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quinta-feira, março 21, 2019

JOÃO UBALDO RIBEIRO, SLAVOJ ŽIŽEK, OSWALD DE ANDRADE, CHICO LUDERMIR & CADÊ O MAESTRO?


CADÊ O MAESTRO? - Dé de Duda ficou órfão aos dez anos de idade, coitado. Situação horrível: sem pai, nem mãe, parentes ou aderentes, todos pereceram num incêndio na comunidade de lona, ele o único sobrevivente no meio das cinzas. Pra sorte dele, logo um casal francês passava para ver a tragédia e comiserou dele num burocrático processo de adoção, quase um ano de lengalenga e, finalmente, foi embora. Cinquenta anos depois, lá estava ele: um retorno às raízes. Agora não mais Dé de Duda, era o afamado maestro Denilson Lawrence, conhecido no mundo todo, menos ali. Agora com sua coleção de fraques, cartolas, piteiras, bengalas, suspensórios, adorava vestir-se assim, pra lá e pra cá. Adquiriu de pronto a casa que supunha ter nascido e fez negócio com outras duas vizinhas de cada lado. Um casarão para morada, com um amplo espaço, cheio de instrumentos, estantes e partituras. Larali lará. Queria dar aulas, oportunidades praquela gente. Ao ver a mocinha sonsa passar, ei, seus olhos quase pularam fora. Como é seu nome? Dudinha. Quantos anos você tem? Dezessete. Quer trabalhar para mim? Sim. Cadê seus pais? Tão ali. E dirigiu-se a ele: É o senhor o pai dela? Sim. E daí? Quero contratá-la para trabalhar lá em casa, pode ser? Pago adiantado. E foi logo sacando dos bolsos um molho de dinheiro. O pai estava pronto para obstar com briga e tudo, mas quando deu fé das cédulas contadas no pau da venta, só notas de cem, arregalou os olhos. Pronto, está aqui, tome, um mês adiantado. Ah, pode levar, ela é toda sua. Todo mês, em dia de hoje, estarei aqui! Dito e apalavrado. Mais do que certo, patrão, o senhor manda. Vamos. E levou a mocinha. Sabe onde é minha casa? Sei. Vá pra lá, volto já. Ela foi e ele dirigiu-se à loja mais próxima, comprou vestidos, cosméticos, produtos de higiene pessoal e saiu cheios dos pacotes. Ela lá, sentada no batente da casa. Vamos! Entraram. Já pro banheiro, tire a roupa, tome sabonete, passe shampu, assim, assado, ela mal sabia usar aquilo, ele foi lá, excitado, ela embaixo do chuveiro, esfregou os cabelos, as costas, os braços, os seios, as partes pudendas, lave-se bem, quero arrumada e cheirosa, viu? Aprendeu? Ah, assim. E banhava de novo ensinando a como se lavar. Pronto! Deu-lhe o vestido, apalpou, rodopiou, ajeitou, penteou e deixou-la toda arrumadinha. Agora sim. Passou a rotina da casa, como queria isso e aquilo, varrição, limpeza, não mexa nisso nem naquilo, comida assim e assado. Agora vá. Foi até a varanda e saiu juntando uns meninos da comunidade para que aprendessem a tocar alguma coisa, aulas e nada, até um deles chamar sua atenção e, ao dispensar os demais no final da aula, pegou-lo pelo braço e levou pro banho. Vamos, se banhe, tire a roupa, vá! Lave a cabeça, tire os grudes, esfregue o couro. Ah, não sabe! Peraí que vou ensinar. Foi aí que viu que o menino era pintudo. Como é seu nome? Zé. Quantos anos? Treze. Quero falar com seu pai! Ele morreu. Sua mãe, também. Teve piedade, como ele, órfão. Ah, você vai ficar para ajudar Dudinha. E lavava e esfregava o menino todo, principalmente o pênis bem expressivo. Bora, já pras obrigações, chispa! Assim, os dias, as aulas, o tempo, dormiam na mesma cama de casal dele: os três nus, ele às costas dela, Zé às costas dele, tudo encangado. Ensinava pacientemente a todos a ouvirem Mozart, Beethoven, Dvorak, aos beliscões, demonstrava paixão pela obra de Mahler, morria de amores pela Jocy de Oliveira, mas ela nunca deu bola pra ele, e quem passasse ele chamava para ouvir Villa-Lobos, Stravinsky, uma vez até me pegou pelo braço e me fez ouvir o Pierrot Lunaire de Schönberg, ou o Klang do Stockhausen ou as Paisagens imaginárias de Cage, sempre olhando pra mim: Hem? Não entendia nada. Aquilo era um horror e ele maravilhado. Era assim, meio doidão, e tinha paroxismos ejaculatórios com o Le Poème de L’Extase de Scriabin, tantas vezes lavado de suor e completamente arrebatado. Aliás, regia sozinho tudo que ouvia e entrava em transe, descabelado, enlevado. Durante o dia quebrava muita cabeça com os alunos e nada deles aprenderem, nem na marra,contudo persistia, até descobrir que só Zé se insinuava indo bem na coisa de lidar com música e um outro claudicante. Estafante, todavia, feliz da vida. Durante a noite, o sossego entre os dois amores praticamente adotados, crescendo irmanados. Foi, então, já próximo ao carnaval, ouviu duma orquestra desleixada no frevo rua abaixo. Saiu chorando, aos gritos: Não é assim que se toca! Pararam, assutados. Quem é o maestro desse troço? Morreu. Então agora sou eu, entrem. Não sabia ele quem eram Os Assassinos do Frevo. Pronto, danou-se tudo. Mas organizou a turba. Ano após ano ele lá na frente, regendo, a cada folia de carnaval. Fizeram até um coreto para ele se apresentar todo final de semana com a sua orquestra de meninos. Era ele a principal atração de todos os festejos, suas estranhices, pulinhos, soberba, agito. Todos queriam ver dele as maiores presepadas. Só que no último carnaval, tudo pronto, fantasias, músicos, o povão todo esperando, cadê o maestro? Havia um alvoroço no ar, todos queriam saber o que ele aprontaria dessa vez, prefeito, bispo, delegado, tudo apinhado embaixo do coreto, cadê o homem, hem? A espera, os cambitos, a inquietação. Lá vem um na carreira e dá a notícia. Como? Achou de bater as botas justo hoje, terça-feira de carnaval, meu? Como é que pode? Ah, não! Acorda, ele tem que reviver pra festa, ora! Sacode o homem, vai. Adianta não, babau. Dá uns sopapos que ele acorda! Morreu mesmo? Mortinho da silva. E agora? O desejo dele: cortejo com frevo e muita folia. Não deu outra, assim foi sepultado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] hoje em dia, apressamo-nos a renunciar à noção de ideologia: acaso a crítica da ideologia não implica um lugar privilegiado, como que isento das perturbações da vida social, que faculta a um sujeito-agente perceber o mecanismo oculto que regula a visibilidade e a invisibilidade sociais? A pretenção de podermos aceder a esse lugar não será o exemplo mais patente de ideologia? Por conseguinte, no que se refere ao estado atual da reflexão epistemológica, a noção de ideologia não será auto-invalidante? Assim, por que havemos de nos apegar a uma ideia de implicações epistemológicas tão patentemente ultrapassadas (a relação de “representação” entre o pensamento e a realidade etc)? [...]. “Ideologia” pode designar qualquer coisa, desde uma atitude contemplativa que desconhece sua dependência em relação à realidade social, até um conjunto de crenças voltado para a ação; desde o meio essencial em que os indivíduos vivenciam suas relações com uma estrutura social até as ideias falsas que legitimam um poder político dominante. Ela parece surgir exatamente quando tentamos evitá-la e deixa de aparecer onde claramente se esperaria que existisse. [...].
