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quarta-feira, julho 01, 2020

ALCEU VALENÇA, ACHILLE MBEMBE, KJERSTI ALVEBERG, LETÍCIA ARAUJO & BACAMARTEIROS



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: AUTORRETRATO, ALTER MUITOS EGOS - Do que fui pro que sou, antes e depois, meu coração Caravaggio é abraço de graça: sou da paz em flor mais que a ternura, porque não me faço guerra. O poema legisla em causa própria. Arte, será? George Sand afetuosamente terna: A arte é uma demonstração de que a natureza é a prova. A arte não é um estudo da realidade positiva; é uma busca da verdade ideal. Voo do que sinto ao suor, sou beijo paratodos.

DUAS: REINVENTO & SOBREPUJO – Voo sem leme ou bússola, apenas amanheço como se eu não tivesse amparo, a não ser nos meus próprios gestos inseguros ou a me debater tremulante aos estertores. Reinvento a clausura e o momento, Leibniz que alerta: Mais importante que as invenções é como foram inventadas. Não é tempo que perdemos, é vida. Retomo a passada, recrio caminhos antes ermos e sou direção da venta aonde for.

TRÊS: O QUE ME FALTA NÃO É PERDA - Minhas mãos são ruas do lado de lá e de cá, porque ouvi de Bakunin: A liberdade do outro estende a minha ao infinito. Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma. Sou voo livre palhássaro por fogáguas e terrares... Dê-me a sua mão, entrega. Até amanhã ou nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Na lógica da sobrevivência, ‘cada homem é inimigo de todos os outros’. Mais radicalmente, o horror experimentado sob a visão da morte se transforma em satisfação quando ela ocorre com o outro. É a morte do outro, sua presença física como um cadáver, que faz o sobrevivente se sentir único. E cada inimigo morto faz aumentar o sentimento de segurança do sobrevivente. [...]. Trecho extraído da obra Necropolítica (N-1, 2018), do historiador, filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe, que no seu estudo As formas africanas de auto-inscrição (Estudos afro-asiáticos, 2001), observou que: [...] Para além da evidência das fraturas e da difração, a experiência dos escravos africanos no Novo Mundo reflete uma plenitude de identidade mais ou menos comparável, mesmo que as formas de sua expressão difiram, e mesmo que não haja nenhum livro. Tal como os judeus no mundo europeu, eles têm que “narrar a si mesmos” e “narrar o mundo”, e lidar com este mundo a partir de uma posição na qual suas vidas, seu trabalho e seu modo de falar (langage) são parcamente legíveis, pois estão envolvidos em embalagens fantasmagóricas. Eles têm que inventar uma arte de existir em meio à espoliação, mesmo que agora seja quase impossível invocar o passado e lançar sobre ele algum encantamento, exceto talvez nos termos sincopados de um corpo que constantemente é transformado de ser em aparência [...]. Veja mais aqui.

DESTAQUE: Sob o céu de Recife / e sinto o cheiro da chuva / na terra molhada do quintal. / Me guardo agora / dentro de uma velha casa. / Lá fora as folhas balançam / no vento e na chuva. / O limoeiro / A pitangueira / A cana. / Sim, existo! Poema da poeta, professora e blogueira Letícia Araujo, que edita o blog Poemas de um espírito – Meus poemas e meus poetas e outros como Allegro Cannabis, Avenida Acácia, Vitrola, Universo Paralelo & Rock and Roll. Veja mais aqui, aqui e aqui.

BACAMARTEIRO
[...] Todos os anos, no dia de São João, sobem ao serrote do Bom Jesus duas centenas, talvez, de matutos com seus clavinotes e, até a tardinha, divertem-se a fazer disparos cerrados, dando vivas ao santo festejado. Escurecendo, descem agrupados com chapéus de couro, armas a tiracolo, sacola de munições vazia, num vozear entusiástico, numa ruidosa alegria [...].
BACAMARTEIRO - Trecho extraído da obra A filha de dona Sinhá (Casa do Estudante, 1952), do jornalista, escritor e professor Mario Sette (1886-1950). Nos dicionários do Cascudo encontra-se que bacamarte é uma arma de fogo que se parece com uma garrucha alongada, alargada na boca e reforçada na coronha, oriunda do bacamarte de amurada que era uma das armas mais especializadas em uso nos séculos XVIII e XIX, na França. E o bacamarteiro é atirador de bacamarte, antiga arma de fogo com ruidosos disparos de efeitos psicológicos junto dos assistentes. Ainda hoje, acompanhados por um zabumba, esses atiradores se apresentam durante as festas joaninas assustando os menos avisados e oferecendo aos espectadores toda a técnica de manejo do bacamarte e a prova da boa pólvora de indústria caseira, sempre sob o comando de militares. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada coreógrafa, bailarina e dançarina norueguesa Kjersti Alveberg. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Minha vida parece um filme, como se eu estivesse fazendo um documentário de tudo. As músicas guardam minha memória visual, são HDs de lembranças.
A arte do cantor, compositor, instrumentista e advogado Alceu Valença, que teve uma mostra Ocupação Alceu Valença, organizada pelo Itaú Cultural, em São Paulo, 2019/2020, com a trajetória do artista e que serviu de base para o longa-metragem A luneta do tempo, um musical com direção e participação dele, ganhador da melhor trilha musical do Festival de Gramado de 2014. Veja mais aqui, aqui & aqui.
&
A arte do pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins (1924-2017) aqui, aqui & aqui.
A arte do escultor, desenhista, gravador, ceramista e professor Abelardo da Hora (1924-2014) aqui.
Os tempos da Praieira, do advogado, jornalista, historiador e político brasileiro Costa Porto (1909-1984) aqui.
O sol além da minha rua, do escritor e editor Paulo Caldas aqui.
O livro Palpo a quimera e o tremor, de Vital Corrêa de Araújo aqui.
A poesia do poeta popular Paulo José dos Santos aqui.
Una dos Ambulantes de Deus aqui.
&
Barra de Guabiraba aqui & aqui.
 


