quarta-feira, fevereiro 20, 2019

GIANNI VATTIMO, HELENA KATZ, MILTON HATOUM, CARTA ABERTA ALTO DO INGLÊS & RIACHO DOS CACHORROS



O MONSTRO DO RIACHO DOS CACHORROS - Imagens do fotógrafo Carlos Calheiros. - Salvo engano, foi o já septuagenário poeta Abel Fraga um dia amolegando a peia e recitando os versos “Tanta mulher dando sopa e eu sem colher pra tomar”, que flagrava voluptuosas moças e senhoras, quase seminuas, lavavando suas trouxas de roupas com suas vestes sumárias ensopadas pelas águas do Riacho dos Cachorros, justo nessa hora de revirar os olhos na força da bronha com a exposição de pernas, seios e intimidades provocantes delas à mostra, quando avistou um volume monstruoso emergindo das funduras daquele ribeiro: Que droga é nove? A correria foi tamanha, uma macharia espremida que espionava as lavadeiras surgiu de repente às carreiras das moitas, outros tantos que garimpavam um ouro nunca revelado, trocentos pescadores de pitus dos bons e graúdos, uma mulherada arrepiada com as saias na cabeça, passantes, esmoleus, agricultores, calungas, meninos, velhos, gente até de um olho só pinotava transidos na maior gritaria rodagem afora. Isso foi em mil novecentos e antigamente, numa data perdida no calendário. Acontecimento esse só devidamente registrado na primeira página do diário A Notícia uns quase seis meses depois, dando conta da primeira aparição da criatura. Muito tempo se passou com as inusitadas ocorrências, até que se criasse coragem, que ninguém era besta nem nada, para encarar de longe aquela assombração com seis cabeças, quatrocentos olhos flamejantes e labaredas saindo pelas ventas, da sua bocarra com mais de dois milhões de dentes a mais execrável das catingas, espumando um bafo de gente e animais apodrecidos, uma inhaca que misturava mijo, bosta, sêmen, vinhaça, umas duzentas garras em cada uma das suas oitenta patas, hermafrodita tão disforme de se pensar uma figura dessa nunca vista nos bestiários. Tanto é que foi registrado amiudada e posteriormente ter devorado quase todos os prefeitos da região, a metade dos juízes e delegados, uns seiscentos padres, dois bispos, mais de dez mil vereadores – seu prato favorito, parece -, três oficiais de justiça, oitenta fiscais de renda, uns duzentos soldados, mais de dez patrulheiros rodoviários, em resumo, resultou apurado tratar-se de uma fêmea enfurecida com predileção por autoridades ou quase, pelo visto, e não um bicho macho como pensavam. Ah, tá, agora sim, o povinho quase aliviado. Nas tantas chegadas do monstro àquelas paragens, corria o alarido mundo afora de não restar por perto sequer uma alma viva para dar testemunho da tragédia. O que se soube muitos anos depois é que um dia, assim do nada, bastou o poeta Raymundo Alves de Souza dá a maior bobeira por aquelas bandas, saltando de trás de uma touceira se ajeitando todo como quem escapulia de um coito avexado, que, ao vê-lo, o monstro transformou-se em uma sedutora amazona e o cortejou, saindo aos beijos e abraços para nunca mais atemorizar ninguém nem nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] O esgotamento das pretensões totalizantes de uma razão única tomou várias formas, que são todas indicações para escolhas, valores e juízos. [...] A capacidade de viver numa racionalidade plural é coisa bem diferente, e disso só temos por enquanto uma vaga ideia. Mas sabemos pelo menos que o sábio pós-moderno deveria ser alguém que percorreu uma longa estrada para deixar atrás de si o mito da verdade última e definitiva – a um só tempo tranquilizador e ameaçador, como um pai severo protetor -, descobrindo em contrapartida o valor do amor (por exemplo, certos filósofos pós-analíticos falam hoje de um “princípio de caridade”). A multiplicação atual dos fundamentalismos nada tem a ver com o enfraquecimento do ideal filosófico de racionalidade. É pelo contrário uma regressão neurótica do universalismo da razão totalitária ao particularismo da família,do bando, da etnia, da confissão religiosa. O enfraquecimento da concepção filosófica da racionalidade é talvez hoje o único antídoto para essa deriva; mas como os filósofos não têm outras armas a não ser as da crítica, trata-se de um antídoto que não produzirá efeito facilmente.
Trecho de Estamos perdendo a razão (Zahar, 1999), do filósofo italiano Gianni Vattimo. Veja mais aqui e aqui.