Trechos extraídos da obra Um mapa da ideologia (Contraponto, 1996), do filósofo, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Žižek. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O REI DA VELA
[...] Os mesmos e Abelardo II - ABELARDO I - Meu alter ego! Foi um suicídio autêntico. Abelardo matou Abelardo. ABELARDO II (Fingindo-se possesso de surpresa, deixa rolar a lanterna, enquanto Heloísa, na mesma posição, recomeça os soluços intérminos) - Mas que houve? Que foi? O que é isso? Meu Deus. (Aperta o botão da luz) Curto-circuito! ABELARDO I - Não. Foi você que quebrou ladrão de primeira viagem! Fez bem! Pouparemos a luz elétrica. A conta do mês passado foi alta demais! Acenda todas as velas! Economia em regressão. As grandes empresas estão voltando á tração animal! Estamos ficando um país modesto. De carroça e vela! Também já hipotecamos tudo ao estrangeiro, até a paisagem! Era o país mais lindo do mundo. Não tem agora uma nuvem desonerada... Mas não irá ao suicídio... Isso é para mim. ABELARDO II - Por que fez essa loucura? ABELARDO I - Um homem não têm importância a classe fica. Resiste. O poder do espiritualismo. Metempsicose social... ABELARDO II - Quer que chame um médico? ABELARDO I - Para quê? Para constatar que eu revivo em você? E portanto que Abelardo o rico não pagará a conta de Abelardo suicida? ABELARDO II - Pode salvar-se ainda. Como fica essa pobre moça... No desamparo. (Heloísa soluça fortíssimo) Quer um padre? Pode ainda realizar o casamento... ABELARDO I - Que necessidade tem você de casar com a minha viúva... Vai tê-la virgem! e de branco... ABELARDO II - Virgem! Heloísa virgem!(Heloísa diminui os soluços) ABELARDO I - Se o Americano desisti do direito de pernada... ABELARDO II - De pernada? ABELARDO I - Sim, o direito á primeira noite. È a tradição! Não se afobe, pequeno-burguês sexual imaginoso! Não se esqueça que estamos num país semicolonial. Que depende do capital estrangeiro. E que você me substitui nessa copa nacional! Diga, onde escondeu o dinheiro que abafou?... ABELARDO II - Que dinheiro? ABELARDO I - O nosso. O que sacou ás dez horas precisas da manhã.O dinheiro de Abelardo. O que troca de dono individual mas não sai da classe. O que, através da herança e do roubo, se conserva nas mãos fechadas do ricos... Eu te conheço e identifico, homem recalcado do Brasil! Produto do clima, da economia escrava e da moral desumana que faz milhões de onanistas desesperados e de pederastas... Com esse sol e essas mulheres!... Para manter o imperialismo e a família reacionária. Conheço-te, fera solta, capaz dos piores propósitos. Febrônio dissimulado das ruas do Brasil! Amanhã, quando entrares na posse da tua fortuna, defenderás também e sagrada instituição da família, a virgindade e ao pudor, para que o dinheiro permaneça através dos filhos legítimos, numa classe só... ABELARDO II - Eu sempre defendi a tradição... e a moral... ABELARDO I - E defende também a casa feudal!... Se salvares a fazenda das unhas militarizadas do Perdigoto, conserva a Casa da família. Não reformes nada! A casa feita para ter muitos criados, um resto de mucamas e negras velhas, lembrando o tronco! E um grande quarto frio para dois seres que se traem e se detestam dormindo na mesma cama e orando no mesmo oratório. A casa antiga, colonial, um mundo que resiste! Mais que eu... Foi a bala do cano que penetrou profundamente, a primeira... As outras rodearam o coração! Que dor... Decerto é porque o coração ficou intacto... O coração, esse útero do homem, onde a gente gera os filhos mais caros... a ambição, o amor, o desespero, a vontade de viver... a literatura... Escuta, Abelardo! Abandonaste o socialismo? ABELARDO II - Faço-lhe presente dele! ABELARDO I - Mas eu não aceito. Neste momento eu quero a destruição universal... O socialismo conserva... ABELARDO II - Virou Bolchevista! São todos assim... Quando era o grande milionário e emprestava a 15% os mês e eu lhe falava dos ideais humanitários e moderados do socialismo, caçoava. Conhecia tudo, lia tudo, mas se ria... Agora... ABELARDO I - Sempre soube que só a violência é fecunda... Por isso desprezei essa contrafação. Cheguei a preferir o facismo do Perdigoto. Mas agora eu queria outra coisa... ABELARDO II - O comunismo... ABELARDO I - Para te deixar um veneno pelomenos misturado com Heloísa e os meus cheques. Deixo vocês ao Americano... E o Americano aos comunistas. Que tal o meu testamento? ABELARDO II - São todos assim como você, passam para o outro lado quando estão arruinados! ABELARDO I - È um erro teu! Se todos fossem como o oportunista cínico que sou eu, a revolução social nunca se faria! Mas existe a fidelidade a miséria! Eu estou saindo da luta de classes... Já está ai a marca onde o meu corpo vestido e inerte substituirá o corpo voluptuoso de Heloísa.. Mas se sarasse... regressava à arena na posição que ocupei. Não aderia... Talvez mudasse de dono. Voltava a trabalhar para o imperialismo inglês... ABELARDO II - Pão- duro... ABELARDO I - Pão amanhecido! ABELARDO II - Eu fui o teu obstáculo! ABELARDO I - Mas a tua vida não irá muito além desta peça... ABELARDO II - Ma matas? ABELARDO I - Para quê? Outro abafaria a banca. Somos... uma barricada de Abelardos! Um cai, outro substitui, enquanto houver imperialismo e diferenças de classes... ABELARDO II - Ora, que sujeito! Fazendo visagem na hora da morte! ABELARDO I - Não sou nem sequer um demagogo. Esta cena é ainda um episódio da concorrência. Uma briga burguesa. Eu quero, mesmo depois da morte, te suplantar na memória dela que vai ser tua mulher. ABELARDO II - Minha mulher? ABELARDO I - Como meu irmão será o teu advogado! (Silêncio) [...] UMA VOZ (Grossa, terrificante, da porta escancarada que mostra a jaula vazia) - Eu sou o corifeu dos devedores relapsos! Dos maus pagadores! Dos desonrados da sociedade capitalista! Os que têm nome tingido para sempre pela má tinta dos protestos! Os que mandam dizer que não estão em casa aos oficiais da justiça! Os que pedem envergonhadamente tostões para dar de comer aos filhos! Os desocupados que esperam sem esperança! Os aflitos que não dormem, pensando nas penhoras. (Grita) A Amé-ri-ca - é - um - ble-fe!!! Nós todos mudamos de continente para enriquecer. Só encontramos aqui escravidão e trabalho! Sob as garras do imperialismo! Hoje morremos de miséria e de vergonha! Somos os recrutas da pobreza! Milhões de falidos transatlânticos! Para as nossas famílias, educadas na ilusão da Amé-ri-ca, só há a escolher a cadeia ou o rendez-vouz! Há o sui-cí-dio também! O Sui-cí-dio... ABELARDO I - É a revolução... Fogo! façam fogo... Silêncio pesado. Os soluços de Heloísa aumentam. [...].
Trecho extraído do 3º Ato da peça teatral O rei da vela (Globo, 1998), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A FOTOGRAFIA DE CHICO LUDERMIR
A arte do jornalista, escritor e artista visual Chico Ludermir. Veja mais aqui.
&
A obra do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, novembro 06, 2015

