Mostrando postagens com marcador Mikalojus Konstantinas Ciurlionis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mikalojus Konstantinas Ciurlionis. Mostrar todas as postagens

sábado, setembro 24, 2016

ABRAHAM YEHOSHUA, HANNAH ARENDT, NIETZSCHE, SCHWATZMAN, CLEMENCIA BARALDI, ERNESTO NAZARETH & MARIA TERESA MADEIRA, ARTURO SOUTO, CIURLIONIS & POBREZA

INEDITORIAL: NO REINO DA COMPETIÇÃO TODO MUNDO TEM DE SER SUPER-HOMEM – O SER HUMANO NÃO É NADA! A banalização da vida chegou ao cúmulo do ser humano não valer nada! A ordem é competir e todo mundo virar super-homem! E esse super-herói é um erro de interpretação do além-do-homem nietzscheano. Ah, equívocos sobram! E tudo isso remete a uma outra chamada daquelas do Nélson Rodrigues de Bonitinha, mas ordinária: - O mineiro só é solidário no câncer! Valha-me! E ainda elegem a educação como a panacéia para todos os males – ô bocado de gente mal-educada! Mas vamos pras novidades que de notícia ruim basta a gente ler qualquer jornal ou sintonizar qualquer emissora de rádio ou televisão: vai gostar de espetacularizar a desgraça na casa de caixa pregos, meu! Vamos lá: Na edição de hoje as novidades são: a croniqueta com a primeira paixão de Ximênia, a prinspa do Coité; a música de Ernesto Nazareth na interpretação da pianista Maria Teresa Madeira, a crise da educação de Hannah Arendt, o livro Shiva de Yehoshua, aprender suportando o equívoco da psicóloga Clemencia Baraldi, As causas da pobreza de Simon Schwatzman, outro trecho da gaia ciência de Nietzsche, a pintura de Arturo Souto e a sonata pictórica de Konstantinas Ciurlionis. No mais, um maravilhoso final de semana procês, vamos aprumar a conversa & Tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre
O papel da arte no direito à saúde, Hannah Arendt & O cuidado com o mundo, Francis Scott Fitzgerald, Wolfgang Amadeus Mozart, Gilberto Mendonça Teles, Pedro Almodóvar, Claudia Riccitelli, Gilda de Abreu, Victoria Abril, Suzanne Valadon, Arlindo Rocha & Literatura Infantil aqui.

E mais:
Fecamepa & a escravaria, Hegel, Mário Quintana, Debret & Pauley Perrette aqui.
Presente de Natal, Agostino Carracci, Pal Fried & as previsões do Doro aqui.
Rūmī, Margaret Mead, Martin Page, Tori Amos, Nanni Moretti, Arthur Omar, Pierre Puvis de Chavannes, Laura Morante & Jeová Santana aqui.
O evangelho do Padre Bidião, Edmund Husserl, Dalton Trevisan, Caio Fernando Abreu, Obviedades Cínicas, Carl Sandburg, Zé Barbeiro, Anne Desclos, Pilar Quintana, Corinne Cléry, Ignacio Zuloaga Zabaleta & Ísis Nefelibata aqui.
O toco do Barnabé, Mario de Andrade, Franz Hartmann, Roger Chartier, Felipe Coelho, Rosi Campos, Laetitia Colombani, Albert Arthur Allen, Audrey Tautou, Anna Rose Bain & Helena Ferreira aqui.

DESTAQUE: POBREZA
[...] as causas da pobreza não podiam ser individuais, mas estruturais: a exploração do trabalho pelo capital, o poder das elites que parasitavam o trabalho alheio e saqueavam os recursos públicos, e a alienação das pessoas, criada pelo sistema de exploração, que impedia que elas tivessem consciência de seus próprios problemas e necessidades. [...] Não há solução em curto prazo para os problemas da pobreza no Brasil. Para que a pobreza seja vencida, é necessário vontade política e compromisso com os valores da igualdade social e dos direitos humanos; uma política econômica adequada, que gere recursos; um setor público eficiente, competente responsável no uso dos recursos que recebe da sociedade; e políticas específicas na área da educação, da saúde, do trabalho, da proteção à infância, e do combate à discriminação social, e outras. Tudo isto é fácil de dizer, e dificílimo de fazer. A construção de uma sociedade competente, responsável, comprometida os valores de equidade de justiça social, e que não caia na tentação fácil do populismo e do messianismo político, é uma tarefa de longo prazo, e que pode não chegar a bom termo. Mas não há outro caminho a seguir, a não ser este.
Trecho extraído da obra As causas da pobreza (FGV, 2001), do sociólogo Simon Schwatzman. Veja mais aqui e aqui.