sábado, julho 01, 2017

JOGO DOS POSSÍVEIS DE FRANÇOIS JACOB, A ESCULTURA DE BEAUVALLET, A ARTE DE JOHN HARDING & APOLOGIA À MENTIRA

APOLOGIA À MENTIRA - Imagem: El arte de mentir, by Axel Zamudio. - Se eu contar ninguém acredita, destá. Vamos lá. Certa vez estava no aprazível município catendense, dando cabo de umas pendências com o amigo Marcos Catende, findando na maior cachaçada numa residência localizada no alto do morro, fora da cidade. Chegando a hora de ir embora, lá fui acionando o motor da Kombi da emissora que eu trabalhava, debreando, passando primeira, quando lembrei que faltava acertar algo. Estacionei na ladeira sem desligar o motor, puxei o freio de mão e fui lá avisar. Dei o recado e ao voltar, cadê o carro? Saí na carreira e ainda vi o veículo descendo pra se arrebentar no precipício, lá embaixo. Mãos à cabeça, gritei: ei, pare! Graças a uma rieira rasa, o automóvel fez a curva, estacionando intacto e encostado de ré num matagal. Ufa! Benzi-me na hora! Escapei por pouco. Fui conferir, nem um arranhão, nada. Olhei lá pra baixo e imaginei o desastre que seria. Fiquei impressionado, demorei pra me restabelecer e parar de tremer. Todos correram pra me socorrer lívido e transtornado: - Que foi que houve? Quem viu a minha correria, explicava. Eu estava com o coração nas mãos, foi difícil voltar ao normal. Ainda hoje, vez ou outra, me passa pela cabeça o utilitário descendo a ribanceira pra virar um molho de ferro destroçado embaixo. Pois, foi. Na vera, de mesmo. Doutra feita, era sexta-feira, depois do almoço saí de casa pra ensaiar. No meio do caminho, uma distinta pessoa me propôs ir ao show do Lenine, no Festival de Inverno de Garanhuns. A proposta tentadora possuía argumentos fortíssimos, não havia como recusar. Fui, aliás, fomos, curtimos e nos esbaldamos. Depois da meia noite eu já estava em casa, empolgado com o acontecido. Tomei um banho, lalari, lalará, peguei uma cerveja, lalari, lalará, liguei o computador e fiquei curtindo o som do Lenine no fone de ouvidos, revivendo o ocorrido. Acessei a rede social para ver as novidades e mensagens recebidas, quando minha sobrinha, Pauleana, me saudou e, no meio da conversa, eu disse que tinha chegado do show em Garanhuns. Ela vibrou e, pouco tempo depois, nos despedimos, até que eu já com a cabeça acompanhando o movimento da Terra e dos astros, caí na cama pro sono dos cansados. Ao acordar, qual não foi a minha surpresa receber a ligação da minha irmã Aninha – mãe da Pauleana -, avisando que estava com o marido em Maceió e não sabia chegar em minha casa. Fui buscá-la e, ao chegar lá, qual foi a primeira coisa que ela perguntou? Exatamente: - Quer dizer que fosse pro show do Lenine, em Garanhuns? Minha filha não deixou nem eu abrir a boca e foi logo dizendo: - Foi nada, ele foi ensaiar e chegou tarde! Aninha se virou pra mim: - Você disse à Pauleana que tinha ido pro show! Eu olhei ao redor e respondi de pronto: - Sou um supermentiroso! Teibei! Foi melhor, evidentemente, do que uma bomba explodir com radioatividade queimando tudo por dias, meses e até anos, né não? Minha irmã até hoje me olha de viés e com toda razão. É que desde menino, eu e Marquinhos, tínhamos um ídolo: Tó Zeca. Pense num cabra fértil das aventuras. Foi por essa época que eu li as aventuras do Barão de Munchausen e fui contar pra ele: - Besteira, esse Barão, pra mim, é fichinha, já dei mais de 200 voltas ao mundo, fui à lua não sei quantas vezes de perder a conta e conheço a galáxia como a palma da minha mão! Eita! Perto dele o Marco Polo e o Júlio Verne são pinto mesmo. Pra provocar falei do Moby Dick do Melville: - Ôxe, isso é nada, já peguei traíra dez vezes maior que essa baleiazinha no Rio Una. Quantas viessem, ele superava e estufava no peito: - Dei aulas pro Pedro Malasartes, mô fio! Sou professor e aprendi sem se ensinar! O cara era hors-concours, bateu o recorde de todos os mitômanos e além dos diagnósticos de pseudologia fantástica, mentira patológica, evasionismo ou pantomimia. Era imbatível. Pra ele, todo dia era primeiro de abril. Tanto é que só pra se ter uma ideia leve assim de longe, que ele batia nos peitos por ter sido abduzido por discos voadores mais de mil vezes, e de ter emprenhado duas selenitas, três marcianas e uma venusiana que queria casar, dele dar um carreirão de ser pego pela tropa dela escondido num iglu, esquentando os pés com uma esquimó. Pode? Procê ver. Eram das boas, não como as deslavadas dos políticos de hoje ou dos que vivem de intrigas pra desancar a reputação alheia, não, não dessas, mas das que revelam um mundo incompreensível, cheio das pilherias, como as do Facetiae de Bebel, do Cortegiano de Castiglione, a utopia de Beldermann, ou do inocente Pinóquio. Então, recruta de tudo, eu aprendia a lição me exercitando com Marquinhos no quintal lá de casa: - Quem conta a mais cabeluda? Sempre levei desacerto, até pra mentir sou imprestável. Mas não me dei por vencido, buscava nos livros, Alice de Carrol, Monteiro Lobato, Macunaíma, o Ivan de Dostoievski, o Altamirando e outros parentes do Stanislaw Ponte Preta, o coronel de José Cândido de Carvalho, a poesia de Zé Limeira, lendas e folclore, a mula sem cabeça, a perna cabeluda, essas coisas, por aí, até o dia que o Afonso Paulo, eu ainda adolescente, me deu o livro Informe de Brodie, do escritor argentino Jorge Luiz Borges, traduzido pelo conterrâneo Hermilo. Eita! Foi aí que conheci a literatura fantástica latino-americana e, ao mesmo tempo, as estórias de Guimarães Rosa e Murilo Rubião. O contato com a obra de Borges foi assaz fascinante, fiquei de queixo caído! Que coisa! Era ainda adolescente quando entrei pra faculdade e, no meio de uma pesquisa, descobri a obra Presenças, do Otto Maria Carpeaux que falava de Borges e dos seus “anacronismos deliberados e atribuições errôneas”, falando de obras inventadas, do Livro de Areia, de fatos e vultos históricos que nunca existiram, a História da Infâmia, de Ficções, do Aleph, tudo invenção pura, magistrais. Pra quem já dera de cara com a mimese platônica e com o fingimento de Fernando Pessoa, estava perdido: tudo era uma mentira, afinal de contas. Pra lavar a alma, lembro que numa das entrevistas que fiz com Alceu Valença, na casa dele em Olinda, acompanhado de Isolda do saudoso Jones Melo, e da escritora Jussara Koury que, nesta época, presidia a Fundação de Hermilo, ele afirmava ter sido demitido do primeiro emprego por causa de mentira. Como foi? Ele contou que trabalhava no jornal – emprego arrumado pelo Jones Melo – e, na obrigação de fazer uma matéria, apareceu a notícia de um assassinato. Veio o estalo: assassinato vitima trezentas pessoas e deixa milhares feridos. Entregou a matéria pro editor que sapecou na primeira página! No outro dia ele soube de um atropelamento em Afogados, não deu outra: jamanta de não sei quantos pneus desgovernada mata mais de 600, fere outros tantos, derruba casas e fecha o trânsito por horas. Resultado: no terceiro dia, o editor chamou por ele, reclamando das barrigas e o demitindo na hora. Alceu, às gaitadas, dizia: - Não tinha a menor graça isso de um assassinatozinho de um tiro só e uma vítima, um atropelamentozinho besta, de nada, coisa mixuruca, aí eu mentia c’a peste, aumentava o negócio pra ficar mais arretado! Findei demitido pelas mentiras! Maior risadagem da gente com as contadas de Alceu. Realmente. Ao longo da minha vida sempre fui agraciado de ter por perto a presença de risíveis figuras, como caçadores, vigias, pescadores e outros boateiros e aumentadores de fatos e coisas, que nunca dispensavam uma pinóia como café pequeno, ou soltavam das suas como quem solta um inofensivo peidinho só pra ver a careta do alheio. Tudo isso serviu pro meu aprendizado e quase pego jeito. Como sempre almejei ser um escritor, soltava das minhas, contudo sempre findava flagrado com a cara mais lisa com peta ou patranha que ousasse. Se não acertei a mão como beletrista, o pior é que até pra peteiro fui reprovado, avalie. Ainda descarado, boto moral. E foi o próprio Carpeaux na crítica sobre Borges que me deu a ideia: “Mudando-se a hora e um ou dois nomes próprios, é o mesmo mundo”. Hehehehehehe. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

