Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, março 21, 2019
JOÃO UBALDO RIBEIRO, SLAVOJ ŽIŽEK, OSWALD DE ANDRADE, CHICO LUDERMIR & CADÊ O MAESTRO?
sexta-feira, novembro 06, 2015
SHAKESPEARE, PESSOA, CHAPLIN, MARILYN, MENEGUELLO, JOÃO UBALDO, FELDON & CARTOLA.
VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A
VIDA, UM SORRISO - A
cada dia que se passa mais me convenço que as pessoas se tornam cada vez mais
rígidas. Quanto mais conheço e me relaciono com pessoas, mais sérias elas estão
e é assim que a mim se demonstram. Muita cara fechada, sisudez, inflexibilidade.
Raro um momento de educação, de descontração, de sorriso. As pessoas pedem
desculpas como se fosse por, sei lá, qualquer coisa, ou conveniência, mas não
há um mínimo de sentimento nisso. Parecem-me pessoas blindadas, como se ao
sorrir traíssem a carapuça de toda sua defesa, ou se desgovernassem
irremediavelmente, ou se desmoronassem vulneráveis. Talvez seja mesmo o reino
da autodefesa: não te conheço, sai pra lá. A definição do território: não és
dos meus, para os amigos todos os favores do mundo; aos inimigos, todos os
rigores da lei. Se bateu, levou; fica lá que fico cá. Assim se relacionam no
dia a dia. Não admitem a menor simpatia. Não sabem, por exemplo, do provérbio
latino que foi seguido à risca por Moliére na Commedia dell’Arte, redigida pelo poeta Jean de Santeul: ao rir é
que se corrigem os costumes. Ôpa! Ah, mas o riso é uma expressão linda, nada
mais lindo que o riso de Elis Regina, o misterioso da Mona Lisa – La Gioconda
de Da Vinci, que a língua de fora de Einstein, das crianças ao brincar. Como é
lindo o sorriso. Como diz o poeta Mário Quintana: O sorriso enriquece os
recebedores sem empobrecer os doadores. Além do mais, o sorriso tem o poder de
deixar tudo mais leve, flexível e democratizado, sem formalidades, nem rituais.
Abre portas, oportunidades. A poeta e jornalista estadunidense Ella Wheeler
Wilcox professa que: Ri, e o mundo rirá contigo; chora, e chorarás sozinho. Isso
traz uma clarividente possibilidade: o riso comunga, é a figura extrema da
irmanação. É como o Sol amanhecendo, sorrindo, paratodos. É como o abraço
amigo, de quem chega, de quem faz parte dos nossos afetos, de quem nos dirige
um ato de ternura e solidariedade. É como o momento da nossa mais feliz
inteireza: ao filho que nos completa, aos pais que nos criou, aos que fazem
parte do nosso coração e os que poderão também fazer parte dessa comunhão,
afinal somos um só na vida do planeta Terra. Comigo guardo a lição do poeta
Cartola, na sua belíssima e imortal O sol nascerá: A sorrir eu pretendo levar a
vida... E veja mais aqui.
HUMOR & EDUCAÇÃO – O livro A canção da inteireza: uma visão holística da educação (Summus,
1995), do filósofo e professor Clodoaldo
Meneguello Cardoso, trata sobre as mudanças paradigmáticas, fundamentos
filosóficos, teoria da aprendizagem, pratica de ensino, bases axiológicas,
contribuições para a educação, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho:
[...] Educar holisticamente, portanto, é
estimular no aluno o desenvolvimento harmonioso das dimensões da totalidade
pessoal: física, intelectual, emocional e espiritual. E esta, por sua vez,
participa de outros planos de totalidade: o comunitário, o social, o planetário
e o cósmico. Todos estes planos devem também ser desenvolvidos
concomitantemente no processo educacional. Não se entende o homem somente a partir
de si mesmo, como centro e senhor da natureza, mas como parte de um todo.