A PRIMEIRA PAIXÃO DE XIMÊNIA - Ximênia passou de menina à moça de quase ninguém notar a transformação. Oxe, ainda ontem era destamaínho, chamego de todo mundo. Tida sempre como a queridinha de todos dali, ela já debutava com uma formosura de encher todos os olhos. Estava moça feita aos quinze anos de idade. Os seios emergiram de fazer ponta no vestido de chita: dois faróis que boliam com o juízo de muitos marmanjos. As pernas e coxas torneadas e roliças mostravam-se salientes por seu infantil jeito de brincalhona, nem dando conta do vento que lhe levantava as saias, a ponto de ver-se o ventre estufado na calcinha apertada coladinha nas suas formas. Até o vento fazia festa, parece. Era um vexame pros que procuravam uma grota que fosse para saciar nas mãos aquela provocação. Aquilo era uma perdição, diziam. Um dia toda macharia entristeceu quando ela começou a suspirar por Marlúcio, o galante filho do coronel que passava vez em quando por ali, resolvendo providências de recrutar capatazes pra fazenda. Toda vez que ele apontava na entrada do arruado, ela se desmanchava com olhares apaixonados, jeito manso, derretida de paixão. Ele, nem nem. Ela não se continha e começava a correr pelo arruado na esperança de que ele lhe desse pelo menos um olhar. E recorria pra Santo Antonio com orações infindas, donativos e devoções. Cada aparição dele, ela se enchia de grandeza. Ele, nem aí. Se viu, fez que não viu, zarpava tão logo resolvesse suas pendências. Noites e dias ela apelava pra todos os santos e anjos, sonhando naquele tórax e envolvida por seus braços másculos, dando-lhe o prazer de ser dele. Anos passavam e ela alimentando aquela paixão desmedida por seu príncipe encantado. Teve um baque e nem se desiludiu quando soube que ele fora pra capital fazer faculdade, um dia ele reapareceria. Nunca mais. Quando reapareceu estava casado com granfina e filhos. E ela guardara aquela paixão escondida, guardada no mais profundo do seu coração e para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

UMA MÚSICA
Curtindo os álbuns Ernesto Nazareth & Ernesto Nazareth – Grandes Mestres, da pianista Maria Teresa Madeira, em homenagem ao pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934). Veja mais aqui.

PESQUISA: A CRISE DA EDUCAÇÃO - [...] O papel desempenhado pela educação em todas as utopias políticas, desde a Antiguidade até aos nossos dias, mostra bem como pode parecer natural querer começar um mundo novo com aqueles que são novos por nascimento e por natureza. No que diz respeito à política há aqui, obviamente, uma grave incompreensão: em vez de um indivíduo se juntar aos seus semelhantes assumindo o esforço de os persuadir e correndo o risco de falhar, opta por uma intervenção ditatorial,  baseada na superioridade do adulto, procurando produzir o novo como um fait accompli, quer dizer, como se o novo já existisse. [...] Ora, a educação não pode desempenhar nenhum papel na política porque na política se lida sempre com pessoas já educadas. Aqueles que se propõem educar adultos, o que realmente pretendem é agir como seus guardiões e afastá-los da atividade política. Como não é possível educar adultos, a palavra «educação» tem uma ressonância perversa em política — há uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem uso da força. Quem quiser seriamente criar uma nova ordem política através da educação, quer dizer, sem usar nem a força e o constrangimento nem a persuasão, tem que aderir à terrível conclusão platônica: banir todos os velhos do novo estado a fundar. Mesmo no caso em que se pretendem educar as crianças para virem a ser cidadãos de um amanhã utópico, o que efetivamente se passa é que se lhes está a negar o seu papel futuro no corpo político pois que, do ponto de vista dos novos, por mais novidades que o mundo adulto lhes possa propor, elas serão sempre mais velhas que eles próprios. Faz parte da natureza da condição humana que cada nova geração cresça no interior de um mundo velho, de tal forma que, preparar uma nova geração para um mundo novo, só pode significar que se deseja recusar àqueles que chegam de novo a sua própria possibilidade de inovar. [...] Ora, no que diz respeito à educação ela mesma, só no nosso século é que a ilusão emergente do pathos do novo produziu as suas mais sérias consequências. Em primeiro lugar, permitiu que essa mistura de modernas teorias educativas provenientes da Europa Central, e que consiste numa espantosa salganhada de coisas com sentido e sem sentido, revolucionasse todo o sistema de educação sob a bandeira do progresso. Aquilo que na Europa não passou de uma experiência, testada aqui e além, em algumas escolas e instituições educativas isoladas, estendendo depois, gradualmente, a sua influência a alguns setores, produziu na América, de há cerca de vinte e cinco anos a esta parte e, por assim dizer, de um dia para o outro, uma transformação completa no que diz respeito às tradições e aos métodos estabelecidos de ensino e de aprendizagem. [...]. Trecho do ensaio A crise da educação, extraído da obra Entre o passado e o futuro (Perspectiva, 2005), filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