JOGO DOS POSSÍVEIS DE FRANÇOIS JACOB
[...] Porque não é apenas o interesse que leva os homens a matarem-se mutuamente. É também o dogmatismo. Nada é tão perigoso como a certeza de se ter razão. Nada causa tanta destruição como a obsessão duma verdade considerada absoluta. Todos os crimes da história são consequência de algum fanatismo. Todos os massacres foram cometidos por virtude, em nome da verdadeira religião, do nacionalismo legítimo, da política idónea, da ideologia justa; em suma, em nome do combate contra a verdade do outro, do combate contra Satanás. A frieza e a objetividade, que se reprovam tantas vezes nos cientistas, talvez sejam mais úteis que a febre e a subjetividade para discutir certos assuntos humanos. Porque não são as ideias da ciência que provocam as paixões. São as paixões que utilizam a ciência para sustentar a sua causa. A ciência não conduz ao racismo e ao ódio. É o ódio que faz apelo à ciência para justificar o seu racismo. Podem criticar-se certos cientistas pelo ardor com que por vezes defendem as suas ideias. Mas nenhum genocídio foi ainda perpetrado para fazer triunfar uma teoria científica. No final deste século XX deveria ser claro para todos que nenhum sistema explicará o mundo em todos os seus aspetos e todos os seus pormenores. Ter contribuído para pôr termo à ideia duma verdade intangível e eterna talvez não seja um dos menores títulos de glória do método científico. [...].
Trecho da obra O jogo dos possíveis: Ensaio sobre a diversidade do mundo vivo (Gradiva, 1982), do biólogo francês e Prêmio Nobel de Medicina de 1965, François Jacob (1920-2013),

Veja mais sobre:
Freyaravi & o circo dos prazeres, Cultura de consumo & pós-modernismo de Mike Featherstone, Contos brasileiros de Julieta de Godoy Ladeira, o Kama Sutra de Vātsyāyana, a fotografia de Ralf Mohr, Humanitarian Projects, a música de Marisa Monte, a pintura de Crystal Barbre & a arte de Luciah Lopez aqui.

