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segunda-feira, maio 09, 2016

ASCENSO, REAY TANNAHILL, ALCEU, ULRIKE MEINHOF, XENIA HAUSNER, ESPERANTINA & GUAZZELLI

MARIA ESPERANTINA, ORGASMO DE UMA NOITE & NUNCA MAIS (Imagem: arte da artista plástica austríaca Xenia Hausner). – Enviuvara há cinco anos, não convolara novas núpcias. Absteve-se, resignada, sua experiência marital não fora das que se diga lá perto do razoável, só privação, sacrifícios, precisões. Homem, sexo e fogão. E ela, quase ninguém. Prazeres ínfimos, quase nenhum. Pernas abertas de plantão: a vontade dele, os horrores dela. Na boquinha da noite, agonia nem anoitecida. Ela, só cansaço, revia-se firme e forte. Tinha de acertar os ponteiros com ele, energia renovada e urgente. Até que gostava, não sentisse tão morta na lama, cuspida na sarjeta. Depois, o suplício: roncos de costas na cama. A aflição de não ser nada, valia nenhuma, apenas objeto de consumo. De manhã, roupas sujas, poeira nos móveis, comida pro dia e uma faca de ponta afiada invisível no coração. Pigarro, bafo de cachaça, desolação. A sua rotina, a vida quase estragada. Maria Esperantina de batismo, Gonzales esponsal. Não mais. Era a caçula entre três, a única sobrevivente. Há cinco anos, o preço da solidão, a liberdade de nada valendo que tanto. Sempre comedida, pudica, quase beata. Não fosse o socorro de Vera naquela manhã desequilibrada, jamais sairia dos seus haveres solitários. Soubera duma cidade, o seu nome. Um dia especial, seria. A promessa de um Apolo sonhado na indicação arrojada de Vera alvoroçada. Abriu-se-lhe uma esperança, nenhum entusiasmo. Apenas aquela esperança de quase nada alcançável. Uma cidade aprazível, província perdida nos rincões do Brasil. Era outono, depois de tantos choros ao pé da porta, uma ponta de riso no canto dos olhos. Desconfiada, continha-se. Não demonstrava desespero, apenas solícita, curiosa. Findaram indo, as duas. Vera acompanhou o trajeto até o lugar, promessa de esbaldar, soltar os demônios, tangas a voar. Ela não, reprimida em si. Vera que fosse. Viu-se enredada, num assalto de surpresa, perdeu o fio da meada. Com a viagem desentoxicava-se, novos ares. Nem dera conta acompanhada num quarto de pousada com um estranho que pouco simpatizara. Como se dera, não sabia. Como pudera, fugiu-lhe o poder. Como que envolvida num estratagema, deixara-se levar. Enjeitara tudo em si, o seu interdito. Quantas novenas noites a fio, agora nada valiam. A voz rouca assustava, rubores de pernas cruzadas. O riso dele era um insulto. Fez figa, segurando a barra do vestido. Na beira da cama, uma mão boba, uma carícia ao braço escapando limites, a queda no colchão. Olhos marejados, resistia. Insistia a vergonha, a culpa, o remorso. Inútil. A mão insistente desabotoava suas vestes, nenhuma palavra, olhos no chão. Desnudada, tudo em cima pros olhos grandes dele e a sua língua lambendo os beiços como quem armou de tocaia a arapuca certeira. Queria só lavar égua, tomaria dela tudo que tivesse. Removeu o sutiã e abocanhou seu seio esganado. Não protestava, nem resistia. Removeu-lhe a calcinha, apenas escondia a fogosa insaciável trancada a sete chaves. Ela só desamparada, pálida e seduzida, aos sobressaltos, mãos no coração. Ele arvorado com pegadas por tudo que era dela: perdeu-se de tudo que era seu, nem mais era, agora nada. Lívida, encarava a judiação. Tomada no abraço, a catinga do macho roubou-lhe os sentidos. Estava tomada, reduzida presa, dominada. Mais resistia e se benzia na autocensura. Engolia o soluço na luz apagada e se preparava para morrer embaixo do cobertor. De novo a lama, não saberia que seria mais dela. Voltava pro nada, desprotegida, seviciada. Domou-lhe os punhos, à força. Fungados na nuca, mordiscados nos ombros, indecências ao ouvido. Arremetidas teimosas invadiam-lhe a carne, a honra suposta e a alma penada. Calcanhares afastados, pernas perdidas, intimidade roubada: possesso com ajeitados bruscos e invasões indesejáveis. Devassidão que pra ela até Deus duvidava, dores nos quartos. Tudo de novo, pro nada. Cavalgava como quem tratava bicho. Apavorada, excitava-se mordendo a fronha do travesseiro. Os seus segredos se revelaram, perdia-se, rendeu-se ao que podia de prazer. Enlouquecida, largou-se ao paroxismo. E gemeu num gozo demorado, a primeira vez do orgasmo em cinquenta e três anos de vida. Possuída, dilacerada, sentiu-se feliz de verdade pela primeira vez, pelo menos. A tortura de sempre, agora mais que um gozo, prazeres. Esta noite e nunca mais. Nunca mais o que era antes, nunca mais virá depois. Arrependida, juntou os trapos que lhe restara, quase nada de si. Sentira-se ninguém, mais que nada. Como sempre, depois de consumado, só restara ir embora. Ele se foi, que se vá. Não haverá próxima vez, insistia. Apaziguada com o recuo e, depois, a saída desarmada do adversário, sentiu o alívio de quem se libertara do que não sabia. Havia sido invadida, ultrajada, agora não mais. Não haverá outra vez. De volta pra casa, determinada. Era outra vida agora. Não mais passado nem lembranças. Às cinco da tarde, o silêncio caiu: trinado do telefone. Disposta, não arredara o pé. Não mais, resistente. Nunca mais. Meia hora depois, toda prendada no quarto do intruso. A nudez refeita, entregou-se rendida. Tudo outra vez, permitiu-se. Era ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

Imagem: Trem das Alagoas, ilustração do premiado ilustrador e quadrinista Guazzelli (Eloar Guazzelli Filho). Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum ao vivo Oropa, França e Bahia (BMG/Ariola, 1988), do cantor e compositor Alceu Valença. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PESQUISA
O sexo na história (Francisco Alves, 1980), da historiadora e escritora britânica Reay Tannahill (1929-2007). Veja mais aqui.