UM LIVRO, UMA LEITURA:
[...] Ele recebe a criança com uma expressão luminosa, tanto que se pode presumir ter deixado para trás seus dias de insanidade e abandonado a teimosia de que o globo terrestre permanece estático no lugar, que cada hora encerra-se em si mesmo, e nada jamais se perde no universo. [...].
Trecho extraído da obra Shiva (Companhia das Letras, 2001), do escritor, ensaísta e dramaturgo israelense Abraham B. Yehoshua, contando a história de um jovem médico que sofre uma grande uma transformação na vida ao viajar para a Índia, dilacerado por um amor impossível e uma carreira oscilante, passando a percorrer caminhos que tornam sua vida com outros significados.


PENSAMENTO DO DIA: APRENDER E SUPORTAR O EQUÍVOCO – [...] O erro e sua correção são um dos temas em que o discurso pedagógico mostra maiores contradições. Esta questão surge fundamentalmente do conceito de quem “corrige” sobre aquilo que se corrige, por que e como sendo a primeira das questões: o que se corrige? [...]. Trecho extraído da obra Aprender: a aventura de suportar o equívoco (Vozes, 1994), da psicóloga, psicopedagoga e psicoanalista argentina, Clemencia Baraldi, observando que o mal denominando erro, evidencia a originalidade e a particularidade do pensamento infantil por estar muito além ou distante dos modelos de pensamento que o adulto oferece, uma vez que o pensamento de cada criança releva com a mesma quando está raciocinando, expondo as suas idéias através das escritas, por seu pensamento ser natural, próprio de cada uma. Para a autora, é delicado para o educador exterminar da sua prática pedagógica o erro no ato em que se corrige, tendo em vista para que o aluno exponha suas idéias ou como ele está se raciocinando naquele momento, não poderia ser considerado como tal.

A GAIA CIÊNCIA
[...] Não esqueçamos disto: basta criar novos nomes e estimativas e verossimilhanças para, a longo prazo, criar novas “coisas”. [...]  olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós, temos de descobrir o heroi, assim como o parvo, que reside em nossa paixão do conhecimento, temos de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria! [...] somos mais pesos do que homens [...].
Trechos extraídos do Livro II, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Female nude, do pintor galego pós-impressionista Arturo Souto (1902-1964).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra com a Sonata VI, do pintor e compositor lituano Mikalojus Konstantinas Ciurlionis (1875-1911).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


