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terça-feira, novembro 12, 2019

EZRA POUND, LUCHINO VISCONTI, ELIZABETH CADY STANTON, LINDE ERGO & OCIDENTE TARDIO DE VILMAR CARVALHO


OCIDENTE TARDIO – O poeta desenha a linha do verso: olhos marejados de azul, carregados de saudade. A cidade sob os pés nunca foi lugar de covardia, apesar da distância e degredo é intrusa a solidão; as escaramuças, o seu desbravamento. E ele caminha até não voltar sem resposta alguma: uma ode feita de exílio. A palavra se revelou ao tomar o caminho: sete pedaços de Sol e um soneto, fragmentos de imagem, narrativa de melancolia na estação das chuvas. A luz espalha o brilho: amplo é o universo, sem esperança é o vazio. Ali ninguém nunca esteve e se nunca falou não esqueceu o retorno de sempre ao endereço da alma e do amor, a poesia. É uma canção de amor que reacende amar no céu de dezembro e um país inteiro adormece como uma estrela cadente que cai entre as coisas do caldeirão mágico feito de mensagens de terras distantes. Fez-se janeiro breve porque o exílio e o abandono são outra parte da paixão, uma estranheza de pequenas ondas em que o verso é feito de si mesmo e conta demais horas eternas com hálito de fendas. Na angústia da poesia a palavra salvadora: abriu-se a última parábola como se o desabafo fosse perfume de escurecido astro. A falta de amor dói e a poesia viva não pode dizer adeus e celebra um recanto do Sol. A mulher deixou o vestido na sala e o que se preza não diz que é poeta ao escrever o soneto entreaberto na carne do silêncio alado, porque agosto é a única heresia: uma agonia distante nas areias do tempo e o que nunca fiz com as imposturas do texto. A terra que nasci sonhei três vezes, os signos telúricos na encardida sola dos pés e a fruta farta para provar como quem garimpa tesouro no quintal florido ou aquela roubada que é mais gostosa que o caldo da garapa, a cana e o bagaço. A lembrança é o fio da navalha na pele amolada, o coração agridoce na pedra transformada em brasa de Sol. A senhora das loas trouxe o repente na ponta da língua e dança o pífano na xilogravura do arrastado dos pés. O réquiem no rio que sorriu, a morte bate em retirada nas ondas que estrondam, para não esquecer o amor e a sorte e o que não aconteceu na memoria do passado. Sou escritos na garrafa jogada para não dar nome a nada na fúria da escuridão, porque a prova de amor no beijo roubado é como o caldo da espera no frevo de junho. Em maio a cidade consumada, reencantos de intimidade, apenas um lampejo: tenho tanto de tantas palavras. Nasceram trinta versos assim de repente e muitos poemas do jeito de contar história do tempo que a beleza nasceu, porque a cidade é uma mulher que o amor aprendeu palavra por palavra, nas pelejas que se viveu sobre poemas: não lembrar queima tanto, o idioma precisa de metáforas. Escrever pessoas são poemas e fica para depois na solidão, porque a cidade é a percepção do abismo: as astúcias do poeta e a descoberta de nunca esquecer das nuvens que se passaram. Cantei tudo e a tudo decantei o desencanto, enquanto os homens brincam com as feras da criação despertando o céu como não se fazia há séculos. Tudo é só ausência, são muitos dezembros e a eterna partida por onze palavras reencantadas: é preciso dormir muitas vozes e o que nunca se esconde na curva e seus mundos infinitos. O poema cumpriu seu destino, porque o poeta é saudade e distância. PS: Texto-colagem sobre poemas do livro Ocidente tardio (Tarcisio Pereira, 2017), do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: O autodesenvolvimento é um dever maior do que o autossacrifício. No momento em que começamos a temer as opiniões dos outros e hesitamos em dizer a verdade que está em nós, e por motivos de política ficamos em silêncio quando deveríamos falar, as inundações divinas de luz e vida já não fluem em nossas almas. A prolongada escravidão das mulheres é a página mais negra da história da humanidade. A Bíblia e a Igreja sempre foram os maiores obstáculos para a emancipação feminina. O descontentamento de uma mulher aumenta na exata proporção do seu desenvolvimento. Eu estou sempre ocupada, o que talvez seja a maior razão pela qual eu estou sempre bem. A melhor proteção que uma mulher pode ter é a coragem. Pensamento da ativista social, abolicionista e feminista estadunidense, Elizabeth Cady Stanton (1815-1902), autora da Declaração de Sentimentos (1848)e líder do movimento pelos direitos das mulheres.

