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segunda-feira, julho 27, 2020

ANDREA ROSE FRASER, JANET CARDIFF, MARTHA ROSLER, GIANA VISCARD & MARTHA BATALHA



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: LUGAR, LUGARES - Vou, tempespaço & simulacros, piso em falso & ilusões de ótica: um lugar é qualquer, lugares se misturam na diluição das paisagens, um caleidoscópio. Onde estou e para vou dá no mesmo, com se fosse e voltasse o mesmo movimento, nos versos de Antonio Machado: Caminhante, não há caminho; faz-se caminho ao andar. Todo ignorante confunde valor e preço. Passos no encalço da liberdade, a culatrear: o meu país se esfacela, nação destruída como uma dor do peito.

DUAS: UM ANO & 7 MESES - Quase 2 anos de estultices, bate-cabeça e bumba-fuá, ódio e desmonte, incompetência e malvadeza. Não bastando o despreparo, a pandemia vira genocídio entre subnotificações, má vontade política no combate e aparelhamento para a blindagem das manipulações, a derrocada da democracia, degeneração das instituições. Lembra o vaticínio de Jean Baudrillard: O pior num ser humano é mesmo saber demais e ser inferior ao que sabe. Se a coesão da nossa sociedade era mantida outrora pelo imaginário de progresso, ela o é hoje pelo imaginário da catástrofe. Sobre milhares de cadáveres, Coisonário moteja: Não sou coveiro, mas vou enricar com funerária! Esse o porvir crepuscular de um país, o epílogo do Fecamepa!

TRÊS: VOLUNTÁRIA QUARENTENA - Ao longe, o que antes mata ínvia, agora canavial queimando matagal morro acima, terra abaixo. Meus olhos na fumaça do futuro, lacrimeja agora. Carl Jung alertava há tempos: É ilusório imaginar que o homem possa dominar e controlar a natureza, se ele não foi ainda capaz de controlar e enxergar a sua própria natureza. Sua visão se tornará clara somente quando você pode olhar para o seu próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta. Conto nos dedos os instantes circundantes, tudo é muito trágico apesar do radiante Sol da manhã aquecendo a Terra tumular e as dormentes cabeças suicidas. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Eu não sou uma pessoa hoje. Eu sou um objeto em uma obra de arte. Eu poderia ter dado um pouco mais de tempo. É divertido vender grandes obras de arte - e é lucrativo. No final, um bom artista é um artista rico. A maior parte do trabalho que colecionamos é sobre sexo ou excremento. Gostamos de pensar em nós mesmos como conhecedores da subcultura da arte. É preciso muita coragem para fazer o que ela faz. Ela vai muito além de onde a maioria dos artistas tem inteligência ou audácia para operar. Expressão da artista performática e escritora estadunidense Andrea Rose Fraser, durante a exposição performática Official Welcome, uma peça de 30 minutos. Ela desenvolveu ao longo dos anos as performances Museum Highlights (1989), Kunst muss hängen ("Art Must Hang") (Galerie Christian Nagel/Cologne, 2001), Official Welcome (2001), Untitled (2003), Little Frank and His Carp (2001) e Projection (2008). Ela atualmente é chefe de departamento e professor de estúdio interdisciplinar da Escola de Artes e Arquitetura da UCLA na Universidade da Califórnia, Los Angeles.

A ARTE DO SOM DE JANET CARDIFF
Meu principal interesse no som é como ele nos rodeia e nos influencia. É invisível, entra em nosso corpo, mas nos atinge de uma maneira muito tridimensional. Se você olhar para a partitura, é fascinante. Existem oito coros diferentes, e dentro de cada coro há um baixo, barítono, alto, tenor e soprano. Você pode ver a partitura movendo-se da esquerda para a direita na página de um coro para outro, para outro, e então eles se agrupam. Quando vi isso, pensei que seria realmente incrível mostrar como o compositor estava pensando sobre isso. Quando você entra no espaço, está cercado por esse movimento da música de um coro para outro, e então ele pula pela sala para outro coro. Em alguns pontos, vem em ondas e ondula, quase como as ondulações de um rio. Era como se o compositor fosse um escultor, e eu queria mostrar como a peça musical era escultural.
JANET CARDIFF – A arte da artista belga-canadense Janet Cardiff que trabalha principalmente com instalações sonoras na perspectiva de que o som pode trazer uma infinidade de lugares e tempos juntos e tem um enorme potencial para tocar, envolver as pessoas. Em suas obras ela explora a emoção, a memória, e através de efeitos ela cria espaços virtuais ancorados na realidade, o que leva seus visitantes para o cruzamento entre ficção e realidade, espaços ilusórios em que a percepção acústica, bem como a estrutural, desempenha um papel importante onde se reúnem em intensidade hipnótica e emocional. Entre seus trabalhos estão The Murder of Crows (2008), Dark Pool (1995), The Paradise Institute (2001) e The Killing Machine (2007), entre outros. Ela desenvolve uma parceria com o alemão George Bures Miller, com quem realizou O Poço Negro (1995), Paraíso Institute (2001), entre outros.
&
A MÚSICA DE GIANA VISCARD
Muito tempo se passou, mas o caminho aventureiro de criar arte, música com o frescor do risco, do inusitado, ainda está comigo.
GIANA VISCARD - A arte musical da cantora e compositora Giana Viscard, que estudou no Centro Livre de Aprendizagem Musical (CLAM/SP) e na Berklee College of Music, em Boston, participou do Coral da USP e frequentou o Groove, Curso Livre de Música, em São Paulo. Ela já lançou os álbuns Tinge (2003), 4321 (2005) e Orum (2013) e fez turnês internacionais. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Honestamente, comecei como pintora, e essas outras coisas eram uma maneira de expressar algo que não era abstrato, porque fui treinado como pintor expressionista abstrato. Gosto de trazer questões que são relativamente abstratas até o nível pessoal. Eu sempre me interessei em abordar pessoas, principalmente mulheres, mas não apenas mulheres, com a ideia de que você me reconhece por outros seres humanos. Mesmo no nível das roupas, pensando no meu trabalho anti-guerra, eu estava muito interessada em que as pessoas com quem lutávamos não se parecessem conosco e era muito fácil demonizá-las. Portanto, usando roupas como substituto da humanidade, em nosso mundo, fiz uma instalação em que coloquei o nome, data de nascimento e número de prisioneiras de algumas mulheres políticas presas pelo governo do Vietnã do Sul com roupas estadunidenses.
MARTHA ROSLER - A arte da artista conceitual estadunidense Martha Rosler, que trabalha com fotografia e texto fotográfico, vídeo, instalação, escultura e performance, além de escrever sobre arte e cultura, centrada na vida cotidiana e na esfera pública, muitas vezes de olho na experiência das mulheres. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
O humor é uma resposta aos absurdos da existência. Sempre quis ser escritora, mas precisava pagar as contas. Por isso escolhi profissões que me mantiveram próxima do mundo da escrita enquanto não tomava a decisão. Durante os anos de repórter, aprendi a escrever com foco, rápido e sob pressão; rodei o Rio de Janeiro e o Brasil, conheci pessoas, dramas, lugares. Depois, com a editora, aprendi sobre todas as etapas do processo de edição. Quando eu me mudei para Nova York, fiz um mestrado e tinha um bom emprego numa editora em Manhattan, mas faltava algo, ou, sendo sincera, faltava tudo. Se eu sempre quis ser escritora, então, o que é que estava fazendo ali, aos trinta e tantos anos, ajudando a editar os livros das outras pessoas? Então comecei a escrever, sem me preocupar muito com o resultado. Era mais um acerto de contas comigo mesma, uma decisão que me deixaria em paz com as escolhas de vida.
A arte da jornalista e escritora Martha Batalha, autora das obras A vida invisível de Eurídice Gusmão (2016) e Nunca houve um castelo (2018).
&
A poesia Ascenso Ferreira (1895-1965) aqui, aqui & aqui.
A literatura do escritor, radialista e compositor Antonio Maria (1921-1964) aqui.
Feito d’versos, do poeta popular José Maria Sales Pica-Pau aqui.
Eita, Zé Bestão aqui.
A música de Alceu Valença aqui.
&
O município de Tamandaré aqui & aqui.