domingo, outubro 04, 2015

RAJNEESH, PESSOA, GRACILIANO, ARISTÓFANES, BUSTER, LIÇÃO PRA SER FELIZ & BRINCARTE DO NITOLINO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? LIÇÃO PRA SER FELIZ – Desde um tempo atrás que ouvi de Gonzaguinha que não dá pra ser feliz do jeito que a coisa vai, que minhas catracas do quengo anda questionando a respeito. Pudera, o que mais ouço hoje, é que todos querem a felicidade a qualquer preço e modo, simplesmente, porque todos nós merecemos, de uma forma ou de outra, sermos felizes. Vai e volta, esbarro em gente que quer achar essa tal felicidade. Onde ela está escondida? O que a gente faz pra tê-la pra gente? Eu mesmo digo pra elas: - Se acharem, me avisem; vamos socializar. Confesso que por mais de cinquenta anos, ou melhor, por toda minha vida, a minha busca era saber onde que droga se encontrava escondida essa felicidade que todo mundo fala e canta. Nas minhas investigações, ora, ouvi de tudo, desde conselhos e trilhas, até admoestações as mais severas. Teve quem dissesse que estava no Himalaia; outro com ar de autoridade e sabedor de tudo, disse que está no Kilimanjaro; um mais afoito não dispensou o seu que nada pra corrigir tudo e todos, afirmando categoricamente se encontrar no Fuji-Yama; e, no meio disso, não se esqueceram de mencionar que está no segredo guardado das múmias do Egito. E lá vai teitei. Não faltou quem apontasse pro colosso de Rodes, pras ruínas da acrópole de Partenon, pro pico do Aconcágua, até pros espelhos de Arquimedes. Alguns até ousaram recomendações de que para tal precisava saber alfa e ômega de tudo, ou dar um golpe do baú pra encontrar o Eldorado, ou achar o pote de ouro no fim do arco-íris, catar os líquens e musgos no vulcão de Erebus da Antártida, ou praticar autoflagelação num iglu dos esquimós, ou possuir um fragmento do bendengó ou a pedra Caaba de Meca ou mesmo o diamante de Cullinam ou uma grande pepita de ouro, pra ter toda divícia. Quer dizer, um bocado de gente sinalizava que só a riqueza traz felicidade. Outros, não descartando tudo isso, deram conta de que pra ter felicidade precisava ser benzido e curado pelo gênio Caruana do Amazonas, praticar a eugenia, ou livrar-se dos brasa-escondidas do mundo ababelado; afora isso, só lendo o Alcorão e os Vedas, com o Colliget de Averróis, as lições dos babalorixás, saber de cor a Bíblia, a Imitação de Cristo de Thomas de Kêmpis e os mandamentos de Alá, Javé, Buda ou Adonai; praticar necromancia, ler as mil e uma noites, desatar nó górdio, decifrar papiros e entender os oráculos. Outranos aumentavam a bula do sincretismo com afirmação de que só poderia encontrá-la quem tivesse coragem de correr todo arquipélago das Bermudas, ou ter a graça de ser abduzido por um Ovni e, quando voltar, conseguir entrar no Templo de Baal. Outrantos mais, além disso, direcionaram como fundamental uma vista pros templos de Calcutá, a determinada fuga de Abaçai, a cagada da posse de aerólitos, participar da água-de-oxalá, seguir os passos de Gandhi e desvendar os enigmas da Esfinge. Ah, não faltou quem ousasse a indicação da indispensável viagem pela Gulf-Stream lendo as profecias de Nostradamus até encontrar o perfume da beleza de Pentesileia, voltar para as bandas de Madagascar a dar sota e ás pra achar o elo perdido de Java. Não faltaram outrotantos pitacos pra dar em cima dos mistérios de Osíris visando descobrir a longevidade e dar um trato à bola pra saber o esconderijo das botijas de Montezuma e tralalá blablablá. E batiam pé e reafirmavam: só assim. Pelo jeito, tinha que dar uma volta ao mundo todo e, se fosse pouco, não seria nada demais dar um pulinho em Marte ou sair pinotando pros outros planetas da nossa galáxia, a fim de localizar o real paradeiro da felicidade. Isso me levaria a correr todas as altitudes e latitudes, até encontrar o armistício humano. Andejo como sou, seria uma andada que findaria acometido por abasia, acho. Preferi fazer ginástica nos neurônios e cutucar todo tipo de ideia possível e inimaginável. Pra meu desapontamento, só dei água em barrela e com os burros n’água. Resolvi descartar qualquer menção de posse, desejo ou obstinação. Foi aí que me ocorreu uma generosa intuição que me saltou de repente e do nada pra compreensão. Seguinte, por mais que se pense que a felicidade está em algum lugar do universo, só há um local onde ela pode ser encontrada de verdade: é dentro de mim mesmo. Esta foi a lição que aprendi: ela não está em nenhum lugar do mundo ou do universo, a felicidade está dentro de cada um. É só descobri-la e seja feliz. Sorria – e que o sorriso seja sua prática todo dia e o dia todo -, faça o teste e constate. Faça as pazes consigo. Aproveite, faça uma faxina e saiba que você é uma pessoa sortuda, pois foi escolhida entre os milhões de espermatozoides. Sofrimento? Encare as dívidas e os problemas como brincar de lição de casa. Não se leve tão a sério, faça como Rita Lee: brinque de ser sério e leve a sério a brincadeira. É difícil? Só depende de você. Invente, faça de você uma pessoa diferente e descubra que a felicidade verdadeira está dentro você. Sorria e vamos aprumar a conversa aqui. 

