AS
FLORES MAIO – Ainda
ontem eu era um menino que fabricava sonhos no quintal. O amigo invisível não
era um só, muitos. E se escondiam nos pés de plantas, nos galhos das árvores,
ou saíam das figuras do gibi para meus temores inexplicáveis além do lodaçal do
quase muro destroçado no charco intransponível. Afora o medo do coração de
Jesus aceso no alto da sala de estar, pra me esconder no cós da saia da mãe de
não mais largar. Bastava uma brecha na porta e eu me esgueirava portão afora
pro mundo das lêmures do Una, por onde uma gente de olhos sem honra se apinhava
molestando incautos que falavam alto, às gargalhadas, a fazer do nariz seu
umbigo e a se meter onde bem entendesse, levantando uma lebre do passado
irrevogável de todos. Não havia graça nenhuma nas suas risadagens, eu só me
assustava ao sabê-los familiares tão íntimos entre si e que só sabiam espernear
ou ofender, não sabendo seu lugar, seu papel, nem de si, nem de ninguém.
Supunham de coisas de antanho jamais devassáveis, enquanto eu me via comprazido
sobrevivente do alçapão dos imprevistos, do encarceramento das calamidades para
só entreter e me perder do caminho, enquanto bajulavam dos outros a atração do
ouro, dos diamantes, das pepitas que vidravam e mexiam com o juízo no egoísmo
dos desafetos. Os ódios iam e vinham e eu não sabia distinguir de bem ou de
mal, passavam como diziam das boas intenções que sobrecarregavam o inferno,
acaso existisse um inferno que não fosse esse aqui. Isso tudo é bobagem, viver
é outra coisa. A infância não se acaba, mesmo que a gente envelheça. Mesmo que
a gente se gaste, passe do ponto, permanece menino de não se perder.
Menino-grande, menino passarinho. Um menino crescido feito e teimei em crescer
enquanto todos ao meu redor teimavam em ficar rico e nada mais valesse a pena para
tanto desvalor. Ledo engano, não há valia pra ardilosa vaidade dum trono de
poder carregado de falsidade ideológica, formação de quadrilha, fraude,
peculato, farsas de ontem e de sempre. Enquanto eu ia, os dias vinham e
passavam, e os pensamentos me seguiam e me seguem a contar dos ventos da
ventania, as correntes dos rios, as ondas do mar. Alheio a tudo e todos, pelejei
demais, demasiadamente, no varejo e no atacado. E percebi o aroma do hálito de
todas as coisas na vitalidade da noite imensa atravessando as estrelas. Aprendi
que só se está completo despido e se não tenho outra sabença, não haveria de
ter. Basta o que sou e sei. Não preciso saber nada. O que fui já não sou e nada
será. Amanhã é nunca e só se vive o hoje, nada mais. O que me serve agora é ser
menino e ter Iaravi menina-cunhã no giro do céu que se insinua chegar perto,
bem perto com sua infantil maneira de ser, mordiscando um dos lábios, piscando
um dos olhos e me ssorindo como quem ama com urgência e não pode deixar pra
amanhã. Ou quando ela no crepúsculo se torna Freya ousada mais que deusa fêmea poderosa,
a me ensinar dos segredos ocultos nas sombras de todas as noites. E assim incandesce
na nossa meninice a me chega com as palavras no papel que crepitam como a lenha
na lareira e se fazem vagalumes que voam com os meus quentes beijos de
chocolate pra invadir pela cortina entreaberta da janela de sua solidão na
réstia de céu e palidez da lua de outono pra deixar tudo diferente na minha, na
sua e na vida que povoa a noite de todos os nossos sonhos e desejos. É na
entrega de sua verve de poeta prodigiosa com suas mãos de fogo que me faz pro
seu gole na lembrança que sou de noz moscada, para que seu riso seja largo e
com um profundo suspiro, a dar de ombros, pronta pro meu abraço na fria noite
de maio que logo amanhecerá com seu sorriso de Sol pra alegria de todas as
flores que irradiam no jardim do meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais
aqui. TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, maio 19, 2016
EZRA POUND, CARLOS NEJAR, LÉGER, MARKU RIBAS, WACLAW WANTUCH, LUCIAH LOPEZ, NEUROCIÊNCIAS & FLORES DE MAIO
AS
FLORES MAIO – Ainda
ontem eu era um menino que fabricava sonhos no quintal. O amigo invisível não
era um só, muitos. E se escondiam nos pés de plantas, nos galhos das árvores,
ou saíam das figuras do gibi para meus temores inexplicáveis além do lodaçal do
quase muro destroçado no charco intransponível. Afora o medo do coração de
Jesus aceso no alto da sala de estar, pra me esconder no cós da saia da mãe de
não mais largar. Bastava uma brecha na porta e eu me esgueirava portão afora
pro mundo das lêmures do Una, por onde uma gente de olhos sem honra se apinhava
molestando incautos que falavam alto, às gargalhadas, a fazer do nariz seu
umbigo e a se meter onde bem entendesse, levantando uma lebre do passado
irrevogável de todos. Não havia graça nenhuma nas suas risadagens, eu só me
assustava ao sabê-los familiares tão íntimos entre si e que só sabiam espernear
ou ofender, não sabendo seu lugar, seu papel, nem de si, nem de ninguém.