E mais:
Lualmaluz, De segunda a um ano de John Cage, Técnica & ideologia de Jürgen Habermas, A história da literatura de Nelson Werneck Sodré, a escultura de George Kurjanowicz, Peace on Earth, a música de Sally Seltmann, a pintura de Théodore Géricault & Moisés Finalé, a arte de Marni Kotak & Luciah Lopez aqui.
Devagar e sempre, Monadologia de Leibniz, Estudo do poema de Antônio Cândido, Meu país de Dorothea Mackellar, a música de Alceu Valença, A arte da comédia de Lope de Vega, o ativismo de Emma Goldman, Brincarte do Nitolino, a pintura de Nina Kozoriz, a xilogravura de Gilvan Samico & Amaro Francisco Borges aqui.
Nem te conto, O lobo da estepe de Hermann Hesse, Repensar o mundo de Wislawa Szymborska, Elegias & sátiras de Xenófanes de Colofão, a música de Gluck & Sylvia McNair, o cinema de Phil Karlson & Marilyn Monroe, a pintura de Richard Geiger & Philippe de Rougemont, as gravuras de Osvaldo Jalil & a arte de Bia Sion aqui.
Os princípios de filosofia de Leibniz, As glosas de Manuel Bentevi, a música de Alceu Valença, a arte de Helena Cristina & Programa Tataritaritatá aqui.
O jogo das contas de vidro de Hermann Hesse, O prazer da escrita de Wislawa Szymborska, a música de Christoph Willibald Gluck, A fugitiva de Evelyn Lau, a fotografia de Bárbara Angel & a arte de Daniella Alcarpe aqui.
Uma cachaçada e uma casa no meio da rua & Fecamepa aqui.
O amor engatinhando na noite azul aqui.
A explosão do prazer & Zine Tataritaritatá aqui.
A violência na escola aqui.
Médicos, curaus & outras petas, Charlie Chaplin, Chico Folote & a Besta Fubana, Estupro, O poder humano & as glândulas endócrinas aqui.
A poesia & a arte de Alessandra Cavagna aqui.
O amor entre os animais, Aretusa, o pensamento de Sêneca, a escultura de Francisco Leopoldo da Silva & Ángel López Miñano, a música de Reri Grist, o teatro de Bernadette Peters & o Doro na fila de banco aqui.
Crônica de amor por ela: todo dia é dia dos namorados, Finisterra de Ledo Ivo, A manobra da carreta de Luiz Berto, Diário de Anne Frank, O caráter anarquista de Luce Fabbri, A música de Geraldo Azevedo, o cinema de Solveig Nordlund, a arte de Carmem Verônica, a pintura de Zichy Mihály & Wellington Virgolino aqui.
Além da entrega mais que tardia, Papoulas de julho de Sylvia Plath, A literatura de vanguarda de Guillermo de Torre, A verdade de Jean Cocteau, a música de Sky Ferreira, a pintura de Artemísia Gentileschi, a arte de Tom Wesselmann & Luciah Lopez aqui.
Caraminholas do miolo de pote, O homem pós-orgânico de Paula Sibilia, Escritos de Guillaume Apollinaire, a literatura de Antoine de Saint-Exupéry, a música de Diamanda Galás, a fotografia de Jim Duvall, a pintura de Marie Fox & a arte de Luciah Lopez aqui.
Migrante entre equívocos, Tragédia da cultura de Georg Simmel, Santuário de William Faulkner, a música de Ivan Lins & Sá & Guarabira, Cibertcultura de André Lemos, a pintura de James Mcneill Whistler, a arte de Yosuke Onishi & Lanoo aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A ESCULTURA DE BEAUVALLET
A arte do escultor e desenhista francês Pierre-Nicolas Beauvallet (1750-1818).

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Neste sábado, 1º/07, Alceu Valença com o show Oropa, França e Bahia (ao vivo) & Valencianas com a Orquestra de Ouro Preto; Joyce ao vivo & Live at the Mojo Club; os grandes sucessos de Tavito Carvalho; e Maria Rita com o show Samba Meu ao vivo. Para conferir é só ligar o som e curtir.
Neste domingo, 02/07, Yuja Wang ao vivo com Rapsody in Blue de George Gershwin, Pantanal ao vivo com Marcus Viana & Transfônica Orquestra, show ao vivo de Eliane Elias & show ao vivo de Arrigo Barnabé. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista britânico John Harding, autor de obras como O que fizemos em nosso feriado (2000), Enquanto The Sun Shines (2002), One Big Damn Puzzler (2005), Florence and Giles (2010) & A menina que não conseguiu ler (2014),
Veja mais aqui.

