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segunda-feira, julho 19, 2021

ANNE ASKEW, ESPIDO FREIRE, ARTHUR MOREIRA LIMA, CAMILA ROSA & MACIEL MELO

 

 

TRÍPTICO DQP – Notícias do Fecamepa... - Ao som Artur Moreira Lima interpreta Ernesto Nazareth (vols. 1 e 2, 1975), na interpretação do pianista Arthur Moreira Lima. - Tó Zeca era tampa! Viesse pra cima dele com lorota, ele destabocava peteando dobrado! Contasse não, só saía pinoia raçuda. Muitas dele passaram a fazer parte dos anais do anedotário, como a da domesticação de uma baleia-azul braba no Rio Una; dos murros nos maiores monstros, tudo servil dele no Riacho dos Cachorros; da peixa do açude, do namoro com todas as beldades das capas de revista, afora picadas homéricas em marcianas, venusianas, plutônicas e outras ETs; enfim, se parecia apologia, todos esperavam: Não é mentira não! E nenhuma façanha era repetida, tinha sempre uma cabeluda nova para impressionar e deixar todo mundo de queixo caído e sem dar um pio escondendo o riso. Sim, todo mundo sabia, ele não fazia mal a ninguém, nenhum morto nem matado, sequer prejuízos: todos sabiam que era potoca, nada demais. Mas para nossa infelicidade apareceu um concorrente à altura: o mico Coisonário, aí lascou tudo: cada uma que ele fala, arreia um; até agora matou mais de quinhentos mil e dá pra muito mais! Virou geral: esse mente que o cu apita. E na maior cara de pau! Já aí, todo mundo agora está evitando o cara: será o coisa-ruim metido a messias? Dizem: se não for é aparentado! Destá. E o Tó Zeca? Parece que se envultou: ninguém sabe, ninguém mais viu. Não deu outra, só Ievguêni Ievtuchenko: Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira. A autobiografia de um poeta é sua poesia. Qualquer outra coisa pode ser apenas uma nota de rodapé. Será o Fecamepa?

 


Dois passos na roda letal... - Imagem: arte da ilustradora Camila Rosa. - Maior farra no Gado-Bravo! Arrastado de pé, converseiro, compadrio, risadagens: tudo família. Lá pras tantas, o genro João Grande do Poço-Doce se estranhou com a sogra Marita e passou-lhe uma peixeirada lá no pé do umbigo dela, das tripas caírem fora. O sogro Inaçantonho ficou sem ação de nem ver a escapulida do indigitado. Seis testemunhas pinguças depuseram: provada a autoria, o réu foi pronunciado e libelado depois de réplicas e tréplicas no tribunal do júri, sentença transitada em julgado pelo douto julgador: condenado a galés perpétuas e nas custas! Tudo registrado no volume de Inocentes e culpados no Tribunal do Júri de São Bento: síntese história do homicídio 1818-1930 (CEGM/FIAM, 1986), do Sebastião Soares Cintra, autor de outros livros como Os Cintra de São Bento (CEPE, 1983) e do de poesias Cozes de Bentuna (Grafset, 1986). Sim, mas do caso, um dos comentários entre os assistentes: Esse lascou-se, sogra é pra isso mesmo! Três senhoras ouviram e se aproximaram, fiquei de mutuca. A primeira, era a jornalista, socióloga e ativista estadunidense Ida Wells (1862-1931): A maneira de corrigir os erros é direcionar a luz da verdade sobre eles. É melhor morrer lutando contra a injustiça do que morrer como um cachorro ou um rato em uma armadilha. Fiz um gesto com a cabeça, concordando. Em seguida, a escritora espanhola Espido Freire: Não sou daquelas que dizem: 'se eu nascesse de novo, faria o mesmo de novo. Não eu não. Eu estive errada muito. Julguei mal muitas pessoas. Ao seu lado, a poeta inglesa Anne Askew (1520-1546) recitou-me o poema Eu sou uma pobre cega, e disse-me repetindo: Deus me deu o pão da adversidade e a água da angústia. Sim, eu sabia que ela havia sido torturada no cavalete da Torre de Londres, condenada por heresia e queimada viva por causa do divórcio e por ser feminista. A execução teve um detalhe: o carrasco subornado por uma amiga dela, colocou pólvora amarrada ao seu pescoço; ao acender a fogueira, a explosão. Ainda hoje, lamentavelmente.

