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segunda-feira, junho 01, 2020

EDGARD VARÈSE, LYUDMILA TOMOVA, TOM ZÉ, LUCIA HELENA GONDRA & DEMOCRACIAS MORREM


DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: É CADA UMA QUE NEM CONTO – Pois é, chega! Quebrei a caixa, mudei de casca, troquei de pele, juntei os trapos e as mirradas lembranças para saber o que envergonha e o desesperador: apenas o silêncio e a solidão. Tudo que fiz até agora foi em vão, tão inútil quanto saber-me nem cético, nem cínico, apenas que já estava no sangue o louco de nascença atravessando anos de desencontros pelo insólito, para me perder por tão poucos reencontros. É tarde demais, nem sei quantos remorsos, tantas travessias, a vida eclipsada pisando em falso, engolindo mosquitos, tentando me desvencilhar de socos no estômago por escapulidas nem sempre escorregadias. A despeito dos embaraços envelheci desgracioso e desajustado, nada mais, apenas menino pés alados e desajeitado, levado pela corrente ao vento entre pedras e margens da minha desordem e indignação. Queria apenas contar uma historinha simplesmente humana, e em voz alta como uma oração estranha e própria aos que se foram e saudando os vivos, fazer a minha parte, apenas, como se salvasse o planeta do lixo um tantinho assim, feito o beija-flor de Crema: é pouco, mas sou eu, não sou nada. DUAS: APRENDIZ DE FEITICIEIRO, AEQUO AMENOS – Mesmo assim, extenuado dos inúteis esforços diante das inconveniências e misérias, tanto nado contra a corrente e do estresse da normalidade para não ser apenas um código de barras, ou um animal pensante ou sei lá o quê. O normótico é tão desumano e não me basta por ser tão aborrecido e enlouquecedor. Nem ligo pras galhofas se sou um fracassado de Jung, sei que não sou mais estúpido por absoluta falta de espaço, enquanto o grotesco está na esquina e eu encaro em cima da fivela sem sair da raia. Por incrível que pareça, já fiz de tudo tanto por vocação da necessidade em alta voltagem que nem sei mais, só não quero confundir as coisas: sou a favor de tudo que não seja contra o sujeito, apenas. Com os dias contados botei todas as portas abaixo para enfrentar o flagelo das interdições, tudo desapareceu, graças. Mesmo que tenha que aturar a chatura, dou umas risadas esclarecedoras com o GregNews, ou refletindo com o Meteoro e o Normose, ou seguindo o coletivo ciberativistas Sleeping Giants, enquanto vou xexéu assobiando Quintana passarinho. TRÊS: PANTA RHEI – Tudo passa, tudo flui. O assobio segue morros e abismos, quer ser indene e distingue vis-à-vis o que vem do bem e bom, quase premonitório visionário suplantando as nuvens de cocô de alcestes coisonários com seu negacionismo da distopia transnacional e estereótipos ad bestias! Sem nem saber vai arrebentando a anomia catingosa feita de coprólitos e flatulências dos que insistem suplícios nas arenas, ah, ignoro o desprezível com suas tolices letais do cúmulo da parvoíce humana. Ainda ouço a sátira de Bernard Shaw: A democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Sorrio e persigo solfejando a Carta à República de Milton e Brant: Quero um país melhor! Se der jeito, ou se quiser, vamos aprumar a conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Uma das grandes ironias de como as democracias morrem é que a própria defesa da democracia é muitas vezes usada como pretexto para a sua subversão. Aspirantes a autocratas costumam usar crises econômicas, desastres naturais e, sobretudo, ameaças à segurança – guerras, insurreições armadas ou ataques terroristas – para justificar medidas antidemocráticas. [...] Como não há um momento único – nenhum golpe, declaração de lei marcial ou suspensão da Constituição – em que o regime obviamente “ultrapassa o limite” para a ditadura, nada é capaz de disparar os dispositivos de alarme da sociedade. Aqueles que denunciam os abusos do governo podem ser descartados como exagerados ou falsos alarmistas. A erosão da democracia é, para muitos, quase imperceptível. [...] As democracias funcionam melhor – e sobrevivem mais tempo – onde as constituições são reforçadas por normas democráticas não escritas [...] a tolerância mútua, ou o entendimento de que partes concorrentes se aceitem umas às outras como rivais legítimas, e a contenção, ou a ideia de que os políticos devem ser comedidos ao fazerem uso de suas prerrogativas institucionais. Trechos extraídos da obra Como as democracias morrem (Zahar, 2018), dos professores e cientistas políticos estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, realizando uma análise crua e perturbadora do fim das democracias em todo o mundo, comparando o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos, tais como da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970, fazendo uma alerta: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE EDGARD VARÈSE
Deve-se pensar em termos de som e não em termos de notas sobre o papel. Minha linguagem é naturalmente atonal ainda que certos temas, certas notas repetidas, à maneira das tônicas, constituam eixos em torno dos quais as massas parecem se aglomerar. Deste modo o desenvolvimento musical cresce pouco à pouco graças à repetição de certos elementos que se apresentam sempre sob diferentes aspectos, e o interesse aumenta graças à oposição dos planos e graças ao movimento das perspectivas. Se os temas reaparecem, eles ocupam sempre uma função distinta num meio novo (os volumes). Quando os novos instrumentos me permitirem escrever música tal como a concebo, os movimentos das massas e o deslocamento dos planos sonoros serão claramente perceptíveis na minha obra e tomarão o lugar do contraponto linear. Eu pessoalmente gosto muito da definição de H. Wronsky: 'A música é a corporificação da inteligência nos sons'.
EDGARD VARÈSE - Trechos extraídos da obra Écrits (C. Bourgeois, 1983), do compositor francês Edgard Varèse (1883-1965), reunidos e apresentados pela professora e musicóloga canadense, Louise Hirbour. O compositor definiu os parâmetros para uma nova ética da pesquisa musical, com o rigor da firmeza artística desligada de teorias apriorísticas, com o propósito visionário de referência do estado de inquietude.
&
A DEMOCRACIA DE TOM ZÉ
Democracia que me engana / na gana que tenho dela / cigana ela se revela, aiê; / democracia que anda nua / atua quando me ouso / amua quando repouso. / É o demo o demo a demo / é a democracia / é o demo o demo a demo / é a democracia. / Democracia, me abraça / com tua graça me atira / desfaz esta covardia, aiê; / democracia não me fere / mira aqui no meio / atira no meu receio. / Democracia que escorrega / na regra não se pendura / na trégua não se segura, aiô; / democracia pois me fere / e atira-me bem no meio / daquilo que mais eu mais receio. / Democracia, não me deixe / sou peixe que fora d'água / se queixa, morre de mágoa, aiê; / democracia não se dita / maldita seja se dura, / palpita pela doçura.
Democracia, do álbum No Jardim da Política (1984), parceira de Tom Zé e Vicente Barreto. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
No meu trabalho, mesclo elementos abstratos e realistas para criar clima, movimento e uma impressão do mundo ao nosso redor e dentro de nós. Minhas pinceladas estão se movendo, empurrando, emergindo e esmagando, mas nunca estão quietas e quietas. No meu trabalho recente, eu pintei o estilo alla prima, acrescentando espontaneidade, ousadia e elegância de uma só vez. Eu pinto contando histórias mágicas e evocando emoções complexas.
LYUDMILA TOMOVA – A arte da premiada pintora, ilustradora e designer editorial búlgara Lyudmila Tomova, que estudou realismo clássico na Academia de Belas Artes de Sofia e mais tarde na FIT em Nova York, onde estudou ilustração, além de sua experiência artística diversificada há mais de 20 anos. Veja mais aqui e aqui. E mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da pianista e compositora Lucia Helena Gondra, autora de frevos como Riso largado no passo rasgado, Vou de reboque, Os bordões, entre outros sambas, choros e frevos de blocos.
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A música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre aqui.
Outro sol se levanta, do escrito Pelópidas Soares (1922 – 2007) aqui.
Rio Una: poemas, do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981) aqui.
A realidade social da ficção, do sociólogo Sebastião Vila Nova aqui.
A arte da fotógrafa, artista visual e pesquisadora Ana Lira aqui.
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A Praieira em Água Preta aqui.


