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terça-feira, janeiro 23, 2018

HILDA HILST, VITAL FARIAS, FRITJOF CAPRA, ENRIQUE LEFF, MARIA TERESA MADEIRA, LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, FRANCIS PICABIA & HELMUT NEWTON

AMARRADO EM NOME DE JESUSIS, CRUIZES! – Imagem: Our Heads Are Round so Our Thoughts Can Change (1930), do pintor e poeta francês Francis Picabia (1879-1953). - Tomé é um ineivado: cinquentão que não parecia ter mais de quarenta e nove, católico batizado, crismado e casado, de fazer parte do Terço dos Homens e de comungar regularmente quando não todo dia, se for preciso. Afora ser boca de ponche, não bebe, não fuma, nem achegado a nenhuma excentricidade: tudo metido e contado nos miúdos, metodicamente planejado e conferido. Casado – muito bem casado, segundo ele -, como são as coisas: dizem que o casal botou catinga em bosta. Até onde eu sei, nem fedem, nem cheiram. Pois bem. Acontece que Vitalina, a senhora madame dele, um dia desse, arrastando um tamanco com um chambre cor de rosa bufento do tempo do ronca e armada dum penteado carregado de bobe, chamou na grande: queria ser evangélica. Ih! Antes porém, balançou-se pras banda da Universal – aquilo é um bando de loucos, dizia ela revoltada com a experiência -, depois pela Graça do Sílvio Santos Soares, refugou. Tanto sassaricou que findou numa dessas evangélicas e, ao assistir o primeiro culto, foi logo reclamando pro pastor: Deus não é surdo! E fez campanha, armando o maior desconforto pra arrancar os altofalantes da rua. Nessa hora o marido, sobretudo porque ele não é de negar fogo pra patroa, queria era se atirar da janela. Sem saída, resolveu buscar a dádiva da providência, mantendo-se inconsolável até o milagre acontecer dela tirar aquilo da quizilia, virando-se pras bandas do halterofilismo. Danou-se! Agora deu! Essa mulher tem cada pantim! E ela: alguém tem que fazer, ora! E meteu-se com ginásticas e fisioterapias de conferir o muque todo dia nas ventas dele: Tais vendo só, tá crescendo, logo a gente vai pra quebra de braço pra ver quem é quem manda aqui em casa. E ele: Não esquente, sempre disse que aqui quem manda é você mesmo. Com muito tato Tomé conseguiu demovê-la da arenga, mantendo-se em paz com os irmãos, dízimo em dia, e ele como saco de pancadas, tanto pros murros, como pra ser culpado por tudo que ocorresse ou desse errado. Aí, um dia lá que andava de férias das broncas, virou-se pra mim com um convite: Jesuisis tá lhe chamando! Eu? Escute a voz dele no seu coração, sou o intermediário! Você? Eu sou a voz de Jesuisis. Vamos ao culto hoje? Ah, tá. Expliquei pra ele que já havia passado do nível religioso, dedicando-me à espiritualidade. Vai ou não vai, rapaz? Tenho outros compromissos, Tomé, fica pra próxima. Aí, ele virou-se pra mim e sapecou: A-rá! Cruz-credo! Você é ateu descarado e está amarrado em nome de Jesuisis. Vade retro, satanás! Fez um trejeito qualquer e danou-se rua afora, caí na gargalhada. Esse Tomé vem com cada uma, veja mais abaixo o desdito amor desse casal. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do cantor e compositor Vital Farias: Sagas brasileiras, Taperoá & solo; a pianista Maria Teresa Madeira interpretando Ary Barroso & Recital; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Vivemos hoje um mundo de complexidade, no qual se amalgamam a natureza, a tecnologia e a textualidade. Tempos de hibridização do mundo – a tecnologização da vida e a economização da natureza -, de mestiçagem de culturas, de diálogos de saberes, de dispersão de subjetividades. Tempos em que emergem novos valores e racionalidades que reorientam a construção do mundo. [...] Extraído da obra Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder (Vozes, 2008), do economista e sociólogo ambientalista mexicano, Enrique Leff. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A SOCIEDADE ATUAL - A sociedade [...] é totalmente voltada para o trabalho, os lucros e o consumo de bens materiais. O objetivo principal das pessoas é ganhar o máximo de dinheiro possível para comprarem toda essa parafernália que associam a um padrão de vida elevado. Ao mesmo tempo, sentem-se bons cidadãos porque estão contribuindo para a expansão da economia nacional. Não percebem, porém, que a maximização dos lucros leva à constante deterioriação dos bens que adquirem. Por exemplo, a aparência visual dos produtos alimentares é considerada importante para incrementar os lucros, ao passo que a qualidade dos alimentos continua se deteriorando devido a todos os tipos de manipulação [...] efeitos parecidos poder ser observados nas roupas, nas casas, nos carros e em várias mercadorias. Embora ganhem cada vez mais dinheiro, eles não estão enriquecendo; pelo contrário, tornam-se cada vez mais pobres. A expansão da economia destrói a beleza das paisagens naturais com edifícios medonhos, polui o ar, envenena os rios e os lagos. Mediante um condicionamento psicológico implacável, ela rouba das pessoas o seu senso de beleza, enquanto gradualmente destrói aqui que há de belo em seu meio ambiente. [...]. Trechos de Futuros alternativos, extraído da obra Sabedoria incomum: conversa com pessoas notáveis (Cultrix, 1995) do físico e escritor Fritjof Capra. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PAIXÕES - [...] Como o amor acaba é outro mistério. A Joyce e o Paquette, por exemplo. Namoram anos, noivaram, casaram e tudo acabou numa noite. Acabou numa frase. Os dois estavam numa discoteca, sentados lado a lado, vendo os mais jovens se contorcendo na pista de dança, e o Paquette gritou: - Viu a música que está tocando? E a Joyce: - O quê? – A música. Estão tocando a nossa música. Lembra? – Hein? – Estão tocando a nossa música! – O quê? – A música. Do nosso noivado. Lembra? – Eu não consigo ouvir nada com essa porcaria de música! – Esquece. Extraído da obra O melhor das comédias da vida privada (Objetiva, 2004), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui.