Imagem Allegro (1909), do pintor e compositor lituano Mikalojus Konstantinas Ciurlionis (1875-1911).


Curtindo o álbum Senhas (CBS/Columbia Records, 1992), da cantora e compositora Adriana Calcanhoto. Veja mais aqui.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino Especial do Dia Mundial da Natureza e dos Animais. Será a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação luxuosa da simpaticíssima Isis Corrêa Naves. Na programação para as crianças de todas as idades: Fagner, Robertinho do Recife, Vida Verde Viva, Leo & Gandhi, O leão cordeirinho, Anderson Freire, As Esquiletes, Manuel Sampaio, O lobo e os sete cabritinhos, Nita & o jacaré e a princesa, O lobisomem zonzo, Meimei Corrêa, Eliana, Patati & Patatá & muito mais brincadeiras, poesias, histórias e entretenimento. No blog dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e Adolescentes, Teatro, Literatura e Música Infantis. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

A SEMENTE DA MOSTARDA – No livro A semente da mostarda: discursos sobre as palavras de Jesus segundo o Evangelho de Tomé (Tao, 1979), do filósofo e místico, líder religioso hindu das tradições dármicas, mestre da arte da meditação e do despertar da consciência Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990), encontro o Décimo primeiro discurso, proferido em 31 de agosto de 1974, no qual destaco os trechos a seguir: Todo o problema humano consiste em escolher entre o momentâneo e o eterno. Quando você escolhe o momentâneo, está construindo sua casa na área – ela cairá. Quando escolher o eterno, então algo que dura para todo o sempre é alcançado. [...] A avestruz esconde a cabeça, fecha os olhos e imediatamente não tem mais medo porque o inimigo não pode ser visto. Mas o inimigo não acredita nessa lógica. Pelo contrário, você é um brinquedo em suas mãos quando fecha os olhos; está pedindo para ser a vítima. Você poderia fugir mas não o fez porque pensou que o inimigo não estivesse lá – não que ele não estivesse, você é que sentiu que ele não estava. É assim que você sente uma felicidade momentânea quando se torna inconsciente através de drogas - os problemas não existem, todos os inimigos desaparecem, não há ansiedade – porque para haver ansiedade, você tem de estar alerta, desperto. [...] Aconteceu certa vez que Thomas Edison foi convidado para um jantar onde se reuniam alguns amigos. Ele era um homem de poucas palavras e ficava sempre perturbado quando havia muita gente por perto. Ele era um trabalhador solitário em seu laboratório, era um pesquisador, um homem contemplativo; a presença dos outros era sempre uma perturbação para ele. E no jantar havia muitas pessoas, todas ocupadas em comer, tagarelar que Edison pensou: “Esse é o mento de escapar!” Então ele começou a procurar uma porta pela qual pudesse escapar – nesse momento foi apanhado. O anfitrião agarrou-o e perguntou: “Sr. Edison, no que o senhor está trabalhando atualmente?” Ele respondeu: “Na fuga!”. Mas todos estão trabalhando na fuga. Esteja alerta para isso! Por que você não consegue desfrutar da vida – que é um presente? Você não teve de ganha-la; é por isso que eu digo que é uma graça. Ela lhe foi dada pela existência – você pode chama-la de Deus – ela é simplesmente um presente, um puro presente. Você não fez nada para consegui-la, para ganha-la. Por que não consegue ser grato e desfrutá-la? Você deveria estar dançando de alegria, mas qual é o problema: porque para desfrutar da felicidade, é necessária uma consciência maior. Para sofrer uma angustia não há necessidade de estar alerta. Para sofrer uma angustia é necessário maior escuridão, menos consciência – é necessário a noite, não o dia. Mas para desfrutar a felicidade, é necessário mais consciência. Assim, se você encontrar um santo triste, saiba que ele não é santo. Porque a consciência dá felicidade plena, dá um profundo sorriso a todo o seu ser. A consciência lhe dá algo que o transforma em criança|: você pode correr atrás de uma borboleta, pode saborear uma comida simples, pode desfrutar das coisas simples da vida, a ponto de tudo se tornar um presente. Tudo se torna uma graça de Deus e você pode ser grato a cada momento – mesmo pelo ar que respira. Pode desfrutar até da sua própria respiração. Uma simples respiração! E o prazer é tão grande! Se encontrar um santo triste, saiba que algo está errado; ele ainda vive no vale, ainda não se moveu para o pico. Caso contrário ele estaria radiante, teria beleza, teria o prazer de uma criança: despreocupado, sem medo – estaria fortificado na sua consciência. Veja mais aqui e aqui.

