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segunda-feira, junho 01, 2020

EDGARD VARÈSE, LYUDMILA TOMOVA, TOM ZÉ, LUCIA HELENA GONDRA & DEMOCRACIAS MORREM


DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: É CADA UMA QUE NEM CONTO – Pois é, chega! Quebrei a caixa, mudei de casca, troquei de pele, juntei os trapos e as mirradas lembranças para saber o que envergonha e o desesperador: apenas o silêncio e a solidão. Tudo que fiz até agora foi em vão, tão inútil quanto saber-me nem cético, nem cínico, apenas que já estava no sangue o louco de nascença atravessando anos de desencontros pelo insólito, para me perder por tão poucos reencontros. É tarde demais, nem sei quantos remorsos, tantas travessias, a vida eclipsada pisando em falso, engolindo mosquitos, tentando me desvencilhar de socos no estômago por escapulidas nem sempre escorregadias. A despeito dos embaraços envelheci desgracioso e desajustado, nada mais, apenas menino pés alados e desajeitado, levado pela corrente ao vento entre pedras e margens da minha desordem e indignação. Queria apenas contar uma historinha simplesmente humana, e em voz alta como uma oração estranha e própria aos que se foram e saudando os vivos, fazer a minha parte, apenas, como se salvasse o planeta do lixo um tantinho assim, feito o beija-flor de Crema: é pouco, mas sou eu, não sou nada. DUAS: APRENDIZ DE FEITICIEIRO, AEQUO AMENOS – Mesmo assim, extenuado dos inúteis esforços diante das inconveniências e misérias, tanto nado contra a corrente e do estresse da normalidade para não ser apenas um código de barras, ou um animal pensante ou sei lá o quê. O normótico é tão desumano e não me basta por ser tão aborrecido e enlouquecedor. Nem ligo pras galhofas se sou um fracassado de Jung, sei que não sou mais estúpido por absoluta falta de espaço, enquanto o grotesco está na esquina e eu encaro em cima da fivela sem sair da raia. Por incrível que pareça, já fiz de tudo tanto por vocação da necessidade em alta voltagem que nem sei mais, só não quero confundir as coisas: sou a favor de tudo que não seja contra o sujeito, apenas. Com os dias contados botei todas as portas abaixo para enfrentar o flagelo das interdições, tudo desapareceu, graças. Mesmo que tenha que aturar a chatura, dou umas risadas esclarecedoras com o GregNews, ou refletindo com o Meteoro e o Normose, ou seguindo o coletivo ciberativistas Sleeping Giants, enquanto vou xexéu assobiando Quintana passarinho. TRÊS: PANTA RHEI – Tudo passa, tudo flui. O assobio segue morros e abismos, quer ser indene e distingue vis-à-vis o que vem do bem e bom, quase premonitório visionário suplantando as nuvens de cocô de alcestes coisonários com seu negacionismo da distopia transnacional e estereótipos ad bestias! Sem nem saber vai arrebentando a anomia catingosa feita de coprólitos e flatulências dos que insistem suplícios nas arenas, ah, ignoro o desprezível com suas tolices letais do cúmulo da parvoíce humana. Ainda ouço a sátira de Bernard Shaw: A democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Sorrio e persigo solfejando a Carta à República de Milton e Brant: Quero um país melhor! Se der jeito, ou se quiser, vamos aprumar a conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Uma das grandes ironias de como as democracias morrem é que a própria defesa da democracia é muitas vezes usada como pretexto para a sua subversão. Aspirantes a autocratas costumam usar crises econômicas, desastres naturais e, sobretudo, ameaças à segurança – guerras, insurreições armadas ou ataques terroristas – para justificar medidas antidemocráticas. [...] Como não há um momento único – nenhum golpe, declaração de lei marcial ou suspensão da Constituição – em que o regime obviamente “ultrapassa o limite” para a ditadura, nada é capaz de disparar os dispositivos de alarme da sociedade. Aqueles que denunciam os abusos do governo podem ser descartados como exagerados ou falsos alarmistas. A erosão da democracia é, para muitos, quase imperceptível. [...] As democracias funcionam melhor – e sobrevivem mais tempo – onde as constituições são reforçadas por normas democráticas não escritas [...] a tolerância mútua, ou o entendimento de que partes concorrentes se aceitem umas às outras como rivais legítimas, e a contenção, ou a ideia de que os políticos devem ser comedidos ao fazerem uso de suas prerrogativas institucionais. Trechos extraídos da obra Como as democracias morrem (Zahar, 2018), dos professores e cientistas políticos estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, realizando uma análise crua e perturbadora do fim das democracias em todo o mundo, comparando o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos, tais como da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970, fazendo uma alerta: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE EDGARD VARÈSE
Deve-se pensar em termos de som e não em termos de notas sobre o papel. Minha linguagem é naturalmente atonal ainda que certos temas, certas notas repetidas, à maneira das tônicas, constituam eixos em torno dos quais as massas parecem se aglomerar. Deste modo o desenvolvimento musical cresce pouco à pouco graças à repetição de certos elementos que se apresentam sempre sob diferentes aspectos, e o interesse aumenta graças à oposição dos planos e graças ao movimento das perspectivas. Se os temas reaparecem, eles ocupam sempre uma função distinta num meio novo (os volumes). Quando os novos instrumentos me permitirem escrever música tal como a concebo, os movimentos das massas e o deslocamento dos planos sonoros serão claramente perceptíveis na minha obra e tomarão o lugar do contraponto linear. Eu pessoalmente gosto muito da definição de H. Wronsky: 'A música é a corporificação da inteligência nos sons'.
EDGARD VARÈSE - Trechos extraídos da obra Écrits (C. Bourgeois, 1983), do compositor francês Edgard Varèse (1883-1965), reunidos e apresentados pela professora e musicóloga canadense, Louise Hirbour. O compositor definiu os parâmetros para uma nova ética da pesquisa musical, com o rigor da firmeza artística desligada de teorias apriorísticas, com o propósito visionário de referência do estado de inquietude.
&
A DEMOCRACIA DE TOM ZÉ
Democracia que me engana / na gana que tenho dela / cigana ela se revela, aiê; / democracia que anda nua / atua quando me ouso / amua quando repouso. / É o demo o demo a demo / é a democracia / é o demo o demo a demo / é a democracia. / Democracia, me abraça / com tua graça me atira / desfaz esta covardia, aiê; / democracia não me fere / mira aqui no meio / atira no meu receio. / Democracia que escorrega / na regra não se pendura / na trégua não se segura, aiô; / democracia pois me fere / e atira-me bem no meio / daquilo que mais eu mais receio. / Democracia, não me deixe / sou peixe que fora d'água / se queixa, morre de mágoa, aiê; / democracia não se dita / maldita seja se dura, / palpita pela doçura.
Democracia, do álbum No Jardim da Política (1984), parceira de Tom Zé e Vicente Barreto. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
No meu trabalho, mesclo elementos abstratos e realistas para criar clima, movimento e uma impressão do mundo ao nosso redor e dentro de nós. Minhas pinceladas estão se movendo, empurrando, emergindo e esmagando, mas nunca estão quietas e quietas. No meu trabalho recente, eu pintei o estilo alla prima, acrescentando espontaneidade, ousadia e elegância de uma só vez. Eu pinto contando histórias mágicas e evocando emoções complexas.
LYUDMILA TOMOVA – A arte da premiada pintora, ilustradora e designer editorial búlgara Lyudmila Tomova, que estudou realismo clássico na Academia de Belas Artes de Sofia e mais tarde na FIT em Nova York, onde estudou ilustração, além de sua experiência artística diversificada há mais de 20 anos. Veja mais aqui e aqui. E mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da pianista e compositora Lucia Helena Gondra, autora de frevos como Riso largado no passo rasgado, Vou de reboque, Os bordões, entre outros sambas, choros e frevos de blocos.
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A música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre aqui.
Outro sol se levanta, do escrito Pelópidas Soares (1922 – 2007) aqui.
Rio Una: poemas, do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981) aqui.
A realidade social da ficção, do sociólogo Sebastião Vila Nova aqui.
A arte da fotógrafa, artista visual e pesquisadora Ana Lira aqui.
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A Praieira em Água Preta aqui.


