segunda-feira, abril 08, 2019

HUSSERL, LUIZ RUFFATO, MARIA ROSA NUNES, LAURA FINOCCHIARO, PALÍNDROMOS & ZÉ LINALDO


PALÍNDROMOS – 10:01, luzes, zás-trás. De pai e mãe, eu; de amor e sexo, a vida: palíndromos das horas. A infância na idolatria paterna; maternidade protetora no ninho das mulheres e a manha pelas enfermidades: primeiro os olhos vermelhos de fogo na roda-gigante; depois, amarelo de fígado. O menino são inventou a escada e subiu faca nos dentes, a goiabeira: o fruto à mão, meninas em festa. No último degrau, o espirro no telhado e a vertigem, a queda na lavanderia: a torneira e garrafas vazias, pernas pro ar, desacordado. Era primeira lição de sísifo, ouroboros. A vida passa e à flor da idade, o pedestre aos vinte e três anos, a encruzilhada e a colisão de automóveis. 05:50, o transeunte é alcançado, o atropelamento. Um corpo estendido entre o meio-fio e o asfalto, sangue na sarjeta. A segunda lição, afora outras de somenos. Vai já meia idade e as mãos em concha aos ouvidos, o silêncio no meio do zoadeiro. Velhice prematura, sabedoria inócua: a arte e não ter mais o que fazer, só esperar. Quantas lições entre gargalos, novelos, látegos, malabares, e a remover antolhos na magreza dos instantes, lixeiras destampadas, travessias lancinantes. 00:00, domingo que não sei se primeiro de janeiro ou diário limpo, anuário esquecido, quantos decênios e o milênio: o ideal da felicidade é uma luz refletida no espelho. Um rol de tantas frustrações e angústias exacerbadas, o isolamento do drama diário, cadê o inesperado, o mundo ordinário. Resta deitar no chão e saber que o medo é o limite da liberdade entre segredos e a insuportável convivência: insultos e agressões veladas. Sair da linha e renascer na devastação, o que restava: emoções encadeadas por tantos dias, 20 de março de 2003 ou 04 de abril de 2004, semanas, anos, décadas, só daria conta muito depois de pintar o sete por muitos sétimos períodos. A vida é morrer a cada dia e recomeçar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
 [...] Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro da classe média alta de Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma perna de calça e uma barriga, que se advinha em breve proeminente, indica a existência de um homem (marido das mãos femininas, talvez). Assentada sobre o braço da mulher, uma outra mão. Pela composição das sombras, deduz-se a tarde, e pelas roupas, o final de inverno. Assim a foto sobre a mesa: o menino surge de corpo inteiro, mas os outros três personagens são inidentificáveis – falta-lhes o rosto, página em branco onde se imprime nossa individualidade, nossa singularidade, nossa história, enfim. Todo o meu esforço como escritor tem sido o de tentar recompor essa imagem. O menino, identifico-o, sou eu, aos cinco ou seis anos de idade. Mas quem são os outros três personagens que, numa tarde de inverno para sempre perdida, imobilizaram-se para o olhar amador de alguém por detrás da máquina fotográfica? Quais são seus nomes, de onde vieram, onde estarão agora, o que fizeram de suas vidas, foram felizes? Do menino, sei eu – e, curiosamente, é o que menos importa. Mas, e todos aqueles que sucumbiram, sem voz e sem nome, e que a História registrará apenas nas lápides de humildes cemitérios que a borracha do tempo apagará? E os outros, que nem mesmo a morte resgatará do anonimato? [...] Imagem: filme Redemoinho, dirigido por José Luiz Villamarim e baseado na obra de Ruffato.
Trechos de Até aqui, tudo bem! - Como e porque sou romancista – versão século 21, do escritor Luiz Ruffato, extraído de Espécies de espaço: territorialidades, literatura, mídia (EdUFMG, 2008), organizado por Izabel Margato e Renato Cordeiro Gomes. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Maria Rosa Nunes que possui formação superior em design e atua profissionalmente com pinturas, colagens gráficas, arte digital e direção de arte em agências de publicidade. 
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A MÚSICA LAURA FINOCCHIARO
A arte da cantora, compositora, guitarrista, arte-educadora e produtora musical Laura Finocchiaro, que iniciou sua carreira na esteira dos movimentos musicais da década de 1980, em Porto Alegre, e transitou em São Paulo nos palcos da Lira Paulistana, o Madame Satã e a Fábrica do Som, além de participar do festival Rock in Rio II, ao abrir os shows de Prince e Santana. Ela já lançou os álbuns Laura Finocchiaro (1992), Ecoglitter (1998), Tashi Delê mantras de roda (2001), Oi (2003), Lauras (2008), Copy paste, Música orgânica (2013), Eletrorgânica (2016), Eletrorgânica (Vol.2. 2017), On-Off (2018) e Princesinha devorada (2018). Tem se projetado com clipes, trilhas e crias sonoras, atuando no teatro e na televisão, em longas metragens, documentários e vídeo arte, desfiles de moda e arte educação, além de ter participado de diversas coletâneas. Veja mais aqui.
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A ARTE MUSICAL DE ZÉ LINALDO
A arte musical do músico, compositor, intérprete, arteducador e produtor cultural Zé Linaldo aqui, aqui & aqui
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É pela intencionalidade que podemos elucidar a estrutura da própria consciência imaginante. Só assim se põe em relevo o ponto mais importante desta vivência.
A obra do filósofo e matemático alemão Edmund Husserl (1859-1938) aqui, aqui, aqui e aqui.


sexta-feira, abril 05, 2019

CARL SAGAN, ALLEN GINSBERG, DRIKA PRATES, LOURDES SARMENTO, JOSIAS MOREIRA DE ALCÂNTARA & CARTA DE CHEGADA!


