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quinta-feira, julho 26, 2018

JUNG, HUXLEY, ANTONIO MACHADO, SHAW, LAURINDO ALMEIDA, GIBRAN & CARMEN TYRREL


A VOLTA DE ZÉ PEIÚDO – Imagem: a arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel. - Quase vinte anos depois, Zé Peiúdo botava os pés de volta nas terras de Alagoinhanduba. Ninguém o reconheceu a pisada, era quase outro, irreconhecível, embecado de gola e colarinho, uma garrafa metálica num bolso e O catecismo de Mister T – aquele da temperança do Big Shit Bôbras, no outro. A primeira providência: ter com o Zé-Corninho, a sua maior vítima. Ao encontrá-lo, travou conversa amistosa. Lá pras tantas: Sabe com quem tá falando, Zé? Desculpa, mas nunca vi mais gordo. Eu lhe conheço, cabra, sou Zé Peiúdo. Oxe, Corninho deu um salto solto e caiu em pé, as munhecas em riste, arregaçando a manga da camisa, pronto pra briga. Calma, meu amigo, não sou mais aquele, agora sou um Pastor de Jesus e vou provar. E deitou a maior lábia, tomou um gole da garrafa e Corninho só com o pé atrás. Daí a pouco o forasteiro deu um espirro e o milagre aconteceu: a casa do desconfiado era de taipa e tornou-se uma chique de alvenaria, a mais luxuosa do arruado. Vixe! Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! Corninho com os olhos esbugalhados não acreditava no que via. Foi até a porta e ficou maravilhado: tudo novo e do melhor. Voltou-se e ficou agarrado ao agora benfeitor na maior das gratidões. Foi abraçado de quase não largar. Peiúdo depois de muxoxos e risadinhas, às despedidas, acenou, pois, tinha que continuar a sua missão. Ao arrodear a cidade, deu com um cidadão quebrando cabeça para mudar o pneu furado do carro. Permita. Enquanto o impaciente dificultoso atendia ao telefone aos esturros, ele ingeriu o líquido da garrafa e, num piscar de olhos, tudo resolvido. Ao desligar o aparelho, espantou-se com a providência: Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O satisfeito abraçou o estranho dizendo: Sabe com quem você está falando? Peiúdo disse apenas ser Servo de Jesus, enquanto o agraciado colocava um cartão no seu bolso, sob a recomendação de só vê-lo quando saísse. Assim fez. Já distante do local, pegou no bolso e viu: Juiz de Direito. 2x0. Mantendo sua caminhada a esmo, soube que a moenda da usina dera bronca. Foi lá, pediu que todos se afastassem e secretamente resolveu o impasse: Pronto, está tudo funcionando. O dono apareceu: Como fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O usineiro arrogante perguntou quanto custava o seu serviço, negando cobrar qualquer quantia. Logo fez amizade com o ricaço. 3x0. Aí ouviu de um passante que o teto da igreja desmoronava. Foi lá, começou a remexer nas coisas e, num instante, tudo em perfeita ordem. O padre Quiba ao presenciar aquilo, saiu gritando: Milagre! Milagre! O pároco virou-se para ele: Como fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! 4x0. Dali viu uma correria do povo, acompanhou o pandemônio e era a ponte que ameaçava cair. Foi pra baixo dela, escondeu-se e, num instante, estava em perfeitas condições. O povo aplaudiu sua façanha. Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! E foi obrando milagres e caridades que ele ganhou a amizade do prefeito, do delegado, do juiz, do padre, do catimbozeiro, do espírita, dos clubes de serviço e de toda população. Era o roliúde. Quem é ele? Indagavam para lá e para cá, aos elogios. Só pode ser um enviado! É um santo vestido de gente! Um anjo que caiu do céu. Ao cabo de dias, o mistério se revelava: Ah, é o Zé Peiúdo! Não pode, aquele salafrário? Não, agora é pastor duma igreja aí. Vixe! O homem agora é de vera. E passou de primavera a verão, de outono a inverno, botada e pejada na usina canavieira, e ao se aproximarem as eleições, seu nome foi cogitado, definindo-se como o favorito naquele pleito. Não tinha pra mais ninguém. Então, diante dos festejos com a sua candidatura, falou para todos que tinha uma conta para ajustar. Num comício ruidoso e discurso inflamado, lançou a candidatura de Zé-Corninho a prefeito do lugar. De novo? É reprise? E que ele, no máximo, poderia aceitar a ser vice. Ah, tá. Oxe, foi barbada, mais tivesse! Só teve um voto nulo: o do próprio Corninho que não acertou votar nele mesmo, de novo! Virou festa. Seis meses depois de assumir a prefeitura, a Câmara de Vereadores cassava espetacularmente Corninho num processo que ninguém nunca viu tramitar, para entregar o cargo ao Peiúdo, logo entronizado como Imperador, a mandar e desmandar, acoloiado com seus aliados. Pintou e bordou por três anos e meio, podre de rico, bufando e peidando. Como nem tudo dura pela vida toda, a garrafa metálica trincou e pegou fogo no bolso, queimando o catecismo, as calças e quase os seus guardados. Foi um alvoroço. Não demorou muito, ao anúncio das novas eleições, ele reeleito certo, a sorte dava uma virada e ele sabia ter chegado a hora. Sumiu de ninguém ver-lhe o rastro, assim sem mais nem menos, e da prefeitura só se ouvia sobre os salários atrasados, endividamento, afanação de saldos públicos e todo tipo de roubalheira, a ponto de instaurar uma intervenção barulhenta de findar todo mundo suspeito e envolvido na patifaria. Como é? Maior pega-pra-capar! E agora, gente? Golpe desse, ah, todo mundo paga o pato. Alagoinhanduba nunca mais foi a mesma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Laurindo Almeida (1916-1995): Music of Brazilian Master, Master Jazz, Classical Current & Leverkusener Jazztage & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Sem uma compreensão do desejo profundo que têm os seres humanos de se autotranscenderem, da relutância natural que experimentam em tomar o caminho duro e difícil da ascensão espiritual, e da consequente procura doe uma falsa libertação, ou em torno de um aspecto de sua personalidade, não poderemos entender a época em que vivemos ou mesmo a História em geral, a vida como foi vivida no passado e como o é em nossos dias. Por esta razão, proponho discutirmos alguns dos mais comuns sucedâneos da Graça, nos quais e através dos quais homens e mulheres têm tentado escapar da torturante consciência de serem apenas eles mesmos. [...]. Trecho de Transcendência Descendente (1952), extraído da obra Moksha (Globo, 1993), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), título este que que em sânscrito significa “liberação”, reunindo uma coletânea de ensaios sobre experiências visionárias e com etheogenos como uma ferramenta de exploração mental e espiritual e meios de expandir os níveis de consciência. Veja mais aqui.