Supunham de coisas de antanho jamais devassáveis, enquanto eu me via comprazido
sobrevivente do alçapão dos imprevistos, do encarceramento das calamidades para
só entreter e me perder do caminho, enquanto bajulavam dos outros a atração do
ouro, dos diamantes, das pepitas que vidravam e mexiam com o juízo no egoísmo
dos desafetos. Os ódios iam e vinham e eu não sabia distinguir de bem ou de
mal, passavam como diziam das boas intenções que sobrecarregavam o inferno,
acaso existisse um inferno que não fosse esse aqui. Isso tudo é bobagem, viver
é outra coisa. A infância não se acaba, mesmo que a gente envelheça. Mesmo que
a gente se gaste, passe do ponto, permanece menino de não se perder.
Menino-grande, menino passarinho. Um menino crescido feito e teimei em crescer
enquanto todos ao meu redor teimavam em ficar rico e nada mais valesse a pena para
tanto desvalor. Ledo engano, não há valia pra ardilosa vaidade dum trono de
poder carregado de falsidade ideológica, formação de quadrilha, fraude,
peculato, farsas de ontem e de sempre. Enquanto eu ia, os dias vinham e
passavam, e os pensamentos me seguiam e me seguem a contar dos ventos da
ventania, as correntes dos rios, as ondas do mar. Alheio a tudo e todos, pelejei
demais, demasiadamente, no varejo e no atacado. E percebi o aroma do hálito de
todas as coisas na vitalidade da noite imensa atravessando as estrelas. Aprendi
que só se está completo despido e se não tenho outra sabença, não haveria de
ter. Basta o que sou e sei. Não preciso saber nada. O que fui já não sou e nada
será. Amanhã é nunca e só se vive o hoje, nada mais. O que me serve agora é ser
menino e ter Iaravi menina-cunhã no giro do céu que se insinua chegar perto,
bem perto com sua infantil maneira de ser, mordiscando um dos lábios, piscando
um dos olhos e me ssorindo como quem ama com urgência e não pode deixar pra
amanhã. Ou quando ela no crepúsculo se torna Freya ousada mais que deusa fêmea poderosa,
a me ensinar dos segredos ocultos nas sombras de todas as noites. E assim incandesce
na nossa meninice a me chega com as palavras no papel que crepitam como a lenha
na lareira e se fazem vagalumes que voam com os meus quentes beijos de
chocolate pra invadir pela cortina entreaberta da janela de sua solidão na
réstia de céu e palidez da lua de outono pra deixar tudo diferente na minha, na
sua e na vida que povoa a noite de todos os nossos sonhos e desejos. É na
entrega de sua verve de poeta prodigiosa com suas mãos de fogo que me faz pro
seu gole na lembrança que sou de noz moscada, para que seu riso seja largo e
com um profundo suspiro, a dar de ombros, pronta pro meu abraço na fria noite
de maio que logo amanhecerá com seu sorriso de Sol pra alegria de todas as
flores que irradiam no jardim do meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais
aqui. segunda-feira, fevereiro 22, 2016
NÉLIDA, HAWKING, BAUDELAIRE, GUIMARÃES ROSA, PAPA HIGHIRTE & BOI ESPÁCIO
ERA
UM SÓ E SÓ, BOI ESPÁCIO - Aquele
era só Espácio, desde vitelo nas tetas, bezerro mamador a novilho cheio afoito,
terneiro de venda pra engorda e lucro, astúcias no mato, nas pernas da vaquinha
de ubre arrastando no chão, aonde vai atrás, com quem grita pela mãe para lá e
cá. Garrote danado, logo se capou; tomou corpo, touro arredio de sombra e todo
folgado saindo pelo curral da Piedade, a beber água na Cajazeira, malhando no
outeiro, descansando no Riachão. E se arranchava dos quartos no chão do
terreiro em frente de casa, feito um vigia, nem dando bola pro cachorro
Tubarão. Certa tarde mormaçada foi jogado no curral, a bem de mandado foi trancado
num alçapão. Demorou muito não, tomou vulto boi preto caraúna corteleiro, até o
dia da provocação: Vamos botar este boi no chão! Agora, meu boi, agora, \ Faz
ato de contrição! Danou-se focinho agitado, mugido garboso nas pontas
afiadas e finas, tomou opinião varando pastagens alhures explorando fuga
noutras rincões. Deram parte dele na ordem de deputado, era clima de guerra de