CARTA DE CHEGADA - Pronto, cheguei. Pode não ser uma boa hora. A vida é o inesperado. Planejei e tudo foi por água abaixo, estou inteiro, pelo menos, algumas dores, nem tudo é como se deseja. O que subiu, desceu e vice-versa, e et cetera. Nunca se sabe o certo ou errado, fiz o que pude embolando o meio de campo e o que vi nem sempre era real, ilusões encobertas, ou pedras duras, irremovíveis. Tanto tempo mundo afora, é aqui que tenho Anteu que pagar meus pecados, como assim me dera a volta do filho pródigo. Paguei tudo, acho, resignado e às avessas. Se devo, cumpro a pena. Afinal, a culpa é toda minha, totalmente minha, de mais ninguém. Não há como ser poupado, nem quero levar por menos, a justa conta. De uma para outra, algo tira o sossego, qualquer coisa desagradável, é a vida. Haja situações aversivas. Eu sei, recorrentes. É a vida. Para quem singrou mares nunca dantes navegados, escapei. Maremotos, vendavais, mares revoltos, abertos ou fechados, glaciais incursões, atlânticas bordejadas, pacíficas desventuras, índicas velejadas por mediterrâneas ondas, marés e correntes, bacias e costas, navegar é preciso. Para quem revirou continentes dos montes Urais à Península Íberica, desertos, florestas, latitudes desconhecidas, longitudes remotas, do Canal de Suez pelo estreito de Gibraltar até o Cabo da Boa Esperança, do estreito de Bering pelo istmo de Tehuantepec até o cabo de Horns, do estreito de Drake à ilha de Baffim e às paisagens australasianas, chão que me acolheu, conquistas e desolações, aprendi, posso ter esquecido coisas importantes, lembro coisas e sonhos. Do que fui para o que sou, muitas noites e dias a céu aberto, terra nua, ares insalubres, águas envenenadas, tudo tão lindo e comovedor, paraísos fascinantes, infernos assustadores. Pés no chão para quem sonhava voar. Cenas muitas, fogaréus, relâmpagos, trovões, como aquela dos budistas, acho que do Apocalypse Now do Coppola: bombardeios no Vietnã, e no meio do maior fogo cruzado, eles, serelepes, atravessam destemidos, incólumes, nem aí pra tragédia. A vida imita a arte. E eu ainda aprendendo. Só sei que quem vai se sujeita a tudo e também cara à tapa, triunfos revelados. Se ficasse era pra ir, larguei receios para segurar o caos. E à deriva. Aqui estou, regressei. Mortovivo, aos pedaços e frangalhos. Refazer a vida e seguir em frente, sem saber se fica – para morrer, basta estar vivo -, ou se vai, errâncias e compensações. Passo, existo, um dia de cada vez. E a insistir, persistir, perseverar, cônscio. Vou e volto. Na verdade, só sei que vivo e, o que importa, é viver, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O ataque em massa ao meio ambiente global não é de responsabilidade apenas de industrialistas ávidos de lucros, nem de políticos sem visão e corruptos. Há muita culpa a partilhar. A tribo dos cientistas tem desempenhado um papel central. Muitos de nós nem sequer nos damos ao trabalho de pensar sobre as consequências a longo prazo de nossas invenções. Temos nos apressado a colocar poderes devastadores nas mãos de quem oferece mais dinheiro e nas mãos das autoridades da nação que por acaso habitemos. Em muitos casos, tem nos faltado uma bússola moral. [...].
Trechos extraídos da obra Bilhões e bilhões: reflexões sobre a vida e a morte na virada do milênio (Cia. das Letras, 1997), do astrônomo e biólogo estadunidense Carl Sagan (1934-1996), com a colaboração da escritora e produtora de projetos na popularização científica estadunidense Ann Druyan, tratando de temas como o poder e a beleza da quantificação, o tabuleiro de xadrez persa, psicologia, comportamento humano, caçadores-coletores, comportamento cientifico das ondas sonoras e luminosas, questões cósmicas, ciclo de vida, os conservadores, seres vivos e ecossistemas, aquecimento planetário, religiões e ciência, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Inspirada no movimento fluido dos processos, do que passa pelo corpo e se torna a extensão-reflexo do pulsar orgânico. Do nó natural ao nó social.
A arte da artista visual Drika Prates
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A POESIA DE LOURDES SARMENTO
DESEJOS: Onde meu desejo floresceu /  não me encontro / quanto mais olho  atrás de mim /  fico perdida no ciclo fechado do / tempo / os que me perturbaram /  não têm rostos / o deserto agonizante de mim / própria, secou a fonte das feras / então caminho / Onde meu desejo floresce / ordeno-te: / segue teu destino /  à procura de outras caças / estrangulo tua voz / serpente do mal / línguas e setas envenenadas / Não quero pensar no futuro / o futuro talvez seja o agora / o desejo floresce na minha pele / então caminho.
Poema extraído do livro Liberdade de pássaro (Bagaço, 2014), da premiada escritora Lourdes Sarmento, que é autora dos livros Poemas do despertar (1965), Explisão das Manhãs (1973), Tatuagens da solidão (1991), Vingt-Cinq poèmes de passion (Unesco, 1994), Guardiã das horas (Autor, 2003), 50 poemas escolhidos (Galo Branco, 2009), 7 cartas e uma confissão de amor (Comunigraf, 2004) e Metade do Caminho (Guararapes, 2015).
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A POESIA DE JOSIAS MOREIRA DE ALCANTARA
A MULHER DO SÉCULO VINTE E UM: No século vinte e um... mulher! / Avança em passo maior / E com salário menor... / Desvenda tudo o que quer! / Ganha espaço no trabalho / Não se faz de quebra galho, / É profissional completa! / Impressiona na eficiência / Que demonstra a competência / E independe da função! / Basta acompanhar na escola / Como a mulher sobressai / E do seu salto não cai... / Faz bem feito e nunca enrola! / O homem fica para traz / Vendo o que uma mulher faz / E até bate continência! / O mundo está bem mudado / Que o homem tome mais cuidado / Sem ousar na truculência! / Tudo é rápido e letal / E exige cuidados sérios / Á vencer muitos mistérios / Incluindo o digital! / Esse mundo anda depressa / E em todo o canto já acessa / Tudo em seu tempo real... / Quem não ficar bem atento / E perder-se de talento... / Esse sim vai passar mal!!!
Poema do poeta, trovador, professor e palestrante Josias Moreira de Alcântara é formado em Marketing e Didática do Ensino Superior, membro da União Brasileira de Trovadores (UBT), da Associação Paranaense de Autores Independentes (ACEPAI), da Academia Brasileira da Poesia Raul Leone de Niteroi (RJ) e autor de mais de dez livros, tendo lançado recentemente o livro Curitiba em versos (Protexto, 2019). Veja mais aqui.
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A OBRA DE ALLEN GINSBERG
Os corpos quentes brilham juntos na escuridão, a mão se move para o centro da carne, a pele treme na felicidade e a alma sobe feliz até o olho.
A obra do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997) aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, abril 04, 2019

