DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: É CADA UMA QUE NEM CONTO – Pois é,
chega! Quebrei a caixa, mudei de casca, troquei de pele, juntei os trapos e as
mirradas lembranças para saber o que envergonha e o desesperador: apenas o
silêncio e a solidão. Tudo que fiz até agora foi em vão, tão inútil quanto
saber-me nem cético, nem cínico, apenas que já estava no sangue o louco de
nascença atravessando anos de desencontros pelo insólito, para me perder por tão
poucos reencontros. É tarde demais, nem sei quantos remorsos, tantas
travessias, a vida eclipsada pisando em falso, engolindo mosquitos, tentando me
desvencilhar de socos no estômago por escapulidas nem sempre escorregadias. A despeito
dos embaraços envelheci desgracioso e desajustado, nada mais, apenas menino pés
alados e desajeitado, levado pela corrente ao vento entre pedras e margens da
minha desordem e indignação. Queria apenas contar uma historinha simplesmente
humana, e em voz alta como uma oração estranha e própria aos que se foram e saudando
os vivos, fazer a minha parte, apenas, como se salvasse o planeta do lixo um tantinho
assim, feito o beija-flor de Crema:
é pouco, mas sou eu, não sou nada. DUAS:
APRENDIZ DE FEITICIEIRO, AEQUO AMENOS – Mesmo assim, extenuado dos inúteis
esforços diante das inconveniências e misérias, tanto nado contra a corrente e
do estresse da normalidade para não ser apenas um código de barras, ou um
animal pensante ou sei lá o quê. O normótico é tão desumano e não me basta por
ser tão aborrecido e enlouquecedor. Nem ligo pras galhofas se sou um fracassado
de Jung, sei que não sou mais estúpido por absoluta falta de espaço, enquanto o
grotesco está na esquina e eu encaro em cima da fivela sem sair da raia. Por incrível
que pareça, já fiz de tudo tanto por vocação da necessidade em alta voltagem
que nem sei mais, só não quero confundir as coisas: sou a favor de tudo que não
seja contra o sujeito, apenas. Com os dias contados botei todas as portas abaixo
para enfrentar o flagelo das interdições, tudo desapareceu, graças. Mesmo que
tenha que aturar a chatura, dou umas risadas esclarecedoras com o GregNews, ou refletindo com o Meteoro e o Normose, ou seguindo o coletivo ciberativistas Sleeping Giants, enquanto vou xexéu assobiando Quintana passarinho. TRÊS:
PANTA RHEI – Tudo passa, tudo flui. O assobio segue morros e abismos, quer
ser indene e distingue vis-à-vis o que vem do bem e bom, quase premonitório
visionário suplantando as nuvens de cocô de alcestes coisonários com seu
negacionismo da distopia transnacional e estereótipos ad bestias! Sem nem saber vai arrebentando a anomia catingosa feita
de coprólitos e flatulências dos que insistem suplícios nas arenas, ah, ignoro o
desprezível com suas tolices letais do cúmulo da parvoíce humana. Ainda ouço a
sátira de Bernard Shaw: A democracia é um sistema que faz com que
nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Sorrio e persigo solfejando
a Carta à República de Milton e Brant: Quero um país melhor! Se der jeito, ou se quiser, vamos aprumar a
conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais abaixo e aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
segunda-feira, junho 01, 2020
EDGARD VARÈSE, LYUDMILA TOMOVA, TOM ZÉ, LUCIA HELENA GONDRA & DEMOCRACIAS MORREM
DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: É CADA UMA QUE NEM CONTO – Pois é,
chega! Quebrei a caixa, mudei de casca, troquei de pele, juntei os trapos e as
mirradas lembranças para saber o que envergonha e o desesperador: apenas o
silêncio e a solidão. Tudo que fiz até agora foi em vão, tão inútil quanto
saber-me nem cético, nem cínico, apenas que já estava no sangue o louco de
nascença atravessando anos de desencontros pelo insólito, para me perder por tão
poucos reencontros. É tarde demais, nem sei quantos remorsos, tantas
travessias, a vida eclipsada pisando em falso, engolindo mosquitos, tentando me
desvencilhar de socos no estômago por escapulidas nem sempre escorregadias. A despeito
dos embaraços envelheci desgracioso e desajustado, nada mais, apenas menino pés
alados e desajeitado, levado pela corrente ao vento entre pedras e margens da
minha desordem e indignação. Queria apenas contar uma historinha simplesmente
humana, e em voz alta como uma oração estranha e própria aos que se foram e saudando
os vivos, fazer a minha parte, apenas, como se salvasse o planeta do lixo um tantinho
assim, feito o beija-flor de Crema:
é pouco, mas sou eu, não sou nada. DUAS:
APRENDIZ DE FEITICIEIRO, AEQUO AMENOS – Mesmo assim, extenuado dos inúteis
esforços diante das inconveniências e misérias, tanto nado contra a corrente e
do estresse da normalidade para não ser apenas um código de barras, ou um
animal pensante ou sei lá o quê. O normótico é tão desumano e não me basta por
ser tão aborrecido e enlouquecedor. Nem ligo pras galhofas se sou um fracassado
de Jung, sei que não sou mais estúpido por absoluta falta de espaço, enquanto o
grotesco está na esquina e eu encaro em cima da fivela sem sair da raia. Por incrível
que pareça, já fiz de tudo tanto por vocação da necessidade em alta voltagem
que nem sei mais, só não quero confundir as coisas: sou a favor de tudo que não
seja contra o sujeito, apenas. Com os dias contados botei todas as portas abaixo
para enfrentar o flagelo das interdições, tudo desapareceu, graças. Mesmo que
tenha que aturar a chatura, dou umas risadas esclarecedoras com o GregNews, ou refletindo com o Meteoro e o Normose, ou seguindo o coletivo ciberativistas Sleeping Giants, enquanto vou xexéu assobiando Quintana passarinho. TRÊS:
PANTA RHEI – Tudo passa, tudo flui. O assobio segue morros e abismos, quer
ser indene e distingue vis-à-vis o que vem do bem e bom, quase premonitório
visionário suplantando as nuvens de cocô de alcestes coisonários com seu
negacionismo da distopia transnacional e estereótipos ad bestias! Sem nem saber vai arrebentando a anomia catingosa feita
de coprólitos e flatulências dos que insistem suplícios nas arenas, ah, ignoro o
desprezível com suas tolices letais do cúmulo da parvoíce humana. Ainda ouço a
sátira de Bernard Shaw: A democracia é um sistema que faz com que
nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Sorrio e persigo solfejando
a Carta à República de Milton e Brant: Quero um país melhor! Se der jeito, ou se quiser, vamos aprumar a
conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais abaixo e aqui.terça-feira, novembro 15, 2016
A REPÚBLICA NO REINO DO FECAMEPA – LIÇÕES DE ONTEM E DE HOJE PRO QUE NÃO É
domingo, novembro 15, 2015
FECAMEPA À REPÚBLICA, VINICIUS, CALABAR, VANJA, PASOLINI, CHORDELOS, BEVERLY & MUITO MAIS!