DO AMORXLIX: Costuro o infinito sobre o peito. / E no entanto sou água fugidia e amarga. / E sou crível e antiga como aquilo que vês: / Pedras, frontões no Todo inamovível. / Terrena, me adivinho montanha algumas vezes. / Recente, inumana, inexpremivel / costuro o infinito sobre o peito / como aqueles que amam. Extraído da obra Do amor (Massao Ohno, 1999), da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004). Veja mais aqui.

ARTE DE FRANCIS PICABIA
A arte do pintor e poeta francês Francis Picabia (1879-1953).

Veja mais:
O desditoso amor de Tomé & Vitalina aqui, aqui, aqui  aqui e aqui.
Para quem quer, basta ser!, o pensamento de John Masefield, Gilvanícila, a música de Karin Fernandes & a pintura de Berthe Morisot aqui.
A mulher na antiguidade, Max Planc, Edgar Allan Poe, Louise Glück, Daniel Goleman, a música de Shirley Horn, Mark Twain, a pintura de Edouard Manet, a gravura de Johann Theodor de Bry, Ana Paula Arósio, Demi Moore & Alessandra Cavagna aqui.
Mário Quintana, François Truffaut, Voltaire, a comunicação de Juan Diaz Bordenave, o folclore de Luís da Câmara Cascudo, a música de Daniela Spielmann, o teatro de Sérgio Roveri & Tuna Dwek, a arte de Jeanne Moreau, a pintura de Hans Temple & Anita Malfatti, Gerusa Leal & Todo dia é dia da mulher aqui.
Helena Blavatsky, João Ubaldo Ribeiro, Stendhal, a pintura de Édouard Manet, a música de Vital Farias, Cacá Diégues & Jeanne Moreau aqui.
Proezas do Biritoaldo: quando risca fogo, o rabo inflamável sofre que só sovaco de aleijado aqui.
Invasão da América aos sistemas penais de hoje, Joan Nieuhof, Décio Freitas & Palmares, Pesquisa em História, Guerra dos Cabanos, Luta Camponesa & História do Brasil aqui.
Hannah Arendt, Eric Hobsbawm, Fundamentos da História do Direito, Fernand Braudel & a História, Abraham Kaplan & A Conduta na Pesquisa aqui.
Das quedas, perdas & danos aqui.
Violência contra a mulher, Heleieth Saffioti, Marta Nascimento & Poetas do Brasil aqui.
O Feminismo & a História da Mulher, Masculino & Feminino, Psicologia Escolar & Educacional, Pluralidade de Família & União Estável aqui.
Jacques Lacan, Direito de Família, Alimentos Gravídicos & Realacionamentos Pós-Modernos aqui.
A aprendizagem observacional de Albert Bandura & Direito Autoral aqui.
Pierre Lévy, Cibercultura, Capitalismo Global, Linguagens Líquidas & Narrativas Midiáticas Contemporâneas aqui.
Poetas do Brasil: Ari Lins Pedrosa, Ana Paula Fumian, Frederico Spencer & Suzana Za’za Jardim aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