LEITURA 
Hoje é dia poeta Ascenso Ferreira (1895-1965).
Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Protesto é quando eu digo que algo me incomoda. Resistência é quando eu me asseguro que aquilo que me incomoda nunca mais acontecerá [...] Como Auschwitz foi possível? O que era o antissemitismo na Alemanha? Usou-se o ódio do povo à sua dependência pessoal do dinheiro, como uma maneira de troca, sua busca pelo comunismo. Auschwitz significa que seis milhões de judeus foram assassinados e jogados em aterros sanitários pela Europa, por serem aquilo que lhes foi apontado ser - Dinheiro-Judeus. O que aconteceu foi que o capital financeiro, a elite e os bancos, o núcleo do sistema do capitalismo e do imperialismo, desviou a atenção e o ódio do povo de si mesmo para os judeus.
Palavras da jornalista, escritora, ativista e guerrilheira alemã Ulrike Marie Meinhof (1934-1976), encontrada morta enforcada com uma corda improvisada de uma toalha, no dia 09 de maio de 1976, durante os festejos do Dia das Mães, na Alemanha. Investigações oficiais dão conta de que fora suicídio, mas o laudo foi contestado por acusações públicas com massivas demonstrações de protesto pelo assassinato. Décadas depois veio à tona a notícia de que o cérebro dela havia sido retirado pelos patologistas, sem conhecimento da família e conservado durante 26 anos em formol para estudos no hospital de Magdeburg. Dela ainda pode ser encontrado o filme Bambule (1970), que foi roteirizado por ela e que fala sobre a vida de jovens mulheres num reformatório, como também o filme Ulrike Marie Meinhoh (1994), dirigido por Timom Koulmasis.

Veja mais Ascenso Ferreira, Alexander Scriabin, Ortega y Gasset, Wilhelm Reich, Esperantina & o Orgasmo, Renato Alarcão & Pablo Garat aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte da artista plástica austríaca Xenia Hausner.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

quarta-feira, novembro 18, 2015

DONNE, VĀTSYĀYANA, MALFATTI, ALAN MOORE, BURNOUT, GERONTODRAMA, KAMA SUTRA & ORGASMO!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SÍNDROME DE BURNOUT & O PROFESSOR – Um dos fenômenos que tem causado maiores prejuízos aos trabalhadores é a Síndrome de Burnout, enfermidade resultante das adversidades estressoras que acometem todo aquele no desempenho de suas atividades profissionais, não poupando o trabalho árduo e persistente de professores no âmbito escolar. Descoberta nos anos de 1970, pelo psicólogo estadunidense Herbert Freudenberg, ao descrever como consequência de excesso de expectativas e alto nível de estresse sofrido por profissionais que se envolviam no atendimento de terceiros, sendo identificada como uma reação orgânica às pressões incidentes nas relações e atividades trabalhistas. Ela aparece quando o profissional se sente pressionado, levando-o a sentir-se vazio e exausto, até chegar ao esgotamento psicológico, impedindo de lidar com as atividades laborais. Entre os seus sintomas estão o estresse, queda de cabelo, dor de estomago, enxaqueca, sudorese, taquicardia, palpitações, medo, condição arredia, angústia, apatia, úlcera, hipertensão, dores de cabeça, insônia, consumo exagerado de medicamentos e álcool, e sensação de impotência para realização da atividade laboral. Entre os problemas mais constantes para os acometidos pela enfermidade estão aqueles de natureza cognitiva, acrescidos de queda no desempenho, problemas de relações interpessoais que levam ao retraimento, a ausência de cuidados pessoais, as preocupações com o trabalho fora dele, satisfação reduzida, entre outros problemas de saúde oriundos do estresse crônico, como complicações digestivas e intestinais, problemas cardíacos, obesidade e depressão. Um sinal marcante dessa doença é a falta de motivação que ocorre quando não há mais entusiasmo para realização de suas atividades, apresentando-se desmotivado e sem forças para enfrentar suas atribuições, além de frustração, cinismo e emoções negativas. Entre as categorias profissionais mais atacadas por essa síndrome estão os professores pelas interações individuais com o seu ambiente de trabalho, incluindo nessas variáveis a experiência de maior número de alunos com diferentes condições de ensino-aprendizagem, passando a ser o trabalho de alta exigência com baixa possibilidade de controle, altas expectativas de resultados e incidência de fracasso do público assistido. A escola precisa desenvolver fatores de proteção e promover entre os docentes estratégias de prevenção que envolvam atividades de relaxamento, meditação, dormir suficiente, exercícios físicos e caminhadas, lazer, leituras, atividades voluntárias e culinárias, tempo livre para o ócio criativo, entre outras recomendações. Dessa forma, faz-se necessário combater a exaustão e o esgotamento, a perda de estímulo e a desmotivação, a baixa realização e o fracasso profissional, esses os sintomas principais dos vitimados pela Síndrome de Burnout. Nesse sentido, a escola pode desempenhar um papel fundamental de forma preventiva e promovendo a melhoria da qualidade de vida de seus professores, tornando o ambiente profissional mais qualitativo, harmonioso e integrando profissionais docentes e não docentes, corroborando a realização de treinamentos e debates com todos, investindo na qualificação e na infraestrutura, facilitando a comunicação entre os obreiros e reconhecendo a qualidade do corpo discente. Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Nu com jarro, da pintora, desenhista, gravadora e professora Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui.