Questões como autoconhecimento, liberdade, realização, justiça e paz são
enfocadas levando sempre em conta o contexto da interdependência dos fenômenos,
nos diversos planos sistêmicos dos quais o homem é parte. [...] É fundamental manter um ambiente de alegria
e de ludicidade na classe. Sem humor, o educador não experiencia o encontro
existencial como o educando e bloqueia o próprio processo ensino-aprendizagem.
A educação tradicional colocou as virtudes: atenção, dedicação e
responsabilidade como incompatíveis com a alegria e a descontração.
Tradicionalmente, sorrir era sinônimo de imaturidade e irresponsabilidade, daí
a expressão “muito riso pouco siso”. O sorriso, entretanto, é a expressão
simples de felicidade por estar vivo. Veja mais aqui.
O SORRISO DO LAGARTO – O romance O sorriso do lagarto (Nova Fronteira, 1989), do escritor,
jornalista e professor João Ubaldo
Ribeiro (1941-2014), trata de um apanhado de situações- muito bem
encadeadas e recheadas de diálogos primorosos, em que se identifica o
naturalismo, a degradação do individuo, o cientificismo, o político, o
homossexualismo, a engenharia genética, o consumo de drogas por parte da elite,
a degradação da saúde, a igreja e os pobres, o comportamento sexual feminino.
Da obra destaco os trechos: [...] -
Aqui na ilha, se morre de tudo, não tem essa conversa de que aqui não acontece
certas mortes – disse Mero Doido, que desde as cinco horas estava fazendo um
levantamento dos mortos ligados ao Mercado e das causas de suas mortes. – Você
não diz uma doença, inclusive das mais modernas, que alguém aqui não tenha
morrido. Até umas doenças que não são nem bem doenças aqui se morre, como Galo
Cego, que teve uma espinha no nariz que foi virando câncer e comeu a cara dele
toda e ele morreu fedendo e com a cara toda comida. Isso de uma espinha. Filu
foi de hidropisi, Nandá foi derrame, Roque Feio foi diabete, Lazarão foi tifo,
mosquete foi tuberculose, Unha Grande foi doença de Chagas e Zoinho dizem que
foi de Aids. Até Aids já deu aqui, e Zoinho não era falso ao corpo, pelo
contrário. Aqui dá tudo. E agora o neto mais velho de Quatinga morreu de tumor
no cérego. [...] - Não quero discutir questões de fé com o
senhor, para mim isso tem importância, para o senhor não tem. Mas veja o
problema moral contido nisso, o problema político. O poder político plasmando a
Humanidade e a Natureza. - Isso é inevitável. Quem chegou, chegou, quem não
chegou, não chega mais. O poder hoje dispõe de tais instrumentos que se
sedimentou definitivamente, jamais vai mudar realmente de mãos e a tendência é
isso se acentuar. Isso é bom. Isso significa maiores possibilidades de controle
racional. Não haverá revolução, nem alteração radical na estrutura do poder,
nem entre nações, nem entre classes sociais, nesse sentido a História acabou.
Sempre digo que democracia é um mito supersticioso, assim como a igualdade e
outros chavões. Há muito tempo que a democracia não é mais praticada em lugar
nenhum, a não ser microscopicamente, e temos que colocar essa situação a nosso
favor, ou seja, aperfeiçoar o homem de todas as formas possíveis. - Para mim,
isso é extinguir a Humanidade, tal como a conhecemos. Para mim, é o homem se
tornando inimigo do homem, deixando o adversário que traz dentro de si vencer,
fazendo com que se volte contra si mesmo. É como se fosse a obra de Satanás. -
Sim, Satanás, ha-ha! Satanás quer dizer “inimigo”, não é? Neste caso, eu seria
Satanás, ou pelo menos um satanás, pois creio que há controvérsia na própria
Igreja sobre a existência de um ou vários satanases. Engraçado, desculpe-me por
estar rindo, muito engraçado mesmo – Satanás. Pois, olhe, eu aceito, e acho
tecnicamente certa sua inferência. Eu sou inimigo de Deus, sim, embora o
considere um inimigo fictício, vocês me arranjaram esse inimigo fictício, que
eu preciso combater. [...] Deus
não existe e, se existe, é preciso tomar dele o poder, ele não tem sido
competente, para um onipotente tem um desempenho muito pouco satisfatório. E
então, diante do exposto, o senhor tem razão, de fato eu sou Satanás, o senhor
tem razão, é mais do que lógico. Vade retro, pensou Monteirinho [...] Aquilo
tudo era terrível mesmo, e mais terrível ainda por se passar daquela forma
irresistível, como Lúcio Nemésio dissera tão convincentemente. João Pedroso
tentara resistir e fora eliminado. Sim, fora eliminado, agora tinha certeza,
embora não pudesse provar, embora jamais pudesse dizer a ninguém. Tinha
certeza, certeza absoluta de que João fora morto por obra de Ângelo Marcos, ao
sedescobrir enganado – não sabia como, mas fora. E, assim, esse agente do Mal
cumpriu sua missão, removeuum obstáculo. Tudo se encaixava, o Mal havia tido
grande vitória. Dedicaria à vida, tinha dito João, dedicaria a vida a lutar
contra aquilo. Mas apenas perdeu a vida, martirizou-se anonimamente. [...]. Veja mais aqui e aqui.