gente no mato, faros de cães, abrindo feridas por força dos laços, cordas nos
ares e foi muito perseguido, conheciam seus rastros, achavam que estava
perdido: Tava nada! Diz-me cá pronde foi! Quem sabe! Bateu um canto e outro, aboio
do muito pelas ribeiras correntes, pelas caraíbas verdes, chãs e grotas, pelejaram
demais, mais de cem no encalço, tudo pago pra pegá-lo na hora da festa, todos iam
e vinha pra derrubá-lo, aos pegas pelas várzeas e segura pra ser marcado com
ferro quente, boi ferrado tem dono e esse não tinha não. Pega ali e acolá, o
bicho escapava correndo mato adentro. Golpes nos seus ataques teimosos,
chifradas da muita, até bater cansado barbatão e ferido no barranco alto,
danou-se a mugir, caiu de lá de cima com o vaqueiro atrás. Boi desaparecido,
vaqueiro também, sabe-se lá aonde estão. Sumiram. E tem muita voga inté hoje o
romanceiro, mesmo pra quem não é vaqueiro da fazenda de gado. Veja mais aqui,
aqui, aqui, aqui & aqui.
DITOS & DESDITOS
A única coisa mais
perigosa que a ignorância é a ilusão do conhecimento...
Pensamento do físico e cosmólogo britânico Stephen
Hawking (1942-2018). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
CORRESPONDÊNCIAS
- A
natureza é um templo onde vivos pilares \ Deixam filtrar não raro insólitos
enredos; \ O homem o cruza em meio a um bosque de segredos \ Que ali o
espreitam com seus olhos familiares. \ Como ecos longos que à distância se
matizam \ Numa vertiginosa e lúgubre unidade, \ Tão vasta quanto a noite e
quanto a claridade, \ Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. \ Há
aromas frescos como a carne dos infantes, \ Doces como o oboé, verdes como a
campina, \ E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes, \ Com a fluidez
daquilo que jamais termina, \ Como o almíscar, o incenso e as resinas do
Oriente, \ Que a glória exaltam dos sentidos e da mente. Poema
extraído da obra Charles
Baudelaire - Poesia e prosa (Nova Aguilar, 1995), do escritor, tradutor, crítico de arte
e poeta francês, Charles Baudelaire (1821 - 1867). Estas correspondências
tornaram-se pilar do que houve de inovador na criação poética que o sucedeu,
quando então os jovens Verlaine e Mallarmé, ao se declararem seus discípulos em
1865, adotaram essa poética; como Lautrèamont a refez nos 'belo como'; Rimbaud
a incorporou à 'Alquimia do verbo'; que foi invocada por Marinetti em seu
manifesto sobre 'palavras em liberdade'; e que seria o fundamento da noção de
imagem poética como aproximação de realidades distantes em Reverdy e na lírica
surrealista. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
CONVERSA DE BOIS – [...] E começou o caso, na
encruzilhada da Ibiúva, logo após a cava do Mata-Quatro, onde, com a palhada de
milho e o algodoal de pompons frouxos, se truncam as derradeiras roças da
Fazenda dos Caetanos e o mato de terra ruim começa dos dois lados; ali, uma irara
rolava e rodopiava, acabando de tomar banho de sol e poeira – o primeiro dos
quatro ou cinco que ela saracoteia cada manhã. Seriam bem dez horas, e, de
repente, começou a chegar – nhein… nheinhein… renheinhein… – do caminho da
esquerda, a cantiga de um carro-de-bois. O cachorrinho-do-mato, que agora
lambia, uma a uma, as patinhas, entreparou. Solevou o focinho bigodudo e
comprido, com os caninos de cima desbordando, e, de beiços cerrados, roncou o
seu crepitar constante, ralado contra o céu-da-boca. [...] Distanciava-se
a complicada caravana. Então, a irara Risoleta fez o cálculo do tempo de que
dispunha. Olhou para cima, espiou para o caminho da direita, a ver se também
dali não surgia alguma coisa digna de observar-se, e, depois, numa coragem,
correu empós a comitiva, vai que avançando espevitada, vem que desenxabida
recuando, sumindo-se nas moitas, indo até lá adiante, namorar o guieiro, mas
gostando maismente de se emparelhar com o churrião; não podia, nem jeito,
admitir que os grandes buracos das rodas fossem os óculos de tirar barro, de
