domingo, fevereiro 01, 2026

NOEMI JAFFE, MALORIE BLACKMAN, AURITHA TABAJARA, DELANO & RUBENS MATTOS CUNHA LIMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de As emboladas do norte (1929) e Graúna (1923), do compositor, violonista e violeiro João Pernambuco (João Teixeira Guimarães – 1883-1947), na performance da premiada violonista clássica australiana Stephanie Jones. Veja mais aqui.

 


A cizânia amolestada de Siberiano & Afesireia... - O destemido conquistador Siberiano seguia majestoso pelas tundras e densas florestas: era solstício de inverno e as suas pisadas cruéis e céleres firmavam a demolição de quaisquer obstáculos que se impusessem ou impedissem a direção das ventas. Nascido dos olhos abissais de Marduk, jamais conhecera o gosto do malogro. Invicto, de casta guerreira e longevidade, se alimentava da escuridão e, sobretudo, da Lua Nova. Mais que astuto despedaçava suas vítimas como um Smilodon, mantendo o mesmo ar do seu primo de Bengala. Agressivo shijin Byakko, impôs sua força bruta de Mohan diante do invencível dragão, aniquilando-o por nocaute. Por conta disso foi condecorado pelo espírito dos 5 Tigres do Oráculo da Terra, tornando-se Baihu, o principal guardião dos pontos cardeais e do centro, um geomante no uso das 16 figuras simbólicas para obter respostas a todas as perguntas que o inquietasse, soberano por vencer todas as batalhas. Assim encorajou-se à empreitada de enfrentar a tigresa de Champawat, depois dela ter causado terror na região de Kumaon e na fronteira do Nepal. Vitorioso conduziu a neófita pelos bambus da selva dos pecados, para matá-la e ressuscitá-la numa noite sem Lua. Ao vencê-la desdenhou e seguiu por fechadas brenhas, árvores entre outras, céu de brigadeiro da Lapônia, a ponto de se deparar na sua caminhada com um vulto insolente que batia a cauda na água para fisgar os peixes com suas afiadas garras. Quem era? Ora, triunfante ele olvidou do ditado: quem com ela se depara não corre, nem dá as costas, nenhum movimento brusco: usa da espingarda; se o tiro falhar, recorra ao revólver; escapuliu da mão, ataque de faca; se quebrar, aí fuja; se for perseguido, se atrepe numa árvore; se ela subir, reze: todo mundo é amigo-da-onça. Num átimo ela virou-se e fitou firme, quieta, soberana. Seus olhos revelaram: era a crepuscular caguaçuarana, a solitária Afesireia, filha da Borges, sobrinha da Cabocla, neta da Mão-Torta e prima da Maneta e da Pé de Boi. Era afilhada da Iaiá Cabocla de Xakriabá – investida deusa Kianumaka Manã, quem concedeu pra ela a dádiva do poder ressurreto de Arakuni: a mutação. Ela nadava, rastejava e escalava alturas, transformava-se agigantada e devorando um jacaré inteiro, hirto, hipnotizado; e diante do eclipse, estraçalhava a Jaci e Guaraci ao mesmo tempo, festejando com seus parentes jaguar, pantera, puma, acanguçu, jaguaripina, leopardo, yguaretê, suçuarana, jaguará e jaguaretê. Num relance ela fixou o olhar nele e ele o evitou ciente do sortilégio. Um raio rasgou o céu ameaçador: hora de vida ou morte, sabiam: um deles não sairia vivo do confronto. Não havia como desertar, nem espaço para sedição. Seus olhos faiscaram mútuos relâmpagos letais, outros estrondos açoitavam. Ele trovejou astucioso com estridente assombro, seus sinistros rugidos e o bafejo dava prazo sem aviso. Ambidestro se insinuava, cada movimento milimetricamente calculado, um passo em frente e recuava estratégico, o ronco praguejava, o bafo às ventas dela. Moviam-se táticos, encaravam-se e circulavam, ameaçavam insinuantes, blefavam, cada qual expunha o arsenal de truques em cada jogada. Ele flanqueava, apertava o cerco com todos os recursos disponíveis, a finta dela, bastava ali um salto e pronto, a urgência da hora e qualquer vacilo, o golpe fatal da maldição furiosa, o bote teria de ser certeiro. A vigilância de ambos e a sorte estava lançada. O ousado dissimulava e tanto fascinava pavoroso, o inevitável perigo não a intimidara. Ele evitava cada vez mais os olhos dela, de esguelha, sabia da armadilha e acuava diante do sedento ataque dela. Preparava as emboscadas escondendo sua pelagem de manchas e rosetas pela boca do matagal espesso. Tentou acossá-la e, ao desaforo dele, ela respondeu invocando Charría e um olho dela estrelou vermelha de Antares; o outro refulgiu de Aldebaran, transformou-se na eclipsada Caetana e partiu pro confronto direto. Cravou o olhar e ele foi surpreendido com o avanço decisivo dela, a ofensiva indefensável e travaram luta. Uma revoada de pássaros, a poeira subiu, o chão revolvido pelo botes aos nhaques, as patadas revirando o atrito estremecedor no ambiente e se prepararam para as investidas abrindo as portas dos 9 círculos do inferno dantesco, atravessando o limbo, percorrendo a luxúria, cortando a gula, correndo a ganância, cruzando a ira, rasgando a heresia, singrando a violência, perpassando a fraude e passando a traição no gelo do lago Cócito, para sobrepujarem Aqueronte, Eridano, Flegetonte e o Lete. Venciam Naraka e ela então cravou suas garras e o levou malbaratado pelas trevas de Vilon, percorrendo o abismo de Raki’a, ascendendo às altas nuvens de Shehagim e o fogo do éter empíreo, romperam o umbral de Zebul, a transição de Ma’on, as esferas de Machon e foram celebrados por ofanins e serafins no penhasco da cachoeira do Sertão Zen, no Alto Paraíso da Chapada dos Veadeiros. Depois desse momento episódico se defrontaram diante do Mirante da Janela. O déspota pérfido ousou rondar obliquamente matreiro: era ele Dioniso quase vencido e apaixonado pela ninfa asiática. Ela fascinante o hipnotizou, arrebatada o encurralou numa furna, ele cautelosamente escondeu-se esfregando seu dorso num tronco robusto, rolou no chão e pronto para mordê-la, ali hesitou e foi tomado pela fúria amorosa dela. Ela era agora Nice, o epônimo da vitória e logo fez-se manhã vistosa nos saltos do Rio Preto: a Lua renasceu e a luz retornou. O Sol aqueceu a toada na dança às margens do Opará, ao som duma moda de viola. Ali, naquele ato, não só havia um tigre, nem apenas uma onça, mas muitos deles que se encontravam intermitentemente por milênios sucessivos na eternidade. Até mais ver.