terça-feira, novembro 15, 2016

A REPÚBLICA NO REINO DO FECAMEPA – LIÇÕES DE ONTEM E DE HOJE PRO QUE NÃO É

[...] Sabes que há tantas espécies de caráter como formas de governo? Ou pensas que essas formas provêm dos carvalhos e da rocha, e não dos costumes dos cidadãos, que arrastam todo o resto para o lado para que pendem? [...] não convirá passar em revista os caracteres inferiores: em primeiro lugar, o que ama a vitória e a honra, baseado no exemplo do governo da Lacedemônia; em segundo o oligárquico, o democrático e o tirânico? Depois de reconhecermos qual o mais injusto, oporemos este ao mais justo e poderemos aí terminar o nosso exame e ver como a pura justiça e a pura injustiça agem, respectivamente, no que diz respeito à felicidade ou à infelicidade do indivíduo, para que siga o caminho da injustiça, se nos deixarmos convencer por Trasímaco, ou a da justiça, se cedermos às razões que se manifestam a seu favor [...] Deste modo, de amantes que eram da conquista e das honras, os cidadãos acabam por tornar-se avarentos e ambiciosos, louvando o rico, admirando-o e levando-o ao poder, e desprezando o pobre. [...].
Trechos recolhidos da obra A República (Edições de Ouro, 1980), do filósofo e matemático grego racionalista, realista, idealista e dualista Platão (428-347aC). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] A liberdade, por exemplo, só pode existir verdadeiramente onde o povo exerce a soberania; não pode existir essa liberdade, que é de todos os bens o mais doce, quando não é igual para todos. [...] Pois bem: assim como o agricultor conhece a natureza do terreno e assim como um escritor sabe escrever, procurando ambos, na sua ciências, antes a utilidade do que o deleite, assim também o homem de Estado pode estudar o direito, conhecer as leis, beber nas suas próprias fontes, sob a condição de que as suas respostas, escritos e leituras o ajudem a administrar retamente a República. Certamente, deve conhecer o direito civil e natural, sem cujo conhecimento não pode ser justo. Mas deve ocupar-se com tais coisas como o piloto se ocupa com a astronomia, e o médico com as ciências naturais, referindo esses estudos à prática de sua profissão, aproveitando-se deles no que lhe possam ser úteis e sem se separar do verdadeiro caminho que empreendeu. [...].
Trechos extraídos da obra Da República (Escala, 2005), do filósofo, orador, escritor, advogado e político romano Marco Túlio Cícero (106 – 43aC).. Veja mais aqui, aqui e aqui.

[...] Porque em toda cidade se encontram estes dois humores diversos; e nasce disso
que o povo deseja não ser comandado nem oprimido pelos grandes, e os grandes
desejam comandar e oprimir o povo; e desses dois apetites diversos nascem nas cidades um dos três efeitos: ou principado ou liberdade ou licença. [...].
Trecho extraído da obra  O príncipe (Abril Cultural, 1979), do escritor, filósofo, historiador e dip0lomata italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] Num Estado, isto é, numa sociedade onde há leis, a liberdade só pode consistir em poder fazer-se o que se deve querer e em não estar obrigado a fazer o que não se deve querer. [...] A desgraça de uma república advém quando não há mais conluios e isso acontece quando se corrompe o povo pelo dinheiro: ele torna-se indiferente e afeiçoa-se ao dinheiro, porém não mais se afeiçoa aos negócios: sem se preocupar com o governo e com o que nele se propõe, espera tranquilamente seu salário. [...].
Trechos extraídos da obra Do espírito das leis (Abril, 1979), do filósofo e escritor francês Montesquieu (1689-1755). Veja mais aqui, aqui e aqui.

[...] Eu chamo, pois, república todo Estado regido por leis, independente da forma de administração que possa ter; porque então somente o interesse público governa, e coisa pública algo representa. Todo governo legítimo é republicano. [...].
Trecho extraído da obra Do contrato social (Abril Cultural, 1978), do escritor, teórico político, um dos principais filósofos do Iluminismo e precursor do Romantismo francês, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] A padronização formal da justiça, do estado, do funcionalismo público etc. significa objetivamente e factualmente uma redução comparável de todas as funções sociais aos seus elementos, uma busca comparável pelas leis racionais formais desses sistemas parciais cuidadosamente segregados [...].
Trecho extraído da obra História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista (WMF Martins Fontes, 2012), do filósofo, crítico literário e pensador marxista húngaro Georg Lukács (1885-1971). Veja mais aqui e aqui.

[...] Embora os seres humanos não sejam civilizados por natureza, possuem por natureza uma disposição que torna possível, sob determinadas condições, uma civilização, portanto uma autorregulação individual de impulsos do comportamento momentâneo, condicionado por afetos e pulsões, ou o desvio desses impulsos de seus fins primários fins secundários, e eventualmente também sua reconfiguração sublimada. [...] Dado que os seres humanos, diferentemente de muitos outros seres vivos sociais, não possuem uma regulação nativa dos afetos e pulsões, eles não podem prescindir da mobilização de sua disposição natural rumo à autorregulação mediante o aprendizado pessoal dos controles dos afetos e pulsões, no sentido de um modelo de civilização específico da sociedade, a fim de que possam conviver consigo mesmos e com os outros seres humanos. O processo universal de civilização individual pertence tanto às condições de individualização de ser humano singular com às condições da vida social em comum dos seres humanos. [...].
Trechos extraídos da obra: Escritos e ensaios I: Estado, processo, opinião pública (Zahar, 2002), do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] No espaço social mapeado cognitivamente, o estranho é alguém do qual sabemos pouco e do qual desejamos saber ainda menos. No espaço moral, o estranho é alguém que nos importa pouco e nos sentimos tentados a que nos importe ainda menos. [... ].
Trecho extraído da obra Ética pós-moderna (XXI, 2004), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] As classes dominantes usam o Estado exatamente para criar e manter uma dualidade intrínseca da ordem legal e política, graças à qual o que é oligarquia e opressão para a maioria submetida, é automaticamente democracia e liberdade para a minoria dominante [...] Essa forma de participação, por cooptação, contribui "para a corrupção intrínseca e inevitável do sistema de poder resultante. [...].
Trecho extraído da obra A revolução burguesa no Brasil (Zahar, 1976),


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Isto é Brasilsilsilsilsilsil aqui, aqui, aqui e aqui.

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Padre Bidião & as duas violências aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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domingo, novembro 15, 2015