dar passagem à lama nos atoladiços: eram, isso sim, ótimas janelas, por onde
uma irara espreitar. Maneira seja, pôde instruir-se de tudo, bem e bem. E,
tempo mais tarde, quando Manuel Timborna a apanhou, – Manuel Timborna dormia à
sombra do jatobá, e o bichinho veio bisbilhotar, de demasiado perto, acerca do
bentinho azul que ele usa no pescoço, – ela só pôde recobrar a liberdade a
troco da minuciosa narração. Como aquele trecho da estrada fosse largo e
nivelado, todos iam descuidosos, em sóbria satisfação: Agenor Soronho chupando
o cigarro de palha; o carro com petulância, arengando; a poeira dançando no ar,
entre as patas dos bois, entre as rodas do carro e em volta da altura e da
feiúra do Soronho; e os oito bovinos, sempre abanando as caudas para espantar a
mosquitada, cabeceantes, remoendo e tresmoendo o capim comido de-manhã. Só
Tiãozinho era quem ta triste. Puxando a vanguarda, fungando o fio duplo que lhe
escorria das narinas, e dando a direção e tenteando os bois. E, por tudo assim
sem história, caminharam um quilômetro ou mais. Começou, porém, a esquentar
fora de conta. Nem uma nuvem no céu, para adoçar o sol, que era, com pouco
maio, quase um sol de setembro em começo: despalpebrado, em relevo, vermelho e
fumegante. Então, Brilhante – junta do contra-coice, lado direito – coçou
calor, e aí teve certeza da sua própria existência. Fez descer à pança a última
bola de massa verde, sempre vezes repassada, ampliou as ventas, e tugiu: “Boi…
Boi… Boi…” Mas os outros não respondem: continuam a vassourar com as caudas e a
projetar de um para o outro lado as mandíbulas, rilhando molares em muito bons
atritos. Brabagato aproveitou a parada para se deitar. Desce o corpo, dobrando
as quatro pernas, tudo muito complicado, e os joelhos como que se quebram
completamente – parece que os garrões vão ao sovaco, cai a quartela na canela e
bate o braço no boleto. Amontoa-se no fundo sulco da beira da estrada; e
Capitão não reclama: sustenta a canga, inclinando o cogote, e descai as
orelhas, enviesando olhos mornos. Mas Brabagato camba para o outro lado, depois
de extrair a cauda, que, por afã e por engano, lhe ficara imprensada embaixo, e
enxota as moscas passeantes pelo lombo e pelas ancas de montanha
branca-e-preta. Os cavaleiros se despedem. Mas, agora, a moça do silhão joga
uma espiadela e murmura, enojada, qualquer coisa a respeito da falta de
escrúpulos de se acondicionarem cadáveres em cima de rapaduras. – Vamos’embora,
vamos’embora… – Vam’, boi!… Tiãozinho quase não tem fala, mas Soronho brande a
vara o brada seu mau-humor. Brabagato se reajoelha e acaba de aprumar-se, em
dois tempos e três ferroadas. Os outros rompem adiante, com pronta pressa. As
tiradeiras se retesam, de argola a argola. E os bois todos batem cascos,
acertando a normal locomoção. [...] Boi urubu é boi Brilhante, que
afunda cachaço e cara, angular, para o chão da frente. Preto e movente,
assombra, que nem estranho enorme bicho d’água, com óleo e lustro no pêlo,
esgueirando-se a custo, quase rampante. E boi Brilhante pensa falado: “Estou
andando e procurando… As coisas pequenas vêm vindo, lá de trás, na cabeça
minha, mas não encontro as coisas grandes, não topo com aquilo, não…” Ora
caminhando de frente, ora aos recuões, Tiãozinho tem de ficar espertado, porque
os bois agora deram para se agitar. Se o guia pega a pensar demais, se
descuidando, logo se alerta com o bafo quente nas orelhas e a baba lhe
respingando na nuca. [...] Agora é preciso cuidado e lentidão de passo,
pois a estrada tora entre despenhadeiro e barranco. – Õa, boizinho, ôa! –
avisou já Tiãozinho, olhando para cada um deles, assustado, quase que pedindo
para passarem com modos, pelo-amor-de-deus: Buscapé, Namorado; Capitão,
Brabagato. E Brilhante: … “Mas boi Rodapião foi espiando tudo, sério, e
falando: – Em todo lugar onde tem árvores juntas, mato comprido, tem água. Lá,
lá em-riba, quase no topo do morro, estou vendo árvores, um comprido de mato.