A DANÇA DE HELENA KATZ
[...] nada se poderá construir aqui além do traço de uma teia. Que não perguntará o que é dança, nem tentará responder a quaisquer outras questões semelhantes. Evitaremos a miragem da ontologia. Como ocorre na vida, os percursos, aqui, nascem de escolhas entre roteiros plurais. Todos comungando na consciência do inacabamento do saber ensinada por Peirce. Uma dança que se entende como um fenômeno peninsular, nunca insular. Que jamais prescinde da ligação com o continente ao qual pertence. Que aceita a imagem biológica da evolução (a da arborescência cada vez mais especializada, de transformações irreversíveis e unidirecionais) e a imagem geológica (a da ordem do deslizamento). Dança que respira a polissemia de um ambiente que é permanente produção de semiose: o corpo humano que dança. E que, tal como todas as criaturas que misturam chão com estrelas, precisa fabricar semânticas. A dança é o que impede o movimento de morrer de clichê. [...]
Trechos extraídos da obra Um, dois, três: a dança é o pensamento do corpo (Fid, 2005), da professora, pesquisadora e crítica de dança Helena Katz, resultado do seu doutoramento na PUC-SP. Por ocasião da Saudação a Eliana Sousa Silva por sua posse na Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência no dia 27 de março de 2018, na Sala do Conselho Universitário da USP, a autora se manifestou escrevendo: [...] Eliana atua em um lugar no qual um garoto assassinado com uma moeda de 1 real no bolso passa a ser estatística, de tão cotidiano se tornou esse tipo de violência. Talvez por isso, quando encontrei uma foto, em uma das Manifestações recentes por mais uma das mortes que não podem se naturalizar e não podem ficar sem que os responsáveis sejam punidos–era uma Manifestação contra o assassinato de Marielle -nela vi algo que me pareceu sintetizar o que poderemos aprender com as futuras ações da Eliana nessa cátedra. Se, ao fim da sua colaboração, daqui a um ano, tivermos aprendido que a Universidade não pode continuar afastada da favela, se tivermos melhorado a relação ainda quase inexistente entre o lugar onde se produz o conhecimento e os lugares onde esse conhecimento devia chegar,mas não chega, teremos dado um passo importante na construção dessa cidadania que só surge pela via da autonomia. E isso só será conquistado quando a Universidade e aqueles que não têm acesso a ela puderem se frequentar. Esta frase, que vi na Manifestação, parece reunir, ao mesmo tempo,Eliana, os que trabalham com ela, e tudo aquilo pelo qual ela trabalha. A frase é a seguinte: LUTO TAMBÉM É VERBO. Cabe a nós fazermos a nossa parte. Veja mais aqui.

ÓRFÃOS DO ELDORADO, MILTON HATOUM
[...] Florita traduzia as histórias que eu ouvia quando brincava com os indiozinhos da Aldeia, lá no fim da cidade. Lendas estranhas. Olha só: a história do homem da piroca comprida, tão comprida que atravessava o rio Amazonas, varava a ilha do Espírito Santo e fisgava uma moça lá no Espelho da Lua. Depois a piroca se enroscava no pescoço do homem, e, enquanto ele se contorcia, estrangulado, a moça perguntava, rindo: Cadê a piroca esticada? Lembro também da história de uma mulher que foi seduzida por uma anta-macho. O marido dela matou a anta, cortou e pendurou o pênis do animal na porta da maloca. Aí a mulher cobriu o pênis com barro até ficar seco e duro; depois dizia palavras carinhosas para o bichinho e brincava com ele. então o marido esfregou muita pimenta no pau de barro e se escondeu para ver a mulher lamber o bicho e sentar em cima dele. Diz que ela pulava e gritava de tanta dor, e que a língua e o corpo queimavam que nem fogo. Aí o jeito foi mergulhar no rio e virar um sapo. E o marido foi morar na beira da água, triste e arrependido, pedindo que a mulher voltasse para ele. lendas que eu e Florita ouvíamos dos avós das crianças da Aldeia. Falavam em língua geral, e depois Florita repetia as histórias em casa, nas noites de solidão da instância. [...]
Trecho extraído da obra Órfãos do Eldorado (Companhia das Letras, 2008), do escritor, tradutor e professor Milton Hatoum. Veja mais aqui e aqui.

CARTA ABERTA - AOS QUE SE INTERESSAREM PELA CAUSA
Assunto: Assembleia Popular Às Entidades, infra assinadas, CONVIDAM: Artistas, Entidades e Cidadã/Cidadãos Palmarenses, para tratar e ao mesmo tempo tomar as devidas providências sobre o bem Público de Palmares e do Estado de Pernambuco, denominado de CASARÃO ou CHALÉ DO ALTO DO INGLÊS, que se encontra em situação de abandono e descaso. A Assembleia Popular será Realizada na ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DOS PALMARES – ACP – ao lado do ANTIGO GINÁSIO MUNICIPAL – às 19h30h, nesta quarta-feira, 27 de fevereiro do corrente ano. Associação Ação Solidária dos Palmares, Associação dos Artesãos Palmarenses, Escola de Filosofia, Ciência e Política dos Palmares & Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico e Cultural dos Palmares. Contatos: (81) 9-9795-8721 – Sr. Carlos Calheiros  (81) 9-9711-9676 - D. Cícera Silvestre. Veja mais aqui e aqui.
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terça-feira, fevereiro 19, 2019