O CINEMA DE LUCHINO VISCONTI
A família: uma espécie de destino ao qual é impossível escapar.
LUCHINO VISCONTI – A obra do cineasta italiano Luchino Visconti (106-1976), merece destaque pelo filme La caduta degli dei (Os Deuses Malditos, 1969), o primeiro filme da trilogia alemã, contando a história de uma família industrial abastada que começou a negociar com os nazistas, quando o patriarca é assassinado, tendo o vice-presidente da empresa sido acusado pelos nazistas do crime. Outro que merece destaque é o drama Vaghe stelle dell'Orsa... (Vagas estrelas da Ursa, 1965), uma releitura dos mitos de Electra e Orestes, contando a história de uma bela mulher que se casa com um estadunidense, que investigam sobre campos de concentração nazista; ela toma conhecimento da história da família e a partir disso se desenrola uma série de situações. Outro de seus premiados filmes é Il Gattopardo (O leopardo, 1963), baseado no romance homonimo de Lampedusa (1896-1957). Por fim, Il lavoro, episodio do cineasta para a comédia Boccaccio ’70 (1962), baseado nos contos do clássico Decameron de Boccaccio. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora belga Linde Ergo. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE EZRA POUND
E se o velho frio estrangular sua loja, você será grato quando a noite passar.
A obra do poeta estadunidense Ezra Pound (1885-1972) aqui e aqui.
&
A ARTE DE VILMAR CARVALHO
A arte do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, outubro 30, 2017