 


Mudando de assunto... - Estava eu na redação da emissora e recebi naquela tarde um telefonema do parceiramigo Santanna o Cantador. Sim? Marcava pra gente se encontrar na praça, final da tarde. Combinado, assim foi. Chegando lá, tive a grata satisfação de conhecer um poeta cantador do Iguaraci e dos bons, Maciel Melo. Sequer tinha ouvido seu nome, mas não deixei por menos: conversamos, trocamos ideias e rumamos para um bar ali perto. Violão para lá e para cá, lá para as tantas, ele me deu o álbum Desafio das léguas (1989), com participações de Elomar, Vital Farias e Décio Marques. Gente, ouvi na hora, bom demais. Fiquei empolgado e gravamos uma entrevista, viramos a noite bebericando e, no domingo de tarde, emplaquei destaque no meu programa radiofônico Panorama. Um sucesso! Foi aí que soube que ele já tinha música gravada pelo Quinteto Violado e a música Que nem vem vem estava de vento em popa, gravada por Elba Ramalho. A partir disso, nunca mais vi pessoalmente este grande autor, mas nas emissoras onde passei e por todos os meus programas fiz questão de sapecar seus álbuns na programação: Alegria de Nós Dois (1995), Janelas (1996), Retinas (1997), Jeito Maroto (1998), Sina de Cantador (1998), Isso Vale um Abraço (2000), Acelerando o Coração (2001), O Solado da Chinela (2002), Dê Cá um Cheiro (2005), Nascente (2006), o CD/DVD ao Vivo no Teatro Guararapes (2008), Sem Ouro e Sem Mágoa (2009) e Debaixo do Meu Chapéu (2010). Ainda hoje vou na maior cantarolada do Caboco sonhador! E vamos aprumar a conversa, até mais ver.

 

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segunda-feira, fevereiro 04, 2019

ANTÔNIO MARIA, IARA BEHS & ERNESTO NAZARETH, ABELARDO DA HORA & PALHÁSSARO


PASSAVIDA, PALHÁSSARO - Há quem viva de dormir e acordar, quando não roncar e peidar, ora essa. Acorda e não desperta; se desperta, não dá conta. Oh, não! Na vera, a vida não é só isso, apenas: tem sonhos, entressonhos reveláveis e passadiços. E muito mais: aqueles que remexem pesadelos e desamparo, para saltos e retrocessos, como outros, olhos cônscios, paradoxos de eita, coisa de não entender mesmo e são. E acontece, só pra saber o impossível que nem se adivinha e é pra valer, o cúmulo do caos. Medameaça de mesmo, frientanias danadas para enfrentar. Parece mais que o tempo não termina, gastagente, só. De resto, amavive, sonhassim. Desdontem, meninadulto nas claraboias de plutão ou quase dos cantos inóspitos, arreado. Quem não quantas faces de si, disfarces, chapéus de Schopenhauer. E o mundo, muitos para aprender. Quantas vivalmas e meio a meio, nem sempre. Tem que ser para viver subires sem degraus, desceres lisos, haja pau de sebo; pisadas no asfaltarenoso, lapadas no toitiço, largos passos no chão igual a todos, para onde frente e atrás, lugares desaconchegados e enquanto, obséquios e desterro penoso, pesaroso, brenhas e lonjuras, portalguma e olhar de quem esquece o longinguo norteste, suleste, alhures. Tudo por sustos e risos, desistidos poréns, extraordinárias surpresas, vésperespanta: o alegre ou abominoso, quantos desagrados escorraços, desordens de si e de todos. Luares de rio, espelhos de Sol. Veemências ante as malícias e notícias, as medonhas ingratidões, descreres. Mais tivesse, só resta dormir mesmo e doer, por mais que nem seja. Não ser mais que a sua solidão à noitinha, candeeiro nem, pelo menos tenha: somente réstias de confidências suas, clandestino de tantas nuvens e às sete capas e sete chaves, retraído uma vez em cem, segredado; afora as notórias, veladas, dissimuladas, das idas e vindas ao coringa e todo baralho: as covardias e as intemperanças, outras quase nem vistas. Cenas que chegam do agora e tarde demais na montantesperança: retrocederes, refazimentos. Assim também vou, fui. Ocultanias entre o que se quer ouvir ou não, calar pelos cotovelos, soltar de vez por bem ou que nem deva para o que come ou bebe entre a fome e a sede, os alaridos do ignoto. Quem capaz de discernir dessas loucuras que não se sabe, doidices que saltam do comum para desenredo: relâmpagos do revertério, trovoadas da danação, chuvadas sem guarida para quem não sabe nadar. Hojagora, crástino e pretérito, quem há-de ebrifestivo ou tristeimoso, vá ver. Olhesperante, avalanchegos, pobretamaínho, infimesmado. Como as coisas se estragam, assim cada um. Carece de se advertir, divertimento tem hora, haja flagelo no cabimento das coisas e seres. Chuva, lágrimas, rios. Passavida, passavios, palhássaro voo nos caminhudos de fogáguas & terrares. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso é confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega. Exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo. [...] Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legitimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do prazer cumprido. No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga... tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.
Crônica Café com leite, extraída da obra Crônicas (Paz e Terra, 1996), do poeta, radialista e compositor Antônio Maria (1921-1964). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE ABELARDO DA HORA
A arte do escultor, desenhista, gravador, ceramista e professor Abelardo da Hora (1924-2014). Obras extraídas do catálogo Amor e solidariedade: Abelardo da Hora 60 anos de Arte (IAH/Dona Lindu, 2011). Veja mais aqui e aqui.