 

Alice Walker: Observe atentamente o presente que você está construindo: ele deve se parecer com o futuro que você está sonhando... Sempre que você cria beleza ao seu redor, você está restaurando a sua própria alma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Naomi Grossman: Eu estou constantemente destaco os benefícios da yoga (obrigado por me entregar a isso mais cedo) – que se eu pudesse começar um movimento apresentando as pessoas a isso, acho que eliminaríamos a maior parte do conflito do mundo! Se apenas as pessoas passassem mais tempo desafiando seu equilíbrio, força e flexibilidade, e menos tempo desafiando umas às outras, que mundo melhor seria!... Veja mais aqui.

Tawakel Karman: Você precisa ser forte; precisa confiar em si mesmo para derrubar o regime ditatorial que houver e construir um novo país. Você precisa participar da construção do seu país. Sabemos que tudo o que você sonha pode se tornar realidade. Você precisa saber que tem a capacidade de realizar seu sonho. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

POR AMOR À VIDA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sei que muita gente sofre \ És uma realidade \ Um sintoma perigoso \ Desde a tal ansiedade \ Causando em si uma dor \ A vida perde o valor \ Dentro da sociedade \ Vivemos tempos difíceis \ Mas não podemos falhar \ Quem é mãe de adolescente \ Sabe o que eu quero falar \ Pois o nosso coração \ Se desdobra em aflição \ Ao no seu filho pensar \ Nós que somos mães e pais \ E também sociedade \ Vamos dar mais atenção \ Nossos filhos prioridade \ Sofrer sem deixar de amar \ Só o amor pode evitar \ O fim da humanidade \ Dialogar com paciência \ Humildade, admiração \ Estimula e valoriza \ Exercício de inspiração \ Por favor abra seu olho \ Seu filho és um tesouro \ Não deixe em outras mãos.

Poema da escritora e contadora de histórias Auritha Tabajara, autora da obra Magistério Indígena em Verso e Poesia (2004), cantando seus versos: Sou mulher que ainda chora \ Por tão grande escuridão \ Minha essência está aqui \ Dentro do meu coração \ De um Brasil ensanguentado \ Onde ninguém é culpado \ Mulher da mesma nação! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

JOGO DA VELHA - [...] Só lembre-se, Callum, quando estiver flutuando cada vez mais alto na sua bolha, que bolhas têm o hábito de estourar. Quanto mais alto você sobe, maior é a queda. [...] É assim mesmo. Algumas coisas nunca mudam. Simplesmente é assim. Mas não acredite neles. [...] Eu costumava me consolar com a crença de que eram apenas certos indivíduos e suas ideias peculiares que estragavam as coisas para o resto de nós. Mas quantos indivíduos são necessários para que não sejam os indivíduos que sejam preconceituosos, mas a sociedade inteira? [...] As notícias mentem o tempo todo. Elas nos dizem o que acham que queremos ouvir. [...]. Trechos extraídos da obra Noughts & Crosses (Minotauro, 2020), da escritora britânica Malorie Blackman, autora de obras como Boys Don't Cry (2010), Checkmate (2005) e Knife Edge (2003). Para ela: Ler é um exercício de empatia, um exercício de se colocar no lugar do outro por um tempo...

 