A CACHORRA BALEIA – No livro Vidas secas (Martins, 1938), do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953), encontro o trecho de Baleia o qual destaco: [...] A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caira-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhantes a uma cauda de cascavel. Então Fabiano resolveu mata-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carrega-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: - Vão bulir com a Baleia? [...] Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis. – Ecô! Ecô! Em seguida entrou na sala, atravessou o corregor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé-de-turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, detevbe-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rost. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia que se pôs a latir desesperadamente. Ouvindo o tiro e os latidos, sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se. E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino aos pulos. Defronte do carro de bois faltou-se a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda. Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto ás pedras onde os meninos jogavam coisas mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pos-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornam-se quase imperceptíveis. Como o sol a encadeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra. Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se. Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás que pulavam e corriam em liberdade. [...] Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitoria tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes. [...] Veja mais aqui.

O PASTOR AMOROSO – No livro O eu profundos e os outros eus (Nova Fronteira, 1980), do poeta e filósofo português Fernando Pessoa (1888-1935), encontro a seção Fernando Pessoa, o outro – Ficções do interlúdio -, em que destaco o poema O Pastor Amoroso: Quando eu não te tinha / Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo... / Agora amo a Natureza / Como um monge calmo à Virgem Maria, / Religiosamente, a meu modo, como dantes, / Mas de outra maneira mais comovida e próxima... / Vejo melhor os rios quando vou contigo / Pelos campos até à beira dos rios; / Sentado a teu lado reparando nas nuvens / Reparo nelas melhor - / Tu não me tiraste a Natureza... / Tu mudaste a Natureza... / Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, / Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, / Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, / Por tu me escolheres para te ter e te amar, / Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente / Sobre todas as cousas. / Não me arrependo do que fui outrora / Porque ainda o sou. / Vai alta no céu a lua da Primavera. / Penso em ti e dentro de mim estou completo. / Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira. / Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz. / Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo, / E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores. / Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos, / Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores, / Isso será uma alegria e uma verdade para mim. / O amor é uma companhia. / Já não sei andar só pelos caminhos, / Porque já não posso andar só. / Um pensamento visível faz-me andar mais depressa / E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. / Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo. / E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. / Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. / Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. / Todo eu sou qualquer força que me abandona. / Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. / O pastor amoroso perdeu o cajado, / E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta, / E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar. / Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado. / Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas. / Ninguém o tinha amado, afinal. / Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo: / Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre, / As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento, / A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes. / (E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões) / E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito. / Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela, / E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela. / Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, / E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança. / Amar é pensar. / E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. / Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. / Tenho uma grande distração animada. / Quando desejo encontrá-la / Quase que prefiro não a encontrar, / Para não ter que a deixar depois. / Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só / Pensar nela. / Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar. / Todos os dias acordo com alegria e pena. / Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava. / Tenho alegria e pena porque perco o que sonho / E posso estar na realidade onde está o que sonho. / Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações. / Não sei o que hei-de ser comigo sozinho. / Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A PAZ – A comédia A paz (421aC), do dramaturgo e representante da comédia grega Aristófanes (447-385aC), conta a história de Trigeum, um lavrador ateniense que vivia em um lugarejo da Ática do cultivo de suas vinhas, resolve subir ao céu, montado num escaravelho, para perguntar aos deuses a causa dos males que afligiam a Grécia, às voltas com interminável guerra fratricida entre os helenos. No Olimpo ele encontra apenas Hermes; os demais deuses haviam-se retirado para regiões ainda mais altas do firmamento, resolvidos a não mais presenciar a discórdia que levava os gregos ao extermínio. Hermes, a princípio relutante, resolve responder às perguntas de Trigeu, que explora a gula do deus remanescente; mostra-lhe a Guerra personificada, disposta a pulverizar as cidades gregas em um imenso