EZRA POUND, PAUL VALÉRY, CONCEIÇÃO EVARISTO, ROMERO DE FIGUEIREDO, ZÉ RIPE & AGRESTINA


(Imagem: Xilogravura de Erik Lima - O QUE É UM PEIDO PRA QUEM ESTÁ CAGADO? - O galo cantou meia noite, nem sinal do Sol na esquina. Vixe! Mesmo assim, bola pra frente que a fila está a perder de vista. Ou vai ou racha. E já rachou faz tempo com a porta na cara e frestas espremidas. Ou pula o portão e a janela, ou o muro do quintal: paga-se o pato de qualquer jeito, independe de intenção, já viu? Tudo só anda mesmo é na contramão. Vai ver: está mesmo é em cima do telhado, pedindo socorro no meio do deserto. Quem está no mato sem cachorro, tem de ir de qualquer jeito apelando pra sorte. Qual? Oxe! Calango que se preze não vacila em pé algum, vai se arrastando, quem sabe um aceno mole, saiba: o mundo sempre está do contra. E como está! Nem olho pros lados, margem alguma. Resta ouvir tagarelices de cachorros, rinchados de cabeças de fósforos, mugidos por conselhos e coices por admoestações. Aprendeu? Nada, sigo em frente, mesmo que só chegue atrasado com a greve do relógio e nem ligo se estiver tudo pifado, no final das contas, sempre fora de moda no meio da maior sinuca bico, xeque mate. Dou meus pulos, o blefe no jogo, melé que não tenho e o coringa que pinoteou e nem seu silva de dar bola: aparecer qiue é bom, só depois de um bocado de sobrada, toque de arrodeio e findo esgotado, o cu esfolado de relar a bunda no chão. Dou a volta por cima, tudo se ajeita de uma forma ou de outra. Não adianta fechar o olho pra pontaria, alvo algum. Muito menos pagar penitência com o jelho sobre a pedrinha incômoda ou ficar com a língua de fora com o cenário que virou tudo de cabeça pra baixo, com o solado do pé numa peínha de nada, pisando no próprio calo, magoando a pereba, ih, se vira, tudo dá-se um jeito, é só sair pulando num pé só pra ver como é que se equilibra no arame farpado. Eita! A coisa está braba, mesmo! Nem fechadura pra chave que resta e nem sei onde é que ela está. Já já o dia amanhece de verdade e não adianta ficar na porta pra ver no ímpar ou par qual a melhor solução! Qualquer ideia é perda de tempo, vai na onda que é melhor e salve-se se puder. Do contrário, vai naquela de atirar no que vê pra acertar o que nem estava ali. Tudo está na linha do avesso e se der as costas a punhalada come no centro, aí babau: o que passou não volta mais, se perde o bonde agora é tarde, ou ir pelas beiras, quam sabe, um dia, encontre mais que farelos nas borda dos pratos. Assim vai a vida, de bigu e correria, no mínimo, a gente ganha experiência e só. Vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do violonista e compositor Laurindo Almeida: Musico f Brazil masters & Cajita de musica; da pianista Maria Teresa Madeira: Recital Ary Barroso & Recital; do violonista e compositor Yamandu Costa: In Concert & Ao vivo; da pianista Cristina Ortiz: Alma brasileira & Ciclo brasileiro Heitor Villa-Lobos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Eu acho que há um “fluido”, bem como um conteúdo de sólidos, que alguns poemas podem ter forma, alguns como a água derramada dentro de um vaso. Que formas mais simétricas têm certos usos. Que um grande número de assuntos não podem ser precisos, e, portanto, não adequadamente, representados em formas simétricas [...] A dança do intelecto entre as palavras, ou seja, emprega palavras não só pelo seu significado direto, mas é preciso contar de uma maneira especial com seus hábitos de uso, do contexto, do que habitualmente acompanha seus concomitantes, de suas aceitações conhecidas e de jogo irônico. Ela, a logopoeia, mantém o teor da estética que é o particular domínio da manifestação verbal, e não pode, possivelmente, ser contido na plástica ou na música. Ela é a última a chegar, e talvez, a mais complicada e pouco confiável. Pensamento do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

BEBEDOURO DE AGRESTINATerminava o ano de 1845, época em que os sertões sentiam com todo o rigo, os efeitos da tremenda crise, motivada por uma seca devastadora. Sertanejos diariamente desciam às dezenas e centenas, em demadada ao sul, atraídos pela fartura da zona canavieira. Nesse tempo, a área onde se localiza atualmente a cidade de Agrestina, não só passava de uma uma fazenda em miniatura. Meia dúzia de trabalhadores, também sertanejos, atraídps pela água que jorrava espontaneamente de um certo local do terreno, resolver dar à nascente uma feição permanente, cavando um grande posso, para o abastecimento da população e dos animais, a que deram o nome de Bebedouro. Passaram-se os anos, Bebedouro deixa de ser somente o ponto de confluência de quem necessita de se abastecer, para tornar-se um aglomerado de pessoas, dispostas a transformá-lo num povoado, numa vila e, posteriormente, cidade. Como era de se esperar acontecer, a influência da região seguiu paralelamente à realização humana. Na história deste município ela toma corpo, gerando iniciativas,. Instaladas as primeiras famílias, estas deram inicio à exploração do terreno adjacente, advindo daí a descoberta de uma imagem de Santo Antônio, talhada em madeira, deixada por algum transeunte menos avisado. O fato é que, julgando tratar-se de um autêntico milagre, o senhor Miguel Joaquim de Luna Freire, coadjuvado por outros senhores não menos respeitados, trataram da reestruturação da capela em fevereiro de 1846, futura Matriz de Agrestina, vinda de 1818. O atual município de Agrestina, criado por Lei Estadual 1931, de 11 de setembro de 1928, tinha, como distrito integrante do território, o município de Altinho, a denominação de Bebedouro. Sua instalação ocorreu em 1 de janeiro de 1929. O distrito foi criado por Lei provincial 1829, de 28 de junho de 1884, e por Lei Municipal 35, de agosto de 1900. A sua elevação à categoria de vila ocorreu em 1 de julho de 1909. A denominação de Agrestina foi imposta pelo Decreto-Lei Estadual 952, de 31 de dezembro de 1943. Anualmente, no dia 11 de setembro, o município comemora sua emancipação política. Administrativamente é formado pelos distritos: sede, Barra do Chata e Barra do Jardim, e pelos povoados de Pé de Serra dos Mendes e Araçatuba. Extraído do livro Enciclopédia dos Municipios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