segunda-feira, maio 09, 2016

ASCENSO, REAY TANNAHILL, ALCEU, ULRIKE MEINHOF, XENIA HAUSNER, ESPERANTINA & GUAZZELLI

MARIA ESPERANTINA, ORGASMO DE UMA NOITE & NUNCA MAIS (Imagem: arte da artista plástica austríaca Xenia Hausner). – Enviuvara há cinco anos, não convolara novas núpcias. Absteve-se, resignada, sua experiência marital não fora das que se diga lá perto do razoável, só privação, sacrifícios, precisões. Homem, sexo e fogão. E ela, quase ninguém. Prazeres ínfimos, quase nenhum. Pernas abertas de plantão: a vontade dele, os horrores dela. Na boquinha da noite, agonia nem anoitecida. Ela, só cansaço, revia-se firme e forte. Tinha de acertar os ponteiros com ele, energia renovada e urgente. Até que gostava, não sentisse tão morta na lama, cuspida na sarjeta. Depois, o suplício: roncos de costas na cama. A aflição de não ser nada, valia nenhuma, apenas objeto de consumo. De manhã, roupas sujas, poeira nos móveis, comida pro dia e uma faca de ponta afiada invisível no coração. Pigarro, bafo de cachaça, desolação. A sua rotina, a vida quase estragada. Maria Esperantina de batismo, Gonzales esponsal. Não mais. Era a caçula entre três, a única sobrevivente. Há cinco anos, o preço da solidão, a liberdade de nada valendo que tanto. Sempre comedida, pudica, quase beata. Não fosse o socorro de Vera naquela manhã desequilibrada, jamais sairia dos seus haveres solitários. Soubera duma cidade, o seu nome. Um dia especial, seria. A promessa de um Apolo sonhado na indicação arrojada de Vera alvoroçada. Abriu-se-lhe uma esperança, nenhum entusiasmo. Apenas aquela esperança de quase nada alcançável. Uma cidade aprazível, província perdida nos rincões do Brasil. Era outono, depois de tantos choros ao pé da porta, uma ponta de riso no canto dos olhos. Desconfiada, continha-se. Não demonstrava desespero, apenas solícita, curiosa. Findaram indo, as duas. Vera acompanhou o trajeto até o lugar, promessa de esbaldar, soltar os demônios, tangas a voar. Ela não, reprimida em si. Vera que fosse. Viu-se enredada, num assalto de surpresa, perdeu o fio da meada. Com a viagem desentoxicava-se, novos ares. Nem dera conta acompanhada num quarto de pousada com um estranho que pouco simpatizara. Como se dera, não sabia. Como pudera, fugiu-lhe o poder. Como que envolvida num estratagema, deixara-se levar. Enjeitara tudo em si, o seu interdito. Quantas novenas noites a fio, agora nada valiam. A voz rouca assustava, rubores de pernas cruzadas. O riso dele era um insulto. Fez figa, segurando a barra do vestido. Na beira da cama, uma mão boba, uma carícia ao braço escapando limites, a queda no colchão. Olhos marejados, resistia. Insistia a vergonha, a culpa, o remorso. Inútil. A mão insistente desabotoava suas vestes, nenhuma palavra, olhos no chão. Desnudada, tudo em cima pros olhos grandes dele e a sua língua lambendo os beiços como quem armou de tocaia a arapuca certeira. Queria só lavar égua, tomaria dela tudo que tivesse. Removeu o sutiã e abocanhou seu seio esganado. Não protestava, nem resistia. Removeu-lhe a calcinha, apenas escondia a fogosa insaciável trancada a sete chaves. Ela só desamparada, pálida e seduzida, aos sobressaltos, mãos no coração. Ele arvorado com pegadas por tudo que era dela: perdeu-se de tudo que era seu, nem mais era, agora nada. Lívida, encarava a judiação. Tomada no abraço, a catinga do macho roubou-lhe os sentidos. Estava tomada, reduzida presa, dominada. Mais resistia e se benzia na autocensura. Engolia o soluço na luz apagada e se preparava para morrer embaixo do cobertor. De novo a lama, não saberia que seria mais dela. Voltava pro nada, desprotegida, seviciada. Domou-lhe os punhos, à força. Fungados na nuca, mordiscados nos ombros, indecências ao ouvido. Arremetidas teimosas invadiam-lhe a carne, a honra suposta e a alma penada. Calcanhares afastados, pernas perdidas, intimidade roubada: possesso com ajeitados bruscos e invasões indesejáveis. Devassidão que pra ela até Deus duvidava, dores nos quartos. Tudo de novo, pro nada. Cavalgava como quem tratava bicho. Apavorada, excitava-se mordendo a fronha do travesseiro. Os seus segredos se revelaram, perdia-se, rendeu-se ao que podia de prazer. Enlouquecida, largou-se ao paroxismo. E gemeu num gozo demorado, a primeira vez do orgasmo em cinquenta e três anos de vida. Possuída, dilacerada, sentiu-se feliz de verdade pela primeira vez, pelo menos. A tortura de sempre, agora mais que um gozo, prazeres. Esta noite e nunca mais. Nunca mais o que era antes, nunca mais virá depois. Arrependida, juntou os trapos que lhe restara, quase nada de si. Sentira-se ninguém, mais que nada. Como sempre, depois de consumado, só restara ir embora. Ele se foi, que se vá. Não haverá próxima vez, insistia. Apaziguada com o recuo e, depois, a saída desarmada do adversário, sentiu o alívio de quem se libertara do que não sabia. Havia sido invadida, ultrajada, agora não mais. Não haverá outra vez. De volta pra casa, determinada. Era outra vida agora. Não mais passado nem lembranças. Às cinco da tarde, o silêncio caiu: trinado do telefone. Disposta, não arredara o pé. Não mais, resistente. Nunca mais. Meia hora depois, toda prendada no quarto do intruso. A nudez refeita, entregou-se rendida. Tudo outra vez, permitiu-se. Era ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

Imagem: Trem das Alagoas, ilustração do premiado ilustrador e quadrinista Guazzelli (Eloar Guazzelli Filho). Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum ao vivo Oropa, França e Bahia (BMG/Ariola, 1988), do cantor e compositor Alceu Valença. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PESQUISA
O sexo na história (Francisco Alves, 1980), da historiadora e escritora britânica Reay Tannahill (1929-2007). Veja mais aqui.

LEITURA 
Hoje é dia poeta Ascenso Ferreira (1895-1965).
Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Protesto é quando eu digo que algo me incomoda. Resistência é quando eu me asseguro que aquilo que me incomoda nunca mais acontecerá [...] Como Auschwitz foi possível? O que era o antissemitismo na Alemanha? Usou-se o ódio do povo à sua dependência pessoal do dinheiro, como uma maneira de troca, sua busca pelo comunismo. Auschwitz significa que seis milhões de judeus foram assassinados e jogados em aterros sanitários pela Europa, por serem aquilo que lhes foi apontado ser - Dinheiro-Judeus. O que aconteceu foi que o capital financeiro, a elite e os bancos, o núcleo do sistema do capitalismo e do imperialismo, desviou a atenção e o ódio do povo de si mesmo para os judeus.
Palavras da jornalista, escritora, ativista e guerrilheira alemã Ulrike Marie Meinhof (1934-1976), encontrada morta enforcada com uma corda improvisada de uma toalha, no dia 09 de maio de 1976, durante os festejos do Dia das Mães, na Alemanha. Investigações oficiais dão conta de que fora suicídio, mas o laudo foi contestado por acusações públicas com massivas demonstrações de protesto pelo assassinato. Décadas depois veio à tona a notícia de que o cérebro dela havia sido retirado pelos patologistas, sem conhecimento da família e conservado durante 26 anos em formol para estudos no hospital de Magdeburg. Dela ainda pode ser encontrado o filme Bambule (1970), que foi roteirizado por ela e que fala sobre a vida de jovens mulheres num reformatório, como também o filme Ulrike Marie Meinhoh (1994), dirigido por Timom Koulmasis.

