DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: É CADA UMA QUE NEM CONTO – Pois é,
chega! Quebrei a caixa, mudei de casca, troquei de pele, juntei os trapos e as
mirradas lembranças para saber o que envergonha e o desesperador: apenas o
silêncio e a solidão. Tudo que fiz até agora foi em vão, tão inútil quanto
saber-me nem cético, nem cínico, apenas que já estava no sangue o louco de
nascença atravessando anos de desencontros pelo insólito, para me perder por tão
poucos reencontros. É tarde demais, nem sei quantos remorsos, tantas
travessias, a vida eclipsada pisando em falso, engolindo mosquitos, tentando me
desvencilhar de socos no estômago por escapulidas nem sempre escorregadias. A despeito
dos embaraços envelheci desgracioso e desajustado, nada mais, apenas menino pés
alados e desajeitado, levado pela corrente ao vento entre pedras e margens da
minha desordem e indignação. Queria apenas contar uma historinha simplesmente
humana, e em voz alta como uma oração estranha e própria aos que se foram e saudando
os vivos, fazer a minha parte, apenas, como se salvasse o planeta do lixo um tantinho
assim, feito o beija-flor de Crema:
é pouco, mas sou eu, não sou nada. DUAS:
APRENDIZ DE FEITICIEIRO, AEQUO AMENOS – Mesmo assim, extenuado dos inúteis
esforços diante das inconveniências e misérias, tanto nado contra a corrente e
do estresse da normalidade para não ser apenas um código de barras, ou um
animal pensante ou sei lá o quê. O normótico é tão desumano e não me basta por
ser tão aborrecido e enlouquecedor. Nem ligo pras galhofas se sou um fracassado
de Jung, sei que não sou mais estúpido por absoluta falta de espaço, enquanto o
grotesco está na esquina e eu encaro em cima da fivela sem sair da raia. Por incrível
que pareça, já fiz de tudo tanto por vocação da necessidade em alta voltagem
que nem sei mais, só não quero confundir as coisas: sou a favor de tudo que não
seja contra o sujeito, apenas. Com os dias contados botei todas as portas abaixo
para enfrentar o flagelo das interdições, tudo desapareceu, graças. Mesmo que
tenha que aturar a chatura, dou umas risadas esclarecedoras com o GregNews, ou refletindo com o Meteoro e o Normose, ou seguindo o coletivo ciberativistas Sleeping Giants, enquanto vou xexéu assobiando Quintana passarinho. TRÊS:
PANTA RHEI – Tudo passa, tudo flui. O assobio segue morros e abismos, quer
ser indene e distingue vis-à-vis o que vem do bem e bom, quase premonitório
visionário suplantando as nuvens de cocô de alcestes coisonários com seu
negacionismo da distopia transnacional e estereótipos ad bestias! Sem nem saber vai arrebentando a anomia catingosa feita
de coprólitos e flatulências dos que insistem suplícios nas arenas, ah, ignoro o
desprezível com suas tolices letais do cúmulo da parvoíce humana. Ainda ouço a
sátira de Bernard Shaw: A democracia é um sistema que faz com que
nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Sorrio e persigo solfejando
a Carta à República de Milton e Brant: Quero um país melhor! Se der jeito, ou se quiser, vamos aprumar a
conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais abaixo e aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
segunda-feira, junho 01, 2020
EDGARD VARÈSE, LYUDMILA TOMOVA, TOM ZÉ, LUCIA HELENA GONDRA & DEMOCRACIAS MORREM
DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: É CADA UMA QUE NEM CONTO – Pois é,
chega! Quebrei a caixa, mudei de casca, troquei de pele, juntei os trapos e as
mirradas lembranças para saber o que envergonha e o desesperador: apenas o
silêncio e a solidão. Tudo que fiz até agora foi em vão, tão inútil quanto
saber-me nem cético, nem cínico, apenas que já estava no sangue o louco de
nascença atravessando anos de desencontros pelo insólito, para me perder por tão
poucos reencontros. É tarde demais, nem sei quantos remorsos, tantas
travessias, a vida eclipsada pisando em falso, engolindo mosquitos, tentando me
desvencilhar de socos no estômago por escapulidas nem sempre escorregadias. A despeito
dos embaraços envelheci desgracioso e desajustado, nada mais, apenas menino pés
alados e desajeitado, levado pela corrente ao vento entre pedras e margens da
minha desordem e indignação. Queria apenas contar uma historinha simplesmente
humana, e em voz alta como uma oração estranha e própria aos que se foram e saudando
os vivos, fazer a minha parte, apenas, como se salvasse o planeta do lixo um tantinho
assim, feito o beija-flor de Crema:
é pouco, mas sou eu, não sou nada. DUAS:
APRENDIZ DE FEITICIEIRO, AEQUO AMENOS – Mesmo assim, extenuado dos inúteis