CONSCIÊNCIA & INCONSCIENTE – [...] O homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja transmitir. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes, faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos. [...] O homem, como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. [...] O homem desenvolveu vagarosa e laboriosamente a sua consciência, num processo que levou um tempo infindável, até alcançar o estado civilizado (arbitrariamente datado de quando se inventou a escrita, mais ou menos no ano 4000 A.C.). E esta evolução está longe da conclusão, pois grandes áreas da mente humana ainda estão mergulhadas em trevas. O que chamamos psique não pode, de modo algum, ser identificado com a nossa consciência e o seu conteúdo. [...] A consciência resiste, natural mente, a tudo que é inconsciente e desconhecido. [...] Ante acontecimentos desagradáveis, os primitivos têm as mesmas reações do animal selvagem. Mas o homem "civilizado" reage a idéias novas da mesma maneira, erguendo barreiras psicológicas que o protegem do choque trazido pela inovação. [...]. Trechos de Chegando ao inconsciente, extraído da obra O Homem e seus símbolos (Nova Fronteira, 2008), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Veja mais aqui.

A VIOLETA AMBICIOSA – [...] A violeta abriu os lábios azuis e disse: “Como eu sou infeliz em meio a estas flores e como é humilde a posição que ocupo diante delas! Fez-me a natureza para ser curta e pobre... Eu vivo muito próxima da terra e não posso erguer minha cabeça até o céu azul ou voltar minha face ao sol como as rosas fazem!”... E a rosa ouviu as palavras de sua vizinha; ela riu e comentou: “Como é estranha a tua fala! Tu és feliz, embora não possa compreender tua fortuna. A natureza doutou-te de fragrância e beleza, o que não fez com nenhuma outra flor... Aparta de ti estes pensamentos, sô contente e lembra-te de que aquele que se humilha será exaltado e aquele que se exalta será esmagado”. [...] À tarde, o sol tornou-se espesso de nuvens negras; os elementos raivosos perturbaram o silêncio da existência com raios, e começaram a atacar o jardim, enviando à terra enorme chuva com fortes ventos. A tempestade lacerou os ramos e desenraizou as árvores e quebrou as hastes das flores altas, poupando apenas as pequeninas que cresciam bem junto ao coração da terra. [...]. Trecho do conto A violeta ambiciosa (Cultrix, 1967), do poeta, filósofo e pintor libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931).

RETRATOMinha infância: memórias de um pátio de Sevilha, / e de um horto claro onde madura o limoeiro; / juventude, vinte anos em terras de Castilha; / a minha história quero esquecer por inteiro. / Mañara, nem Bradomín hei sido / — já conheceis meu torpe alinho indumentário — / mas recebi a flecha que me apontou Cupido, / e amei quanto elas possam ter de hospitalário. / Tenho nas veias gotas de estirpe jacobina, / mas o meu verso brota de manancial sereno; / e, mais que o homem usual que sabe sua doutrina, / eu sou um homem bom, um homem sem veneno. / Adoro a formosura, e na moderna estética / cortei as velhas rosas do jardim de Ronsard; / mas não amo os enfeites da moderna cosmética, / nem sou uma ave dessas do novo gay-trinar. / Eu desdenho as romanças desses tenores pecos / e dos grilos o coro a cantar ao luar. / Procuro distinguir entre as vozes e os ecos, / e entre as vozes só escuto a que prefiro amar. / Sou clássico ou romântico? Não sei. Deixar quisera / meu verso como deixa o capitão sua espada; / famosa pela mão viril que ao alto a erguera, / não pelo douto ofício do forjador prezada. / Dialogo com o homem que sempre vai comigo / — quem fala a sós, espera falar a Deus um dia —/ meu solilóquio é prática com este bom amigo / que ensinou-me o segredo de sua filantropia. / Enfim, nada vos devo; deveis-me o que hei escrito. / A meu trabalho acudo, com meu dinheiro pago / a roupa que me cobre e a mansão que habito, / o pão que me alimenta e o leito onde me apago. / E quando chegue o dia da última viagem, / e esteja de partida a nau sem retornar, / me encontrareis a bordo ligeiro de equipagem, / quase desnudo, nu como os filhos do mar. Poema do poeta e dramaturgo espanhol Antonio Machado (1875-1939). Veja mais aqui.