DOU MINHA PALAVRA - [...] Vida é gasto e estou gasta, o espelho que magnifica mostra a verdade e a verdade é a velhice. [...] O corpo vai pendendo para baixo, e lá embaixo encontro uma menina. Desde que ela descobriu, com quatro ou cinco anos, que seus pais eram sobreviventes de uma guerra contra os judeus e que sua mãe guardava numa caixa dentro do armário um diário escrito na Suécia — um diário que ela só podia olhar mas não ler, já que nem ler ela sabia, e o diário estava escrito em i-u-g-o-s-l-a-v-o —, essas vidas viraram histórias e as pessoas, personagens. A menina vivia nessas histórias e não prestava para a realidade. Sem amigos, perseguida, invejava a prima magra e boa aluna, tinha os pés chatos e se desequilibrava (as irmãs mais velhas não deixaram a mãe colocar botas ortopédicas nela; hoje as irmãs têm pés altos e finos e ela, pés largos e chatos), se isolava nas festas e prometia se suicidar. Assim que aprendeu a ler, seu tio Arthur a presenteava com livros estrangeiros e seu pai lhe deu a Barsa de aniversário e comprava enciclopédias de um vendedor ambulante. A coleção do Monteiro Lobato, Meu pé de laranja lima, Poesia brasileira para a infância, Demian, a Torá (todos os dias, no Renascença), letras do Chico Buarque, O Pequeno Príncipe, gibis da Mônica e os livros de adultos das irmãs dela. Na casa de sobreviventes de guerra, frequentada por refugiados da Rússia, da Polônia, da Romênia, da Iugoslávia e de outros países de nomes estranhos, ela escutava muitas línguas: português, ídiche, alemão, hebraico, húngaro e iugoslavo. A menina não entendia as línguas, mas escutava as palavras [...]. Trechos extraídos da obra Te dou minha palavra (Companhia das Letras, 2025), da escritora, professora e crítica literária, Noemi Jaffe, que noutra de sua obra, Lili- Novela de um luto (Companhia das Letras, 2021), ela traz o seguinte trecho: [...] Quando ela estava morta, eu beijei seu rosto, suas mãos, seu colo. Apertava o pulso, abraçava o corpo, chamava: mãe, mãe. Levantava a mão e a deixava cair. No dia anterior, quando ela ainda não estava morta, mas quase, eu aproximava meu ouvido do seu peito e ouvia a respiração. Era diferente. É diferente estar quase morta de estar morta mesmo. É diferente e só sei disso agora que ela morreu. Se quando ela estava quase morta eu esperava que ela morresse, agora é como se eu a quisesse, se pudesse, quase morta para sempre, só para ouvir sua respiração, a bochecha quente, os dedos da mão se mexendo mesmo que por reflexo, um ronco baixo no peito, o tremor nas pálpebras. Nunca tinha ficado perto de uma pessoa morta e descoberta. Fiquei perto do meu pai, mas ele estava coberto por um lençol e eu tracei com o dedo o contorno do seu nariz, o que repeti com a minha mãe depois que a cobriram. [...]. Já na sua obra O que ela sussurra (Companhia das Letras, 2020), ela expressa: [...] Gosto do som das conversas e gosto de música, mas prefiro sempre o silêncio, agora ainda mais que antes: esse som suro e verdadeiro em toda a sua extensão, mais geográfica do que temporal e que ocupa a paisagem que vejo pela janela e a alma que não vejo mas que fica inteiramente ocupada por ele. [...].

 

A ARTE DE DELANO

Eu sou um observador das pessoas, sempre as observo quando saio... Eu não trabalho pensando em exposição. Não gosto de me expor, mal saio de casa. Às vezes, passo meses sem descer do meu ateliê, botar o pé na calçada. Preciso até que as pessoas levem comida para mim...

Pensamento e arte do pintor, desenhista e gravador, Delano – (Flanklin Delano de França e Silva - 1945-2010), foi ilustrador do Jornal da Tarde, participou de diversas mostras coletivas pelo Brasil afora, integrou o Ateliê + 10, em Olinda, e participou da criação da Oficina Guaianases de Gravura. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

A ARTE DE RUBENS MATTOS CUNHA LIMA, 60 ANOS DE TRAJETÓRIA

Desenvolvi projetos de residências e obras. Em 60 anos de carreira fiz mais obras que projetos... Gosto muito da arquitetura... Conheci o Darel. Era uma pessoa muito intensa. Fiz várias gravuras dele...

A arte de arquiteto e artista plástico de São Paulo, Rubens José Mattos Cunha Lima, que fundou a Editora Clube da Gravura, editou a revista Gravura & Gravadores (1980), participou com suas obras da publicação Dareladas (CriaArt, 2024), integra o Gentamiga Atelier e participa da plataforma Ubqub (SP). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

João Cabral de Mélo Neto aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Déa Ferraz aqui & aqui.

Antônio Meneses aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Thina Cunha aqui & aqui.

Barbosa Lima Sobrinho aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Martha Batalha aqui & aqui.

Wellington Virgulino aqui & aqui.

Lucinha Guerra aqui, aqui & aqui.

Mário Souto Maior aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Roberta Cirne aqui.



domingo, janeiro 25, 2026

GERMAINE GREER, SUHEIR HAMMAD, AHED TAMIMI & PALLY SIQUEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Palavra e Som (2017), Fiz uma Viagem – Songs of Dorival Caymmi (2017),  50 (2018), Brasileiras Canções (2022) e o Mar É Mulher (2025), da cantora, compositora e instrumentista Joyce (Joyce Silveira Moreno), autora dos livros Fotografei Você na Minha Rolleiflex (1997) e Aquelas Coisas Todas (2020), das séries Cantos do Rio (1999) e No Compasso da História (2010) e do projeto Pequenos Notáveis (2012). Veja mais aqui & aqui.


 