Naquele ponto tem água! – E ficou todo imponente, e falou grosso: – Vou pastar
é lá, onde tem aguada perto do capim, na grota fresca!… “Eu também olhei p’r’a
ladeira, mas não precisei nem de pensar, p’ra saber que, dali de onde eu
estava, tudo era lugar aonde boi não ir. Mas boi Rodapião falou como o homem: –
Eu já sei que posso ir por lá, sem medo nenhum: a terra desses barrancos é dura,
porque em ladeira assim parede, no tempo das águas, correu muita enxurrada, que
levou a terra mole toda… Não tem perigo, o caminho é feio, mas é firme. Lá vou…
“Eu não disse nada, porque o sol estava esquentando demais. E boi Rodapião foi
trepando degrau no barranco: deu uma andada e ficou grande; caminhou mais,
ficou maior. Depois, foi subindo, e começou a ficar pequeno, já indo por lá,
bem longe de mim…” – E daí? E foi? “Escutei o barulho dele: boi Rodapião vinha
lá de cima, rolando poeira feia e chão solto… Bateu aqui em baixo e berrou
triste, porque não pôde se levantar mais do lugar das suas costas…” – E foi? “Ajudar
eu não podia e nem ninguém… Chamei os outros, que não vinham e não estavam de
se ver… Aí, olhei p’ra o céu, e enxerguei coisa voando… E então espiei p’ra
baixo e vi que já tinham chegado e estavam chegando desses urubus, uns e
muitos… E fui-m’embora, por não gostar de tantos bichos pretos, que ficaram
rodeando aquele boi Rodapião.” – E nunca se soube se tinha água no alto do
morro, então? “Contei minha história, agora vou cochilar… Sei não.” Mas, agora,
está ali defronte um carro quebrado, e as juntas de bois, folgando em ordem,
mais no alto, na escarpa. [...]. Trechos do conto Conversa de bois,
extraído da obra Sagarana (José Olympio, 1974), do escritor, médico e diplomata
João Guimarães Rosa (1908-1967), com cenários e personagens típicos do
sertão de Minas Gerais, com seus morros, riachos, jagunços, vaqueiros, bois e
cavalos que povoam as páginas das estórias magistralmente construídas, cuja
habilidade para criar enredos e protagonistas diversos e repletos de detalhes
encanta leitores até hoje e permanece influenciando gerações e gerações de
escritores. A linguagem inventiva da obra é outro aspecto que distinguiria para
sempre o autor no campo da literatura brasileira, ao mesmo tempo em que
incorporou fragmentos essenciais da oralidade sertaneja, pescando regionalismos
e recuperando antigas expressões de linguagem do sertão, ele inovou com a
criação de neologismos cuidadosamente lapidados. Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
DE UMA CENA DE PAPA HIGHIRTE, DE ODUVALDO VIANA FILHO - [...] Papa Highirte – É. Você tem bom gosto menina... Graziela –Que é isso, Papa, eu não... Papa Highirte – Tenho vinte séculos, menina, completos em março, não pense que me engana... É justo. Eu preciso de ajuda mesmo para amar você. (Senta-se. Bate nas pernas. Graziela senta-se no colo dele). Papa Highirte – Agora beijos. Graziela sorri. Encosta-se nele. Beija-o). Papa Highirte – Por que não veio ontem? Graziela – Assim... não vim... fiquei assim... Papa Highirte – Boa explicação, menina, boa explicação.... (Riem. Ficam abraçados. Muda a luz. Papa continua com Graziela no colo) [...] Papa Highirte – Tem belas coxas a Graziela... é a putinha mais bem conservada que conheço, a putinha... um seio pequeno, a putinha tem um seio pequeno de donzela... hein? Você não acha bonita a coxa de Graziela?... Hein, Mariz?..... hum.... o rapaz tem seus orgulhos... [...] Mariz - Falou do seu peito, da sua coxa, da sua anca, anca de égua de Grande Prêmio.... me contou como beija seu peito, peito de menina debutante, que ele beija seu peito até ficar roxo o bico do seio... (Graziela ri). Graziela - ...sabe? E ele senta numa cadeira e pede pra mim andar, primeiro vestida, assim toda coberta, eu fico andando, aí ele pede pra tirar o soutien, fico só de vestido o seio balançando, acho que andei um dia a tarde toda, parecia uma exaustão, ele fica olhando, fuma, bebe pulque, sabe o que ele mais gosta que eu faça? Vou andando assim de