VAMOS
APRUMAR A CONVERSA? FECAMEPA À REPÚBLICA - Segura o pencó, gente, que o negócio é
sério. Esse bregueço é a maior tronchura, viu? Tataritaritatá! Pois é, para um
país que não se sabe se foi descoberto numa cagada ou invadido pra porrada,
fica a interrogação: afinal, que país é esse? Ah é o mesmo país que passou mais
de 300 anos como uma colônia preada, açucarocrata e escravagista; depois, virou
de uma hora para outra um reinado surrupiado até o fundo do tacho; num sopapo,
se quebra de banda numa independência festeira e camuflada para ânimo de uns
gatos pingados até ser rebocado prum império de sucatas. Ora, com um curriculum
desse, não pode dar outra, né? A não ser que a lorota vire pinóia manjada e dê
numa republica de... de.... de quê mesmo, hem? eita! De ocrídios macunaímas? De
mestiços corteses que num aprende a distância dum palmo além da venta? De
miscigenados gentis que se hipnotizavam com tudo? De bananas? De apaideguados
feladamãe? Ouououououou? Ih.... Na verdade, trocando os miúdos e deixando de
fora os desguardados, só mesmo numa republiqueta levada na espórtula e
empurrada pela barriga e na marra até hoje, né não? Pois então, ora veja! Depois
da festa íntima dos promotores/beneficiários da independência, num deu nem para
piscar o olho e já fervia a panela do vuque-vuque. É, a história é o princípio
heraclitiano ao contrário: passa e volta, torna a se repetir constantemente. Pois
é, não podia ser diferente porque as maruagens despóticas afuleiraram mais com
a dissolução da Assembleia em 1823 e, também, com a outorga da Constituição de
1824. Piada? Só se for de mau gosto, sabe por que? Bastou isso para a faísca de
nadinha virar fogaréu de monturo em Pernambuco. Lá vem resistência feito
enterro voltando. O puxa-encolhe da insatisfação já dominava as províncias do
Norte e Nordeste, incendiando tudo com um exaltado sentimento nativista
requentado pelos ideais liberais separatistas e antilusitanos. Espia só, tudo
aprontando o trupé. E vingou, era a Confederação do Equador, uma república
revolucionária compreendendo os ingicados desde da Bahia até ao Grão-Pará. Era
a boa nova que tanto contagiava como repelia seus correligionários, principalmente
porque suspendia o tráfico negreiro. Mexeu a onça com vara curta e a coisa vai
se esculhambando, como sempre. Findou maior pega-pra-capar, com pipoco de tiro,
estrupício de vida e muita rezação no cemitério. O tumulto continua, num pára
por aí não. Logo vem a Guerra do Paraguai que durou de 1865 até 1870. Foi uma
sacanagem braba. Dizem alguns mais ousados historiadores que para render o
inimigo mais rapidamente, usou-se do ardil de jogar cólera nas nascentes dos
rios contaminando todo povo paraguaio. Isso só não, tem muito mais. De
resultado só trouxe fortalecimento pro o exército que era só desprestígio. Sincronicamente,
passava o zoadeiro do abolicionismo. Com isso, engrossava o caldo os pinotes
dos escravos que escapuliam pra vida desde dos quilombos de antanho. O pisoteio
todo redunda no Manifesto Republicano de 1870. A coisa andava, como ainda hoje,
aos trupicões. Segura a onda, meu! É a maior buraqueira do sujeito perder tudo
nos catabís. Porque é aí que chega a constatação de que até 1889, a nossa
brasílica terra era o único império existente na América inteira, vez que todas
as demais nações vizinhas já tinham virado a casaca pro republicanismo. Pode um
negócio desse? Como sempre e até hoje, esse Brasilzim anda atrasadinho que só,
hem? Mas isso não é nada, vamos adiante naquilo que comumente taxamos de: seria
cômico se não fosse trágico. Ou ao contrário? Vamos nessa. Chegamos na
república (sic). Na verdade, um arrumado dos militares acoloiados com um
punhado miúdo de civis, implantando o Federalismo, o sistema presidencialista,
a independência dos poderes e outras mais. De primeira, deram um chute na bunda
do rei com banimento da família imperial pros quintos dos infernos. Depois,
começa a mania de provisoriedade que tanto visita a vida do brasileiro no
século seguinte, botando um marechal brabo na presidência. Era o marechal
alagoano Deodoro da Fonseca. Com ele, a primeira Constituição dos Estados
Unidos do Brasil, de 1891, começando uma descarada imitação dos gringos lá do
norte, quando tem início a onda da norte-americanização daqui, com a inspiração
voltada pro positivismo comteano pra seguir a ordem-progressivista e, também
ainda, da corda-de-guaiamun dos interesses sempre esticando o miolo do poder
como uma panelinha de mãe Joana, onde os privilegiados comem tudo e num sobra
nem os farelos pro povão faminto do lado de fora. Aí ocorre um fenômeno
econômico digno de nota, quando Rui Barbosa, o então ministro da Fazenda, entre
1889 e 1892, escancarando o crédito e dando liberdade pros bancos – espia só o
merdeiro que vai dar -, deixa o país às voltas com uma inflação incontrolável,
dinheiro desvalorizado e festança de ricos sobre a ruína de novos pobres. Era o
Encilhamento, parece até um treino para entrar em campo uma trupe que vai jogar
num cenário que a gente vai ver e ter em replay de instante em instante e até
slow motion a vida toda do século XX. É quando estoura a Revolução Federalista
de 1893 que dura até o ano seguinte, pela libertação do Rio Grande do Sul.
