sábado, janeiro 03, 2026

YURIKO SAITO, MICERE MUGO, DIANA GABALDON, CATADUPAS & SONHO DA CIGARRA

 

 Imagem: AcervoLAM.

Tenho esperança nas pessoas, nos indivíduos. Porque não se sabe o que vai surgir das ruínas... O perdão de si mesmo é o mais difícil de todos os perdões...

Pensamento ao som do álbum Whistle Down the Wind (Razor & Tie, 2018), da cantora, compositora e ativista estadunidense Joan Baez (Joan Chandos Baez). Veja mais aqui.

 

Na pisada do toré (Uma canção pra cunhantã Chenoa) – Vivos olhos nativos afagam meu coração mestiço. Eram faróis na majestosa acangatara e com a graça de suas pestanas suspensas exalando o cheiro quente do afeto. E a sua delicada voz a me embalar num tapete mágico feito de nuvem baixinha passageira. É ela minha filha vestal com seu penacho de fogo, uma estrela Maire-monã que me diz da criança ainda por nascer na gravidez dos caminhos. E da sua boca juvenil os cantares semeiam anunciando os festivos renascimentos com todo brilho da palavra perdida e nela ascendemos pela chuva a lavar dentro de mim o que rega a terra e amadurece ao paladar os doces frutos e inebria com o bálsamo das flores ao olfato, abraça saberes e sabores sem que haja explicações. Não há porquês, tudo é onde qualquer domicílio e quando todos os momentos do visinvisível na festa dos milagres, que nem são só mais desdobramentos do que é uno e suas tantas outras metades pelos grãos, chuviscos, ondas do mar, remoinhos dos rios, faíscas do fogo, a brisa dos ventos, a poeira do chão abrigo dos meus mortos sagrados, o arco-íris e o avesso do ermo: oásis se expande sorridente para a profusão dos dançares das plantações, dos brincares de véspera das colheitas, dos teceres e as parições da vertigem da vida pelos abismos, o botão de rosa, as flores do jardim, o voo dos pássaros, os galhos das folhas, as pedras do caminho, o alto da montanha, os nomes chamados e as celebrações dos estiares na plenitude do Sol. E os falares reluzem as pálpebras pros olhos serenos, ternura de mãe. E o eco da voz é minha e a de todos os ninguéns, porque a Lua alumia as noites na palma da mão e revela as linhas dos recados ancestrais Quechuas, Mapuche, Navajo, Maia, Guarani, Yanomami, Haudenosaunee e de todos os originários de Abya Yala que somos. E suas mãos desenham no ar todas as fábulas do imaginário pela magia invisível das sombras das fruteiras, das oferendas dos pomares e pelos passos das estradas, contando a distância limítrofe do que há por trás de todos os mistérios: as águas são espelhos e tudo respira mostrando as coisas secretas para a alma atenta, que sente as sutis emanações pelas brechas que guardam as vozes escondidas de Iara que é Boiúna, a Cobra-Grande, com seus olhos de fogo e chifres refulgentes de quem vive no fundo dos rios e Jaci já vem com um buriti, o cipó dos sonhos, a nos avisar que Ceiuci anda faminta e não amedronta, não mais que as mais de quinhentas vagantes inexatidões mais esgarçadas, dos desfeitos laços e a esperança fugidia à espera, como uma criança desolada por ver nossos extravios, a ameaça do medo e a culpa imposta. Não mais a casa da infância destruída e os que procuram por si próprios e não se encontram, tontos com as voltas do mundo nas longas noites asfixiantes dos que ganham e perdem entre os que foram caraíbas perós e outros invasores. Porque no espelho das águas o outro lado escondido das coisas: a casca de ovo se quebra para realizarmos o dia inventando a noite enluarada, um canto proutrantos e todocês. Até mais ver.

 

Rigoberta Menchú: Os povos indígenas nunca tiveram, e ainda não têm, o lugar que deveriam ter ocupado no progresso e nos benefícios da ciência e da tecnologia, embora representassem uma base importante para esse desenvolvimento... Que haja liberdade para os indígenas, onde quer que estejam no Continente Americano ou em outro lugar do mundo, porque enquanto estiverem vivos, um brilho de esperança estará vivo, bem como um verdadeiro conceito de vida... Veja mais aqui.

Patti Smith: Liberdade é... o direito de escrever as palavras erradas... Acredito que nós, este planeta, ainda não vivemos nossa Era de Ouro. Todos dizem que acabou... a arte acabou, o rock and roll morreu, Deus morreu. Que se dane! Esta é a minha chance no mundo. Eu não vivi lá na Mesopotâmia, não estive no Jardim do Éden, não estive com o Imperador Han, estou aqui e agora e quero que agora seja a Era de Ouro... se ao menos cada geração percebesse que o momento para a grandeza é agora, enquanto estão vivos... o momento de florescer é agora... Faça com que suas interações com as pessoas sejam transformadoras, e não apenas transacionais... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Simone de Beauvoir: Mude sua vida hoje. Não jogue no futuro, aja agora, sem demora... A palavra amor não tem de modo algum o mesmo sentido para ambos os sexos, e esta é uma causa dos graves mal-entendidos que os dividem... Desejo que cada vida humana seja pura liberdade transparente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

QUERO QUE VOCÊ SAIBA

Imagem: AcervoLAM.

Quero que você saiba \ com que cuidado? \ Reguei os brotos tenros. \ você plantou \ no meu pequeno jardim. \ Agora, flores enfeitam o chão. \ As frutas estão maduras. \ Venha \ Traga uma cesta de vime resistente \ e traga consigo também \ o melhor vinho de palma \ que seu especialista em tapping \ possa preparar \ Devemos festejar e beber vinho \ até altas horas da madrugada \ dos nossos breves dias juntos \ Alegria e amor \ será o nosso dia a dia \ canções de colheita.

Poema da escritora, dramaturga, editora, professora e ativista queniana Micere Githae Mugo (Madeleine Micere Githae – 1942-2023), que foi perseguida, prasa e exilada em 1982, por conta da ditadura que se instalou em seu país, coibindo sua luta contra os abusos aos direitos humanos. A partir de 1984 tornou-se cidadã do Zimbábue: Sou filha do universo, já morei em quase todos os continentes. Escrever pode ser uma tábua de salvação, especialmente quando sua existência foi negada, especialmente quando você foi deixado à margem, especialmente quando sua vida e processo de crescimento foram submetidos a tentativas de estrangulamento.