sexta-feira, julho 26, 2019

BERNARD SHAW, ANTONIO MACHADO, THILO SCHMIDT, NEL ANGEIRAS & MARAVILHA DE VIVER


MARAVILHA DE VIVER - No meio da noite os pensamentos passam e rolam por aí, a esmo e sem paradeiro certo, pra cima e pra baixo, alguns me assaltam e me escondo no paradoxo: sou o que sou e o contrário, sou livre à vida convcrsável. Tenho pra mim o plural e o amplo para ser melhor que sou no exercício da mútuua piedade. Não julgo, sou pra conversa e conversão: compreender o princípio de vida. Sou-me inteiro na solidariedade humana e a todo ser vivente: diálogo fácil com bichos, plantas, invenções. Tenho comigo que posso mais do que sou, isso eu sei, ação pra quem anda solitário com tudo e todas as coisas. Em silêncio, sozinho vou além das aparências, sei que tudo se manifesta em mais de zis maneiras no grande esquema das coisas e seres. Cogitações, encaro incompreensões – nenhum gênero me é estranho; as ilusões passeiam, não presumo nada. Sigo pela filosofia da vadiagem, poeta à solta: criança maravilhada a dar conta dos fieis do amor no privilégio da felicidade com a doação do amor. E se é noite, tanto faz se dia, o que importa é a maravilha de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Na calada da noite do G20, a União Europeia conseguiu selar finalmente, após 20 anos de negociação, o acordo de livre comércio com o Mercosul. O texto do acordo tem que passar ainda pelos estados membros do pacto e do parlamento da EU, e pode sofrer alterações. O que está no acordo, é alarmante, para os dois lados do Atlântico. É um retrocesso para a agricultura, os direitos humanos, meio ambiente e clima, proteção dos consumidores. Quem ganha é a agroindústria e a indústria alimentícia. A maior parte das importações europeias do setor agrário e de alimentos vem dos países do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai (aprox. 90 bilhões de Reais por ano). Com o acordo, a parcela das importações deste setor proveniente do Mercosul pode subir de atualmente 17% para 25% até 2025. Em consequência, a já enorme pressão do setor agroindustrial sobre a Amazônia, terras indígenas, unidades de conservação, direitos humanos ainda tende a subir nos próximos anos. Alguns números: 94% de farelo de soja e 52% de grão de soja que a UE importa do mercado global vem do Mercosul. O superávit de produção alimentícia da EU vem das monoculturas brasileiras, argentinas, paraguaias, uruguaias – destruindo ao mesmo tempo os mercados nos países africanos. Produzindo assim refugiados, sem perspectiva de vida digna nos seus países de origem and so on and so on ... No Brasil, 96% dos campos de soja são cultivadas com Organismos Geneticamente Modificados OGM, 99% na Argentina. Na maioria, variedades de Monsanto/ Bayer. O Mercosul se torna o maior exportador de carne do mundo, o que se reflete nas prateleiras dos supermercados europeias: 73% da carne de boi e 56% da carne de frango vem do Mercosul. O acordo deve ainda aumentar estas cotas. Com isso, precisa-se produzir mais soja geneticamente modificado. A cota de importação de açúcar é de 100.000 t/a, etanol 600.000 hl/a, tendência para cima Brasil é, junto aos Estados Unidos, o maior consumidor de agrotóxicos no mundo. Ao mesmo tempo, com menor controle acerca de resíduos tóxicos nos alimentos. Na UE, o valor residual permitido de glifosato na soja é 0,05 mg/kg, no Brasil 10 mg/kg, 200 vezes mais. Na água potável, Brasil permite 5.000 vezes mais glifosato do que na Europa. Agrotóxicos se acumulam nos solos e no lençol freático, diminuem a fertilidade dos solos por prejudicar os microrganismos, levando assim à desertificação. Afinal, fecharemos o ciclo de intoxicação, com a volta de agrotóxicos europeias à Europa em forma de ração animal e de alimentos. Pelo menos neste sentido, uma contribuição à igualdade entre os povos. A situação “liberal” nos frigoríficos é bem conhecida, basta lembrar o escândalo de carne podre da JBS (Friboi, Seara), e da BRF Foods (Sadia, Perdigão). No âmbito do Mercosul, a EU vai lutar por controles mais rígidos? (Argumento da Angela Merkel no Bundestag, parlamento alemão, em 26.06.2019, ao defender fechar o acordo com o Mercosul no momento da presidência do Bolsonaro no Brasil) Ao contrário: pretende-se tratar a fiscalização de forma mais liberal. Mecanismos de controle serão substituídos por “garantias de suficiência” dos países exportadores – ou seja, mecanismos de autocontrole. Brumadinho manda lembranças! Ademais, o acordo fere o princípio de precaução, quanto a medidas de proteção ambiental e dos consumidores. Na UE, o princípio de precaução é parte do marco legal. A autorização de produtos pode ser negada em caso de dúvidas acerca da sua segurança, impactos para a saúde etc. Não será parte obrigatório do acordo, apenas facultativo, sem sanções – ou seja, não vale o papel impresso! Tem outros pontos críticos, como a representação dos interesses de multinacionais por lobbying, ausência de acordos acerca do desmatamento, da proteção de terras indígenas, dos direitos humanos etc. É necessário ficar de olho!
Texto Após 20 anos: União Europeia e Mercosul fecham acordo de livre comércio - Possíveis consequências do acordo, do Engenheiro alemão que atua na Gestão Sustentável de Resíduos Solidos, Thilo Schmidt, criador da Rede Hortas do Bem Comum e da Felicidade Comunitária. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE ANTONIO MACHADO
XVI - O homem, por índole, é besta paradoxal, / precisa de lógica esse absurdo animal. / Criou do nada um mundo e, obra terminada, / “Já sei o segredo – se disse – , tudo é nada.”
XLIV - Tudo passa e tudo fica, / e o que nos cabe é passar, / passar fazendo caminhos, / caminhos por sobre o mar.
LI - Luz do espírito, luz sagrada, / lanterna, tocha, estrela, sol… / Um homem às cegas na estrada; / leva nas costas um farol.
SEM TÍTULO -  De noite quando dormia / sonhei, bendita ilusão!, / que uma nascente fluía /dentro do meu coração. / Por que ribeira escondida, / agua, vienes hasta mí, / água, vens tu até mim, / manancial de nova vida / onde jamais eu bebí? / De noite quando dormia / sonhei, bendita ilusão!, / que uma colmeia vivia / dentro do meu coração; / e as douradas abelhas / iam fabricando nele, / com as amarguras velhas, / branca cera e doce mel. / De noite quando dormia / sonhei, bendita ilusão!, / que um ardente sol luzia / dentro do meu coração. / Era ardente porque dava / o calor de um rubro lar, / e sol porque alumiava, / porque fazia chorar. / De noite quando dormia / sonhei, bendita ilusão!, / que era Deus o que eu trazia / dentro do meu coração.
Poemas da obra Provérbios e cantares (El Pais, 2003), do poeta e dramaturgo espanhol Antonio Machado (1875-1939). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do quadrinista, ilustrador, desenhista, publicitário e webdesigner Nel Angeiras, criador da série & blog Noturnos. Ele também é o criador de diversos personagens, a exemplo do Ponto Zero, e participando de publicações como Areia Hostil, Projeto Continuum, Cabal e no HQNado. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE BERNARD SHAW
Só triunfa no mundo quem se levanta e procura as circunstâncias - e as cria quando não as encontra.
A obra do dramaturgo, escritor e jornalista irlandês Bernard Shaw (1856-1950) aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, julho 26, 2018