AS
ALEGRES MATRONAS DE WINDSOR – A
comédia de costumes farseca em cinco atos The Merry Wives of Windsor (As
alegres matronas de Windsor, 1602), do poeta, dramaturgo e ator inglês
William Shakespeare (1564-1616), baseada nos costumes da classe média
provinciana da época, conta a história de um cavalheiro falido, Sir John
Falstaff, que se encontra num período de falta de sorte e resolve inventar um
plano para enriquecer. Da obra destaco o trecho da festa e da alegria da
canção: [...] (Entram o reverendo Hugo Evans, disfarçado de sátiro; Pistola,
como duende; Ana Page, como rainha das fadas, seguida do irmão e de outras
pessoas, disfarçadas de fadas, com tochas de cera na cabeça.) ANA - Fadas
verdes e brancas, matizadas, que aqui brincais nas noites enluaradas, herdeiras
e órfãs do fatal destino, alegres acorrei! Entoemos o hino dos duendes e das
fadas. Alegria! PISTOLA - Atenção, elfos! Cesse a correria dos espíritos aéreos!
Grifo, salta para as chaminés de Windsor, onde uma alta lide vais ter, que a
cinza ainda está quente e, por varrer, os lares. Complacente não sejas com as
zagalas; beliscões em todas dá, de produzir vergões azuis como o mirtilo. Nossa
rainha não suporta imundície tão daninha. FALSTAFF - São fadas. Se eu falar com
algumas delas, sou homem morto. Assim, sem mais aquelas, vou me deitar e tapar
bem o rosto. Homem nenhum em vê-las acha gosto. EVANS - Vai, Bode; e onde
encontrares rapariga que as orações três vezes sempre diga antes de se deitar,
com alegria, estimula-lhe a bela fantasia, porque ela, como criança na
aparência, possa dormir o sono da inocência. Mas se achares alguma descuidada
que ao se deitar não tenha dito nada, belisca-lhe à vontade o corpo lasso,
pescoço, braços, pernas e o espinhaço. ANA - Trasguinhos, começai! Todo o
castelo de Windsor varejai; sorte espalhai a flux, alegremente, porque possa
durar eternamente, sem decair jamais em abandono, como convém ao seu mui digno
dono. Seiva esfregai em todas as cadeiras, das plantas mais preciosas e
fagueiras; abençoados se tornem sempre mais seus leais brasões e as cotas
imortais, e como a jarreteira, elfos, à roda, em círculo cantai a noite toda.
Que a vossos passos tornem-se virentes e mais férteis os prados
adjacentes. "Honny soit qui mal y
pense" à volta escrevei dos canteiros em recolta, em tufos brancos, rubros
e azulados, como pedras preciosas nos bordados, que aos joelhos curvos da
cavalaria conferem elegância e altanaria. Com flores escrevei, pois, em porfia.