esforços diante das inconveniências e misérias, tanto nado contra a corrente e
do estresse da normalidade para não ser apenas um código de barras, ou um
animal pensante ou sei lá o quê. O normótico é tão desumano e não me basta por
ser tão aborrecido e enlouquecedor. Nem ligo pras galhofas se sou um fracassado
de Jung, sei que não sou mais estúpido por absoluta falta de espaço, enquanto o
grotesco está na esquina e eu encaro em cima da fivela sem sair da raia. Por incrível
que pareça, já fiz de tudo tanto por vocação da necessidade em alta voltagem
que nem sei mais, só não quero confundir as coisas: sou a favor de tudo que não
seja contra o sujeito, apenas. Com os dias contados botei todas as portas abaixo
para enfrentar o flagelo das interdições, tudo desapareceu, graças. Mesmo que
tenha que aturar a chatura, dou umas risadas esclarecedoras com o GregNews, ou refletindo com o Meteoro e o Normose, ou seguindo o coletivo ciberativistas Sleeping Giants, enquanto vou xexéu assobiando Quintana passarinho. TRÊS:
PANTA RHEI – Tudo passa, tudo flui. O assobio segue morros e abismos, quer
ser indene e distingue vis-à-vis o que vem do bem e bom, quase premonitório
visionário suplantando as nuvens de cocô de alcestes coisonários com seu
negacionismo da distopia transnacional e estereótipos ad bestias! Sem nem saber vai arrebentando a anomia catingosa feita
de coprólitos e flatulências dos que insistem suplícios nas arenas, ah, ignoro o
desprezível com suas tolices letais do cúmulo da parvoíce humana. Ainda ouço a
sátira de Bernard Shaw: A democracia é um sistema que faz com que
nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Sorrio e persigo solfejando
a Carta à República de Milton e Brant: Quero um país melhor! Se der jeito, ou se quiser, vamos aprumar a
conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais abaixo e aqui.segunda-feira, abril 20, 2020
AMANDA PALMER, DJANIRA, ROSA LOBATO, MÁ MATIAZI, TIÊ & KARINA FREITAS
MANUAL DE ESTUPIDOLOGIA – UMA: CONDIÇÃO HUMANA & BANALIZAÇÃO DA
MALDADE – Que mundo é este hem? Que coisa! Da para enxergar? Em
tempos da Idiocracia do Coiso e seu mínions, cafos & fabos, anestesiados pelo ódio, enquadrados na Lei do Cipolla (aquele mesmo que
assinala que o estúpido é mais perigoso que o bandido) e no emburrecimento, imbecilização
e insanidade, questiona-se se não seria própria da barulhenta barbárie a
afeição pela espetacularização da desgraça e a sedução pelo sangreiro em que a
banalidade do mal se sobrepusesse à potência do bem, levados pela vingança e o
julgamento de quem estiver fora desses padrões. Quanta mediocridade! O alerta
de Hannah Arendt: Vivemos tempos sombrios, onde as piores
pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança. Ela nos ensina
que o mal não está somente no outro. Hem? Afinal, quem comete o mal? Se não é o
outro e não sou eu, quem? Ninguém é culpado. Mesmo? Quem é ninguém? Nenhum alguém,
nem eu? Cadê minha sombra que me esqueci do que sou e não sei. DUAS: A CONDIÇÃO HUMANA ENTRE A NORMOSE
& A DESUMANIDADE - Alô, alô! Tem alguém aí? Ah, não! Segue-se atolados
na normose, simples servidão a cumprir regulamentos e regras simplesmente, não precisa
pensar e nem procurar sentido algum para nada, viver apenas burocraticamente,
livre de ter escolhas entre o verdadeiro e o falso. Não ao justo ou direito, o
menor prejuízo; não a verdade, a ignorância diante de tantas informações. Isso é
vida? A simples sobrevivência com as muletas tecnológicas e mais nada: não se
precisa mais de ninguém. Ouvi Bernard Shaw: O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim
tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade. Eita! Ou, por mim,
Anatole France: Preferi sempre a
loucura das paixões à sabedoria da indiferença. É que a indiferença, então,
seria ou não a nossa condição de desumanidade. O que fizeram da minha utopia? TRÊS: CREPÚSCULO DAS RELIGIÕES, DISTOPIAS
& DATAÍSMO – Qual que é: quem tem dinheiro, ganha; quem não tem,
amealha amarguras e nunca esqueça dos dízimos, viu! Isso é igual a Mateus 13,13
do Novo Testamento. Agora, sim, a lei do dataísmo
em vigência nos leva pelos algoritmos, entre bits e metadados: o ser humano,
então, é só o combustível para converter tudo em dinheiro e lucro, apenas. Tudo
para o panteão da riqueza comandado pelo deus dinheiro e deus lucro, santos
ricaços e tudo o mais da acumulação terrena. Vôte! Inconformado, quase um
patafísico e na tentativa de ser apenas um estúpido a menos, vou cantando Bob Dyllan: Quando não se tem nada, não há nada a perder. E vamos aprumar a
conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais
abaixo e aqui.