MARGUERITE DURAS, OCTAVIO IANNI, VIVIAN MAIER, FERNANDO PELTIER & CARTA DE PRIMEIRA


CARTA DE PRIMEIRA - Para quem vai de primeira, marinheiro, quanta surpresa, hem? Já chegou? Oxe, nem saiu do canto. Simbora. De início a coisa parece fácil: enganou-se com a cor da chita, destá. Não esquenta, não queime o juízo, nem deixe vá derreter os chifres, senta a pua. Faz de conta que nem foi com você. Inaugura a mira, alvo à vista. Aponte e aprume. Vá, fogo! Errou, hem hem, tenta de novo. Se liga, o rabo pode queimar. Sempre vem um atrás para atrapalhar tudo, botar gosto ruim no guisado. Todo começo é só novidade, depois se acostuma com as lapadas engrossando o couro para virar casca, a carapaça; cuida da carcaça, evita o monturo. O primeiro gole amarga. Abra o jogo, ninguém sabe o que virá pela frente: a palma da mão sobre o peito inquieto, uma súplica para que lhe abram as portas, facilitem as coisas. Nada. Já me salvei mais de mil vezes com meu próprio choro, nem adiantou punhos e fúrias, hibernar, fazer de conta. Como evitar a explosão da bomba? Quem sabe, doidices demais por aí afora, como se nada nos seus devidos lugares. Deixe para lá, mande ver. Ah, o primeiro beijo, inesquecível. A primeira vez, um vexame. Não vai ficar só nisso, viu? Às vezes piora, complica, degenera. Intuo, vá, bata o centro. Tome iniciativa, leve na conta de que é assim mesmo: triscou, não valeu; lascou, mas o que é que tem? Recomece do zero, faça tudo de novo e leve na esportiva, aprenda que tudo vem desde o tempo em que os animais falavam e a gente nem nem, outros rabiscos tão antigos quanto eu, afora o que esqueci não sei onde. Sacou a piada? Foi só uma casca de banana. Escorregou? Canta: levanta, sacode a poeira e dá volta por cima. Mesmo por baixo. Se deu baixa, arquive no lixo, serve mais não, para nada, tudo! Aprenda a reciclar o imprestável, milagres existem a torto e a direito. Não se faça de mouco ao primeiro chamado, tirou de letra? Tem que prestar atenção. Olhe em volta, o pano de fundo. Tudo minado, né? A bem da verdade, jogos de infinitos espelhos. Maior confusão. Abra a trilha nos peitos. Inicie, vai no sopetão. Queimou os dedos, né? Lição número 1. Tirou a prova dos nove? Não fez nada, refaça. Apanhou? Vê se aprende. Arrasta a mala, perde a viagem, nada demais. Vai de novo. Vai de boa e se estrepa. Se soubesse que era assim, nem tinha ido, avalie. Eu mesmo, vasilha ruim, o que achava perdia e reencontrava e tornava a perder. Vezemquando a coisa empena, sai do controle e babau. Sempre como quem volta para a casa com a cara mais lisa, sem considerar as ofensas, sem recusas, mãos ao alto. É a primeira sessão, depois, depois, só sótãos, porões, oitões, alpendres, nenhuma partilha, nenhuma cumplicidade. E só. Para quem nunca fez primeira comunhão como eu, nem se crismou, os meandros pagãos, quantos subterfúgios. Tantos caminhos; e o que não aconteceu, já era. O que foi, nunca mais. Era para ter sido e nem viu, coisa de Mané. Faça como eu: ande por longe, nem aí, seja lá o que for, ou como queriam entre orgias e vícios, no final a tragédia não é tão como pareciam dizer, entre o aleatório e o familiar, num é? Não tem coluna do meio, ou é ou não. Veja bem: entre um e muitos, tudo é possível. Mas já é outra história, nunca é tarde. Outros quinhentos e com troco. Para quem quer seguir em frente é bom saber que há sempre voltas e curvas e, se não olhar direito, dá no mesmo lugar e pode ser diferente. Quem diria. Você quem sabe. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] a sociedade global se constitui desde o início como uma totalidade problemática, complexa e contraditória, aberta em movimento. Está impregnada e atravessada por totalidades também notáveis, às vezes também decisivas, ainda que subsumidas formal ou realmente pela totalidade mais ampla, abrangente, global: estado-nação, bloco geopolítico, sistema econômico regional, grande potência, empresa transnacional, ONU, FMI, Banco Mundial, indústria cultural e outras; também tribo, nação, nacionalidade, etnia, religião, língua, cultura e outras realidades também fundamentais. Às próprias formas de pensamento inserem-se na dinâmica da sociedade global, no seu todo ou em suas partes, operando no sentido da constituição de todos os subordinados, ou da constituição da sociedade global como uma totalidade abrangente, sempre problemática, complexa e contraditória. [...] a sociedade global é o cenário mais amplo do desenvolvimento desigual, combinado e contraditório. A dinâmica do todo não se distribui similarmente pelas partes. As partes, enquanto distintas totalidades também notáveis, consistentes, tanto produzem e reproduzem seus próprios dinamismos como assimilam diferencialmente os dinamismos provenientes da sociedade global, enquanto totalidade mais