JUNG, HUXLEY, ANTONIO MACHADO, SHAW, LAURINDO ALMEIDA, GIBRAN & CARMEN TYRREL


A VOLTA DE ZÉ PEIÚDO – Imagem: a arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel. - Quase vinte anos depois, Zé Peiúdo botava os pés de volta nas terras de Alagoinhanduba. Ninguém o reconheceu a pisada, era quase outro, irreconhecível, embecado de gola e colarinho, uma garrafa metálica num bolso e O catecismo de Mister T – aquele da temperança do Big Shit Bôbras, no outro. A primeira providência: ter com o Zé-Corninho, a sua maior vítima. Ao encontrá-lo, travou conversa amistosa. Lá pras tantas: Sabe com quem tá falando, Zé? Desculpa, mas nunca vi mais gordo. Eu lhe conheço, cabra, sou Zé Peiúdo. Oxe, Corninho deu um salto solto e caiu em pé, as munhecas em riste, arregaçando a manga da camisa, pronto pra briga. Calma, meu amigo, não sou mais aquele, agora sou um Pastor de Jesus e vou provar. E deitou a maior lábia, tomou um gole da garrafa e Corninho só com o pé atrás. Daí a pouco o forasteiro deu um espirro e o milagre aconteceu: a casa do desconfiado era de taipa e tornou-se uma chique de alvenaria, a mais luxuosa do arruado. Vixe! Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! Corninho com os olhos esbugalhados não acreditava no que via. Foi até a porta e ficou maravilhado: tudo novo e do melhor. Voltou-se e ficou agarrado ao agora benfeitor na maior das gratidões. Foi abraçado de quase não largar. Peiúdo depois de muxoxos e risadinhas, às despedidas, acenou, pois, tinha que continuar a sua missão. Ao arrodear a cidade, deu com um cidadão quebrando cabeça para mudar o pneu furado do carro. Permita. Enquanto o impaciente dificultoso atendia ao telefone aos esturros, ele ingeriu o líquido da garrafa e, num piscar de olhos, tudo resolvido. Ao desligar o aparelho, espantou-se com a providência: Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O satisfeito abraçou o estranho dizendo: Sabe com quem você está falando? Peiúdo disse apenas ser Servo de Jesus, enquanto o agraciado colocava um cartão no seu bolso, sob a recomendação de só vê-lo quando saísse. Assim fez. Já distante do local, pegou no bolso e viu: Juiz de Direito. 2x0. Mantendo sua caminhada a esmo, soube que a moenda da usina dera bronca. Foi lá, pediu que todos se afastassem e secretamente resolveu o impasse: Pronto, está tudo funcionando. O dono apareceu: Como fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! O usineiro arrogante perguntou quanto custava o seu serviço, negando cobrar qualquer quantia. Logo fez amizade com o ricaço. 3x0. Aí ouviu de um passante que o teto da igreja desmoronava. Foi lá, começou a remexer nas coisas e, num instante, tudo em perfeita ordem. O padre Quiba ao presenciar aquilo, saiu gritando: Milagre! Milagre! O pároco virou-se para ele: Como fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! 4x0. Dali viu uma correria do povo, acompanhou o pandemônio e era a ponte que ameaçava cair. Foi pra baixo dela, escondeu-se e, num instante, estava em perfeitas condições. O povo aplaudiu sua façanha. Como você fez isso? Não fiz nada, é obra do senhor! E foi obrando milagres e caridades que ele ganhou a amizade do prefeito, do delegado, do juiz, do padre, do catimbozeiro, do espírita, dos clubes de serviço e de toda população. Era o roliúde. Quem é ele? Indagavam para lá e para cá, aos elogios. Só pode ser um enviado! É um santo vestido de gente! Um anjo que caiu do céu. Ao cabo de dias, o mistério se revelava: Ah, é o Zé Peiúdo! Não pode, aquele salafrário? Não, agora é pastor duma igreja aí. Vixe! O homem agora é de vera. E passou de primavera a verão, de outono a inverno, botada e pejada na usina canavieira, e ao se aproximarem as eleições, seu nome foi cogitado, definindo-se como o favorito naquele pleito. Não tinha pra mais ninguém. Então, diante dos festejos com a sua candidatura, falou para todos que tinha uma conta para ajustar. Num comício ruidoso e discurso inflamado, lançou a candidatura de Zé-Corninho a prefeito do lugar. De novo? É reprise? E que ele, no máximo, poderia aceitar a ser vice. Ah, tá. Oxe, foi barbada, mais tivesse! Só teve um voto nulo: o do próprio Corninho que não acertou votar nele mesmo, de novo! Virou festa. Seis meses depois de assumir a prefeitura, a Câmara de Vereadores cassava espetacularmente Corninho num processo que ninguém nunca viu tramitar, para entregar o cargo ao Peiúdo, logo entronizado como Imperador, a mandar e desmandar, acoloiado com seus aliados. Pintou e bordou por três