Também ribomba a Revolta Armada iniciada no Rio de Janeiro até atingir o Rio
Grande do Sul. E o governo passando de Deodoro para Floriano Peixoto, outro
marechal alagoano (ihhhhhhhhhhhhhhh!). Vamos lá, que o diga Policarpo Quaresma.
Depois Prudente de Morais, o primeiro civil em 1894. Dois anos da posse, rasga
o cenário Canudos, com o messiânico líder Antonio Conselheiro e seus jagunços
declarando guerra à República pela restauração da Monarquia. Esse quiprocó dura
dois anos, de 1896 até o ano seguinte, quando o sangreiro espirra até na lua. Vem
logo em seguida o paulista Campos Sales, que antes mesmo de assumir, negocia um
acordo, o Funding Loan, onde suspende os pagamentos do país para contrair novo
empréstimo. Entende isso? Jogadas e tramoias. Era só a bagatela de 10 milhões
de libras que entravam na roda e que foram amortizadas a juros sobre juros só
quitada em 1961 (só?!?). Pois é, e ele governa de 1898 até 1902, sob o clima do
abalo do Encilhamento, da agitação política comandada pelo curral eleitoral do
patriarcado coronelista com o voto de cabresto nos currais eleitorais e, mais
também, do capital estrangeiro que mandava ver a partir de então por aqui. Eita,
já estamos em 1900, pleno século XX. E isso é pano para outras mangas. E vamos
aprumar a conversa, ta? Veja mais aqui e aqui.
AS
RELAÇÕES E A RESPONSABILIDADE – No livro Responsabilidade civil nos relacionamentos afetivos pós-modernos
(Russel, 2007), de Ana Cecília Parodi, as questões atinentes às relações e
responsabilidades são tratadas desde a gênese da unidade familiar no mundo até
o novo paradigma da organização judiciária. Da obra, destaco os trechos: Desde que o mundo foi criado, desde o
surgimento da primeira célula social no planeta, o home zela por seu conjunto
de bens imateriais. O ser humano tem necessidade de se afirmar socialmente, de
amadurecer emocionalmente, de relacionar-se com seus semelhantes e com o
ecossistema. Mas, em face de injustiças sofridas, desde os primórdios, o homem
pleiteia a reparação. Ao longo dos milênios, conferiu-se enorme maleabilidade
aos ditos instrumentos de defesa da honra. Duelos, vinganças, o sangue vingado
com as próprias mãos. A compensação atingia os danos materiais, sem sombra de
duvida – um boi pelo outro. A todo custo, o homem procura indenização, é parte
do seu complexo interior, muito além das raias jurídicas. Com a evolução das
relações sociais, e do mundo como um todo, o homem desenvolveu maior
complexidade mental, passando a se descobrir com mais profundidade e, com a
mesma intensidade, acelera a sua compreensão do meio que o cerca. A sociedade
moderna, por obvio, não comportaria os meios reparatórios, nem as punições
ultrajantes. Em contrapartida, o individuo permanece tendo na indenização uma
questão de foro intimo. Ajustou-se o interesse coletivo ao interesse
individual, tratando-se de criar instituto indenizatórios socialmente
adequados. [...] A satisfação do
homem vai além do sagrar-se vencedor, na discussão processual. Sua necessidade
é de haver uma sentença, um ditame maior, digno de obediência, que lhe fira o
status de inocente, de vitima, de detentor de um dano irreparável. [...] As relações afetivas havidas entre os seres
humanos podem ser classificadas verticais – operadas entre ascendentes e
descendentes – e horizontais – operadas entre os casais. [...] Veja mais
aqui, aqui e aqui.
AS RELAÇÕES PERIGOSAS – O livro As relações perigosas (Les liaisons dangereuses – Companhia das Letras, 2012), do escritor francês Choderlos de Laclos (1741-1803), trata sobre as relações de um grupo de
aristocratas através das cartas trocadas entre si, na época imediatamente
anterior à Revolução Francesa — nobres ociosos e sem escrúpulos dedicam-se
prazerosamente a destruir as reputações de seus pares. O enredo tem como foco o
Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, que manipulam e humilham as
restantes personagens através de intrigas e jogos de sedução. Durante alguns
meses, um grupo peculiar da nobreza francesa troca cartas secretamente. No
centro da intriga está o libertino visconde de Valmont, que tenta conquistar a
presidenta de Tourvel, e a dissimulada marquesa de Merteuil, suposta confidente
da jovem Cécile, a quem ela tenta convencer a se entregar a outro homem antes
de se casar. Da obra destaco o trecho com tradução de Dorothée de Bruchard: [...] suas ordens são encantadoras; sua maneira de dá-las é
mais amável ainda; você seria capaz de fazer apreciar o despotismo. Não é a
primeira vez, como sabe, que lamento não ser mais seu escravo; e por mais
monstro que diga que sou, nunca relembro sem prazer o tempo em que me
gratificava com mais doces apelidos. Não raro, sinto inclusive o desejo de
voltar a merecê-los e acabar dando ao mundo, com você, um exemplo de
constância. Interesses mais largos nos chamam, porém; nosso destino é
conquistar; cabe a nós cumpri-lo: quiçá ainda nos encontremos no fim da
carreira; pois, digo isso sem querer aborrecê-la, mui bela marquesa, seus
passos são, no mínimo, parelhos com os meus; e desde que, separando--nos para a
alegria geral, vimos pregando a fé cada um por seu lado, quer parecer-me que
nesta missão amorosa você angaria mais prosélitos que eu. Conheço seu zelo, seu
ardente fervor; e, se nos julgasse Deus por nossas obras, você seria algum dia
a padroeira de uma grande cidade, ao passo que esse seu amigo seria, quando
muito, o santo de alguma aldeia. Esta linguagem mística a surpreende, não é
verdade? Ocorre que há uma semana não escuto nem falo nenhuma outra; e é para
aperfeiçoar-me nela que me vejo forçado a desobedecer-lhe. Não se zangue, e
escute-me. Depositária de todos os segredos de meu coração, vou
confidenciar-lhe o maior plano que já concebi. O que me sugere? Seduzir uma
moça que não viu nada, nem conhece nada; que, por assim dizer, me seria
entregue sem defesa; que uma primeira homenagem não deixará de embriagar, e que
a curiosidade talvez conduzisse mais rapidamente que o amor. Vinte homens
poderiam bem suceder como eu. O mesmo não se dá com o projeto que me ocupa; seu
êxito me assegura tanta glória quanto prazer. O próprio amor que tece minha
coroa hesita entre o mirto e os louros, ou melhor, há de juntar a ambos para
honrar meu triunfo. Você mesma, bela amiga, será tomada de um santo respeito, e
dirá, entusiasmada: “Aí está um homem a meu gosto”. [...].