Curtindo A Frog He Went A-Courting (1941) / Sonata for Solo Cello op. 25 nº 3 (1922) / Three Pieces for Cello & Piano op. 8 (1917) / Sonata for Cello & Piano op. 11 no. 3 (1919), do compositor alemão Paul Hindemith, com Judith Ermert (cello), Daan Vandewalle (piano).

ORGASMO – O livro O lado obscuro e tentador do sexo (Ágora, 2004), da jornalista e educadora sexual Patrícia do Espírito Santo, trata de temas como a virtude e o pecado, o sagrado e o profano, o erótico e o macabro, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho Orgasmo: Os franceses chamam o orgasmo de la petit mort – a pequena morte. Isso tem um motivo. Cada um tem seu jeito de chegar ao ápice do prazer. Existem muitas fantasias sobre seus efeitos e informações distorcidas de como deve acontecer. A intensidade, a frequência e as sensações decorrentes dele dependem de cada um, da relação com o parceiro, do tesão, da visão que se tem do sexo. Mas o que associa a sensação do orgasmo à sensação da morte é o fato de que ao se alcançar a plenitude do sexo, tudo pode terminar: nada mais falta, nada mais importa. É o êxtase. A astrologia traz também uma ideia similar. A casa oito, é a casa da morte, da crise, das transformações e ainda do sexo. O sexo é a porta para a união cósmica, o meio de se chegar à libertação, à união com o amado, seja ele a vida, o deus, o mestre sem fronteiras. É onde há a integração de um com o outro, por isso ela tem a ver com a relação sexual. É nela que o relacionamento se aprofunda ou morre, onde os valores podem ser transformados e muitas vezes precisam ser destruídos. É um local de intensidade e poder. Por isso é a casa da morte, para que um novo ciclo se inicie. Simboliza a morte da personalidade, do ego e o nascimento da alma. É a casa de Plutão, correspondente ao deus Hades da mitologia grega, senhor da morte. Vivemos em ciclos, em constante transformação, entre vidas e mortes. Nosso corpo de criança adolesce, amadurece e envelhece. Se o curso natural for seguido, o homem morre quando atinge o máximo de sua competência. Desaparece quando soma um número imensurável de conhecimento? Fim de ciclo? O ser humano maduro dá lugar ao jovem por meio da procriação e do repasse de seus conhecimentos e habilidades; a morte dos mais velhos abre espaço para outras visões e para o desenvolvimento de novas ideias, muitas vezes baseadas nas antigas. Esse é o princípio da cultura; o cruzamento de gerações favorece a transmissão cultural. E é exatamente pelas obras, pelas contribuições para esta cultura, pelas ideias deixadas no mundo que o individuo se imortaliza. Veja mais aqui e aqui.

A FORÇA DO DESEJO E DA PAIXÃO – No livro Kama Sutra (Kamasutram - L&PM, 2013), do filósofo indiano de tradição Carvaka e Lokyata que viveu entre os séculos IV e Vi aC., Vātsyāyana, trata é um antigo texto sobre comportamento sexual humano considerado o trabalho definitivo sobre amor na literatura sânscrita. Kama é a literatura do desejo e Sutra é o discurso de uma série de aforismo, sendo um padrão para texto técnico, traduzido como Aforismos sobre o amor. Da obra destaco o trecho sobre a força do desejo e da paixão: [...] Há nove tipos de união de acordo com a força da paixão ou do desejo carnal [...] Diz-se que um homem é de pequena paixão quando o seu desejo no momento da união sexual não é grande, cujo sêmen é escasso e que não consegue tolerar os abraços ardentes da mulher. Os que têm temperamento diferente desse são chamados de homem de média paixão, enquanto os homens de paixão intensa são cheios de desejo. Da mesma forma, as mulheres devem demonstrar esses três graus de sensações. Por último, há três tipos de homens e de mulheres de acordo com o tempo, ou seja, os de tempo curto, os de tempo moderado e os de tempo longo. Como nas divisões anteriores, há também nove tipos de união. [...] Pela união com homens, a luxuria, o desejo ou a paixão de uma mulher são satisfeitos, e o prazer derivado da consciência do desejo é chamado de satisfação. [...] Pode-se dizer que, se a maneira de agir de homens e mulheres é diferente, não há motivo para não haver diferença tanto no prazer que eles sentem quanto no resultado dos seus atos. [...] Quando são mesma natureza, homens e mulheres sentem o mesmo tipo de prazer; assim o homem deve casar com essa mulher, que o amará para sempre. Comprovando-se que o prazer de homens e mulheres é do mesmo tipo, segue-se que, no tocante ao tempo, há nove espécies de ato sexual, da mesma forma que há nove intensidades conforme a força da paixão. Inúmeros tipos de união podem existir ao se considerar as combinações possíveis entre os nove tipos de união de acordo com a dimensão, a força da paixão e o tempo. Por isso, os homens devem usar os meios adequados para cada tipo específico de união sexual. Na primeira união sexual, a paixão do homem é intensa e o seu tempo é curto, mas nas uniões subsequentes no mesmo dia ocorre o inverso. Com a mulher, acontece o contrário, já que, na primeira vez, a sua paixão é fraca e, por isso, o seu tempo é longo. Porém, nas relações subsequentes no mesmo dia, a sua paixão é intensa e o seu tempo é curto, até que a sua paixão seja satisfeita. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ELEGIA: INDO PARA O LEITO & CONSTÂNCIA FEMININA – Estre os poemas do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631), destaco inicialmente Elegia: indo para o leito, traduzido por Augusto de Campos: Vem, dama, vem que eu desafio a paz; até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor que se derrama de ti a mim, dizendo: hora da cama. Tira o espartilho, quero descoberto o que ele guarda quieto, tão de perto. O corpo que de tuas saias sai é um campo em flor quando a sombra se esvai. Arranca essa grinalda armada e deixa que cresça o diadema da madeixa. Tira os sapatos e entra sem receio nesse templo de amor que é o nosso leito. Os anjos mostram-se num branco véu aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu de Maomé. E se no branco têm contigo semelhança os espíritos, distingo: o que o meu Anjo branco põe não é o cabelo mas sim a carne em pé. Deixa que minha mão errante adentre. Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre. Minha América! Minha terra a vista, reino de paz, se um homem só a conquista, minha Mina preciosa, meu império, feliz de quem penetre o teu mistério! Liberto-me ficando teu escravo; onde cai minha mão, meu selo gravo. nudez total! Todo o prazer provém de um corpo (como a alma sem corpo) sem vestes. As joias que a mulher ostenta são como as bolas de ouro de Atalanta: o olho do tolo que uma gema inflama ilude-se com ela e perde a dama. Como encadernação vistosa, feita para iletrados a mulher se enfeita; mas ela é um livro místico e somente a alguns (a que tal graça se consente) é dado lê-la. Eu sou um que sabe; como se diante da parteira, abre-te: atira, sim, o linho branco fora, nem penitência nem decência agora. Para ensinar-te eu me desnudo antes: a coberta de um homem te é bastante. Também o poema Constância feminina: Agora já me amaste por um dia inteiro. / Amanhã, quando partires, o que dirás? / Irás antedatar algum voto mais recente? / Ou dizer que, agora, / Já não somos exactamente os mesmos de antes? / Ou que as juras, feitas por medo reverencial / Ao Amor e à sua ira, se podem renegar? / Ou, como veras mortes desligam veros casamentos, / A imagem destes, os contratos dos amantes / Unem só até que o sono, imagem da morte, os separe? / Para justificar teus próprios fins, / Tendo proposto mudança e falsidade, não terás tu / Outro meio senão a falsidade para seres sincera? / Lunática vã, contra tais evasivas eu poderia / Argumentar e ganhar, se quisesse, / O que me abstenho de fazer / Porque, amanhã, poderei vir a pensar como tu. Veja mais aqui , aqui e aqui.