PIGMALIÃO DE SHAW
[...] Liza: (Chorando.) Eu num quero. Num posso. Num é da natureza; vai mi mata. Num tumei um banho in toda minha vida; issu é, nunca tumei um banhu, di corpo intero. [...] Sra. Pearce: Bom, agora chega de chorar, vai pro teu quarto e tira a roupa. Toda! Embrulhe-se nisto (pega uma camisola de um cabide e dá a ela) e volte aqui. Vou aprontar o banho. [...] Liza: (Espantada.) Nãão! Pruquê ia tira? Pra pega tísica? A saia sim, tá bom, a saia eu tiro. Sra. Pearce: Quer dizer que você dorme com a mesma roupa suja com que anda na rua o dia inteiro? [...] Liza: Mas a sinhora nim sabi o friu qüi eu sinto – tenho hourror du friu. Já vi muita genti mourrê di friu. Sra. Pearce: A sua cama aqui vai estar bem quentinha – vou pôr um bom saco de água quente nas cobertas. [...] Liza: (Zangada) Você vai se prender, se amarrar dessa maneira com uma mulher baixa e vulgar? Pickering: (Calmo) Ele é obrigado, Eliza. (Pra Doolittle) Mas não era ela que não queria? Mudou de idéia? Doolittle: (Triste) Invergronhada, partrão. Invergronhada. A moural da crasse mérdia percisa di vítimas. Não quéu chapéu e vi ansisti meu sarcrifício, Liza? [...].
Trechos da peça teatral Pigmaleão (L&PM, 2005), do dramaturgo, escritor e jornalista irlandês Bernard Shaw (1856-1950). Veja mais aqui.

Hermilo em Palmares e Arquivo Público & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel
Veja mais aqui, aqui e aqui
&
As sacanagens de Zé Peiúdo aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
&
Os avós só botam a perder, Os arquétipos & o inconsciente de Carl Gustav Jung, Contraponto de Aldous Huxley, A arte de Jenny Saville & Marie Johnson Harrison, a música de Moacir Santos, Érica Garcia, Jacob de Haan & Mawaca aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


sexta-feira, fevereiro 16, 2018

POE, RILKE, STANISLAW, MARIANA ALCOFORADO, LAURINDO ALMEIDA, JULIA FISCHER, CLÓVIS DE BARROS, ALBERT MAIGNAN & LINDA KUNZ

O POETA & A MUSA - Imagem: Green Muse (1895), do pintor e ilustrador francês Albert Maignan (1845-1908). - Edgardilton Pigmaleão sonhou com uma bela mulher, enfeitiçado completamente por ela, apaixonou-se. Essa intensa paixão o fez poetar, assim do nada, aprendeu sem se ensinar. E a poesia tomou conta da sua vida, evocativa, versos ardentes e rimas líricas com juras impetuosas de amor. Pelas ruas, vales, rios, a recitar suas trovas para as moças belas, elas faziam pouco, até caçoavam dele. Onde aquela bela mulher dos seus sonhos se recolhia, em que paraíso o seu paradeiro, ele não sabia e cada poesia o seu apelo ardoroso até as raias do desespero. Vivia só de poetar e mais nada. Assim, um dia poetou e dormiu, sonhou e a musa nua a chamá-lo: Vem! Um beijo e a vida eterna nos lábios dela. Nunca mais acordou. Enterrado qual insano embaixo da maior chacota, nenhum parente, nem conhecidos, apenas a própria loucura quixotesca. A sua casa invadida, poemas e rabiscos ilustrados nas paredes, recantos, prateleiras, mesas, por tudo quanto era canto apenas as suas garatujas, um baú cheio deles, findaram abandonados em monturo no lixão. Uma ventania e um deles levitou até pousar janela da formosa Denildita Galateia, a bela sonhadora com seus olhas entre as entrelas à espera de seu príncipe encantado. Apaixounou-se à primeira lida. E a partir daquele dia todas as tardes vinham poemas aos ventos. Quem esse poeta que o destino lhe reservara? Ficava sempre a postos esperando pela brisa vespertina com suas estrofes enamoradas, perseguindo a aragem até chegar ao baú no lixão. Tornou-se o seu tesouro, um a um, todos belíssimos, feitos para ela. Apaixonada, saiu à procura do seu poeta, aquele que se tornou o dono do seu coração. Onde aquele que cativara sua alma, em que rincão se encontrava, não sabia, apenas amava sem saber. Como não lograra êxito, resolveu reuni-los em um enorme volume e os fez publicar sob o título de Poemas do Poeta Anônimo. Talvez assim seu autor desse sinal de vida. Assim fez e esperou. E toda tarde esperava, nem sinal dele, apenas o canto mavioso de uma ave canora a cada dia mais se aproximando da sua janela. Uma ave que nem distinguia, apenas o seu canto. Meninos apareceram armados de petecas, arapucas, pedras e armas. Estirou a mão e o passarinho pousou para se proteger das atiradeiras e astúcias. Fez-lhe um poleiro e o dia inteiro privava maravilhada daquele canto amoroso que tocava fundo em sua alma. Aquele canto parecia música dos versos que a cativara, por isso lia e relia os poemas do anônimo poeta amado. E assim adormecia. Até que um dia sonhou que o seu passarinho se transformava em galante poeta a se dizer vítima de feitiços e ao beijá-la estaria salvo da maldição. E daquele beijo ela ganhou a eternidade e nunca mais acordou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o violonista e compositor Laurindo Almeida (1916-1995): Music Of Brazilian Masters, Cajita de Musica & Classical Current; a violinista e pianista alemã Julia Fischer: The Four Seasons Vivaldi, Violin Concert in D major Tchaikovski & Violin Concert Beethoven; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se a existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Pensamento do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926). Veja mais aqui.