DITOS & DESDITOS: [...] É
sabido que na infância o tempo não passa, na adolescência demora-se, na idade
adulta corre, na velhice precipita-se. Nunca ninguém morre, só quem nós matamos
na memória, no pensamento e no coração. Pensamento da escritora e
dramaturga portuguesa, Rosa Lobato de
Faria (1932-2010), autora desse belíssimo poema: De todas as palavras escolhi água, / porque lágrima, chuva, porque mar
/ porque saliva, bátega, nascente / porque rio, porque sede, porque fonte. / De
todas as palavras escolhi dar. / De todas as palavras escolhi flor / porque
terra, papoila, cor, semente / porque rosa, recado, porque pele / porque
pétala, pólen, porque vento. / De todas as palavras escolhi mel. / De todas as
palavras escolhi voz / porque cantiga, riso, porque amor / porque partilha,
boca, porque nós / porque segredo, água, mel e flor. / E porque poesia e porque
adeus / de todas as palavras escolhi dor.quinta-feira, julho 26, 2018
JUNG, HUXLEY, ANTONIO MACHADO, SHAW, LAURINDO ALMEIDA, GIBRAN & CARMEN TYRREL
A VOLTA DE ZÉ PEIÚDO – Imagem: a arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel. - Quase vinte anos depois, Zé Peiúdo botava os pés de volta
nas terras de Alagoinhanduba. Ninguém o reconheceu a pisada, era quase outro,
irreconhecível, embecado de gola e colarinho, uma garrafa metálica num bolso e O catecismo de Mister T – aquele da temperança do Big Shit Bôbras, no outro. A primeira providência: ter com o
Zé-Corninho, a sua maior vítima. Ao encontrá-lo, travou conversa amistosa. Lá
pras tantas: Sabe com quem tá falando, Zé? Desculpa, mas nunca vi mais gordo.
Eu lhe conheço, cabra, sou Zé Peiúdo. Oxe, Corninho deu um salto solto e caiu
em pé, as munhecas em riste, arregaçando a manga da camisa, pronto pra briga.
Calma, meu amigo, não sou mais aquele, agora sou um Pastor de Jesus e vou
provar. E deitou a maior lábia, tomou um gole da garrafa e Corninho só com o pé
atrás. Daí a pouco o forasteiro deu um espirro e o milagre aconteceu: a casa do
desconfiado era de taipa e tornou-se uma chique de alvenaria, a mais luxuosa do
arruado. Vixe! Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! Corninho com
os olhos esbugalhados não acreditava no que via. Foi até a porta e ficou
maravilhado: tudo novo e do melhor. Voltou-se e ficou agarrado ao agora
benfeitor na maior das gratidões. Foi abraçado de quase não largar. Peiúdo depois
de muxoxos e risadinhas, às despedidas, acenou, pois, tinha que continuar a sua
missão. Ao arrodear a cidade, deu com um cidadão quebrando cabeça para mudar o
pneu furado do carro. Permita. Enquanto o impaciente dificultoso atendia ao
telefone aos esturros, ele ingeriu o líquido da garrafa e, num piscar de olhos,
tudo resolvido. Ao desligar o aparelho, espantou-se com a providência: Como
você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O satisfeito abraçou o estranho dizendo:
Sabe com quem você está falando? Peiúdo disse apenas ser Servo de Jesus,
enquanto o agraciado colocava um cartão no seu bolso, sob a recomendação de só
vê-lo quando saísse. Assim fez. Já distante do local, pegou no bolso e viu:
Juiz de Direito. 2x0. Mantendo sua caminhada a esmo, soube que a moenda da
usina dera bronca. Foi lá, pediu que todos se afastassem e secretamente
resolveu o impasse: Pronto, está tudo funcionando. O dono apareceu: Como fez
isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O usineiro arrogante perguntou quanto
custava o seu serviço, negando cobrar qualquer quantia. Logo fez amizade com o
ricaço. 3x0. Aí ouviu de um passante que o teto da igreja desmoronava. Foi lá,
começou a remexer nas coisas e, num instante, tudo em perfeita ordem. O padre
Quiba ao presenciar aquilo, saiu gritando: Milagre! Milagre! O pároco virou-se
para ele: Como fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! 4x0. Dali viu uma
correria do povo, acompanhou o pandemônio e era a ponte que ameaçava cair. Foi
pra baixo dela, escondeu-se e, num instante, estava em perfeitas condições. O
povo aplaudiu sua façanha. Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor!