ESPONTANEIDADE & GERONTODRAMA – No livro Gerontodrama, a velhice em cena: estudos clínicos e psicodramáticos sobre o envelhecimento e terceira idade (Ágora, 1998), de Elisabeth Maria Sene Costa, aborda questões atinentes ao conceito etimológico e significado da palavra velho e similares, envelhecimento e seus conceitos cronológicos, fisiológicos e pessoal – aspectos biopsicossociais da velhice, gerontodrama, instrumentos, etapas, recursos psicodramáticos utilizados, teoria da espontaneidade, teoria sociométrica, expansividade emocional, teoria do papel, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho da teoria da espontaneidade, criatividade e conserva cultural: Tanto a saúde do individuo como a de todo o grupo se devem fundamentalmente, para Moreno, à saúde da espontaneidade. Para ele, espontaneidade atua no presente, aqui e agora. Embora seja a mais antiga em termos universais e na evolução, é a força menos desenvolvida nas pessoas e, frequentemente, inibida e desencorajada pelas instituições culturais. A espontaneidade, como enfatiza Moreno, não está concentrada em reservatório; não é quantificável. Ela é (ou não) disponível e se revela no exato instante em que o individuo dela necessita e de acordo com a exigência da circunstância. Sua resposta deve variar segundo o grau de intensidade do estimulo numa escala que vai de zero ao máximo. É a imagem moreniana da lâmpada que, quando se acende, a tudo ilumina. Se é apagada, todas as coisas permanecem no mesmo local, mas a qualidade luminosa (espontaneidade) desaparece. Segundo esse pressuposto não se deveria pensar que a espontaneidade diminui com o passar dos anos. Entretanto, o que parece ocorrer é que, à medida que se envelhece, as conservas culturais vão se tornando mais evidentes e com isso vai havendo, automaticamente, um movimento de restrição ao surgimento da espontaneidade. É como se não existisse espaço para a sua manifestação, preenchido pelas conservas. [...]. Veja mais aqui e aqui.

EROS, O DEUS DO AMOR – O premiado drama Eros o deus do amor (1981), dirigido pelo cineasta Walter Hugo Khouri, conta a história de um paulistano de meia-idade que declara seu amor e ódio pela cidade de São Paulo. Por intermédio da atual amante, relembra os casos amorosos e as mulheres que passaram por sua vida: a mãe desejada; a professora de inglês com quem, em 1945, envolveu-se sexualmente; o fascínio de criança por uma jovem líder comunista; a empregada que cuidava dos cavalos de sua mãe; uma colegial virgem; a amante masoquista; duas prostitutas; a astrônoma que lhe falou da infinitude do universo; a japonesa de um bordel da Liberdade e a professora que lhe instigou o apreço pelas ideias platônicas: “A história de um homem insaciável à procura do prazer total”. O filme venceu nas categorias de melhor atriz para Norma Bengell, Renée de Vielmond e Dina Sfat, melhor diretor e melhor filme. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escritor e quadrinista britânico Alan Moore. 
Veja mais aqui.


sábado, maio 09, 2015

MARY MELLOR, ANAÏS NIN, ASCENSO, REICH & A SANTA FREIRA

 