FECAMEPA À REPÚBLICA, VINICIUS, CALABAR, VANJA, PASOLINI, CHORDELOS, BEVERLY & MUITO MAIS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FECAMEPA À REPÚBLICA - Segura o pencó, gente, que o negócio é sério. Esse bregueço é a maior tronchura, viu? Tataritaritatá! Pois é, para um país que não se sabe se foi descoberto numa cagada ou invadido pra porrada, fica a interrogação: afinal, que país é esse? Ah é o mesmo país que passou mais de 300 anos como uma colônia preada, açucarocrata e escravagista; depois, virou de uma hora para outra um reinado surrupiado até o fundo do tacho; num sopapo, se quebra de banda numa independência festeira e camuflada para ânimo de uns gatos pingados até ser rebocado prum império de sucatas. Ora, com um curriculum desse, não pode dar outra, né? A não ser que a lorota vire pinóia manjada e dê numa republica de... de.... de quê mesmo, hem? eita! De ocrídios macunaímas? De mestiços corteses que num aprende a distância dum palmo além da venta? De miscigenados gentis que se hipnotizavam com tudo? De bananas? De apaideguados feladamãe? Ouououououou? Ih.... Na verdade, trocando os miúdos e deixando de fora os desguardados, só mesmo numa republiqueta levada na espórtula e empurrada pela barriga e na marra até hoje, né não? Pois então, ora veja! Depois da festa íntima dos promotores/beneficiários da independência, num deu nem para piscar o olho e já fervia a panela do vuque-vuque. É, a história é o princípio heraclitiano ao contrário: passa e volta, torna a se repetir constantemente. Pois é, não podia ser diferente porque as maruagens despóticas afuleiraram mais com a dissolução da Assembleia em 1823 e, também, com a outorga da Constituição de 1824. Piada? Só se for de mau gosto, sabe por que? Bastou isso para a faísca de nadinha virar fogaréu de monturo em Pernambuco. Lá vem resistência feito enterro voltando. O puxa-encolhe da insatisfação já dominava as províncias do Norte e Nordeste, incendiando tudo com um exaltado sentimento nativista requentado pelos ideais liberais separatistas e antilusitanos. Espia só, tudo aprontando o trupé. E vingou, era a Confederação do Equador, uma república revolucionária compreendendo os ingicados desde da Bahia até ao Grão-Pará. Era a boa nova que tanto contagiava como repelia seus correligionários, principalmente porque suspendia o tráfico negreiro. Mexeu a onça com vara curta e a coisa vai se esculhambando, como sempre. Findou maior pega-pra-capar, com pipoco de tiro, estrupício de vida e muita rezação no cemitério. O tumulto continua, num pára por aí não. Logo vem a Guerra do Paraguai que durou de 1865 até 1870. Foi uma sacanagem braba. Dizem alguns mais ousados historiadores que para render o inimigo mais rapidamente, usou-se do ardil de jogar cólera nas nascentes dos rios contaminando todo povo paraguaio. Isso só não, tem muito mais. De resultado só trouxe fortalecimento pro o exército que era só desprestígio. Sincronicamente, passava o zoadeiro do abolicionismo. Com isso, engrossava o caldo os pinotes dos escravos que escapuliam pra vida desde dos quilombos de antanho. O pisoteio todo redunda no Manifesto Republicano de 1870. A coisa andava, como ainda hoje, aos trupicões. Segura a onda, meu! É a maior buraqueira do sujeito perder tudo nos catabís. Porque é aí que chega a constatação de que até 1889, a nossa brasílica terra era o único império existente na América inteira, vez que todas as demais nações vizinhas já tinham virado a casaca pro republicanismo. Pode um negócio desse? Como sempre e até hoje, esse Brasilzim anda atrasadinho que só, hem? Mas isso não é nada, vamos adiante naquilo que comumente taxamos de: seria cômico se não fosse trágico. Ou ao contrário? Vamos nessa. Chegamos na república (sic). Na verdade, um arrumado dos militares acoloiados com um punhado miúdo de civis, implantando o Federalismo, o sistema presidencialista, a independência dos poderes e outras mais. De primeira, deram um chute na bunda do rei com banimento da família imperial pros quintos dos infernos. Depois, começa a mania de provisoriedade que tanto visita a vida do brasileiro no século seguinte, botando um marechal brabo na presidência. Era o marechal alagoano Deodoro da Fonseca. Com ele, a primeira Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 1891, começando uma descarada imitação dos gringos lá do norte, quando tem início a onda da norte-americanização daqui, com a inspiração voltada pro positivismo comteano pra seguir a ordem-progressivista e, também ainda, da corda-de-guaiamun dos interesses sempre esticando o miolo do poder como uma panelinha de mãe Joana, onde os privilegiados comem tudo e num sobra nem os farelos pro povão faminto do lado de fora. Aí ocorre um fenômeno econômico digno de nota, quando Rui Barbosa, o então ministro da Fazenda, entre 1889 e 1892, escancarando o crédito e dando liberdade pros bancos – espia só o merdeiro que vai dar -, deixa o país às voltas com uma inflação incontrolável, dinheiro desvalorizado e festança de ricos sobre a ruína de novos pobres. Era o Encilhamento, parece até um treino para entrar em campo uma trupe que vai jogar num cenário que a gente vai ver e ter em replay de instante em instante e até slow motion a vida toda do século XX. É quando estoura a Revolução Federalista de 1893 que dura até o ano seguinte, pela libertação do Rio Grande do Sul. Também ribomba a Revolta Armada iniciada no Rio de Janeiro até atingir o Rio Grande do Sul. E o governo passando de Deodoro para Floriano Peixoto, outro marechal alagoano (ihhhhhhhhhhhhhhh!). Vamos lá, que o diga Policarpo Quaresma. Depois Prudente de Morais, o primeiro civil em 1894. Dois anos da posse, rasga o cenário Canudos, com o messiânico líder Antonio Conselheiro e seus jagunços declarando guerra à República pela restauração da Monarquia. Esse quiprocó dura dois anos, de 1896 até o ano seguinte, quando o sangreiro espirra até na lua. Vem logo em seguida o paulista Campos Sales, que antes mesmo de assumir, negocia um acordo, o Funding Loan, onde suspende os pagamentos do país para contrair novo empréstimo. Entende isso? Jogadas e tramoias. Era só a bagatela de 10 milhões de libras que entravam na roda e que foram amortizadas a juros sobre juros só quitada em 1961 (só?!?). Pois é, e ele governa de 1898 até 1902, sob o clima do abalo do Encilhamento, da agitação política comandada pelo curral eleitoral do patriarcado coronelista com o voto de cabresto nos currais eleitorais e, mais também, do capital estrangeiro que mandava ver a partir de então por aqui. Eita, já estamos em 1900, pleno século XX. E isso é pano para outras mangas. E vamos aprumar a conversa, ta? Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Sem título, do artista plástico russo Serge Marshennikov.


Curtindo o álbum da cantora e atriz Vanja Orico (1929-2015/Independente, 1997), com participação especial do Quinteto Violado.

AS RELAÇÕES E A RESPONSABILIDADE – No livro Responsabilidade civil nos relacionamentos afetivos pós-modernos (Russel, 2007), de Ana Cecília Parodi, as questões atinentes às relações e responsabilidades são tratadas desde a gênese da unidade familiar no mundo até o novo paradigma da organização judiciária. Da obra, destaco os trechos: Desde que o mundo foi criado, desde o surgimento da primeira célula social no planeta, o home zela por seu conjunto de bens imateriais. O ser humano tem necessidade de se afirmar socialmente, de amadurecer emocionalmente, de relacionar-se com seus semelhantes e com o ecossistema. Mas, em face de injustiças sofridas, desde os primórdios, o homem pleiteia a reparação. Ao longo dos milênios, conferiu-se enorme maleabilidade aos ditos instrumentos de defesa da honra. Duelos, vinganças, o sangue vingado com as próprias mãos. A compensação atingia os danos materiais, sem sombra de duvida – um boi pelo outro. A todo custo, o homem procura indenização, é parte do seu complexo interior, muito além das raias jurídicas. Com a evolução das relações sociais, e do mundo como um todo, o homem desenvolveu maior complexidade mental, passando a se descobrir com mais profundidade e, com a mesma intensidade, acelera a sua compreensão do meio que o cerca. A sociedade moderna, por obvio, não comportaria os meios reparatórios, nem as punições ultrajantes. Em contrapartida, o individuo permanece tendo na indenização uma questão de foro intimo. Ajustou-se o interesse coletivo ao interesse individual, tratando-se de criar instituto indenizatórios socialmente adequados. [...] A satisfação do homem vai além do sagrar-se vencedor, na discussão processual. Sua necessidade é de haver uma sentença, um ditame maior, digno de obediência, que lhe fira o status de inocente, de vitima, de detentor de um dano irreparável. [...] As relações afetivas havidas entre os seres humanos podem ser classificadas verticais – operadas entre ascendentes e descendentes – e horizontais – operadas entre os casais. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