abrangente. É no nível do desenvolvimento desigual, combinado e contraditório, que se expressam diversidades, localismos, singularidades, particularismos ou identidades. Às vezes, os localismos, provincianismos ou nacionalismos podem exacerbar-se, precisamente devido aos desencontros, às potencialidades e dinâmicas próprias de cada um, cada parte; e também devido às potenciações provenientes da dinâmica da sociedade global, das relações, processos e estruturas que movimentam o todo abrangente. Sob vários aspectos, a ressurgência de nacionalismos, regionalismos, provincianismos, etnicismos, fundamentalismos e identidades são fenômenos que se esclarecem melhor quando vistos nos horizontes dos rearranjos e tensões provocados pela emergência da sociedade global. À medida em que esta debilita o estado-nação, reduz os espaços da soberania nacional, transforma a sociedade nacional em província da global, nessa medida reflorescem identidades pretéritas e presentes, novas e anacrônicas. Também por isto a globalização não significa nunca homogeneização, mas diferenciação em outros níveis, diversidades com outras potencialidades, desigualdades com outras forças. Nesse horizonte, a sociedade global pode ser vista como uma totalidade desde o início problemática, no sentido de complexa e contraditória; atravessada pelo desenvolvimento desigual, combinado e contraditório, que se especifican o âmbito de indivíduos, grupos, classes, tribos, nações, sociedades,culturas, religiões, línguas e outras dimensões singulares ou particulares. [...] à medida em que se constitui e desenvolve a sociedade global, como emblema de um novo paradigma das ciências sociais, alguns conceitos, categorias e interpretações podem tornar-se obsoletos,exigir reelaborações ou ser articulados com novas noções suscitadas pela reflexão sobre a globalização. Já são diversas as noções que começam a povoar o pensamento global: globalização, desterritorialização, re-territorialização, miniaturização, cultural mundial, aldeia global, cidade global, shopping center global, disneylândia global, fábrica global, nova divisão internacional do trabalho, redes de articulações intra e intercorporações, alianças estratégicas de corporações, modernidade-mundo, sistema-mundo, economia-mundo, comunicação mundo, publicidade global, espaço europeu, espaço do Pacífico, capitalismo global, moeda global, capital global, terceiromundialização do Primeiro Mundo, exército industrial ativo e de reserva global, planeta terra, sociedade civil mundial, cidadão do mundo, contrato social mundial, pensamento universal. [...].
Trechos extraídos da obra Globalização: Novo paradigma das ciências sociais (Estudos Avançados, 1994), do sociólogo e professor Octavio Ianni (1926-2004). Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO DE FERNANDO PELTIER
O livro Teatro nosso de cada dia (Funcultura/EGBA, 2006), reúne textos teatrais do ator, dramaturgo, poeta, compositor, professor e produtor cultural Fernando Peltier (1948-2014). O volume reúne as peças teatrais Auto das dores de Cristo (2001), Paz... paz... paz... páscoa! ( (s/d), Pinóquio (2000), O grande circo da mamãe (s/d), Fuga num São João (s/d), O jardim das abelhas (1995), Por um triz... triscou, pegou! (s/d) e Auto do presépio de natal (s/d). O autor foi criador de diversos grupos baianos e da Ciranda do Teatro, autor dos livros Nós te atramos (1996), Escola utopia (1997), Heureca! Notáveis encontros com o saber (1998) e Na palma da calma da alma (2010). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa estadunidense Vivian Maier (1926-2009), que se dedicava à fotografia de rua e a registros do ambiente urbano, transmitindo a sua visão de mundo com estilo. Durante a sua vida ela foi responsável em tempo integral pela criação de crianças que ela acolheu e, na sua velhice, ao passar por dificuldades, indo morar em asilos, até que amigos que foram por ela ajudados, compraram um apartamento e cobriram todas as suas contas. Ela reuniu mais de 10 mil fotografias que estavam guardadas consigo, material este que só descoberto em 2007, juntamente fitas de áudio com entrevistas que ela fazia com as pessoas que fotografava. Depois da sua morte a sua obra passou a ser um marco na arte da fotografia urbana. 
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.
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A OBRA DE MARGUERITE DURAS
Caminhais em direção da solidão. Eu, não, eu tenho os livros. Se não se passou pela obrigação absoluta de obedecer ao desejo do corpo, isto é, se não se passou pela paixão, nada se pode fazer na vida.
A obra da romancista, novelista, roteirista, poeta, diretora de cinema e dramaturga francesa Marguerite Duras (1914-1996) aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, abril 03, 2019