Veja mais aqui.
POEMA
PARA TODAS AS MULHERES & OUTROS POEMAS PRA ELAS – No livro Antologia Poética (José Olympio, 1984),
do poeta, compositor e diplomata Vinicius
de Morais, destaco inicialmente o poema Poemas para todas as mulheres: No
teu branco seio eu choro. / Minhas lágrimas descem pelo teu ventre / E se
embebedam do perfume do teu sexo. / Mulher, que máquina és, que só me tens
desesperado / Confuso, criança para te conter! / Oh, não feches os teus braços
sobre a minha tristeza não! / Ah, não abandones a tua boca à minha inocência,
não! / Homem sou belo / Macho sou forte, poeta sou altíssimo / E só a pureza me
ama e ela em mim uma cidade e tem mil e uma portas. / Ai! teus cabelos recendem
flor da murta / Melhor seria morrer ou ver-te morta / E nunca, nunca poder te
tocar! / Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços / Anjo, sinto o
calor do vento nas espumas / Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos... / Correi,
correi, lágrimas saudosas / Afogai-me, tirai-me deste tempo / Levai-me para o
campo das estrelas / Entregai-me depressa lua cheia / Dai-me o poder vagaroso
do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos / Que
eu não posso mais, ai! / Que esta mulher me devora! / Que eu quero fugir, quero
a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora! Também o poema A mulher na noite: Eu
fiquei imóvel e no escuro tu vieste./ A chuva batia nas vidraças e escorria nas
calhas - vinhas andando e eu não te via / Contudo a volúpia entrou em mim e
ulcerou a treva nos meus olhos. / Eu estava imóvel - tu caminhavas para mim
como um pinheiro erguido /E de repente, não sei, me vi acorrentado no
descampado, no meio de insetos / E as formigas me passeavam pelo corpo úmido. /
Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito / E
muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas. / E então a aragem começou a
descer e me arrepiou os nervos / E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e
zunzunavam sobre os meus lábios. / Eu queria me levantar porque grandes reses
me lambiam o rosto / E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas.
/ Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser / As formigas iam e
vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero / E eu comecei a
sufocar sob a rês que me lambia. / Nesse momento as cobras apertaram o meu
pescoço / E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas. / Eu me levantei e
comecei a chegar, me parecia vir de longe / E não havia mais vida na minha
frente. Por fim,
Invocação à mulher única: Tu, pássaro —
mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo
infinito Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o frio das
águas — tu / Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o
poema receba as minhas lágrimas!...) / Dei-te um mistério: um ídolo, uma
catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração
em martírio / E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a
minha carne é aguda / E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade
dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia. / Pobre eu!
sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea / Feita de
diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de
lua... / A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores,
onanistas — negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência /De
poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento — afirmações do
bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna
que a caridade / Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a
visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo
Espírito, amém! / Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da
terra — perpetuação do êxtase / Criatura, mais que nenhuma outra, porque
nasceste fecundada pelos astros — mulher! tu que deitas o teu sangue / Quando
os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias — mulher! / Mulher
que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
/ Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —fruto da
carne /Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne / Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio
à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo! / Não me deixes partir... — as
viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a
viagem muito pura / A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais
fundo da minha poesia / Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha
imensa e desdobrada — por onde eu iria caminhando / Até o âmago e iria e
beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma
múmia egípcia / No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele
que é a minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna! Veja mais aqui, aqui e aqui.
A
MULHER DE CALABAR – A peça teatral Calabar:
o elogio da traição (Civilização Brasileira, 1976), de Chico Buarque e Ruy Guerra, trata acerca do acontecimento histórico
que envolve Domingos Fernandes Calabar no embate entre portugueses e holandeses
no Brasil colonial, como uma metáfora para o período militar de 1964-1985. Da
obra destaco os trechos: PLENAMENTE ILUMINADA,
BÁRBARA SE LEVANTA E VESTE-SE CALMAMENTE, CANTANDO CALA BOCA, BÁRBARA – Bárbara
(cantando): Ele sabe dos caminhos dessa minha terra No meu corpo se escondeu,
minhas matas percorreu Os meus rios, os meus braços Ele é o meu guerreiro nos
colchões de terra Nas bandeiras, bons lençóis Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca - olha o fogo! Cala a boca - olha a relva! Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Ele sabe dos
segredos que ninguém ensina Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber As
vazantes, as correntes Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro Nas
campanhas, nos currais Nas entranhas, quantos ais, ai Cala a boca - olha a
noite! Cala a boca - olha o frio! Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara cala a boca,
Bárbara Cala a boca, Bárbara [...] ANNA
CANTA ANNA DE AMSTERDAM – Anna (cantando) Sou Ana do dique e das docas Da
compra, da venda, das trocas de pernas Dos braços, das bocas, do lixo, dos
bichos, das fichas Sou Ana das loucas Até amanhã Sou Ana Da cama, da cana,
fulana, sacana Sou Ana de Amsterdam Eu cruzei um oceano Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano Fui beijada por Gaspar Sou Ana de cabo a tenente Sou
Ana de toda patente, das Índias Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada Até amanhã, sou Ana Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos Sou
Ana de Amsterdam Arrisquei muita braçada Na esperança de outro mar Hoje sou
carta marcada Hoje sou jogo de azar Sou Ana de vinte minutos Sou Ana da brasa
dos brutos na coxa Que apaga charutos Sou Ana dos dentes rangendo E dos olhos
enxutos Até amanhã, sou Ana Das marcas, das macas, da vacas, das pratas Sou Ana
de Amsterdam [...] SUBITAMENTE ILUMINADA, BÁRBARA CANTA TATUAGEM – Bárbara:
Quero ficar no teu corpo Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem Pra seguir viagem Quando a noite vem E também pra me
perpetuar Em tua escrava Que você pega, esfrega Nega, mas não lava Quero
brincar no teu corpo Feito bailarina Que logo te alucina Salta e se ilumina
Quando a noite vem E nos músculos exaustos Do teu braço Repousar frouxa,
murcha, farta, Morta de cansaço Quero pesar feito cruz Nas tuas costas Que te
retalha em postas Mas no fundo gostas Quando a noite vem Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva Marcada a frio Ferro e fogo Em carne viva Corações de mãe,
arpões Sereias e serpentes Que te rabiscam O corpo todo Mas não sentes [...]