 

VÁ DIZER ÀS ABELHAS QUE EU FUI EMBORA - [...] Você não deixa de amar alguém só porque essa pessoa morreu [...] As refeições eram o meu tormento diário; não tanto o trabalho constante de colher, limpar, picar e cozinhar — embora essas atividades fossem bastante desagradáveis por si só mas principalmente a tarefa interminável de lembrar o que tínhamos à mão e equilibrar o esforço necessário para tornar a comida comestível com a consciência do que poderia estragar se não a comêssemos imediatamente. [...] Mas cada um de nós é chamado a viver a vida nos pequenos momentos; a praticar a bondade, a arriscar nossos sentimentos, a dar uma chance a alguém, a atender às necessidades das pessoas que amamos. Porque Deus está em toda parte e vive em todos nós. Esses pequenos momentos são Dele. [...] O corpo forma cicatrizes internas, assim como cicatrizes superficiais, quando uma ferida cicatriza — e o mesmo acontece com a mente. [...] O perdão faz com que as coisas desapareçam. [...] Ao longo dos anos, vi muitos pacientes doces, amáveis e dóceis, que sucumbiram em poucas horas às suas doenças. Os filhos da puta raivosos, irascíveis e difíceis (de ambos os sexos) quase sempre sobreviviam. [...] Quando se tem filhos, existe aquele pequeno período em que você é tudo o que eles precisam. E então eles saem dos seus braços e você fica com medo de novo, porque agora você sabe todas as coisas que poderiam machucá-los, e você não consegue protegê-los. [...]. Trechos extraídos da obra Go Tell the Bees That I am Gone (Century, 2021), da escritora estadunidense Diana Gabaldon (Diana Jacqueline Gabaldon), que também expressa: O que está subjacente à grande ciência é o que está subjacente à grande arte, seja ela visual ou escrita, e essa é a capacidade de distinguir padrões fora do caos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

O PAPEL DA EDUCAÇÃO ESTÉTICA NO COTIDIANO - [...] A educação estética em nosso cotidiano é, portanto, inestimável para questionar várias premissas estéticas que regem nossas vidas e sociedade, desenvolvendo o que pode ser chamado de alfabetização e vigilância estética, ao estarmos cientes das consequências dessas premissas, direcionando nosso poder reside na criação de um mundo justo, humano e sustentável, e na promoção de uma vida sustentada e enriquecida pelas relações estéticas que formamos com os outros, sejam pessoas, natureza ou mundo artefatual. Somos empoderados e responsáveis por moldar o mundo por meio de nossas práticas cotidianas, e a estética desempenha um papel surpreendentemente significativo. [...]. Trecho extraído do estudo The Role of Aesthetic Education in Everyday Life (Philosophy of Education Society of Great Britain, 2025), da filósofa e professora japonesa Yuriko Saito, que é autora da obra Everyday Aesthetics ( Oxford University Press, 2010), no qual analisa a sensibilidade aos objetos e às pessoas em uma ampla gama de artes e ofícios japoneses, incluindo paisagismo, haicai, pintura, cerâmica e culinária, enfatizando que o cultivo de uma atitude moral em relação às coisas é frequentemente praticado por meio de recursos estéticos. Veja mais aqui & aqui.

 

JAQUE MONTEIRO & I OFICINA DE CATADUPAS DO BRASIL

Foi lançado o livro da I Oficina de Catadupas do Brasil - 2025, uma parceria das poetas jaque monteiro, a criadora do gênero poético, ministrante e coordenadora da Oficina, e noi soul, do Projeto Pulsão Poética, que passou a ser a Madrinha da Catadupa e coordenadora da Oficina. Trata-se de um puro movimento, assim como uma cachoeira, representando inovação no cenário literário brasileiro e um gesto de amor pela língua portuguesa. O livro reúne poemas dos primeiros poetas catadupistas brasileiros. Confira a entrevista com os poemas de Jaque Monteiro aqui e detalhes sobre o livro aqui. E mais aqui.

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ADMMAURO GOMMES & O SONHO DA CIGARRA

O professor de Teoria Literária, poeta, cronista e membro da Academia Palmarense de Letras (APLE), Admmauro Gommes, comenta a publicação do livro infantil O Sonho da Cigarra (Asinha, 2025), da palmarense Taciana Cruz e de sua filha Kristina Cruz, nascida na então República Theca, hoje Tchéquia. Confira aqui & mais aqui.

 

A poesia de Manuel Bandeira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Lins & a Revolução Pernambucana aqui.

A pedagogia de Paulo Freire aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Tereza Costa Rego aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Abelardo da Hora aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Geninha da Rosa Borges aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A música de Moacir Santos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A poesia de Cida Pedrosa aqui & aqui.

A arte do Mestre Vitalino aqui, aqui & aqui.

A arte de Bia Villa-Chan aqui.

Veja Portfólio aqui.

 


domingo, dezembro 28, 2025

ROSA MONTERO, ROCÍO SILVA-SANTISTEBAN, DANICA MCKELLAR, PAZ SOLÍS DURIGO & CRISTINA TAVARES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns The Reign of Her (Frameworks Records, 2025) & Beyond Reach (Frameworks Records, 2023), da premiada violonista italiana-estadunidense Marisa Sardo.

 