IARA BEHS & ERNESTO NAZARETH
Hoje na Rádio Tatataritaritatá especial com a pianista e compositora Iara Behs interpretando as obras do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934). Veja mais aqui, aqui e aqui.
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sábado, dezembro 24, 2016

RUBEM BRAGA, ERNESTO NAZARETH & TERESA MADEIRA, PERRON, WILHELM MARSTRAND & XOTE DE NATAL


O XOTE NO AUTO DE NATAL – Desde o início do ano passado que Jesus vinha numa embalagem só: solitário, ignorado, triste, endividado. Não lhe sobrara nada dos últimos anos, só a roupa do couro e uma mão na frente, outra atrás. Tanto trabalhara, correra e se ocupara, tanto fizera para superar as dificuldades, não conseguira: ninguém para estender-lhe a mão, antes portas fechadas. Era noite de natal, mais uma vez sozinho, não tinha nada para fazer nem para onde ir. Mesmo assim, resolveu caminhar. Deparou-se com a encenação de um Auto do Presépio e ficou ali entretido com a representação, emocionando-se com a história, a ponto de algumas lágrimas escorrerem por suas faces. Ao final constatara: um Jesus tal como ele, também sofrera revezes. Saiu, então, enchendo as ruas de pernas, quando tropeçou num cotoco de craíba. Ao invés de maldizer daquilo, tomou às mãos e seguiu seu caminho. Teve uma ideia: com aquele graveto ia fazer a sua própria árvore. E pensou: não era um pinheiro, mas dava bem pra fazer de contas. Nada mais tinha para tal e ficou pensando como fazer o que pretendia. Aí juntou umas metralhas com barro e fez a base. Com alguns retalhos começou a revestir e a dar forma ao seu intento. Ao seu modo, ficou uma beleza de árvore de natal e ficou contemplando. Nem dera por conta da aproximação de uma bela mulher, muito formosa e elegante que disse: - Não se entristeça, veja como foi feliz quando criança. – Quem é você? Sou Clotilde, a Mulher da Sombrinha, aquela que traz de volta o seu passado. Aprenda e refaça o seu presente. Disse-lhe isso e desapareceu. Realmente, quando criança fora muito feliz com seus pais, agora não mais, órfão no mundo, sem ter com quem dividir seus momentos de existência. Revivendo suas belas imagens da infância e juventude com sua família, percebeu a presença de um besouro zunindo ao seu redor. Agoniado com a presença daquele indesejável inseto, logo tentou espantá-lo para longe, quando ficou maravilhado ao perceber que se transformara numa linda mulher que lhe falou: - O passado construiu o presente. O futuro se faz agora. – Quem é você? Sou Coatilicue, o seu presente e que me conhece como Cumade Fulôzinha, acompanho sua vida como o besouro Mãe do Sol. Dito isto, ela novamente se transformou no besouro e saiu voando. Ele, então, ficou consigo pensando como construir o futuro agora, já que não tinha nada nem sabia por onde começar. Já estava se aborrecendo com a sua falta de sorte, sua incompetência, sua completa falta de senso para mudar sua vida noutra diferente, quando surgiu uma terceira mulher, muito mais bonita e mais alta que as demais, com um vestido branco que iluminava prateado e transparente, mostrand0-lhe as suas sedutoras formas, sem que jamais distinguisse suas faces cobertas com seus negros e longos cabelos. - Quem é você? -, perguntou-lhe. – Sou a Uiara do Una, a Mãe d’Água, Iemanjá, o seu futuro e morte. Os olhos dele quase pulavam fora diante de tanta formosura, temendo ter um troço diante de ser tão majestoso e bater as botas na hora. – Quer fazer um futuro diferente? Sim, evidente que quero, mas como fazer? Comece sorrindo e ofereça essa rústica árvore que você mesmo construiu a uma criança que encontrar, logo saberá como construir o futuro no presente. Dito isto, ela sumiu da mesma forma que aparecera. Ele olhou dos lados, tomou a sua criação entre as mãos e à primeira criança que encontrou ele a oferecera. E