GARAUDY, CAPRA & PONTO DE MUTAÇÃO, DEREK KINZETT & O TÚNEL AMALDIÇOADO DE PIRANGI


O TÚNEL AMALDIÇOADO DE PIRANGI - Dessa eu morreria e não imaginava nunca pudesse existir! Pois, tá. Foi a Leu Gazela que me contou e fiquei com a orelha, pelos e cabelos, tudo em pé! Arrepiante mesmo. Ela começou falando sobre Minotauro e seu harém. Nunca que eu imaginei tal figura lendária além da mitologia grega. Mas não, ela explicou tratar-se de um sujeito dos maus bofes que ganhou esse apelido pela ruindade. Tanto é que o tal, depois de ter feito um pacto com o tinhoso, tentou passar a perna na horagá de pagar o prometido. Resultado: o capeta transformou-lo num sujeito com cara de touro bufador e corpo de gente, colocando-o num universo paralelo, perdido no espaço. Aí o punido esperneou tanto que encheu o saco do chefe do inferno, dele voltar e castigar mais ainda, até deixá-lo murcho com o rabinho entre as pernas. De nada adiantou. De tanto lamuriar-se, conseguiu o impossível: a compaixão do Coisa Ruim. Não deu outra, para se ver livre da pacutia, rendeu-se aos pedidos do queixoso, deixando-lhe ao alvitre um portal que quem atravessasse virava mulher do outro lado para ser servido, conforme o solicitado. Pronto. Dito e feito. Foi assim que, segundo ela, tudo começou. Quem atravessasse o túnel encantado, se fosse homem, virava mulher; e se fosse mulher, estava frita e pronta para ser usada e abusada pelo desgraçado. Oxe! Conta ela que a coisa pegou mesmo de, até ela, cair nessa enrascada. Como assim? Antes ela era, na verdade, Joaquinaldo, um sujeito jeitoso, namorador, doido por um rabo de saia, a ponto de cair na esparrela de, ouvindo umas risadas soltas do outro lado duma pedraria pelas bandas de Pirangi, invadiu um túnel estranho de sair do outro lado, completamente transformada em uma mulher tão jeitosa que ela mesma, tomada de uma narcísica sensação, quase se apaixonou pela própria: Vixe, como eu estava reboculosa, dizia gracejando. Contudo, não previa o pior. Logo o desalmado apareceu horroroso e pronto para agarrá-la. Aí começou o bumba-meu-boi: pega aqui, pega acolá, corre dali, corre pra lá, bufadas e puladas, tropicões e agarramentos, escorregou na bica, aí já era uma vez Joaquinaldo, agora assumidamente Leu Gazela rasgada, rachada, lascada em bandas para servir de tudo e muito mais ao asqueroso algoz. Por uns dias era a sua preferida, torada de cabo a rabo. Esfolou-se muito com o ajegamento do insano. Depois, era mais uma entre tantas no lá e loa dele na hora das escolhas: essa sim, essa não, essa... O pior era quando ele ameaçava esfolar o furico duma delas, depois de uma roleta-russa. Pronto, era um pandemônio. Ele só se aliviava depois de enrabar umas cinco. Uma coisa para lá de dolorosa: Ô bicho ruim era, viu? Assim conta Leu que, de instante em instante, o cabra lá se via com presa pronta para abocanhar: Vai ter tesão assim no raio que o parta! Rezava para que um dia ele caiasse mole salvando todas. Mas que nada. O insaciável tinha as partes quentes e dura que só pedra. Muitas até emprenharam dele, preferindo morrer a ter que dar um filho a uma aberração como essa: Pois foi e ainda é, está por aí. Essa história correu longe e, de boca em boca, foi alarmando a população que temia que ele fugisse de lá, para atanazar a vida da gente pacata do lado de cá: Já imaginou ele escapole de lá e cai em cima das bundudas daqui? Vai ser o maior escarcéu, pode crer. Teve até quem tivesse o topete de tirar essa história a limpo. Gente do juízo frouxo ou coragem esborrando pelo ladrão, sei lá, danou-se pelas terras que margeiam o rio Pirangi, à caça do injuriado com o objetivo único de suplantá-lo até a morte e arrastar o harém como conquista. Arrepara só. Todavia, ninguém voltou para contar o sucedido. Juntou até uma legião de curiosos que saiu catando por toda redondeza, noitedia, adonde é que ficava esse harém e o portal e tudo o mais, porém, dos que voltavam só com as mãos abanando. A única testemunha viva disso que se tem notícia é a própria Leu que diz ter fugido do harém, depois de ser caçada por muitas noites de luas coloridas e de ver estrelas de toda cor em pleno meio dia, até bater cansada quase morta por estas bandas. Ela mesma conta detalhes. Quem quiser que acredite; eu mesmo, hem? Vôte! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] O que há de mais profundo em mim, não é o conjunto de meus limites – mas o todo que é a sua fonte, o centro de jorro da criação. O tema do abraço, para além de si mesmo, não é senão um nó humano, ou antes um enrolamento local desse maelstrom, esse grande abraço cósmico no qual se enlaçam e fecundam o homem e a natureza, o homem e a mulher, o homem e Deus. [...] Assim reencontrei uma outra dimensão: a da abertura ao outro, ao todo outro, a da espera e da visitação, dimensão feminina, negada por toda civilização tecnicista e masculina, prometeica, com tudo quanto ela comporta de grandeza, mas também de suficiência e de fechamento, esta civilização fautora de vidas marginas como Safo ou Flora Tristan. Isso não era apenas um enriquecimento pessoal: a descoberta desta parte de mim mesmo, que me falta ou que, em mim, permanece embrionária e encontra doravante o seu desabrochamento; era mais ainda: essa dimensão feminina, que, em nossa civilização ocidental, não conheceu jamais a sua verdadeira floração, eu acabava de encontrá-la, expressa aliás com uma força viril. Integrar no homem total todas as suas dimensões era, havia quarenta anos, minha razão de ser: cristianismo e marxismo, dialogo com as civilização não ocidentais. E eis que me surgia outra componente do humano. Fazer com que uma época, que a ignorava, sentisse a necessidade dela, esta era uma nova razão de viver. Alguns meses antes eu decidira-me a morrer, uma vez cumprida a minha tarefa. Eu lhe fixara o termo próximo. Agora, abre-se uma brecha nas minhas certezas, o horizonte de uma nova existência. É possível continuar a viver, à condição de não me encerrar em meus limites e nos de minhas tarefas limitadas e acabadas. Descobri que não tinha atingido esta plenitude. Devo ainda aprender a merecer a minha morte.
Trechos de Auto-retrato, extraído da obra Palavra de homem (Difel, 1975), do filósofo francês Roger Garaudy (1913-2012). Veja mais aqui.