ARTE DE HELMUT NEWTON
A arte do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004). Veja mais aqui.

segunda-feira, outubro 30, 2017

EZRA POUND, PAUL VALÉRY, CONCEIÇÃO EVARISTO, ROMERO DE FIGUEIREDO, ZÉ RIPE & AGRESTINA


(Imagem: Xilogravura de Erik Lima - O QUE É UM PEIDO PRA QUEM ESTÁ CAGADO? - O galo cantou meia noite, nem sinal do Sol na esquina. Vixe! Mesmo assim, bola pra frente que a fila está a perder de vista. Ou vai ou racha. E já rachou faz tempo com a porta na cara e frestas espremidas. Ou pula o portão e a janela, ou o muro do quintal: paga-se o pato de qualquer jeito, independe de intenção, já viu? Tudo só anda mesmo é na contramão. Vai ver: está mesmo é em cima do telhado, pedindo socorro no meio do deserto. Quem está no mato sem cachorro, tem de ir de qualquer jeito apelando pra sorte. Qual? Oxe! Calango que se preze não vacila em pé algum, vai se arrastando, quem sabe um aceno mole, saiba: o mundo sempre está do contra. E como está! Nem olho pros lados, margem alguma. Resta ouvir tagarelices de cachorros, rinchados de cabeças de fósforos, mugidos por conselhos e coices por admoestações. Aprendeu? Nada, sigo em frente, mesmo que só chegue atrasado com a greve do relógio e nem ligo se estiver tudo pifado, no final das contas, sempre fora de moda no meio da maior sinuca bico, xeque mate. Dou meus pulos, o blefe no jogo, melé que não tenho e o coringa que pinoteou e nem seu silva de dar bola: aparecer qiue é bom, só depois de um bocado de sobrada, toque de arrodeio e findo esgotado, o cu esfolado de relar a bunda no chão. Dou a volta por cima, tudo se ajeita de uma forma ou de outra. Não adianta fechar o olho pra pontaria, alvo algum. Muito menos pagar penitência com o jelho sobre a pedrinha incômoda ou ficar com a língua de fora com o cenário que virou tudo de cabeça pra baixo, com o solado do pé numa peínha de nada, pisando no próprio calo, magoando a pereba, ih, se vira, tudo dá-se um jeito, é só sair pulando num pé só pra ver como é que se equilibra no arame farpado. Eita! A coisa está braba, mesmo! Nem fechadura pra chave que resta e nem sei onde é que ela está. Já já o dia amanhece de verdade e não adianta ficar na porta pra ver no ímpar ou par qual a melhor solução! Qualquer ideia é perda de tempo, vai na onda que é melhor e salve-se se puder. Do contrário, vai naquela de atirar no que vê pra acertar o que nem estava ali. Tudo está na linha do avesso e se der as costas a punhalada come no centro, aí babau: o que passou não volta mais, se perde o bonde agora é tarde, ou ir pelas beiras, quam sabe, um dia, encontre mais que farelos nas borda dos pratos. Assim vai a vida, de bigu e correria, no mínimo, a gente ganha experiência e só. Vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do violonista e compositor Laurindo Almeida: Musico f Brazil masters & Cajita de musica; da pianista Maria Teresa Madeira: Recital Ary Barroso & Recital; do violonista e compositor Yamandu Costa: In Concert & Ao vivo; da pianista Cristina Ortiz: Alma brasileira & Ciclo brasileiro Heitor Villa-Lobos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Eu acho que há um “fluido”, bem como um conteúdo de sólidos, que alguns poemas podem ter forma, alguns como a água derramada dentro de um vaso. Que formas mais simétricas têm certos usos. Que um grande número de assuntos não podem ser precisos, e, portanto, não adequadamente, representados em formas simétricas [...] A dança do intelecto entre as palavras, ou seja, emprega palavras não só pelo seu significado direto, mas é preciso contar de uma maneira especial com seus hábitos de uso, do contexto, do que habitualmente acompanha seus concomitantes, de suas aceitações conhecidas e de jogo irônico. Ela, a logopoeia, mantém o teor da estética que é o particular domínio da manifestação verbal, e não pode, possivelmente, ser contido na plástica ou na música. Ela é a última a chegar, e talvez, a mais complicada e pouco confiável. Pensamento do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