quando viu o lindo riso da criança, ele sentiu pela primeira vez na vida que nada seria mais valioso. Aquele sorriso fora a motivação que precisava para fazer muitas outras árvores com cotocos de craíbas, metralhas e retalhos e, com isso, pode fazer muitas crianças felizes. E com a felicidade delas ele aprendeu a verdade e, a partir de então, nunca mais se vira sozinho nem triste nem desolado, estava ele feliz na noite de natal, ao embalo de um trio pé-de-serra no maior trupé, e quando olhou direito, cada uma daquelas mulheres estava disfarçada de músicos, cada uma na sanfona, no triângulo e na zabumba, o xote da trindade natalina. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui

 Curtindo o Box Ernesto Narzareth (Laranjeiras Records, 2016 - 12 cds) com a obra completa do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934), na interpretação da pianista Maria Teresa Madeira. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Renascendo das cinzas na véspera de natal, Goethe, Federico Fellini, Zygmunt Bauman, Harvey Spencer Lewis, Ana Maria Machado, Olivia Byington, Yuri Krotov, Nikolaj Wilhelm Marstrand, Da Priapeia, Clara Redig & Maria Eduarda Rodrigues aqui.


E mais:
Crônica natalina, John Keats, Lampedusa, Gregório de Matos Guerra, Betinho, Chet Baker, Paulo Cesar Sandler, Franco Zeffirelli, Willy Kessels, Hans Makart & Teatro Renascentista aqui.
Natal de Popó aqui.
Pastoril do Doro aqui.
O banquete natalino de Beliato aqui.
Papai Noel amolestado aqui.
A prisão do Papai Noel aqui.
Então, é natal aqui.
Quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Proezas do Biritoaldo aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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DESTAQUE: CONTO DE NATAL DE RUBEM BRAGA
Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.
— Que é?
O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:
— Porcaria...
Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.
— Péra aí...
Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.
— Vamos ver aqui...
Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.
Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.
Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!
— Mulher!
Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.
— Péra aí...
Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.
O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.
De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.
— Não...
Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.
— Eh, mulher...
Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.
— Oh, graças a Deus...
Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.
— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.
O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.
— Eu acho que o jeito...
O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.
No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.
Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.
— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!
— Natal?
Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.
— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...
Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:
— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!
A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:
— Eh, pai, vem vê...
— Uai! Péra aí...
O menino Jesus Cristo estava morto.
Conto de Natal (Nós e o Natal – AGGS, 1964), do escritor Rubem Braga (1913-1990). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor dinamarquês Wilhelm Marstrand (1810-1873)
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


sábado, setembro 24, 2016

ABRAHAM YEHOSHUA, HANNAH ARENDT, NIETZSCHE, SCHWATZMAN, CLEMENCIA BARALDI, ERNESTO NAZARETH & MARIA TERESA MADEIRA, ARTURO SOUTO, CIURLIONIS & POBREZA