Vamos, principiai! Antes de uma hora, como de hábito, vinde sem demora dançar
em torno do carvalho de Herne. EVANS - Que cada um com o vizinho o passo
alterne. Em ordem. Mãos com mãos. Vinte luzentes pirilampos levai como
pingentes, porque vos possam dirigir o passo sem vos perderdes nada em pouco
espaço. Mas vejo um ser do mundo intermediário! FALSTAFF - O céu me defenda
desse duende galense, para que ele não me transforme num pedaço de queijo.
PISTOLA - De nascimento, ó verme, és ordinário! ANA - A chama quente lhe
encostas no dedo. Sendo ele casto, não mostrará medo, pois não se queimará. Mas
se gritar, é que é carne corrupta e mui vulgar. PISTOLA - Eia, a postos! EVANS
- Façamos a experiência. (Queimam Falstaff com os archotes.) FALSTAFF - Oh! Oh!
Oh! ANA - Corrupto, Corrupto! É só concupiscência! Cantai-lhe fadas, algo
zombeteiro e, ao dançardes, picai-o o tempo inteiro. Fora a doente fantasia, a
incontinência, a fobia! Loucura é fogo abrasante que o sangue deixa escaldante.
Brota do coração em alta chama, que o pensamento mais e mais inflama.
Beliscai-o com vontade, por sua muita ruindade. Beliscai-o, queimai-o, até que
a lua se esconda e a noite seu rondar conclua. (Durante a canção, as fadas
beliscam Falstaff; o doutor Caius entra por um lado e rouba uma fada de vestido
verde; Slender, por outro, leva uma fada de branco; depois entra Fenton e sai
com Ana Page. Ouve-se barulho de caçada; as fadas saem a correr; Falstaff
arranca da cabeça os chifres e se levanta. Entram Page, Ford, a senhora Page e
a senhora Ford, que seguram Falstaff) [...]. Veja mais aqui e aqui.
SMILE – O satírico drama-comédia Smile (Sorriso, 1975), dirigido por
Michael Ritchie, com roteiro de Jerry Belson sobre um concurso de beleza na
Califórnia, satiriza a cidade pequena na América do Norte, suas peculiaridades,
hipocrisias e artificio dentro de um concurso de beleza. Conta como um vendedor
de veículos usados se torna juiz principal e como um alcoólatra e sua esposa se
tornam diretores executivos que vão se enredando em subtramas que denunciam
infelicidade, rituais humilhantes, conspirações e sabotagens, aproveitamento
dos participantes, cinismo, incompetência na realização de cerimonias
extravagantes, e tudo vai transcorrendo em clima de drama e comédia. O destaque
do filme é pra legendária atriz estadunidense Barbara
Feldon, a que se imortalizou como
Agente 99 do seriado Get Smart, dos anos 1960. Veja mais aqui.sexta-feira, janeiro 23, 2015
EYRA HARBAR, ELIZABETH WURTZEL, JEANNE MOREAU, SHERE HITE & MARGARET SANGER
A FRANCESA TANTAS
MULHERES... – Aquela filha de uma
bailarina inglesa e de um barman francês detestava a rotina e
estereótipos, uma múltipla mulher: de carne e osso, emoções e profundidade. Passou
pela Comédie-Française e pelo Teatro Nacional Popular (TNP) e foi pras telas
com beleza personalíssima, de nenhuma perfeição nem hipersensualidade: a medida
humana exata – inteligente, sensível, complexa, intuitiva. Foi Florence Carala
no Ascenseur pour l'échafaud, foi Jeanne Tournier no Les amants,
foi Anne Desbarèdes no Moderato cantábile - baseado no romance homônimo de
Marguerite Duras e o prêmio de Cannes. Foi mais: Lidia no La notte, Catherine
no Jules et Jim e cantando Le Tourbillon de la vie. Foi a
interesseira e sedutora Eva Olivier nas cenas de Losey, foi a criada astuciosa Céléstine
no Le journal d'une femme de chambre, foi a escolhida pelo mercador, Virginie
Ducrot, no The Immortal Story (1968), baseado no conto de Karen Blixen. Foi a
sedutora assassina Julie Kohler no La mariée était en noir, foi Maria no
Le
jardin qui basculhe, foi a Joana Francesa de Cacá, foi Amande, instrutora de Nikita (1990): As pessoas – e as
mulheres em especial – preocupam-se demais com o envelhecimento. Mas nós
parecemos mais novos se não nos preocuparmos com ele. Porque para lá da beleza,
do sexo, da titilação, da superfície, há um ser humano. E é isso que tem que
emergir... Afora ter sido a escritora Marguerite
Duras no Cet amour-là e quantas mais foi, afora ter dirigido o semibiográfico
drama Lumière. Muitas e ela: Viva a grande atriz e
cantora Jeanne Moreau (1928-2017). Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.