pilão, enquanto a Paz permanece prisioneira no fundo de uma caverna, cuja entrada está obstruída por grandes pedras. Trigeu quer libertar a prisioneira a todo custo. Por isso convoca os trabalhadores de todas as regiões da Grécia, gente do campo, os mais sacrificados com a guerra. Depois de muitos esforços conseguem libertar a prisioneira e com ela voltam aos gregos a abundância e a alegria. Somente os fabricantes de armamentos não compartilham do contentamento geral, pois o fim da guerra os arruina. A peça termina com o casamento de Trigeu e da Abundância, companheira da Paz. Da obra destaco o trecho inicial: (Aristófanes) (À direita, a casa de Trigeu; no centro, a entrada de uma caverna fechada por grandes pedras; à esquerda, a morada de Zeus) PRIMEIRO ESCRAVO - Depressa! Depressa! Traga o bolo para o escaravelho! SEGUNDO ESCRAVO - Pronto. PRIMEIRO ESCRAVO - Dê o bolo a este inseto maldito! SEGUNDO ESCRAVO - Nunca mais vai ele vai comer outro bolo melhor. PRIMEIRO ESCRAVO - Dê mais um, feito de estrume de burro. SEGUNDO ESCRAVO - Está aqui outro. PRIMEIRO ESCRAVO - E onde está o que você tinha trazido agora mesmo? Será que ele já devorou? SEGUNDO ESCRAVO - Claro! Ele revirou o bolo com as patas e engoliu de uma vez. PRIMEIRO ESCRAVO - Então faça outros depressa, e bem amassados. SEGUNDO ESCRAVO - Pelo amor dos deuses, limpadores de latrinas! Me socorram se não quiserem que eu morra sufocado! PRIMEIRO ESCRAVO - Mais! Mais! Peça a um pederasta! O escaravelho disse que gosta bem espremido. SEGUNDO ESCRAVO - Pronto. Ao menos fico livre de suspeita de comer a massa do bolo enquanto preparo ele. PRIMEIRO ESCRAVO - Que fedor! Mais! Mais! Não pare de espremer! SEGUNDO ESCRAVO - Não posso mais! Já não consigo suportar esse fedor de latrina. PRIMEIRO ESCRAVO - Vou entrar e levo a latrina comigo. (O Primeiro Escravo entra com o escaravelho) SEGUNDO ESCRAVO - Leve ela para o inferno e vá com ela! (Dirigindo-se aos espectadores) Me diga, quem souber, onde eu posso comprar um nariz sem buracos. Não conheço trabalho mais horroroso que esse de espremer comida para um escaravelho. Um porco ou um cachorro engolem sem luxinhos os nossos excrementos, mas esse bicho aí se faz de dengoso e não quer comer a não ser que eu tenha passado o dia todo amassando os bocados, como se fosse uma mulherzinha muito delicada! Mas vamos ver se ele já parou de comer; vamos abrir a porta só um pouquinho para ele não notar a minha presença. (O Segundo Escravo entreabre a porta) Coma! Empanturre-se de comida até estourar! Com que gana esse bicho maldito devora a comida! Ele mexe o queixo sem parar, como um lutador mexe com os braços. Mexe as cabeças e as patas como um fabricante de cordas para barcos. Bicho feio, fedorento e guloso! A que deus ele é consagrado? Não tenho certeza, mas penso que não há de ser a Afrodite nem às Graças. PRIMEIRO ESCRAVO - A que deus, então? SEGUNDO ESCRAVO - Só se for a Zeus merdejante. PRIMEIRO ESCRAVO - Você ainda não ouviu algum espectador, algum rapazola convencido, perguntar: “Que negócio é esse? Para que esse escaravelho?” E um vizinho dele responde: “Se não me engano, aquele político sujo anda metido nisso; dizem que ele comia imundície”. Mas eu vou entrar para dar de beber ao escaravelho. SEGUNDO ESCRAVO - E eu vou explicar o caso às crianças, aos homenzinhos, aos homens feitos, aos homens desfeitos, aos que já viveram demais. Meu patrão está com uma mania esquisita. (Não é essa de vocês, não!) É outra mania, completamente nova. O dia todo, com os olhos erguidos para o céu, ele se queixa a Zeus e diz: “Ah! Zeus! Que é que você pretende fazer? Pare com essa vassoura! Não varra a Grécia da face da terra!” Atenção! Silêncio! Parece que estou ouvindo a voz dele! TRIGEU - (sem ser visto) Ah! Zeus! Que é que você pretende fazer com os atenienses? Você não se incomoda de estar despovoando nossas cidades? SEGUNDO ESCRAVO - É essa mania de que eu estava falando. Agora vocês tiveram uma amostra da loucura dele. Mas eu quero contar a vocês as coisas que ele disse no primeiro acesso da doença: “Por que é que eu não posso ir direto a Zeus?” Depois, fazendo pequenos degraus, subia por eles com os pés e as mãos, “para escalar os céus”; até que ele caiu no chão e quebrou a cabeça. Mas ontem ele foi não onde e voltou para casa com um escaravelho enorme, indócil como um cavalo da Sicília, e fez de mim o tratador de tal bicho. Ele acaricia o escaravelho com a mão, como se fosse um potro: “Meu Pegasozinho!” diz ele. “Generoso voador, me leva direto a Zeus de um arranco só!” Mas vamos olhar por esta fresta para ver o que ele está fazendo. (Olha) Ah! Infeliz! Socorro, vizinhos! Socorro! Meu patrão está subindo desabaladamente pelos ares, cavalgando um escaravelho! TRIGEU - (montado no escaravelho) Vamos devagar, não precisa exagerar no entusiasmo! Não comece voando tão depressa assim; espere esquentar e desembaraçar as juntas com o bater das asas. E faça o favor de não largar mau cheiro em mim; se for para isso é melhor você ficar em casa. SEGUNDO ESCRAVO - O senhor está delirando, patrão! TRIGEU - Silêncio!... Silêncio!... SEGUNDO ESCRAVO - Aonde o senhor vai? O senhor vai-se perder aí pelo céu. TRIGEU - (em tom solene) O interesse dos gregos orienta meu vôo e preside meus ousados planos! SEGUNDO ESCRAVO - Por que o senhor está voando? Que maluquice é essa? TRIGEU - Não diga palavras de mau agouro! Fale coisas otimistas e dê berros de alegria! Mande todo mundo se calar, cobrir as latrinas com telhas novas e arrolhar os intestinos. SEGUNDO ESCRAVO - Eu não me calo antes de o senhor dizer para onde está voando. TRIGEU - Para onde havia de ser? Para o céu, lá para onde está Zeus. SEGUNDO ESCRAVO - E para quê? TRIGEU - Para saber o que ele pretende fazer dos gregos todos. SEGUNDO ESCRAVO - E se ele não disser? TRIGEU - Eu vou mover uma ação contra ele por trair os gregos em benefício dos persas. SEGUNDO ESCRAVO - Essa não! O senhor não vai fazer isso enquanto eu estiver vivo! TRIGEU - Não pode ser de outra maneira. SEGUNDO ESCRAVO - (Dirigindo-se às filhas de Trigeu) Meninas! O pai de vocês está indo embora! Ele vai sozinho para o céu, de fininho! Tentem dar um jeito nele, coitadinhas! (Aparecem as filhas de Trigeu) [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