AGOSTINHO DA SILVA, MARIA CLARA MACHADO, CONSELHEIRO, POLINA & CARTA DE ABRIL


CARTA DE ABRIL - É abril no Brasil: da invasão peró aos caetés, dos golpes à dignidade tupiniquin, o outono que extravasa com as enxurradas fortuitas e pesadelos agarrados no ar parado da noite quente. Sempre momento velado à espera de abrir o sinal, enquanto embrulhos e insultos se misturam aos gritos que rangem sob os olhos assombrados da fraqueza desprezível e diante da falsificação de tudo no mundo; Quanta indignação com os emissários de remotos horizontes a encherem a opressão das densas nuvens escuras na cabeça do céu baixo, como se mulheres em trabalho de parto e a complicação mais vexatória dos vestígios letais. É sempre abril no Brasil, outono das chuvas previsíveis, pronta invernada. Mas é abril de Patrícia, minha extensão intrépida ao Sol esplendente da vida: uma flor radiante que nasceu em minha mão. De resto, sentimento do dever cumprido no descalço coração paisano, mesmo que entre atropelos e a urgência dos acontecimentos, sempre a abrir caminhos, sempre retardatário no chão que é eternamente abissal e com pedras falsas, indeciso das coisas formidáveis e tudo vira pelo avesso. Valho-me da coragem de confissão, o peito é só cataratas pelos descaminhos: o que fazer na vida entre sonhos e errâncias. Por certo, não da vez primeira, a penumbra do silêncio a me extraviar na maior braçada pela rua quieta, a casa silenciosa, a cidade aflita, não dá pé, passo de qualquer jeito, mil coisas para fazer, a vaga lembrança no terraço austero, pálida emoção, a memória falha e esqueço se útil ou honesto, se hesito ou me precipito, todos os pudores sem sentido, todos os temores desvendados. É abril e começa o círculo para fechar o ciclo, ouroboros: todos os dias pés no mundo, saio daqui e a vida, o eterno retorno. Aprendi e só sei sorrir e amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o que a vida tem feito dos homens tomados no seu conjunto, e fora o reduzido exemplo de algum grupo que mais conseguiu furtar-se a exigências sociais, tem sido pervertê-los, aguçando-os para a batalha, pondo-lhes a concorrência como uma virtude e o triunfo sobre os outros como uma marca de especial favor de Deus; tem ajudado muita gente a prelibar prazeres do céu o ir supondo desde agora que há contemporâneos seus já votados aos tratos dos diabos [...] o problema que se põe hoje exatamente porque as técnicas avançaram o bastante para dar maior liberdade de criação ao homem; o que se põe hoje é o problema da organização de um ensino superior em que o problema não seja o da disciplina ou o da contenção, ou o do aprendizado daquilo que já se sabe, mas sobretudo da criação, mas sobretudo da descoberta daquilo que ainda não se sabe. O esforço de criação do mundo [...] Mas o caminho do perfeito passa pelo imperfeito; e, no imperfeito, a única perfeição que se pode fazer fluir é a de que o expediente de que se alçou mão agrade ao maior número possível de homens e os satisfaça, mesmo que julguemos nós, com ou sem razão, que já poderíamos estabelecer o melhor quando eles se contentam ainda com o rudimentar e o tosco [...].
Trechos extraídos da obra Textos pedagógicos (Âncora, 2000), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994). Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O drama Polina, danser sa vie (2016), dirigido pelo coreografo francês Angelin Preljocaj e pela cineasta francesa Valérie Müller, é baseado na Polina do artista quadrinista e ilustrador francês Bastien Vivès, conta a história de uma bailarina clássica de futuro que está prestes a fazer parte do prestigioso balé de Bolshoi, fica então fascinada por um espetáculo de dança contemporânea, resolvendo largar tudo para trabalhar na França com a talentosa coreógrafa Liria Elsaj. Conta no elenco com as atrizes Anastasia Shevtsova, Veronika Zhovnytska e Juliette Binoche, entre outros. 
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OS MILAGRES DO CONSELHEIRO
[...] Era numa sexta-feira santa, dia das trevas maiores. A data coincidia com uma santa missa missão, feita e encomendada para fazer chover, que o tempo era de seca braba e daninha. Mandaram chamar o Conselheiro para pregar com o consentimento do vigário do arraial. E o conselheiro, depois de ter subido o monte, estava no alto pregando, no roso da Paixão de Cristo, que aquele era o seu dia. Chegou no templo e fez uma ungida e contrita reverencia. Traçou uma cruz na porta com a ponta do seu bastão. Estava ofegante, que subidas daquelas escadas de pedra e cascalhos, meio quilômetro de fé e altura, mesmo com as capelinhas com os passos da Paixão para descansar, o que cansa mesmo qualquer sadio cristão. Era tempo estiado. [...] Só sei dizer que até hoje o povo daquele lugar não sabe explicar como das paredes da igreja, naquela tarde de oficio das trevas, começou a escorrer água. E do seu telhado pingavam como se fossem um chuviscado. Todos gritaram: - Milagre! Milagre! Das paredes da igreja escorria água como se fosse suor. [...] o Conselheiro não dava as costas para o altar onde pregava. Era um costume seu sair de costas, com o olhar posto no crucifixo, e a gente olhando o roxo fundo, sofrido dos olhos dos dois confundia, bem podendo acreditar ter o Conselheiro a dor da paixão de Cristo atravessada nos quadris, dependurada nos rins, bem em cima do seu cordão de frade-capuchinho. Era assim que ele se retirava nos respeitos devidos de uma igreja visitada [...] E nessa tarde ao chegar à porta do templo, de novo traçou o sinal-da-cruz com o seu bastão. E de repente a água parou de minar nas paredes e, lá fora, nos campos, começou a chover. E o povo beato vendo uma coisa desta logo no homem acreditou e saiu espalhando que dias de lágrimas e de sangue haviam de vir. E que perto se estava do fim do mundo, fim de Canudos, que no fogo veio mesmo, conforme uma das suas grandes profecias. [...] O Bom Jesus Conselheiro anunciando o fim do mundo próximo, prometia aos caboclos o aparecimento raivoso e braboso da figura do Anti-Cristo, a qual foi encarnada no corpo franzino do coronel Moreira César, capitão sanguinário, já acostumado na prática das maldades e dos fuzilamentos, o Corta-Pescoço chamado. O Conselheiro nas suas práticos, nos seus santos conselhos, avisava: - A perseguição vem e já anda por aí. Os tempos são chegados. Eu não desafiei, nem chamei ninguém. O povo veio porque quis. O mundo vai se acabar na maldade, no acúmulo dos pecados. A religião santificou tudo e não destrói coisa alguma, a não ser o pecado, que precisa ser extraído do coração dos homens. E há de aparecer por estas terras, desenfreado na satisfação dos seus apetites de sangue e esmago, um homenzinho, atanazador de almas, até parecido com Lúcifer do inferno, tomado por sua maligna vontade. Virá cercado por sete demônios, montado no seu cavalo, rei da soberba, ruinoso...
Trechos extraídos da obra O capitão jagunço (Brasiliense, 1958), de Paulo Dantas. Veja mais aqui, aqui e aqui.
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A obra da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001) aqui, aqui e aqui.