anos e meio, podre de rico, bufando e peidando. Como nem tudo dura pela vida toda, a garrafa metálica trincou e pegou fogo no bolso, queimando o catecismo, as calças e quase os seus guardados. Foi um alvoroço. Não demorou muito, ao anúncio das novas eleições, ele reeleito certo, a sorte dava uma virada e ele sabia ter chegado a hora. Sumiu de ninguém ver-lhe o rastro, assim sem mais nem menos, e da prefeitura só se ouvia sobre os salários atrasados, endividamento, afanação de saldos públicos e todo tipo de roubalheira, a ponto de instaurar uma intervenção barulhenta de findar todo mundo suspeito e envolvido na patifaria. Como é? Maior pega-pra-capar! E agora, gente? Golpe desse, ah, todo mundo paga o pato. Alagoinhanduba nunca mais foi a mesma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Laurindo Almeida (1916-1995): Music of Brazilian Master, Master Jazz, Classical Current & Leverkusener Jazztage & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Sem uma compreensão do desejo profundo que têm os seres humanos de se autotranscenderem, da relutância natural que experimentam em tomar o caminho duro e difícil da ascensão espiritual, e da consequente procura doe uma falsa libertação, ou em torno de um aspecto de sua personalidade, não poderemos entender a época em que vivemos ou mesmo a História em geral, a vida como foi vivida no passado e como o é em nossos dias. Por esta razão, proponho discutirmos alguns dos mais comuns sucedâneos da Graça, nos quais e através dos quais homens e mulheres têm tentado escapar da torturante consciência de serem apenas eles mesmos. [...]. Trecho de Transcendência Descendente (1952), extraído da obra Moksha (Globo, 1993), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), título este que que em sânscrito significa “liberação”, reunindo uma coletânea de ensaios sobre experiências visionárias e com etheogenos como uma ferramenta de exploração mental e espiritual e meios de expandir os níveis de consciência. Veja mais aqui.

CONSCIÊNCIA & INCONSCIENTE – [...] O homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja transmitir. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes, faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos. [...] O homem, como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. [...] O homem desenvolveu vagarosa e laboriosamente a sua consciência, num processo que levou um tempo infindável, até alcançar o estado civilizado (arbitrariamente datado de quando se inventou a escrita, mais ou menos no ano 4000 A.C.). E esta evolução está longe da conclusão, pois grandes áreas da mente humana ainda estão mergulhadas em trevas. O que chamamos psique não pode, de modo algum, ser identificado com a nossa consciência e o seu conteúdo. [...] A consciência resiste, natural mente, a tudo que é inconsciente e desconhecido. [...] Ante acontecimentos desagradáveis, os primitivos têm as mesmas reações do animal selvagem. Mas o homem "civilizado" reage a idéias novas da mesma maneira, erguendo barreiras psicológicas que o protegem do choque trazido pela inovação. [...]. Trechos de Chegando ao inconsciente, extraído da obra O Homem e seus símbolos (Nova Fronteira, 2008), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Veja mais aqui.

A VIOLETA AMBICIOSA – [...] A violeta abriu os lábios azuis e disse: “Como eu sou infeliz em meio a estas flores e como é humilde a posição que ocupo diante delas! Fez-me a natureza para ser curta e pobre... Eu vivo muito próxima da terra e não posso erguer minha cabeça até o céu azul ou voltar minha face ao sol como as rosas fazem!”... E a rosa ouviu as palavras de sua vizinha; ela riu e comentou: “Como é estranha a tua fala! Tu és feliz, embora não possa compreender tua fortuna. A natureza doutou-te de fragrância e beleza, o que não fez com nenhuma outra flor... Aparta de ti estes pensamentos, sô contente e lembra-te de que aquele que se humilha será exaltado e aquele que se exalta será esmagado”. [...] À tarde, o sol tornou-se espesso de nuvens negras; os elementos raivosos perturbaram o silêncio da existência com raios, e começaram a atacar o jardim, enviando à terra enorme chuva com fortes ventos. A tempestade lacerou os ramos e desenraizou as árvores e quebrou as hastes das flores altas, poupando apenas as pequeninas que cresciam bem junto ao coração da terra. [...]. Trecho do conto A violeta ambiciosa (Cultrix, 1967), do poeta, filósofo e pintor libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931).