BÁRBARA COMEÇA A CANTAR TIRA AS MÃOS DE MIM – Bárbara (cantando) Ele era mil Tu és nenhum Na guerra és vil Na
cama és mocho Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se o fogo dele
Guardado em mim Te incendeia um pouco Éramos nós Estreitos nós Enquanto tu És
laço frouxo Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se a febre dele
guardada em mim Te contagia um pouco. [...] BÁRBARA COMEÇA A CANTAR COBRA DE VIDRO: Aos quatro cantos o seu corpo
Partido, banido Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos de vidro O seu
veneno incomodando A tua honra, o teu verão Presta atenção Aos quatro cantos suas
tripas De graça, de sobra Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos, de
cobra O seu veneno arruinando A tua filha, a plantação Presta atenção Aos
quatro cantos seus ganidos Seu grito medonho Aos quatro ventos os seus quartos
Seus cacos de sonho O seu veneno temperando A tua aveia O teu feijão Presta
atenção. [...] ANNA RI MUITO. BÁRBARA CONTINUA SÉRIA, NUM GESTO DE
DESESPERO, ANNA DESMANCJA O PENTEADO DE BÁRBARA. EM SEGUIDA RECOMEÇA A
PENTEÁ-LO, DISPENSANDO AS ESCRAVAS, BÁRBARA COMEÇA A CANTAR FORTALEZA. Bárbara
(cantando) A minha tristeza não é feita de angústias
A minha tristeza não é feita de angústias A minha surpresa A minha surpresa é
só feita de fatos De sangue nos olhos e lama nos sapatos Minha fortaleza Minha
fortaleza é de um silêncio infame Bastando a si mesma, retendo o derrame A
minha represa. [...]
Veja mais aqui, aqui e aqui.
I RACONTI DI CANTERBURY – O premiado filme I raconti de Canterbury (Os Contos de Canterbury, 1972), do
cineasta, poeta e escritor italiano Pier
Paolo Pasolini (1922-1975), é uma obra baseada nos contos eróticos do
escritor, filosofo, cortesão e diplomata inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400),
cenografia de Dante Ferretti e trilha sonora de Ennio Morricone, no qual há uma
celebração ao sexo de uma forma muito bem humorada, numa atmosfera ao mesmo
tempo mágica e rústica, retratando, inclusive, uma representação do inferno com
claras influências do pintor neerlandês Hieronymus Bosch. Veja
mais aqui, aqui, aqui e aqui.Todo dia é dia da atriz estadunidense Beverly D’Angelo, a eterna musa do filme Hair (1979).
quinta-feira, março 07, 2013
CORAÇÃO DE AREIA DE VCA, VERONICA FRANCO, BORGES, CONRAD, CLEONICE BERARDINELLI, VARGAS & A REPÚBLICA
CORAÇÃO DE AREIA, DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO – O livro Coração de areia é o quarto livro de poemas do poeta Vital Corrêa de Araújo, publicado pela Fundarpe\CEPE, em 1994. A leitura da obra me remeteu a duas outras, a primeira delas a clássica novela Heart of Darkness (O Coração das Trevas), do escritor nascido polonês onde hoje é a Ucrânia, Joseph Conrad, que foi exilado ainda criança pelas atividades insurgentes paternas na época dominada pelo Império Russo. Pouco tempo depois ficou órfão, razão pela qual passou a ser criado por um tio e, ainda jovem mudou-se para a França, com o intuito de iniciar uma carreira na Marinha Mercante. Quatro anos mais tarde estabeleceu-se na Inglaterra, onde adquiriu cidadania e dedicou-se à escrita. A novela narra a trajetória do que poderíamos considerar como seu alter ego, o marinheiro Marlow, que partindo pelo Tâmisa realizou as experiências percorridas pelo rio Congo numa barcaça, à procura de um comerciante de marfim, Kurtz, um polivalente renascentista europeu que havia se tornado habitante das densas florestas equatoriais africanas, sucumbindo aos instintos dos selvagens locais, passando a ser adorado pelos nativos como um deus. O contexto histórico dessa narrativa se dá a partir do propósito do rei belga que promoveu em meados da década de 1870, as supostas expedições humanitárias e científicas para civilização dos selvagens que habitavam pelo país africano, na verdade demonstrando a crueldade com a exploração do ouro, o abate de elefantes para captação do marfim e a devastação da floresta nativa, riqueza esta transferida para os cofres do reino. Esta foi a experiência vivida pelo autor que fez uma carreira marítima e testemunhou os horrores nas páginas de sua obra simbólica e metafórica: aí estão as denúncias do genocídio belga, por meio do impressionismo literário exposto com as aflições e a escuridão do colonialismo imperialista com seu projeto civilizatório violento durante o século XIX. Registre-se que esta foi a obra que inspirou o Apocalypse de Coppola, inclusive mantendo os nomes dos principais personagens de Conrad, trazendo para a guerra do Vietnã dos anos 1970, contando a história da jornada feita pelo capitão Willard em busca do coronel Walter Kurtz, além de expor outros personagens, como o fotojornalista que é uma versão do arlequim russo e o piloto negro do navio como uma reencarnação do timoneiro. Tanto em Apocalypse Now como em Coração das Trevas constata-se que a jornada central é tanto literal quanto metafórica. Desta obra VCA trouxe pro seu livro a luz e a escuridão, o preto e branco, a civilização e a barbárie, o desconhecido, o sombrio e o inumano, o horror e as trevas, por meio de versos que transitaram do coração para vida. O segundo livro que me fez rever foi O Livro de Areia de Jorge Luís Borges, um livro composto por contos do autor, nos quais é possível perceber um ar de fábulas, com transporte para lugares tão inusitados e profundos, com definições sobre tempo, espaço, narrador e personagens, tudo se misturando no labirinto borgeano. A partir do conto “O outro” até o último “Livro de Areia”, observa-se a busca pela arte, por descobrir o momento perfeito, o tempo mágico e a literatura em toda a sua plenitude. Exemplo disso é encontrar no conto O outro um trecho sintomático “Exceto nas severas páginas da história, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis”, e mais adiante também isso: “Respondi que o sobrenatural, se acontece duas vezes, deixa de ser aterrador”. No conto Ulrica é possível