segunda-feira, abril 20, 2020

AMANDA PALMER, DJANIRA, ROSA LOBATO, MÁ MATIAZI, TIÊ & KARINA FREITAS


MANUAL DE ESTUPIDOLOGIA – UMA: CONDIÇÃO HUMANA & BANALIZAÇÃO DA MALDADE – Que mundo é este hem? Que coisa! Da para enxergar? Em tempos da Idiocracia do Coiso e seu mínions, cafos & fabos, anestesiados pelo ódio, enquadrados na Lei do Cipolla (aquele mesmo que assinala que o estúpido é mais perigoso que o bandido) e no emburrecimento, imbecilização e insanidade, questiona-se se não seria própria da barulhenta barbárie a afeição pela espetacularização da desgraça e a sedução pelo sangreiro em que a banalidade do mal se sobrepusesse à potência do bem, levados pela vingança e o julgamento de quem estiver fora desses padrões. Quanta mediocridade! O alerta de Hannah Arendt: Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança. Ela nos ensina que o mal não está somente no outro. Hem? Afinal, quem comete o mal? Se não é o outro e não sou eu, quem? Ninguém é culpado. Mesmo? Quem é ninguém? Nenhum alguém, nem eu? Cadê minha sombra que me esqueci do que sou e não sei. DUAS: A CONDIÇÃO HUMANA ENTRE A NORMOSE & A DESUMANIDADE - Alô, alô! Tem alguém aí? Ah, não! Segue-se atolados na normose, simples servidão a cumprir regulamentos e regras simplesmente, não precisa pensar e nem procurar sentido algum para nada, viver apenas burocraticamente, livre de ter escolhas entre o verdadeiro e o falso. Não ao justo ou direito, o menor prejuízo; não a verdade, a ignorância diante de tantas informações. Isso é vida? A simples sobrevivência com as muletas tecnológicas e mais nada: não se precisa mais de ninguém. Ouvi Bernard Shaw: O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade. Eita! Ou, por mim, Anatole France: Preferi sempre a loucura das paixões à sabedoria da indiferença. É que a indiferença, então, seria ou não a nossa condição de desumanidade. O que fizeram da minha utopia? TRÊS: CREPÚSCULO DAS RELIGIÕES, DISTOPIAS & DATAÍSMO – Qual que é: quem tem dinheiro, ganha; quem não tem, amealha amarguras e nunca esqueça dos dízimos, viu! Isso é igual a Mateus 13,13 do Novo Testamento. Agora, sim, a lei do dataísmo em vigência nos leva pelos algoritmos, entre bits e metadados: o ser humano, então, é só o combustível para converter tudo em dinheiro e lucro, apenas. Tudo para o panteão da riqueza comandado pelo deus dinheiro e deus lucro, santos ricaços e tudo o mais da acumulação terrena. Vôte! Inconformado, quase um patafísico e na tentativa de ser apenas um estúpido a menos, vou cantando Bob Dyllan: Quando não se tem nada, não há nada a perder. E vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] É sabido que na infância o tempo não passa, na adolescência demora-se, na idade adulta corre, na velhice precipita-se. Nunca ninguém morre, só quem nós matamos na memória, no pensamento e no coração. Pensamento da escritora e dramaturga portuguesa, Rosa Lobato de Faria (1932-2010), autora desse belíssimo poema: De todas as palavras escolhi água, / porque lágrima, chuva, porque mar / porque saliva, bátega, nascente / porque rio, porque sede, porque fonte. / De todas as palavras escolhi dar. / De todas as palavras escolhi flor / porque terra, papoila, cor, semente / porque rosa, recado, porque pele / porque pétala, pólen, porque vento. / De todas as palavras escolhi mel. / De todas as palavras escolhi voz / porque cantiga, riso, porque amor / porque partilha, boca, porque nós / porque segredo, água, mel e flor. / E porque poesia e porque adeus / de todas as palavras escolhi dor.