AS RELAÇÕES PERIGOSAS – O livro As relações perigosas (Les liaisons dangereuses – Companhia das Letras, 2012), do escritor francês Choderlos de Laclos (1741-1803), trata sobre as relações de um grupo de aristocratas através das cartas trocadas entre si, na época imediatamente anterior à Revolução Francesa — nobres ociosos e sem escrúpulos dedicam-se prazerosamente a destruir as reputações de seus pares. O enredo tem como foco o Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, que manipulam e humilham as restantes personagens através de intrigas e jogos de sedução. Durante alguns meses, um grupo peculiar da nobreza francesa troca cartas secretamente. No centro da intriga está o libertino visconde de Valmont, que tenta conquistar a presidenta de Tourvel, e a dissimulada marquesa de Merteuil, suposta confidente da jovem Cécile, a quem ela tenta convencer a se entregar a outro homem antes de se casar. Da obra destaco o trecho com tradução de Dorothée de Bruchard: [...] suas ordens são encantadoras; sua maneira de dá-las é mais amável ainda; você seria capaz de fazer apreciar o despotismo. Não é a primeira vez, como sabe, que lamento não ser mais seu escravo; e por mais monstro que diga que sou, nunca relembro sem prazer o tempo em que me gratificava com mais doces apelidos. Não raro, sinto inclusive o desejo de voltar a merecê-los e acabar dando ao mundo, com você, um exemplo de constância. Interesses mais largos nos chamam, porém; nosso destino é conquistar; cabe a nós cumpri-lo: quiçá ainda nos encontremos no fim da carreira; pois, digo isso sem querer aborrecê-la, mui bela marquesa, seus passos são, no mínimo, parelhos com os meus; e desde que, separando--nos para a alegria geral, vimos pregando a fé cada um por seu lado, quer parecer-me que nesta missão amorosa você angaria mais prosélitos que eu. Conheço seu zelo, seu ardente fervor; e, se nos julgasse Deus por nossas obras, você seria algum dia a padroeira de uma grande cidade, ao passo que esse seu amigo seria, quando muito, o santo de alguma aldeia. Esta linguagem mística a surpreende, não é verdade? Ocorre que há uma semana não escuto nem falo nenhuma outra; e é para aperfeiçoar-me nela que me vejo forçado a desobedecer-lhe. Não se zangue, e escute-me. Depositária de todos os segredos de meu coração, vou confidenciar-lhe o maior plano que já concebi. O que me sugere? Seduzir uma moça que não viu nada, nem conhece nada; que, por assim dizer, me seria entregue sem defesa; que uma primeira homenagem não deixará de embriagar, e que a curiosidade talvez conduzisse mais rapidamente que o amor. Vinte homens poderiam bem suceder como eu. O mesmo não se dá com o projeto que me ocupa; seu êxito me assegura tanta glória quanto prazer. O próprio amor que tece minha coroa hesita entre o mirto e os louros, ou melhor, há de juntar a ambos para honrar meu triunfo. Você mesma, bela amiga, será tomada de um santo respeito, e dirá, entusiasmada: “Aí está um homem a meu gosto”. [...]. Veja mais aqui.

POEMA PARA TODAS AS MULHERES & OUTROS POEMAS PRA ELAS – No livro Antologia Poética (José Olympio, 1984), do poeta, compositor e diplomata Vinicius de Morais, destaco inicialmente o poema Poemas para todas as mulheres: No teu branco seio eu choro. / Minhas lágrimas descem pelo teu ventre / E se embebedam do perfume do teu sexo. / Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado / Confuso, criança para te conter! / Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não! / Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não! / Homem sou belo / Macho sou forte, poeta sou altíssimo / E só a pureza me ama e ela em mim uma cidade e tem mil e uma portas. / Ai! teus cabelos recendem flor da murta / Melhor seria morrer ou ver-te morta / E nunca, nunca poder te tocar! / Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços / Anjo, sinto o calor do vento nas espumas / Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos... / Correi, correi, lágrimas saudosas / Afogai-me, tirai-me deste tempo / Levai-me para o campo das estrelas / Entregai-me depressa lua cheia / Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos / Que eu não posso mais, ai! / Que esta mulher me devora! / Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora! Também o poema A mulher na noite: Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste./ A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas - vinhas andando e eu não te via / Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos. / Eu estava imóvel - tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido /E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos / E as formigas me passeavam pelo corpo úmido. / Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito / E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas. / E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos / E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus lábios. / Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto / E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas. / Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser / As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero / E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia. / Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço / E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas. / Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe / E não havia mais vida na minha frente. Por fim, Invocação à mulher única: Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o frio das águas — tu / Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...) / Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio / E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda / E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia. / Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea / Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua... / A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas — negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência /De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento — afirmações do bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade / Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém! / Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra — perpetuação do êxtase / Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros — mulher! tu que deitas o teu sangue / Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias — mulher! / Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno. / Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —fruto da carne /Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne / Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo! / Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura / A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia / Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e desdobrada — por onde eu iria caminhando / Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia / No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna! Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MULHER DE CALABAR – A peça teatral Calabar: o elogio da traição (Civilização Brasileira, 1976), de Chico Buarque e Ruy Guerra, trata acerca do acontecimento histórico que envolve Domingos Fernandes Calabar no embate entre portugueses e holandeses no Brasil colonial, como uma metáfora para o período militar de 1964-1985. Da obra destaco os trechos: PLENAMENTE ILUMINADA, BÁRBARA SE LEVANTA E VESTE-SE CALMAMENTE, CANTANDO CALA BOCA, BÁRBARA – Bárbara (cantando): Ele sabe dos caminhos dessa minha terra No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu Os meus rios, os meus braços Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra Nas bandeiras, bons lençóis Nas trincheiras, quantos ais, ai Cala a boca - olha o fogo! Cala a boca - olha a relva! Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Ele sabe dos segredos que ninguém ensina Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber As vazantes, as correntes Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro Nas campanhas, nos currais Nas entranhas, quantos ais, ai Cala a boca - olha a noite! Cala a boca - olha o frio! Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara [...] ANNA CANTA ANNA DE AMSTERDAM – Anna (cantando) Sou Ana do dique e das docas Da compra, da venda, das trocas de pernas Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas Sou Ana das loucas Até amanhã Sou Ana Da cama, da cana, fulana, sacana Sou Ana de Amsterdam Eu cruzei um oceano Na esperança de casar Fiz mil bocas pra Solano Fui beijada por Gaspar Sou Ana de cabo a tenente Sou Ana de toda patente, das Índias Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada Sou Ana, obrigada Até amanhã, sou Ana Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos Sou Ana de Amsterdam Arrisquei muita braçada Na esperança de outro mar Hoje sou carta marcada Hoje sou jogo de azar Sou Ana de vinte minutos Sou Ana da brasa dos brutos na coxa Que apaga charutos Sou Ana dos dentes rangendo E dos olhos enxutos Até amanhã, sou Ana Das marcas, das macas, da vacas, das pratas Sou Ana de Amsterdam [...] SUBITAMENTE ILUMINADA, BÁRBARA CANTA TATUAGEM – Bárbara: Quero ficar no teu corpo Feito tatuagem Que é pra te dar coragem Pra seguir viagem Quando a noite vem E também pra me perpetuar Em tua escrava Que você pega, esfrega Nega, mas não lava Quero brincar no teu corpo Feito bailarina Que logo te alucina Salta e se ilumina Quando a noite vem E nos músculos exaustos Do teu braço Repousar frouxa, murcha, farta, Morta de cansaço Quero pesar feito cruz Nas tuas costas Que te retalha em postas Mas no fundo gostas Quando a noite vem Quero ser a cicatriz Risonha e corrosiva Marcada a frio Ferro e fogo Em carne viva Corações de mãe, arpões Sereias e serpentes Que te rabiscam O corpo todo Mas não sentes [...] BÁRBARA COMEÇA A CANTAR TIRA AS MÃOS DE MIM – Bárbara (cantando) Ele era mil Tu és nenhum Na guerra és vil Na cama és mocho Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se o fogo dele Guardado em mim Te incendeia um pouco Éramos nós Estreitos nós Enquanto tu És laço frouxo Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se a febre dele guardada em mim Te contagia um pouco. [...] BÁRBARA COMEÇA A CANTAR COBRA DE VIDRO: Aos quatro cantos o seu corpo Partido, banido Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos de vidro O seu veneno incomodando A tua honra, o teu verão Presta atenção Aos quatro cantos suas tripas De graça, de sobra Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos, de cobra O seu veneno arruinando A tua filha, a plantação Presta atenção Aos quatro cantos seus ganidos Seu grito medonho Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos de sonho O seu veneno temperando A tua aveia O teu feijão Presta atenção. [...] ANNA RI MUITO. BÁRBARA CONTINUA SÉRIA, NUM GESTO DE DESESPERO, ANNA DESMANCJA O PENTEADO DE BÁRBARA. EM SEGUIDA RECOMEÇA A PENTEÁ-LO, DISPENSANDO AS ESCRAVAS, BÁRBARA COMEÇA A CANTAR FORTALEZA. Bárbara (cantando) A minha tristeza não é feita de angústias A minha tristeza não é feita de angústias A minha surpresa A minha surpresa é só feita de fatos De sangue nos olhos e lama nos sapatos Minha fortaleza Minha fortaleza é de um silêncio infame Bastando a si mesma, retendo o derrame A minha represa. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