A mulher do livro & a farra dos eunucos... - Quem é aquela, hem? Rapaz, eu soube que é uma ET que escapou daquelas FRBs quando o Oumuamua deu as caras e se passando por gente humana, para preparar o terreno pruma invasão do planeta e aterrorizar acabando com tudo! Valei-me! Não sabia não? Ô compadres, eu mesmo, soube doutra coisa diferente sobre ela: Dona Oblatedilta me disse que o nome dela é Resusci Anne, uma robô criada por IA, feita daquela morta desconhecida de Paris, que ficou famosa como a mulher mais beijada do mundo. E quais as intenções dela? Investigar a gente tudo para depois escravizar e matar. ChaosGPT? Pior! É mesmo? Que fatalidade! Olha lá, dona Jubilosita tá vindo aí: A senhora sabe quem é aquela, mesmo? Apurei e descobri que é a maldosa viking morta que ressuscitou depois dos testes de DNA da que foi achada lá em Beach Head, sabe, dos restos mortuários de East Sussex, na Inglaterra, e que veio pra cá esculhambar com a vida da gente! Uma assombração? Veio transformar isso aqui num inferno de Dante! Benzodeus! Vocês não sabem? Não, dona Esmaragda. Ah! Averiguei que é a tal da Malèna de Tornatore, a viúva daquele zé-ruela que se alistou voluntariamente para defender a Ucrânia e foi morto pelos russos! Nunca tinha visto e nem ouvido falar do casal. Ah, foi ela que mandou o marido pra morrer na guerra e quer só arranjar um outro abobado pra sustentá-la, por isso que anda toda reboculosa, não sabem a carniceira que ela é. Num diga! Aquela bonitona? Isso mesmo! Ô, dona Clarivaldícia, não será a sádica viúva Brynhild Sorenson Gunness, aquela Belle que já matou não sei quantos maridos e não deixou vivo nenhum namorado das suas filhas? É mesmo! Oxe, vocês estão todas equivocadas: É a perigosa Leanan Sidhe, que seduz para roubar a vitalidade do amante. Pela santa saúde que eu não tenho! Vamos apedrejá-la! Veja, ela para toda vez e fica diante daquela Espada-de-Iansã, toda vez, tá vendo? E num é! Ô, dona Margarildita, não é língua-de-sogra, não? A mesma coisa de rabo-de-lagarto, de sanseviéria, tudo uma coisa só, ZéBocó; o certo é que ela é catimbozeira devota de Oyá e das tamposas de sasanha e abô, de deixar a vítima ressequida e morrer na hora, pode crer! Danou-se! Nunca soube! O que a gente vai fazer? Oxe! É nada: é o fantasma misterioso duma tal de Jennifer Fairgate, que foi encontrada morta num hotel da Noruega e veio praqui pra atormentar as noites da gente. Um espectro ameaçador? Piorou! Vamos exorcizá-la logo! Dizem mesmo que ela é a condessa sangrenta que fugiu da Hungria pra não ser presa e o nome dela é uma tal de Isabel num sei que lá Báthory, cometeu uma série de crimes hediondos e não saciou de matar gente. U-lalala! Chama a polícia! Pelamordedeus! Soube que é a perversa nazista Ilse Koch, aquela Cadela-Bruxa de Buchenwald, que coleciona pedaço de peles de seus prisioneiros, para confeccionar seus souvenirs. Como é? Santa crueldade! Vamos estropiá-la! Cochicham mesmo que ela é a cruel socialite assassina, chamada de uma tal de Delphine LaLaurie que torturou, mutilou e matou não sei quantos escravos negros e fugiu para caçar mais. Cadê, todo mundo tá armado com seu cacete pra lascá-la toda? Pro araque-de-polícia, ZéCadeia, ela é a crudelíssima assassina Mary Ann Cotton que atrai o macho para envenená-lo com arsênio e depois ficar com toda herança do cabra. Vigarista duma figa! Vamos escorraçá-la! Nada, é aquela escravocrata foragida do FBI, uma tal de Margarida Bonetti, que vivia escondida numa mansão arruinada de São Paulo e, agora, veio atuar aqui caçando os pretos todos, lembram? Que rapina! Queremos justiça! Se ela correr, a gente pega; se ela ficar, a gente estraçalha ela toda! Ô dona Zefinha-Pesão, espie: o seu Gervasildo tá todo embecado com manemolências pras bandas dela, mire! Vou estropiar aquele cafajeste! É preciso cuidar, ela é a traiçoeira encantada Morgan Le Fay, a Fada Morgana, que aprisiona qualquer um que dela se aproxima para levá-lo escravo pro seu palácio de cristal no Estreito de Messina. Que gatuna duma figa! Vamos logo dar uma sarrabulhada boa nessa puta! Tem que pegar logo aquela falsa Mulher de Torenza, viúva do homem de Taured, ninguém sabe o nome dela, mas ela só quer enganar todo mundo pra surrupiar o que você tiver. Que mulher mais picareta! Vocês estão falando da mesma pessoa? Vamos amarrá-la e arrastá-la pelas ruas pra ela ver o que é bom pra tosse! É isso mesmo, ela é uma Qarinah, uma ruindade islâmica que persegue as pessoas. Isso tudo? Tem muito mais escondido dela por aí. Vocês não estão enganadas? Ora! Ela num pode ser tudo isso não! Quem mandou ela mexer com a gente? Aquela ali é a ninfa Ondina, que saiu das águas procurando homens casados para humanizar-se roubando a alma do coitado, que resta mortinho. Pronto! Ah, a gente tem que dar cabo dessa destruidora de lar! Se não fizermos logo, a sinistra mulher da neve, a Yuki-onna, veja a palidez e os lábios roxos, ela basta olhar pro homem que ele vira estátua de gelo na hora. Vixe! Que safada! Vamos esquartejá-la! Vamos logo estuporar aquela ardilosa alvenha, que saiu do rio para enfeitiçar incautos para depois afogá-los. Que bandida! É um sacrilégio! É uma súcubus, tenho certeza! Vamos tocar fogo nessa coisa ruim! Ela é capaz de ser a múmia da Senhora Dourada que saiu do sarcófago e está sem a touca para enganar os homens, vejam! Essa mulher é a heresia em pessoa, vamos sacrificá-la! Num pode! E se for uma das holandesas desaparecidas no Panamá, ninguém sabe ao certo qual delas, se é a Kris Kremers ou Lisanne Froon, qual delas? E o que viriam fazer aqui, seu beócio? Oxe, assombrar a gente, ora! Vamos rasgá-la toda de porrada! Só pode ser a Alamoa! Desde quando? É uma galega falsa, veja! Que miséria! Vamos rachá-la em bandas, simbora! Aquilo é o demônio Hannya, aposto! Isso é um estrupício! O padre disse na missa que ela deve ser a demoníaca Jahi da luxúria! Por isso mesmo, vamos esfaqueá-la toda! É uma jorogumo, uma traiçoeira aranha que vira mulher para enredar qualquer um, pode ir ver, na batata! Cruz-credo! O pastor disse no culto que ela é a devoradora Ammit camuflada: tem cabeça de crocodilo, corpo de leão e bunda de hipopótamo, só pra comer o coração do desavisado. Isso é um desmantelo! E prefeito não faz nada! Oxe, tá ele, o delegado, os vereadores, o juiz, toda autoridade tá lá apaixonado por ela! Tudinho? Ora, se. Por isso digo: é a fingida bruxa Empusa, vá ver, foi o bispo que disse! Olha o ZéSitonho lá, chega tá de queixo caído! Vou pegar aquele velho desgramado e lascar as gaias dele, marido meu não se enrabicha pra sirigaita nenhuma! Convoca a multidão! Danou-se tudo! É a Lilith que foi banida do Jardim do Éden para atanazar os homens. Vamos acabar logo com isso, avante! Uma quenga de Caravaggio! Calma, que hestória mais escabrosa, gente! Sai da frente! Ela pode ser enigmática, parece sim, mas não tão diabólica! Vá e se iluda! Não me segura não! Dona Clessivalda, a senhora não acha que todas vocês não estão exagerando na dose demais não? A gente vai caçá-la agorinha mesmo, antes que a macharia toda seja aprisionada, a gente não quer enviuvar assim! O seu marido tá lá todo de farol baixo e arreado por ela, já viu? Vamos capturá-la já! Calma, gente! Olhe seu TóZeca, se o senhor ficar na frente e atrapalhar a gente, vai morrer da maior camada de pau com ela junto, viu? A senhora tá invocada! Eu só não, todas daqui; porque eu mesmo já estou fervendo pelas tampas com essa rameira! Ela não é o que vocês estão pensando. A gente sabe bem quem ela é e não sairá viva hoje dessa praça! Ela veio só falar comigo, mora num livro e escapole das páginas de lá da biblioteca, todo dia de tarde, porque a praça é o sonho dela. Um fantasma da biblioteca? Agora mesmo ela está toda Lulu de Almudena, vestida como se fosse a Francesca Neri na cena de Bigas Luna. Num sei do que o senhor está falando, acho que tá enrolando a gente para protegê-la. Vamos logo tascar fogo! O senhor vai apanhar por defendê-la, seu TóZeca. Capa ele logo! Vaza! Olhem vocês que eu viro a desgraça e não sobra uma só pra fuxicar depois! Saia da frente! Pisa ele! Olhe só: o seu esposo, dona Quartuda, tá lá! Aquele gaiúdo me paga, fio-duma-égua! Passa por cima dele! Também o de dona Maria-Banguela, o da dona Sula-Arrepeada, o da dona Maria-Boqueira, o da Sinhá-Peituda, o de dona Gracivalda, vejam, todos estão lá, babando! Filhos da puta, vou lascar o quengo dele! Que babãos mais safados! Isso, vão é tomar satisfação dos seus e deixem a moça em paz preu namorar! Vamos pegar os salafrários! Isso, vão-se embora, peguem seus maridos abiscoitados, sigam pras suas casas e danem uma pisa boa e bem dada no toitiço deles lá, arrochem neles, que é o que eles merecem. Vou castrar aquele corno! Isso, mandem ver nas caçaroladas, nas cabadas de vassoura, os penicos nas fuças, as paneladas no juízo, peixeiradas no bucho, cortem as asas e o pingolim, arranquem um dos ovos pra ficarem rancolhos, deem umas lamboradas boas nesses apaideguados preles aprenderem! Vamos deixar esses marmanjos tudo emasculados! Eita, que o trupé vai comer e o pencó vai pegar! Vão virar tudo eunuco! Toca! Ora, ora. Bem feito. Ih! Esse o povinho pacato de Alagoinhanduba! Foi. Até mais ver.