VARIEDADES DE VALERY - [...] É preciso tomar cuidado com os primeiros contatos de um problema com nosso espírito. É preciso tomar cuidado com as primeiras palavras que pronunciam uma questão em nosso espírito. Uma questão nova está, primeiramente, no estado da infância em nós; ela balbucia: só encontra termos estranhos, totalmente carregados com valores e associações acidentais; é obrigada a tomá-los emprestados [...] É a minha própria vida que se espanta, é ela que deve me fornecer, se puder, minhas respostas, pois é somente nas reações de nossa vida que pode residir toda força e como que a necessidade de nossa vontade. [...] O poeta é, a meu ver, um homem que, a partir de um incidente, sofre uma transformação oculta. Ele se afasta de seu estado normal de disponibilidade geral e vejo construir-se nele um agente, um sistema vivo, construtor de versos. [...]. Trechos extraídos da obra Variedades (Iluminuras, 1999), do filósofo e poeta do Simbolismo francês, Paul Valéry (1871-1945). Veja mais aqui e aqui.

VOZES-MULHERES - A voz de minha bisavó ecoou / criança / nos porões do navio./ Ecoou lamentos / De uma infância perdida. / A voz de minha avó / ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. / A voz de minha mãe / ecoou baixinho revolta / No fundo das cozinhas alheias / debaixo das trouxas / roupagens sujas dos brancos / pelo caminho empoeirado / rumo à favela. / A minha voz ainda / ecoa versos perplexos / com rimas de sangue / e fome. / A voz de minha filha / recorre todas as nossas vozes / recolhe em si / as vozes mudas caladas / engasgadas nas gargantas. / A voz de minha filha / recolhe em si / a fala e o ato. / O ontem - o hoje - o agora. / Na voz de minha filha / se fará ouvir a ressonância / o eco da vida-liberdade. Poema extraído dos Cadernos negros (Vol. 13, 1990), da escritora Conceição Evaristo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico Romero de Figueiredo na Exposição do Projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

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RESISTÊNCIA DOS VERSOS DE ZÉ RIPE
Participando do lançamento do livro A resistência dos versos, do poeta, compositor e cantor Zé Ripe. Veja mais aqui.