BEBEDOURO DE AGRESTINATerminava o ano de 1845, época em que os sertões sentiam com todo o rigo, os efeitos da tremenda crise, motivada por uma seca devastadora. Sertanejos diariamente desciam às dezenas e centenas, em demadada ao sul, atraídos pela fartura da zona canavieira. Nesse tempo, a área onde se localiza atualmente a cidade de Agrestina, não só passava de uma uma fazenda em miniatura. Meia dúzia de trabalhadores, também sertanejos, atraídps pela água que jorrava espontaneamente de um certo local do terreno, resolver dar à nascente uma feição permanente, cavando um grande posso, para o abastecimento da população e dos animais, a que deram o nome de Bebedouro. Passaram-se os anos, Bebedouro deixa de ser somente o ponto de confluência de quem necessita de se abastecer, para tornar-se um aglomerado de pessoas, dispostas a transformá-lo num povoado, numa vila e, posteriormente, cidade. Como era de se esperar acontecer, a influência da região seguiu paralelamente à realização humana. Na história deste município ela toma corpo, gerando iniciativas,. Instaladas as primeiras famílias, estas deram inicio à exploração do terreno adjacente, advindo daí a descoberta de uma imagem de Santo Antônio, talhada em madeira, deixada por algum transeunte menos avisado. O fato é que, julgando tratar-se de um autêntico milagre, o senhor Miguel Joaquim de Luna Freire, coadjuvado por outros senhores não menos respeitados, trataram da reestruturação da capela em fevereiro de 1846, futura Matriz de Agrestina, vinda de 1818. O atual município de Agrestina, criado por Lei Estadual 1931, de 11 de setembro de 1928, tinha, como distrito integrante do território, o município de Altinho, a denominação de Bebedouro. Sua instalação ocorreu em 1 de janeiro de 1929. O distrito foi criado por Lei provincial 1829, de 28 de junho de 1884, e por Lei Municipal 35, de agosto de 1900. A sua elevação à categoria de vila ocorreu em 1 de julho de 1909. A denominação de Agrestina foi imposta pelo Decreto-Lei Estadual 952, de 31 de dezembro de 1943. Anualmente, no dia 11 de setembro, o município comemora sua emancipação política. Administrativamente é formado pelos distritos: sede, Barra do Chata e Barra do Jardim, e pelos povoados de Pé de Serra dos Mendes e Araçatuba. Extraído do livro Enciclopédia dos Municipios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

VARIEDADES DE VALERY - [...] É preciso tomar cuidado com os primeiros contatos de um problema com nosso espírito. É preciso tomar cuidado com as primeiras palavras que pronunciam uma questão em nosso espírito. Uma questão nova está, primeiramente, no estado da infância em nós; ela balbucia: só encontra termos estranhos, totalmente carregados com valores e associações acidentais; é obrigada a tomá-los emprestados [...] É a minha própria vida que se espanta, é ela que deve me fornecer, se puder, minhas respostas, pois é somente nas reações de nossa vida que pode residir toda força e como que a necessidade de nossa vontade. [...] O poeta é, a meu ver, um homem que, a partir de um incidente, sofre uma transformação oculta. Ele se afasta de seu estado normal de disponibilidade geral e vejo construir-se nele um agente, um sistema vivo, construtor de versos. [...]. Trechos extraídos da obra Variedades (Iluminuras, 1999), do filósofo e poeta do Simbolismo francês, Paul Valéry (1871-1945). Veja mais aqui e aqui.

VOZES-MULHERES - A voz de minha bisavó ecoou / criança / nos porões do navio./ Ecoou lamentos / De uma infância perdida. / A voz de minha avó / ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. / A voz de minha mãe / ecoou baixinho revolta / No fundo das cozinhas alheias / debaixo das trouxas / roupagens sujas dos brancos / pelo caminho empoeirado / rumo à favela. / A minha voz ainda / ecoa versos perplexos / com rimas de sangue / e fome. / A voz de minha filha / recorre todas as nossas vozes / recolhe em si / as vozes mudas caladas / engasgadas nas gargantas. / A voz de minha filha / recolhe em si / a fala e o ato. / O ontem - o hoje - o agora. / Na voz de minha filha / se fará ouvir a ressonância / o eco da vida-liberdade. Poema extraído dos Cadernos negros (Vol. 13, 1990), da escritora Conceição Evaristo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ARTE DE ROMERO DE FIGUEIREDO
A arte do artista plástico Romero de Figueiredo na Exposição do Projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais:
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RESISTÊNCIA DOS VERSOS DE ZÉ RIPE
Participando do lançamento do livro A resistência dos versos, do poeta, compositor e cantor Zé Ripe. Veja mais aqui.

quarta-feira, julho 12, 2017

CAMINHO DE MUMON, YAMANDU, PEDRO DEMO, LATIFA LAÂBISSI, ARTUR RAMOS, LAURINDO ALMEIDA, MARIA TERESA MADEIRA & CRISTINA ORTIZ