DITOS &
DESDITOS - A expressão de
nossa sexualidade deve ser guiada por princípios de consenso, respeito e
cuidado mútuo. Nenhuma mulher pode se considerar livre
se não controlar seu próprio corpo. Nenhuma mulher pode se considerar livre até
que possa escolher conscientemente se quer ou não ser mãe. Um ato sexual mútuo
e satisfeito é de grande benefício para a mulher média, o magnetismo disso é
doador de saúde. Quando não é desejado por parte da mulher e ela não tem resposta, não deve
acontecer. Este é um ato de prostituição e é degradante para a sensibilidade mais fina
da mulher, apesar de todas as certidões de casamento na terra em contrário... Pensamento da sexóloga, enfermeira, escritora e ativista estadunidense Margaret Sanger (Margaret
Higgins Sanger ou Margaret Louise Higgins – 1879-1966), que no livro Woman and the
New Race (Cosimo
Classics, 2005), expressou que: […] A mulher deve
ter sua liberdade, a liberdade fundamental de escolher se será ou não mãe e
quantos filhos terá. Independentemente da atitude do homem, esse problema é dela — e antes que
possa ser dele, é somente dela. Ela atravessa o vale da morte sozinha, cada vez que um bebê nasce. Assim como não é direito nem do homem nem
do estado coagi-la a essa provação, também é direito dela decidir se ela irá
suportá-la. [...]. Em 1914, ela foi processada pelos Estados
Unidos, sob às leis do Ato Federal Comstock, de 1873. As leis do Ato Comstock
proibiam a circulação, venda e produção de toda literatura com qualquer tipo de
conteúdo sexual, erótico ou informações e ativismo sobre controle de
natalidade, seja sobre contraceptivos ou aborto. Com medo do que poderia
acontecer, Sanger se refugiou nos países britânicos até que fosse seguro
retornar aos Estados Unidos. Por sua ligação à organização Federação de
Paternidade Planejada da América, ela foi, e ainda é, alvo frequente dos
críticos do aborto. Entretanto, o Planned Parenthood Federation of America
passou a realizar abortos apenas em 1970, quatro anos após sua morte. A ONG,
fundada em 1916, funciona até hoje, e é responsável por metade dos abortos
legais nos Estados Unidos, além de globalmente oferecer serviços como educação
sexual e controle de natalidade, inclusive no Brasil. O trabalho de Sanger com
comunidades carentes também foi louvado por Martin Luther King, em seu discurso
de aceitação do prêmio Margaret Sanger Award, em 1966.
ALGUÉM FALOU: A sexualidade é uma fonte de alegria,
prazer e conexão, e não apenas de procriação. Não se pode decretar que as
mulheres sejam sexualmente livres quando não são economicamente livres. Temos
direito aos nossos próprios corpos. Onde há amor duradouro, há família. Pensamento da sexóloga e
feminista teuto-americana Shere Hite (1942-2020). Veja mais aqui e aqui.