A MÚSICA DE AMANDA PALMER
É o seguinte: todo mundo parte de alguma carência. Queremos que nos vejam, nos entendam, nos aceitem, se conectem com a gente. Todos nós queremos que acreditem na gente. A única coisa é que os artistas costumam ser mais… veementes a respeito disso. As pessoas sempre querem alguma coisa de você. Seu tempo. Seu amor. Seu dinheiro. Que você concorde com elas, com as posições políticas e pontos de vista delas. E você nunca consegue dar o que querem. Mas você nunca consegue dar às pessoas o que elas querem. Mas pode lhes dar outra coisa. Pode lhes dar empatia. Pode lhes dar compreensão. E isso é muito, e suficiente.
AMANDA PALMER - A arte da artista, cantora, compositora e pianista estadunidense Amanda Palmer, autora do livro A arte de pedir (Intrínseca, 2015), resultante de uma palestra homônima e que trata essencialmente de recorrer ao outro, sem temor, sem vergonha e sem reservas, considerando que por que não pedimos ajuda, dinheiro, amor, com a mesma naturalidade com que pedimos uma cadeira vazia num restaurante ou uma caneta, na rua, para fazer uma anotação. Ela defende que é digno e necessário, e é a conexão entre quem dá e quem recebe que enriquece a vida humana. Longe de ser um manual sobre como pedir, o livro é uma provocação bem-vinda e urgente, que incita o leitor a superar seus medos e admitir o valor de precisar e doar ajuda, sempre.
&
O CANTO DE TIÊ
A arte da cantora e compositora Tiê Gasparinetti Biral, que já lançou quatro álbuns de estúdio e vem despontando como grande artista. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, desenhista, ilustradora e cenógrafa Djanira Motta e Silva (1914-1979). Veja mais aqui.
&
A ARTE DE MÁ MATIAZI
A arte da escritora, quadrinista e ilustradora Má Matiazi. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Delírios gráficos é como tenho chamado parte de meu trabalho em que me expresso através de colagens. É um misto de brincadeira e experimentação. As imagens são criadas a partir de um processo muito intuitivo, tratam da necessidade de se sentir livre, de se lançar e desfazer certezas, procurar caminhos desconhecidos. Qualquer caminho que tenha coração.
A arte da ilustradora e designer gráfica Karina Freitas, que tem seu trabalho reunido no Projeto Curadoria e Cargo Collective.
A literatura do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976) aqui & aqui.
A poesia de Oliveira de Panelas aqui.
A música de Maria Dapaz aqui.
Biblioterapia aqui.
Camões & Camonge aqui.
Tolinho & Bestinha aqui.
São Benedito do Sul aqui & aqui.