I RACONTI DI CANTERBURY – O premiado filme I raconti de Canterbury (Os Contos de Canterbury, 1972), do cineasta, poeta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), é uma obra baseada nos contos eróticos do escritor, filosofo, cortesão e diplomata inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400), cenografia de Dante Ferretti e trilha sonora de Ennio Morricone, no qual há uma celebração ao sexo de uma forma muito bem humorada, numa atmosfera ao mesmo tempo mágica e rústica, retratando, inclusive, uma representação do inferno com claras influências do pintor neerlandês Hieronymus Bosch. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
  Todo dia é dia da atriz estadunidense Beverly D’Angelo, a eterna musa do filme Hair (1979).
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quinta-feira, março 07, 2013

CORAÇÃO DE AREIA DE VCA, VERONICA FRANCO, BORGES, CONRAD, CLEONICE BERARDINELLI, VARGAS & A REPÚBLICA

 


CORAÇÃO DE AREIA, DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO – O livro Coração de areia é o quarto livro de poemas do poeta Vital Corrêa de Araújo, publicado pela Fundarpe\CEPE, em 1994. A leitura da obra me remeteu a duas outras, a primeira delas a clássica novela Heart of Darkness (O Coração das Trevas), do escritor nascido polonês onde hoje é a Ucrânia, Joseph Conrad, que foi exilado ainda criança pelas atividades insurgentes paternas na época dominada pelo Império Russo. Pouco tempo depois ficou órfão, razão pela qual passou a ser criado por um tio e, ainda jovem mudou-se para a França, com o intuito de iniciar uma carreira na Marinha Mercante. Quatro anos mais tarde estabeleceu-se na Inglaterra, onde adquiriu cidadania e dedicou-se à escrita. A novela narra a trajetória do que poderíamos considerar como seu alter ego, o marinheiro Marlow, que partindo pelo Tâmisa realizou as experiências percorridas pelo rio Congo numa barcaça, à procura de um comerciante de marfim, Kurtz, um polivalente renascentista europeu que havia se tornado habitante das densas florestas equatoriais africanas, sucumbindo aos instintos dos selvagens locais, passando a ser adorado pelos nativos como um deus. O contexto histórico dessa narrativa se dá a partir do propósito do rei belga que promoveu em meados da década de 1870, as supostas expedições humanitárias e científicas para civilização dos selvagens que habitavam pelo país africano, na verdade demonstrando a crueldade com a exploração do ouro, o abate de elefantes para captação do marfim e a devastação da floresta nativa, riqueza esta transferida para os cofres do reino. Esta foi a experiência vivida pelo autor que fez uma carreira marítima e testemunhou os horrores nas páginas de sua obra simbólica e metafórica: aí estão as denúncias do genocídio belga, por meio do impressionismo literário exposto com as aflições e a escuridão do colonialismo imperialista com seu projeto civilizatório violento durante o século XIX. Registre-se que esta foi a obra que inspirou o Apocalypse de Coppola, inclusive mantendo os nomes dos principais personagens de Conrad, trazendo para a guerra do Vietnã dos anos 1970, contando a história da jornada feita pelo capitão Willard em busca do coronel Walter Kurtz, além de expor outros personagens, como o fotojornalista que é uma versão do arlequim russo e o piloto negro do navio como uma reencarnação do timoneiro. Tanto em Apocalypse Now como em Coração das Trevas constata-se que a jornada central é tanto literal quanto metafórica. Desta obra VCA trouxe pro seu livro a luz e a escuridão, o preto e branco, a civilização e a barbárie, o desconhecido, o sombrio e o inumano, o horror e as trevas, por meio de versos que transitaram do coração para vida. O segundo livro que me fez rever foi O Livro de Areia de Jorge Luís Borges, um livro composto por contos do autor, nos quais é possível perceber um ar de fábulas, com transporte para lugares tão inusitados e profundos, com definições sobre tempo, espaço, narrador e personagens, tudo se misturando no labirinto borgeano. A partir do conto “O outro” até o último “Livro de Areia”, observa-se a busca pela arte, por descobrir o momento perfeito, o tempo mágico e a literatura em toda a sua plenitude. Exemplo disso é encontrar no conto O outro um trecho sintomático “Exceto nas severas páginas da história, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis”, e mais adiante também isso: “Respondi que o sobrenatural, se acontece duas vezes, deixa de ser aterrador”. No conto Ulrica é possível flagrar: “Sempre é uma palavra que não é permitida aos homens”. Já no conto A seita dos trinta está expresso que: “Já que o desejo não é menos culpável que o ato, os justos podem se entregar sem risco ao exercício da mais desbragada luxúria”. Além destes, no conto A noite dos bons revela-se que: “Todas as coisas são reveladas a todos os homens ou, pelo menos, tudo aquilo que um homem é dado conhecer, mas a mim, da noite à amanhã, me foram reveladas essas duas coisas essenciais”. Mas é no conto título “Livro de Areia”, que se fecha o volume confirmando o reconhecimento internacional do autor argentino com a sua narrativa fantástica repleta de coisas inexplicáveis e inenarráveis pressupondo o infinito e o impossível. É exatamente tais conduções que levam VCA, profundo conhecedor dos dois autores mencionados, a se expressar em versos como no Coração, coração: “E uma ficção covarde \ o coração: \ frágil taça de emoção \ vaso de fecundo olvido \ terra inútil, músculo vazio”. Este é o clima poético dos poemas seguintes, como Quatro poemas a Eliot, Ao coração dos crédulos, Tercetos em riste, Poemas de linho ou Dísticos biográficos ínfimos do supremo vate, entre outros, sobretudo nos poemas da parte designada Sombras somos (vide aqui). Tanto o é que a escritora, médica e professora universitária Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque assim se expressou: “É encantador o Coração de Areia de Vital Corrêa de Araújo, livro de poemas lançado pela Fundarpe. Concebido com apuro de quem enxugou léguas de palavras, estrutura-se, com consistência, em torno de um tema-título que se desdobra ao longo do livro, em cascatas de metáforas e símbolos. Harmoniosa sua poesia flui com naturalidade entre conceitos concretos – quase rudes – e imagens abstratas e sutis. Infinitamente sutis: “...órgão oco e muscular, habitante da cave do tórax e bebedor de sangue...” “Coração, casa velha... turvo leopardo, andarilho rubro arroio louco, oásis súbito...” Palavras e imagens essenciais ao exercício poético – que não podem ser consideradas gastas – são usadas, sem medo, enlaçadas a momentos poéticos de extraordinária originalidade. E a originalidade é um dos componentes fundamentais da poesia, em particular da poesia moderna ou pós-moderna: “Lançado no mármore da eternidade este teu coração fugitivo e inúmero porque a tantos repartido como pão devasso”. A camada sonora dos poemas, sua orquestração, os valores relacionais dos sons, convidam à repetição dos versos, ao desejo de decorá-los (“cor-cordis”), na tentativa de incorporar seu ritmo, um tanto blakeano. E por falar em Blake: “Que tigre nele rege a paixão que ruge?” Assim, o tema “coração”, mote do livro e marcapasso de sua estrutura é resgatado do lugar comum e reinvestido de outras dimensões simbólicas. O poeta é consciente disso. O resgate é intencional e pleno: “Frágil taça de emoção, vaso de fecundo olvido, terra inútil, músculo vazio”. Portanto, pouco resta ao leitor que pretenda louvar tais versos. A poesia é sempre mais eloquente que prosa rude – sobretudo quando amadurecida e apurada como a que Vital Corrêa de Araújo acabou de estampar em livro. Seu trabalho é um claro emaranhado de metáforas, em perfeito equilíbrio, a um passo da escandalosa beleza do barroco, hoje considerado o idioma internacional da cultura. Suas formas se engrandecem em torno de temas universais e atemporais. A “Fuga do rosto” é um poema apurado. Bom em qualquer espaço ou tempo. “Dois quartetos de corda” é um encanto ao som de Mozart. Com seu Coração de Areia, Vital Corrêa de Araújo, conhecido poeta do urbano, renasce como um poeta forte. Então, que cesse da antiga musa o canto, enquanto desisto de continuar expressando meus entusiasmos por uma poesia que enaltece a si mesma”. Devidamente esmiuçado o volume, uma constatação fica evidenciada: em seu coração de areia as trevas de Conrad\Coppola são tão presentes e flagradas no aqui\agora existencial, a ponto de provocar um refazer-se existencial de monumento poético diante da finitude vital com imaginação infinita criativa. Aplausos para VCA! Veja mais do autor aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DITOS & DESDITOS - Não se espantem de ouvir que uma garota de nove anos sabia a importância da sua descoberta. Ela pertencia a um grupo bastante grande de meninas de classe média que, àquele tempo, aprendiam declamação... Pensamento da professora universitária e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cleonice Berardinelli, que apresentou uma receita para leitoras poéticas: Vou dar uma receita que foi a que me deram como leitora de poesia. Desde criança, tive injetada em minha memória e em meu gosto, em minha alegria e em minha satisfação, a poesia. Eu tinha quatro anos e já sabia de cor sonetos que nem fáceis eram, complicados mesmo, em ordem bem arrevesada, mas eu fui adorando aquilo tudo.  Sempre que havia uma visita em nossa casa, meu pai perguntava – com grandes piscadelas de olho da minha mãe que achava que aquilo não se podia fazer, que era maçar o visitante: “Você gosta de poesia?” Se a pessoa respondia afirmativamente e com convicção, papai revelava: “Pois Cléo diz poesias muito direitinho, ela adora e tem uma memória formidável.” Então a visita, com certeza metade por gentileza e talvez metade por convicção própria, dizia que gostaria muito de ouvir e perguntava o que eu sabia. Eu respondia: “Eu sei uma porção de versos, sei sonetos.” As pessoas ficavam horrorizadas: “Sonetos? Você é capaz de dizer um?” “Sou. Papai, digo o quê, ‘A Santa?’” Papai consentia e então eu começava: “Essa que passa por aí, senhores, / de olhos castanhos e fidalgo porte, / é a princesa ideal dos meus amores, / a mais franzina pérola do Norte. / Contam que, numa noite de esplendores, / a essa que esmaga o coração mais forte / hinos cantaram e jogaram flores / as estrelas, em mágico transporte.” Isto são os dois quartetos, que eu ainda consigo saber de cor, o resto eu não lembro...