 

Joan Didion: Não estou dizendo para você tornar o mundo melhor, porque não acho que o progresso faça parte necessariamente disso. Estou apenas dizendo para você viver nele. Não apenas suportá-lo, não apenas sofrê-lo, não apenas atravessá-lo, mas vivê-lo. Observá-lo. Tentar compreendê-lo. Viver sem medo. Arriscar. Criar seu próprio trabalho e se orgulhar dele. Aproveitar o momento... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Elena Ferrante: A vida toda é assim: numa vez você apanha, noutra, recebe beijos... toda escolha tem sua história, muitos momentos de nossa vida estão espremidos num canto só esperando uma brecha, e no final essa brecha aparece... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Rita Lino: Passei muitos anos trabalhando com minha própria identidade, minha própria vida, minhas diferentes personas, então quero fazer algo diferente, mas ainda assim permanecer fiel a mim mesma... Veja mais aqui.

 

EL ÁNGEL NEGRO DE COPLEY SQUARE (RILKE)

Imagem: Acervo ArtLAM.

Para onde voou o anjo que me prometeste? \ Onde se escondem suas asas fuliginosas? Em que \ paraíso ela se refugiou? Por que \ deixei de ser sua protegida? \ Quais os efeitos das minhas \ palavras ruins? \ que outra heroína ele escolheu? para quem \ ele está cavando entre as pedras hoje? \ de quem \ são essas inúmeras quedas? Que obstáculo cotidiano se abriu como um \ precipício? Que obsessão sombria se dissolveu \ entre suas asas? Sob que poder ela curva a cabeça hoje? \ Em que pescoço subjugado ela ergue suas garras? \ Por que o fizeste descer a escada? \ Para onde o levarão seus desejos? \ De que posição temporal não confessada \ ele retorna? \ Quem ele liberta da pestilência? \ Diga-me, diga-me, diga-me, \ que música toca sua harpa? Que \ costas congelam seus anseios? \ Que caminho ela começa a percorrer às apalpadelas? \ E eu não te ouvi. \ E você tinha me avisado: \ Todo anjo é terrível.

Poema da escritora, acadêmica, ativista e jornalista peruana Rocío Silva-Santisteban (Rocío Yolanda Angélica Silva-Santisteban Manrique), que representa a Frente Ampla como membro do Congresso pelo distrito de Lima e autora das obras poéticas Asuntos circunstanciales (1984), Ese oficio no me gusta (1987), Mariposa negra (1993), Condenado amor (1995), Maternidad (1996), Turbulencia (2005), Las hijas del terror (2007) e La máquina de limpiar la nieve (2024).