A MORAL DO DESINTERESSE - [...] Mesmo sabendo que não somos a mesma pessoa no passar dos dias, das semanas e dos anos, e admitindo que muitas vezes mudamos de opinião e nos arrependemos, continuamos a defender uma identidade que, no passado de um sujeito que não mais existe, se presentifica em um outro sobre a denominação ilusória de “Eu”. Identidade que resgata um passado já vivido, destruído e reconstruído. Conclui-se: sou ente porque me sinto responsável pelo que fiz. E só posso ser responsável porque acreditamos que continuo sendo quem sou. A ilusão tem de ser compartilhada. Por isso, o discurso moral é um discurso identitário de pertencimento. Pertencimento a um grupo de agentes morais. A um universo de pessoas que, por sua vez, se singularizam em face de outros universos. Para ir além nessa reflexão, devemos aprofundar essa relação entre moral e identidade. É o que segue. [...] O discurso do desinteresse, da moral higienizada de desejos, é uma perversão. Os homens, como ensinavam Epicuro, Hobbes e Espinosa, são movidos por conatus. Por desejos e emoções imperativas alheias à razão. Tudo o que fazemos é interessado. Nem o mais louco, ou o mais sábio, escapa. Temos interesse sim. A todo momento. A todo instante. Só não vê quem não quer. Como a garota que reclama do ex-amigo que foi seu ombro amigo por meses, escutou barbaridades do antigo namorado, ficou horas no telefone apoiando na triste separação, e depois de seis meses a beijou no cinema. Dizer que amigos não devem desejar ou ter interesses é uma atitude mais condenável do que se aproveitar de um laço de amizade para tocar a boca amada. Minha experiência mostra que toda pessoa ou empresa que comunica uma posição de desinteresse esconde atitudes reprováveis. Tem culpa em cartório. E muita. Nada mais justo, ao nos definirmos em um dado momento, comunicar nossos interesses. Se desejamos a confiança de alguém, precisamos deixar claro exatamente aquilo que queremos dele. Partir do pressuposto de que, quando duas pessoas estão juntas, se relacionando, ambas são plenamente interessadas no outro. Para além da simbologia ascética, da camaradagem e do discurso do desinteresse. Trechos extraídos de A moral do desinteresse (Pensar Contemporaneo, 2018), do professor e jornalista Clóvis de Barros Filho.

VAMOS ACABAR COM ESSA FOLGAO negócio aconteceu num café. Tinha uma porção de sujeitos, sentados nesse café, tomando umas e outras. Havia brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, o diabo. De repente, um alemão forte pra cachorro levantou e gritou que não via homem pra ele ali dentro. Houve a surpresa inicial, motivada pela provocação e logo um turco, tão forte como o alemão, levantou-se de lá e perguntou: — Isso é comigo? — Pode ser com você também — respondeu o alemão. Aí então o turco avançou para o alemão e levou uma traulitada tão segura que caiu no chão. Vai daí o alemão repetiu que não havia homem ali dentro pra ele. Queimou-se então um português que era maior ainda do que o turco. Queimou-se e não conversou. Partiu para cima do alemão e não teve outra sorte. Levou um murro debaixo dos queixos e caiu sem sentidos. O alemão limpou as mãos, deu mais um gole no chope e fez ver aos presentes que o que dizia era certo. Não havia homem para ele ali naquele café. Levantou-se então um inglês troncudo pra cachorro e também entrou bem. E depois do inglês foi a vez de um francês, depois de um norueguês etc. etc. Até que, lá do canto do café levantou-se um brasileiro magrinho, cheio de picardia para perguntar, como os outros: — Isso é comigo? O alemão voltou a dizer que podia ser. Então o brasileiro deu um sorriso cheio de bossa e veio vindo gingando assim pro lado do alemão. Parou perto, balançou o corpo e... pimba! O alemão deu-lhe uma porrada na cabeça com tanta força que quase desmonta o brasileiro. Como, minha senhora? Qual é o fim da história? Pois a história termina aí, madame. Termina aí que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros. Extraído da obra Dois amigos e um chato (Moderna, 1986), de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo usado pelo cronista, radialista e compositor Sérgio Porto (1923-1968). Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS1 - Em tua festa de núpcias eu te vi, / ardendo de rubor. / E havia só venturas junto a ti; / e era, a teus pés, o mundo, todo amor. / E em teu olhar, a luz incandescente / (ah, qualquer que ela fosse) / era o que, para o meu olhar dolente, / existia na terra de mais doce. 2 – O riacho em prata em borborinho, / nos espinhais gorjeando o passarinho, / recordam-me de ti; / pensamento de amor vão sussurrando, / como tu, sob os astros do céu, quando / testemunharam juras que te ouvi. / O zéfiro suave que vagueia / e em meus suspiros de pesar se enleia / lembra o instante abençoado, / em que o néctar dos lábios teus me trouxe / fragrância tão balsâmica e tão doce / dando o primeiro beijo apaixonado. 3 – Vi-te uma vez, só uma, há vários anos. / Já não sei dizer quantos, mas não muitos. / Era em junho; passava a meia noite / e a lua, em ascensão, como tua alma, / nos céus abria um rápido caminho. / O luar caía, um véu de seda e prata, / calma, tépida, embaladoramente, / em cheio sobre as faces de mil rosas, / que floresciam num jardim de fadas, / onde até o vento andava de mansinho. / Caía o luar nas faces dessas rosas, / que morriam, sorrindo, no jardim / pela tua presença enfeitiçado. / Toda de branco, vi-te reclinada / sobre violetas; e o luar caía / sobre a face das rosas sobre a tua, / voltada para os céus, ai! De tristeza. Poemas do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1840). Veja mais aqui.