 

O LIVRO DE AREIA – A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes... Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar meu relato. Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico. Vivo só, num quarto andar da rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços malconformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas. Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora. - Vendo bíblias - disse. Não sem pedantismo respondi-lhe: - Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente bíblias o que me falta. Ao fim de um silêncio respondeu: - Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir. Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Haly Writ e, abaixo, Bombay. - Será do século XIX - observei. - Não sei. Não soube nunca - foi a resposta. Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino. Foi então que o desconhecido disse: - Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais. Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz. Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse: - Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade? - Não - replicou. Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo: - Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim. Pediu-me que procurasse a primeira folha. Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro. - Agora procure o final. Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era a minha: - Isto não pode ser. Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse: - Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número. Depois, como se pensasse em voz alta: - Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo. Suas considerações me irritaram. Perguntei: - O senhor é religioso, sem dúvida? - Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico. Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume. - E de Robbie Bums - corrigiu. Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei: - O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico? - Não. Ofereço-o ao senhor - replicou e fixou uma soma elevada. Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano. - Proponho-lhe uma troca - disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais. - A black letter Wiclif! - murmurou. Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo. - Trato feito - disse. Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as. Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome. Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As Mil e Uma Noites. Deitei-me e não dormi. As 3 ou 4 da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência. Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro. O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça. Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda 900 mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta. Sinto um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela rua México. Conto extraído da obra O livro de areia (Globo, 1995), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

CORAÇÃO DAS TREVAS – [...] São essas pequenas coisas que fazem a grande diferença. Quando elas desaparecem, você tem de recorrer à sua força inata, à sua capacidade se ser fiel a si próprio. É claro que você pode ser tolo o bastante para cometer erros - estúpido demais até para perceber que está sendo assaltado pelos poderes das trevas. Suponho que nenhum tolo chegou a barganhar sua alma com o diabo; ou o tolo é tolo demais. Ou o diabo demasiadamente diabólico - não sei qual é o caso. Ou pode ser que você seja uma criatura tão fantasticamente superior ao ponto de ficar surda e cega a tudo que não diga respeito a visões e sons celestiais. A Terra passa, então, a ser apenas um lugar de espera - e, se você perde ou ganha assim, não sei dizer. No entanto, a maioria de nós não é uma coisa nem outra. [...] E talvez esteja aí toda a diferença; talvez toda a sabedoria, toda verdade e toda sinceridade estejam apenas contidas naquele inapreciável momento em que ultrapassamos o limiar do invisível. [...] Vivemos como sonhamos, sozinhos. [...] Deviam tê-lo ouvido falar ‘Meu marfim’. Eu ouvi. ‘Minha Prometida, meu marfim, meu posto, meu rio, meu…’, tudo lhe pertencia. Fez com que prendesse minha respiração na expectativa de ouvir a floresta rebentar numa prodigiosa explosão de riso, que deslocaria do lugar as estrelas do céu. Tudo lhe pertencia, mas isso não importava. A questão era saber a quem ele pertencia, quantos poderes das trevas reclamavam-lhe a posse. Essa era a reflexão que provocava arrepios de horror. Era impossível — de nada adiantava, também — tentar imaginar. Ele havia galgado uma alta posição entre os demônios da Terra — literalmente, quero dizer. Vocês não podem compreender. Como poderiam? Tendo o chão firme sob os pés, cercados do apoio ou da crítica de vizinhos gentis, andando delicadamente entre o açougueiro e o policial, no santo terror de escândalos, prisões e hospícios, como poderiam vocês imaginar a que particular região de primitivas eras os pés desimpedidos de um homem seriam capazes de conduzi-lo, por força da solidão — uma solidão absoluta, sem nenhum policial — ao caminho do silêncio — um silêncio absoluto, onde nenhuma voz de advertência de um vizinho amável pode ser ouvida sussurrando à opinião pública? São essas pequenas coisas que fazem a grande diferença. Quando elas desaparecem, você tem de recorrer à sua força inata, à sua capacidade de ser fiel a si próprio. É claro que você pode ser tolo o bastante para cometer erros — estúpido demais até para perceber que está sendo assaltado pelos poderes das trevas. Suponho que nenhum tolo chegou a barganhar sua alma com o diabo; ou o tolo é tolo demais, ou o diabo demasiadamente diabólico — não sei qual é o caso. Ou pode ser que você seja uma criatura tão fantasticamente superior a ponto de ficar surda e cega a tudo que não diga respeito a visões e sons celestiais. A Terra passa, então, a ser apenas um lugar de espera — e, se você perde ou ganha assim, não sei dizer. No entanto, a maioria de nós não é uma coisa nem outra. A Terra para nós é um lugar para viver, onde temos de lidar com visões, sons… e odores, também, por Deus! — respirar carne podre de hipopótamo, por assim dizer, e não ser contaminado. E aí, não percebem? Nossa força aparece, a fé em nossa capacidade de cavar buracos discretos para enterrar a coisa — nosso poder de devoção, não a si próprio, mas a um obscuro e extenuante trabalho. E isso é bastante difícil. Vejam, não estou tentando desculpar-me ou mesmo explicar… Estou tentando compreender mais claramente quem era… o Sr. Kurtz… o espectro do Sr. Kurtz. Aquele iniciado fantasma proveniente do fundo de lugar nenhum honrou-me com sua surpreendente confidência antes de desaparecer completamente. Foi porque podia falar inglês comigo. O Kurtz original fora em parte educado na Inglaterra, e — como ele próprio teve a bondade de dizer-me — suas simpatias inclinavam-se para o lugar certo. A mãe era meio inglesa, o pai meio francês. A Europa inteira contribuíra para a fabricação de Kurtz; e, pouco a pouco, aprendi que, muito apropriadamente, a Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Bárbaros o incumbira da elaboração de um relatório, que lhe serviria de guia no futuro. E ele de fato o escreveu. Eu o vi. Eu o li. Era eloqüente, vibrava de eloqüência, mas passional demais, eu acho. Dezessete páginas de escrita miúda, que ele encontrara tempo para realizar! Porém, isso deve ter sido antes de — vamos dizer — ficar mal dos nervos, fazendo com que presidisse certas danças à meia-noite que terminavam com indescritíveis ritos, os quais — tanto quanto relutantemente concluí do que ouvira diversas vezes — eram oferecidos a ele — compreendem? — ao próprio Sr. Kurtz. Mas era um belo texto. O parágrafo de abertura, no entanto, à luz de informação posterior, parece-me agora sinistro. Começa com o argumento de que nós, brancos, em razão do nível de desenvolvimento a que chegamos, ‘devemos necessariamente aparecer a eles (selvagens) como seres de natureza sobrenatural — aproximando-nos deles com a força de uma divindade’, e assim por diante. ‘Pelo simples exercício de nossa vontade, podemos exercer para sempre um poder praticamente ilimitado’ etc. etc. A partir desse ponto, elevava-se a grande altura, levando-me junto. O discurso era magnífico, embora difícil de lembrar, compreendem. Passava a idéia de uma exótica Imensidão governada por uma augusta Benevolência. Fazia-me vibrar de entusiasmo. Era o ilimitado poder da eloqüência… da palavra… de palavras nobres, inflamadas. Não havia alusões práticas para interromper o encadeamento mágico das frases, a não ser uma espécie de nota ao pé da última página, evidentemente rabiscada muito depois, numa caligrafia irregular, podendo ser considerada como uma exposição do método. Era muito simples, e, no final daquele apelo comovente a todo sentimento altruísta, brilhava, luminoso e aterrorizante, como o clarão de um raio em céu sereno: ‘Exterminem todos os bárbaros!’ [...] Trechos extraídos da obra Heart of Darkness (Dover Publications, 1990), do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