 

A CARNE - [...] A vida é um pequeno espaço de luz entre dois anseios: o anseio por aquilo que você ainda não experimentou e o anseio por aquilo que você jamais experimentará. E o momento preciso da ação é tão confuso, tão fugaz e tão efêmero que você o desperdiça olhando ao redor atordoado. [...] Ser amaldiçoado é saber que suas palavras não encontram eco, porque não há ouvidos que possam compreendê-las. Nisso, assemelha-se à loucura — Soledad exclamou de repente. Ser amaldiçoado é estar fora de sintonia com seu tempo, sua classe social, seu ambiente, sua língua, a cultura à qual você deveria pertencer. Ser amaldiçoado é querer ser como todos os outros, mas não conseguir. E querer ser amado, mas inspirar apenas medo ou talvez riso. Ser amaldiçoado é ser incapaz de suportar a vida e, acima de tudo, ser incapaz de suportar a si mesmo. [...] Ah, aquelas outras infinitas vidas possíveis que se abriram como a cauda de um pavão ao redor da nossa existência, todas aquelas modificações do nosso destino que poderiam ter ocorrido simplesmente variando um pequeno detalhe. [...] Às vezes, o destino, ironicamente, diverte-se emparelhando fenômenos semelhantes. Quando alguém tem azar, os infortúnios parecem se acumular e acabam caindo sobre essa pessoa como um dilúvio. [...] A vida é um pequeno espaço de luz entre dois anseios: o anseio por aquilo que você ainda não experimentou e o anseio por aquilo que você jamais experimentará. E o momento preciso da ação é tão confuso, tão fugaz e tão efêmero que você o desperdiça olhando ao redor atordoado. [...]. Trechos extraídos da obra La carne (Alfaguara, 2016), da escritora e jornalista Rosa Montero. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ARTE & MENTE AGUÇADA - A matemática é o único campo onde verdade e beleza significam a mesma coisa... A matemática é como ir à academia para o cérebro. Ela aguça a mente... Pensamento da atriz, escritora e matemática estadunidense Danica McKellar, que explicou que: Eu fiz uma pausa na atuação por quatro anos para obter um diploma em matemática na UCLA, e durante esse tempo eu tive a rara oportunidade de realmente fazer pesquisa como estudante de graduação. E eu e duas outras pessoas foram co-autoras de um novo teorema: Percolation e Gibbs States Multiplicity for Ferromagnetic Ashkin-Teller Models on Two Dimensions, ou Z2. Ela ainda expressa: Encontre seu amor-próprio agora. Não se rebaixem. Pensem em si mesmas como capazes e merecedoras de encontrar um cara que também as respeite. É tão importante, quero dizer, e a confiança que vocês ganham ao se sentirem inteligentes e enfrentarem algo como matemática, que é um desafio, certo? Matemática é difícil... Veja mais aqui.

 

UMA ATIVISTA & AMOR DE SARTRE

[...] seremos nós, mulheres em luta, cidadãs que haveremos de escrever na Constituinte plena liberdade e contra a discriminação. [...]

Pensamento da jornalista e ativista deputada Cristina Tavares (Maria Cristina de Lima Tavares Correia – 1934-1992), extraído da dissertação de mestrado cuja temática está definida como A trajetória política de Cristina Tavares: a redemocratização e os direitos das mulheres na Constituição Cidadã 1978 – 1988 (Unicap, 2021), do professor e pesquisador Edvaldo dos Santos Silva. Ela é autora de obras como Atuação parlamentar (Coordenação de Publicações, 1980), Eleições em Pernambuco (Centro Teotônio Vilela, 1987) e A Última Célula (Paz e Terra, 1989), entre outros. Ela conheceu o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que passou pelo Recife, na década de 1960. Consta que o filósofo teve uma paixão por ela, tendo sido, inclusive, o romance entre ambos assinalado pela própria Beauvoir, conforme registrado no livro Tête-à-tête (Objetiva, 2006), da escritora e biógrafa australiana, Hazel Rowley. Veja mais aqui.

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GUARANGA, DE PAZ SOLÍS DURIGO

Guaranda (Caburé Libros, 2024) é a primeira novela da escritora, professora e musicista argentina, Paz Solís Durigo, que também é autora do livro Contra todos los males (Avagata, 2023) com letras de suas canções em guarani e castelhano. Ela é cofundadora e codirige a revista digital e popular La Lechiguana e anuncia para 2026, o lançamento de sua novela infanto-juvenil Los gatos de la abuela Queché (Boris Ediciones). Veja mais aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

 


domingo, dezembro 21, 2025

JANNA LEVIN, DAISY ZAMORA, LISA JAKUB, CERÚLEO ESCARLATE & FRANCISCO JULIÃO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Dentro da oficina do mestre João do Pife de Caruaru adquiri meu primeiro instrumento e assim comecei a aprender. Trouxe o instrumento pra casa, que meu pai me deu de presente porque era próximo do meu aniversário. E como a gente mora aqui no bairro do Salgado, bem próximo a casa do João do Pife, sempre eu estava lá, chamava as amizades e aperreava o “vein” pra ele me ensinar a tocar pife e foi assim que eu aprendi e tenho muito a aprender ainda...

Pensamento ao som do álbum Sem Pergaminho (2025), primeiro álbum musical autoral da artista independente, musicista, pifeira, luthier, compositora, professora e produtora Vitória do Pife, que idealizou o projeto Passarinho Passarada (2019), levando música como forma de educação para as crianças do bairro do Salgado, em Caruaru – PE. É integrante Orquestra de Pífanos de Caruaru & Maestro Mozart Vieira, da banda Forró Agarradim e da Banda de Pífanos Zé do Estado, além de fundar a Banda de Pífanos Caruaru Camaleão

 