costas, a blusa fechada, aí eu pego chego bem de longe e assim de repente viro assim com a blusa aberta, fico um instante, zapt, ai viro de novo, ai ele pede pra mim dançar como eu danço na boite... PAPA HIGHIRTE – peça teatral do autor e ator Oduvaldo Viana Filho (1936-1974), participante ativo do Teatro de Arena, fundador do Centro Popular de Cultura e do Grupo Opinião. Teve sua trajetória personificada pela luta contra o imperialismo cultural. Sua dramaturgia coloca em cena a realidade brasileira através do homem simples e trabalhador, sendo unanimemente considerada a mais profícua de sua geração, com textos como Chapetuba Futebol Clube, Papa Highirte e Rasga Coração. Papa Highirte foi escrita em 1968, relata ocaso de um ditador latino-americano, no exílio, amargando suas obsessões e seus fantasmas do passado. Por mais que ele se veja como um bom homem, sua ação ou omissão causou um injusto aglomerado de vítimas. O texto se tece e constrói em torno desse ajuste de contas fatal, quando o personagem cogita o regresso ao seu País. Esse texto, assim como Rasga Coração, foram duas obras-primas de Vianinha, ambas premiadas em concursos promovidos na época, pelo Serviço Nacional de Teatro. Veja mais aqui, aqui e aqui.
sábado, janeiro 10, 2015
HILARY MANTEL, GLORIA DÜNKLER, SILVINA OCAMPO, BEATRIX POTTER & SALUSTÉRIO
O VELÓRIO DO
ARRUADO - Salustério o que tinha de firme, tinha de certo e certeiro. Dito
dele ninguém apagava: tudo no tanto, nos conformes. Tinha duas paixões: jogar e
fazer filhos. Jogava de tudo e se gabava de nunca usar da trapaça. Isso era.
Fosse de taco, palitos, cartas, pedras, até pulhas: ninguém tinha fôlego para
superá-lo, sua peta a mais cabeluda. Até do estrangeiro aparecia desaforados. E
todos desbancados por sua perícia na volta da empáfia. Tudo com ele era no
apostado. E foi assim que amealhou na vida uma bodega sortida de construir um
arruado só dele, de casinhas uniformes, só pra ele e os seus. Tudo que ganhou e
possuía foi oriundo do jogo. Já os filhos, quatro com a primeira, cinco com a
segunda, dois com a terceira, três com a quarta e quatro com a quinta. Tudo
criado no tanto e no justo: criação, comida, estudo, pé de meia e casa pro
casório. Quando os três últimos caçulas nasceram, os quatro mais velhos já
estavam casados e logo criados no amontoado duns e doutros. Tudo de seu, na
volta da munheca, no bafo do fiapo de bigode. As esposas foram trocadas quando
não mais lhe serviam, nem davam mais no caldo ou demoradas de emprenhar. Todas
substituídas por mais novas, evidentemente. Apesar de bastante austero nunca
foi sovina: vendia no preço e peso certo, nada de fiados. Tinha uma freguesia
certa que ele fazia exceção em valsas semanais, quinzenais ou mensais. Quando
dava por falta de um desses prediletos, logo visitava o sumido e, se tivesse em
situação de dificuldade, dispunha de feira e necessários até que o enfermo
saísse do aperto. Mas se tivesse se escondendo, era catabi no pau da venta
cobrando vergonha na cara. Apesar de estibado aos equilíbrios, guardava um
desgosto: os filhos cresciam e passavam a não se dar. O mais velho casou-se e,
por artes do destino, intrigou-se do irmão encostado e, assim, se sucedeu a um
por um dos seus descendentes com as devidas esponsais. Até o dia que chamou
todos na grande pelo aperreio, teve um troço e bateu as botas. Só a viúva
resistiu embuchada do décimo nono de sua prole, devota fiel à toda prova, como
todas as outras abandonadas que, mesmo depois de descartadas, jamais convolaram
novas núpcias. Na hora do velório foram chegando vizinhos e achegados, filhos e
simpatizados. A viúva sozinha amargava no canto. As outras viúvas deram as
caras, cada qual paparicada pelos de seu no maior pé de briga, não respeitaram
nem o falecido. Pra piorar uma chuva torrencial despencava para contê-los todo
na sala. Ia se apaziguando como podia até o estouro da boiada de um instante
pro outro e a coisa se descabelou: bastou um dos filhos debulhar queixume que o