PONTO DE MUTAÇÃO
O longa-metragem Ponto de mutação (Mindwalk, 1990), dirigido por Bernt Amadeus Capra, é baseado no livro homônimo do físico e escritor austríaco Fritjof Capra, aborda o dialogo entre três pessoas que possuem estilos de vida e pensamentos diferentes, abertas às novas ideais por meio de um diálogo em um castelo medieval na França. Estes são uma cientista que vê seus ideais traídos e desencantada com o projeto Guerra nas Estrelas, um candidato à presidência dos Estados Unidos e um dramaturgo em crise se encontram em um castelo medieval de Mont Saint Michel, no litoral da França e, em um único dia, os três abordam Descartes, Einstein, ecologia, política, física quântica, poesia e tecnologia para compreenderem os paradigmas do futuro. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista e escultor britânico Derek Kinzett. 
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segunda-feira, fevereiro 18, 2019

MARCIO SOUZA, MARIA CARMEN, CONSUELO DE PAULA, HORTAS DO BEM COMUM & DA FELICIDADE COMUNITÁRIA, EDUCAÇÃO & COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO


DA EDUCAÇÃO AO COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO – Uma coisa é falar sobre educação para quem acha que isso é só papo de professor ou coisa que valha. Outra é tratar sobre o sistema nervoso quando isso é tratado como papo de gente doida, pinel de jogar pedras e outras zuretadas. Rótulos são o que não faltam ao senso comum. Há quem reduza a educação apenas à escolarização, sem levar em consideração a pesquisa e a extensão, afora outras coisas mais além do ensino. Há quem trate sobre neuroeducação restringindo tudo apenas às funções e potencialidades cerebrais, sem levar em conta que além do sistema nervoso central, há também o autônomo e o periférico, afora a importância das glândulas endócrinas e da homeostase para o equilíbrio do organismo humano. Mesmo assim, vai lá que a metáfora leve a conversa de lá praqui e vai dá cá para ali e acolá, enfim, a coisa dá uma engrenada boa e vai praquela do quer dizer então que... É, que bom, dúvidas e perguntas afloram e isso torna qualquer papo para lá de interessante, relacionando a sinapse neuronal e a articulação sistêmica com reciprocidade de relações entre seres humanos. Ou seja, assim como é o funcionamento do organismo humano, pode – e deve – ser também nas relações entre uns e outros no convívio cotidiano. O que ficou de mais positivo foi saber que não há órgão mais importante que outro no corpo humano, cada qual cumpre sua função e papel no contexto da anatomia e fisiologia corporal. Assim poderia ser com a gente: cada um funcionando conforme o projeto cósmico, interagindo com a natureza, no que se poderia chamar de cooperação colaborativa, sem nada de interesse por trás, assim, apenas por ser. Foi com essa condução que ocorreu o bate-papo no último sábado, com os comparecentes à Associação dos Artesãos Palmarenses, que atenderam o chamado da Escola de Filosofia, Artes e Política de Palmares, sob a coordenação do professor Carlos Calheiros. Uma conversa que começou pelas vinte horas e passou da meia noite, com muitas indagações e esclarecimentos, uma confraternização. Por minha conta, me dei para lá de satisfeito com a presença e participação de todos, tomara que assim também com cada um que lá esteve. O que ficou de evidente para mim, conclusivamente, foi a constatação da necessidade de se construir elos, utilizando a metáfora dos dedos e da mão, para que se possa realizar uma verdadeira revolução copernicana ao contrário: a mudança tem que começar por mim, no meu domicilio e comportamento, numa atitude de sujeito cônscio de suas responsabilidades com o seu tempo e a sua terra, para que, só depois disso, possa interagir e atuar em defesa da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, estado e nação. Minha gratidão paratodos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
Houve um tempo em que Manaus tinha calçadas, largos passeios em mármore de Liós, aqui e ali os canteiros de fícus-benjamim distribuindo sombra aos transeuntes. Não há mais calçadas. Caminha-se quase sempre numa terra de ninguém, entre o esgoto a céu aberto e a posta de trânsito. Uma cidade onde o tecido urbano foi destruído e não há uma rua, uma artéria intata. Atravessa-se a cidade e tem-se a impressão de que quase todas as edificações estão inacabadas. [...] O caldo dos trópicos. A alegria da agonia. Manaus é a cidade mais odiada do mundo. Não fosse assim, não a teriam enfeiado tanto [...] Manaus é odiada talvez por não cumprir com o que promete. Engana as gentes das barrancas, os inocentes dos rios. Engana os que chegam de muito longe, carregados de misérias e pesadelos. Essa gente enganada não perdoa a cidade, e castiga Manaus, cada uma delas como células fazendo crescer o tumor canceroso em que foi transformada a velha e orgulhosa capital dos barés. Cidade degenerada, de alegria favelada acostumada a se contentar com pouco. Talvez por isso odiada também pelos que juram amá-la, amor da boca para fora dos que deveriam amá-la ao menos por dever de ofício. Manaus dos últimos acenos de gentileza em meio ao alarido arrivista. Cidade mal-amada. Cidade acostumada a apanhar na cara, a ser violentada, a ser roubada vergonhosamente pelos seus amantes. [...]. Trechos extraídos da obra A caligrafia de Deus (Marco Zero, 1994), do escritor amazonense Marcio Souza. Veja mais aqui e aqui.