sexta-feira, agosto 12, 2016

POUND, KNOPFLI, TANITA TIKARAM, ABRAMOVAY, KELLERMAN, GERASIMOV & LUCIAH

RECOMEÇAR DO QUE VAI E VEM (Imagem: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez)- E não fizera a vida mais que migrante das horas no trâmite entre a vigília e a modorra, para quem aprendeu das quedas o andar e fez do caminho a solidão e solitário o silêncio, nem tão noite, nem tão dia assim, entre as lâminas suspensas do tempo, as armadilhas desarmadas do espaço, por entressonhos que vêm e vão carregados no vaivém de nuvens que nunca passarão enquanto a noite sucumbir ao dia e vencer a tarde para madrugar a vida a vau ao léu. E no limite de nenhum onde, o fim da linha entre coações hostis e suplícios tantalizados, a luz dela qual estrela radiante, faz-se o império da prometida que veio no vento, concebida pela derradeira paixão: o amor que queima na garganta na sede ferve o sangue rubro pra se ver invadido por sua rumorosa maré. Olhos ao flagra, magia do amor a nos impelir um ao outro e eu não tendo mais ao que ganhar ou perder. Fui levado pelas ondas que invadiram minhas entranhas e preencheram meus vazios, como se ela transbordasse de si a me tomar em seus braços inquietos pelos flancos para afogar os meus desertos e represar meus desaguares com a sua quentura de terra venturosa. E do seu ser o vigor da minha vitalidade. E do seu olhar a infinitude do horizonte. E da sua entrega o universo em expansão. E do seu ventre luminescente as águas de todos os rios e mares lavando a culpa do destino e a purificação geral. E a rosa do seu sexo desabrochou à minha boca na nascente das suas manhãs ensolaradas a me embriagar com o elixir de suas entranhas pra saber-me vivo no seu eriçado orgasmo impetuoso em brasa vermelha com todas as formas de alvoroço explodindo aos estouros os gritos da pólvora dos prazeres a transpirar vida e a me derramar mãos agitadas na carne movediça e sou todo braços de arca urrante no dilúvio com toda verve de quem se fez azul na sua paz anil e a minha voz nas veias a poetar que depois de todas as horas do dia é hora de recomeçar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

Curtindo o álbum Closer to the people (earMusic, 2016), da cantora e compositora Tanita Tikaram.

PESQUISA:
Quando o assunto é educação e juventude, muitas são as carências que ainda se registram em termos de equidade e qualidade, ou seja, é essa combinação explosiva que, por um lado, permite aos jovens tomar consciência das oportunidades e possibilidades existentes na sociedade, mas, por outro, muitas vezes não lhes dá condições para aproveitá-las. O resultado passa a ser uma grande frustração, que desanima os jovens e os empurra ao abandono e à deserção escolar, especialmente aqueles provenientes dos estratos pobres e excluídos [...] A juventude sempre foi vista como uma breve transição para a idade adulta. A ordem era trabalhar cedo, casar logo e constituir família. Os anos 60 romperam com este padrão. Rebeldes, os jovens daquela década lutaram por várias causas, como liberdade política, sexual e igualdade entre os sexos, e criaram um ideal de juventude até hoje cultuado. Vinte anos depois, o espírito de rebeldia mantinha-se vivo, mas as causas eram mais difusas. Hoje, a ditadura é uma lembrança e o conflito de gerações quase desapareceu.
Trecho do texto As trajetórias das juventudes brasileiras (Correio Brasiliense, 2008), da professora e coordenadora da FLACSO, Miriam Abramovay - Juventudes e sexualidade (2004).

LEITURA
Não te arrependas de nada. / Um verso está sempre certo / mesmo quando errado. A verdade / também, mesmo quando dói / ou fere ou parece inoportuna. / A verdade nunca é inoportuna, / o teu inconformismo é o preço / da nossa libertação e teus versos / florescem no coração do povo. / Não. Não te arrependas de nada. / Não torças o verso, não obrigues  a palavra: um poeta está / sempre certo. não permitas que o óxido / dos políticos entre na lâmina / dos teus versos. Um poeta não se vende, / não se compra, não se emenda. / A um poeta corta-se-lhe / a cabeça.; e uma cabeça / cortada não dói, mas tem / uma importância danada.
Carta ao poeta Eugênio Evtushenko a poposito de uma suposta autocrítica, poema extraído da obra Mangas verdes com sal (Minerva, 1969), do poeta, jornalista e critico literário moçambicano Rui Knopfli (1932-1997).