CARTAS DE AMOR DA SÓROR MARIANA ALCOFORADO
[...] Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa. Há de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!, os meus estão privados da única luz que os alumiava, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo. Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem sinais da minha má sorte, que cruelmente não me consente qualquer engano e me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo, a pensar tão mal de ti e estou por demais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste. Não sou já bem desgraçada sem o tormento de falsas suspeitas? E porque hei de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados, que bem ingrata seria se não te quisesse com desvario igual ao que me levava a minha paixão, quando me davas provas da tua. Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ver a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência. Depois deste acidente tenho padecido muito, mas como poderei deixar de sofrer enquanto não te vir? Suporto contudo o meu mal sem me queixar, porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me dizias que eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada. Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Ai!, porque não queres passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir te, e amar-te em toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal esperança por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha dor me devo entregar. Porém, quando meu irmão me permitiu que te escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que suspendeu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas porque teimaste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que terminavas por me abandonar? Porque te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi? Mas perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez o mais temível dos males, embora não possa afastar o meu coração do teu; o amor, bem mais forte, uniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me.Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda. [...]
Trecho da primeira das cartas publicadas na obra Cartas de amor da sóror Mariana Alcoforado (Letters Portugaises, 1669 – Eiropa-América, 1974), da freira portuguesa Mariana Alcoforado (1640-1723), dedicadas ao marquês e oficial francês Noel Bouton de Chamilli, conde de Saint-Léger. Foi transformada em filme (Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne, 1977), sob a direção do cineasta, roteirista e produtor de cinema espanhol Jesús Franco (1930-2913).

Veja mais:
Na vida, como no sonho, não há lógica!, o pensamento de Winfried Nöth, a música de Algaravia, a pintura de Francis Bacon & Sea Of Hull Installation Sees Thousands Of Naked People Painted Blue aqui.
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As pernas no Cinema & o Seminário – A relação do objeto, de Jacques Lacan aqui.
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A tragédia humana de Imre Madách, a música de Pierre Rode, o cinema de Robert Joseph Flaherty, a pintura de Franz West, a arte de Vera Ellen & Anne Chevalier & Sarah Clarke aqui.
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Memória e esquecimento aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Linda Kunz.
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, outubro 30, 2017

EZRA POUND, PAUL VALÉRY, CONCEIÇÃO EVARISTO, ROMERO DE FIGUEIREDO, ZÉ RIPE & AGRESTINA


(Imagem: Xilogravura de Erik Lima - O QUE É UM PEIDO PRA QUEM ESTÁ CAGADO? - O galo cantou meia noite, nem sinal do Sol na esquina. Vixe! Mesmo assim, bola pra frente que a fila está a perder de vista. Ou vai ou racha. E já rachou faz tempo com a porta na cara e frestas espremidas. Ou pula o portão e a janela, ou o muro do quintal: paga-se o pato de qualquer jeito, independe de intenção, já viu? Tudo só anda mesmo é na contramão. Vai ver: está mesmo é em cima do telhado, pedindo socorro no meio do deserto. Quem está no mato sem cachorro, tem de ir de qualquer jeito apelando pra sorte. Qual? Oxe! Calango que se preze não vacila em pé algum, vai se arrastando, quem sabe um aceno mole, saiba: o mundo sempre está do contra. E como está! Nem olho pros lados, margem alguma. Resta ouvir tagarelices de cachorros, rinchados de cabeças de fósforos, mugidos por conselhos e coices por admoestações. Aprendeu? Nada, sigo em frente, mesmo que só chegue atrasado com a greve do relógio e nem ligo se estiver tudo pifado, no final das contas, sempre fora de moda no meio da maior sinuca bico, xeque mate. Dou meus pulos, o blefe no jogo, melé que não tenho e o coringa que pinoteou e nem seu silva de dar bola: aparecer qiue é bom, só depois de um bocado de sobrada, toque de arrodeio e findo esgotado, o cu esfolado de relar a bunda no chão. Dou a volta por cima, tudo se ajeita de uma forma ou de outra. Não adianta fechar o olho pra pontaria, alvo algum. Muito menos pagar penitência com o jelho sobre a pedrinha incômoda ou ficar com a língua de fora com o cenário que virou tudo de cabeça pra baixo, com o solado do pé numa peínha de nada, pisando no próprio calo, magoando a pereba, ih, se vira, tudo dá-se um jeito, é só sair pulando num pé só pra ver como é que se equilibra no arame farpado. Eita! A coisa está braba, mesmo! Nem fechadura pra chave que resta e nem sei onde é que ela está. Já já o dia amanhece de verdade e não adianta ficar na porta pra ver no ímpar ou par qual a melhor solução! Qualquer ideia é perda de tempo, vai na onda que é melhor e salve-se se puder. Do contrário, vai naquela de atirar no que vê pra acertar o que nem estava ali. Tudo está na linha do avesso e se der as costas a punhalada come no centro, aí babau: o que passou não volta mais, se perde o bonde agora é tarde, ou ir pelas beiras, quam sabe, um dia, encontre mais que farelos nas borda dos pratos. Assim vai a vida, de bigu e correria, no mínimo, a gente ganha experiência e só. Vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do violonista e compositor Laurindo Almeida: Musico f Brazil masters & Cajita de musica; da pianista Maria Teresa Madeira: Recital Ary Barroso & Recital; do violonista e compositor Yamandu Costa: In Concert & Ao vivo; da pianista Cristina Ortiz: Alma brasileira & Ciclo brasileiro Heitor Villa-Lobos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Eu acho que há um “fluido”, bem como um conteúdo de sólidos, que alguns poemas podem ter forma, alguns como a água derramada dentro de um vaso. Que formas mais simétricas têm certos usos. Que um grande número de assuntos não podem ser precisos, e, portanto, não adequadamente, representados em formas simétricas [...] A dança do intelecto entre as palavras, ou seja, emprega palavras não só pelo seu significado direto, mas é preciso contar de uma maneira especial com seus hábitos de uso, do contexto, do que habitualmente acompanha seus concomitantes, de suas aceitações conhecidas e de jogo irônico. Ela, a logopoeia, mantém o teor da estética que é o particular domínio da manifestação verbal, e não pode, possivelmente, ser contido na plástica ou na música. Ela é a última a chegar, e talvez, a mais complicada e pouco confiável. Pensamento do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