quinta-feira, julho 26, 2018

JUNG, HUXLEY, ANTONIO MACHADO, SHAW, LAURINDO ALMEIDA, GIBRAN & CARMEN TYRREL


A VOLTA DE ZÉ PEIÚDO – Imagem: a arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel. - Quase vinte anos depois, Zé Peiúdo botava os pés de volta nas terras de Alagoinhanduba. Ninguém o reconheceu a pisada, era quase outro, irreconhecível, embecado de gola e colarinho, uma garrafa metálica num bolso e O catecismo de Mister T – aquele da temperança do Big Shit Bôbras, no outro. A primeira providência: ter com o Zé-Corninho, a sua maior vítima. Ao encontrá-lo, travou conversa amistosa. Lá pras tantas: Sabe com quem tá falando, Zé? Desculpa, mas nunca vi mais gordo. Eu lhe conheço, cabra, sou Zé Peiúdo. Oxe, Corninho deu um salto solto e caiu em pé, as munhecas em riste, arregaçando a manga da camisa, pronto pra briga. Calma, meu amigo, não sou mais aquele, agora sou um Pastor de Jesus e vou provar. E deitou a maior lábia, tomou um gole da garrafa e Corninho só com o pé atrás. Daí a pouco o forasteiro deu um espirro e o milagre aconteceu: a casa do desconfiado era de taipa e tornou-se uma chique de alvenaria, a mais luxuosa do arruado. Vixe! Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! Corninho com os olhos esbugalhados não acreditava no que via. Foi até a porta e ficou maravilhado: tudo novo e do melhor. Voltou-se e ficou agarrado ao agora benfeitor na maior das gratidões. Foi abraçado de quase não largar. Peiúdo depois de muxoxos e risadinhas, às despedidas, acenou, pois, tinha que continuar a sua missão. Ao arrodear a cidade, deu com um cidadão quebrando cabeça para mudar o pneu furado do carro. Permita. Enquanto o impaciente dificultoso atendia ao telefone aos esturros, ele ingeriu o líquido da garrafa e, num piscar de olhos, tudo resolvido. Ao desligar o aparelho, espantou-se com a providência: Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O satisfeito abraçou o estranho dizendo: Sabe com quem você está falando? Peiúdo disse apenas ser Servo de Jesus, enquanto o agraciado colocava um cartão no seu bolso, sob a recomendação de só vê-lo quando saísse. Assim fez. Já distante do local, pegou no bolso e viu: Juiz de Direito. 2x0. Mantendo sua caminhada a esmo, soube que a moenda da usina dera bronca. Foi lá, pediu que todos se afastassem e secretamente resolveu o impasse: Pronto, está tudo funcionando. O dono apareceu: Como fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O usineiro arrogante perguntou quanto custava o seu serviço, negando cobrar qualquer quantia. Logo fez amizade com o ricaço. 3x0. Aí ouviu de um passante que o teto da igreja desmoronava. Foi lá, começou a remexer nas coisas e, num instante, tudo em perfeita ordem. O padre Quiba ao presenciar aquilo, saiu gritando: Milagre! Milagre! O pároco virou-se para ele: Como fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! 4x0. Dali viu uma correria do povo, acompanhou o pandemônio e era a ponte que ameaçava cair. Foi pra baixo dela, escondeu-se e, num instante, estava em perfeitas condições. O povo aplaudiu sua façanha. Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! E foi obrando milagres e caridades que ele ganhou a amizade do prefeito, do delegado, do juiz, do padre, do catimbozeiro, do espírita, dos clubes de serviço e de toda população. Era o roliúde. Quem é ele? Indagavam para lá e para cá, aos elogios. Só pode ser um enviado! É um santo vestido de gente! Um anjo que caiu do céu. Ao cabo de dias, o mistério se revelava: Ah, é o Zé Peiúdo! Não pode, aquele salafrário? Não, agora é pastor duma igreja aí. Vixe! O homem agora é de vera. E passou de primavera a verão, de outono a inverno, botada e pejada na usina canavieira, e ao se aproximarem as eleições, seu nome foi cogitado, definindo-se como o favorito naquele pleito. Não tinha pra mais ninguém. Então, diante dos festejos com a sua candidatura, falou para todos que tinha uma conta para ajustar. Num comício ruidoso e discurso inflamado, lançou a candidatura de Zé-Corninho a prefeito do lugar. De novo? É reprise? E que ele, no máximo, poderia aceitar a ser vice. Ah, tá. Oxe, foi barbada, mais tivesse! Só teve um voto nulo: o do próprio Corninho que não acertou votar nele mesmo, de novo! Virou festa. Seis meses depois de assumir a prefeitura, a Câmara de Vereadores cassava espetacularmente Corninho num processo que ninguém nunca viu tramitar, para entregar o cargo ao Peiúdo, logo entronizado como Imperador, a mandar e desmandar, acoloiado com seus aliados. Pintou e bordou por três anos e meio, podre de rico, bufando e peidando. Como nem tudo dura pela vida toda, a garrafa metálica trincou e pegou fogo no bolso, queimando o catecismo, as calças e quase os seus guardados. Foi um alvoroço. Não demorou muito, ao anúncio das novas eleições, ele reeleito certo, a sorte dava uma virada e ele sabia ter chegado a hora. Sumiu de ninguém ver-lhe o rastro, assim sem mais nem menos, e da prefeitura só se ouvia sobre os salários atrasados, endividamento, afanação de saldos públicos e todo tipo de roubalheira, a ponto de instaurar uma intervenção barulhenta de findar todo mundo suspeito e envolvido na patifaria. Como é? Maior pega-pra-capar! E agora, gente? Golpe desse, ah, todo mundo paga o pato. Alagoinhanduba nunca mais foi a mesma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Laurindo Almeida (1916-1995): Music of Brazilian Master, Master Jazz, Classical Current & Leverkusener Jazztage & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Sem uma compreensão do desejo profundo que têm os seres humanos de se autotranscenderem, da relutância natural que experimentam em tomar o caminho duro e difícil da ascensão espiritual, e da consequente procura doe uma falsa libertação, ou em torno de um aspecto de sua personalidade, não poderemos entender a época em que vivemos ou mesmo a História em geral, a vida como foi vivida no passado e como o é em nossos dias. Por esta razão, proponho discutirmos alguns dos mais comuns sucedâneos da Graça, nos quais e através dos quais homens e mulheres têm tentado escapar da torturante consciência de serem apenas eles mesmos. [...]. Trecho de Transcendência Descendente (1952), extraído da obra Moksha (Globo, 1993), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), título este que que em sânscrito significa “liberação”, reunindo uma coletânea de ensaios sobre experiências visionárias e com etheogenos como uma ferramenta de exploração mental e espiritual e meios de expandir os níveis de consciência. Veja mais aqui.

CONSCIÊNCIA & INCONSCIENTE – [...] O homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja transmitir. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes, faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos. [...] O homem, como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. [...] O homem desenvolveu vagarosa e laboriosamente a sua consciência, num processo que levou um tempo infindável, até alcançar o estado civilizado (arbitrariamente datado de quando se inventou a escrita, mais ou menos no ano 4000 A.C.). E esta evolução está longe da conclusão, pois grandes áreas da mente humana ainda estão mergulhadas em trevas. O que chamamos psique não pode, de modo algum, ser identificado com a nossa consciência e o seu conteúdo. [...] A consciência resiste, natural mente, a tudo que é inconsciente e desconhecido. [...] Ante acontecimentos desagradáveis, os primitivos têm as mesmas reações do animal selvagem. Mas o homem "civilizado" reage a idéias novas da mesma maneira, erguendo barreiras psicológicas que o protegem do choque trazido pela inovação. [...]. Trechos de Chegando ao inconsciente, extraído da obra O Homem e seus símbolos (Nova Fronteira, 2008), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Veja mais aqui.