A SANTA FREIRA - Luisa era Maria e atendi o seu convite ao convento d'Ambrogio, uma instituição de reputação, exclusivamente feminino habitado por freiras franciscanas. Havia ela assumido o lugar da abadessa fundadora Mariagna, que havia sido acusada de envolvimentos espúrios, falsos milagres e rumorosos escândalos, sendo condenada por obscenidade e santidade fingida. Ela recepcionou-me com um longo vestido preto decotado que realçavam seus robustos seios, com saia com dois recortes que destacavam suas coxas abundantes e sensuais, preocupada com a mancha na imagem do Vaticano, adiantando-se por me explicar que se tratavam de atos espirituais, mas que um falso padre alcaguete denunciou equivocadamente por lascivos, corroborado pela princesa duas vezes viuva Katharina, tão pudica quanto fervorosa, a alardear ao inquisidor. Pura invencionice, um jogo de interesses, um estratagema sobrecarregado de blasfêmias inescapáveis, que envolviam clérigas e noviças. Estava ela um tanto nervosa, levou-me à alcova e segredou-me acusações de heresia e outros crimes, o que havia desestabilizado sua administração e deixando-a encurralada com tal situação. Não deixei de vê-la estonteantemente exuberante com o frescor dos seus 27 anos, venerada por todos que sabiam de seus poderes milagrosos, inclusive eu, seu fiel confidente. Líamos o evangelho de Madalena, discutíamos a liberdade e, também, sobre a necessidade de evolução humana: amar jamais fora pecado, os religiosos sectários que, por serem invejosos e infelizes, não aceitavam a felicidade dos que amava. Pouco importava seu passado sombrio, se ela desafiava os códigos morais, apenas era o amor e, por isso, fora acusada de envenenamentos, heresias e outros abusivos crimes dentro do convento. Tudo mentira, mas as consequências foram explosivas e levaram-na à irreversível queda. O conservadorismo vencia, aplacava tudo que fosse vida, como sempre. Tentei protegê-la o quanto pude, não era páreo para poderosos. Fiz o que pude, solidário. E ela desapareceu sobrecarregada pela incompreensão humana, deixou-me lembranças inesquecíveis: sabia eu todos os segredos daquela verdadeira santa viva e herege. Veja mais aqui, aqui & aqui.



 

DITOS & DESDITOS - Os sonhos são necessários para a vida... Jogue seus sonhos no espaço como uma pipa, e você não sabe o que isso trará de volta, uma nova vida, um novo amigo, um novo amor, um novo país... A posse do conhecimento não mata o sentido de maravilha e mistério. Há sempre mais mistério... Nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos... Pensamento da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Nunca desperdice uma boa crise... Pensamento da acadêmica e ativista britânica, Mary Mellor, que no seu estudo Feminism & Ecology (New York Univerity Press, 1997), ela expressa que: [...] O ecofeminismo é um movimento que vê uma conexão entre a exploração e degradação do mundo natural e a subordinação e opressão das mulheres. Ele surgiu em meados da década de 1970, junto com o feminismo de segunda onda e o movimento verde. O ecofeminismo reúne elementos dos movimentos feminista e verde, ao mesmo tempo em que oferece um desafio a ambos. Ele tira do movimento verde uma preocupação sobre o impacto das atividades humanas no mundo não humano e do feminismo a visão da humanidade como generificada de maneiras que subordinam, exploram e oprimem as mulheres. [...]. Já no seu livro Debt or Democracy: Public Money for Sustainability and Social Justice (Pluto Press, 2015), ela expressa que: […] Existem dois circuitos monetários nas economias contemporâneas, um circuito de dinheiro público e um circuito de dinheiro comercial. Ambos criam e circulam a moeda pública. A diferença entre eles é que um é baseado em dívida, o outro não. [...] O Estado deixou de ser o principal criador de dinheiro público para se tornar uma "dona de casa" suplicante [...].

 

 LA REBELIÓN DE LAS MASAS – Este livro foi um presente do meu amigo espanhol radicado em Pernambuco, José Duran y Duran. Trata-se da obra La rebelión de las masas (A rebelião das massas – Espasa-Calpe, 1964), do filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), autor da célebre frase: "Debaixo de toda vida contemporânea se encontra latente uma injustiça”. O livro trata de temas como o fato das aglomerações, a ascensão do nível histórico, a altura dos tempos, o crescimento da vida, um dado estatístico, começa a dissecação do homem-massa, vida nobre e vida vulgar ou esforço e inércia, porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente, primitivismo e técnica, primitivismo e história, a época do “mocinho satisfeito”, a barbárie do “especialismo”, o maior perigo: o Estado, quem manda no mundo: desemboca-se na verdadeira questão, quanto ao pacifismo, dinâmica do tempo, as vitrinas mandam, juventude, masculino e feminino, entre outros importantes assuntos. Da obra destaco o trecho: Há um fato que, para bem ou para mal, é o mais importante na vida pública européia da hora presente. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. Como as massas, por definição, não devem nem podem dirigir sua própria existência, e menos reger a sociedade, quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos, nações, culturas, cabe padecer. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. Também se conhece seu nome. Chama-se a rebelião das massas. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar, desde já, às palavras “rebelião”, “massas”, “poderio social”, etc. um significado exclusivo ou primariamente político. A vida pública não é só política, mas, ao mesmo tempo e ainda antes, intelectual, moral, econômica, religiosa; compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual, sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara.  Simplicíssima de enunciar, ainda que não de analisar, eu a denomino o fato da aglomeração, do “cheio”. As cidades estão cheias de gente. As casas cheias de inquilinos. Os hotéis cheios de hóspedes. Os trens, cheios de viajantes. Os cafés, cheios de consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. As salas dos médicos famosos, cheias de enfermos. Os espetáculos, desde que não sejam muito extemporâneos, cheios de espectadores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não era problema, começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. Nada mais. Há fato mais simples, mais notório, mais constante, na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação, e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado, onde a branca luz do dia, deste dia, do presente, se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão, como tal, possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. Apenas refletimos um pouco, nos surpreendemos de nossa surpresa. Mas quê, não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem; portanto, para que a sala esteja cheia. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. Sim; não há dúvida. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios, e agora transbordam, fica fora gente afanosa de usufruí-los. Embora o fato seja lógico, natural, não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim; portanto, que houve uma mudança, uma inovação, a qual justifica, pelo menos no primeiro momento, nossa surpresa. Surpreender-se, estranhar, é começar a entender. E o esporte e o luxo específico do intelectual. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. Isso, maravilhar-se, é a delícia vedada ao futebolista e que, ao contrário, leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. Seu atributo são os olhos em pasmo. [...] A aglomeração, ou cheio, antes não era freqüente. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. Aproximadamente, o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. Aqui topamos, entretanto, com a primeira nota importante. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam, mas não como multidão. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos, ou solitários, levavam uma vida, pelo visto, divergente, dissociada, distante. Cada qual – indivíduo ou pequeno grupo – ocupava o lugar, talvez o seu, no campo, na aldeia, na vila, no bairro da grande cidade. Agora, de repente, aparecem sob a espécie de aglomeração, e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. Por toda a parte? Não, não; precisamente nos lugares melhores, criação realmente refinada da cultura humana, reservados antes a grupos menores, em definitiva, a minorias. A multidão, de repente, tornou-se visível, e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Antes, se existia, passava inadvertida, ocupava o fundo do cenário social; agora adiantou-se até às gambiarras, ela é o personagem principal. Já não há protagonistas: só há coro. O conceito de multidão é quantitativo e visual. Traduzamo-lo, sem alterá-lo, à terminologia sociológica. Então achamos a idéia de massa social. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por massas só nem principalmente “as massas operárias”. Massa é “o homem médio”. Deste modo se converte o que era meramente quantidade – a multidão – numa determinação qualitativa: é a qualidade comum, é o mostrengo social, é o homem enquanto não se diferencia de outros homens, mas que repete em si um tipo genérico. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. E evidente, até acaciano, que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos, idéias, de modo de ser nos indivíduos que a integram. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social, por seleto que pretenda ser. Com efeito; mas há uma diferença essencial. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Imagem: Orgasmo, do designer gráfico e ilustrador Renato Alarcão.