Parlenda de Truvunca & Quelônia, Acta est fabula... – Virado da breca esse Truvunca, pense numa criatura fuçadora: apronta as suas semostradoras presepadas e, eximindo-se do revide das lapadas, abre um buraco no chão e se entoca de ninguém mais vê-lo. De tanto cavar túneis disparatados, logo viu-se enamorado pela Maria Fumaça, o que parecia ser um bom negócio pra ele, claro. Mas, não. Ela nem nem: só andava na linha e, pra encará-la, só de papel passado. Vixe! Perdeu a viagem e pinotou fora. O melhor era mesmo da loca explorando forames, caboucos, antros, covas, grotas, cavernas e grutas. E de tanto desbravar bateu no domicílio duma Branquiura, eita, saia-justa: caxangá, siri siripuã! Ela: Qual é a tua, dasipodídeo? Tava passando por perto... Tais pensando que o céu é perto? Não... Segura a carapaça senão finda leproso, visse! Vim só dá boa tarde! Ela então abriu a porta e mostrou uma tuia de aratu, caranguejo-uçá e azul, guaiamu, boca-cava-terra, grauçá, chama-maré, Maria-farinha e santola, tudo de boca aberta para tirar proveito: Vem cá, tatu, que eu quero fazer charango! Quirquincho, venha dançar fandango! Quero fazer cesto e do rabo a flauta! Quero comer aaru, meu beiju, peralta! S’esconda não, bota fumaça na toca que eu quero pegá-lo! Oba, banquete com a carne de todos os outros animais! Pulou fora, evadiu-se. Depois dessas tentativas malogradas, jurou nunca se apaixonar. E como cuspiu pra cima e debaixo não saiu, nem deu tempo de sustentar a promessa: viu-se enredado num grande amor com Araminta de Goldoni, uma beldade tracajá. Foi de peito aberto, a plenos pulmões: esmerou-se no vinco, alinhou-se no ajeitado, dançou e melou; ao resolver os documentos do casório, ela se enjicou com ele, arriando o rosário, cabum! Debulhando o miúdo da surpresa: era uma Arsínoe de Molière, uma cágada desaforada: Já enganei onça e só gosto de carniça e rabo de lagarto! Ih! Tem coragem ou vai abrir da vela? Mas, mas... Sai pra lá, banguela! E sacudiu-se toda pras bandas dum Zé-prego que apareceu vistoso, dele ficar só com as mãos balando e a ver navios. Essa doeu dele despencar de vertigens, falta de ar, perdeu a noção das coisas, claudicante, arrastou-se pela lama, findou sofrente na sarjeta: as grandes dores deixam marcas indeléveis, dele cambalear por muito tempo, até levar uma topada e pegar no tranco. Ufa! Nem se resguardara direito, lá estava ele se enrolando com Ródope de Hebbel – uma jabota sonhando Gyges und Sein Ring. Diante de tanta formosura, ele mergulhou de cabeça e caiu com toda boca na botija, chega lambuzar-se todo. Calma, meu nego, que vexame é esse, tatu eté? Vem cá, frochosa! Tatu peba de capote, com seu chapéu voador, parece mais um caçote que perdeu o seu andor! Dou-lhe tudo de meu! E foi de topete desembestado. Alto lá! Pra quê retranca? Enrole, não! Tô gamado! Então, procure outra, papa defunto! Danou-se! E quando viu: estava ela enganchada no pescoço dum carumbe. Ele deu a porra e virou das catrâmbias, encolheu-se feito bola, zonzinho da silva: sucumbira de novo aos tormentos do seu inferno particular, quase perecer de amargura. Foi difícil segurar as pontas, curto-circuito e dor-de-cotovelo: doíam os chifres e, na recaída, quase bota todos os bofes boca a fora: tatu também é gente, também morre em sofrimento! Caiu na gandaia feito um Aretino injuriado: pintou resoluto, bordou dissoluto e arretou-se determinado a se emburacar no chão e sair do outro lado do mundo! Assim fez e findou atribulado num aquífero. Eita! Quando voltou a si: Onde estou? Você quase morre afogado! Quem é você? Sou Quelônia, muito prazer. Você me salvou? Só puxei você pra praia. Quer casar comigo? Já vejo que retomou os sentidos e agora está melhor, até. Não, pelamordedeus, preciso agradecer. De nada. E ela se foi pelas ondas do mar aberto, deixando-o inconsolável. Não fosse a prestimosa intervenção dum primo distante, jamais sairia do seu embotamento. Como é que tá, parente? Tamanduá, você viu aquela? Vi, sim. Quem é ela, hem? Ah, parente, nem queira saber: a cosmófora! Que é isso? A reencarnação de Vishnu, Bodhisattva. Quem? Os 4 pilares da origem algonquina! Piorou. O escudo de Órion dos maias. Deixa de onda! Ela é o pilar que segura o céu. Tais de brincadeira! Ela é a cítara de Mercúrio, a esposa do Sol dos Vaupés! A sabedoria no Bhagavad Gita! Peraí. Uma vez ela subiu num poste. Como assim? Mistério... Oxe! Não entendeu ainda? Quero casar com ela! Não é pro seu bico! Ajuda, primo! Tire o cavalinho da chuva, meu! Preciso, vai! E no meio de disso e daquilo, lá estava ele com o aparentado remando num barco mar adentro. Lá no alto, só as águas beirando o céu, o remador foi ajeitar a direção e, sem querer, derrubou Truvunca tragado pelas ondas revoltas: Pronto, agora reze prela salvar e tudo feito! A sorte está lançada! Deu-se então um tsunami. Lascou! E aí? Um dia lá, muito tempo depois: viram-se à praia. Eita, pensei que o parente estivesse ido dessa pra melhor desde daquele tempo; mas não, tá com a anja da guarda, né? Eu e tu fomos salvos por ela, bestão! Que bom. Casamos e vamos aprender a voar. Calma, disse ela. Também sei nadar! Mas quase se empirulitou por duas vezes, não acha que já tá bom desse brincar de morrer, não? Hum? Veja só: Voar é outra coisa, cuidado com gente! Os humanos só fazem guerra! Pois é. Então, ali ela entregou pra ele um arco e duas espigas de milho: uma madura para semear, outra leitosa para grelhar. O que faço com isso? Ensinou-lhe o hino homérico a Hermes: Saúdo-te, natureza amável, és para mim de um mui feliz presságio... Levar-te-ei à minha casa... Ah, tá, Cabeçuda! Repetiu tudo e ela fez volta-no-meio do tatu-velho! Sou seu capitari, piloso primo do canastra-gigante, do tamanduá e do bicho-preguiça, que quero mais? Segure o fandango! Aí, lá pras tantas resolveram juntar os Tês seguidos por uma enfieira de têzinhos que espoucavam seguindo o rastro dos festeiros: Tartu-bola, peba, mão amarela, tartupoiú! Tartu-cascudo, peludo, rabo-de-couro, galinha do sul! Como é que pode? Ora. Acta est fabula, parlenda: Salve, tartaruga; e viva o rabo do tatu! Até mais ver.