A VIOLETA AMBICIOSA – [...] A violeta abriu os lábios azuis e disse: “Como eu sou infeliz em meio a estas flores e como é humilde a posição que ocupo diante delas! Fez-me a natureza para ser curta e pobre... Eu vivo muito próxima da terra e não posso erguer minha cabeça até o céu azul ou voltar minha face ao sol como as rosas fazem!”... E a rosa ouviu as palavras de sua vizinha; ela riu e comentou: “Como é estranha a tua fala! Tu és feliz, embora não possa compreender tua fortuna. A natureza doutou-te de fragrância e beleza, o que não fez com nenhuma outra flor... Aparta de ti estes pensamentos, sô contente e lembra-te de que aquele que se humilha será exaltado e aquele que se exalta será esmagado”. [...] À tarde, o sol tornou-se espesso de nuvens negras; os elementos raivosos perturbaram o silêncio da existência com raios, e começaram a atacar o jardim, enviando à terra enorme chuva com fortes ventos. A tempestade lacerou os ramos e desenraizou as árvores e quebrou as hastes das flores altas, poupando apenas as pequeninas que cresciam bem junto ao coração da terra. [...]. Trecho do conto A violeta ambiciosa (Cultrix, 1967), do poeta, filósofo e pintor libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931).

RETRATO – Minha infância: memórias de um pátio de Sevilha, / e de um horto claro onde madura o limoeiro; / juventude, vinte anos em terras de Castilha; / a minha história quero esquecer por inteiro. / Mañara, nem Bradomín hei sido / — já conheceis meu torpe alinho indumentário — / mas recebi a flecha que me apontou Cupido, / e amei quanto elas possam ter de hospitalário. / Tenho nas veias gotas de estirpe jacobina, / mas o meu verso brota de manancial sereno; / e, mais que o homem usual que sabe sua doutrina, / eu sou um homem bom, um homem sem veneno. / Adoro a formosura, e na moderna estética / cortei as velhas rosas do jardim de Ronsard; / mas não amo os enfeites da moderna cosmética, / nem sou uma ave dessas do novo gay-trinar. / Eu desdenho as romanças desses tenores pecos / e dos grilos o coro a cantar ao luar. / Procuro distinguir entre as vozes e os ecos, / e entre as vozes só escuto a que prefiro amar. / Sou clássico ou romântico? Não sei. Deixar quisera / meu verso como deixa o capitão sua espada; / famosa pela mão viril que ao alto a erguera, / não pelo douto ofício do forjador prezada. / Dialogo com o homem que sempre vai comigo / — quem fala a sós, espera falar a Deus um dia —/ meu solilóquio é prática com este bom amigo / que ensinou-me o segredo de sua filantropia. / Enfim, nada vos devo; deveis-me o que hei escrito. / A meu trabalho acudo, com meu dinheiro pago / a roupa que me cobre e a mansão que habito, / o pão que me alimenta e o leito onde me apago. / E quando chegue o dia da última viagem, / e esteja de partida a nau sem retornar, / me encontrareis a bordo ligeiro de equipagem, / quase desnudo, nu como os filhos do mar. Poema do poeta e dramaturgo espanhol Antonio Machado (1875-1939). Veja mais aqui.

PIGMALIÃO DE SHAW
[...] Liza: (Chorando.) Eu num quero. Num posso. Num é da natureza; vai mi mata. Num tumei um banho in toda minha vida; issu é, nunca tumei um banhu, di corpo intero. [...] Sra. Pearce: Bom, agora chega de chorar, vai pro teu quarto e tira a roupa. Toda! Embrulhe-se nisto (pega uma camisola de um cabide e dá a ela) e volte aqui. Vou aprontar o banho. [...] Liza: (Espantada.) Nãão! Pruquê ia tira? Pra pega tísica? A saia sim, tá bom, a saia eu tiro. Sra. Pearce: Quer dizer que você dorme com a mesma roupa suja com que anda na rua o dia inteiro? [...] Liza: Mas a sinhora nim sabi o friu qüi eu sinto – tenho hourror du friu. Já vi muita genti mourrê di friu. Sra. Pearce: A sua cama aqui vai estar bem quentinha – vou pôr um bom saco de água quente nas cobertas. [...] Liza: (Zangada) Você vai se prender, se amarrar dessa maneira com uma mulher baixa e vulgar? Pickering: (Calmo) Ele é obrigado, Eliza. (Pra Doolittle) Mas não era ela que não queria? Mudou de idéia? Doolittle: (Triste) Invergronhada, partrão. Invergronhada. A moural da crasse mérdia percisa di vítimas. Não quéu chapéu e vi ansisti meu sarcrifício, Liza? [...].
Trechos da peça teatral Pigmaleão (L&PM, 2005), do dramaturgo, escritor e jornalista irlandês Bernard Shaw (1856-1950). Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel. 
Veja mais aqui, aqui e aqui
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As sacanagens de Zé Peiúdo aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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Os avós só botam a perder, Os arquétipos & o inconsciente de Carl Gustav Jung, Contraponto de Aldous Huxley, A arte de Jenny Saville & Marie Johnson Harrison, a música de Moacir Santos, Érica Garcia, Jacob de Haan & Mawaca aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


quinta-feira, fevereiro 12, 2015

VONA GROARKE, JANE JACOBS, NIVIAQ KORNELIUSSEN, NAVI PILLAY & ASIA ARGENTO

 