A vida segue caminhos tortuosos... - Já era tarde da noite quando Zeca Biu, aos bocejos, sentiu frio. Estava muito chateado com o imbróglio de suas demandas diárias, comendo seu juízo. Viu-se cansadíssimo e resolveu jogar tudo pro ar, ora, ora. Melhor deitar e descansar, obtemperou. Assim o fez e logo regalou-se à costumeira cama com seu cobertor abafa-banana, ajeitando os travesseiros molambentos, aos suspiros, aí dormiu emborcado, roncou estirado de papo pro ar e, aos peidos trovejantes, muito sonhou. Despertou determinado a ir num zoológico para dar cabo do pandemônio que virara seu quintal – os incomodados vizinhos, ameaça da polícia, as chaturas e perrengues, perigava ser enxotado num sabia pra onde. Estava tão firme no seu propósito de quase passar despercebido que não estava em sua cama, ali não era seu quarto e viu-se fora de sua casa, numa noite do ocaso da Lua. Oxe, que fuleragem é essa, ondéqeutô! Abriu bem os olhos, levantou as pestanas, acionou o faro, aprumou as ouças, ligou as orelhas e perscrutou: vozes. Na verdade, duas: um casal combinava, não dava para identificar o quê. Ficou sintonizando, ia pra lá, não, distanciava-se; pra cá, sim, aproximava-se, vozes mais nítidas. Tateou, topadas e sustos, quase ao vivo, mas sem conseguir enxergá-los, ousou no caliginoso: Boa noite, por acaso poderiam me dizer onde estou? Num oásis, respondeu-lhe uma voz masculina. E pra seu espanto deu pra ver de relance numa centelha ínfima: um mascarado de camelo falante. Essa é boa: que marmota é essa, saíram de um baile de máscara, foi? Não, somos nós – era uma voz feminina e um novo escândalo: fantasiada de zebra, também falante. Agora deu, pronto, devo ter endoidado: que pinoia é essa, hem? Responderam com outra indagação: Nunca leu Shakespeare? Ué, o que tem o cu com as calças? Somos humanos! Eita! Aí aboticou as vistas: Não eram e tinha certeza, parecia uma daquelas disforias de espécie, uma teriantropia ao contrário, ou que licantropia braba era essa, será? Então, uma fogueira foi acesa e ele começou a falar: Sou Alain, filho do tapeceiro Josamur. Muito jovem me apaixonei pela bela filha do Sultão e era correspondido. E por não ser abastado e vindo de família muito humilde, fui ameaçado e, como insisti, condenado à morte. Por causa do nosso idílio, o pai dela tentou por diversas vezes me matar. E numa de suas investidas, mais uma vez me desvencilhei e, com o desalmado golpe, ele matou a própria filha. Daí a minha fuga pelos 4 cantos do mundo, até ser amaldiçoado por bruxaria e me tornei o que sou: um camelo e me chamam agora de Bonifácio, suposto neto de Zorol da Somália, que, por sua vez era filho de um dos guardiões do paraíso, os voadores de Zohar do Paraíso no Avesta. Peraí! Como é que é? Ouviu tudo de novo e Zeca Biu amiudou na conferência: de fato, era mesmo um bicho feio com cabeça de alce, orelha de burro, cílios longos e grossos, patas de cavalo, pernas de avestruz, rabos de espanador, teimoso, cuspidor, estava com uma bateria nas costas; não, melhor, duas, pense num desengonçado, hem, Esopo, tão desajeitado de ganhar o opróbrio por não ter sido criado por Deus, mas, como disse Millôr: por um grupo de trabalho. E continuou a narração: Eu me perdi duma caravana, depois de atravessar os desertos de Gobi, da Arábia, o Saara e Kalahari; fui parar no Rajastão para ser trocado nas feiras de Pushkar e Bikader e, depois de muitas idas e vindas, de lá me passei pelos 35 camelos do homem que calculava, fui o preguiçoso de Rudyard Kipling e quase fui capturado pruma expedição que ia pro Ceará - na verdade foram 14 dromedários de Argel para Pedro II, numa comissão científica que incluía o poeta e etnólogo Gonçalves Dias. Não tivesse me desviado duma comitiva que ia pro Atacama, entre o Chile e o Peru, daí nenhuma cáfila, nem dromedários, iamas, alpacas ou vicunhas que aparecessem, findei como um desertor errante pelo semiárido, atravessando Seridó, Gilbués, Irauçuba e o sertão de Cabrobó. Até passei pelos Lençóis Maranhenses e o Jalapão de Tocantins, coisas até bonitas de se ver. Chorei muito de solidão, sabia: os camelos também choram! Zeca Biu ainda com um pé atrás e zis pulgas rondando suas orelhas, perquiriu agudamente e constatou: É mesmo, parecia mais que o bicho estava ao relento e contou que era bastante resistente e servil, carregando pesadíssimos fardos em marchas pelos desertos, doido por cevada e andava melancólico pela vaia que levou ao se meter numa competição com um salafrário dum macaco numa dança, razão pela qual foi execrado pelo reino animal e, ainda por cima, amaldiçoado por fugir atravessando o buraco de uma agulha, um vitupério para Jesuisis, e com um lamento: Virei provérbio buriata da Sibéria à Turquia: porque se julgou grande, desgraçou o exército! Mas, saiba: sou a primeira das 3 metamorfoses do espírito do Zaratustra de Nietszche. Ah, entendi o ditado: sábio feito um camelo! E dizem que sua lágrima é antídoto! Foi então que puxando o fim da conversa, mencionou haver descoberto a sugestão de Cecília Meirelles: o camelo mastiga a sua solidão. E regurgitei para descobrir meu próprio deserto entre zumbis hiperativos incluídos e trapos humanos excluídos da Rolnik, assim, exercia o meu vazio: camelos também dançam! Vixe! Pra minha sorte, não fosse o charme das minhas formosas bossas, não teria encontrado esta bela senhorita que me acompanha. Aí Zeca Biu disse pra si mesmo: Essa é boa: deu zebra! Segura a peta que vem mais patranha! Mesmo inarredavelmente incrédulo, para ele a coisa seguia um tanto convincente: Quero ver mesmo aonde é que vai dar! E enquanto o camelo assoprava a fogueira e pondo mais incensos pra queimar, ela começou a contar: Sou Dinazade, o mesmo nome da irmã de Sheherazade com as suas mil & uma noites, porém, só o nome, pois, sou filha de um oleiro etíope muito severo e religioso. Por causa de um namorico com um jovem bonito eritreu, nem meus pais nem os dele aprovavam o enlace e, inflamados pela fúria, fui vítima da mais perversa feitiçaria de um praticante de Zangbeto, que era, na verdade, pra me proteger e deu tudo errado: transformaram-me numa equídea de Grevy e agora me chamam de Zecora, supostamente nascida em Equestria, entre muitas outras e cada uma com o padrão do Alan Touring. Agora sim, posso assegurar: zebras também existem, viu! E aprendi com as hienas a desconfiar das arapucas e passei a andar com o rebanho milhares de quilômetros na migração, atrás de água e comida. Sentia-me protegida pela manada, prosperávamos em ambiente hostil que fosse. Corríamos pelas savanas e, se dependesse de mim, o leão morria de fome; se viesse me atacar, me defendia com minha patada letal: Quero é ver predador resistir. E passei a bramir e também latir, roncar, guinchar e miar, tanto como alerta, como pros rituais de acasalamento. Era tudo verdade, constatou ali mesmo Zeca Biu: a listrada quadrúpede solípedes girava as orelhas em qualquer direção, dormia em pé de dia, alerta total; deitava-se de noite, sob a vigilância dos pares; era desconfiada e temperamentalmente reativa. E mais: a mamífera ungulada corria como uma praga e era celebrada em Botsuana, ornamentava as oferendas na Tailândia e muito prestigiada pelos xamãs e zulus: o equilíbrio entre opostos. E sob o seu símbolo invocava-se a energia espiritual para cura e orientação, a sua pele representava proteção, força e poder. E ela continuou plangente: Fui capturada e levada com outras para um tal de Walter Rothschild, que me treinou para puxar carruagens. Ele não sabia: não sou para montar, nem me sujeito a carregar nada nem ninguém. Fugi e virei pilhéria nos versos do Clive Blake: nasci com código de barras. Pode isso? Fui louvada nas paisagens dos safaris de Hemingway, quando na verdade, vivia o perigo da única hestória de Chimamanda, porque sabia Mia Couto: o racismo inventava a raça. O bom que não tenho úlceras! Mas o lume da pedra me feriu na cerimônia dos ritos de passagem de Paula Tavares. Depois de muitas andanças erráticas, finalmente encontrei este cavalheiresco senhor: foi o glifo na minha garupa que flechou seu coração com o feitiço da nossa paixão. U-la-lá! Quase de mentira, porém verossímil. Zeca Biu impressionou-se: Dava prum enredo maior que o cordel do Pavão Mysterioso. Hum? Estava enfim afeiçoado por ambos. E o que parecia a mais insolente aldrabice duma doidice onírica, atravessou os limites da fábula e invadiu a sua realidade. Ainda hoje Zeca Biu insiste: Não é caraminhola não, viu? Estão lá no meu quintal pra quem quiser comprovar! Até mais ver.