SHAKESPEARE, PESSOA, CHAPLIN, MARILYN, MENEGUELLO, JOÃO UBALDO, FELDON & CARTOLA.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A VIDA, UM SORRISO - A cada dia que se passa mais me convenço que as pessoas se tornam cada vez mais rígidas. Quanto mais conheço e me relaciono com pessoas, mais sérias elas estão e é assim que a mim se demonstram. Muita cara fechada, sisudez, inflexibilidade. Raro um momento de educação, de descontração, de sorriso. As pessoas pedem desculpas como se fosse por, sei lá, qualquer coisa, ou conveniência, mas não há um mínimo de sentimento nisso. Parecem-me pessoas blindadas, como se ao sorrir traíssem a carapuça de toda sua defesa, ou se desgovernassem irremediavelmente, ou se desmoronassem vulneráveis. Talvez seja mesmo o reino da autodefesa: não te conheço, sai pra lá. A definição do território: não és dos meus, para os amigos todos os favores do mundo; aos inimigos, todos os rigores da lei. Se bateu, levou; fica lá que fico cá. Assim se relacionam no dia a dia. Não admitem a menor simpatia. Não sabem, por exemplo, do provérbio latino que foi seguido à risca por Moliére na Commedia dell’Arte, redigida pelo poeta Jean de Santeul: ao rir é que se corrigem os costumes. Ôpa! Ah, mas o riso é uma expressão linda, nada mais lindo que o riso de Elis Regina, o misterioso da Mona Lisa – La Gioconda de Da Vinci, que a língua de fora de Einstein, das crianças ao brincar. Como é lindo o sorriso. Como diz o poeta Mário Quintana: O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores. Além do mais, o sorriso tem o poder de deixar tudo mais leve, flexível e democratizado, sem formalidades, nem rituais. Abre portas, oportunidades. A poeta e jornalista estadunidense Ella Wheeler Wilcox professa que: Ri, e o mundo rirá contigo; chora, e chorarás sozinho. Isso traz uma clarividente possibilidade: o riso comunga, é a figura extrema da irmanação. É como o Sol amanhecendo, sorrindo, paratodos. É como o abraço amigo, de quem chega, de quem faz parte dos nossos afetos, de quem nos dirige um ato de ternura e solidariedade. É como o momento da nossa mais feliz inteireza: ao filho que nos completa, aos pais que nos criou, aos que fazem parte do nosso coração e os que poderão também fazer parte dessa comunhão, afinal somos um só na vida do planeta Terra. Comigo guardo a lição do poeta Cartola, na sua belíssima e imortal O sol nascerá: A sorrir eu pretendo levar a vida... E veja mais aqui.