NAÇÃO PROZAC - [...] Essa é a questão sobre a depressão: um ser humano pode sobreviver a quase
tudo, desde que veja o fim à vista. Mas a depressão é tão insidiosa, e se agrava diariamente, que é impossível
ver o fim. [...] Alguns amigos não entendem
isso. Eles não
entendem o quão desesperada eu estou para que alguém diga, eu te amo e te apoio
do jeito que você é porque você é maravilhosa do jeito que você é. Eles não entendem que eu não consigo me
lembrar de ninguém me dizendo isso. Eu sou tão exigente e difícil para meus amigos porque eu quero desmoronar e
desmoronar diante deles para que eles me amem mesmo que eu não seja divertida,
deitada na cama, chorando o tempo todo, sem me mover. A depressão é sobre Se você me amasse,
você faria. [...] É tudo o que eu quero na vida:
que essa dor pareça ter um propósito. [...] Eu sou a garota que está
perdida no espaço, a garota que está sempre desaparecendo, sempre desaparecendo
e recuando cada vez mais para o fundo. Assim como o gato de Cheshire, um dia eu irei embora de repente, mas o
calor artificial do meu sorriso, aquela curva falsa e palhaça, do tipo que você
vê em pessoas miseravelmente tristes e vilões em filmes da Disney, permanecerá
para trás como um resquício irônico. Eu sou a garota que você vê na fotografia de alguma festa em algum lugar ou
algum piquenique no parque, aquela que de fato logo irá embora. Quando você olhar para a foto novamente,
quero lhe garantir, eu não estarei mais lá. Eu serei apagada da história, como uma traidora na União Soviética. Porque a cada dia que passa, eu me sinto
me tornando mais e mais invisível. [...].
Trechos extraídos da obra Prozac Nation (Riverhead, 2002), da escritora e jornalista
estadunidense Elizabeth Wurtzel (1967-2020).
Veja mais aqui.
DOIS POEMAS - COISAS DE
MULHER - A primeira vez
\ o sangue, \ como uma filha, \ caminhou pela vida \ com a sua verdade, \ e foi
sempre \ até o fim \ anunciando \ a fertilidade \ e todos os seus tempos. GOLPE - Entendo o ar \ quando o empurro, \ da minha
boca levo \ até a concha do seu ouvido \ e ele fica estagnado como o mar \ para
ser ouvido. Poemas da escritora
e advogada panamenha Eyra Harbar, autora dos livros Burnt Paradise (Panamá, 2014), Mirrors (INAC,
2003), Where the Beetle Dwells (UTP, 2002), entre outros.
SACADOUTRAS
VIVA O POVO BRASILEIRO – Sempre tive os maiores deleites nas
leituras que fiz do grande e imortal escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Entre seus livros, não menos
prazeroso foi a detida e quase de um fôlego só devorar Viva o Povo Brasileiro (Nova Fronteira, 1984). Tive que me segurar
para não ter um troço de tanto rir. Trago aqui um fragmento dessa magnífica
obra para que todos tenham uma pequena ideia da maravilha de livro que é: [...]
O comportamento das almas inopinadamente
descarnadas, sobretudo quando muito jovem, é objeto de grande controvérsia e
mesmo de versões diametralmente contraditórias, resultando que, em todo o
assunto, não há um só ponto pacífico. Em Amoreiras, por exemplo, afirma-se que
a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas
magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias mais potentes, dos polos
esotéricos, das correntes alquímico-filosofais, das atrações da lua e dos
astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas – tudo isso faz
com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar
livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e às vezes fazendo
um sem número de exigências. Diz-se que era por causa dos tupinambás que la
moravam, que com mil artes e manhas de índios amarravam as almas dos mortos até
que eles pagassem os obséquios que morreram devendo, ou resolvessem qualquer
pendência de que foram partes. Mas depois dos tupinambás, vieram os
portugueses, espanhóis, holandeses, até franceses, e os defuntos, mesmo não
havendo mais índios para os amarram, continuaram por lé, desafiando as ordens
dos padres e feiticeiros mais respeitados para que se retirassem. Em seguida,
chegaram os pretos de várias nações da África e, não importa de onde viessem e
de que deuses trouxessem consigo, nenhum deles jamais pôde livrar-se de seus
mortos, tanto assim que foram os que melhor aprenderam a conviver com essa
circunstancia, não havendo, por exemplo, órgãos e viúvos entre eles. Os muitos
deles que não conseguiram suportar viver na companhia de uma memória infinita e
na presença de tudo o que já existiu mudaram-se para lugares bem longe de
Amoreiras e jamais comem qualquer coisa vinda de lá. Veja mais aqui e aqui.