terça-feira, abril 02, 2019

ÉMILE ZOLA, JUNE SINGER, MARY VIEIRA, TEMPO DE RESISTÊNCIA & SALA DE AULA


SALA DE AULA - Hoje acordei com vontade de falar da minha experiência escolar. Logo me veio o tanto da alegria do primário: a infância embalada pela professora que era atriz e conduzia os conteúdos como se fizesse arte, era o centro de todas as minhas atenções. Era como se a sala de aula fosse um enorme palco teatral e todos protagonizassem as lições aprendidas. Como era feliz em aprender. Tanto é que o preparo me levou direto para o exame de admissão, aprovado com nota máxima. Dos quase cinquenta colegas, conta-se nos dedos os reencontros. Lá estava eu menino, na virada de ano, aluno do primeiro ginasial, com o ânimo e a dedicação dos anos anteriores. No segundo ano, ah, o encanto se quebrou: o afeto foi pro espaço, o respeito para a lata de lixo, uma relação impessoal imprimia a marcha dos anos em uma classe com quase centenas de colegas, professores ora esfíngicos, ora rígidos, não possuíam aquela candura inaugural na condução das aulas, resultado: perdia o nexo e desaprendia. Excetuando-se um ou outro mestre, a maioria ficava devendo com tanta coisa para decorar e ao pé da letra. Gostava da prova oral ou com questões abertas em que se podia fugir da resposta simples. A maioria era dono da verdade e queria tudo tintim por tintim. Tropecei na matemática, emperrei nas ciências, os assuntos não se amarravam, fazia leituras extras para poder entender aquilo tudo. Tive que amargar desapontamentos, apesar de já determinado como assíduo leitor, não por conta da perda de estímulo no ambiente escolar, porém pela curiosidade por desvendar os mistérios contidos nos livros da biblioteca de meu pai e pelos papos com os amigos que devoravam livros em casa. E se não fossem as atividades extracurriculares do educandário, com certeza, não haveria como conciliar as dicotomias, passando a entender o motivo da evasão escolar. Dos anos de turma, a maioria seguiu a carreira dos pais no comércio, agricultura ou outras carreiras. Enquanto isso, aos trancos e barrancos fui pro colegial, levava tudo na esportiva adolescente porque também não era lá essa coisa tão estimulante, a arte já tomava conta e o incentivo de alguns poucos excelentes professores, deu para me arrastar no científico. Como já gostava de ler Filosofia, saía juntando e costurava as matérias para poder entender as informações. Não era nada fácil, valia-me das conversas e discussões com os mestres fora da sala de aula – imagino a situação de quem não pudesse dispor essa oportunidade informal de trocar ideias. Não fosse isso, possivelmente preferiria fazer qualquer outra coisa na vida, menos estudar. Havia mesmo perdido o gosto. A sacada do Ziraldo me pegou em cheio: ler é gostoso; estudar é chato demais. Foi o que aconteceu com tantos outros da sala, faziam de tudo criativamente, alma de brasileiros, contudo guardaram a repulsa por estudo e leitura, preferindo as moças arrumarem logo seus príncipes encantados para cuidar da casa e das crianças, e os rapazes comprarem aquela de que é melhor ter dinheiro no bolso e ser rico, do que liso de anel no dedo. Isso era o que vigorava. Fui pra faculdade com a sensação de quem saía de uma camisa de força, escolhi o que mais gostava: Letras. A Literatura na ponta da língua, afinco para aprender Latim, empancado no Inglês: enquanto eu levava de Shakespeare, o professor me escanteava com pobres diálogos cotidianos de estadunidenses. No mais, na boa, deu pra sair de uma licenciatura curta para uma plena. Não foi menor o desencanto. Deveria fazer jornalismo para ser escritor, e fiz; desisti no meio do caminho pela completa falta de talento e porque persistia empolgado com o processo de redemocratização que se anunciava à época da ditadura. Fui fazer Direito numa classe com outros quinhentos estudantes. No segundo ano, a decepção com o curso já era flagrante e me arrastei, só concluindo anos depois de abandonado, não antes passar por Pedagogia, que não foi muito diferente: eu me sentia um ciborgue programado para responder o que queriam ouvir, apenas. Aprendia apenas que a Justiça não era lá tão justa, o direito ninguém sabia mesmo o que poderia ser, e aprender só se for marra. Não muito diferente quando décadas depois fui encarar a Psicologia: aprendia-se tudo, menos como tratar gente, muito menos qualquer brasileiro no Brasil. Estuda-se como se o país que vivemos fosse outro. A casa emburrecedora do Rubem Alves me pegou de cheio e concluí: a escola deseduca. E o pior: encaram educação como se fosse apenas escolarização. Não é à toa que se ouve, a torto e a direito, muita gente dizer por aí: Se eu descobrir quem inventou estudo, eu mando matar. Hoje advogo a heutagogia. Principalmente porque o que há de tanto equívoco faz com a educação seja, na verdade, deseducação. Podemos fazer diferente por iniciativa própria, depende de nós, apenas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A mensagem de Androginia é que a psique humana é constituída de muitas dualidades diferentes que precisam ser mantidas em equilíbrio para que o indivíduo seja íntegro, para que ele seja verdadeiramente humano. [...] É um estado em que: [...] o Um que contém o Dois, a saber o masculino (andro) e o feminino(gyne). A androginia é um arquétipo inerente na psique humana. [...] O arquétipo da androginia aparece em nós como senso inato da unidade cósmica primordial, ou seja, a unicidade ou inteireza da androginia antecede qualquer separação. A psique humana é testemunha dessa unidade primordial e é portanto, o meio através do qual podemos obter certa percepção da totalidade que inspira espanto e maravilha. [...] Inicialmente, não há existência alguma exceto o nada, o vazio indescritível, a inefabilidade do vácuo. Surge então unidade primordial, o Um no qual estão contidos todos os contrários, ainda não diferenciados. Como a gema e a clara dentro do ovo, estão entrelaçados, presos e inamovíveis. No momento estipulado, a unidade primordial é rompida e passa a existir Dois, como contrários. Somente quando os Dois se estabelecerem como entidades separadas é que podem se afastar para se unirem de outra maneira, criando e disseminando assim a multiplicidade. [...].
Trechos extraídos da obra Androginia: rumo a uma nova teoria da sexualidade (Cultrix, 1990), da psicóloga estadunidense June Singer (1920 - 2004), fundadora do Clube de Psicologia Analítica de Chicago, do Instituto Jung de Chicago e da Sociedade Inter-Regional de Analistas Junguianos, defendendo que a androginia é o mais antigo arquétipo, resultante do “arquétipo do Absoluto”, que excede a experiência humana por ter a sua essência na ancestralidade psíquica e divina da Humanidade.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada escultora, professor e designer gráfica representante da arte cinética, Mary Vieira (1927-2001). 
Veja mais aqui, aqui, aquiaquiaqui.