 Imagem: Secret Smile, do artista plástico Connie Chadwell

SMILE
 (Charles Chaplin / G. Parsons / J. Turner - Vs. Braguinha)
Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Smile


HUMOR & EDUCAÇÃO – O livro A canção da inteireza: uma visão holística da educação (Summus, 1995), do filósofo e professor Clodoaldo Meneguello Cardoso, trata sobre as mudanças paradigmáticas, fundamentos filosóficos, teoria da aprendizagem, pratica de ensino, bases axiológicas, contribuições para a educação, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Educar holisticamente, portanto, é estimular no aluno o desenvolvimento harmonioso das dimensões da totalidade pessoal: física, intelectual, emocional e espiritual. E esta, por sua vez, participa de outros planos de totalidade: o comunitário, o social, o planetário e o cósmico. Todos estes planos devem também ser desenvolvidos concomitantemente no processo educacional. Não se entende o homem somente a partir de si mesmo, como centro e senhor da natureza, mas como parte de um todo. Questões como autoconhecimento, liberdade, realização, justiça e paz são enfocadas levando sempre em conta o contexto da interdependência dos fenômenos, nos diversos planos sistêmicos dos quais o homem é parte. [...] É fundamental manter um ambiente de alegria e de ludicidade na classe. Sem humor, o educador não experiencia o encontro existencial como o educando e bloqueia o próprio processo ensino-aprendizagem. A educação tradicional colocou as virtudes: atenção, dedicação e responsabilidade como incompatíveis com a alegria e a descontração. Tradicionalmente, sorrir era sinônimo de imaturidade e irresponsabilidade, daí a expressão “muito riso pouco siso”. O sorriso, entretanto, é a expressão simples de felicidade por estar vivo. Veja mais aqui.


Marilyn Monroe, by Parziwal

O SORRISO DO LAGARTO – O romance O sorriso do lagarto (Nova Fronteira, 1989), do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), trata de um apanhado de situações- muito bem encadeadas e recheadas de diálogos primorosos, em que se identifica o naturalismo, a degradação do individuo, o cientificismo, o político, o homossexualismo, a engenharia genética, o consumo de drogas por parte da elite, a degradação da saúde, a igreja e os pobres, o comportamento sexual feminino. Da obra destaco os trechos: [...] - Aqui na ilha, se morre de tudo, não tem essa conversa de que aqui não acontece certas mortes – disse Mero Doido, que desde as cinco horas estava fazendo um levantamento dos mortos ligados ao Mercado e das causas de suas mortes. – Você não diz uma doença, inclusive das mais modernas, que alguém aqui não tenha morrido. Até umas doenças que não são nem bem doenças aqui se morre, como Galo Cego, que teve uma espinha no nariz que foi virando câncer e comeu a cara dele toda e ele morreu fedendo e com a cara toda comida. Isso de uma espinha. Filu foi de hidropisi, Nandá foi derrame, Roque Feio foi diabete, Lazarão foi tifo, mosquete foi tuberculose, Unha Grande foi doença de Chagas e Zoinho dizem que foi de Aids. Até Aids já deu aqui, e Zoinho não era falso ao corpo, pelo contrário. Aqui dá tudo. E agora o neto mais velho de Quatinga morreu de tumor no cérego. [...] - Não quero discutir questões de fé com o senhor, para mim isso tem importância, para o senhor não tem. Mas veja o problema moral contido nisso, o problema político. O poder político plasmando a Humanidade e a Natureza. - Isso é inevitável. Quem chegou, chegou, quem não chegou, não chega mais. O poder hoje dispõe de tais instrumentos que se sedimentou definitivamente, jamais vai mudar realmente de mãos e a tendência é isso se acentuar. Isso é bom. Isso significa maiores possibilidades de controle racional. Não haverá revolução, nem alteração radical na estrutura do poder, nem entre nações, nem entre classes sociais, nesse sentido a História acabou. Sempre digo que democracia é um mito supersticioso, assim como a igualdade e outros chavões. Há muito tempo que a democracia não é mais praticada em lugar nenhum, a não ser microscopicamente, e temos que colocar essa situação a nosso favor, ou seja, aperfeiçoar o homem de todas as formas possíveis. - Para mim, isso é extinguir a Humanidade, tal como a conhecemos. Para mim, é o homem se tornando inimigo do homem, deixando o adversário que traz dentro de si vencer, fazendo com que se volte contra si mesmo. É como se fosse a obra de Satanás. - Sim, Satanás, ha-ha! Satanás quer dizer “inimigo”, não é? Neste caso, eu seria Satanás, ou pelo menos um satanás, pois creio que há controvérsia na própria Igreja sobre a existência de um ou vários satanases. Engraçado, desculpe-me por estar rindo, muito engraçado mesmo – Satanás. Pois, olhe, eu aceito, e acho tecnicamente certa sua inferência. Eu sou inimigo de Deus, sim, embora o considere um inimigo fictício, vocês me arranjaram esse inimigo fictício, que eu preciso combater. [...] Deus não existe e, se existe, é preciso tomar dele o poder, ele não tem sido competente, para um onipotente tem um desempenho muito pouco satisfatório. E então, diante do exposto, o senhor tem razão, de fato eu sou Satanás, o senhor tem razão, é mais do que lógico. Vade retro, pensou Monteirinho [...] Aquilo tudo era terrível mesmo, e mais terrível ainda por se passar daquela forma irresistível, como Lúcio Nemésio dissera tão convincentemente. João Pedroso tentara resistir e fora eliminado. Sim, fora eliminado, agora tinha certeza, embora não pudesse provar, embora jamais pudesse dizer a ninguém. Tinha certeza, certeza absoluta de que João fora morto por obra de Ângelo Marcos, ao sedescobrir enganado – não sabia como, mas fora. E, assim, esse agente do Mal cumpriu sua missão, removeuum obstáculo. Tudo se encaixava, o Mal havia tido grande vitória. Dedicaria à vida, tinha dito João, dedicaria a vida a lutar contra aquilo. Mas apenas perdeu a vida, martirizou-se anonimamente. [...]. Veja mais aqui e aqui.