AGROECOLOGIA: HORTAS DO BEM COMUM E DA FELICIDADE COMUNITÁRIA
A Economia do Bem Comum é um arranjo econômico alternativo e completo, atualmente em discussão e aprimoramento em vários países ao redor do mundo, motivada pela percepção dos múltiplos fracassos ambientais, sociais e econômicos do modelo econômico neoliberal vigente. Enquanto não temos condições diretas de mudar o atual arranjo econômico no Brasil, focado na acumulação de riquezas financeiras de investidores com atuação global, cada vez mais acelerada e concentrada na mão de poucos, podemos nos inspirar começando com uma economia de bem comum ao nível local. Com base comunitária, entre vizinhos, partindo dos nossos terrenos e quintais, para as “Hortas do Bem Comum e da Felicidade Comunitária em Aldeia”. O sistema das hortas do bem comum se fundamenta em oito elementos básicos e uma rede composta por cinco grupos de colaboradores. O sistema das hortas do bem comum é composto por cinco grupos de colaboradores, ou parceiros, formando uma rede. Nesta arranjo, colaboradores específicos podem se enquadrar em vários grupos. Os hortelãos, por exemplo, podem ao mesmo tempo ser beneficiadores, produzindo conservas da colheita, os consumidores podem ao mesmo tempo fazer parte dos apoiadores, entre outros.
Texto introdutório sobre o projeto agroambiental desenvolvido pelo engenheiro ambientalista alemão que atua na área de gestão de recursos naturais e resíduos sólidos, Thilo Smith & da agrônoma especialista em agroecologia, Simone Miranda, por meio de cursos de Cultivo Ecológico e práticas de agricultura urbana como forma de dialogar com as pessoas sobre novas formas de produzir, consumir e se relacionarem entre si e com o meio ambiente. Ambos prestam consultoria e ministram cursos voltados ao cultivo de hortas orgânicas em um projeto de economia solidária, na Rua Limeira – Km 12, da Estrada de Aldeia, Camaragibe – PE. Veja detalhes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da saudosa pintora, escultora e desenhista Maria Carmen (Maria Carmen de Queirós Bastos – 1935-2014), que realizou exposições em Recife, Salvador, Brasília, Aracaju, Vitória, São Paulo, Lisboa, Bélgica, França, Peru, República Tcheca, entre outras. Veja mais aqui & aqui.

A MÚSICA DE CONSUELO DE PAULA
Tenho acompanhado há tempos o talento desta competente e belíssima cantora, compositora, poeta e produtora, Consuelo de Paula. Por conta disso, degusto quase que cotidianamente a encantadora voz e verve desta que, para mim, é uma das maiores e mais expressivas artistas da música brasileira contemporânea: uma voz de ontens e amanhãs que se fazem presentes em tons e versos que fascinam o coração e a alma de quem contempla o prêmio instantâneo de tamanha maravilha. No próximo dia 16 de março, a partis das 20:30hs, no Espaço 91, próximo ao Sesc Pompeia, São Paulo, ela anuncia Ventoyá, a próxima obra dela: Maryakoré. Ventoyá é movimento de amor e de luta, um mergulho no dentro do tronco da árvore, vôo rasante sobre as folhas das árvores resistentes. Veja mais dela aqui, aqui, aqui & aqui.
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sexta-feira, fevereiro 15, 2019