A DOUTRINA SECRETA – A escritora e ocultista russa Elena Petrovna Blavatskaya, popularmente conhecida como Helena Blavatsky ou Madame Blavatsky (1831-1891), realizou viagens e experiências insólitas até que, aos vinte anos de idade, teve um encontro com o Mestre Mahatma Morya-El, tornando-se a partir de então, a primeira mulher ocidental a penetrar no Tibet e a ser iniciada na Grande Loja Branca. Teve depois contato com o Mestre Ku-Hu-Mi, fundando, a partir disso, a Sociedade Teosófica, ao lado de Henry Stell Olcott e William Q. Judge. É autora dos monumentais livros Isis sem Véus e a Doutrina Secreta. De seus pensamentos destacamos: Há um caminho, íngreme e espinhoso, envolto em perigos de toda espécie, mas ainda assim um caminho, e que leva ao próprio coração do Universo. Para aqueles que prosseguem vitoriosos já uma recompensa indescritível – o poder de abençoar e salvar a humanidade; para aqueles que falham, já outras vidas nas quais o sucesso pode vir. Veja mais aqui, aqui e aqui.
O VERMELHO E O NEGRO – O escritor francês Stendhal – pseudônimo de Marie-Henry Beyle (1783-1842),, criou
algumas das obras literárias mais importantes do século XIX, um total de três
romances completos e dois inacabados, dois volumes de contos e novelas, além de
obras críticas, narrativas autobiográficas e de viagens. A sua obra O
vermelho e o negro, é uma das obras primas do autor, traçando a vida e o
perfil psicológico de Julien Sorel, tendo por fundo a França do período da
restauração napoleônica, retratada ao mesmo tempo com agudo realismo e fantasia
transfigurada. No livro, o protagonista escreve a seguinte carta: Vinguei-me, escrevia-lhe ele. infelizmente,
meu nome aparecerá nos jornais, e eu não poderei sair incógnito deste mundo.
Morrerei dentro de dois meses. A vingança foi atroz, como a dor de ser separado
de você. Daqui em diante, proibi-me de escrever e de pronunciar o seu nome. Não
falem nunca em mim, nem mesmo ao meu filho; o silêncio será a única maneira de
honrar-me. Para o comum dos homens, eu serei um assassino vulgar... [...] Ninguém me verá falar nem escrever; com isso
você terá recebido as minhas últimas palavras e também as minhas últimas
adorações. J. S. Depois de ter partido essa carta foi que, pela primeira vez,
Julien, já mais senhor de si, sentiu-se muito infeliz. Cada uma das esperanças
da ambição teve de ser arrancada, sucessivamente de seu coração por esta
terrível frase: “Eu vou morrer”. A morte, por si mesma, não lhe era horrível.
Toda a sua vida não fora mais que uma longa preparação para a desgraça, e ele
não esquecera a que passa por ser a maior de todas. “Como!”, pensava ele
[...] Levou mais de uma hora procurando
analisar-se a esse respeito. Quando viu claro na sua alma, e quando a verdade
apareceu diante de seus olhos tão nitidamente como um dos pilares da prisão,
ele pensou nos remorsos! “Por que os teria eu? Fui ofendido de uma forma atroz:
matei, mereço a morte, mas é só. Morro depois de ter saldado a minha conta com
a humanidade. Não deixo nenhuma obrigação por cumprir, não devo nada a ninguém;
minha morte só tem de vergonhoso o instrumento: só isto, é verdade, basta de
sobejo para cobrir-me de vergonha aos olhos dos burqueses de Verrières; mas,
sob o ponto de vista intelectual, nada é mais insignificante! Resta-me um meio
para ser considerado por eles: será lançar ao povo moedas de ouro ao
encaminhar-me para o suplicio. Minha memória, ligada à ideia do ouro, será
resplandescente para eles. Depois desse raciocínio, que após um minuto lhe
pareceu evidente, pensou: “Não tenho nada mais a fazer na terra”, e adormeceu
profundamente. Veja mais aqui, aqui e aqui.RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO
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