O QUIBUNGO E A CARANGUEJEIRA - O Quibungo é um bicho muito feio que é meio homem e meio animal, com uma cabeça grande e um buraco enorme no meio das costas pra comer crianças e filhotes. Não é lá muito inteligente, pois é medroso e covarde, apavorando-se aos gritos com tudo que perturbe seu poderio. Ele vivia de comer os filhotes da cachorra Tita, até o dia em que ela cansada de ver toda a sua cria devorada pelo desalmado, um dia pariu e tratou de esconder todos eles num buraco, sentando-se em cima toda embelezada com maquiagens granfinas, vestido de saia longa e um colar de brilhantes no pescoço. Quando o bicho chegou não reconheceu e ficou desconfiado. Vinha então um cágado e ele perguntou se tinha visto os filhotes da cachorra Tita e respondeu que não. Perguntou à raposa que passava, também não. Perguntou ao coelho que lhe disse: Ora, Quibungo, você não reconhece? Ele então olhou e a cachorra pegou seus filhotes e saiu correndo. Ficou sem saber se pegava a cachorra ou o coelho. Por conta da dúvida, perdeu o paradeiro de ambos e ficou de mãos abanando. Então, dirigiu-se para uma casa que sabia ter crianças. Aproximou-se da residência cantando: De que é esta casa, auê, como gére, como gérê, como érá? Aí a mãe responde: A casa é de meu marido, auê, como gére, como gérê, como érá. Ao perguntar pelos filhos e a mãe responder que é dela, ele diz: Então, quero comê-los auê, como gére, como gérê, como érá? A mãe responde. Pode comê-los, embora, auê, como gérê, como gérê, como érá. Depois que come os filhos, ele pergunta de quem é a mulher, ao que ela responde ser do marido. Ele parte para comê-la, surge o marido armado de uma espingarda e atira, ele sai às carreiras cantando: Arrenego desta casa, auê, que tem uma porta só, auê, como gérê, como gérê, como érá. Na fuga ele se depara com a caranguejeira na outra margem do rio, pedindo pro urubu atravessá-la para ir comer fruta do outro lado. O urubu cavalheiro, logo dispôs pra ela se amontar nas costas dele. Atravessaram e quando o urubu foi comer uma fruta, a caranguejeira disse que era dela. O urubu pediu desculpas e foi comer de outra fruteira, repetindo a caranguejeira que também era dela. E assim com todas as frutas da redondeza, aborrecendo-se o urubu e voando para bem longe dali. O Quibungo a tudo vigiava e já ia se aproximar dela, quando o jacaré chegou convidando a caranguejeira para pernoitar na sua casa, com a promessa de mandar seus filhos levá-la de volta na manhã seguinte. Assim acertado, ela foi pra casa do jacaré, chegando lá pediu pro jacaré mandar os filhotes passá-la no rio bem cedo. Tudo ajustado, o jacaré então fez a cama em cima do ninho dos seus ovos. A aranha agasalhou-se e, passado o tempo em que todos já dormiam, começou a comer os ovos. Ao quebrar o primeiro, os filhos do jacaré gritaram: - Ronco de hóspede, papai! Cala boca, meninos, deixa a comadre dormir. Dali a pouco ela quebrava outro ovo e os filhos tornavam a gritar: - Ronco de hóspede, papai! Se aquieta, meninos, deixa a comadre dormir. Nessa brincadeira a aranha papou todos os ovos do jacaré e acordou-se ao primeiro sinal da alvorada, toda apressada para ir embora: - Compadre, mande os meninos me levar. Ainda é muito cedo, comadre. Não, compadre, tenho muito a fazer em casa. Assim acertaram e os filhos do jacaré levaram-na. Quando saíram o jacaré foi conferir os ovos e enfureceu-se ao perceber que ela havia comido todos eles. Saiu às pressas, mas já era tarde, ela já estava descendo do outro lado da margem do rio. O Quibungo que esperava a volta para devorar os filhos do jacaré, assustou-se com a chegada repentina dele. É que o jacará estava furioso. O urubu que voava, viu a aflição do jacaré e pousou: - A comadre aranha é muito malagradecida. Destá. Saíram e o Quibungo resolveu pescar, atirando os peixes atrás das costas. Ao achar que havia pescado o bastante para suas refeições, virou-se para apanhá-los e estava o lugar mais limpo. Investigando ao redor deu de cara com a caranguejeira: - Foi você que comeu meus peixes, num foi? Eu não. Foi. Eu não. Foi. Não foi. Nessa hora passou voando um juriti e a aranha gritou: - Ei, juriti! Se eu não tivesse feito você ficar bonita desse jeito, não voaria de jeito nenhum! Aí o Quibungo perguntou: - Você sabe fazer eu ficar bonito? Ah, se sei. Então eu quero. Então, vamos. E foram, até que a aranha mandou pegar um toro especial, o mais pesado e fincasse na terra. Assim ele fez. Depois