MURILO MENDES, CARLA SALAZAR, IRENA SENDLER, MATA DE PERNAMBUCO & OUTRA PARA NÃO DIZER NADA


OUTRA PARA NÃO DIZER NADA - Tantos caminhos percorridos e o arrastado de malas deram por perdidas viagens, desencontros de goteiras do teto pingando na cabeça e empoçando o piso escorregadio para desastradas venturas. Quantos meses de chuvas e de sol, a quentura do pulso ao peito para tudo e a frieza das portas e fisionomias. Das tentativas o alvo, a mira e o atoleiro: no balanço das águas só se pode nadar, não há quem se segure de pé. Quem sabe pra onde o dedo alheio no gatilho, não há de ser leso de ficar ali feito imã, plantado no meio de campo, se para escapar tem que estalar os dedos e tomar pé da situação, serei um garrancho qualquer na caligrafia de Deus, então. Mas se falo no escuro, teor do anonimato: se fosse para todos seria premiado, um de cada vez, todos; mas não, a implicância dos sonâmbulos tira vantagem de tudo, se ajeita como pode e nem adianta vinte e quatro horas de vigília se às quedas quarenta e oito vezes o aprendizado de dias e noites que se foram para nunca mais. Nem adianta vinte e quatro sonhos se eram apenas um dia a cada dia, refeitos tantas quantas vezes diante da boa vontade de se aprumar para vida e muita má vontade de sobra na má-fé para que nada desse certo nem fosse feito. Dos caminhos percorridos, lições de sobra do cabelo em pé e frio na barriga com as espalhadas nas curvas e as sobradas de nunca chegar a lugar algum, guardando no quengo e toitiço uma após outra cada lapada da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] índices pouco usuais de concentração fundiária refletem-se em precárias condições de acesso a terra e asseguram às usinas, principalmente, uma situação de quase monopolistas controladores da propriedade do solo, donde derivam relações econômicas e sociais bastante assimétricas. Por outro lado, vale observar que diante do elevado nível de endividamento das usinas para com os bancos oficiais, atualmente existentes, esse elevado índice de concentração de terras entre as usinas pode facilitar, por mais paradoxal que seja, um processo de negociação de dívidas em troca de terras para fins de reforma agrária. [...] Afora isso, boa parte das usinas de açúcar e álcool apresentam hoje problemas de endividamento que já levaram ao fechamento de algumas delas e impedem a recuperação de outras tantas.
Trechos extraídos da publicação Zona da Mata de Pernambuco; estudo de alternativas de geração de emprego e renda no meio urbano (Sebrae/Série Reflexões sobre a Zona da Mata, 1995), coordenado por João Policarpo Rodrigues de Lima, Abraham Benzaquem Sicsú, Osmil Torres Halindo Filho, José Biondi Ney da Silva e Maria Amália Albuquerque Almeida. Veja mais aqui.

A POESIA DE MURILO MENDES
UMA MULHER – Ela estava no círculo familiar como as outras, / folheando um livro de gravuras: / a noite nos cercava com seus abismos azuis / e a ideia de quase uma floresta próxima. / Alguém acendeu um candeeiro de petróleo, / as pessoas presentes recuaram no tempo. / Ela se levantou para abrir uma vidraça, / e muito branca, toda vestida de preto, / seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes / fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota, / hélices mexendo, mãos a correr no teclado. / Quando sentou-se era outra vez a mulher.
MULHER – Mulher / ora opaca ora translúcida / submarina ou vegetal / assumes todas as formas, / desposas o movimento. / Sinal de contradição / posto um dia neste mundo / tu és o quinto elemento / agregado pelo poeta / que te ama e te assimila / e é bebido por ti. / Tu és na verdade, mulher, / construção e destruição.
CERTA MULHER – A linha do horizonte / passa pelos teus cílios / tua fonte a inquietação murmura / a alta lâmpada do templo balançou / porque não brincaste nunca mais com o arco / nos lânguidos terraços / a onda vai e volta / na esperança de te ver / o trevo de quatro folhas / achou-te. / Estrelas gêmeas suspiram.
A MULHER ANÔNIMA – Lembra-te daquela mulher / que um dia te acenou do alto de uma varanda, / daquela forma admirável mas sem nome / que uma tarde te disse adeus / enquanto o automóvel parou um minuto na estrada. / Lembra-te da mulher pouco decorativa, mulher simples / que não tiveste coragem de arrancar violento ao espaço / e que certamente nunca mais tornarás a ver: / lembra-te da bela mulher que estremeceu por ti / e sê-lhe fiel até o último dia da tua vida.
Poemas extraídos da obra As metamorfoses (Record, 2002), do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da ilustradora chilena Carla Salazar. 
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As ações da enfermeira e ativista polaca Irena Sendler (1910-2008) aqui.
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quinta-feira, fevereiro 14, 2019