SETE OPORTUNIDADES – A comédia/romance Sete Oportunidades (Seven Chances, 1925), é um filme de David Belasco e dirigido pelo ator, realizador, roteirista e produtor de cinema estadunidense Buster Keaton (1895-1966), conta a história de sujeito que passando por muitas dificuldades financeiras, fica sabendo que seu avô lhe deixou uma herança de sete milhões de dólares. Mas, para receber o dinheiro, ele terá que se casar até as 19h do dia do seu 27º aniversário. Merece registro o fato de que a cena mais famosa desse filme aconteceu por acaso. Nas filmagens de uma cena de perseguição em uma ladeira íngreme, Buster Keaton sem querer desalojou algumas pedras que caíram e desceram a ladeira atrás dele como se o tivessem perseguindo. Para se esquivar, ele precisou correr das pedras e depois se esconder atrás delas. No pré-lançamento, ele viu que esse acidente arrancou as maiores gargalhadas da plateia. Aí ele decidiu regravar a cena com uma centena de "pedras" de papel machê em diversos tamanhos. A cena final é ele tendo que correr de uma avalanche de pedras. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Children's portrait in art and painting, do pintor francês Victor Gabriel Gilbert (1847-1933)

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico, a partir do meio dia, no blog do Projeto MCLAM, com a reprise de toda programação da semana e a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
 Dê livros de presente para as crianças.
Aprume aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...