 

Stephenie Meyer: Para mim, é importante ser livre e saber que estou agindo por mim mesma. Faço as coisas porque quero, e isso é importante. Você quer ser você mesmo... Quando se pode viver para sempre, para que se vive?... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Maria Machado: Hoje sabemos que somos nada. Que a vida é o lampejo do cisco. Que o que amamos é infinitamente precioso... Ler é um direito de cada cidadão, não é um dever... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Patricia Churchland: A humildade nos convida a nos aceitarmos como somos; não precisamos ter importância cósmica para sermos verdadeiramente significativos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CELEBRAÇÃO DO CORPO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Amo este meu corpo que viveu a vida, \ seu contorno de ânfora, \ sua suavidade aquosa, \ a profusão de cabelos que coroa meu crânio, \ a taça de cristal do meu rosto, \ sua base delicada que se ergue graciosamente dos ombros e clavículas. \ Amo minhas costas, \ adornadas com estrelas desbotadas, \ minhas colinas translúcidas, \ fontes do meu seio que dão o primeiro sustento da espécie. \ Projeções estriadas, \ cintura móvel, \ recipiente pleno e quente do meu ventre. \ Amo a curva lunar dos meus quadris \ moldada por gestações alternadas, \ a vasta e ondulante redondeza das minhas nádegas; \ e minhas pernas e pés, alicerce e suporte do templo. \ Amo o punhado de pétalas escuras, \ o velo oculto que guarda o misterioso limiar do paraíso, \ a cavidade úmida onde o sangue flui e a água viva brota. \ Este meu corpo doente, \ que supura, tosse e transpira, \ secreta humores, fezes e saliva, \ e se cansa, se exaure e definha. \ Corpo vivo, elo que assegura a infinita cadeia de corpos sucessivos. \ Amo este corpo feito da mais pura argila: \ semente, raiz, seiva, flor e fruto.

Poema da premiada poeta, radialista e editora nicaraguense Daisy Zamora, autora de obras como Tierra de Nadie, Tierra de Todos (2007), The Violent Foam (Curbstone, 2002), Life for Each (Katabasis, 1994), Clean Slate (Curbstone, 1993) e Riverbed of Memory (City Lights, 1992). Ela foi combatente da Frente Nacional Sandinista de Libertação, foi diretora de programação e voz da clandestina Rádio Sandino, e tornou-se Vice-Ministra da Cultura após o triunfo da revolução.

  

PARA SER COMPLETAMENTE HONESTO – [...] Vivemos em uma cultura onde alguém pergunta " como vai?"  e a outra pessoa responde "estou bem". É uma troca automática. Vivemos em um mundo de selfies totalmente filtradas, fotos do Facebook escolhidas a dedo, emoções reduzidas a emojis. Parece seguro e fácil navegar nessas águas mornas e rasas dos relacionamentos, onde não arriscamos nada. Não aprendemos nada. Nunca nos tornamos vulneráveis e perdemos a oportunidade de criar um relacionamento mais significativo. [...] Quando finalmente nos abrimos sobre como realmente nos sentimos, é tentador pedir desculpas logo em seguida, porque parece muito vulnerável, muito honesto. Sentimos culpa por ter essas emoções não tão positivas — mas isso faz parte da experiência humana. Tristeza, decepção e perda são inevitáveis. Observo o mundo ao meu redor e, a cada manhã, parece haver notícias de mais sofrimento. Existem problemas reais, enormes e profundamente preocupantes. Muitos de nós estamos sofrendo e muitos de nós não falamos sobre isso. Mas falar sobre isso é o que mais precisamos. Quando uma amiga me perguntou como eu estava — ela realmente perguntou, olhando profundamente nos meus olhos — eu me joguei em seus braços e desabei em lágrimas no vestiário da academia de ioga. Depois, fiquei tentada a me desculpar pelo meu colapso em público, pela exposição tão aberta das minhas emoções verdadeiras. Mas eu não me arrependi. Então eu enviei isso para ela. E com essa demonstração de gratidão e um emoji de coração, curei um pouco do meu próprio coração. Tudo isso com total honestidade. [...]. Trecho de texto escrito pela escritora, professora e atriz canadense Lisa Jakub, autora dos livros You Look Like That Girl: A Child Actor Stops Pretending and Finally Grows Up (2015) e Not Just Me (2017), nos quais defende que: Nunca é tarde demais para mudar de ideia e se tornar quem você nasceu para ser. Nossa mente pode ser realmente poderosa e capaz de inventar um milhão de razões pelas quais você não pode mudar. Ela pode dizer que não é lógico, ou que as coisas estão assim há muito tempo, ou que é muito difícil, ou o que as pessoas vão pensar. Mas, às vezes, é mais importante viver de acordo com a intuição e o coração do que com a razão... Não há problema em decidir que ser feliz vale mais do que se formar em direito, ou casar com o namorado(a) do ensino médio só porque ele(a) foi legal, ou ser ator porque você acha que é incapaz de fazer qualquer outra coisa. Nunca é tarde demais para assumir o controle do seu destino e dar uma contribuição diferente ao mundo...