BEBEDOURO DE AGRESTINATerminava o ano de 1845, época em que os sertões sentiam com todo o rigo, os efeitos da tremenda crise, motivada por uma seca devastadora. Sertanejos diariamente desciam às dezenas e centenas, em demadada ao sul, atraídos pela fartura da zona canavieira. Nesse tempo, a área onde se localiza atualmente a cidade de Agrestina, não só passava de uma uma fazenda em miniatura. Meia dúzia de trabalhadores, também sertanejos, atraídps pela água que jorrava espontaneamente de um certo local do terreno, resolver dar à nascente uma feição permanente, cavando um grande posso, para o abastecimento da população e dos animais, a que deram o nome de Bebedouro. Passaram-se os anos, Bebedouro deixa de ser somente o ponto de confluência de quem necessita de se abastecer, para tornar-se um aglomerado de pessoas, dispostas a transformá-lo num povoado, numa vila e, posteriormente, cidade. Como era de se esperar acontecer, a influência da região seguiu paralelamente à realização humana. Na história deste município ela toma corpo, gerando iniciativas,. Instaladas as primeiras famílias, estas deram inicio à exploração do terreno adjacente, advindo daí a descoberta de uma imagem de Santo Antônio, talhada em madeira, deixada por algum transeunte menos avisado. O fato é que, julgando tratar-se de um autêntico milagre, o senhor Miguel Joaquim de Luna Freire, coadjuvado por outros senhores não menos respeitados, trataram da reestruturação da capela em fevereiro de 1846, futura Matriz de Agrestina, vinda de 1818. O atual município de Agrestina, criado por Lei Estadual 1931, de 11 de setembro de 1928, tinha, como distrito integrante do território, o município de Altinho, a denominação de Bebedouro. Sua instalação ocorreu em 1 de janeiro de 1929. O distrito foi criado por Lei provincial 1829, de 28 de junho de 1884, e por Lei Municipal 35, de agosto de 1900. A sua elevação à categoria de vila ocorreu em 1 de julho de 1909. A denominação de Agrestina foi imposta pelo Decreto-Lei Estadual 952, de 31 de dezembro de 1943. Anualmente, no dia 11 de setembro, o município comemora sua emancipação política. Administrativamente é formado pelos distritos: sede, Barra do Chata e Barra do Jardim, e pelos povoados de Pé de Serra dos Mendes e Araçatuba. Extraído do livro Enciclopédia dos Municipios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

VARIEDADES DE VALERY - [...] É preciso tomar cuidado com os primeiros contatos de um problema com nosso espírito. É preciso tomar cuidado com as primeiras palavras que pronunciam uma questão em nosso espírito. Uma questão nova está, primeiramente, no estado da infância em nós; ela balbucia: só encontra termos estranhos, totalmente carregados com valores e associações acidentais; é obrigada a tomá-los emprestados [...] É a minha própria vida que se espanta, é ela que deve me fornecer, se puder, minhas respostas, pois é somente nas reações de nossa vida que pode residir toda força e como que a necessidade de nossa vontade. [...] O poeta é, a meu ver, um homem que, a partir de um incidente, sofre uma transformação oculta. Ele se afasta de seu estado normal de disponibilidade geral e vejo construir-se nele um agente, um sistema vivo, construtor de versos. [...]. Trechos extraídos da obra Variedades (Iluminuras, 1999), do filósofo e poeta do Simbolismo francês, Paul Valéry (1871-1945). Veja mais aqui e aqui.

VOZES-MULHERES - A voz de minha bisavó ecoou / criança / nos porões do navio./ Ecoou lamentos / De uma infância perdida. / A voz de minha avó / ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. / A voz de minha mãe / ecoou baixinho revolta / No fundo das cozinhas alheias / debaixo das trouxas / roupagens sujas dos brancos / pelo caminho empoeirado / rumo à favela. / A minha voz ainda / ecoa versos perplexos / com rimas de sangue / e fome. / A voz de minha filha / recorre todas as nossas vozes / recolhe em si / as vozes mudas caladas / engasgadas nas gargantas. / A voz de minha filha / recolhe em si / a fala e o ato. / O ontem - o hoje - o agora. / Na voz de minha filha / se fará ouvir a ressonância / o eco da vida-liberdade. Poema extraído dos Cadernos negros (Vol. 13, 1990), da escritora Conceição Evaristo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico Romero de Figueiredo na Exposição do Projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

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RESISTÊNCIA DOS VERSOS DE ZÉ RIPE
Participando do lançamento do livro A resistência dos versos, do poeta, compositor e cantor Zé Ripe. Veja mais aqui.

quarta-feira, julho 12, 2017

CAMINHO DE MUMON, YAMANDU, PEDRO DEMO, LATIFA LAÂBISSI, ARTUR RAMOS, LAURINDO ALMEIDA, MARIA TERESA MADEIRA & CRISTINA ORTIZ