Ouvindo o poema sinfônico Le Poeme De L'Extase, Op. 54 (1905-1908, Deutsche Grammophon), do compositor e pianista russo Alexander Scriabin (1872-1915), com a Boston Symphony Orchestra sob a regência de do maestro Claudio Abbado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

EU VOLTAREI AO SOL DA PRIMAVERA – O livro Eu voltarei ao sol da primavera (Fundação Hermilo Borba Filho/SE-PE/Depto. Cultura, 1985), do do poeta modernista Ascenso Ferreira (1895-1956), organizado por Jessiva Sabino de Oliveira, reúne sonetos e outros poemas do autor, entre os quais destaco Banquete de Beijos (I): Dos beijos ao banquete apaixonado / em sonhos o amor levou-me um dia. / Ah! Foi tão doce o gozo que eu fruia! / Ah! Foi tão doce e tão alcandorado, / que me julguei, por certo, transportado / nas asas do prazer e da alegria / às sublimes regiões onde apoesia / edificou seu fúlgido reinado. / Na taça do prazer e da ternura, / taça dos lábios cheios de doçura / de uma donzela, o símbolo do pejo / eu fruia do amor e da paixão / o néctar, que suaviza o coração / - Supremo néctar que oferece o beijo. (II): Tudo era puro, santo e sublimado, / em tudo se notava essa magia / tão suave, que ao meu ver só existia / no céu deista tão glorificado. / Muitos convivas via do meu lado / no meio da puraza desta orgia / também sorvendo o néctar que eu sorvia, / - Néctar do amor, nos beijos encarnado. / Sim, foi tão doce, tão divina e pura / deste meu sonho a mágica ventura / que de outra igual jamais eu tive ensejo. / Sim; foi tão doce a minha sensação, / que eu inda guardo a sã recordação / desse banquete mágico de beijos. Também o seu Estrelas é meritório de destaque: Em mil constelações, estrelas luminosas / espagerm-se no céu a brilhar, a brilhar... / Reflete-se em meu dorso o portentoso mar, / que na praia desfaz-se em ondas espumosas. / Sentindo o perpassar das brisas rumorosas / e as estrelas fitado, eu começo a exclamar: / “Quem m´as dera a prender! Quem m´as dera pegar! / Ao menos conseguir uma entre as mais formosas! / Ouvindo-me falar, diria alguém assim: / “P´ra que queres pegar uma estrela formosa? Não vês que elas de nós estão léguas sem fim?” / Mas eu responderia: “Eu quisera prendê-las / somente p´ra adornar a fronte luminosa / de uma Estrela terra, estrela entre as estrelas”. Veja mais  aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O ORGASMO DE ESPERANTINA – Numa cidade da região Norte do Piauí, no Baixo Parnaíba, distante 180 quilômetros da capital, denominada Esperantina, que desde 1943 deixou de ser Boa Esperança, há uma comemoração para lá de ótima. A população esperantinense, segundo IBGE 2010, de 37.765 habitantes, comemora no dia de hoje o seu Dia do Orgasmo, depois que uma lei municipal decretou: “Fome Zero, Orgasmo Dez”. Imagino como será a comemoração! U-hu! O Piauí já é quente, dá pra sentir o calor na bacorinha. O projeto do vereador proposto no início dos anos 2000, virou polêmica na cidade, ganhando as páginas dos principais jornais do Brasil. Instado pela imprensa nacional, o vereador informou que o propósito de tal comemoração é levar a educação sexual a todos os recantos da cidade. Como o poeta Manuel Bandeira queria ir pra Pasárgada, eu que sou um poeta menor tão ínfimo bem miúdo, quero é ir pra Esperantina! Veja mais aqui.