SORRISO
(Fernando Pessoa)

Sorriso audível das folhas,
Não és mais que a brisa ali.
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri, e olha de repente,
Para fins de não olhar,
Para onde nas folhas sente
O som do vento passar.
Tudo é vento e disfarçar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou;
E estamos os dois falando
O que se não conversou.
Isto acaba ou começou.

AS ALEGRES MATRONAS DE WINDSOR – A comédia de costumes farseca em cinco atos The Merry Wives of Windsor (As alegres matronas de Windsor, 1602), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), baseada nos costumes da classe média provinciana da época, conta a história de um cavalheiro falido, Sir John Falstaff, que se encontra num período de falta de sorte e resolve inventar um plano para enriquecer. Da obra destaco o trecho da festa e da alegria da canção: [...] (Entram o reverendo Hugo Evans, disfarçado de sátiro; Pistola, como duende; Ana Page, como rainha das fadas, seguida do irmão e de outras pessoas, disfarçadas de fadas, com tochas de cera na cabeça.) ANA - Fadas verdes e brancas, matizadas, que aqui brincais nas noites enluaradas, herdeiras e órfãs do fatal destino, alegres acorrei! Entoemos o hino dos duendes e das fadas. Alegria! PISTOLA - Atenção, elfos! Cesse a correria dos espíritos aéreos! Grifo, salta para as chaminés de Windsor, onde uma alta lide vais ter, que a cinza ainda está quente e, por varrer, os lares. Complacente não sejas com as zagalas; beliscões em todas dá, de produzir vergões azuis como o mirtilo. Nossa rainha não suporta imundície tão daninha. FALSTAFF - São fadas. Se eu falar com algumas delas, sou homem morto. Assim, sem mais aquelas, vou me deitar e tapar bem o rosto. Homem nenhum em vê-las acha gosto. EVANS - Vai, Bode; e onde encontrares rapariga que as orações três vezes sempre diga antes de se deitar, com alegria, estimula-lhe a bela fantasia, porque ela, como criança na aparência, possa dormir o sono da inocência. Mas se achares alguma descuidada que ao se deitar não tenha dito nada, belisca-lhe à vontade o corpo lasso, pescoço, braços, pernas e o espinhaço. ANA - Trasguinhos, começai! Todo o castelo de Windsor varejai; sorte espalhai a flux, alegremente, porque possa durar eternamente, sem decair jamais em abandono, como convém ao seu mui digno dono. Seiva esfregai em todas as cadeiras, das plantas mais preciosas e fagueiras; abençoados se tornem sempre mais seus leais brasões e as cotas imortais, e como a jarreteira, elfos, à roda, em círculo cantai a noite toda. Que a vossos passos tornem-se virentes e mais férteis os prados adjacentes.  "Honny soit qui mal y pense" à volta escrevei dos canteiros em recolta, em tufos brancos, rubros e azulados, como pedras preciosas nos bordados, que aos joelhos curvos da cavalaria conferem elegância e altanaria. Com flores escrevei, pois, em porfia. Vamos, principiai! Antes de uma hora, como de hábito, vinde sem demora dançar em torno do carvalho de Herne. EVANS - Que cada um com o vizinho o passo alterne. Em ordem. Mãos com mãos. Vinte luzentes pirilampos levai como pingentes, porque vos possam dirigir o passo sem vos perderdes nada em pouco espaço. Mas vejo um ser do mundo intermediário! FALSTAFF - O céu me defenda desse duende galense, para que ele não me transforme num pedaço de queijo. PISTOLA - De nascimento, ó verme, és ordinário! ANA - A chama quente lhe encostas no dedo. Sendo ele casto, não mostrará medo, pois não se queimará. Mas se gritar, é que é carne corrupta e mui vulgar. PISTOLA - Eia, a postos! EVANS - Façamos a experiência. (Queimam Falstaff com os archotes.) FALSTAFF - Oh! Oh! Oh! ANA - Corrupto, Corrupto! É só concupiscência! Cantai-lhe fadas, algo zombeteiro e, ao dançardes, picai-o o tempo inteiro. Fora a doente fantasia, a incontinência, a fobia! Loucura é fogo abrasante que o sangue deixa escaldante. Brota do coração em alta chama, que o pensamento mais e mais inflama. Beliscai-o com vontade, por sua muita ruindade. Beliscai-o, queimai-o, até que a lua se esconda e a noite seu rondar conclua. (Durante a canção, as fadas beliscam Falstaff; o doutor Caius entra por um lado e rouba uma fada de vestido verde; Slender, por outro, leva uma fada de branco; depois entra Fenton e sai com Ana Page. Ouve-se barulho de caçada; as fadas saem a correr; Falstaff arranca da cabeça os chifres e se levanta. Entram Page, Ford, a senhora Page e a senhora Ford, que seguram Falstaff) [...]. Veja mais aqui e aqui.