O QUIBUNGO E A CARANGUEJEIRA - O Quibungo é um bicho muito feio que é meio homem e meio animal, com uma cabeça grande e um buraco enorme no meio das costas pra comer crianças e filhotes. Não é lá muito inteligente, pois é medroso e covarde, apavorando-se aos gritos com tudo que perturbe seu poderio. Ele vivia de comer os filhotes da cachorra Tita, até o dia em que ela cansada de ver toda a sua cria devorada pelo desalmado, um dia pariu e tratou de esconder todos eles num buraco, sentando-se em cima toda embelezada com maquiagens granfinas, vestido de saia longa e um colar de brilhantes no pescoço. Quando o bicho chegou não reconheceu e ficou desconfiado. Vinha então um cágado e ele perguntou se tinha visto os filhotes da cachorra Tita e respondeu que não. Perguntou à raposa que passava, também não. Perguntou ao coelho que lhe disse: Ora, Quibungo, você não reconhece? Ele então olhou e a cachorra pegou seus filhotes e saiu correndo. Ficou sem saber se pegava a cachorra ou o coelho. Por conta da dúvida, perdeu o paradeiro de ambos e ficou de mãos abanando. Então, dirigiu-se para uma casa que sabia ter crianças. Aproximou-se da residência cantando: De que é esta casa, auê, como gére, como gérê, como érá? Aí a mãe responde: A casa é de meu marido, auê, como gére, como gérê, como érá. Ao perguntar pelos filhos e a mãe responder que é dela, ele diz: Então, quero comê-los auê, como gére, como gérê, como érá? A mãe responde. Pode comê-los, embora, auê, como gérê, como gérê, como érá. Depois que come os filhos, ele pergunta de quem é a mulher, ao que ela responde ser do marido. Ele parte para comê-la, surge o marido armado de uma espingarda e atira, ele sai às carreiras cantando: Arrenego desta casa, auê, que tem uma porta só, auê, como gérê, como gérê, como érá. Na fuga ele se depara com a caranguejeira na outra margem do rio, pedindo pro urubu atravessá-la para ir comer fruta do outro lado. O urubu cavalheiro, logo dispôs pra ela se amontar nas costas dele. Atravessaram e quando o urubu foi comer uma fruta, a caranguejeira disse que era dela. O urubu pediu desculpas e foi comer de outra fruteira, repetindo a caranguejeira que também era dela. E assim com todas as frutas da redondeza, aborrecendo-se o urubu e voando para bem longe dali. O Quibungo a tudo vigiava e já ia se aproximar dela, quando o jacaré chegou convidando a caranguejeira para pernoitar na sua casa, com a promessa de mandar seus filhos levá-la de volta na manhã seguinte. Assim acertado, ela foi pra casa do jacaré, chegando lá pediu pro jacaré mandar os filhotes passá-la no rio bem cedo. Tudo ajustado, o jacaré então fez a cama em cima do ninho dos seus ovos. A aranha agasalhou-se e, passado o tempo em que todos já dormiam, começou a comer os ovos. Ao quebrar o primeiro, os filhos do jacaré gritaram: - Ronco de hóspede, papai! Cala boca, meninos, deixa a comadre dormir. Dali a pouco ela quebrava outro ovo e os filhos tornavam a gritar: - Ronco de hóspede, papai! Se aquieta, meninos, deixa a comadre dormir. Nessa brincadeira a aranha papou todos os ovos do jacaré e acordou-se ao primeiro sinal da alvorada, toda apressada para ir embora: - Compadre, mande os meninos me levar. Ainda é muito cedo, comadre. Não, compadre, tenho muito a fazer em casa. Assim acertaram e os filhos do jacaré levaram-na. Quando saíram o jacaré foi conferir os ovos e enfureceu-se ao perceber que ela havia comido todos eles. Saiu às pressas, mas já era tarde, ela já estava descendo do outro lado da margem do rio. O Quibungo que esperava a volta para devorar os filhos do jacaré, assustou-se com a chegada repentina dele. É que o jacará estava furioso. O urubu que voava, viu a aflição do jacaré e pousou: - A comadre aranha é muito malagradecida. Destá. Saíram e o Quibungo resolveu pescar, atirando os peixes atrás das costas. Ao achar que havia pescado o bastante para suas refeições, virou-se para apanhá-los e estava o lugar mais limpo. Investigando ao redor deu de cara com a caranguejeira: - Foi você que comeu meus peixes, num foi? Eu não. Foi. Eu não. Foi. Não foi. Nessa hora passou voando um juriti e a aranha gritou: - Ei, juriti! Se eu não tivesse feito você ficar bonita desse jeito, não voaria de jeito nenhum! Aí o Quibungo perguntou: - Você sabe fazer eu ficar bonito? Ah, se sei. Então eu quero. Então, vamos. E foram, até que a aranha mandou pegar um toro especial, o mais pesado e fincasse na terra. Assim ele fez. Depois mandou catar muitos galhos e cipós para fazer a encomenda. Assim fez. Então ela amarrou, torceu, deu nó, reamarrou, deu trocentas voltas, bem amarrado e perguntou pra ele: - Quibungo, veja se pode se bulir aí! Ele fez força, inchou e viu que estava preso, dizendo: - Tô todo arrochado de num poder nem piar, ora. A aranha então riu maliciosamente, armou-se de uma quicé amolado e começou a cortar pedaços da carne dele para comer. Ele gritava, berrava, ela só se abastecendo, até encher e ir-se embora, deixando-o amarrado. Foi aí que passou uma tartaruga e ele pediu para soltar os cipós, e ela nem aí, seguiu caminhando. Passou um veado, depois um boi, depois um caneiro, a todos pedia e nenhum deles atendeu. Foi então que passou o cupim e aos prantos ele pediu para roer o cipó, ao que respondeu: - Eu não, quando você soltar, você vai comer os meus filhos. Vou não, cupim. Vai sim. Prometo que não. Não acredito. Pelo amor de seus filhos, me solte. Solto não. E ficaram nisso por horas, até que o Quibungo convenceu o cupim e este roeu os cipós, libertando-o. Ele agradeceu e prometeu não comer os filhos do cupim, indo à caça da aranha. Foi encontrá-la escondida na pele dum bode, tomando água numa fonte. – Ah-rá! Vou dar o troco agora, sua danada! E ao partir para atacá-la, eis que surge o pai aflito de tanto procurar pelos filhos, encontrando o Quibungo na hora do bote, e às escondidas, mirou e disparou um tiro certeiro matando-o. Com o estampido a aranha se assusta e cai na água morrendo afogada. O pai aproxima-se e abre à força o buraco nas costas do Quibungo e retira os filhos ainda vivos, levando-os para casa feliz por resgatá-los, providenciando uma festa com a vizinhança. Os festejos corriam soltos noite alta quase madrugada, quando entrou pela porta da frente, saiu pela ponta do canivete, quem quiser que contre outra ou invente uma maior que sete. (Recriada a partir de narrativa oral da minha avó Benita, e registrada na obra O folclore negro do Brasil: demopsicologia e psicanálise (Casa do Estudante do Brasil, 1935), de Artur Ramos). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PARA QUE A AULA SEJA BOA DE PEDRO DEMO
[...] Para que a aula seja boa: precisa estar comprometida com a aprendizagem em quem dá aula e com a aprendizagem em que escuta a aula; daí segue que a aula será sempre expediente supletivo, por mais útil que possa ser; é mero instrumento secundário, jamais o sentido da didática; precisa ser elaborada, reconstruída: significado que o professor carece de estudo continuado, evitando-se logo que dê qualquer aula sobre qualquer assunto; só se pode dar aula daquilo que produz, a rigor; precisa ser atraente ou pelo menos suportável, envolvendo os ouvintes para além da mera assistência forçada ou passiva; nem todo mundo expõe bem, mas é preciso pelo menos expor algo de interesse e pertinência; não pode abusar da atenção dos ouvintes, sendo inócua a aula longa; precisa ser envolvente, no sentido de estabelecer entre entre professor e aluno ambiente de emoção possível; não se trata de causar prazer imediato, porque não nos interessamos apenas por aquilo que dá prazer (se assim fosse, poucos estudariam matemática ou fariam mestrado/doutorado), mas de travar relacionamento que envolva as pessoas em questões que as movam a escutar com atenção e permanecer interessadas; precisa ser curta, porque, de todos os modos, pesquisar e elaborar sempre são mais importantes que escutar aula. Parece claro que o sentido da aula está no cuidado com a aprendizagem do aluno: a isto serve caracteristicamente e a isto jamais deveria impedir. Deve reforçar a formação da autonomia, não sua subalternidade sempre  reproduzida. [...] .
Trecho do capítulo O ensino na universidade, extraído da obra Universidade, aprendizagem e avaliação: horizontes reconstrutivos (Mediação, 2004), do sociólogo e professor Pedro Demo, discutindo sobre o papel da universidade, o papel do professor, do significado da aprendizagem e da avaliação no ensino superior, apontando caminhos, novos horizontes e fundamentando-se na vasta literatura referente. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
A lenda do açúcar e do álcool, Educação não é privilégio de Anísio Teixeira, História da Filosofia de Wil Durant, a música de Yasushi Akutagawa, Não há estrelas no céu de João Clímaco Bezerra, Cumade Fulosinha & Menelau Júnior, a pintura de Madison Moore, João Pirahy & Pulsarte aqui.