TEMPO DE RESISTÊNCIA
O documentário Tempo de Resistência: lembranças do período mais negro da História do Brasil (2003), dirigido por André Ristum, é baseado no livro homônimo de Leopoldo Paulino (Oswaldo Cruz, 2001), contando a luta guerrilheira contra a ditadura militar no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. O filme aborda o processo desde o golpe militar até a anistia e as Diretas. Veja mais aqui.
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A OBRA DE ÉMILE ZOLA
Se você me perguntar o que eu vim fazer neste mundo, eu lhe direi: eu vim para viver em voz alta.
A obra do escritor naturalista e libertário francês Émile Zola (1840-1902) aqui & aqui.
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Educação no Brasil aqui, aqui  aqui e aqui.


segunda-feira, abril 01, 2019

COETZEE, GOGOL, BEATRIZ MILHAZES, SUZANA SALLES & DO IMPREVISTO AO IMPREVISÍVEL.


DO IMPREVISTO AO IMPREVISÍVEL – Vozes. Muitas vozes. Alguém falava na rua, atentei. Uns diziam disso e daquilo, não dava para entender direito. Distingui falarem do domingo e que tudo era fantástico, o país que ia, a vida passava, coisas de outro mundo e mais do que se desconhecia. Discerni do comentário sobre uma jovem deputada enquadrando eloquentemente um ministro estrangeiro que não sabia do Brasil muito menos de educação e queria mandar ensinar o que era dele e nada nosso, enquanto outra aflita pedia a Deus sua intervenção na causa e mais um terceiro ria dos descompassos, pilhérias soltas. Havia quem se benzesse, temiam o que estava por vir. Foi aí que despertei da hora, uma algaravia aos ouvidos, muita gente à rua. Agucei os sentidos e me dei conta algo ali por perto. Fiquei atento aos mínimos movimentos da turba. Sim estavam diante da minha casa, uma multidão. Como pode? O que havia? Para meu espanto, dei conta que alguém invadira o meu jardim e se aproximara à janela do meu quarto. Tem coisa. Um misto entre temor e curiosidade invadiu-me. O que terá sido? Levantei-me calmamente e fui abrir à janela. Muita gente mas muita gente mesmo em frente da minha casa. O que é isso? Um alvoroço, uns rezavam ajoelhados o rosário; outros só olhavam para a fumaça; tantos curiosos, bocas e ouvidos. O que estava próximo da varanda mostrou-me algo no meu telhado. Hem? Quase atônito, quis saber delas porque estavam ali, uma aglomeração e tanto. Insisti, indaguei, não dava para entender o que diziam. Estremeci, nunca se sabe. Apontavam, percebi uma fumaça por cima da minha residência, algo acontecia ali. Saí do quarto, ganhei a sala e ao me aproximar da porta que dava pro meu quintal, ouvi estalidos e movimento por lá. Tem gente aí, arrepiei. Não sabia o que fazer, titubiei. Tomei pé da situação. Antes, porém, respirei fundo e invoquei três vezes o Verbo Desconhecido. Criei coragem, destemido e arredio, abri a porta, um susto me fez fincar os pés no chão: luzes mínimas brilhavam a rodopiar em frente ao abacateiro, silhueta indistinguível. Sim, coisas aconteciam. Abri bem os olhos e a silhueta luminosa se esvaía contornando a árvore e se precipitando além do muro para sumir às vistas. Confiante, porém trêmulo, dei um passo. Nenhum sinal mais de nada por ali. Não sei qual a razão, de repente, fui até o basculante da cozinha, lá havia três frascos que nem sabia para que serviam e, intuitivamente, de um deles sacudi ao chão, era sal. No segundo vidro, enxofre. No terceiro, mercúrio. De repente cristais brotaram do chão e o Sol raiava no horizonte. Pude perceber, não havia nada. Uma quietude de paz invadiu-me e logo deu pra ver passou e já não eram tantos lá na frente. Voltei, atravessei minha casa, abri a porta da frente, cheguei à varanda e ainda pude ver que cada qual tomava a sua direção. Era segunda-feira, o dia amanhecera. Abri o portão, ao muro pude ainda enxergar muitas pessoas que seguiam ou dobravam as esquinas, logo minha rua voltou ao normal. Era manhã, a vida prosseguia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O problema essencial da vida do Estado é o da sucessão: como assegurar que o poder passe de umas mãos para outras sem disputa armada. Em tempos tranquilos esquecemos os horrores da guerra civil, a rapidez com que ela resvala para o morticínio indiscriminado. [...] e mais uma vez a sombra de uma dor perpassou por mim, a dor