A FUNÇÃO DO ORGASMO – O livro A função do orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica (Brasiliense, 1975), do médico, psicanalista e cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957), trata da descoberta do orgônio, a biologia e a sexologia antes de Freud, Peer Gynt, lacunas na psicologia e na teoria do sexo, o prazer e o instinto, sexualidade genital e não genital, fundação do seminário de técnica psicanalítica de Viena, dificuldades psiquiátricas e psicanalíticas na compreensão da enfermidade psíquica, o desenvolvimento da teoria do orgasmo, suplemente a ideia freudiana da neurose de angustica, potência orgástica, a extase sexual: fonte de energia das neuroses, análise do caráter, dificuldades e contradições, a economia sexual da angústica neurótica, a couraça do caráter e a estratificação dinâmica dos mecanismos de defesa, destruição, agressão, sadismo, o caráter genital e o caráter neurótico, o principio de auto-regulagem, revolução biológica abortada, a higiene mental e o problema da cultura, origem social da repressão, o irracionalismo fascista, a irrupção no campo biológico, a solução do problema do masoquismo, o funcionamento de uma bexiga viva, a antítese funcional de sexualidade e angustia, energia biopsiquica, a fórmula do orgasmo, a tensão, a carga, descarga, relaxação, prazer (expansão) e angustia (contração), antítese principal da vida vegetativa, o reflexo do orgasmo e a técnica da vegetoterapia de análise do caráter, a atitude muscular e a expressão corporal, a tensão abdominal, o reflexo do orgasmo, o estabelecimento da respiração natural, a mobilização da pélvis morta, enfermidades psicossomáticas típicas e resultados da simpaticotonia crônica, psicanalise e biogênese, a função bioelétrica do prazer e da angustia, solução teórica do conflito entre mecanismo e vitalismo, a energia biológica é energia do orgônio atmosférico (cósmico). Da obra destaco o seguinte trecho: [...] Até 1923, ano em que nasceu a teoria do orgasmo, apenas as potências ejaculativa e eretiva eram conhecidas da sexologia e dos psicanalistas. Sem a inclusão dos componentes funcionais, econômicos e experimentais, o conceito de potência sexual não teria existido. Potência eretiva e ejaculativa eram apenas pré-condições indispensáveis da potência orgástica. Potência orgástica é a capacidade de abandonar-se, livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo. 
Nem um único neurótico é orgasticamente 'potente, e as estruturas de caráter da esmagadora maioria dos homens e mulheres são neuróticas. No ato sexual livre de angústia, de desprazer e de fantasias, a intensidade de prazer no orgasmo depende da quantidade de tensão sexual concentrada nos genitais. Quanto maior e mais abrupta é a "queda" da excitação, tanto mais intenso é o prazer. A seguinte descrição do ato sexual orgasticamente satisfatório refere-se apenas ao desenvolvimento de algumas fases e modos de comportamento típicos e naturalmente determinados. Não levei em conta o prelúdio biológico, determinado pelas necessidades individuais, e que não apresenta um caráter universal. Além do mais devemos observar que os processos bioelétricos da função orgástica não foram explorados e, portanto, esta descrição é incompleta. Fase de controle voluntário da excitação 1. A ereção não é dolorosa como no caso do priapismo, espasmo da região pélvica ou do duto espermático6. É agradável. O pênis não está superexcitado, como após um período prolongado de abstinência ou em casos de ejaculação prematura. O genital feminino torna-se hiperêmico e úmido de forma específica, pela profusa secreção das glândulas genitais; isto é, no caso de funcionamento genital não perturbado, a secreção tem propriedades químicas e físicas que faltam quando a função genital está perturbada. Uma característica importante da potência orgástica masculina é o desejo de penetrar. Podem ocorrer ereções sem esse desejo, como em certos caracteres narcisistas eretivamente potentes, e na satiríase. 2. O homem e a mulher mostram-se ternos um para com o outro; não há impulsos contraditórios. São os seguintes os desvios patológicos desse comportamento: agressividade proveniente de impulsos sádicos, como em alguns neuróticos compulsivos eretivamente potentes, e inatividade do caráter passivo-feminino. A ternura também está ausente no "coito onanista" com um objeto não amado. Normalmente a atividade da mulher não difere de modo algum da do homem. A passividade da mulher, embora comum, é patológica e resulta habitualmente de fantasias masoquistas de violação. 3. A excitação agradável, que permaneceu mais ou menos no mesmo nível durante a atividade do anteprazer, aumenta subitamente em ambos, no homem e na mulher, com a penetração do pênis na vagina. O sentimento do homem de "estar sendo absorvido" é o corresponde do sentimento da mulher de "estar absorvendo" o pênis. 4. Aumenta o desejo do homem de penetrar mais profundamente, mas não assume a forma sádica de "querer transpassar" a mulher, como ocorre no caso dos caracteres neuróticos compulsivos. Pela fricção mútua, gradual, rítmica, espontânea e sem esforço, a excitação vai-se concentrando na superfície e na glande do pênis, e nas partes posteriores da membrana mucosa da vagina. A sensação característica que precede e acompanha a descarga do sêmen está ainda totalmente ausente (não nos casos de ejaculação prematura). O corpo ainda está menos excitado que o genital. A consciência está inteiramente dirigida para a assimilação das sensações ondulantes de gozo. O ego participa ativamente, na medida em que tenta explorar todas as possíveis fontes de prazer e atingir o mais alto grau de tensão antes do momento do orgasmo. Intenções conscientes obviamente não têm lugar aqui.  