RETRATOMinha infância: memórias de um pátio de Sevilha, / e de um horto claro onde madura o limoeiro; / juventude, vinte anos em terras de Castilha; / a minha história quero esquecer por inteiro. / Mañara, nem Bradomín hei sido / — já conheceis meu torpe alinho indumentário — / mas recebi a flecha que me apontou Cupido, / e amei quanto elas possam ter de hospitalário. / Tenho nas veias gotas de estirpe jacobina, / mas o meu verso brota de manancial sereno; / e, mais que o homem usual que sabe sua doutrina, / eu sou um homem bom, um homem sem veneno. / Adoro a formosura, e na moderna estética / cortei as velhas rosas do jardim de Ronsard; / mas não amo os enfeites da moderna cosmética, / nem sou uma ave dessas do novo gay-trinar. / Eu desdenho as romanças desses tenores pecos / e dos grilos o coro a cantar ao luar. / Procuro distinguir entre as vozes e os ecos, / e entre as vozes só escuto a que prefiro amar. / Sou clássico ou romântico? Não sei. Deixar quisera / meu verso como deixa o capitão sua espada; / famosa pela mão viril que ao alto a erguera, / não pelo douto ofício do forjador prezada. / Dialogo com o homem que sempre vai comigo / — quem fala a sós, espera falar a Deus um dia —/ meu solilóquio é prática com este bom amigo / que ensinou-me o segredo de sua filantropia. / Enfim, nada vos devo; deveis-me o que hei escrito. / A meu trabalho acudo, com meu dinheiro pago / a roupa que me cobre e a mansão que habito, / o pão que me alimenta e o leito onde me apago. / E quando chegue o dia da última viagem, / e esteja de partida a nau sem retornar, / me encontrareis a bordo ligeiro de equipagem, / quase desnudo, nu como os filhos do mar. Poema do poeta e dramaturgo espanhol Antonio Machado (1875-1939). Veja mais aqui.

PIGMALIÃO DE SHAW
[...] Liza: (Chorando.) Eu num quero. Num posso. Num é da natureza; vai mi mata. Num tumei um banho in toda minha vida; issu é, nunca tumei um banhu, di corpo intero. [...] Sra. Pearce: Bom, agora chega de chorar, vai pro teu quarto e tira a roupa. Toda! Embrulhe-se nisto (pega uma camisola de um cabide e dá a ela) e volte aqui. Vou aprontar o banho. [...] Liza: (Espantada.) Nãão! Pruquê ia tira? Pra pega tísica? A saia sim, tá bom, a saia eu tiro. Sra. Pearce: Quer dizer que você dorme com a mesma roupa suja com que anda na rua o dia inteiro? [...] Liza: Mas a sinhora nim sabi o friu qüi eu sinto – tenho hourror du friu. Já vi muita genti mourrê di friu. Sra. Pearce: A sua cama aqui vai estar bem quentinha – vou pôr um bom saco de água quente nas cobertas. [...] Liza: (Zangada) Você vai se prender, se amarrar dessa maneira com uma mulher baixa e vulgar? Pickering: (Calmo) Ele é obrigado, Eliza. (Pra Doolittle) Mas não era ela que não queria? Mudou de idéia? Doolittle: (Triste) Invergronhada, partrão. Invergronhada. A moural da crasse mérdia percisa di vítimas. Não quéu chapéu e vi ansisti meu sarcrifício, Liza? [...].
Trechos da peça teatral Pigmaleão (L&PM, 2005), do dramaturgo, escritor e jornalista irlandês Bernard Shaw (1856-1950). Veja mais aqui.

Hermilo em Palmares e Arquivo Público & muito mais na Agenda aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel
Veja mais aqui, aqui e aqui
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As sacanagens de Zé Peiúdo aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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Os avós só botam a perder, Os arquétipos & o inconsciente de Carl Gustav Jung, Contraponto de Aldous Huxley, A arte de Jenny Saville & Marie Johnson Harrison, a música de Moacir Santos, Érica Garcia, Jacob de Haan & Mawaca aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