A COURTESAN'S LOVE LYRIC - Resolvi fazer do meu desejo uma virtude. \ Minhas recompensas serão proporcionais aos seus presentes \ se você me der aquele que \ me faz rir... \ E embora não lhe custe nada, \ ainda assim é de imenso valor para mim. \ Sua recompensa não será \ apenas voar, \ mas voar tão alto \ que suas alegrias excedam amplamente seus desejos. \ E a minha beleza, a que aspira o teu coração \ e que não te cansas de louvar, \ Vou empregar para elevar o \ seu ânimo. Então, deitado docemente ao seu lado, \ vou regá-lo com todas as delícias de uma noiva, \ que aprendi com mais habilidade. \ Então você, que ardeu \ com tanto fervor, finalmente descansará, totalmente contente, \ apaixonado ainda mais profundamente, gasto \ em meu seio confortável. \ Quando estou na cama com um homem, eu desabrocho, \ ficando completamente livre \ com o homem que me ama e gosta de mim... II – Por favor, tente ver com olhos sensatos \ como isso é grotesco para você \ insultar e abusar das mulheres! \ Nosso infeliz sexo está sempre sujeito \ a tão injusto tratamento, porque somos \ dominados, negados a verdadeira liberdade! \ E certamente não temos culpa \ porque, embora não sejamos tão robustos quanto os homens, \ temos corações, mentes e intelectos iguais. \ A virtude também não se origina no poder, \ mas no vigor do coração, mente e alma: \ as fontes do entendimento; \ e estou certo de que neste aspecto \ nada falta às mulheres, \ mas, pelo contrário, têm demonstrado \ superioridade sobre os homens. \ Se nos consideras "inferiores" a ti mesmo, \ talvez seja porque, sendo sábios, \ te superamos em modéstia. \ E se você quer saber a verdade, \ a pessoa mais sábia é a mais paciente; \ ela se enquadra na razão e na virtude; \ enquanto o louco troveja insolência. \ A pedra que o sábio retira do poço \ foi atirada por um tolo... III – Eu gostaria que não fosse considerado pecado \ gostar de foder. \ As mulheres ainda não perceberam \ a covardia que preside. \ E se eles decidissem \ lutar contra o raso, \ Ceu seria o primeiro, dando um exemplo para eles seguirem. Poemas extraídos da obra The Honest Courtesan: Veronica Franco, Citizen and Writer in Sixteenth-Century Venice (Poems in Terze Rime, 1575 - Chicago Press, 1993), da poeta e cortesã veneziana Veronica Franco (1546-1591), que foi banida de Veneza porque morava em uma área da cidade onde muitas prostitutas recebiam seu apoio e supostamente seus pecados haviam provocado uma praga, só retornando em 1577 para enfrenta a Inquisição e acusações de bruxaria. Por fim, conquistou sua liberdade, porém perdeu todos os seus bens materiais. Sua vida inspirou o drama romântico-biográfico Dangerous Beauty (Em Luta pelo Amor, 1998), dirigido por Marshal Herskovitz, baseado no livro The Honest Courtesan, de Margaret Rosenthal, publicado em 1992, e estrelado por Catherine McCormack. Veja mais aqui.

 