Tudo acontece espontaneamente com base nas experiências de anteprazer individualmente diferentes, por uma mudança de posição, pela natureza da fricção, pelo ritmo, etc. Segundo a maior parte dos homens e mulheres potentes, quanto mais lentas e delicadas são as fricções, e mais estreitamente sincronizadas, mais intensas são as sensações de prazer. Isso pressupõe um alto grau da afinidade entre o homem e a mulher. Um correspondente patológico disso é o desejo de fazer fricções violentas, especialmente pronunciado nos caracteres sádicos compulsivos que sofrem de anestesia do pênis e da incapacidade de descarregar o sêmen. Outro exemplo é a pressa nervosa dos que sofrem de ejaculações prematuras. Os homens e mulheres orgasticamente potentes nunca riem ou falam durante o ato sexual exceto, possivelmente, para trocar palavras de carinho. Falar e rir indicam sérias perturbações da capacidade de entregar-se; entregar-se pressupõe completa concentração na ondulante sensação de prazer. Os homens que sentem o entregar-se como "feminino" são sempre orgasticamente perturbados. 5. Nesta fase, a interrupção da fricção é em si mesma agradável por causa das sensações especiais de prazer que acompanham essa pausa, e não exigem esforço psíquico. Dessa forma, prolonga-se o ato. A excitação diminui um pouco durante a pausa. Não desaparece inteiramente, entretanto, como nos casos patológicos. A interrupção do ato sexual pela retração do pênis não é desagradável na medida em que ocorra após uma pausa tranqüila. Ao continuar a fricção, a excitação aumenta firmemente além do nível anteriormente atingido. Toma gradualmente, mais e mais, posse do corpo inteiro, enquanto o próprio genital mantém um nível mais ou menos constante de excitação. Finalmente, como resultado de um novo aumento habitualmente repentino de excitação genital, inicia-se a fase de contração muscular involuntária. Fase de contrações musculares involuntárias 6. Nesta fase, o controle voluntário do desenvolvimento da excitação não é mais possível. Apresenta os seguintes traços característicos: a) O aumento da excitação não pode mais ser controlado; antes, a excitação domina a personalidade total e causa uma aceleração do pulso e uma exalação profunda. b) A excitação física torna-se cada vez mais concentrada no genital; ocorre uma suave sensação que se pode descrever melhor como um eflúvio de excitação do genital para outras partes do corpo. c) Em primeiro lugar, essa excitação causa contrações involuntárias de toda a musculatura das regiões genital e pélvica. Essas contrações se experimentam sob a forma de ondas: a elevação da onda coincide com a total penetração do pênis, enquanto a descida da onda coincide com a retração do pênis. Mas logo que a retração ultrapassa um certo limite, ocorrem imediatamente contrações espasmódicas, que aceleram a ejaculação. Na mulher é a musculatura lisa da vagina que se contrai. d) Neste estágio, a interrupção do ato é totalmente desagradável, tanto para o homem como para a mulher. Havendo interrupção, as contrações musculares que levam ao orgasmo na mulher e à ejaculação no homem são espasmódicas em vez de rítmicas. As sensações causadas são sumamente desagradáveis e, 'ocasionalmente, sentem-se dores nas regiões pélvica e sacra. Além do mais, como resultado do espasmo, a ejaculação ocorre mais cedo que no caso do ritmo imperturbado. A prolongação voluntária da primeira fase do ato sexual (1 a 5) não é dolorosa quando levada até um certo ponto, e tem um efeito intensificador do prazer. 
Por outro lado, a interrupção ou mudança voluntária do seguimento da excitação na segunda fase é dolorosa por causa da natureza involuntária dessa fase. 7. Por meio de nova intensificação e do aumento de freqüência das contrações musculares involuntárias, a excitação sobe rápida e intensamente em direção ao clímax (III a C no diagrama); isso coincide, normalmente, com as primeiras contrações musculares ejaculatórias no homem. 8. Neste ponto, a consciência se torna mais ou menos nublada; seguindo-se a uma pequena pausa no "auge" do clímax, as fricções aumentam espontaneamente e o desejo de penetrar "completamente" se torna mais intenso com cada contração muscular ejaculatória. As contrações musculares na mulher seguem o mesmo curso que seguem no homem; há apenas uma diferença psíquica, isto é, a mulher sã quer "receber completamente" durante, e logo após, o clímax. 9. A excitação orgástica toma conta do corpo inteiro e produz fortes convulsões da musculatura do corpo todo. Auto-observações de pessoas sãs de ambos os sexos, e também a análise de certas perturbações do orgasmo, provam que o que chamamos alívio da tensão e experimentamos como uma descarga motora (curva descendente do orgasmo) é, essencialmente, o resultado da reversão da excitação do genital ao corpo. Essa reversão é experimentada como uma súbita redução da tensão. Por isso, o clímax representa o ponto decisivo no seguimento da excitação; isto é, antes do clímax, a direção da excitação é para o genital; após o clímax, a excitação reflui do genital. Essa completa volta da excitação do genital para o corpo é que constitui a satisfação. Isso significa duas coisas: refluir da excitação para o corpo inteiro, e relaxação do aparelho genital. 10. Antes de ser alcançado o ponto neutro, a excitação desaparece em curva suave e é imediatamente substituída por uma agradável relaxação física e psíquica. Habitualmente há também grande vontade de dormir. As relações sensuais se abrandam, mas permanece em relação ao companheiro uma atitude "saciada" e terna, a que se junta o sentimento de gratidão. Ao contrário, a pessoa orgasticamente impotente experimenta um esgotamento plúmbeo, desgosto, repulsa, aborrecimento ou indiferença e, ocasionalmente, aversão ao companheiro. Nos casos de satiríase e ninfomania, a excitação sexual não desaparece. A insônia é uma das características essenciais da falta de satisfação. Não se pode, entretanto, concluir automaticamente que uma pessoa experimentou a satisfação quando cai no sono imediatamente após o ato sexual. Se reexaminarmos as duas fases do ato sexual, veremos que a primeira fase é essencialmente caracterizada pela experiência sensorial de prazer, enquanto a segunda fase é caracterizada pela experiência motora de prazer. [...] (Imagens: Orgasmic Soul nº 2, by Michael G Quain/Foto: La petit mort, by Santillo). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

ORGAZMO – A comédia Orgazmo (1997), escrito e dirigido por Trey Park e produzido por Matt Stone que mais tarde vão criar a série animada South Park, conta a história de um missionário mórmon que encontra hostilidade para realizar seu trabalho religioso, até encontrar um diretor pornô desprezível, finda contratado para estrelar no papel principal de um super-herói pornográfico. Nessa hora entra em choque o milionário salário e a sua fé religiosa, enquanto se vê famoso com sucesso surpreendente. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: Orgasmo y Una Mujer Que Disfruta, do artista plástico argentino Pablo Garat.


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