AUGUSTO DE CAMPOS, STANISLAVSKI, MARIA TERESA NIDELCOFF, FERNANDA PRETO & COISAS SÓ PRA DIZER NADA


COISAS SÓ PRA DIZER NADA – De agora é que desde não sei quando as aspirações comandam sobre as coisas, enquanto o aroma da incompletude perpassa por tudo e todo momento e vem não se sabe de onde. Prevalece a retomada persistente ao alvo, mira em dia, o coração no bolso, a alma nas vitrines, a incessante urgência do trânsito insólito e turvado dos interesses e quereres insones e a qualquer custo. Que seja já, logo, ou senão perde a graça e fica tarde demais. Pouco importa a consequência, vale acertar na veia, a medida exata da sorte, possivelmente nenhuma dessintonia com os rumores das águas, a aragem das tardes, as pedras revolvidas, o parque de diversões, o teto da noite, as paredes nuas, o quadrado da hipotenusa, a cereja do bolo, o golpe de mestre, a hélice da turbina, o dente do garfo, a mordida do tubarão, a tabela periódica, o vagão do trem, o xeque mate, a grampola da tatarineta, a muxiba no moquém, nada. À hora feita, ou tudo ou nada. Em cada um, dentro de si, caixas privadas e lacradas, empedrecidas e a vida e o mundo e tudo ao redor do umbigo e seja sempre. Não há por que me queixar das incompreensões, que se danem. A compreensão tem que ser minha, não de ninguém. Ninguém tem que entender nada do que se passa comigo nem do que sou, eu que tenho que entender que podem não entender aquilo que quero dizer ou fazer, ora bolas! Não é preciso saber do Verbo da Torá, desde muito antes de quarks, léptons ou bádrons, nem que um outro vocabulário seja possível vigorar, outra matriz, só porque tudo muda, a ação não estaciona e se desloca por percursos de outras direções, senão todas, dentro ou fora de nenhuma fronteira fixa. O que vejo pode não ser visto, o meu olhar apenas; o que sei pode não ser sabido, aprendi demais do inútil ou relevante; o que calo pode não ser falado, e se digo, profano ou se desvanesce; o que ouço pode não ser ouvido, o privilégio do silêncio. Se acho que o tempo é nunca, pode ser ouro pros que só sabem escavar a terra e revirá-la a seu bel prazer. Se sei que cada coisa tem seu momento, pode ser a vontade que dita a razão pra quem só sabe a necessidade. Se tomo o talho na minha pele, as rachaduras e as nódoas diáfanas por lições experienciadas, pode ser pra muitos golpes do destino ou punição pelo que fiz ou deixei de fazer. A escolha entre seguir ou ficar sentado à espera é minha ou sua, se quiser. Só sei que se eu for, terei de ir por caminhos possivelmente inimagináveis, sujeito às descobertas e intempéries; se a escolha é pela espera, o mundo gira e tudo passa. Prefiro ir e voo, sigo alguém me aceita e venha quem quiser seguir juntos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] A compreensão do mundo que nos rodeia e suas características, a procura de uma resposta às perguntas que a época atual nos apresenta, leva-nos sempre ao passado, à origem do processo que estamos procurando e vivendo [...] Desta forma, se a escola assume a missão de procurar situar as crianças na realidade com um senso crítico, sentido-se parte comprometida na mesma, a escola tem necessariamente que apelar para a dimensão passado para dar elementos necessários para a compreensão do presente. Por isso, conhecer e compreender como vivem os homens de nossa época, em nosso meio ou em outros lugares, implica também no conhecimento da vida dos homens em outros tempos. [...] Uma vez reconhecido o papel formativo do conhecimento do passado no ser que cresce e descobre o mundo, deve-se refletir sobre a História como ciência e em suas possibilidades e objetivos na escola. [...].
Trechos extraídos da obra A escola e a compreensão da realidade (Brasiliense, 1982), da educadora argentina Maria Teresa Nidelcoff. Veja mais aqui.

O TEATRO DE STANISLAVSKI
No livro A criação de um papel (Civilização Brasileira, 1984), encontra-se: [...] Não pode haver arte verdadeira sem vida. Ela começa onde o sentimento assume os seus direitos. A atuação mecânica começa onde a arte criadora acaba. Na atuação mecânica não há lugar para um processo vivo e quando este ocorre é só por acaso. [...] Para reproduzir os sentimentos há que saber reconhecê-los pela experiência própria [...]. Já no livro A preparação do ator (Civilização Brasileira, 1989), está registrado que: [...] exprimir uma vida delicadíssima e em grande parte subconsciente, é preciso ter controle sobre uma aparelhagem física e vocal extraordinariamente sensível, otimamente preparada [...]. As obras em apreço é do escritor, diretor, pedagogo e ator russo Constantin Stanislavski (1863-1938). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens do DVD Ensaio sensual de mulheres comuns, com a arte da fotógrafa Fernanda Preto. 
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A obra do poeta, tradutor e ensaísta brasileiro Augusto de Campos aqui, aqui e aqui.
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quarta-feira, fevereiro 13, 2019