Veja mais Ascenso Ferreira, Alexander Scriabin, Ortega y Gasset, Wilhelm Reich, Esperantina & o Orgasmo, Renato Alarcão & Pablo Garat aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte da artista plástica austríaca Xenia Hausner.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

quarta-feira, julho 01, 2015

LEIBNIZ, ANTÔNIO CÂNDIDO, LOPE DE VEGA, EMMA GOLDMAN, MACKELLAR, KOZORIZ, ALCEU & SAMICO.

 VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DEVAGAR E SEMPRE! (Imagem: The Letter, da artista plástica Nina Kozoriz) - Sempre fui muito avexado, tanto que parecia mais que eu tinha um cotoco de não parar quieto. Era mesmo inheto e para quem já viu bem de perto cipó de boi zunindo no toitiço, eu era o que se convencionava chamar de os pés da doida – o nome popular do que hoje, com certeza, diagnosticam de TDAH. Galhos de urtiga? Da muita. A-há, era cada lamborada de esquentar o esqueleto. E não me emendava, sempre reincidente a maluvido: o casmurro das trelas. Tanto que fui criado na base de meizinhas e xarope brabo. Assim fui menino até adulto e, por isso mesmo, errei demasiadamente, mas o que acertei – certo que pouco – teve primazia. Afinal, quem anda apressado não acha o que procura. E o que achei não estava perdido, nem era de ninguém. Era o merecido. Por bem ou por mal. Tinha comigo que sapo não pulava por gosto, mas por precisão. E que precisão eu tinha? Sei lá, vexames da idade, urgência de viver. Hoje estou, como se diz no popular, tuxelando. Cinquentão, mais pra poeta de arrumação com meus versos de obra de carregação: só no balanço do navio. Já paguei todos os patos, os meus e até os dos outros. O que me resta? Feito xexéu, vou cantarolando Tocando em frente, dos poetas Almir Sater e Renato Teixeira: Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais... e vou arremedando com os versos da minha canção Cantador: ...vou com meu canto em cada canto, lado a lado, vou com cuidado e afinando o meu gogó, sem ter espanto todo só de luz armado, tino aceso e aprumado, evitando um quiproquó... Hoje estou mais para repetir o poeta romano clássico Virgílio: Omnia vincit Amor! Ou seja, o amor tudo vence. E o também escritor romano Publílio Siro: Nec mortem effugere quisquam, nec amorem potest. Ou melhor: Ninguém pode fugir nem ao amor, nem à morte. Sabedor disso, vou agora devagar e sempre! E vamos aprumar a conversa. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: xilogravura do pintor, desenhista e gravurista Gilvan Samico (1928-2013).

Curtindo o álbum ao vivo Oropa, França e Bahia (BMG Ariola, 1989) do cantor e compositor Alceu Valença. Veja mais aqui.

BRINCARTE DO NITOLINO – O projeto Brincarte do Nitolino compreende uma série de atividades voltadas para o público infanto-juvenil. Nasceu na segunda metade da década dos anos 1990, com o Prêmio Nascente de Arte Infanto-Juvenil que culminou com a publicação de duas antologias Brincarte, editadas pelas Edições Nascente, nos anos de 1998 e 1999. A partir de então foi transformado em blog, peças teatrais, recreações educativas, livros, músicas e estudos que envolvem as áreas de Educação Infantil, Psicologia Infantil e Direito da Criança e dos Adolescentes. A partir de 2008 foi transformado em programa radiofônico e que, nos últimos anos, é apresentado pela garota Isis Corrêa Naves, no Projeto MCLAM, todos os domingos, a partir das 10hs e com reprise todas as quartas, nos horários das 10hs e das 15hs. Confira detalhes aqui e aqui.


MONADOLOGIA – A obra Os princípios da filosofia ditos a monadologia (1714), do cientista, filósofo, matemático, diplomata e bibliotecário alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), foi publicado postumamente em 1720, apresentando a sustentação de uma metafísica das substâncias simples e expondo globalmente o seu sistema das mônadas – elementos máximos do universo: eternos, indecompostos, individuais, sujeitos às suas próprias leis, refletindo o universo dentro de uma harmonia preestabelecida. As mônadas estão fundamentadas na matemática pelo cáculo infinitesimal e suas conclusões antiatomistas; na física pelas teorias das forças vivas; na metafisica pelo principio da razão suficiente; na psicologia pelo postulado das ideias inatas dos Novos ensaios sobre o entendimento humano; e na biologia pela pré-formação seminal dos corpos e a subdivisão de funções em seu desenvolvimento orgânico. Da obra destaco os trechos: [...] Ora, onde não há partes, não há extensão, nem figura, nem divisibilidade possíveis. E tais Mônadas são os verdadeiros Átomos da Natureza e, em uma palavra, os Elementos das coisas. [...] Tampouco há dissolução a temer e não há como se conceber um modo pelo qual uma substância simples possa perecer naturalmente. Pela mesma razão, não há modo pelo qual uma substância simples possa começar naturalmente, já que não pode ser formada por composição. Portanto, pode dizer-se que as Mônadas só podem começar e acabar instantaneamente, isto é, que só podem começar por criação e acabar por aniquilamento, ao passo que o composto começa e acaba por partes. Tampouco há meios de explicar como uma Mônada possa ser alterada ou modificada internamente por qualquer outra criatura, pois nada se lhe pode transpor, nem se pode conceber nela qualquer movimento interno que possa ser excitado, dirigido, aumentado ou diminuído lá dentro, tal como ocorre nos compostos, onde há mudança entre as partes. As Mônadas não possuem janelas através das quais algo possa entrar ou sair. Os acidentes não podem destacar-se, nem passear fora das substâncias, como faziam outrora as espécies sensíveis dos Escolásticos. Assim, nem substância, nem acidente podem entrar em uma Mônada a partir do exterior. Todavia, as Mônadas precisam ter algumas qualidades, do contrário nem mesmo seriam entes. E se as substâncias simples não diferissem por suas qualidades, não haveria modo de apercebermos qualquer modificação nas coisas, já que aquilo que está no composto só pode vir de seus ingredientes simples, e se as Mônadas carecessem de qualidades, seriam indistinguíveis umas das outras, já que também não diferem em quantidade; e, conseqüentemente, suposto o pleno, cada lugar receberia sempre, no movimento, só o Equivalente do que antes havia tido, e um estado de coisas seria indiscernível de outro. É mesmo necessário que cada Mônada seja diferente de qualquer outra. Pois nunca há, na natureza, dois seres que sejam perfeitamente idênticos e nos quais não seja possível encontrar uma diferença interna, ou fundada em uma denominação intrínseca. Dou também por aceito que todo ser criado está sujeito à mudança, e, consequentemente, também a Mônada criada e inclusive que tal mudança é contínua em cada uma delas [...]. Veja mais aqui ,aqui e aqui.