E foi obrando milagres e caridades que ele ganhou a amizade do prefeito, do
delegado, do juiz, do padre, do catimbozeiro, do espírita, dos clubes de
serviço e de toda população. Era o roliúde. Quem é ele? Indagavam para lá e
para cá, aos elogios. Só pode ser um enviado! É um santo vestido de gente! Um
anjo que caiu do céu. Ao cabo de dias, o mistério se revelava: Ah, é o Zé
Peiúdo! Não pode, aquele salafrário? Não, agora é pastor duma igreja aí. Vixe!
O homem agora é de vera. E passou de primavera a verão, de outono a inverno,
botada e pejada na usina canavieira, e ao se aproximarem as eleições, seu nome
foi cogitado, definindo-se como o favorito naquele pleito. Não tinha pra mais
ninguém. Então, diante dos festejos com a sua candidatura, falou para todos que
tinha uma conta para ajustar. Num comício ruidoso e discurso inflamado, lançou
a candidatura de Zé-Corninho a prefeito do lugar. De novo? É reprise? E que
ele, no máximo, poderia aceitar a ser vice. Ah, tá. Oxe, foi barbada, mais
tivesse! Só teve um voto nulo: o do próprio Corninho que não acertou votar nele
mesmo, de novo! Virou festa. Seis meses depois de assumir a prefeitura, a
Câmara de Vereadores cassava espetacularmente Corninho num processo que ninguém
nunca viu tramitar, para entregar o cargo ao Peiúdo, logo entronizado como
Imperador, a mandar e desmandar, acoloiado com seus aliados. Pintou e bordou
por três anos e meio, podre de rico, bufando e peidando. Como nem tudo dura pela
vida toda, a garrafa metálica trincou e pegou fogo no bolso, queimando o
catecismo, as calças e quase os seus guardados. Foi um alvoroço. Não demorou
muito, ao anúncio das novas eleições, ele reeleito certo, a sorte dava uma
virada e ele sabia ter chegado a hora. Sumiu de ninguém ver-lhe o rastro, assim
sem mais nem menos, e da prefeitura só se ouvia sobre os salários atrasados,
endividamento, afanação de saldos públicos e todo tipo de roubalheira, a ponto
de instaurar uma intervenção barulhenta de findar todo mundo suspeito e
envolvido na patifaria. Como é? Maior pega-pra-capar! E agora, gente? Golpe
desse, ah, todo mundo paga o pato. Alagoinhanduba nunca mais foi a mesma. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.quinta-feira, fevereiro 12, 2015
VONA GROARKE, JANE JACOBS, NIVIAQ KORNELIUSSEN, NAVI PILLAY & ASIA ARGENTO
OS DEMÔNIOS DE
ANNELIESE... – Aquela linda adolescente vivia do trabalho na serraria dos pais. Era bondosa, doce, amorosa. Mas era
governada pelo medo, pois havia um segredo olvidado: uma irmã ilegítima e a mãe
vestida de negro no casamento. A irmã morreu e ela foi obrigada a expiar os pecados
da mãe na sua fervorosa devoção. Estava cercada pelo pecado, quando queria livrar-se
deles. Peregrinava por lugares ditos “santos” recusando-se ao crucifixo ou
águas sagradas. Obcecada, ela dormia nua sobre pedras para remissão dos pecados
da sua mãe e dos viciados em drogas. Acusaram-na de possessão demoníaca. De
repente teve convulsões, tinha alucinações enquanto rezava. Foi internada por
um ano porque o que era tido por “sagrado”, para ela, "cheirava como o próprio
inferno". Foi diagnosticada com epilepsia e jamais fora medicada. A depressão
levou-a a ouvir vozes condenando-a a apodrecer no inferno. Estava prestes ao
suicídio e com o diagnóstico do “Grande Mal”. Rasgava suas roupas e andava nua