A ERA VARGAS E A REPÚBLICA – Essa resenha observa que as estruturas clássicas do sistema representativo qual se praticara na forma do modelo liberal republicano de 1891 foram abaladas, quando em 1930, o presidente Washington Luiz é deposto e Getúlio Vargas assume o poder.
A Revolução de 1930 se constituiu num marco da historiografia brasileira, pois com ela encerra-se a República Velha, onde o Brasil de antes, o Brasil pré-Revolução de 30 era um país agrícola, com um governo fraco, um Estado arcaico e um povo sem direitos individuais e sociais. A República banira a monarquia 40 anos antes mas envelhecera precocemente, esgotada pelos apetites das oligarquias regionais. O presidente saía de um pacto entre os grandes Estados, para servir aos barões do latifúndio. O eleitor - as mulheres não votavam - não tinha outro direito senão o de assinar embaixo na chapa dos coronéis donos de currais políticos.
A principal personagem deste evento é Getúlio Dornelles Vargas, que nasceu em São Borja (RS) a 19 de abril de 1883. Foi chefe do governo provisório depois da Revolução de 30, presidente eleito pela constituinte em 17 de julho de 1934, até a implantação da ditadura do Estado Novo em 10 de novembro de 1937. Foi deposto em 29 de outubro de 1945, mas voltou à presidência em 31 de janeiro de 1951. Com isso, uma nova era tem início no Brasil com a posse de Vargas. Getúlio inspirou-se no positivismo de Comte, que já orientava a política trabalhista dos gaúchos, do Uruguai e da Argentina. O Governo Revolucionário criou o Ministério da Educação e Saúde, fundou a Universidade do Brasil e regulamentou o ensino médio, em bases que duraram décadas. Criou, simultaneamente, o Ministério do Trabalho, promulga, nos anos seguintes, a legislação trabalhista de base, unificada depois na CLT, até hoje vigente. O direito de sindicalizar-se e de fazer greve, o sindicato único e o imposto sindical que o manteria. As férias pagas. O salário mínimo. A indenização por tempo de serviço e a estabilidade no emprego. O sábado livre. A jornada de 8 horas. Igualdade de salários para ambos os sexos, dentre outras medidas.
Em termos políticos, assinala-se o início da decadência das oligarquias e a subida de novos grupos. Os primeiros anos da Era Vargas são confusos com os vários grupos pressionando o governo, em busca de definição. Tal situação leva à revolta constitucionalista de São Paulo, quando a oligarquia cafeeira tenta voltar ao poder; leva, também, à radicalização da classe média, seja à esquerda, como a ANL, dirigida por Luiz Carlos Prestes, socialista, seja à direita, péla AIB, fundada por Plínio Salgado, fascista. No entanto, a protelação de uma Constituição para o país e a insatisfação com o interventor do Estado de São Paulo geraram a Revolução Constitucionalista de 1932, que compeliu Vargas à convocação de uma Constituinte.
As eleições da Constituinte se realizaram, possuindo um grande contingente de representantes as antigas oligarquias, apesar de em número menor estarem representantes classistas eleitos por sindicatos. Havia ainda uma perigosa corrente que, não obstante reconhecessem as falhas do antigo regime, preconizavam um Estado forte, regulador das tensões sociais, dirigido por uma elite política transformadora (mais fascista). A nova Constituição foi portanto uma soma destas três tendências.
Em 1937, acontece o golpe de Estado. Vargas decreta o recesso do congresso, interrompe a curta existência da Constituição de 1934, outorgando uma nova-carta, que lhe concede poderes ditatoriais. É o Estado Novo. Os partidos políticos são dissolvidos, inclusive a Ação Integralista. Com o fracasso dos integralistas, a oposição silencia. Violenta censura à imprensa, introdução da pena de morte, completam o quadro da ditadura de Vargas. A II Guerra Mundial(1939/45) da qual o Brasil participa, ao lado das democracias, contra os governos ditadoriais de Hitler e Mussolini, traz, entretanto uma série de mudanças internas, do ponto de vista político.
O Estado Novo é apoiado pelas classes médias e por amplos setores das burguesias agrária e industrial. Rapidamente Vargas amplia suas bases populares recorrendo à repressão e cooptação dos trabalhadores urbanos: intervém nos sindicatos, sistematiza e amplia a legislação trabalhista. Sua principal sustentação, porém, são as Forças Armadas. Durante o Estado Novo elas são reaparelhadas com modernos armamentos comprados no Exterior e começam a intervir em setores considerados fundamentais para a segurança nacional, como a siderurgia e o petróleo. A burocracia estatal é outro ponto de apoio: cresce rapidamente a abre empregos para a classe média. Em 1938, Vargas cria o Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp), encarregado de unificar e racionalizar o aparelho burocrático e organizar concursos para recrutar novos funcionários.
O Estado Novo pode ser caracterizado pelo regime político em que há a primazia do Executivo, onde o Estado é uma espécie de ser supremo. Neste regime, os partidos políticos não intervém na política nacional e o Legislativo não tem nenhuma participação. Apesar de o Congresso estar fechado, havia uma Carta Constitucional que regia o País: a chamada constituição polaca. Esta Constituição era centralizadora, hierárquica e nacionalista, dado que esta Carta era baseada nas leis fascistas.
Durante o primeiro ano do Estado Novo (1937-1938), o governo brasileiro acabou se desentendendo com o governo alemão, o que provocou, por um período de mais ou menos um mês, o rompimento das relações comerciais e democráticas. Esse rompimento se deu, entre outros motivos, pelo governo achar que a Embaixada alemã teria alguma influência na tentativa de golpe a Getúlio em maio de 1938. Outro motivo foram as seguidas desavenças com o embaixador alemão no Brasil, Karl Ritter, que acabou sendo considerado persona non grata pelo governo brasileiro. Ritter também foi impedido de reassumir o cargo na embaixada após voltar de uma reunião nazista em Nuremberg, o que causou a sua expulsão imediata. E em 1943 edita a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) que garantia a estabilidade do emprego depois de dez anos de serviço, descanso semanal, regulamentação do trabalho de menores, da mulher e do trabalho noturno; a criação da Previdência Social e a instituição da carteira profissional em março de 1932 para maiores de 16 anos que exercessem um emprego; a jornada de trabalho foi fixada em 8 horas de serviço.
O nacionalismo do Estado Novo pode ser definido, em linhas gerais, como uma concepção de desenvolvimento econômico baseado na exploração dos recursos nacionais em proveito do povo brasileiro. Vargas sabia que os grupos sociais interessados no nacionalismo eram muito fortes para serem desprezados. Ademais, a Revolução de 30, que o levou ao poder, fora obra destes mesmos grupos -- os tenentes, as Forças Armadas, a burguesia industrial, a classe média e a classe operária. Se quisesse ficar no poder, tinha, portanto, de seguir uma política que interessasse a estes setores.
Em 28 de fevereiro de 1945 a Constituição de 1937 recebeu um ato adicionou que possibilitava fixar as eleições presidenciais e logo destacaram-se duas candidaturas a do Brigadeiro Eduardo Gomes que se opunha a Vargas e a do General Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, apoiado pelo governo.
Nas eleições de 1950, Getúlio se candidatou à Presidência da República, enfrentando Eduardo Gomes, mas encontrou um estado destroçado e falido por Dutra, que, eleito por ele, governara com a direita udenista. Getúlio, logo depois de empossado, formulou nosso primeiro projeto de desenvolvimento nacional autônomo, através do capitalismo de estado, e um programa de ampliação dos direitos dos trabalhadores. Começou a lançar os olhos para a massa rural. A característica distintiva do seu governo foi, porém, o enfrentamento do capital estrangeiro, que ele acusava de espoliar o Brasil, fazendo com que recursos, aqui levantados em cruzeiros, produzissem dólares para o exterior, em remessas escandalosas de lucros. Toda a direita, associada a essas empresas estrangeiras e por ela financiada, entrou na conspiração, subsidiando a imprensa para criar um ambiente de animosidade contra Getúlio, cujo governo era apresentado como um "mar de lama". Neste ambiente, o assassinato de um major da Aeronáutica, que era guarda-costa de Carlos Lacerda, por um membro da guarda pessoal de Getúlio no Palácio do Catete, provocou uma onda de revolta, assumida passionalmente pela Aeronáutica na forma de uma comissão de inquérito, cujo objetivo era depor Getúlio.
Em suma, a chamada "Era Vargas" começa com a Revolução de 30 e termina com a deposição de Getúlio Vargas em 1945. É marcada pelo aumento gradual da intervenção do Estado na economia e na organização da sociedade e também pelo crescente autoritarismo e centralização do poder. Divide-se em três fases distintas: governo provisório, governo constitucional e Estado Novo. Isto quer dizer que Getúlio governou o Brasil durante quinze anos sob a legitimação revolucionária, foi deposto, retornou, pelo voto popular, para cinco anos mais de governo. Enfrentou os poderosos testas-de-ferro das empresas estrangeiras, que se opunham à criação da Petrobrás e da Eletrobrás, e os venceu pelo suicídio, deixando uma carta-testamento que é um dos mais importantes documentos políticos da história do Brasil.  O efeito do suicídio de Getúlio foi uma revirada completa.
Vê-se, pois, que o Estado Novo foi, fruto de sua época. Uma época de questionamento e ataques sistemáticos ao liberalismo, e de clamor por estados fortes. Uma época em que a Revolução Russa, e a subseqüente formação da URSS, surgiram como elementos novos e desestabilizadores no cenário internacional capitalista. Uma época na qual o temor em relação ao avanço do comunismo levou ao surgimento da sua contrapartida não menos radical, ou seja, o nazi-fascismo. Uma época que conviveu com a maior depressão da economia mundial (1929-33) já registrada pela história. Uma época, enfim, de crise econômica e política que, varrendo o planeta, prenunciava guerras e mais crises. Acrescente-se a isso o fato de que, no Brasil, desde o final do século XIX, foi inegável a influência das correntes protofascistas para a formação de um ideário político autoritário entre os intelectuais. Bolívar Lamounier, assevera que o conjunto de idéias que compõe a "mescla de organicismo-historicista e positivismo comtiano da sociologia protofascista européia" exerceu "inequívoca influência na formação do fascismo como doutrina e como movimento político". Apoiando-se nos setores sociais emergentes e, também, nas velhas oligarquias, Getúlio Vargas abriu a possibilidade de realizar um projeto de modernização capitalista conservadora, de cima para baixo, com ‘tranqüilidade’ política e social, através da implantação de um regime policialesco e interventor, nos moldes fascistas. Porém, sem os inconvenientes dos fascismos italiano e alemão -- movidos pela necessidade e pelo ânimo imperialista --, que, diferentemente do Brasil de então, encontravam-se numa fase, já mais avançada, de evolução do seu capitalismo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
 
BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
BEOZZO, José O. A Igreja entre a Revolução de 30, o Estado Novo e a redemocratização. In: História geral da civilização brasileira. V. 11, Difel, São Paulo, 1986.
DINIZ, Eli. O Estado Novo : estrutura e poder. Relações de classe. In História geral da civilização brasileira, V. 10, Difel, São Paulo, 1986.
GARCIA, Nelson J. Estado Novo. Ideologia e propaganda política. Loyola, São Paulo, 1982;
GOMES, A. de C. História e historiadores: a política cultural do Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
JAMBEIRO, O. et al. Tempos de Vargas: o rádio e o controle da informação. Salvador:
UFBA, 2004.
LEVINE, Robert M. Pai dos Pobres? O Brasil e a Era Vargas. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2001.
SOLA, Lourdes. O golpe de 37 e o Estado Novo. In :Brasil em Perspectiva, Difel, Rio de Janeiro, 1978.


Veja mais sobre:
Fonte no Crônica de amor por ela, Gabriel García Márquez, Paul Éluard, José Paulo Paes, Alan Watts, Carmina Burana de Carl Orff, Michel de Montaigne, Fernando Bonassi, Ingmar Bergman, Birgitta Valberg, Maurice Béjart, Birgitta Pettersson & Rachel Lucena aqui.

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Ana Lins, a Revolução Pernambucana de 1817 & Todo dia é dia da mulher aqui.
João Cabral de Melo Neto, Joan Baez, Rigoberta Menchú, Simone de Beauvoir & Eduardo Viana aqui.
A paranoia da paixão por ela aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

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