escarcéu tomou conta, com deixa disso e puxa-encolhe. A chuvarada mais
engrossou o pandemônio e nem notaram as águas do rio subindo, invadindo a
ruela, daí a pouco sala adentro e cada um procurava o lugar mais alto, sem dar
mão a torcer na arenga. Calúnias e impropérios soavam enquanto tudo ia sendo
alagado. No calor dos desaforos foi que deram fé que a enchente levara o caixão
e todos timbungaram para salvar o defunto que descia correnteza afora e nunca
mais deram sinal de vida. Pronto, parecia um santo remédio pra discórdia. ©
Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.
DITOS &
DESDITOS - Que céu pode ser mais real do que reter o mundo espiritual da
infância? Graças a Deus nunca fui mandado para a escola; teria apagado um pouco
da originalidade. Com
oportunidades o mundo é muito interessante. Graças a Deus
tenho o olho que vê, ou seja, enquanto estou deitado na cama posso andar passo
a passo pelas colinas e terrenos acidentados vendo cada pedra e flor e pedaço
de pântano e algodão passar onde minhas velhas pernas nunca chegarão eu de
novo. Não posso descansar, tenho que empatar, por pior que seja o resultado, e
quando passo por um mau momento, o desejo é mais forte do que nunca. Quanto
mais curto e claro, melhor. Eu odeio terminar livros. Eu gostaria de continuar
com eles por anos. Pensamento escritora e ilustradora Beatrix
Potter (1866-1943). Veja mais aqui, aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU: Como a
vida seria curta se certos momentos desagradáveis não a fizessem
parecer interminável! Superficialmente, não há distinção entre as
nossas experiências – algumas são vívidas, outras opacas; alguns são
agradáveis, outros causam agonia ao relembrar – mas não há como saber quais são
sonhos e quais são realidade. Ele te ama como se
você me pertencesse, sem registrar que ninguém é de ninguém, que possuir algo,
qualquer coisa, é um sofrimento vão. Pensamento da escritora
argentina Silvina Ocampo (1903-1994). Veja mais aqui e aqui.
DE AUSÊNCIA
& OUTRAS COISAS - [...] É a ausência
de fatos que assusta as pessoas: a brecha que você abre, na qual elas despejam
seus medos, fantasias, desejos. [...] Algumas
dessas coisas são verdadeiras e algumas delas mentiras. Mas são todas boas histórias [...] É muito bom planejar o que você fará em seis meses, o que fará em
um ano, mas não adianta nada se você não tiver um plano para amanhã [...] Fortaleza...
Significa firmeza de propósito. Significa resistência. É ter força para conviver com o que te constrange [...]. Trechos
extraídos da obra Wolf Hall (Picador, 2010), da escritora e crítica literária britânica Hilary
Mantel (1952-2022).
TRÊS POEMAS - [MEU
TRABALHO É CONSTRUIR] - Meu trabalho é construir, ligar os motores, \ partir e
não voltar atrás.\ A miséria despediu-se de mim\ agitando o lenço ao vento\ e
compreendi então que o meu destino era triunfar.\ Foi segurar esperanças
amarradas ao cinto,\ remar em busca da sua margem,\ semear o poema e deixá-lo
brotar. [À TARDE ANDÁVAMOS NOS TELHADOS] - À tarde ficávamos nos
telhados para ouvir o cóclea de galinhas atacadas pelo puma, ou as queixas de
uma ovelha perdida. Superado pela selvageria desta terra que se perpetuou além do que Nossos
esforços nunca seriam suficientes. saboreando o show da lua redonda e doce, aquela panqueca como o seio de uma
mãe, como um gole de cerveja, como a perna de uma boa mulher, cantamos bêbados
e exausto, discutindo as notícias que vieram de a pátria. [AS TERRAS DE
LLAFENKO] As terras de Llafenko nunca foram um Éden como eram ele nos contou. As pegadas estavam cobertas de espinhos; chuvas e os ventos eram devastadores,
caprichosos e a charneca Ele fechou suas entranhas para semear. Frutas silvestres e ovelhas pastando nos
prados recusaram-se a deixar seus cativeiro; A floresta não se deixou derrubar e os
rios Eles abriram caminho com mais fúria. As terras Llafenko foram um labirinto de segredos, um enxame de perguntas
sem respostas. Poemas da premiada
escritora chilena Gloria
Dünkler.