 

Linda Buck: Faça algo que te apaixone, algo que você simplesmente precise entender, porque é daí que vem a alegria, e também, eu acho, é daí que vêm as grandes descobertas... Veja mais aqui.

Mairead Corrigan: Se quisermos colher os frutos da paz e da justiça no futuro, teremos que semear as sementes da não violência, aqui e agora, no presente... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Shirley Hazzard: Existe equilíbrio na vida, mas não existe justiça. Na verdade, não se ganha nada com a experiência; aprende-se apenas a prever o próximo erro. Às vezes, certamente, a verdade está mais próxima da imaginação ou da inteligência, do amor, do que dos fatos? Ser preciso não é o mesmo que estar certo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

OF WOMAN TORN

Imagem: Acervo ArtLAM.

Filha de palestine \ fazer amor pode ser tão perigoso \ como toques de recolher quebrados \ guerrilheiros escondidos \ você se junta agora aqueles que não vão embora \ a terra assombra minha \ dormir quem observa o meu \ de volta sempre que eu colocar \ os suicídios forçados o \ mortes por dote e \ nora \ decapitado por \ seu pai sobre seu proibido \ lua de mel ele desfilou \sua cabeça através \ cairo para provar sua \ masculinidade isso é 1997 \ e eu só posso esperar \ você tinha uma canção especial a \ poema memorizado um segredo \ que te fez sorrir \ Isto é um amor \ poema cause i love \ você agora mulher \ quem viveu tentou \ amor neste mundo de \ facões e pecado \ Eu sinto o cheiro de suas cinzas \ de zaatar e amêndoas \ sob a minha pele \ Eu carrego seus ossos.

Poema da escritora e ativista político palestino-estadunidense Suheir Hammad, autora das obras Born Palestinian, Born Black (Harlem River Press, 1996), Drops of This Story (Harlem River Press, 1996), Zaatar Diva (Cypher Books, 2006) e Breaking Poems (Cypher Books, 2008).

 

SOBRE O ESTUPRO – [...] Se um homem lhe der um soco no olho, não se espera que você tenha implorado para que ele não o fizesse para que o crime seja considerado agressão. Se você estiver sentada no caixa e alguém exigir o dinheiro, você não será acusada de consentimento se simplesmente entregar o dinheiro. Somente em casos de estupro é que a prova de resistência se torna relevante. [...] Assim como não é o pênis que comete estupro, nem a testosterona que o motiva, nem mesmo um desejo sexual avassalador, a castração, seja cirúrgica ou química, não eliminará o ódio dos homens pelas mulheres. [...]. Trechos extraídos da obra On Rape (Bloomsbury Publishing, 2018), da escritora e jornalista australiana Germaine Greer. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ME CHAMARAM DE LEOA: A LUTA DE UMA MENINA PALESTINA PELA LIBERDADE – [...] O riso transmite uma mensagem poderosa: ainda estamos vivos, ainda estamos rindo e amamos a vida. [...] Não somos cidadãos de Israel; tampouco temos voz ou direitos políticos no Estado que controla todos os aspectos de nossas vidas. Estamos presos à incapacidade de planejar nosso futuro, de viajar livremente ou mesmo de nos deslocarmos pelo nosso território de cidade em cidade sem ter que cruzar postos de controle militar. Precisamos de permissão para construir nossas casas, para viajar, para trabalhar — todos os direitos e liberdades básicos que você poderia considerar garantidos vivendo em uma sociedade civil simplesmente não existem quando se vive sob ocupação militar. Não é uma vida fácil, e ainda assim, é a única que conheço. [...] Peço também que se lembrem da sua humanidade, porque é ela que vai determinar o que farão quando virarem estas últimas páginas e fecharem este livro. Vão se solidarizar com a causa palestina e ajudar da forma que puderem — seja conscientizando outras pessoas, pressionando o governo ou se informando mais sobre o que está acontecendo? Ou vão ignorar o que aprenderam, largar este livro e seguir com a vida como sempre? A escolha é sua. [...] Os palestinos representam 20% da população de Israel e, apesar de viverem em sua própria pátria, Israel os relega a um status de cidadãos de segunda ou até terceira classe. Um dos meus colegas descobriu que mais de cinquenta leis discriminam os cidadãos palestinos de Israel com base unicamente em sua etnia. Outro comentou como os recursos governamentais são desproporcionalmente direcionados aos judeus, deixando os palestinos com os piores padrões de vida na sociedade israelense, com as escolas para crianças palestinas recebendo apenas uma fração do investimento governamental destinado às escolas judaicas. Eles também falaram sobre a dificuldade que os palestinos enfrentam para obter terras para moradia, negócios ou agricultura, porque mais de 90% das terras em Israel pertencem ao Estado ou a agências paraestatais (como o Fundo Nacional Judaico) que discriminam os palestinos. E lamentaram o fato de que, se eles ou algum parente se casassem com um palestino da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza, não poderiam transmitir a cidadania israelense ao cônjuge, devido à Lei de Cidadania e Entrada em Israel. O cônjuge sequer conseguiria obter o status de residente para morar com eles em Israel. Isso significaria que seriam forçados a deixar Israel e se separar de suas famílias para viver com o cônjuge. […]. Trechos extraídos da obra They Called Me a Lioness: A Palestinian Girl’s Fight for Freedom (One World, 2022), da ativista palestina Ahed Tamimi.