 

GUIA DE SOBREVIVÊNCIA A BURACOS NEGROS[...] Buracos negros são uma dádiva, tanto física quanto teoricamente. São detectáveis nos confins do universo observável. Ancoram galáxias, fornecendo um centro para a nossa própria galáxia em espiral e, possivelmente, para todas as outras ilhas de estrelas. E, teoricamente, oferecem um laboratório para a exploração dos confins da mente. Buracos negros são o cenário fantástico ideal para desenvolver experimentos mentais que visam as verdades essenciais sobre o cosmos. [...] Imagine-se um astronauta sozinho no espaço. Nenhum planeta à vista. Nenhuma nave espacial. Nenhuma estrela distante. Nenhuma fonte de luz. Imagine o terror latente, o silêncio do espaço, a estranha sensação de flutuar, a escuridão indescritível entre a profusão de estrelas. [...] Um buraco negro puro é espaço-tempo vazio — sem átomos, luz, cordas ou partículas de qualquer tipo, escuras ou brilhantes. É espaço vazio — ou, na linguagem da física, o vácuo. [...] Os arquitetos originais da mecânica quântica insistiram nessa conservação como um princípio filosófico que merecia respeito. Eles construíram a mecânica quântica para salvaguardar operacionalmente a informação. [...]. Você envia mensagens em vão para ninguém. Mas envie-as mesmo assim. Suas epifanias estão perdidas para sempre na singularidade catastrófica. Mas envie-as, por favor, seus atos de desafio. [...]. Trechos extraídos da obra Black Hole Survival Guide (Bodley Head, 2020), da cosmóloga e professora estadunidense, Janna J. Levin, autora de obras tais como Black Hole Blues and Other Songs from Outer Space (2016), A Madman Dreams of Turing Machines (2007) e How the Universe Got Its Spots: Diary of a Finite Time in a Finite Space (2002). Grande parte de seu trabalho se concentra na busca de evidências que apoiem a proposta de que nosso universo possa ter um tamanho finito devido à sua topologia não trivial, tratando sobre buracos negros e teoria do caos. Veja mais aqui.

 

LIGAS CAMPONESAS & GOLPE DE 1964

[...] Saio desta peleja como entrei nela: pobre [...] Não me deixo conduzir pelas circunstâncias. Prefiro debruçar-me sobre a História para a longa viagem. Por isso, empunho bandeiras. Mas como sou um ser concreto, existo, vivo. Vivo para mim e para o outro, o próximo e o distante. Parto deste princípio para fazer política. [...] Dei um golpe de misericórdia no meu próprio mito. Já era tempo. Passada a refrega, busco a palavra exata. [...] E não encontro. Que aceitem, por favor, a elegância do meu silêncio. [...] A virtude se escondeu envergonhada. E o que se pôs em evidência foi a glória efêmera, alicerçada no sentir do maior contar da língua. [...]

Trechos extraídos da obra Francisco Julião, as Ligas e o Golpe Militar de 64 (Comunigraf, 2004), do jornalista e escritor Vandeck Santiago, narrando sobre as utopias de um homem desarmado, a trajetória do advogado, escritor e político Francisco Julião (Francisco Julião Arruda de Paula – 1915-1999), líder político do movimento camponês das Ligas camponesas, sobre as quais relata: Não fundei a Liga - ela foi fundada por um grupo de camponeses que a levou a mim para que desse ajuda. A primeira Liga foi a da Galileia, fundada a 1º de janeiro de 1955 e que se chamava Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco. Foi um grupo de camponeses com uma certa experiência política, que já tinha militado em partidos, de uma certa cabeça, que fundou o negócio, mas faltava um advogado e eu era conhecido na região. Foi uma comissão à minha casa, me apresentou os estatutos e disse: 'existe uma associação e queríamos que você aceitasse ser o nosso advogado'. Aceitei imediatamente. Por isso o negócio veio bater na minha mão. Coincidiu que eu acabara de ser eleito deputado estadual pelo Partido Socialista e na tribuna política me tornei importante como defensor dos camponeses. Julião é autor de livros como Cachaça (1951), Irmão Juazeiro (1961), O que São as Ligas Camponesas (1962), Até Quarta, Isabela (1965), e Cambão: La Cara Oculta de Brasil (1968), no qual expressa: [...] Se o coração não se agita, o sangue não circula e a vida se apaga. [...] Manda o médico que se agite certos remédios no momento de toma-los. O crime não está em agitar, mas em permanecer imóvel. [...]. Veja mais aqui & aqui.

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CERÚLEO ESCARLATE, DE TCHELLO D'BARROS

Foi recentemente lançado no Rio de Janeiro, o livro Cerúleo Escarlate (Lítteris, 2025), do escritor, jornalista, roteirista e curador Tchello d'Barros. A obra apresenta uma seleção de contos adaptados de seus roteiros de curtas e longas, sendo esta sua primeira incursão na área ficcional, já que tem diversos títulos publicados na área da poesia e da poesia visual. As histórias dialogam com temas que vinham sendo abordados em seus precedentes livros de poesia: um arco temático sobre Amor e Morte, relações humanas, vida amorosa (das diatribes ao sublime) e aspectos inusitados do mundo da arte. O autor realiza ações literárias pelo Brasil e mundo afora, além de seus textos constarem diversas coletâneas, antologias e didáticos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 


YURIKO SAITO, MICERE MUGO, DIANA GABALDON, CATADUPAS & SONHO DA CIGARRA

    Imagem: AcervoLAM . Tenho esperança nas pessoas, nos indivíduos. Porque não se sabe o que vai surgir das ruínas... O perdão de si mesm...