flagrar: “Sempre é uma palavra que não é permitida aos homens”. Já no conto A seita dos trinta está expresso que: “Já que o desejo não é menos culpável que o ato, os justos podem se entregar sem risco ao exercício da mais desbragada luxúria”. Além destes, no conto A noite dos bons revela-se que: “Todas as coisas são reveladas a todos os homens ou, pelo menos, tudo aquilo que um homem é dado conhecer, mas a mim, da noite à amanhã, me foram reveladas essas duas coisas essenciais”. Mas é no conto título “Livro de Areia”, que se fecha o volume confirmando o reconhecimento internacional do autor argentino com a sua narrativa fantástica repleta de coisas inexplicáveis e inenarráveis pressupondo o infinito e o impossível. É exatamente tais conduções que levam VCA, profundo conhecedor dos dois autores mencionados, a se expressar em versos como no Coração, coração: “E uma ficção covarde \ o coração: \ frágil taça de emoção \ vaso de fecundo olvido \ terra inútil, músculo vazio”. Este é o clima poético dos poemas seguintes, como Quatro poemas a Eliot, Ao coração dos crédulos, Tercetos em riste, Poemas de linho ou Dísticos biográficos ínfimos do supremo vate, entre outros, sobretudo nos poemas da parte designada Sombras somos (vide aqui). Tanto o é que a escritora, médica e professora universitária Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque assim se expressou: “É encantador o Coração de Areia de Vital Corrêa de Araújo, livro de poemas lançado pela Fundarpe. Concebido com apuro de quem enxugou léguas de palavras, estrutura-se, com consistência, em torno de um tema-título que se desdobra ao longo do livro, em cascatas de metáforas e símbolos. Harmoniosa sua poesia flui com naturalidade entre conceitos concretos – quase rudes – e imagens abstratas e sutis. Infinitamente sutis: “...órgão oco e muscular, habitante da cave do tórax e bebedor de sangue...” “Coração, casa velha... turvo leopardo, andarilho rubro arroio louco, oásis súbito...” Palavras e imagens essenciais ao exercício poético – que não podem ser consideradas gastas – são usadas, sem medo, enlaçadas a momentos poéticos de extraordinária originalidade. E a originalidade é um dos componentes fundamentais da poesia, em particular da poesia moderna ou pós-moderna: “Lançado no mármore da eternidade este teu coração fugitivo e inúmero porque a tantos repartido como pão devasso”. A camada sonora dos poemas, sua orquestração, os valores relacionais dos sons, convidam à repetição dos versos, ao desejo de decorá-los (“cor-cordis”), na tentativa de incorporar seu ritmo, um tanto blakeano. E por falar em Blake: “Que tigre nele rege a paixão que ruge?” Assim, o tema “coração”, mote do livro e marcapasso de sua estrutura é resgatado do lugar comum e reinvestido de outras dimensões simbólicas. O poeta é consciente disso. O resgate é intencional e pleno: “Frágil taça de emoção, vaso de fecundo olvido, terra inútil, músculo vazio”. Portanto, pouco resta ao leitor que pretenda louvar tais versos. A poesia é sempre mais eloquente que prosa rude – sobretudo quando amadurecida e apurada como a que Vital Corrêa de Araújo acabou de estampar em livro. Seu trabalho é um claro emaranhado de metáforas, em perfeito equilíbrio, a um passo da escandalosa beleza do barroco, hoje considerado o idioma internacional da cultura. Suas formas se engrandecem em torno de temas universais e atemporais. A “Fuga do rosto” é um poema apurado. Bom em qualquer espaço ou tempo. “Dois quartetos de corda” é um encanto ao som de Mozart. Com seu Coração de Areia, Vital Corrêa de Araújo, conhecido poeta do urbano, renasce como um poeta forte. Então, que cesse da antiga musa o canto, enquanto desisto de continuar expressando meus entusiasmos por uma poesia que enaltece a si mesma”. Devidamente esmiuçado o volume, uma constatação fica evidenciada: em seu coração de areia as trevas de Conrad\Coppola são tão presentes e flagradas no aqui\agora existencial, a ponto de provocar um refazer-se existencial de monumento poético diante da finitude vital com imaginação infinita criativa. Aplausos para VCA! Veja mais do autor aqui, aqui, aqui e aqui.
DITOS & DESDITOS - Não se espantem de ouvir que uma garota de nove anos sabia a importância da sua descoberta. Ela pertencia a um grupo bastante grande de meninas de classe média que, àquele tempo, aprendiam declamação... Pensamento da professora universitária e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cleonice Berardinelli, que apresentou uma receita para leitoras poéticas: Vou dar uma receita que foi a que me deram como leitora de poesia. Desde criança, tive injetada em minha memória e em meu gosto, em minha alegria e em minha satisfação, a poesia. Eu tinha quatro anos e já sabia de cor sonetos que nem fáceis eram, complicados mesmo, em ordem bem arrevesada, mas eu fui adorando aquilo tudo. Sempre que havia uma visita em nossa casa, meu pai perguntava – com grandes piscadelas de olho da minha mãe que achava que aquilo não se podia fazer, que era maçar o visitante: “Você gosta de poesia?” Se a pessoa respondia afirmativamente e com convicção, papai revelava: “Pois Cléo diz poesias muito direitinho, ela adora e tem uma memória formidável.” Então a visita, com certeza metade por gentileza e talvez metade por convicção própria, dizia que gostaria muito de ouvir e perguntava o que eu sabia. Eu respondia: “Eu sei uma porção de versos, sei sonetos.” As pessoas ficavam horrorizadas: “Sonetos? Você é capaz de dizer um?” “Sou. Papai, digo o quê, ‘A Santa?’” Papai consentia e então eu começava: “Essa que passa por aí, senhores, / de olhos castanhos e fidalgo porte, / é a princesa ideal dos meus amores, / a mais franzina pérola do Norte. / Contam que, numa noite de esplendores, / a essa que esmaga o coração mais forte / hinos cantaram e jogaram flores / as estrelas, em mágico transporte.” Isto são os dois quartetos, que eu ainda consigo saber de cor, o resto eu não lembro...