OS DEMÔNIOS DE ANNELIESE... – Aquela linda adolescente vivia do trabalho na serraria dos pais. Era bondosa, doce, amorosa. Mas era governada pelo medo, pois havia um segredo olvidado: uma irmã ilegítima e a mãe vestida de negro no casamento. A irmã morreu e ela foi obrigada a expiar os pecados da mãe na sua fervorosa devoção. Estava cercada pelo pecado, quando queria livrar-se deles. Peregrinava por lugares ditos “santos” recusando-se ao crucifixo ou águas sagradas. Obcecada, ela dormia nua sobre pedras para remissão dos pecados da sua mãe e dos viciados em drogas. Acusaram-na de possessão demoníaca. De repente teve convulsões, tinha alucinações enquanto rezava. Foi internada por um ano porque o que era tido por “sagrado”, para ela, "cheirava como o próprio inferno". Foi diagnosticada com epilepsia e jamais fora medicada. A depressão levou-a a ouvir vozes condenando-a a apodrecer no inferno. Estava prestes ao suicídio e com o diagnóstico do “Grande Mal”. Rasgava suas roupas e andava nua pela casa. Bebia sua própria urina, alimentando-se de carvão e insetos. Foi internada em um hospital psiquiátrico e frustrou-se com a intervenção médica: cada vez mais piorava. Tratada à base de antipsicóticos, dizia estar vítima de uma possessão demoníaca. Tornou-se intolerante aos lugares e objetos ditos “sagrados”, repudiava qualquer imagem de Jesus. Veio a terceira convulsão no hospital, os médicos prescreveram uma droga desconhecida e antoconvulsivante. Nenhum alívio para sua dor. Encarava as faces do diabo com o que ela dizia ser seu distúrbio espiritual. Recorreu ao exorcismo, enquanto aplicavam-lhe drogas para tratamento de psicoses diversas, todos ineficazes. Outra droga antiepiléptica lhe foi ministrada. O bispo – o mesmo que um dia consagrou Ratzinger - concedeu a permissão ao Rituale Romanum de 1614 e que tudo corresse em sigilo. Sua vida nas mãos dos ritos e foi submetida a diversos rituais de exorcismo por conta de estar possuída por uma legião de demônios, todas ministradas por padres. Sessenta e sete sessões, duas por semana, dez meses de sacrifício e brutalidade: pendurada de cabeça pra baixo, quando não acorrentada a uma cadeira. Quarenta e duas horas ininterruptas de sessão. Ela se ajoelhava seiscentas vezes por dia até romper os ligamentos dos joelhos, arrastando-se a latir como um cão, uivando por dias. Comeu a cabeça de um pássaro morto, até ficar trancada sem dormir nem comer nem beber. Rosnava, xingava, jejuando na crença de salvar-se daquele suplício. Recusou-se a comer preferindo a morte para expiar a sua juventude rebelde. Recusou-se da vida aos gritos: Morrer para expiar os jovens rebeldes da época e os padres apóstatas da igreja moderna... De que adiantavam os médicos – não havia medicação eficaz, diziam eles. Desnutrida, desidratada, esquelética, agressiva, quase prestes à inanição, foi levada à indução doutrinária – afinal, argumento da defesa dos pais: a Constituição alemã protegia o exercício irrestrito das crenças religiosas. Causa mortis: desnutrição. E ela só queria, desde garotinha, cumprir penitências para compensar os supostos pecados da mãe. Uma tuberculose: vítima de padres católicos e de pais fanáticos religiosos, condenados por homicídio negligente: Deus nos disse para exorcizar os demônios de minha filha. Eu não me arrependo de sua morte... Uma freira carmelita sonhara que o corpo dela estava intacto, o que, para ela, provava o suposto caso sobrenaturalista. Exumaram o corpo em avançado estado de decomposição: sumiram as fotos da exumação. Negligência médica, fanatismo religioso. Sequer ouviu-se a súplica antes de morrer: Mãe, estou com medo... E a cidade se envergonhava. Palavras da mãe depois à imprensa: Eu sei que fiz a coisa certa, porque eu vi o sinal de Cristo em suas mãos. Ela estava tendo feridas e isso foi um sinal de Deus para exorcizarmos seus demônios. Ela morreu para salvar outras almas perdidas, para expiar seus pecados... Outros fanáticos ainda hoje acreditam que ela poderá salvar a humanidade. Ah, esse o verdadeiro réquiem de Anneliese, a vítima do Caso Klingebberg – (Anna Elisabeth Michel (1952-1976). Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Discriminação e múltiplas privações de direitos humanos também são frequentemente parte do problema, sentenciando populações inteiras à pobreza... É certamente um motivo de indignação que mais de meio milhão de mulheres morram anualmente de complicações relacionadas à gravidez e ao parto. Isso é quase metade do número anual de mortes globais e, sem dúvida, um reflexo direto do desempoderamento das mulheres na vida social, econômica e política. Pensamento da jurista sul-africana Navi Pillay (Navanethem Pillay), que durante 28 anos foi advogada na defesa das causas ativistas anti-Apartheid.

 

ALGUÉM FALOU: As atitudes das pessoas sobre o sexo não são saudáveis em nenhum lugar, exceto talvez naquelas tribos onde elas andam nuas. O que você pode ver como depravação é, para mim, apenas outro aspecto da condição humana. Pensamento da atriz, cantora, modelo, roteirista e cineasta italiana Asia Argento (Asia Aria Maria Vittoria Rossa Argento).