ESTUDO DO POEMA – O livro O estudo analítico do poema (Humanitas/USP, 1996), do ensaísta e escritor Antônio Cândido, realiza comentários e interpretações literárias acerca do poema, da teoria de Grammont, rima, o destino das palavras no poemas, as modalidades de palavras figuradas, a retórica tradicional, a natureza da metáfora, estudo analítico do poema, os fundamentos, a sonoridade, ritmo, metro, figura, unidades expressivas, imagem, tema, alegoria, símbolo, estrutura, princípios estruturais e organizadores, os significados, sistemas de integração, sentido ostensivo e latência, tradução ideológica, poesia direta e oblíqua, clareza e obscuridade, unidade, entre outros temas. Da obra destaco o trecho Os fundamentos do poema / Sonoridade: [...] Todo poema é basicamente uma estrutura sonora. Antes de qualquer aspecto significativo mais profundo, tem esta realidade liminar, que é um dos níveis ou camadas da sua realidade total. A sonoridade do poema, ou seu "substrato fônico" como diz Roman Ingarden, pode ser altamente regular, muito perceptível, determinando uma melodia própria na ordenação dos sons, ou pode ser de tal maneira discreta que praticamente não se distingue da prosa. Mas também a prosa tem uma camada sonora constitutiva, que faz parte do seu valor expressivo total [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MY COUNTRY – A escritora australiana Dorothea Mackellar (1885-1968) possui um dos poemas mais belos e dedicados a um país de nascimento, denominado My Country (Meu País) do qual destaco os versos a seguir: O amor pelo campo e moitas, / Pelo verde e pelas veredas sombreadas, / Pelas madeiras ordenadas e jardins, / Está correndo em suas veias. / Amor forte pela distância azul-acinzentada, / Córregos marrons e macios céus turvos, / Eu conheço mas não posso compartilhar, / Meu amor é diferente. / Amo um país bronzeado, / Uma terra de planícies vastas, / De uma cordilheira escarpada, / De secas e chuvas inundantes. / Amo seus horizontes distantes, / Amo a jóia de seu oceano, / Sua beleza e seu terror, / Esta vasta terra marrom pra mim. / As florestas de áspera cobertura branca, / Todas trágicas para a Lua, / As montanhas de névoa safira, / A tranquilidade dourada do meio-dia, / A bagunça verde das moitas, / Onde as flexíveis trepadeiras se enrolam, / E orquídeas vestem as copas das árvores, / E samambaias aquecem o solo quente. / Essência do meu coração, meu país! / Seu incansável céu azul, / Quando doente no coração ao nosso redor / Vemos o gado morrer – / Mas as nuvens cinzas se ajuntam, / E podemos dar graças outra vez, / O rufar de um exército, / A constante chuva que encharca. / Essência do meu coração, meu país! / Terra do ouro arco-íris, / Por inundação e fogo e penúria / Ela nos retribui três vezes. / Sobre os pastos sedentos / Assiste, depois de muitos dias, / O indistinto véu de verdura / Que engrossa enquanto encaramos. / Um país de coração opala, / Uma terra teimosa, pródiga – / Todos vocês que não a amaram, / Não irão entender – / Mesmo a terra tendo muitos esplendores, / Aonde quer que eu morra, / Sei pra qual país marrom / Meus pensamentos patriotas irão voar. Veja mais aqui.

ARTE DE FAZER COMÉDIAS – A obra A arte nova de fazer comédias neste tempo (1609), do poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635), realizou uma nova concepção do teatro por meio de uma ruptura com os preceitos do teatro classicista, misturando o trágico e o cômico, versos e estrofes, intercalação de elementos líricos e variedade de estilo: Quando tenho de escrever uma comédia, / encerro os preceitos com seis chaves; / saco a Terencio e Plauto de meu estudo, / para que não me dêem vozes: que costuma / dar gritos a verdade em livros mudos; / e escrevo pela arte que inventaram / os que o vulgar aplauso pretenderam; [...] Mas contra nenhum deles me permito / levantar minha voz, porque me atrevo / a dar preceitos de arte e na corrente / vulgar me deixo ir... Já ignorante / me chamam França e Itália! Que fazer?!? / Que poderei fazer, se tenho escritas, / com uma que acabei esta semana, / quatrocentas e oitenta e três comédias, / e, fora seis, todas as mais pecaram, / pecaram gravemente contra a arte? / Sustento, enfim, o que escrevi e eu sei / que, embora bem melhor de outra maneira, / não teriam o gosto que tiveram, / que, às vezes, o que está contra o que é justo / por essa razão mesma apraz ao gosto. / porque, como as paga o vulgo, é justo / falar-lhe em néscio para dar-lhe gosto. Ele é autor de mais de mil e quinhentas obras teatrais, em sua maioria perdidas no tempo. Veja mais aqui.