 

A ARTE DE PALLY SIQUEIRA

Queremos, sim, mais produções lideradas por mulheres, protagonizadas por mulheres e com questões pertinentes a nós. Somos a maioria da população e já estamos fartas de ocupar o segundo plano... As pessoas em sua maioria se sentem perdidas, cheias de dúvidas, eu me enquadro muito nessa porcentagem. Mas o que me assusta tem sido ver a onda fascista que tem se levantado, eles agem de uma forma muito organizada e bélica. Quando perdemos a capacidade da empatia algo está errado...

Trechos da entrevista concedida ao jornalista Vinícius Nader (Correio Brasiliense, 2018), pela atriz, autora e artista plástica Pally Siqueira. Veja mais aqui & aqui.

&

Ascenso Ferreira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Selma do Coco aqui.

Antônio Nóbrega aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Micheliny Verunschk aqui, aqui & aqui.

Luiz Marinho aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Katia Mesel aqui, aqui & aqui.

Henrique Annes aqui & aqui.

Cecília Brennand aqui.

Solano Trindade aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Lia de Itamaracá aqui & aqui.

& mais:

Educação Linguística aqui.

&

Grêmio Cultural & Noites Palmarenses aqui.

 


domingo, janeiro 18, 2026

ELISA LONCÓN, LENA YAU, CASEY MCQUISTON & GERALDO AZEVEDO


 Imagem: acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Occam Ocean (2021), Chry-ptus — Geelriandre (2021), Œuvres électroniques (2018), Naldjorlak (2014), Opus 17 (2013), Feedback Works (2012), Triptych (2009), Jetsun Mila (2007), Adnos (2002), Trilogie De La Mort (1994) e Songs of Milarepa (1983), da compositora francesa Éliane Radigue.