mandou catar muitos galhos e cipós para fazer a encomenda. Assim fez. Então ela amarrou, torceu, deu nó, reamarrou, deu trocentas voltas, bem amarrado e perguntou pra ele: - Quibungo, veja se pode se bulir aí! Ele fez força, inchou e viu que estava preso, dizendo: - Tô todo arrochado de num poder nem piar, ora. A aranha então riu maliciosamente, armou-se de uma quicé amolado e começou a cortar pedaços da carne dele para comer. Ele gritava, berrava, ela só se abastecendo, até encher e ir-se embora, deixando-o amarrado. Foi aí que passou uma tartaruga e ele pediu para soltar os cipós, e ela nem aí, seguiu caminhando. Passou um veado, depois um boi, depois um caneiro, a todos pedia e nenhum deles atendeu. Foi então que passou o cupim e aos prantos ele pediu para roer o cipó, ao que respondeu: - Eu não, quando você soltar, você vai comer os meus filhos. Vou não, cupim. Vai sim. Prometo que não. Não acredito. Pelo amor de seus filhos, me solte. Solto não. E ficaram nisso por horas, até que o Quibungo convenceu o cupim e este roeu os cipós, libertando-o. Ele agradeceu e prometeu não comer os filhos do cupim, indo à caça da aranha. Foi encontrá-la escondida na pele dum bode, tomando água numa fonte. – Ah-rá! Vou dar o troco agora, sua danada! E ao partir para atacá-la, eis que surge o pai aflito de tanto procurar pelos filhos, encontrando o Quibungo na hora do bote, e às escondidas, mirou e disparou um tiro certeiro matando-o. Com o estampido a aranha se assusta e cai na água morrendo afogada. O pai aproxima-se e abre à força o buraco nas costas do Quibungo e retira os filhos ainda vivos, levando-os para casa feliz por resgatá-los, providenciando uma festa com a vizinhança. Os festejos corriam soltos noite alta quase madrugada, quando entrou pela porta da frente, saiu pela ponta do canivete, quem quiser que contre outra ou invente uma maior que sete. (Recriada a partir de narrativa oral da minha avó Benita, e registrada na obra O folclore negro do Brasil: demopsicologia e psicanálise (Casa do Estudante do Brasil, 1935), de Artur Ramos). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PARA QUE A AULA SEJA BOA DE PEDRO DEMO
[...] Para que a aula seja boa: precisa estar comprometida com a aprendizagem em quem dá aula e com a aprendizagem em que escuta a aula; daí segue que a aula será sempre expediente supletivo, por mais útil que possa ser; é mero instrumento secundário, jamais o sentido da didática; precisa ser elaborada, reconstruída: significado que o professor carece de estudo continuado, evitando-se logo que dê qualquer aula sobre qualquer assunto; só se pode dar aula daquilo que produz, a rigor; precisa ser atraente ou pelo menos suportável, envolvendo os ouvintes para além da mera assistência forçada ou passiva; nem todo mundo expõe bem, mas é preciso pelo menos expor algo de interesse e pertinência; não pode abusar da atenção dos ouvintes, sendo inócua a aula longa; precisa ser envolvente, no sentido de estabelecer entre entre professor e aluno ambiente de emoção possível; não se trata de causar prazer imediato, porque não nos interessamos apenas por aquilo que dá prazer (se assim fosse, poucos estudariam matemática ou fariam mestrado/doutorado), mas de travar relacionamento que envolva as pessoas em questões que as movam a escutar com atenção e permanecer interessadas; precisa ser curta, porque, de todos os modos, pesquisar e elaborar sempre são mais importantes que escutar aula. Parece claro que o sentido da aula está no cuidado com a aprendizagem do aluno: a isto serve caracteristicamente e a isto jamais deveria impedir. Deve reforçar a formação da autonomia, não sua subalternidade sempre  reproduzida. [...] .
Trecho do capítulo O ensino na universidade, extraído da obra Universidade, aprendizagem e avaliação: horizontes reconstrutivos (Mediação, 2004), do sociólogo e professor Pedro Demo, discutindo sobre o papel da universidade, o papel do professor, do significado da aprendizagem e da avaliação no ensino superior, apontando caminhos, novos horizontes e fundamentando-se na vasta literatura referente. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
A lenda do açúcar e do álcool, Educação não é privilégio de Anísio Teixeira, História da Filosofia de Wil Durant, a música de Yasushi Akutagawa, Não há estrelas no céu de João Clímaco Bezerra, Cumade Fulosinha & Menelau Júnior, a pintura de Madison Moore, João Pirahy & Pulsarte aqui.