 

VIDA & MORTE DAS CIDADES - [...] As cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos, somente porque, e somente quando, são criadas por todos. [...] Por sua natureza, a metrópole proporciona o que de outra forma só poderia ser proporcionado por meio de viagens: o estranho. [...] Uma rua da cidade equipada para lidar com estranhos e para fazer um ativo de segurança, em si, da presença de estranhos, como as ruas de bairros urbanos bem-sucedidos sempre fazem, deve ter três qualidades principais: Primeiro, deve haver uma demarcação clara entre o que é espaço público e o que é espaço privado. Espaços públicos e privados não podem se infiltrar um no outro como normalmente acontece em ambientes suburbanos ou em projetos. Segundo, deve haver olhos na rua, olhos pertencentes àqueles que poderíamos chamar de proprietários naturais da rua. Os edifícios em uma rua equipada para lidar com estranhos e garantir a segurança de moradores e estranhos devem ser orientados para a rua. Eles não podem virar as costas ou deixar os lados em branco para ela e deixá-la cega. E terceiro, a calçada deve ter usuários nela de forma bastante contínua, tanto para aumentar o número de olhos efetivos na rua quanto para induzir as pessoas em edifícios ao longo da rua a vigiar as calçadas em números suficientes. Ninguém gosta de sentar em uma varanda ou olhar pela janela para uma rua vazia. Quase ninguém faz uma coisa dessas. Um grande número de pessoas se diverte, de vez em quando, observando as atividades de rua. [...] Existe uma qualidade ainda mais mesquinha do que a feiura ou a desordem, e essa qualidade ainda mais mesquinha é a máscara desonesta de uma ordem fingida, alcançada ao ignorar ou suprimir a ordem real que está lutando para existir e ser servida. [...] Não há lógica que possa ser sobreposta à cidade; as pessoas a fazem, e é a elas, não aos edifícios, que devemos adequar nossos planos. [...]. Trechos extraídos da obra The Death and Life of Great American Cities (‎Vintage, 1992), da jornalista, escritora e ativista estadunidense Jane Jacobs (Jane Butzner Jacobs – 1916-2006).

 

HOMO SAPIENS – [...] O mundo real me cumprimenta. O mundo real chega todos os dias e o mundo real dói [...]. Trecho extraído da obra Homo sapienne (Peuplade, 2014), da escritora groenlandesa Niviaq Korneliussen, que ainda se expressa: Algumas pessoas estão destinadas a mudar o mundo. Elas dão amor. Elas têm o poder de perdoar. Elas trabalham duro pelo que acreditam. Elas ganham a atenção do público. Elas são as poucas pessoas úteis para a sociedade. Essas pessoas devem ser apoiadas, pois são as que são valiosas e têm algo a retribuir. Depois, há todo o resto que deve apoiar os poucos. Essas pessoas devem se sacrificar para que os bons possam ter sucesso na vida. Muito estúpido da minha parte pensar que eu era o primeiro tipo de pessoa. Eu sou o segundo tipo.

 

AS PEQUENAS HORAS - Um joyrider rasga Lockland. \ Demora apenas cinco minutos \ para um helicóptero da esquadra \ para mergulhar e girar sobre gramados \ e duas linhas opostas de carros \ Estacionado inocentemente confortável para a calçada. \ Ainda não o encontraram. \ A cada dois minutos ou assim, \ Minhas persianas em luz ultrajante \ e o helicóptero transporta seu drone \ e briga por todo o meu quintal. \ Há um ventilador sobre a minha cama \ que diz coisas semelhantes no verão: \ Adages, reprovante e retórica. \ Eu falo demais; dou muito longe. \ Ao murmurar minha empresa, eu considero \ um duplo pagamento: alguns eco; \ sendo descoberto, consequência. \ Eu minto-me baixo. Os minutos incham. \ Ele deve estar lá em algum lugar, \ luzes desligadas, agachadas e empacotadas, \ pé dentro de uma polegada do início. \ Eu puxo o consolador sobre meus ouvidos, \ conte até quarenta e dois, depois comece de cima. \ Estou a tentar, a esforçar-me, a prender a respiração. Poema da poeta irlandesa Vona Groarke.

 

SACADOUTRAS

 

PEGADA DE CARBONO – Em matéria assinada por Beatriz Maria Phillippi, as crianças estão promovendo a distribuição de material atinente à pegada de carbono que significa o rastro de CO2 que nós produzimos na nossa vida diária, pois para viver consumimos energia e estamos, de alguma maneira, contribuindo para o aumento de CO2 na atmosfera. Consequentemente estamos causando um impacto no meio ambiente. Em vista disso se faz necessária a realização de uma pegada ecológica que compara o consumo de recursos da terra pela população com a capacidade do planeta de se regenerar. No entanto, estamos atualmente consumindo mais do que a Terra consegue recuperar, ou seja, a pegada ecológica da Terra está 23% acima da capacidade. E para regenerar o que nós consumimos em um ano precisaremos de mais um ano e dois meses para tal. O que fazer? Você pode fazer algumas coisas, por exemplo: deixe o carro em casa, poupe energia, separe lixo, contribua com projetos que visem reduzir as emissões de carbono e evite imprimir desnecessariamente. As crianças estão no nosso pé para que tenhamos uma pegada ecológica. Até o Nitolino já entrou na campanha exigindo que os adultos adotem atitudes positivas pesquisando e se informando a respeito. O planeta é nosso, vamos ajudar a preservá-lo. Veja mais aqui.