PENSAMENTO DO DIA: A ARTE DE POUND
[...] as artes nos forneces os melhores dados de que dispomos para determinar que tipo de criatura é o homem. Como nossa maneira de tratar o homem deve ser determinada pelo conhecimento ou concepção que dele tenhamos, as artes fornecem dados para a ética. Esses dados são válidos, ao passo que os dos psicólogos generalizadores e os dos teóricos sociais habitualmente não o são, porque o artista sério é cientifico enquanto oteórico é em geral empírico, à maneira medieval. [...] o artista sério é cientifico na medida em que apresente a imagem do seu desejo, de seu ódio ou de sua indiferença precisamente como tal; precisamente como a imagem de seu próprio desejo, ódio ou indiferença. Quanto mais preciso o registro que faz, tanto mais duradoura e inatacável sua obra de arte. [...] Todo artitsta que deseje particularmente a sua admiração, leitor é, por isso mesmo, menos artista. [...] O artista sério pode gostar de se ver num palco; pode ser, independente de sua arte, o imbecil que você quiser, mas as duas coisas não estão ligadas ou, pelo menos, não são concêntricas. [...] O artista sério se encontra habitualmente, ou com freqüência, tão distante do aegrum vulgus quanto o cientista sério. [...] Só a arte, não ciência alguma, é que nos fornecerá os dados capazes de nos ensinar de que maneiras os homens diferem.
Trecho extraído da obra A arte da poesia: ensaios de Ezra Pound (Cultrix, 1976), do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA: 
A arte da nadadora, escritora, atriz de vaudeville e cinema australiana Annette Kellerman (1886-1975).

Veja mais sobre Para viver o personagem de homem, Fritz Perls, Helena Blavatsky, Miguel Torga, Pat Metheny, Jacob Levy Moreno, Andrés Wood, Howard Hodgkin, Luiza Mara Silva Lima & Stock aqui.

DESTAQUE
A boca que eu beijo possui meu corpo / numa chama labareda / que restitui a cor na minha pele / e escava e expõe a mulher que há em mim... / Me rasga sem transgredir, cicatriza beijos / num sobe e desce que me aquece / enquanto desenha paisagens sem fim / e escreve poemas de amor / integrando-se em mim quando anoitece em meus braços... / Essa boca que eu beijo não me abandona / mas alucina enquanto passeia em minhas planícies / protelando a insônia e bebendo do meu prazer... / Me precisa e me quer, me deseja / silenciosamente íntima me despe de meus medos / e me possui em levas de gozo e amor... / Essa boca que eu beijo é tão minha / e tão amiga, tão sublime e tão voraz. / É meu ar, minha água, minha essência, / é meu começo e meu fim...
A boca que eu beijo, poema/imagens: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor russo Aleksandr Gerasimov (1881-1963).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