pela casa. Bebia sua própria urina, alimentando-se de carvão e insetos. Foi
internada em um hospital psiquiátrico e frustrou-se com a intervenção médica:
cada vez mais piorava. Tratada à base de antipsicóticos, dizia estar vítima de
uma possessão demoníaca. Tornou-se intolerante aos lugares e objetos ditos
“sagrados”, repudiava qualquer imagem de Jesus. Veio a terceira convulsão no
hospital, os médicos prescreveram uma droga desconhecida e antoconvulsivante. Nenhum
alívio para sua dor. Encarava as faces do diabo com o que ela dizia ser seu
distúrbio espiritual. Recorreu ao exorcismo, enquanto aplicavam-lhe drogas para
tratamento de psicoses diversas, todos ineficazes. Outra droga antiepiléptica
lhe foi ministrada. O bispo – o mesmo que um dia consagrou Ratzinger - concedeu
a permissão ao Rituale Romanum de 1614 e que tudo corresse em sigilo.
Sua vida nas mãos dos ritos e foi submetida a diversos rituais de exorcismo por
conta de estar possuída por uma legião de demônios, todas ministradas por
padres. Sessenta e sete sessões, duas por semana, dez meses de sacrifício e
brutalidade: pendurada de cabeça
pra baixo, quando não acorrentada a uma cadeira. Quarenta e duas horas
ininterruptas de sessão. Ela se ajoelhava seiscentas vezes por dia até romper
os ligamentos dos joelhos, arrastando-se a latir como um cão, uivando por dias.
Comeu a cabeça de um pássaro morto, até ficar trancada sem dormir nem comer nem
beber. Rosnava, xingava, jejuando na crença de salvar-se daquele suplício. Recusou-se a
comer preferindo a morte para expiar a sua juventude rebelde. Recusou-se da
vida aos gritos: Morrer
para expiar os jovens rebeldes da época e os padres apóstatas da igreja moderna...
De
que adiantavam os médicos – não havia medicação eficaz, diziam eles. Desnutrida,
desidratada, esquelética, agressiva, quase prestes à inanição, foi levada à
indução doutrinária – afinal, argumento da defesa dos pais: a Constituição
alemã protegia o exercício irrestrito das crenças religiosas. Causa mortis:
desnutrição. E ela só queria, desde garotinha, cumprir penitências para
compensar os supostos pecados da mãe. Uma tuberculose: vítima de padres
católicos e de pais fanáticos religiosos, condenados por homicídio negligente: Deus
nos disse para exorcizar os demônios de minha filha. Eu não me arrependo de sua
morte... Uma freira carmelita sonhara que o corpo dela estava intacto, o
que, para ela, provava o suposto caso sobrenaturalista. Exumaram o corpo em
avançado estado de decomposição: sumiram as fotos da exumação. Negligência
médica, fanatismo religioso. Sequer
ouviu-se a súplica antes de morrer: Mãe, estou com medo... E a cidade se
envergonhava. Palavras da mãe depois à imprensa: Eu sei que fiz a coisa
certa, porque eu vi o sinal de Cristo em suas mãos. Ela estava tendo feridas e
isso foi um sinal de Deus para exorcizarmos seus demônios. Ela morreu para
salvar outras almas perdidas, para expiar seus pecados... Outros fanáticos ainda
hoje acreditam que ela poderá salvar a humanidade. Ah, esse o
verdadeiro réquiem de Anneliese, a vítima do Caso Klingebberg – (Anna
Elisabeth Michel (1952-1976). Veja mais aqui e aqui.
DITOS &
DESDITOS - Discriminação e múltiplas privações de direitos humanos também são
frequentemente parte do problema, sentenciando populações inteiras à pobreza...