E mais:
Sorria, Canto geral de Pablo Neruda, A desobediência civil de Henry David Thoreau, O feijão e o sonho de Orígenes Lessa, Revolução na América do Sul de Monteiro Lobato & Brincarte do Nitolino, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Sebastião Tapajós, Marcelo Soares aqui.
Psicologia social e educação, a poesia de Pablo Neruda, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Yasushi Akutagawa, a arte de Regina Espósito & Ju Mota aqui.
Recitando Castro Alves: Navio Negreiro aqui.
Devagar e sempre, A monadologia de Leibniz, Estudo do poema de Antônio Cândido, Meu país de Dorothea Mackellar, A arte da comédia de Lope de Vega, o ativismo de Emma Goldman, a arte de Gilvan Samico, a música de Alceu Valença, a xilogravura de Amaro Francisco Borges, Brincarte do Nitolino & a pintura de Nina Kozoriz aqui.
A vida dupla de Carolyne & sua cheba beiçuda, Psicologia da arte de Lev Vygotsky, a poesia de William Butler Yeats, A República de Platão, a pintura de Raphael Sanzio & Boleslaw von Szankowski, a música de Leonard Cohen, o cinema de Paolo Sorrentino & World Erotic Art Museum - WEAM aqui.
Divagando na bicicleta, Onde andará Dulce Veiga de Caio Fernando Abreu, Os elementos de Euclides de Alexandria, O teatro e seu duplo de Peter Brook, a música de Billie Myers, a fotografia de Alberto Henschel, a pintura de Jörg Immendorff & Oda Jaune aqui.
A conversa das plantas, Memória da guerra de Duarte Coelho, a poesia de Cruz e Sousa, Arquimedes de Siracusa, a música de Natalie Imbruglia, a arte de Hugo Pratt & Tom 14 aqui.
Leitoras de James leituras de Joyce, a fotografia de Humberto Finatti, a arte de Henri Matisse & Wayne Thiebaud aqui.
Incipit vita nuova, As raízes árabes da arte nordestina de Luís Soler, A divina comédia de Dante Alighieri, a música de Galina Ustvolskaya, a pintura de Jack Vetriano & Paul Sieffert, as gravuras de Gustave Doré & a arte de Luciah Lopez aqui.
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O CAMINHO DE MUMON
O grande caminho não tem portas, milhares de caminhos levam a ele. Quando atravessamos esse umbral sem portas, caminhamos livremente entre o céu e a terra.
Pensamento do calígrafo e sábio zen Mumon Yamada (1900-1988).