Imagem: Oración (óleo sobre tela) do artista plástico soviético Kazimir Malevich (1978-1935)

Ouvindo: Interregno (1980), do compositor, escritor e escultor suíço Anton Walter Smetak (1913-1984) e o conjunto Microtons. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – Quando não se pensa direito, a cara sofre a maior vergonha. Tenho dito.

Z – A experiência de assistir ao suspense político Z (em grego Ele está vivo, 1969), do cineasta franco-grego Constantin Costa-Gavras, baseado no romance homônimo de Vassilis Vasilikos, trata de acontecimentos reais que ocorreram na Grécia, em 1963, num cenário tenso em um dos líderes da esquerda opositora, reúne correligionários em reunião pela paz e contra a instalação de mísseis balísticos americanos naquele país. O filme na abertura traz uma advertência assinada por Costa-Gavras e Jorge Semprún: qualquer semelhança com eventos e pessoas da vida real é coincidência – é intencional. Por conta disso, o líder é atropelado e morre, concluindo as investigações tratar-se de um acidente, havendo indícios de se suspeitar da polícia aprofundando a investigação para identificação dos autores do crime envolvendo o poder. O julgamento ocorre com o desaparecimento de testemunhas, resultando na condenação a pena leve dos condenados. Ocorre, então, um golpe militar com perseguições e coações à liberdade de expressão. Merece também destaque a atuação da belíssima atriz e cantora grega Irene Pappás. Veja mais aqui e aqui.

UMA ARENGA DE ESCRITORES: QUALQUER CRIANÇA PODE FAZER - No livro Ciência e comportamento humano (Martins Fontes, 2003), o psicólogo behaviorista radical norte-americano, Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), registra uma desavença entre o escritor britânico Herbert George Wells (H. G.Wells – 1866-1946) e o dramaturgo, escritor e jornalista irlandês George Bernard Shaw, quando Wells comparou Shaw ao fisiólogo russo e Prêmio Nobel de Medicina de 1904, Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936): se os dois estivessem se afogando e só houvesse um salva-vidas, escolheria Pavlov. O desagrado de Shaw foi direto para Wells no seu livro Aventuras de uma negrinha à procura de Deus, trazendo uma cena em que ela encontra um velho míope que possui todas as características do cientista russo que se assusta com o rugido amedrontador do profeta Micah. Ao se recompor no meio da fuga, o russo para e exclama: Por que estou fugindo? Não tenho medo deste bom velho [...] Ao fugir você está agindo por um reflexo condicionado. É muito simples. Vivendo entre leões, você, em sua infância, associou o som de um rugido ao perigo e morte. Daí a sua fuga precipitada quando aquele supersticioso e velho asno gritou com você. Esta notável descoberta custou-me vinte e cinco anos de pesquisa devotada [...] O mundo científico em peso prostra-se aos meus pés, admirando minha obra colossal e agradecendo a luz que lancei sobre os grandes problemas da conduta humana. Por que não me perguntou? – disse a negrinha. – Eu poderia contar-lhe em vinte e cinco segundos, sem maltratar aqueles pobres cães. Disse o velho míope: - Sua ignorância e sua presunção são inauditas. É claro que o fato era do conhecimento de qualquer criança; mas nunca tinha sido provado experimentalmente no laboratório; e não era conhecido cientificamente. Chegou a mim como uma conjectura disforme: transformei-o em ciência. Vice alguma vez já conduziu um experimento? Disse a menina: - Muitas. Vou fazer uma agora. Você sabe onde está sentado? Estou sentado sobre um tronco encanecido pela idade e com uma superfície enrugada pouco confortável. Disse a menina: É engano seu. Você está sentado sobre um crocodilo adormecido. Com um grito que faria inveja ao próprio Micah, o míope levantou-se e fugiu espavorido, subindo a uma árvore vizinha com uma agilidade felina nada própria de um cavalheiro na sua idade. Disse a menina: - Volte aqui. Você deveria saber que os crocodilos somente são encontrados nas proximidades dos rios. Eu estava apenas fazendo um experimento. Volte aqui. Mas o velho míope é incapaz de descer e pede à menina que faça outro experimento. - Eu o farei, disse a menina. – Há uma cobra na árvore farejando seu pescoço. O míope estava no chão em um instante. Skinner, ao final, assinala que Shaw aprendeu o espírito de uma ciência do comportamento, entretanto, posiciona-se favorável a Pavlov explicando com detalhes que o que o russo fez foi ciência, não uma ação para qualquer criança. Veja mais aqui e aqui.

MUITAS PAIXÕES NUMA SÓ VIDA – O belíssimo e premiado filme Olga: muitas paixões numa só vida (2004), inspirado na biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais, dirigido por Jayme Monjardim e música de Marcus Viana, sobre a militante comunista e judia alemã Olga Benário (1908-1942), traz a lindíssima atriz Camila Morgado interpretando a personagem principal que é perseguida pela polícia e foge para Moscou, onde faz treinamento militar e fica encarregada de acompanhar Luis Carlos Prestes ao Brasil para liderar a Intentona Comunista de 1935. Ela se apaixona por ele durante a viagem e, com o fracasso da revolução, ela é presa grávida e deportada pelo governo Vargas para a Alemanha Nazista, tendo sua filha na prisão feminina do campo de concentração de Barmimstrabe. Afastada de sua filha, ela é enviada para outro campo de concentração onde é morta na câmara de gás. Aqui uma dupla homenagem: à Olga e à maravilhosa atriz Camila Morgado. Afinal, todo dia é dia da mulher. Veja mais aqui. 



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