SMILE – O satírico drama-comédia Smile (Sorriso, 1975), dirigido por Michael Ritchie, com roteiro de Jerry Belson sobre um concurso de beleza na Califórnia, satiriza a cidade pequena na América do Norte, suas peculiaridades, hipocrisias e artificio dentro de um concurso de beleza. Conta como um vendedor de veículos usados se torna juiz principal e como um alcoólatra e sua esposa se tornam diretores executivos que vão se enredando em subtramas que denunciam infelicidade, rituais humilhantes, conspirações e sabotagens, aproveitamento dos participantes, cinismo, incompetência na realização de cerimonias extravagantes, e tudo vai transcorrendo em clima de drama e comédia. O destaque do filme é pra legendária atriz estadunidense Barbara Feldon, a que se imortalizou como Agente 99 do seriado Get Smart, dos anos 1960. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
The Sweetest Smile, by Jeremy Holton.
Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

CURSO DINÂMICO DE ORATÓRIA
Veja mais detalhes aqui.


sexta-feira, janeiro 23, 2015

EYRA HARBAR, ELIZABETH WURTZEL, JEANNE MOREAU, SHERE HITE & MARGARET SANGER

 


A FRANCESA TANTAS MULHERES... – Aquela filha de uma bailarina inglesa e de um barman francês detestava a rotina e estereótipos, uma múltipla mulher: de carne e osso, emoções e profundidade. Passou pela Comédie-Française e pelo Teatro Nacional Popular (TNP) e foi pras telas com beleza personalíssima, de nenhuma perfeição nem hipersensualidade: a medida humana exata – inteligente, sensível, complexa, intuitiva. Foi Florence Carala no Ascenseur pour l'échafaud, foi Jeanne Tournier no Les amants, foi Anne Desbarèdes no Moderato cantábile - baseado no romance homônimo de Marguerite Duras e o prêmio de Cannes. Foi mais: Lidia no La notte, Catherine no Jules et Jim e cantando Le Tourbillon de la vie. Foi a interesseira e sedutora Eva Olivier nas cenas de Losey, foi a criada astuciosa Céléstine no Le journal d'une femme de chambre, foi a escolhida pelo mercador, Virginie Ducrot, no The Immortal Story (1968), baseado no conto de Karen Blixen. Foi a sedutora assassina Julie Kohler no La mariée était en noir, foi Maria no Le jardin qui basculhe, foi a Joana Francesa de Cacá, foi Amande, instrutora de Nikita (1990): As pessoas – e as mulheres em especial – preocupam-se demais com o envelhecimento. Mas nós parecemos mais novos se não nos preocuparmos com ele. Porque para lá da beleza, do sexo, da titilação, da superfície, há um ser humano. E é isso que tem que emergir... Afora ter sido a escritora Marguerite Duras no Cet amour-là e quantas mais foi, afora ter dirigido o semibiográfico drama Lumière. Muitas e ela: Viva a grande atriz e cantora Jeanne Moreau (1928-2017). Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A expressão de nossa sexualidade deve ser guiada por princípios de consenso, respeito e cuidado mútuo. Nenhuma mulher pode se considerar livre se não controlar seu próprio corpo. Nenhuma mulher pode se considerar livre até que possa escolher conscientemente se quer ou não ser mãe. Um ato sexual mútuo e satisfeito é de grande benefício para a mulher média, o magnetismo disso é doador de saúde. Quando não é desejado por parte da mulher e ela não tem resposta, não deve acontecer. Este é um ato de prostituição e é degradante para a sensibilidade mais fina da mulher, apesar de todas as certidões de casamento na terra em contrário... Pensamento da sexóloga, enfermeira, escritora e ativista estadunidense Margaret Sanger (Margaret Higgins Sanger ou Margaret Louise Higgins – 1879-1966), que no livro Woman and the New Race (Cosimo Classics, 2005), expressou que: […] A mulher deve ter sua liberdade, a liberdade fundamental de escolher se será ou não mãe e quantos filhos terá. Independentemente da atitude do homem, esse problema é dela — e antes que possa ser dele, é somente dela. Ela atravessa o vale da morte sozinha, cada vez que um bebê nasce. Assim como não é direito nem do homem nem do estado coagi-la a essa provação, também é direito dela decidir se ela irá suportá-la. [...]. Em 1914, ela foi processada pelos Estados Unidos, sob às leis do Ato Federal Comstock, de 1873. As leis do Ato Comstock proibiam a circulação, venda e produção de toda literatura com qualquer tipo de conteúdo sexual, erótico ou informações e ativismo sobre controle de natalidade, seja sobre contraceptivos ou aborto. Com medo do que poderia acontecer, Sanger se refugiou nos países britânicos até que fosse seguro retornar aos Estados Unidos. Por sua ligação à organização Federação de Paternidade Planejada da América, ela foi, e ainda é, alvo frequente dos críticos do aborto. Entretanto, o Planned Parenthood Federation of America passou a realizar abortos apenas em 1970, quatro anos após sua morte. A ONG, fundada em 1916, funciona até hoje, e é responsável por metade dos abortos legais nos Estados Unidos, além de globalmente oferecer serviços como educação sexual e controle de natalidade, inclusive no Brasil. O trabalho de Sanger com comunidades carentes também foi louvado por Martin Luther King, em seu discurso de aceitação do prêmio Margaret Sanger Award, em 1966.