quinta-feira, maio 19, 2016

EZRA POUND, CARLOS NEJAR, LÉGER, MARKU RIBAS, WACLAW WANTUCH, LUCIAH LOPEZ, NEUROCIÊNCIAS & FLORES DE MAIO


AS FLORES MAIO – Ainda ontem eu era um menino que fabricava sonhos no quintal. O amigo invisível não era um só, muitos. E se escondiam nos pés de plantas, nos galhos das árvores, ou saíam das figuras do gibi para meus temores inexplicáveis além do lodaçal do quase muro destroçado no charco intransponível. Afora o medo do coração de Jesus aceso no alto da sala de estar, pra me esconder no cós da saia da mãe de não mais largar. Bastava uma brecha na porta e eu me esgueirava portão afora pro mundo das lêmures do Una, por onde uma gente de olhos sem honra se apinhava molestando incautos que falavam alto, às gargalhadas, a fazer do nariz seu umbigo e a se meter onde bem entendesse, levantando uma lebre do passado irrevogável de todos. Não havia graça nenhuma nas suas risadagens, eu só me assustava ao sabê-los familiares tão íntimos entre si e que só sabiam espernear ou ofender, não sabendo seu lugar, seu papel, nem de si, nem de ninguém. Supunham de coisas de antanho jamais devassáveis, enquanto eu me via comprazido sobrevivente do alçapão dos imprevistos, do encarceramento das calamidades para só entreter e me perder do caminho, enquanto bajulavam dos outros a atração do ouro, dos diamantes, das pepitas que vidravam e mexiam com o juízo no egoísmo dos desafetos. Os ódios iam e vinham e eu não sabia distinguir de bem ou de mal, passavam como diziam das boas intenções que sobrecarregavam o inferno, acaso existisse um inferno que não fosse esse aqui. Isso tudo é bobagem, viver é outra coisa. A infância não se acaba, mesmo que a gente envelheça. Mesmo que a gente se gaste, passe do ponto, permanece menino de não se perder. Menino-grande, menino passarinho. Um menino crescido feito e teimei em crescer enquanto todos ao meu redor teimavam em ficar rico e nada mais valesse a pena para tanto desvalor. Ledo engano, não há valia pra ardilosa vaidade dum trono de poder carregado de falsidade ideológica, formação de quadrilha, fraude, peculato, farsas de ontem e de sempre. Enquanto eu ia, os dias vinham e passavam, e os pensamentos me seguiam e me seguem a contar dos ventos da ventania, as correntes dos rios, as ondas do mar. Alheio a tudo e todos, pelejei demais, demasiadamente, no varejo e no atacado. E percebi o aroma do hálito de todas as coisas na vitalidade da noite imensa atravessando as estrelas. Aprendi que só se está completo despido e se não tenho outra sabença, não haveria de ter. Basta o que sou e sei. Não preciso saber nada. O que fui já não sou e nada será. Amanhã é nunca e só se vive o hoje, nada mais. O que me serve agora é ser menino e ter Iaravi menina-cunhã no giro do céu que se insinua chegar perto, bem perto com sua infantil maneira de ser, mordiscando um dos lábios, piscando um dos olhos e me ssorindo como quem ama com urgência e não pode deixar pra amanhã. Ou quando ela no crepúsculo se torna Freya ousada mais que deusa fêmea poderosa, a me ensinar dos segredos ocultos nas sombras de todas as noites. E assim incandesce na nossa meninice a me chega com as palavras no papel que crepitam como a lenha na lareira e se fazem vagalumes que voam com os meus quentes beijos de chocolate pra invadir pela cortina entreaberta da janela de sua solidão na réstia de céu e palidez da lua de outono pra deixar tudo diferente na minha, na sua e na vida que povoa a noite de todos os nossos sonhos e desejos. É na entrega de sua verve de poeta prodigiosa com suas mãos de fogo que me faz pro seu gole na lembrança que sou de noz moscada, para que seu riso seja largo e com um profundo suspiro, a dar de ombros, pronta pro meu abraço na fria noite de maio que logo amanhecerá com seu sorriso de Sol pra alegria de todas as flores que irradiam no jardim do meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Imagem: Three Women (Le Grand déjeuner, 1921 - Oil on canvas), do pintor, desenhista e litógrafo cubista francês Fernand Léger (1881-1955).
Curtindo o álbum 4 Loas (Tratore, 2010), do cantor, compositor e percussionista Marku Ribas (1947-2013).

PESQUISA
Neurociências ilustrada (Artmed, 2013), de Claudia Krebs, Joanne Weinberg e Elizabeth Akesson, tratando desde o Sistema Nervoso à Neufisiologia básica. Veja mais aqui.

LEITURA 
Os cantos (Nova Fronteira, 1986), do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] O que é mágico existe sozinho. Solta-se a palavra e ela se inventa. Nada pode embaciá-la. É como se enfia a cara na lua. Ou na luz. E a luz é tão inocente como o lugar onde troveja. Por ser mágico e inóspito. Inventa-se o que não se conhece. E o que se inventa não carece nem de nome, mas de verdade. [...] A imaginação não tem meio-termo. Imaginar não é para enlouquecer, é ver melhor. [...] O que inventa está voltando ao sopro da semente; depois ao barulho que as coisas têm quando estão em flor. O ruído de Deus. [...] Acende uma palavra e a alma se queima. [...]
Trecho extraído da obra O poço dos milagres (Bertrand Brasil, 2005), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar.

IMAGEM DO DIA 
Imagem: Lua, arte da poeta e artista visual Luciah Lopez. Veja mais aqui.

Veja mais outros assuntos sobre Albert Einstein, Johann Gottlieb Fichte, Mário Sá-Carneiro, Jean- Paul Sartre, Cacá Diegues, Jacob Jordaens & B. B. King aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Mulher nua, do fotógrafo polaco Waclaw Wantuch.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...