A paixão dos condenados... - Carambolo era um enxerido, não parava quieto. De namoricos a embromados noivados com todo tipo lagartas, serpentes, quelônias e crocodilianas, driblava-as, não se livrando de todo das ameaças mortais de injuriados familiares das vítimas por seus arroubos sentimentais de galanteador Casanova. Isso afora muitas outras e tantas peripécias incontáveis, a exemplo de ter sido parceiro do aterrorizante criptídeo Lee County Lizard Man, uma alta criatura bípede dos pântanos, com seus avermelhados olhos de fogo e mais de 2 metros de altura, escamas verdes, três dedos nos pés e garras afiadas. Assarapantavam na estrada Scape Ore, apavorando os moradores de Bishopville, atormentando caçadores e turistas. Noutra foi cúmplice do ancestral capixaba da Pedra Azul, coparticipando das estripolias de guardião do território, não antes afugentarem curiosos e sabotarem as populações circunvizinhas pelos rios de pedras e mares de areia, ficando só nessas duas para não encompridar a pinoia. Mas eis que um dia lá, passeando pela lagoa de Cerro do Jarau, avistou uma bela jovem e fez-se festa em seu coração açodado. Epa! Quem era aquela que o enfeitiçava tão repentinamente? Era uma belezura anônima que vivia incógnita pelo continente d’O Tempo e o Vento de Érico. Inquietou-se e pensou ligeiro: Quer ir ao baile comigo? Não, não tenho o que vestir! Ora, providencio tudo, você quer? Não. Faço o que você quiser! Não. Tanto insistiu que, ao cabo de lábias e promessas, ela assentiu e marcaram horário e local. No momento acertado, ele lá, ansioso, inquieto. Deu uma, duas, três horas de espera e ela nada. Ih! Foi procurá-la e não teve êxito; vasculhou toda redondeza, perguntou a um e outro, fez-se sentinela, não dormia nem se alimentava, solitário pelas demoradas noites. Mais de meses depois findou balançando a cabeça tristemente reprovativa, achando que havia sido passado para traz. Aí, ele deu um freio de arrumação na vida: teve uma epifania de convertê-lo a coroinha, propondo-se a galgar vida espiritual e se tornar definitivamente um santo, amém. Pronto, estava feito. Na sua ascese tornou-se abstêmio, jejuou, libertou-se dos desejos da carne e procedeu à eliminação do ego. Já se considerando completamente restaurado, num remoto lugar de confundós ignotos, de súbito: ela. Ah, agora não me escapará! Partiu alvoroçado e logo: Quer casar comigo? Você de novo! Como ele estava irredutível no seu propósito, ela contou sua hestória: Sou Tijubina, filha da amaldiçoada teiú Teiniágua Teiniaguá, uma princesa moura da família Terra-Cambará, que vivia na lagoa de Cerro do Jarau. Por possuir um vistoso diamante que luzia na testa - um rubi cintilante que atraía os homens fascinados, foi esconjurada pelo Anhangá-Pitã, o Diabo Vermelho, que a fez uma bruxa lagartixa. Assim teve uma vida muito difícil, mas foi salva e se casou com meu pai que morreu pouco depois, me criou sozinha e ficou velha em Quaraí até sua própria morte. Esse o meu resumo: ainda quer casar comigo? Não só quero, como vou casar com você ou eu me mato agorinha! Estava resolvido. Depois de muitos sins e nãos e ora veja, foram para a igreja e o irmão dela tratava da cerimônia, quando o Padre Quiba anunciou peremptoriamente: Deus me livre de realizar este casamento! Por que? São incompatíveis, um sacrilégio, xô! Foram enxotados dali e, desorientados, depois de muito puxa-encolhe, foram levados ao juiz pelo cartório: Não pode, isso é uma aberração! E os defenestrou porta afora. Vixe! E agora? Tudo tentaram com insucesso. Ah, um milagre: o Padre Bidião – e o lema: o amor será sempre festejado. Vamos às provas! Como? Na primeira prova Carambolo descobriu que Tijubina era do Fogo da família Borges e não apenas um pequeno dragão que vivia no fogo, como também um fabuloso anfíbio da última ressurreição da fênix e uma das 4 “raízes das coisas” fundamentais de Empédocles. Eita! Teve de escapar do maior fogaréu, de quase tostar-se todo. Ufa! A segunda prova deu-lhe a constatação de que ela tinha um irmão gigante protetor, o Proteus Anguinus, que mais parecia um dragão cego que torrava o rabo de todos que se aproximassem dela ou fizessem a desfeita de iludi-la ou se bandeassem astutos com enrolação pro lado dela. Danou-se! Astuto, ele escapou fedendo da fogueiratoda, ao dar um pito cambaleante no Proteus, mas não logrou êxito completo: um batalhão esperava-o na virada. Na frente uma invocada teiú, com um diamante luzindo na testa, balançava a cauda como um chicote e bufava esfumaçando: Vai pra onde, moço? Lascou-se! Era fogo no rabo e bafo de lâmina afiada no focinho, maior viela – aí fodeu, cul-de-sac. Na maior enrascada, não havia alternativa afora se submeter à terceira e última prova. Teibei. Pensou: fodido por um, fodido por mil, vamos lá, manda! Atinou recurso: ao saber dos segredos dela, defendeu-se revelando os seus próprios, assim: sou Carambolo, o Réptil Real, filho da Mulher que Ler, a viúva de óculos do Dulcídio das Palavras andantes de Galeano. Minha mãe me criou e vivia sentada na areia fininha, com suas 7 saias cobrindo-lhe os pés, sempre na leitura de livros. Eu adorava mamar alisando suas longas tranças. Assim nasci, cresci e vivo até hoje manso e sadio, depois que ela se foi. Aplausos gerais! No mais ou menos,  finalmente, estavam vencidas todas as etapas de sua jornada. Neste momento o pároco relevou a conferência e, em cima da bucha, convocou os padrinhos e convidados, quando Tijubina que era jeitosa e sonsa, o que tinha de formosura, esbanjava nas ciladas e vaidade, logo, na horagá, chamou a todos os seus parentes batráquios e vieram aos montes tantos sapões, como rãs cururus, salamandras, pererecas, tritões e cobras-cegas, mais uma tuia de girinos afilhados. Que é que é isso? Uma multidão em polvorosa. Até o quadrúpede alado Pyrausta veio das fornalhas das fundições de Chipre e foi quem adentrou o recinto puxando pela mão dela, toda reboculosa vestida de crinolina verde, saia rodada com aplicações de renda, cabelos castanhos, entre os quais, um brilhante faiscava ofuscante: tal e qual sua mãe, confirmava. Casaram-se engalanados num sobrado na cidade de Santa Fé. Depois da cerimônia, mais maravilhado que nunca, Carambolo, num estalo, gritou: A lera! Cadê os calanguistas? E todos se organizaram: dois cantadores armados de heptassílabos às quadras se apresentaram aos versos rimados, ao som da sanfona de 8 baixos e acompanhamento duma viola caipira, pandeiro, triângulo, reco-reco e ganzá. Para engrossar a festança, um acordeão soou de longe: Segura o refrão! O cavaquinho aumentou o tom no solo, puxou sextilha pro desafio. Vamos de calango repicado. Isso é que é calango corrido! Poeta, segura a linha da porfia! Agora pra linha do barandão! Traz a tocha de bambu que é baile de barraca! A disputa corria solta: puxa calango da bicharada! Todos bailavam e ele entrelaçado nela, com passos simples, no maior forró, aos rodopios, requebros e desengoços, assim respondiam-se mutuamente à provocação de ambos. Era quase final de festa, um alarido. Foi um corre-corre medonho. O padre escapuliu, os convidados fugiram, outros morreram, só os dois escaparam vítimas de letal pandemia, com não se sabe quantos defuntaram de muitos. Ficaram de quarentena pro resto da vida. Repetia-se com ela o que ocorreu com sua mãe: o sacristão aprisionou-a em uma guampa e foram viver numa casa de taipa na caatinga, como se fossem os condenados a viver numa furna, longe de tudo e de todos, sozinhos. Até mais ver.

 

Virginia Woolf: Se você não disser a verdade sobre si mesmo, não poderá dizê-la sobre os outros... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Elvira Lindo: Mentir nem sempre é necessário, mas é algo a que nos habituamos e que não conseguimos evitar... Dizem que o que mais sentimos falta nos mortos são as peculiaridades que nos irritavam, e não a coerência de suas ações... Não viver é não sofrer e não saber... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Angela Davis: Não aceito mais as coisas que não posso mudar. Estou mudando as coisas que não posso aceitar... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SEM COMPASSO

Imagem: acervo ArtLAM.

Desvariando \ regressando \ caindo \ rompendo a boca e os dentes \ fechando os olhos para evitar o punhal verde \ guardando os ouvidos da broca \ sufocando de calor \ tocando as fotos que foram relógio todos esses anos \ acariciando a terra que guarda amores fugidos \ acariciando minha língua com sabores que me fazem texto \ sendo filha recebida \ recuperando as horas de sono aconselhadas por Salerno \ resgatando uma parte de mim que foge a cada dia \ deixando de ver o berço como bruma \ como incêndio \ como ilha que se afasta do meu nado.