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especial com a pianista Maria Teresa Madeira interpretando Ary Barroso & Recital, o violonista Yamandu Costa ao vivo & In Concert, a pianista Cristina Ortiz com Alma Brasileira & Ciclo Brasileiro Heitor Villa-Lobos, o violonista Laurindo Almeida com Musico f Brazilian Masters & Cajita de Musica. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A ARTE DE LATIFA LAÂBISSI
A arte da dançarina e coreógrafa francesa Latifa Laâbissi.
 

sábado, dezembro 24, 2016

RUBEM BRAGA, ERNESTO NAZARETH & TERESA MADEIRA, PERRON, WILHELM MARSTRAND & XOTE DE NATAL


O XOTE NO AUTO DE NATAL – Desde o início do ano passado que Jesus vinha numa embalagem só: solitário, ignorado, triste, endividado. Não lhe sobrara nada dos últimos anos, só a roupa do couro e uma mão na frente, outra atrás. Tanto trabalhara, correra e se ocupara, tanto fizera para superar as dificuldades, não conseguira: ninguém para estender-lhe a mão, antes portas fechadas. Era noite de natal, mais uma vez sozinho, não tinha nada para fazer nem para onde ir. Mesmo assim, resolveu caminhar. Deparou-se com a encenação de um Auto do Presépio e ficou ali entretido com a representação, emocionando-se com a história, a ponto de algumas lágrimas escorrerem por suas faces. Ao final constatara: um Jesus tal como ele, também sofrera revezes. Saiu, então, enchendo as ruas de pernas, quando tropeçou num cotoco de craíba. Ao invés de maldizer daquilo, tomou às mãos e seguiu seu caminho. Teve uma ideia: com aquele graveto ia fazer a sua própria árvore. E pensou: não era um pinheiro, mas dava bem pra fazer de contas. Nada mais tinha para tal e ficou pensando como fazer o que pretendia. Aí juntou umas metralhas com barro e fez a base. Com alguns retalhos começou a revestir e a dar forma ao seu intento. Ao seu modo, ficou uma beleza de árvore de natal e ficou contemplando. Nem dera por conta da aproximação de uma bela mulher, muito formosa e elegante que disse: - Não se entristeça, veja como foi feliz quando criança. – Quem é você? Sou Clotilde, a Mulher da Sombrinha, aquela que traz de volta o seu passado. Aprenda e refaça o seu presente. Disse-lhe isso e desapareceu. Realmente, quando criança fora muito feliz com seus pais, agora não mais, órfão no mundo, sem ter com quem dividir seus momentos de existência. Revivendo suas belas imagens da infância e juventude com sua família, percebeu a presença de um besouro zunindo ao seu redor. Agoniado com a presença daquele indesejável inseto, logo tentou espantá-lo para longe, quando ficou maravilhado ao perceber que se transformara numa linda mulher que lhe falou: - O passado construiu o presente. O futuro se faz agora. – Quem é você? Sou Coatilicue, o seu presente e que me conhece como Cumade Fulôzinha, acompanho sua vida como o besouro Mãe do Sol. Dito isto, ela novamente se transformou no besouro e saiu voando. Ele, então, ficou consigo pensando como construir o futuro agora, já que não tinha nada nem sabia por onde começar. Já estava se aborrecendo com a sua falta de sorte, sua incompetência, sua completa falta de senso para mudar sua vida noutra diferente, quando surgiu uma terceira mulher, muito mais bonita e mais alta que as demais, com um vestido branco que iluminava prateado e transparente, mostrand0-lhe as suas sedutoras formas, sem que jamais distinguisse suas faces cobertas com seus negros e longos cabelos. - Quem é você? -, perguntou-lhe. – Sou a Uiara do Una, a Mãe d’Água, Iemanjá, o seu futuro e morte. Os olhos dele quase pulavam fora diante de tanta formosura, temendo ter um troço diante de ser tão majestoso e bater as botas na hora. – Quer fazer um futuro diferente? Sim, evidente que quero, mas como fazer? Comece sorrindo e ofereça essa rústica árvore que você mesmo construiu a uma criança que encontrar, logo saberá como construir o futuro no presente. Dito isto, ela sumiu da mesma forma que aparecera. Ele olhou dos lados, tomou a sua criação entre as mãos e à primeira criança que encontrou ele a oferecera. E quando viu o lindo riso da criança, ele sentiu pela primeira vez na vida que nada seria mais valioso. Aquele sorriso fora a motivação que precisava para fazer muitas outras árvores com cotocos de craíbas, metralhas e retalhos e, com isso, pode fazer muitas crianças felizes. E com a felicidade delas ele aprendeu a verdade e, a partir de então, nunca mais se vira sozinho nem triste nem desolado, estava ele feliz na noite de natal, ao embalo de um trio pé-de-serra no maior trupé, e quando olhou direito, cada uma daquelas mulheres estava disfarçada de músicos, cada uma na sanfona, no triângulo e na zabumba, o xote da trindade natalina. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui

 Curtindo o Box Ernesto Narzareth (Laranjeiras Records, 2016 - 12 cds) com a obra completa do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934), na interpretação da pianista Maria Teresa Madeira. Veja mais aqui.

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Renascendo das cinzas na véspera de natal, Goethe, Federico Fellini, Zygmunt Bauman, Harvey Spencer Lewis, Ana Maria Machado, Olivia Byington, Yuri Krotov, Nikolaj Wilhelm Marstrand, Da Priapeia, Clara Redig & Maria Eduarda Rodrigues aqui.


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DESTAQUE: CONTO DE NATAL DE RUBEM BRAGA
Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.
— Que é?
O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:
— Porcaria...
Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.
— Péra aí...
Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.
— Vamos ver aqui...
Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.
Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.
Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!
— Mulher!
Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.
— Péra aí...
Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.
O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.
De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.
— Não...
Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.
— Eh, mulher...
Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.
— Oh, graças a Deus...
Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.
— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.
O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.
— Eu acho que o jeito...
O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.
No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.
Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.
— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!
— Natal?
Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.
— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...
Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:
— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!
A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:
— Eh, pai, vem vê...
— Uai! Péra aí...
O menino Jesus Cristo estava morto.
Conto de Natal (Nós e o Natal – AGGS, 1964), do escritor Rubem Braga (1913-1990). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor dinamarquês Wilhelm Marstrand (1810-1873)
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


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