 

ALGUÉM FALOU: A sexualidade é uma fonte de alegria, prazer e conexão, e não apenas de procriação. Não se pode decretar que as mulheres sejam sexualmente livres quando não são economicamente livres. Temos direito aos nossos próprios corpos. Onde há amor duradouro, há família. Pensamento da sexóloga e feminista teuto-americana Shere Hite (1942-2020). Veja mais aqui e aqui.

 

NAÇÃO PROZAC - [...] Essa é a questão sobre a depressão: um ser humano pode sobreviver a quase tudo, desde que veja o fim à vista. Mas a depressão é tão insidiosa, e se agrava diariamente, que é impossível ver o fim. [...] Alguns amigos não entendem isso. Eles não entendem o quão desesperada eu estou para que alguém diga, eu te amo e te apoio do jeito que você é porque você é maravilhosa do jeito que você é. Eles não entendem que eu não consigo me lembrar de ninguém me dizendo isso. Eu sou tão exigente e difícil para meus amigos porque eu quero desmoronar e desmoronar diante deles para que eles me amem mesmo que eu não seja divertida, deitada na cama, chorando o tempo todo, sem me mover. A depressão é sobre Se você me amasse, você faria. [...] É tudo o que eu quero na vida: que essa dor pareça ter um propósito. [...] Eu sou a garota que está perdida no espaço, a garota que está sempre desaparecendo, sempre desaparecendo e recuando cada vez mais para o fundo. Assim como o gato de Cheshire, um dia eu irei embora de repente, mas o calor artificial do meu sorriso, aquela curva falsa e palhaça, do tipo que você vê em pessoas miseravelmente tristes e vilões em filmes da Disney, permanecerá para trás como um resquício irônico. Eu sou a garota que você vê na fotografia de alguma festa em algum lugar ou algum piquenique no parque, aquela que de fato logo irá embora. Quando você olhar para a foto novamente, quero lhe garantir, eu não estarei mais lá. Eu serei apagada da história, como uma traidora na União Soviética. Porque a cada dia que passa, eu me sinto me tornando mais e mais invisível. [...]. Trechos extraídos da obra Prozac Nation (Riverhead, 2002), da escritora e jornalista estadunidense Elizabeth Wurtzel (1967-2020). Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - COISAS DE MULHER - A primeira vez \ o sangue, \ como uma filha, \ caminhou pela vida \ com a sua verdade, \ e foi sempre \ até o fim \ anunciando \ a fertilidade \ e todos os seus tempos. GOLPE - Entendo o ar \ quando o empurro, \ da minha boca levo \ até a concha do seu ouvido \ e ele fica estagnado como o mar \ para ser ouvido. Poemas da escritora e advogada panamenha Eyra Harbar, autora dos livros Burnt Paradise (Panamá, 2014), Mirrors (INAC, 2003), Where the Beetle Dwells (UTP, 2002), entre outros.

 

SACADOUTRAS

 

VIVA O POVO BRASILEIRO – Sempre tive os maiores deleites nas leituras que fiz do grande e imortal escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Entre seus livros, não menos prazeroso foi a detida e quase de um fôlego só devorar Viva o Povo Brasileiro (Nova Fronteira, 1984). Tive que me segurar para não ter um troço de tanto rir. Trago aqui um fragmento dessa magnífica obra para que todos tenham uma pequena ideia da maravilha de livro que é: [...] O comportamento das almas inopinadamente descarnadas, sobretudo quando muito jovem, é objeto de grande controvérsia e mesmo de versões diametralmente contraditórias, resultando que, em todo o assunto, não há um só ponto pacífico. Em Amoreiras, por exemplo, afirma-se que a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias mais potentes, dos polos esotéricos, das correntes alquímico-filosofais, das atrações da lua e dos astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas – tudo isso faz com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e às vezes fazendo um sem número de exigências. Diz-se que era por causa dos tupinambás que la moravam, que com mil artes e manhas de índios amarravam as almas dos mortos até que eles pagassem os obséquios que morreram devendo, ou resolvessem qualquer pendência de que foram partes. Mas depois dos tupinambás, vieram os portugueses, espanhóis, holandeses, até franceses, e os defuntos, mesmo não havendo mais índios para os amarram, continuaram por lé, desafiando as ordens dos padres e feiticeiros mais respeitados para que se retirassem. Em seguida, chegaram os pretos de várias nações da África e, não importa de onde viessem e de que deuses trouxessem consigo, nenhum deles jamais pôde livrar-se de seus mortos, tanto assim que foram os que melhor aprenderam a conviver com essa circunstancia, não havendo, por exemplo, órgãos e viúvos entre eles. Os muitos deles que não conseguiram suportar viver na companhia de uma memória infinita e na presença de tudo o que já existiu mudaram-se para lugares bem longe de Amoreiras e jamais comem qualquer coisa vinda de lá. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Olympia (1865), do pintor francês Édouard Manet (1832-1883). Veja mais aqui.