INEDITORIAL: NO REINO DA COMPETIÇÃO TODO MUNDO TEM DE SER SUPER-HOMEM – O SER HUMANO NÃO É NADA! A banalização da vida chegou ao cúmulo do ser humano não valer nada! A ordem é competir e todo mundo virar super-homem! E esse super-herói é um erro de interpretação do além-do-homem nietzscheano. Ah, equívocos sobram! E tudo isso remete a uma outra chamada daquelas do Nélson Rodrigues de Bonitinha, mas ordinária: - O mineiro só é solidário no câncer! Valha-me! E ainda elegem a educação como a panacéia para todos os males – ô bocado de gente mal-educada! Mas vamos pras novidades que de notícia ruim basta a gente ler qualquer jornal ou sintonizar qualquer emissora de rádio ou televisão: vai gostar de espetacularizar a desgraça na casa de caixa pregos, meu! Vamos lá: Na edição de hoje as novidades são: a croniqueta com a primeira paixão de Ximênia, a prinspa do Coité; a música de Ernesto Nazareth na interpretação da pianista Maria Teresa Madeira, a crise da educação de Hannah Arendt, o livro Shiva de Yehoshua, aprender suportando o equívoco da psicóloga Clemencia Baraldi, As causas da pobreza de Simon Schwatzman, outro trecho da gaia ciência de Nietzsche, a pintura de Arturo Souto e a sonata pictórica de Konstantinas Ciurlionis. No mais, um maravilhoso final de semana procês, vamos aprumar a conversa & Tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre
O papel da arte no direito à saúde, Hannah Arendt & O cuidado com o mundo, Francis Scott Fitzgerald, Wolfgang Amadeus Mozart, Gilberto Mendonça Teles, Pedro Almodóvar, Claudia Riccitelli, Gilda de Abreu, Victoria Abril, Suzanne Valadon, Arlindo Rocha & Literatura Infantil aqui.

E mais:
Fecamepa & a escravaria, Hegel, Mário Quintana, Debret & Pauley Perrette aqui.
Presente de Natal, Agostino Carracci, Pal Fried & as previsões do Doro aqui.
Rūmī, Margaret Mead, Martin Page, Tori Amos, Nanni Moretti, Arthur Omar, Pierre Puvis de Chavannes, Laura Morante & Jeová Santana aqui.
O evangelho do Padre Bidião, Edmund Husserl, Dalton Trevisan, Caio Fernando Abreu, Obviedades Cínicas, Carl Sandburg, Zé Barbeiro, Anne Desclos, Pilar Quintana, Corinne Cléry, Ignacio Zuloaga Zabaleta & Ísis Nefelibata aqui.
O toco do Barnabé, Mario de Andrade, Franz Hartmann, Roger Chartier, Felipe Coelho, Rosi Campos, Laetitia Colombani, Albert Arthur Allen, Audrey Tautou, Anna Rose Bain & Helena Ferreira aqui.

DESTAQUE: POBREZA
[...] as causas da pobreza não podiam ser individuais, mas estruturais: a exploração do trabalho pelo capital, o poder das elites que parasitavam o trabalho alheio e saqueavam os recursos públicos, e a alienação das pessoas, criada pelo sistema de exploração, que impedia que elas tivessem consciência de seus próprios problemas e necessidades. [...] Não há solução em curto prazo para os problemas da pobreza no Brasil. Para que a pobreza seja vencida, é necessário vontade política e compromisso com os valores da igualdade social e dos direitos humanos; uma política econômica adequada, que gere recursos; um setor público eficiente, competente responsável no uso dos recursos que recebe da sociedade; e políticas específicas na área da educação, da saúde, do trabalho, da proteção à infância, e do combate à discriminação social, e outras. Tudo isto é fácil de dizer, e dificílimo de fazer. A construção de uma sociedade competente, responsável, comprometida os valores de equidade de justiça social, e que não caia na tentação fácil do populismo e do messianismo político, é uma tarefa de longo prazo, e que pode não chegar a bom termo. Mas não há outro caminho a seguir, a não ser este.
Trecho extraído da obra As causas da pobreza (FGV, 2001), do sociólogo Simon Schwatzman. Veja mais aqui e aqui.