UMBERTO ECO & O ÍNDIO, JULIE GAUTIER & MANIFESTO NEOCORDELISMO, O PAPA-FIGO & A VIÚVA ALMA PENADA


O PAPA-FIGO & A VIÚVA ALMA PENADA - Antes de sumir do mapa, contam desde os mais velhos aos meninos mais tagarelas que nem tiraram a catinga do mijo ainda, afora os fantasmas que ainda zanzam por aí jogando conversa fora nas horas mais escuras de lua cheia, que Alagoinhanduba fora, ao longo dos tempos, sujeita a todo tipo de provação – isso ninguém sabe se lorota ou de vera, mas contadas amiúde. Foram acontecências recorrentes, por exemplo, como a de fogo – deu-se tantas vezes de um raio ineivado rachar árvore dela incendiar causando labaredas devastadoras, torrando tudo de não sobrar vivalma. Um ou outro sobrevivente desses acontecimentos funestos, quando não os próprios defuntos que ressuscitavam com a missão de repovoar o lugar, contam e descontam. Assim se deu com água, enchentes diluvianas arrasaram de levar tudo na gritaria das correntezas, batizando todo terreno e a mundiça toda cachoeira abaixo. De vento, ventanias de soterrar todo mundo chão abaixo, de ressurgirem tudinho dos galhos, pedras, coisas. E a cada uma dessas desditas, sempre ocorria o repovoamento, até desaparecer de vez de uma convulsão da terra para nunca mais. Mas antes desta última, reiteram nas conversas de sala, de bares, salões, esquinas e recantos, tantas outras calamidades, de gente que se envultou e se tornou malassombro, de botijas encantadas, de bichos correndo solto, de lápides com vultos esvoaçantes, coisas que desapareciam e tornavam a reaparecer assim do nada, pesadelos que viravam coisas reais, imagens que se transformavam nos espelhos e sombras, luzes que passeavam entre os viventes, gemidos e risadas ocultas que vinham ninguém sabia de onde, episódios recontados dos truques e delírios do sobrenatural que ninguém sabia explicar. Um dos mais repetidos à língua solta é o de uma moça bela e cobiçada, filha de um rico boticário que fabricava remédios que curavam todo tipo de doença e que, nas horas vagas e em dias de feira, se apresentava como poeta cordelista no meio da rua para vender suas invenções. A moça, dizem, era realmente vistosa, alta, corpuda e sedutora, porém não falava nem dava um riso pra ninguém. Vivia trancada com seus livros e, vez ou outra, aparecia na janela ou na porta da botica, sem dar conta das coisas e seres. Eis que um dia surge um galegão desses de dois metros de altura, todo arrumado e com pinta de galã de cinema, cheio das conversas de gringo, enfeitiçou o coração dela e roubou-la dali numa madrugada invernosa. O assunto foi manchete para todo tipo de conversas e fofocas. Tempos depois a moça reaparece branquelona e vestida de preto de fazer arrepiar por onde passasse até quem já tivesse morrido. Quase todo dia, na boquinha da noite, ela saía de casa de ninguém vê-la retornar, e se ouvia só uns uivos atribuídos a um Papa-figo que aparecera depois do seu regresso. Sabiam todos que ela saía todo dia no mesmo horário, antes da hora do ângelus, e vigiavam a volta dela todo o tempo, só se via mesmo a saída dela, coisa curiosa que levantou os pelos, cabelos e curiosidades de todos. Armou-se vigilância e perseguição, até se deparar com aquela alma penada, lá nos cafundós da lonjura, à beira da pedraria do rio, acariciando um ser estranho, o Papa-figo, ajeitado ao seu seio, por horas. O bicho ao dar conta da presença de estranhos na redondeza, botava todos pra correr pé-na-buda pernas-pra-que-te-quero, de ninguém nunca mais querer voltar lá por nada nesse mundo, nem passar por perto. Assim o local ficou conhecido como o canto do Papa-figo e da Viúva alma penada. Lugar desse não pode passar em branco, né? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
Uma vez que o futuro das nações indígenas parece estar selado, a única possibilidade de carreira para o índio jovem desejoso de ascender socialmente é aparecer num western. Para tanto, fornecemos aqui algumas instruções essenciais essenciais cobrindo toda gama de atividades, tanto pacíficas como belicosas, necessárias ao jovem índio para qualificar-se [...] Nunca atacar de surpresa: fazer-se notar ao longe, com alguns dias de antecedência [...] fazer-se notar em pequenos grupos na crista dos morros circundantes. [...] Deixar sempre vestígios evidentes de sua passagem [...] Respeitar sempre o princípio segundo o qual os índios só atacam de dia. [...] Usar rifles cujo funcionamento se desconhece comprados em mãos de mascates desonestos. Empregar sempre um tempo excessivo para carregá-los [...] Emergir no momento exato em que a mulher branca já tiver assinalado sua posição a um atirador de elite. Depois de alvejado, jamais cair para dentro da área do forte, mas de costas, para o lado de fora. Disparando de muito longe, pôr-se em evidência no ponto culminante de um morro, de modo a cair para a frente quando for atingido, espatifando-se nas rochas subjacentes. Em caso de confronto direto, demorar-se bastante na mira. [...] Em caso de ataque à aldeia dos índios, sair das tendas da maneira mais confusa possivcl, e correr em direções opostas procurando pegar as armas que terão sido previamente guardadas em lugares de difícil acesso. [...] Ao pular do alto sobre as costas de um branco, brandir a faca de maneira a não feri-lo imediatamente, permitindo o corpo-a-corpo. Esperar que o branco se vire de frente.
Trechos de Como ser um índio, extraído da obra O segundo diário mínimo (Record, 1994), do escritor, filósofo e bibliófilo italiano Umberto Eco (1932-2016). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
No curta-metragem Ama (2018) da artista, cineasta, bailarina e coreógrafa francesa Julie Gautier, que é mergulhadora e campeã de apneia na especialidade de peso constante, ela dança por seis minutos a 40 metros de profundidade, inspirada nas japonesas que coletam pérolas no mar, numa prática milenar e quase extinta. As amas, palavra que significa mulher do mar em japonês, mergulham sem equipamentos e compartilham valores como apoio mútuo e o amor pelo oceano. Veja mais aqui & aqui.

MANIFESTO NEOCORDELISMO
O Manifesto Neoccordelismo concebido pelos poetas cordelistas Cárlisson Galdino e Zé de Quinô, considera que a literatura de cordel é toda obra de poesia popular nordestina, que tenha forte vínculo com os estilos da cantoria popular ou deles derivados, ou adaptados. É direito do artista criar. Tanto no conteúdo, quanto na forma. Assim, a própria estrutura pode ser repensada. Convidamos todos a experimentar novas formas de escrever cordel e novos cordéis. Podemos usar elementos de outros gêneros literários e criar novas derivações e novos conceitos. Este Manifesto que se encontra disponível em sua inteireza aqui, conta com o paoio e contribuições de participantes do Laboratório da Rima, e trata sobre um novo cordel, que respeita o antigo mas olha para o futuro, entendendo a Literatura de Cordel como cultura e, por isso, viva! O que significa que se mexe, se molda e se expande.
Veja mais:
Literatura de Cordel na Escola aqui, aqui e aqui.
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Outras acontecências de Alagoinhanduba aqui.
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...