O LIVRO DE AREIA – A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes... Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar meu relato. Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico. Vivo só, num quarto andar da rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços malconformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas. Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora. - Vendo bíblias - disse. Não sem pedantismo respondi-lhe: - Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente bíblias o que me falta. Ao fim de um silêncio respondeu: - Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir. Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Haly Writ e, abaixo, Bombay. - Será do século XIX - observei. - Não sei. Não soube nunca - foi a resposta. Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino. Foi então que o desconhecido disse: - Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais. Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz. Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse: - Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade? - Não - replicou. Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo: - Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim. Pediu-me que procurasse a primeira folha. Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro. - Agora procure o final. Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era a minha: - Isto não pode ser. Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse: - Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número. Depois, como se pensasse em voz alta: - Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo. Suas considerações me irritaram. Perguntei: - O senhor é religioso, sem dúvida? - Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico. Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume. - E de Robbie Bums - corrigiu. Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei: - O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico? - Não. Ofereço-o ao senhor - replicou e fixou uma soma elevada. Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano. - Proponho-lhe uma troca - disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais. - A black letter Wiclif! - murmurou. Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo. - Trato feito - disse. Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as. Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome. Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As Mil e Uma Noites. Deitei-me e não dormi. As 3 ou 4 da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência. Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro. O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça. Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda 900 mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta. Sinto um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela rua México. Conto extraído da obra O livro de areia (Globo, 1995), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Veja mais aqui, aqui e aqui.
CORAÇÃO DAS TREVAS – [...] São essas pequenas coisas que fazem a grande diferença. Quando elas desaparecem, você tem de recorrer à sua força inata, à sua capacidade se ser fiel a si próprio. É claro que você pode ser tolo o bastante para cometer erros - estúpido demais até para perceber que está sendo assaltado pelos poderes das trevas. Suponho que nenhum tolo chegou a barganhar sua alma com o diabo; ou o tolo é tolo demais. Ou o diabo demasiadamente diabólico - não sei qual é o caso. Ou pode ser que você seja uma criatura tão fantasticamente superior ao ponto de ficar surda e cega a tudo que não diga respeito a visões e sons celestiais. A Terra passa, então, a ser apenas um lugar de espera - e, se você perde ou ganha assim, não sei dizer. No entanto, a maioria de nós não é uma coisa nem outra. [...] E talvez esteja aí toda a diferença; talvez toda a sabedoria, toda verdade e toda sinceridade estejam apenas contidas naquele inapreciável momento em que ultrapassamos o limiar do invisível. [...] Vivemos como sonhamos, sozinhos. [...] Deviam tê-lo ouvido falar ‘Meu marfim’. Eu ouvi. ‘Minha Prometida, meu marfim, meu posto, meu rio, meu…’, tudo lhe pertencia. Fez com que prendesse minha respiração na expectativa de ouvir a floresta rebentar numa prodigiosa explosão de riso, que deslocaria do lugar as estrelas do céu. Tudo lhe pertencia, mas isso não importava. A questão era saber a quem ele pertencia, quantos poderes das trevas reclamavam-lhe a posse. Essa era a reflexão que provocava arrepios de horror. Era impossível — de nada adiantava, também — tentar imaginar. Ele havia galgado uma alta posição entre os demônios da Terra — literalmente, quero dizer. Vocês não podem compreender. Como poderiam? Tendo o chão firme sob os pés, cercados do apoio ou da crítica de vizinhos gentis, andando delicadamente entre o açougueiro e o policial, no santo terror de escândalos, prisões e hospícios, como poderiam vocês imaginar a que particular região de primitivas eras os pés desimpedidos de um homem seriam capazes de conduzi-lo, por força da solidão — uma solidão absoluta, sem nenhum policial — ao caminho do silêncio — um silêncio absoluto, onde nenhuma voz de advertência de um vizinho amável pode ser ouvida sussurrando à opinião pública? São essas pequenas coisas que fazem a grande diferença. Quando elas desaparecem, você tem de recorrer à sua força inata, à sua capacidade de ser fiel a si próprio. É claro que você pode ser tolo o bastante para cometer erros — estúpido demais até para perceber que está sendo assaltado pelos poderes das trevas. Suponho que nenhum tolo chegou a barganhar sua alma com o diabo; ou o tolo é tolo demais, ou o diabo demasiadamente diabólico — não sei qual é o caso. Ou pode ser que você seja uma criatura tão fantasticamente superior a ponto de ficar surda e cega a tudo que não diga respeito a visões e sons celestiais. A Terra passa, então, a ser apenas um lugar de espera — e, se você perde ou ganha assim, não sei dizer. No entanto, a maioria de nós não é uma coisa nem outra. A Terra para nós é um lugar para viver, onde temos de lidar com visões, sons… e odores, também, por Deus! — respirar carne podre de hipopótamo, por assim dizer, e não ser contaminado. E aí, não percebem? Nossa força aparece, a fé em nossa capacidade de cavar buracos discretos para enterrar a coisa — nosso poder de devoção, não a si