sexta-feira, julho 31, 2015

SEARLE, ANTONIO MACHADO, IGNÁCIO LOYOLA, ARRABAL, BOB DYLAN, KUSTURICA, MARELEMBAUM & A FESTA DOS MAIS DE 500 MIL ACESSOS!!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA: ZINE NASCENTE – Com o resultado das edições anteriores do Zine Nascente, mais se ampliaram os horizontes de relacionamentos. Tanto é que na edição nº 5 – Abril-Maio/1997 -, dedicada à cidade de Penedo, cidade histórica alagoana e monumento nacional e com o editorial Missiva para o menino – em resposta as indagações feitas sobre os meus livros Falange, Falanginha, Falangeta (Nascente, 1995), Para viver o personagem do homem (Nordestal, 1992) e Primeira reunião (antologia – Bagaço, 1992), feitas pelo então jovem autor integrante das edições da antologia Bricarte, hoje advogado Diogo Palmeira -, traz o intercambio realizado com as mais diversas publicações, a exemplo da recepção do Sagrações do meio de Leontino Filho (RN), O Nordeste em Poesia de João Lourenço (AL), publicação da UBE seccional de Sergipe enviada por Edmo Raimundo (SE), poemas de Alba Granja (AL), Clipe de Suely Correia Gomes (RS), Literarte de Arlindo Nóbrega (SP) e Curupira de Antônio Cabral, bem como a publicação de poemas de Ana Cristina Quixabeira (AL), Maria Fátima Dias (MS), Leila Míccolis (RJ), Leontino Filho (RN), Cileide Alexandre (PE), Elita Afonso Ferreira (PE), Edmo Raimundo de Albuquerque (SE), Jorge L. Escudeiro (Argentina), Rolando Revagliati (Argentina), Leonilda Silva (PE), João Lins (PE), João Lourenço (AL) e Glenda Maier (RJ). Na edição nº 6 – Junho/Julho-1997, dedicada ao amigo alagoano Marcos Palmeira e com o editorial Devaneio Factível, registro a recepção de publicações, tais como KoisaLinda de Oefe Souza (SP), Poemas de Wilmar J. Matter (RS), Alternativo Cultural Reviravolta Poesia de Cecília Fideles (SO), Dicionário de Poetas Contemporâneos de Sérgio Jeronimo (RJ), Associação Profissional dos Poetas do Estado do Rio de Janeiro de Glenda Maier (RJ), O Literário de Osael Carvalho (RJ), Espaço Menor de Edmo Menor (SE), 1000 Páginas do Sebo Badaró (SP), Viramundo de Carlos Costa (SP), Poster e Pefil de Glenda Maier (RJ), Prelidio de Jorge Luiz (AL), Fábula de Eno Teodoro Wanke (RJ), Anuário da Poesia Brasileira de Laís Costa Velho (MG) e Correio da Poesia de Luiz Fernandes da Silva (PB), destacando poemas de Ernande Bezerra de Moura (AL), Cecilia Fideli (SP), Felisbelo Silva (CE), Ziney Santos Moura (SP), Tadeu Wanderley (AL), Gladstone Silva (RJ), Emanoel Fay (AL), Jorge Luiz (AL), Osael de Carvalho (RS), Jaime Vieira (PR), Luiz Balthazar, Arlindo Nóbrega (SP), Leone Cvalcante (AL), Lais Costa Velho (MG), Ziney Santos Moura (SP), Maria Ligia Silva (SP), Wilmar Matter (RS), Alba Granja (AL) e Beatriz E. Chacon (RJ). O que era sonho foi virando realidade & vamos aprumar a conversa aqui.
 Imagem: Cassandra - Green, cantor, compositor, escritor e artista plástico estadunidense Bob Dylan. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Berimbaum (Universal, 2004), da cantora Paula Marelembaum.

A ESTRUTURA DA CONSCIÊNCIA – No livro A redescoberta da mente (Martins Fontes, 2006), do filósofo estadunidense John R. Searle aborda temas como o que há de errado com a Filosofia da Mente, a historia recente do materialismo e a repetição do mesmo erro, a psicologia popular, rompendo o domínio: cérebros de silícios e robôs conscientes & outras mentes, consciência e seu lugar na natureza, reduicionismo e irredutibilidade da consciência, o inconsciente e sua relação com a consciência, intencionalidade e o background, a critica da razão cognitiva, entre outros assuntos. No capítulo 6 da obra, encontrei A estrutura da consciência: uma introdução, da qual destaco os trechos a seguir: [...] Dois tópicos são cruciais para a consciência, mas terei pouco a dizer sobre eles porque ainda não os compreendo suficientemente bem. O primeiro é a temporalidade. Desde Kant, estamos cientes de uma assimetria no modo como a consciência se relaciona com o espaço e com o tempo. Embora experimentemos objetos e eventos tanto espacialmente extensivos como de duração temporal, nossa consciência em si não é experimentada como espacial, embora seja experimentada como temporalmente extensiva. Na verdade, as metáforas espaciais para a descrição do tempo parecem, da mesma forma, praticamente inevitáveis para a consciência, como quando falamos, por exemplo, do fluxo de consciência. Sabidamente, o tempo fenomenológico não corresponde exatamente ao tempo real, mas não sei como explicar o caráter sistemático das disparidades. O segundo tópico negligenciado é a sociedade. Estou convencido de que a categoria de outras pessoas desempenha um papel especial na estrutura de nossas experiências conscientes, um papel diferente daquele de objetos e estados de coisas; e acredito que essa capacidade é atribuir um status especial a outros loci de consciência é tanto biologicamente fundamentada como uma pressuposição de background para todas as formas de intencionalidade coletiva. Mas ainda não sei como demonstrar essas asserções, nem como analisar a estrutura do elemento social na consciência individual. [...] Acredito que ao menos dois, e talvez todos os três equívocos tenham uma origem comum no cartesianismo. Os filósofos na tradição cartesiana em epistemologia queriam que a consciência fornecesse uma base para todo conhecimento. Mas, para que a consciência nos dê uma certa base para o conhecimento, temos que ter primeiro um certo conhecimento dos estados conscientes; daí a doutrina da incorrigibilidade. Para conhecer a consciência com segurança, temos que conhece-la por meio de alguma faculdade especial que nos dê acesso direto a ela; daí a doutrina da introspecção. E – embora eu esteja menos seguro sobre isto enquanto um diagnóstico histórico -, se o ego deve ser a fonte de todo conhecimento e significado, e estes devem estar fundamentados em sua própria consciência, então é natural crer que existe uma conexão necessária entre consciência e autocoensciência; daí a doutrina da autoconsciência. [...] Veja mais aqui.