A PRIMEIRA PAIXÃO DE XIMÊNIA - Ximênia passou de menina à moça de quase ninguém notar a transformação. Oxe, ainda ontem era destamaínho, chamego de todo mundo. Tida sempre como a queridinha de todos dali, ela já debutava com uma formosura de encher todos os olhos. Estava moça feita aos quinze anos de idade. Os seios emergiram de fazer ponta no vestido de chita: dois faróis que boliam com o juízo de muitos marmanjos. As pernas e coxas torneadas e roliças mostravam-se salientes por seu infantil jeito de brincalhona, nem dando conta do vento que lhe levantava as saias, a ponto de ver-se o ventre estufado na calcinha apertada coladinha nas suas formas. Até o vento fazia festa, parece. Era um vexame pros que procuravam uma grota que fosse para saciar nas mãos aquela provocação. Aquilo era uma perdição, diziam. Um dia toda macharia entristeceu quando ela começou a suspirar por Marlúcio, o galante filho do coronel que passava vez em quando por ali, resolvendo providências de recrutar capatazes pra fazenda. Toda vez que ele apontava na entrada do arruado, ela se desmanchava com olhares apaixonados, jeito manso, derretida de paixão. Ele, nem nem. Ela não se continha e começava a correr pelo arruado na esperança de que ele lhe desse pelo menos um olhar. E recorria pra Santo Antonio com orações infindas, donativos e devoções. Cada aparição dele, ela se enchia de grandeza. Ele, nem aí. Se viu, fez que não viu, zarpava tão logo resolvesse suas pendências. Noites e dias ela apelava pra todos os santos e anjos, sonhando naquele tórax e envolvida por seus braços másculos, dando-lhe o prazer de ser dele. Anos passavam e ela alimentando aquela paixão desmedida por seu príncipe encantado. Teve um baque e nem se desiludiu quando soube que ele fora pra capital fazer faculdade, um dia ele reapareceria. Nunca mais. Quando reapareceu estava casado com granfina e filhos. E ela guardara aquela paixão escondida, guardada no mais profundo do seu coração e para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

UMA MÚSICA
Curtindo os álbuns Ernesto Nazareth & Ernesto Nazareth – Grandes Mestres, da pianista Maria Teresa Madeira, em homenagem ao pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934). Veja mais aqui.