que antes referi, de uma espécie metafísica ou pelo menos pós-física. [...] A necessidade, Necessità, é o princípio orientador de Maquiavel. A posição pré-maquiavélica era a da supremacia da lei moral. Se acontecesse a lei moral ser por vezes infringida, era uma infelicidade, mas no fim de contas os governantes eram apenas humanos. A nova posição, a maquiavélica, é que a infração à lei se justifica quando é necessária. Assim se inaugura o dualismo da cultura política moderna, que defende simultaneamente padrões de valores absolutos e relativos. O Estado moderno apela à moralidade, à religião e à lei natural como fundamentos ideológicos da sua existência. Ao mesmo tempo está pronto a infringir qualquer delas ou todas no interesse da sua própria conservação. Maquiavel não nega que as exigências que a moralidade nos coloca sejam absolutas. Ao mesmo tempo afirma que no interesse do Estado o governante “não raro se vê constrangido [necessitato] a agir contra a sua palavra, contra a caridade, a humanidade e a religião”. [...] não só sanciona a tortura dos prisioneiros feitos na chamada guerra ao terrorismo, como se empenha de todas as maneiras em subverter as leis e convenções que interditam a tortura. [...] A sua falta de vergonha é absolutamente extraordinária. Os seus desmentidos são menos que tíbios. A distinção que os seus advogados contratados estabelecem entre a tortura e a coerção é patentemente insincera, uma simples formalidade. No novo ordenamento que criamos, dizem eles implicitamente, os velhos poderes da vergonha foram abolidos. A aversão que vocês possam sentir não conta para nada. Vocês não nos podem tocar; somos demasiado poderosos. Demóstenes: Enquanto o escravo apenas teme a dor, aquilo que o homem livre mais teme é a vergonha. [...] torna-se uma questão moral: como, perante esta vergonha a que estou sujeito, hei-de comportar-me? Como salvo eu a minha honra? [...] A desonra não respeita distinções precisas. A desonra abate-se sobre os ombros da pessoa e, uma vez que se abate, não há argumentação inteligente capaz de a dissipar. [...].
Trechos recolhidos da obra Diário de um mau ano (Dom Quixote, 2008), do escritor sul-africano e Prêmio Nobel de Literatura de 2003, John Maxwell Coetzee, narrando a história de um livro dentro do livro, sobre os dias atuais, envolvendo conflitos étnicos, terrorismo, economia globalizada, desastres ecológicos, experiências genéticas, entre outros assuntos. Veja mais aqui

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada artista visual e jornalista Beatriz Milhazes, que atua com ilustrações, colagens, gravuras e cenografia, mesclando procedimentos da Art Pop e referencias do universo feminino e artesanato brasileiro. 
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

FORMAÇÃO DE PLATEIA EM MÚSICA
O livro Formação de plateia em música (Arx, 2004), de Clarice Miranda e Liana Justus, trata sobre o aprendizado comportamental diante de uma orquestra, os instrumentos e suas funções, entre outros assuntos ligados ao universo musical. Acompanha um Cr-ROM com aproximadamente 800 imagens co, apresentação de instrumentos e trechos de peças musicais que envolvem a história da música e a vida dos principais compositores e intérpretes, imagens, a apresentação de todos os instrumentos de uma orquestra e trechos de peças musicais, o material traz a história da música clássica e a vida e a obra dos principais compositores e intérpretes.
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A MÚSICA DE SUZANA SALLES
A música da cantora e jornalista ligada ao movimento da Vanguarda Paulista, Suzana Salles, que atua como intérprete da obra Bertolt Brecht & Kurt Weill, que já participou do grupo Sabor de Veneno, ao lado de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, foi vocalista da banda Aquilo Del Nisso, e lançou os cds Suzana Salles (1994), Concerto Cabaré (Davliú, 1997) e As sílabas (Dabliú, 2001). Veja mais aqui e aqui.
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A única coisa que vale a pena é fixar o olhar com mais atenção no presente; o futuro chegará sozinho, inesperadamente. É tolo quem pensa no futuro antes de pensar no presente.
A obra do escritor ucraniano Nikolai Gogol (1809-1852) aqui e aqui.


ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...