NÃO VERÁS PAÍS NENHUM – O romance Não verás país nenhum: memorial descritivo (Codecri, 1981), do escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, conta a história pessimista e apocalíptica de um Brasil no futuro dominado por um governo de mediocridade e totalitário. Da obra destaco o trecho inicial: [...] Mefítico. O fedor vem dos cadáveres, do lixo e excrementos que se amontoam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam designar tais regiões pelos apelidos populares. Mal sei o que me pode acontecer. Isolamento, acho. Tentaram tudo para eliminar esse cheiro de morte e decomposição que nos agonia continuamente. Será que tentaram? Nada conseguiram. Os caminhões, alegremente pintados em amarelo e verde, despejam mortos, noite e dia. Sabemos, porque tais coisas sempre se sabem. É assim. Não há tempo para cremar todos os corpos. Empilham e esperam. Os esgotos se abrem ao ar livre, descarregam em vagonetes, na vala seca do rio. O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne, em poucas horas. O cheiro infeto dos mortos se mistura ao dos inseticidas impotentes e aos formóis. Acre, faz o nariz sangrar, em tardes de inversão atmosférica. Atravessa as máscaras obrigatórias, resseca a boca, os olhos lacrimejam, racha a pele. Ao nível do chão, os animais morrem. Forma-se uma atmosfera pestilencial que uma bateria de ventiladores possantes procura inutilmente expulsar. Para longe dos limites do oikoumenê, palavra que os sociólogos, ociosos, recuperaram da antiguidade, a fim de designar o espaço exíguo em que vivemos. Vivemos? Virei-me assustado. Adelaide nunca tinha dado um grito em trinta e dois anos de casados. Treze para as oito. Em quatro minutos devia estar no ponto, ou perderia o S-7.58, minha condução autorizada. Estranho, ela sabia. E por que então resolvia me atrasar ainda mais? — O que foi? — O paletó. Esqueceu? — Não aguento esse paletó. Passo o dia suando. — Mas sem ele não te deixam trabalhar. — Tomara. Adelaide me olhou, arisca. Inquieto, encarei o rosto dela e me perguntei. Pergunta que não tenho coragem de enfrentar. Se eu admitir, ela se desvenda. Toma forma, cristaliza, revela. Será que depois de tantos anos compensa ver? Reagir agora? Penso: e se valesse a pena? Tomávamos o café da manhã juntos, todos os dias. Depois ela me acompanhava até a porta. Eu colocava o chapéu (voltou o seu uso), acariciava seu ombro esquerdo (nem sei mais se há prazer nisto) e consultava o relógio. Ficava angustiado se não estivesse dentro do horário. [...] Veja mais aqui.

SONHO, CANTARES, UMA NOITE DE VERÃO – No livro - presente do meu amigo José Duran y Duran – Antologia Poetica (Salvat, 1969), do poeta e dramaturgo espanhol Antonio Machado (1875-1939), destaco inicialmente o poema Sonho: Lá do umbral de um sonho me chamaram… / Era a suave voz, a voz querida. / — Diz-me: virás comigo a ver a alma?… / Veio a meu coração uma carícia. / — Contigo sempre… E segui em meu sonho / por uma larga, precisa galeria, / sentindo o roçar da veste pura / e o palpitar suave da mão amiga. Também o poema Uma noite de verão...: Uma noite de verão / – estava aberta a varanda / e a porta de minha casa – / a morte na casa entrou. / Foi-se acercando a seu leito / – nem sequer me percebeu –, / com uns dedos muito finos, / algo mui tênue rompeu. / Silenciosa e sem me olhar, / a morte outra vez passou / ante a mim. “O que fizeste?” / A morte não respondeu. / A filha ficou tranquila / sofrido meu coração, / Ai, o que a morte quebrou / era um fio entre nós dois! Por fim, o belíssimo poema Cantares: Tudo passa e tudo fica / porém o nosso é passar, / passar fazendo caminhos / caminhos sobre o mar / Nunca persegui a glória / nem deixar na memória / dos homens minha canção / eu amo os mundos sutis / leves e gentis, / como bolhas de sabão / Gosto de vê-los pintar-se / de sol e grená, voar / abaixo o céu azul, tremer subitamente e quebrar-se… / Nunca persegui a glória / Caminhante, são tuas pegadas / o caminho e nada mais; / caminhante, não há caminho, / se faz caminho ao andar / Ao andar se faz caminho / e ao voltar a vista atrás / se vê a senda que nunca / se há de voltar a pisar / Caminhante não há caminho / senão há marcas no mar… / Faz algum tempo neste lugar / onde hoje os bosques se vestem de espinhos / se ouviu a voz de um poeta gritar / “Caminhante não há caminho, / se faz caminho ao andar”… / Golpe a golpe, verso a verso… / Morreu o poeta longe do lar / cobre-lhe o pó de um país vizinho. / Ao afastar-se lhe viram chorar / “Caminhante não há caminho, / se faz caminho ao andar…” / Golpe a golpe, verso a verso… / Quando o pintassilgo não pode cantar. / Quando o poeta é um peregrino. / Quando de nada nos serve rezar. / “Caminhante não há caminho, / se faz caminho ao andar…” / Golpe a golpe, verso a verso. Veja mais aqui.