PESQUISA: A CRISE DA EDUCAÇÃO - [...] O papel desempenhado pela educação em todas as utopias políticas, desde a Antiguidade até aos nossos dias, mostra bem como pode parecer natural querer começar um mundo novo com aqueles que são novos por nascimento e por natureza. No que diz respeito à política há aqui, obviamente, uma grave incompreensão: em vez de um indivíduo se juntar aos seus semelhantes assumindo o esforço de os persuadir e correndo o risco de falhar, opta por uma intervenção ditatorial,  baseada na superioridade do adulto, procurando produzir o novo como um fait accompli, quer dizer, como se o novo já existisse. [...] Ora, a educação não pode desempenhar nenhum papel na política porque na política se lida sempre com pessoas já educadas. Aqueles que se propõem educar adultos, o que realmente pretendem é agir como seus guardiões e afastá-los da atividade política. Como não é possível educar adultos, a palavra «educação» tem uma ressonância perversa em política — há uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem uso da força. Quem quiser seriamente criar uma nova ordem política através da educação, quer dizer, sem usar nem a força e o constrangimento nem a persuasão, tem que aderir à terrível conclusão platônica: banir todos os velhos do novo estado a fundar. Mesmo no caso em que se pretendem educar as crianças para virem a ser cidadãos de um amanhã utópico, o que efetivamente se passa é que se lhes está a negar o seu papel futuro no corpo político pois que, do ponto de vista dos novos, por mais novidades que o mundo adulto lhes possa propor, elas serão sempre mais velhas que eles próprios. Faz parte da natureza da condição humana que cada nova geração cresça no interior de um mundo velho, de tal forma que, preparar uma nova geração para um mundo novo, só pode significar que se deseja recusar àqueles que chegam de novo a sua própria possibilidade de inovar. [...] Ora, no que diz respeito à educação ela mesma, só no nosso século é que a ilusão emergente do pathos do novo produziu as suas mais sérias consequências. Em primeiro lugar, permitiu que essa mistura de modernas teorias educativas provenientes da Europa Central, e que consiste numa espantosa salganhada de coisas com sentido e sem sentido, revolucionasse todo o sistema de educação sob a bandeira do progresso. Aquilo que na Europa não passou de uma experiência, testada aqui e além, em algumas escolas e instituições educativas isoladas, estendendo depois, gradualmente, a sua influência a alguns setores, produziu na América, de há cerca de vinte e cinco anos a esta parte e, por assim dizer, de um dia para o outro, uma transformação completa no que diz respeito às tradições e aos métodos estabelecidos de ensino e de aprendizagem. [...]. Trecho do ensaio A crise da educação, extraído da obra Entre o passado e o futuro (Perspectiva, 2005), filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

UM LIVRO, UMA LEITURA:
[...] Ele recebe a criança com uma expressão luminosa, tanto que se pode presumir ter deixado para trás seus dias de insanidade e abandonado a teimosia de que o globo terrestre permanece estático no lugar, que cada hora encerra-se em si mesmo, e nada jamais se perde no universo. [...].
Trecho extraído da obra Shiva (Companhia das Letras, 2001), do escritor, ensaísta e dramaturgo israelense Abraham B. Yehoshua, contando a história de um jovem médico que sofre uma grande uma transformação na vida ao viajar para a Índia, dilacerado por um amor impossível e uma carreira oscilante, passando a percorrer caminhos que tornam sua vida com outros significados.


PENSAMENTO DO DIA: APRENDER E SUPORTAR O EQUÍVOCO – [...] O erro e sua correção são um dos temas em que o discurso pedagógico mostra maiores contradições. Esta questão surge fundamentalmente do conceito de quem “corrige” sobre aquilo que se corrige, por que e como sendo a primeira das questões: o que se corrige? [...]. Trecho extraído da obra Aprender: a aventura de suportar o equívoco (Vozes, 1994), da psicóloga, psicopedagoga e psicoanalista argentina, Clemencia Baraldi, observando que o mal denominando erro, evidencia a originalidade e a particularidade do pensamento infantil por estar muito além ou distante dos modelos de pensamento que o adulto oferece, uma vez que o pensamento de cada criança releva com a mesma quando está raciocinando, expondo as suas idéias através das escritas, por seu pensamento ser natural, próprio de cada uma. Para a autora, é delicado para o educador exterminar da sua prática pedagógica o erro no ato em que se corrige, tendo em vista para que o aluno exponha suas idéias ou como ele está se raciocinando naquele momento, não poderia ser considerado como tal.

A GAIA CIÊNCIA
[...] Não esqueçamos disto: basta criar novos nomes e estimativas e verossimilhanças para, a longo prazo, criar novas “coisas”. [...]  olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós, temos de descobrir o heroi, assim como o parvo, que reside em nossa paixão do conhecimento, temos de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria! [...] somos mais pesos do que homens [...].
Trechos extraídos do Livro II, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Female nude, do pintor galego pós-impressionista Arturo Souto (1902-1964).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra com a Sonata VI, do pintor e compositor lituano Mikalojus Konstantinas Ciurlionis (1875-1911).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


VERA IACONELLI, RITA DOVE, CAMILLA LÄCKBERG & DEMOROU MUITO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Tempo Mínimo (2019), Hoje (2021), Andar com Gil (2023) e Delia Fischer Beyond Bossa (202...