SACADOUTRAs
O SEGREDO DA VIDA DE BEETHOVEN – O
gênio da música, o compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827), em mais
um momento de profunda inspiração, falou a respeito do segredo da vida: Feliz aquele que, tendo aprendido a dominar
todas as paixões, emprega sua energia no cumprimento das tarefas impostas pela
vida sem se preocupar com o resultado. O objetivo do teu esforço deve ser a
ação, e não aquilo que ela produzirá. Não sejas um daqueles que, para agir,
necessita do estímulo representado pela esperança da recompensa! Não deixes
teus dias se evanescerem na indolência. Sê trabalhador e cumpre com teu dever
sem te inquietares com as consequências, sejam elas bons ou maus produtos; essa
indiferença atrairá tua atenção para as considerações espirituais. Busca refugio
apenas na sabedoria, pois apegar-se aos resultados causa infelicidade e
sofrimento. O verdadeiro sábio não se ocupa daquilo que é bom ou mão no mundo. Pensa
sempre nessa direção: eis o segredo da vida! Veja mais aqui, aqui e aqui.
EM BUSCA DA MEMÓRIA – Em um
dos seus livros, Em busca da memória: o
nascimento de uma nova ciência da mente, o neurocientista austríaco Eric Richard
Kandel fala da maravilha que é a faculdade de lembrarmos do que nos ocorreu na
vida, destacando a nova revolução científica acerca dos estudos da mente. Ele
destaca no início da obra que: A memória
sempre me fascinou. Pense no que ela é capaz de nos proporcionar. Podemos nos
lembrar, por vontade própria, de nosso primeiro dia de aula na escola
secundária, de nosso primeiro encontro, de nosso primeiro amor. Ao fazer isso,
não nos recordamos somente do evento em si, mas experimentamos também a
atmosfera em que ele ocorreu — os cenários, os sons, os cheiros, o ambiente
social, o momento do dia, as conversas e o clima emocional. Recordar o passado
é uma forma de viagem mental no tempo. Ela nos liberta dos limites temporais e
espaciais e permite que nos movamos livremente ao longo de dimensões
completamente outras. Veja mais aqui e aqui.
LINDA LOVELACE – A atriz norteamericana Linda Susan Boreman
tornou-se famosa com o nome artístico de Linda Lovelace (1949-2002), ao
protagonizar o filme Deep Throat, em
1972 – um filme que se fez maravilhoso no imaginário da minha adolescência: é
que nessa época eu tinha apenas meus 12 anos de idade e sob a petulância de um
bigodinho ralo embaixo da venta que me dava a empáfia de um adulto precoce que
não tinha tirado ainda nem a catinga do mijo, consegui burlar os porteiros e me
deliciar com as cenas desse clássico do erotismo (ou pornográfico? Qual a
distância entre o erótico e o pornográfico? Um cabelinho de sapo. Cada um com
seu olhar e fim de papo: cada qual, cada qual. Enfim, por causa desse filme,
Linda foi regia e devidamente homenageada nos meus prazeres solitários
noitedias). E depois vieram outros tantos filmes que culminaram no lançamento
de uma autobiografia Ordeal contando
sua atribulada vida de sucesso e decadência. Mãe de dois filhos, vítima de uma
série de problemas de saúde e de muitos altos e baixos, tornou-se uma ativista
ferrenha contra a indústria pornográfica, até morrer de um acidente de
automóvel. Sua vida trágica foi transformada num filme em 2013, o Lovelace, dirigido por Rob Epstein e
Jeffrey Friedman, e estrelado pela lindíssima Amanda Seyfried numa atuação, a
meu ver, fenomenal. Como já dizia Caetano Veloso: “Cada sabe a dor e a delícia
de ser o que é”. Veja mais aqui e aqui.MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA
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