A BICICLETA DO CONDENADO – A peça teatral em um único ato A bicicleta do condenado (1959), do escritor, dramaturgo e cineasta espanhol Fernando Arrabal, conta a história de tocador de piano que manifesta o amor por uma mulher carregando sua bicicleta no corredor da morte. Da obra destaco o trecho inicial: (Tasla ao centro do palco imita a estátua da justiça, sem a venda nos olhos; à direita, por trás do muro, dos Homens com características de policiais, e à esquerda, sentado no banco do piano, Viloro encara a platéia. Depois de algum tempo vê-se surgir das costas de Viloro, como se fosse parte dele, Paso que ostenta uma coroa na cabeça. Black-out. Palco pouco iluminado. À direita, muito ao fundo, um pequeno muro de 1,30 m por 3 m. À esquerda, um piano. Viloro toca piano apenas com um dedo, muito desajeitadamente. Ensaia a escala musical — Dó, ré, mi, fá, lá. Gesto de contrariedade. Silêncio. Tenta recomeçar a escala. Toca muito lentamente para não se enganar. — Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Grande alegria. Viloro esfrega as mãos de contentamento, mas apesar de tudo, um pouco timidamente. Silêncio. Recomeça a tocar cheio de confiança.. — Dó, ré, mi, fá, sol. Trejeito de contrariedade. Ouvem-se risos ao fundo. Viloro volta-se receosamente. Ao fundo distinguem-se dois homens por detrás do muro. Viloro olha para eles. Os homens tornam-se bruscamente sérios. Olham também para Viloro. Silêncio. Viloro recomeça a tocar: — Dó, ré, mi, fá, sol, ré. Trejeito tímido de contrariedade. Risos dos dois homens por detrás do muro. Viloro volta-se e timidamente olha para o fundo. Os homens deixam de rir. Viloro olha para eles. Os homens olham para Viloro seriamente. Silêncio. Viloro tenta ainda fazer a escala: — Dó, ré, mi, fá, si, ré. Trejeito tímido de contrariedade. Os homens riem. Viloro olha para eles. Os homens param de rir e olham-se muito seriamente. Silêncio. Viloro prepara-se para recomeçara tocar. Ao fundo, próximo aos dois homens e igualmente por detrás do muro, aparece um terceiro homem. É Paso – um homem de cabelos ruivos. Paso indica Viloro descaradamente com o dedo e ri ruidosamente. Os três homens riem Viloro volta-se receosamente e contempla os homens. Os três deixam de rir. Encaram muito seriamente Viloro, que tenta de novo fazer a escala: — Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Os três homens riem por detrás do muro e apontam descaradamente com o dedo. Paso, principalmente, ri muito alto. Viloro volta-se receosamente e contempla os três homens. Cessam de rir. Encaram-no seriamente. Silêncio. Viloro toca mais uma vez: — Dó, ré, mi, fá, si, sol. Os dois homens riem por detrás do muro. Viloro volta-se para eles com ar zangado mas com timidez. Os dois homens param de rir. Encaram-no muito seriamente. Silêncio. Pela esquerda entra uma mulher – TASLA – montada numa bicicleta que transporta à maneira de reboque uma gaiola de madeira. A gaiola tem três pequenas rodas e transporta um homem ruivo. É PASO, com as mãos atadas. Traz uma mordaça. Tasla desce da bicicleta. Dirige-se para Viloro. Os dois homens olham descaradamente para Tasla) TASLA – Bom dia, Viloro. (Viloro com gesto de fadiga aponta o muro) VILORO – Não fale. Eles estão ali. TASLA – (Olha receosamente para os homens) – Ainda! (Silêncio. Risos dos homens. Tasla e Viloro voltam receosamente o olhar para o muro. Os dois homens calam-se. Silêncio. Viloro e Tasla olham um para o outro. Os homens desaparecem. Silêncio) VILORO – Vê se eles ainda estão lá. TASLA – Olha você. Tenho medo. VILORO – Eu também. (Silêncio. Viloro olha receosamente para o fundo) VILORO – (muito contente) – Eles já foram embora. (Tasla olha. O seu rosto ilumina-se) TASLA – Finalmente estamos tranqüilos. VILORO – Temos que esperar. Não vão eles voltar daqui a pouco como fazem algumas vezes? TASLA – (Após um silêncio) – Progrediste? VILORO – (Muito contente) – Oh! Sim. Fiz enormes progressos. TASLA – Toca para eu ouvir. VILORO – Tenho um pouco de vergonha. TASLA – Coragem! Não há motivo para ficar vermelho de vergonha. VILORO – (Entusiasmado) – É sem querer. TASLA – De repente? VILORO – Não é bem de repente. . . mas quase. TASLA – Toca um bocadinho. (Viloro toca piano: Dó, ré, mi, fá, lá. – Gesto contrariado de Viloro) TASLA – Muito bem, Viloro. Você fez um progresso espantoso! VILORO – Enganei-me no fim. Não percebeste? — Dó, ré, mi, fá, si, sol. Os dois homens riem por detrás do muro. Viloro volta-se para eles com ar zangado mas com timidez. Os dois homens param de rir. Encaram-no muito seriamente. Silêncio. Pela esquerda entra uma mulher – TASLA – montada numa bicicleta que transporta à maneira de reboque uma gaiola de madeira. A gaiola tem três pequenas rodas e transporta um homem ruivo. É PASO, com as mãos atadas. Traz uma mordaça. Tasla desce da bicicleta. Dirige-se para Viloro. Os dois homens olham descaradamente para Tasla) TASLA – Bom dia, Viloro. (Viloro com gesto de fadiga aponta o muro) VILORO – Não fale. Eles estão ali. TASLA – (Olha receosamente para os homens) – Ainda! (Silêncio. Risos dos homens. Tasla e Viloro voltam receosamente o olhar para o muro. Os dois homens calam-se. Silêncio. Viloro e Tasla olham um para o outro. Os homens desaparecem. Silêncio) VILORO – Vê se eles ainda estão lá. TASLA – Olha você. Tenho medo. VILORO – Eu também. (Silêncio. Viloro olha receosamente para o fundo) VILORO – (muito contente) – Eles já foram embora. (Tasla olha. O seu rosto ilumina-se) TASLA – Finalmente estamos tranqüilos. VILORO – Temos que esperar. Não vão eles voltar daqui a pouco como fazem algumas vezes? TASLA – (Após um silêncio) – Progrediste? VILORO – (Muito contente) – Oh! Sim. Fiz enormes progressos. TASLA – Toca para eu ouvir. VILORO – Tenho um pouco de vergonha. TASLA – Coragem! Não há motivo para ficar vermelho de vergonha. VILORO – (Entusiasmado) – É sem querer. TASLA – De repente? VILORO – Não é bem de repente. . . mas quase. TASLA – Toca um bocadinho. (Viloro toca piano: Dó, ré, mi, fá, lá. – Gesto contrariado de Viloro) TASLA – Muito bem, Viloro. Você fez um progresso espantoso! VILORO – Enganei-me no fim. Não percebeste? [...] Veja mais aqui.


A VIDA É UM MILAGRE – O filme A vida é um milagre (Život je čudo, 2004), do cineasta e músico sérvio cirílico Emir Kusturica – que também compôs a música do filme com Dejo Sparavalo -, conta uma história que se passa na Bósnia de 1992, quando um engenheiro se instala num vilarejo com sua família - sua esposa é uma cantora lírica e seu filho um adolescente -, sem dar ouvidos a uma ameaça de guerra que quando eclode,  leva sua vida a sofrer mudanças drásticas: sua esposa foge com um músico e seu filho é convocado para a guerra. O filme é belíssimo e conta reviravolta que se dá na vida de um pai de família, numa região ameaçada pela guerra e que, almejando alcançar seus objetivos se põe obstinadamente na luta pela conquista dos seus objetivos, quando em pleno andamento de seu planejamento se vê sem a mulher e sem o filho, tendo, por isso, a sua família destroçada. Imperdível. O destaque do filme vai para a belíssima atriz sérvia Nataša Tapušković. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Homenagem à atriz alemã do teatro, cinema e televisão Lil Dagover - Marie Antonia Siegelinde Martha Seubert (1887-1980).


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments com a festa comemorativa dos mais de 500 mil acessos daqui, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial de Meimei Corrêa & Verney Filho. Para conferir online acesse aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...