É certamente um motivo de indignação que mais de meio milhão de mulheres morram
anualmente de complicações relacionadas à gravidez e ao parto. Isso é quase
metade do número anual de mortes globais e, sem dúvida, um reflexo direto do
desempoderamento das mulheres na vida social, econômica e política. Pensamento da
jurista sul-africana Navi Pillay (Navanethem Pillay), que durante
28 anos foi advogada na defesa das causas ativistas anti-Apartheid.
ALGUÉM FALOU: As
atitudes das pessoas sobre o sexo não são saudáveis em nenhum lugar, exceto
talvez naquelas tribos onde elas andam nuas. O que você pode ver como
depravação é, para mim, apenas outro aspecto da condição humana. Pensamento
da atriz, cantora, modelo, roteirista e cineasta italiana Asia Argento (Asia
Aria Maria Vittoria Rossa Argento).
VIDA &
MORTE DAS CIDADES - [...] As cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos,
somente porque, e somente quando, são criadas por todos. [...] Por sua natureza, a metrópole
proporciona o que de outra forma só poderia ser proporcionado por meio de
viagens: o estranho. [...] Uma rua da cidade equipada para lidar com
estranhos e para fazer um ativo de segurança, em si, da presença de estranhos,
como as ruas de bairros urbanos bem-sucedidos sempre fazem, deve ter três
qualidades principais: Primeiro, deve haver uma demarcação clara entre o que é
espaço público e o que é espaço privado. Espaços públicos e privados não podem se infiltrar um no outro como normalmente
acontece em ambientes suburbanos ou em projetos. Segundo, deve haver olhos na
rua, olhos pertencentes àqueles que poderíamos chamar de proprietários naturais
da rua. Os edifícios em uma rua equipada para lidar com
estranhos e garantir a segurança de moradores e estranhos devem ser orientados
para a rua. Eles não
podem virar as costas ou deixar os lados em branco para ela e deixá-la cega. E
terceiro, a calçada deve ter usuários nela de forma bastante contínua, tanto
para aumentar o número de olhos efetivos na rua quanto para induzir as pessoas
em edifícios ao longo da rua a vigiar as calçadas em números suficientes. Ninguém gosta de sentar em uma varanda ou olhar pela
janela para uma rua vazia. Quase ninguém
faz uma coisa dessas. Um grande
número de pessoas se diverte, de vez em quando, observando as atividades de rua. [...] Existe uma qualidade ainda mais
mesquinha do que a feiura ou a desordem, e essa qualidade ainda mais mesquinha
é a máscara desonesta de uma ordem fingida, alcançada ao ignorar ou suprimir a
ordem real que está lutando para existir e ser servida. [...] Não há
lógica que possa ser sobreposta à cidade; as pessoas a fazem, e é a elas, não aos edifícios, que devemos adequar
nossos planos. [...]. Trechos extraídos da obra The Death and Life of Great
American Cities (Vintage, 1992),
da jornalista, escritora e ativista estadunidense Jane Jacobs (Jane Butzner
Jacobs – 1916-2006).
HOMO SAPIENS – [...] O mundo real me cumprimenta. O mundo real chega todos os dias e o mundo real dói [...]. Trecho
extraído da obra Homo sapienne (Peuplade, 2014),
da escritora groenlandesa Niviaq Korneliussen, que ainda se expressa:
Algumas pessoas estão
destinadas a mudar o mundo. Elas dão amor. Elas têm o
poder de perdoar. Elas
trabalham duro pelo que acreditam. Elas ganham a atenção do público. Elas são as poucas pessoas úteis para a sociedade. Essas pessoas devem ser apoiadas, pois são as que são
valiosas e têm algo a retribuir. Depois, há todo o resto que deve apoiar os poucos. Essas pessoas devem se sacrificar para que os bons possam
ter sucesso na vida. Muito
estúpido da minha parte pensar que eu era o primeiro tipo de pessoa. Eu sou o segundo tipo.