Ouvindo: Saga da Amazônia, do cantor e compositor Vital Farias.

A DOUTRINA SECRETA – A escritora e ocultista russa Elena Petrovna Blavatskaya, popularmente conhecida como Helena Blavatsky ou Madame Blavatsky (1831-1891), realizou viagens e experiências insólitas até que, aos vinte anos de idade, teve um encontro com o Mestre Mahatma Morya-El, tornando-se a partir de então, a primeira mulher ocidental a penetrar no Tibet e a ser iniciada na Grande Loja Branca. Teve depois contato com o Mestre Ku-Hu-Mi, fundando, a partir disso, a Sociedade Teosófica, ao lado de Henry Stell Olcott e William Q. Judge. É autora dos monumentais livros Isis sem Véus e a Doutrina Secreta. De seus pensamentos destacamos: Há um caminho, íngreme e espinhoso, envolto em perigos de toda espécie, mas ainda assim um caminho, e que leva ao próprio coração do Universo. Para aqueles que prosseguem vitoriosos já uma recompensa indescritível – o poder de abençoar e salvar a humanidade; para aqueles que falham, já outras vidas nas quais o sucesso pode vir. Veja mais aqui, aqui e aqui. 

O VERMELHO E O NEGRO – O escritor francês Stendhal – pseudônimo de Marie-Henry Beyle (1783-1842),, criou algumas das obras literárias mais importantes do século XIX, um total de três romances completos e dois inacabados, dois volumes de contos e novelas, além de obras críticas, narrativas autobiográficas e de viagens. A  sua obra O vermelho e o negro, é uma das obras primas do autor, traçando a vida e o perfil psicológico de Julien Sorel, tendo por fundo a França do período da restauração napoleônica, retratada ao mesmo tempo com agudo realismo e fantasia transfigurada. No livro, o protagonista escreve a seguinte carta: Vinguei-me, escrevia-lhe ele. infelizmente, meu nome aparecerá nos jornais, e eu não poderei sair incógnito deste mundo. Morrerei dentro de dois meses. A vingança foi atroz, como a dor de ser separado de você. Daqui em diante, proibi-me de escrever e de pronunciar o seu nome. Não falem nunca em mim, nem mesmo ao meu filho; o silêncio será a única maneira de honrar-me. Para o comum dos homens, eu serei um assassino vulgar... [...] Ninguém me verá falar nem escrever; com isso você terá recebido as minhas últimas palavras e também as minhas últimas adorações. J. S. Depois de ter partido essa carta foi que, pela primeira vez, Julien, já mais senhor de si, sentiu-se muito infeliz. Cada uma das esperanças da ambição teve de ser arrancada, sucessivamente de seu coração por esta terrível frase: “Eu vou morrer”. A morte, por si mesma, não lhe era horrível. Toda a sua vida não fora mais que uma longa preparação para a desgraça, e ele não esquecera a que passa por ser a maior de todas. “Como!”, pensava ele [...] Levou mais de uma hora procurando analisar-se a esse respeito. Quando viu claro na sua alma, e quando a verdade apareceu diante de seus olhos tão nitidamente como um dos pilares da prisão, ele pensou nos remorsos! “Por que os teria eu? Fui ofendido de uma forma atroz: matei, mereço a morte, mas é só. Morro depois de ter saldado a minha conta com a humanidade. Não deixo nenhuma obrigação por cumprir, não devo nada a ninguém; minha morte só tem de vergonhoso o instrumento: só isto, é verdade, basta de sobejo para cobrir-me de vergonha aos olhos dos burqueses de Verrières; mas, sob o ponto de vista intelectual, nada é mais insignificante! Resta-me um meio para ser considerado por eles: será lançar ao povo moedas de ouro ao encaminhar-me para o suplicio. Minha memória, ligada à ideia do ouro, será resplandescente para eles. Depois desse raciocínio, que após um minuto lhe pareceu evidente, pensou: “Não tenho nada mais a fazer na terra”, e adormeceu profundamente. Veja mais aqui, aqui e aqui.

JEANNE MOREAU
A vida é arriscada. O clichê é que a vida é uma montanha. Você vai para cima, chega ao topo e depois desce. A morte é um mistério absoluto. Somos todos vulneráveis a isso, é o que torna a vida interessante e cheia de suspense. Saber morrer é saber viver. O que é a morte, afinal? É o resultado da vida...
Pensamento da atriz e cantora francesa Jeanne Moreau (1928-2017).

JOANA FRANCESA – Quando assisti o filme Joanna Francesa (1973), de Cacá Diégues, além de ficar maravilhado com o filme, duas coisas me chamaram a atenção: a interpretação da atriz francesa Jeanne Moreau e a música-título do Chico Buarque. Relembrando o filme, Joana é uma francesa possuidora de um prostíbulo em São Paulo no início da década de 1930. Ao receber uma proposta do Coronel Aureliano, ela aceita visitar a esposa dele que se encontra moribunda num engenho de açúcar, em Santa Rita, interior de Alagoas. Lá ela conhece a família: uma sogra dominadora, filhos incestuosos e a rivalidade dele com a família Lima que em razão deles construírem uma usina, levam-no à bancarrota. O filme é lindo! A música, maravilha; Jeanne Moreau, encantadora. Veja mais aqui.


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