Poema da escritora, jornalista e pesquisadora venezuelana Lena Yau, autora de obras como Trae tu espalda para hacer mi mesa (2015); Lo que contó la mujer canalla (2016); Bienmesabes (2018); Bonnie Parker o la posibilidad de un árbol (2018); Carne de mi carne (2018); Nubes (2019); Escribir afuera (2021); Asintomática (2021); Cuentos de Venezuela (2022) e En la desnudez de la luz. Poetas venezolanas nacidas en la década del sesenta (2022). Veja mais aquí.

 

ÚLTIMA PARADA – [...] Às vezes, você só precisa sentir, porque merece ser sentido. [...] Quando se passa a vida inteira sozinho, é incrivelmente atraente mudar-se para um lugar grande o suficiente para se perder nele. Onde estar sozinho pareça uma escolha. [...] Talvez eu ainda não saiba o que preenche esse espaço, mas posso observar o ambiente ao meu redor, o que cria essa forma, e me importar com o que o compõe, se é bom, se machuca alguém, se faz as pessoas felizes, se me faz feliz. E isso pode ser o suficiente por enquanto. [...]. Trechos extraídos da obra One Last Stop (St. Martin's Griffin, 2021), da jornaista e escritora estadunidense Casey McQuiston, que na sua obra I Kissed Shara Wheeler (Pan Macmillan, 2022), ela expressou: […] Não acredito que fazer algo na frente de todos torne isso mais significativo. Pelo contrário, faz com que deixe de ser algo seu. [...] Ela se sente como a lombada de um livro prestes a se romper e derramar todas as entranhas da história de amor. [...]. Já noutra obra Red, White & Royal Blue (Macmillan, 2022), ela expressa que: […] Às vezes você simplesmente pula e espera que não seja um penhasco. [...] Devo te contar que, quando estamos separados, seu corpo volta para mim em sonhos? Que quando durmo, eu te vejo, a curva da sua cintura, a sardinha acima do seu quadril, e quando acordo de manhã, parece que estive com você ontem mesmo, o toque fantasma da sua mão na minha nuca, fresco e não imaginado? Que posso sentir sua pele contra a minha, e isso faz cada osso do meu corpo doer? Que, por alguns instantes, posso prender a respiração e estar de volta lá com você, em um sonho, em mil quartos, em lugar nenhum? [...] Mas a verdade é, também, simplesmente esta: o amor é indomável. [...].

 

CRUZADA LINGUISTICA – [...] uma cruzada pela educação linguística. Quando eu era mais jovem, coletei muitas histórias de vida porque precisávamos reconstruir a memória para recuperar a terra. [...] Do ponto de vista cultural, isso permite falar de uma visão de mundo onde os seres humanos estão intrinsecamente ligados à natureza. Estamos ligados às montanhas. Nossos nomes estão conectados aos animais, aos pássaros: essa é a nossa identidade. [...] O que aconteceu é que a reforma educacional não leva em consideração as línguas ou os povos indígenas. Os projetos de aperfeiçoamento docente também não os mencionam. A lei de inclusão fala sobre diversidade, mas não se refere às línguas ou aos direitos dos povos indígenas.  [...]. Trechos da entrevista Elisa Loncon: A descolonização da linguagem (Revista Universitária PUC-Chule, 2016), concedida pela linguista, professora e ativista chilena Elisa Loncón, defendendo a decolonização linquística, a identidade, diretos culturais e linguístico do povo mapuche e dos povos originários do Chile. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GERALDO AZEVEDO

[...] Na verdade, eu comecei na década de 60, como músico. Na década de 70, eu já virei um compositor, já tinha um trabalho, já estava criando um trabalho mais. [...] eu acho que eu tomei muito consciência foi na segunda prisão, quando eu fiquei preso. Primeiro morreu uma pessoa do meu lado sendo torturada. Foi muito torturado. E aí. Foi aí que eu comecei a fazer uma reflexão sobre a minha vida. [...] Desde a década de 90 que eu venho falando da água. Isso antes de todo mundo, de ter essas secas assim. Porque eu nasci no rio São Francisco e quando foi na década de 90 que comecei a fazer shows pelo Nordeste, de volta e passei por algumas cidades do rio São Francisco eu fiquei chocado. Na década de 90. O rio São Francisco... Cheguei em Penedo, as pessoas atravessavam o rio andando em lugares em que passavam embarcações... [...] O Brasil é um país que tem que orgulhar quem nasce no Brasil. Mas o fato é que é um país que se rende demais, que se viciou no colonialismo. [...] O que me inspira mesmo no trabalho, o que me liga ao trabalho, a primeira coisa é o amor. O amor, a relação da vida com a vida. Mas a natureza de um modo geral. Eu fui criado... eu conheci a natureza de pé no chão, tomando banho de rio, sem luz elétrica, sem motor. A minha relação com a natureza foi muito viva. [...].

Trechos da entrevista O Brasil se viciou no colonialismo: Entrevista com o cantor Geraldo Azevedo (Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade – RICS-UFMA, 2016), recolhida por João de Deus Barros, com o cantor e compositor Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo de Amorim). Veja mais aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

&

Luiz Gonzaga aquí, aquí, aquí, aquí, aquí & aquí.

Patrícia França aqui & aqui.

Antônio Maria aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Joana Lira aqui.

Jurandir Freire Costa aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Clarice Falcão aqui, aqui & aqui.

Gilberto Freyre aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Maria Goretti Rocha de Oliveira aqui & aqui.

Francisco Augusto Pereira da Costa aqui, aqui, aqui & aqui.

Guita Charifker aqui & aqui.

 
Veja Portfólio aqui.

 

NOEMI JAFFE, MALORIE BLACKMAN, AURITHA TABAJARA, DELANO & RUBENS MATTOS CUNHA LIMA

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som de As emboladas do norte (1929) e Graúna (1923), do compositor, violonista e violeiro João Pernambuco...