próprio, mas a um obscuro e extenuante trabalho. E isso é bastante difícil. Vejam, não estou tentando desculpar-me ou mesmo explicar… Estou tentando compreender mais claramente quem era… o Sr. Kurtz… o espectro do Sr. Kurtz. Aquele iniciado fantasma proveniente do fundo de lugar nenhum honrou-me com sua surpreendente confidência antes de desaparecer completamente. Foi porque podia falar inglês comigo. O Kurtz original fora em parte educado na Inglaterra, e — como ele próprio teve a bondade de dizer-me — suas simpatias inclinavam-se para o lugar certo. A mãe era meio inglesa, o pai meio francês. A Europa inteira contribuíra para a fabricação de Kurtz; e, pouco a pouco, aprendi que, muito apropriadamente, a Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Bárbaros o incumbira da elaboração de um relatório, que lhe serviria de guia no futuro. E ele de fato o escreveu. Eu o vi. Eu o li. Era eloqüente, vibrava de eloqüência, mas passional demais, eu acho. Dezessete páginas de escrita miúda, que ele encontrara tempo para realizar! Porém, isso deve ter sido antes de — vamos dizer — ficar mal dos nervos, fazendo com que presidisse certas danças à meia-noite que terminavam com indescritíveis ritos, os quais — tanto quanto relutantemente concluí do que ouvira diversas vezes — eram oferecidos a ele — compreendem? — ao próprio Sr. Kurtz. Mas era um belo texto. O parágrafo de abertura, no entanto, à luz de informação posterior, parece-me agora sinistro. Começa com o argumento de que nós, brancos, em razão do nível de desenvolvimento a que chegamos, ‘devemos necessariamente aparecer a eles (selvagens) como seres de natureza sobrenatural — aproximando-nos deles com a força de uma divindade’, e assim por diante. ‘Pelo simples exercício de nossa vontade, podemos exercer para sempre um poder praticamente ilimitado’ etc. etc. A partir desse ponto, elevava-se a grande altura, levando-me junto. O discurso era magnífico, embora difícil de lembrar, compreendem. Passava a idéia de uma exótica Imensidão governada por uma augusta Benevolência. Fazia-me vibrar de entusiasmo. Era o ilimitado poder da eloqüência… da palavra… de palavras nobres, inflamadas. Não havia alusões práticas para interromper o encadeamento mágico das frases, a não ser uma espécie de nota ao pé da última página, evidentemente rabiscada muito depois, numa caligrafia irregular, podendo ser considerada como uma exposição do método. Era muito simples, e, no final daquele apelo comovente a todo sentimento altruísta, brilhava, luminoso e aterrorizante, como o clarão de um raio em céu sereno: ‘Exterminem todos os bárbaros!’ [...] Trechos extraídos da obra Heart of Darkness (Dover Publications, 1990), do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924). Veja mais aqui, aqui e aqui.
A COURTESAN'S LOVE LYRIC - Resolvi fazer do meu desejo uma virtude. \ Minhas recompensas serão proporcionais aos seus presentes \ se você me der aquele que \ me faz rir... \ E embora não lhe custe nada, \ ainda assim é de imenso valor para mim. \ Sua recompensa não será \ apenas voar, \ mas voar tão alto \ que suas alegrias excedam amplamente seus desejos. \ E a minha beleza, a que aspira o teu coração \ e que não te cansas de louvar, \ Vou empregar para elevar o \ seu ânimo. Então, deitado docemente ao seu lado, \ vou regá-lo com todas as delícias de uma noiva, \ que aprendi com mais habilidade. \ Então você, que ardeu \ com tanto fervor, finalmente descansará, totalmente contente, \ apaixonado ainda mais profundamente, gasto \ em meu seio confortável. \ Quando estou na cama com um homem, eu desabrocho, \ ficando completamente livre \ com o homem que me ama e gosta de mim... II – Por favor, tente ver com olhos sensatos \ como isso é grotesco para você \ insultar e abusar das mulheres! \ Nosso infeliz sexo está sempre sujeito \ a tão injusto tratamento, porque somos \ dominados, negados a verdadeira liberdade! \ E certamente não temos culpa \ porque, embora não sejamos tão robustos quanto os homens, \ temos corações, mentes e intelectos iguais. \ A virtude também não se origina no poder, \ mas no vigor do coração, mente e alma: \ as fontes do entendimento; \ e estou certo de que neste aspecto \ nada falta às mulheres, \ mas, pelo contrário, têm demonstrado \ superioridade sobre os homens. \ Se nos consideras "inferiores" a ti mesmo, \ talvez seja porque, sendo sábios, \ te superamos em modéstia. \ E se você quer saber a verdade, \ a pessoa mais sábia é a mais paciente; \ ela se enquadra na razão e na virtude; \ enquanto o louco troveja insolência. \ A pedra que o sábio retira do poço \ foi atirada por um tolo... III – Eu gostaria que não fosse considerado pecado \ gostar de foder. \ As mulheres ainda não perceberam \ a covardia que preside. \ E se eles decidissem \ lutar contra o raso, \ Ceu seria o primeiro, dando um exemplo para eles seguirem. Poemas extraídos da obra The Honest Courtesan: Veronica Franco, Citizen and Writer in Sixteenth-Century Venice (Poems in Terze Rime, 1575 - Chicago Press, 1993), da poeta e cortesã veneziana Veronica Franco (1546-1591), que foi banida de Veneza porque morava em uma área da cidade onde muitas prostitutas recebiam seu apoio e supostamente seus pecados haviam provocado uma praga, só retornando em 1577 para enfrenta a Inquisição e acusações de bruxaria. Por fim, conquistou sua liberdade, porém perdeu todos os seus bens materiais. Sua vida inspirou o drama romântico-biográfico Dangerous Beauty (Em Luta pelo Amor, 1998), dirigido por Marshal Herskovitz, baseado no livro The Honest Courtesan, de Margaret Rosenthal, publicado em 1992, e estrelado por Catherine McCormack. Veja mais aqui.
GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS
Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
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DORO, A TEIBEI & ORÁCULO... – Doro aperreou-se: a situação não estava nada auspiciosa; de promissor mesmo, só a vontade de tom...
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PRIMEIRO DE MAIO - O melhor dia de trabalho é o primeiro de maio porque é feriado, isso quando não cai num dia de domingo, senão é mesmo...
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A arte do cartunista e ativista político Carlos Latuff . MOVIMENTO SINDICAL NO BRASIL - Os sindicatos são organizações cria...
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Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...