E mais:
Sorria, Canto geral de Pablo Neruda, A desobediência civil de Henry David Thoreau, O feijão e o sonho de Orígenes Lessa, Revolução na América do Sul de Monteiro Lobato & Brincarte do Nitolino, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Sebastião Tapajós, Marcelo Soares aqui.
Psicologia social e educação, a poesia de Pablo Neruda, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Yasushi Akutagawa, a arte de Regina Espósito & Ju Mota aqui.
Recitando Castro Alves: Navio Negreiro aqui.
Devagar e sempre, A monadologia de Leibniz, Estudo do poema de Antônio Cândido, Meu país de Dorothea Mackellar, A arte da comédia de Lope de Vega, o ativismo de Emma Goldman, a arte de Gilvan Samico, a música de Alceu Valença, a xilogravura de Amaro Francisco Borges, Brincarte do Nitolino & a pintura de Nina Kozoriz aqui.
A vida dupla de Carolyne & sua cheba beiçuda, Psicologia da arte de Lev Vygotsky, a poesia de William Butler Yeats, A República de Platão, a pintura de Raphael Sanzio & Boleslaw von Szankowski, a música de Leonard Cohen, o cinema de Paolo Sorrentino & World Erotic Art Museum - WEAM aqui.
Divagando na bicicleta, Onde andará Dulce Veiga de Caio Fernando Abreu, Os elementos de Euclides de Alexandria, O teatro e seu duplo de Peter Brook, a música de Billie Myers, a fotografia de Alberto Henschel, a pintura de Jörg Immendorff & Oda Jaune aqui.
A conversa das plantas, Memória da guerra de Duarte Coelho, a poesia de Cruz e Sousa, Arquimedes de Siracusa, a música de Natalie Imbruglia, a arte de Hugo Pratt & Tom 14 aqui.
Leitoras de James leituras de Joyce, a fotografia de Humberto Finatti, a arte de Henri Matisse & Wayne Thiebaud aqui.
Incipit vita nuova, As raízes árabes da arte nordestina de Luís Soler, A divina comédia de Dante Alighieri, a música de Galina Ustvolskaya, a pintura de Jack Vetriano & Paul Sieffert, as gravuras de Gustave Doré & a arte de Luciah Lopez aqui.
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O CAMINHO DE MUMON
O grande caminho não tem portas, milhares de caminhos levam a ele. Quando atravessamos esse umbral sem portas, caminhamos livremente entre o céu e a terra.
Pensamento do calígrafo e sábio zen Mumon Yamada (1900-1988).

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especial com a pianista Maria Teresa Madeira interpretando Ary Barroso & Recital, o violonista Yamandu Costa ao vivo & In Concert, a pianista Cristina Ortiz com Alma Brasileira & Ciclo Brasileiro Heitor Villa-Lobos, o violonista Laurindo Almeida com Musico f Brazilian Masters & Cajita de Musica. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da dançarina e coreógrafa francesa Latifa Laâbissi.
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...