; a sua crescente indiferenciação e subjetividade torna-o progressivamente menos aceitável como equivalente de valores pessoais [...] Se o homem moderno é livre – livre de comprar e vender tudo – procura agora nos objetos esse vigor, estabilidade e unidade interior que perdeu [...] O importante, entretanto, é que o dinheiro é percebido em toda parte como fim e, com isso, muitas coisas que têm o seu fim em si mesmos são rebaixados a simples meios. Ao mesmo tempo que o dinheiro, por definição, é o meio, os conteúdos da existência se colocam num profundo contexto teleológíco sem começo e sem fim [...] A desproporcionalidade no aumento dos preços leva a que determinados grupos de pessoas e profissões sejam especialmente beneficiados e outros prejudicados. Em tempos históricos isso acontecia com os camponeses. No final do século 17, o camponês inglês, sem conhecimentos e sem meios, como ele era, foi literalmente espremido, entre as pessoas que lhe deviam e o pagavam apenas o valor nominal, e as que ele devia dinheiro e o exigiam a peso de ouro [...].
Trechos extraídos da obra Philosophy of Money (Routledge 2004), do sociólogo e professor alemão Georg Simmel (1858-1918), na qual o autor procura compreender quais as consequências da invenção, introdução e difusão social desse meio de troca (simbólica), tendo em vista considerar que o dinheiro alterou enormemente as relações sociais, provocando efeitos que convergiram para a individualização ou individualismo, numa fase da história em que as relações tradicionais ou pré-modernas, estavam em vias de serem superadas pela emergência do modo de produção capitalista. Conforme demonstra o autor, a relação de tipo monetária que se tornou predominante na época moderna representa o patamar máximo da individualização humana. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista Mari Pavanelli. Veja mais aquiaqui.

A POESIA DE JOEMA CARVALHO
EROS UMA VEZ - O rio corre nas veias e sai do controle / Confundido pela poeira do asfalto nos olhos / Algum tempo de abandono e solidão / A dança do dia-a-dia no meu microcosmo / Você no céu e eu na lua / Seria tão bom se me prendesse com uma corda / Para que flutuasse baixo e por perto / Fica esquecido no silêncio / No caminho da noite escura / Na vida que passa e que se perde / Que de repente volta / Uma página nas folhas de outono / Coloridas numa lira infinita / Soando longe / Estou querendo te ter novamente / Na cidade, no sol, no mar / Em uma floresta que desencanta todos os sonhos e desejos / Em algum hemisfério consciente / Acho que o que um sente pelo outro não se finge / Pode ser que eu não seja mais 100% / Mesmo sabendo que serei mais inteira / As coisas vão ficando mais simples / As cores do jardim estão refletidas no céu / Precipitam em gotas de amor / Sentindo o ar conduzir / Os jasmins-dos-poetas estão em flor / E envolvem o arco-íris junto ao vento da estação / Disse que voltou para me buscar / Não sabia que estava tão perto / O acaso te trouxe / Mais rápido do que eu pude processar / Ainda consome as minhas noites / Meu ciclo mensal / Meus sonhos / De dia a rotina ocupa os meus poros e não sou mais ação / Os 100% ficam nos bueiros / Escorrendo com o vento, com a poeira e com a enxurrada / E quando te encontrar? / Agarro no seu pescoço / Te engulo com ossos, cabelos e todo o seu cheiro? / Ou espero o momento certo / Com a diplomacia dos equilibrados? / Depois da peça / Depois que abaixarem as cortinas? / Em algum momento que houver um vácuo, uma deriva? / Em algum momento de aquecimento global e globalização de Todas as células? / A hora certa? / Acho que te ter de novo não será evolução do meu espírito / Muito menos da minha alma / Talvez eu vá repetir o que tem sido / Mas o não ser, eis a questão? / Isso confunde minha ilusão / Pode ser que se eu te olhar de novo / Deturpe os teus traços / Que eles não sejam mais o que eu aprecie / Como água para chocolate / Como uma pimenta rosa / Queria que assumisse o que eu sinto como sendo teu / Espero que agora a gente possa esperar a lua fechar a noite / O carrossel do sol nascer / Em um céu novamente nosso / A natureza determina / A onda que chega e que vai / E a flor que desabrocha em paz e harmonia.
Poemas extraído da obra Luas & Hormônios (SEC-PR, 2010), da poeta, engenheira, pesquisadora e consultora ambiental Joema Carvalho. Veja mais da autora aqui.
&
A POESIA QUÂNTICA DE ADRIANO SALES
O lado oculto da poesia quântica é o título do próximo lançamento em livro do poeta Adriano Sales que é formado em Logística, Gastronomia, Informática e Psicanálise, atuando como analista de sistema e consultor e é membro fundador da Academia Escadense de Letras (AELE) da qual é vice-presidente, membro secretário da Academia Palmarense de Letras (APLE), membro correspondente da Academia Tobiense de Letras e Artes (ATLAS). É autor dos livros Eu – poesias em vias (2015), O regozijo e a veemência (2016) e participa de diversas antologias. Veja mais do autor aqui e aqui.
&
A obra do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) aqui, aqui & aqui.
&
A obra do PhD em Psicologia Transpessoal, doutor em Teologia e professor de Filosofia, Jean-Yves Leloup aqui, aqui , aqui e aqui.


ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...