AS PEQUENAS
HORAS - Um joyrider rasga Lockland. \ Demora apenas cinco minutos \ para
um helicóptero da esquadra \ para mergulhar e girar sobre gramados \ e duas
linhas opostas de carros \ Estacionado inocentemente confortável para a
calçada. \ Ainda não o encontraram. \ A cada dois minutos ou assim, \ Minhas
persianas em luz ultrajante \ e o helicóptero transporta seu drone \ e briga
por todo o meu quintal. \ Há um ventilador sobre a minha cama \ que diz coisas
semelhantes no verão: \ Adages, reprovante e retórica. \ Eu falo demais; dou
muito longe. \ Ao murmurar minha empresa, eu considero \ um duplo pagamento:
alguns eco; \ sendo descoberto, consequência. \ Eu minto-me baixo. Os minutos
incham. \ Ele deve estar lá em algum lugar, \ luzes desligadas, agachadas e
empacotadas, \ pé dentro de uma polegada do início. \ Eu puxo o consolador
sobre meus ouvidos, \ conte até quarenta e dois, depois comece de cima. \ Estou
a tentar, a esforçar-me, a prender a respiração. Poema da poeta irlandesa Vona
Groarke.
SACADOUTRAS
PEGADA DE CARBONO – Em matéria assinada por Beatriz Maria
Phillippi, as crianças estão promovendo a distribuição de material atinente à
pegada de carbono que significa o rastro de CO2 que nós produzimos
na nossa vida diária, pois para viver consumimos energia e estamos, de alguma
maneira, contribuindo para o aumento de CO2 na atmosfera.
Consequentemente estamos causando um impacto no meio ambiente. Em vista disso
se faz necessária a realização de uma pegada ecológica que compara o consumo de
recursos da terra pela população com a capacidade do planeta de se regenerar.
No entanto, estamos atualmente consumindo mais do que a Terra consegue
recuperar, ou seja, a pegada ecológica da Terra está 23% acima da capacidade. E
para regenerar o que nós consumimos em um ano precisaremos de mais um ano e
dois meses para tal. O que fazer? Você pode fazer algumas coisas, por exemplo:
deixe o carro em casa, poupe energia, separe lixo, contribua com projetos que
visem reduzir as emissões de carbono e evite imprimir desnecessariamente. As
crianças estão no nosso pé para que tenhamos uma pegada ecológica. Até o
Nitolino já entrou na campanha exigindo que os adultos adotem atitudes
positivas pesquisando e se informando a respeito. O planeta é nosso, vamos
ajudar a preservá-lo. Veja mais aqui.
Z – A experiência de assistir ao suspense político Z (em grego Ele está vivo, 1969), do
cineasta franco-grego Constantin
Costa-Gavras, baseado no romance homônimo de Vassilis Vasilikos, trata de
acontecimentos reais que ocorreram na Grécia, em 1963, num cenário tenso em um
dos líderes da esquerda opositora, reúne correligionários em reunião pela paz e
contra a instalação de mísseis balísticos americanos naquele país. O filme na
abertura traz uma advertência assinada por Costa-Gavras e Jorge Semprún:
qualquer semelhança com eventos e pessoas da vida real é coincidência – é
intencional. Por conta disso, o líder é atropelado e morre, concluindo as
investigações tratar-se de um acidente, havendo indícios de se suspeitar da
polícia aprofundando a investigação para identificação dos autores do crime
envolvendo o poder. O julgamento ocorre com o desaparecimento de testemunhas,
resultando na condenação a pena leve dos condenados. Ocorre, então, um golpe
militar com perseguições e coações à liberdade de expressão. Merece também
destaque a atuação da belíssima atriz e cantora grega Irene Pappás. Veja mais aqui e aqui.
MUITAS PAIXÕES NUMA SÓ VIDA – O belíssimo e premiado filme Olga: muitas paixões numa só vida
(2004), inspirado na biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais,
dirigido por Jayme Monjardim e música de Marcus Viana, sobre a militante
comunista e judia alemã Olga Benário
(1908-1942), traz a lindíssima atriz Camila
Morgado interpretando a personagem principal que é perseguida pela polícia
e foge para Moscou, onde faz treinamento militar e fica encarregada de
acompanhar Luis Carlos Prestes ao Brasil para liderar a Intentona Comunista de
1935. Ela se apaixona por ele durante a viagem e, com o fracasso da revolução,
ela é presa grávida e deportada pelo governo Vargas para a Alemanha Nazista,
tendo sua filha na prisão feminina do campo de concentração de Barmimstrabe.
Afastada de sua filha, ela é enviada para outro campo de concentração onde é
morta na câmara de gás. Aqui uma dupla homenagem: à Olga e à maravilhosa atriz
Camila Morgado. Afinal, todo dia é dia da mulher. Veja mais aqui. GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS
Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
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Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
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DORO, A TEIBEI & ORÁCULO... – Doro aperreou-se: a situação não estava nada auspiciosa; de promissor mesmo, só a vontade de tom...
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