LOPE – O drama espanhol brasileiro Lope (2011), do cineasta brasileiro Andrucha Waddington com roteiro de Jordi Gasull e Ignácio del Moral, e música de Fernando Velázquez, é baseado na vida do poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635), contando a história de um jovem poeta ambicioso e eterno apaixonado que vive mais o presente que pensar no futuro, entregando-se ao amor de duas mulheres para desafiar as regras que podem transformá-lo de herói a vilão, trazendo ao mesmo tempo glória e desgraça para sua vida. Diante desses conflitos, surgem centenas de peças teatrais, poemas, romances, comédias, lirismo, tragicidade e força dramática do autor. Como apresentado mais acima, o autor teve uma atividade artística bastante criativa e envolvendo os mais diversos gêneros, desde teatro, poesias, romances e outras modalidades literárias para expressão do seu talento. Destaque para atuação das atrizes Leonor Watling e Pilar López de Ayala. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Foto em homenagem à anarquista e ativista libertária lituana Emma Goldman (1869-1940), o livro da sua autobiografia Living my life (1931), cartaz da IWW (1911) ilustrando a pirâmide de exploração do capitalismo e uma faixa sustentada por jovens anarcofeminista com citação do seu pensamento: Aos que ousam o futuro pertence.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Imagem: Ciranda, Cirandinha, do artista popular e xilogravador Amaro Francisco Borges.


Veja mais sobre:
Lagoa da Prata, O folclore no Brasil de Basílio de Magalhães, Chão de mínimos amantes de Moacir da Costa Lopes, Culturas e artes do pós-humano de Lucia Santaella, a música de Belchior, a fotografia de Tatiana Mikhina, a arte de Joseph Mallord William Turner & Wesley Duke Lee aqui.

E mais:
Folia Caeté, O trabalho do antropólogo de Roberto Cardoso de Oliveira, Monções de Sérgio Buarque de Holanda, a poesia de Luis de Góngora y Argote, O poeta dramático e a história de Karl Georg Büchner, a música de Antônio Carlos Gomes, o cinema de Alfred E. Green & Carmen Miranda, a arte de William Orpen, a pintura de Ivan Gregorewitch Olinsky & Charles-Antoine Coypel aqui.
Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, a música de Antonio Carlos Gomes & Quinteto Violado, Joana Ramos & Givaldo Kleber aqui.
Recontando Caetano Veloso & Podres poderes aqui.
História dos hebreus de Flávio Josefo, Vidas paralelas de Plutarco, A civilização hispano-moura de Philipe Aziz, Cronologia pernambucana de Nelson Barbalho, Violência: crimes de trãnsito & arma de fogo aqui.
Umas do Doro & o jabá, Multimidiação do processo artístico de Augusto de Campos, Vila dos confins de Mário Palmério, Artêmis, a música de Rossini & Olga Peretyatko, o cinema de Jacques Rivette, a arte de Mademoiselle Rachel & Marie McDonald, a fotografia de Greg Williams & a poesia de Dalinha Catunda aqui.
Paixão Legendária & Santanna O Cantador, A patente de Luigi Pirandello, A história do mundo de Mel Brooks, As ciências e as artes de Jean-Jacques Rousseau, Guilhermina Suggia, a xilogravura de Nena Borges, Brincarte do Nitolino, a crônica de Aldemar Paiva, a poesia de Marly de Oliveira, a música de Felipe Radicetti & pintura de Maria Luisa Persson aqui.
A culpa é da Dilma, O Projeto Atman de Ken Wilber, a música de Heitor Villa-Lobos, O sermão do bom ladrão de Padre Antônio Vieira, a pintura de Peter Paul Rubens, a poesia de Henriqueta Lisboa, Prometeu acorrentado de Ésquilo, o cinema de Abbas Kiarostami & Juliette Binoche, a arte de Alex Toth & Ekaterina Mortensen aqui.
Preciso de um culpado, Platónov de Anton Tchékov, Peri Physeos de Anaxímenes de Mileto, A arte de furtar de Padre Antônio Vieira, As odes píticas de Píndaro, o cinema de Walter Lang & Susan Hayward, a arte de Dave Saint-Pierre, a música de Stanley Clarke, a pintura de Horace Vernet & Malcolm Liepke aqui.
Lugome, sua familia, seu infortúnio, A poesia erótica de José Paulo Paes, a música de Gina Biver, Fundamentos da História do Direito, O combate à corrupção nas prefeituras do Brasil, a pintura de Sofan Chan, a fotografia de Luiza Machado, a arte de Eiko Ojala & Rudson Costa aqui.
A arte de Tunga, Estética teatral de Redondo Junior, a poesia de César Vallejo, a música de Ná Ozzetti, a fotografia de Ruy Carvalho, a arte de Sônia Braga, Fecamepa & Os sapos na política de Edson Moura aqui.
Semáforos de sempre, vida adiante, Amor em tempos sombrios de Colm Tóibín, O serviço social de Marilda Villela Iamamoto, Ética & Marketing Social, a fotografia de Spencer Tunick & Esdras Rebouças Nobre, a arte de Vik Muniz & a música de Claudio Nucci aqui.
A sexta é dia da deusa, da musa, rainha, poeta, mulher, A história de Goethe, a literatura de Machado de Assis, Gozo fabuloso de Paulo Leminski, a música de Alexandra Stan, a fotografia de Marcos Guerra & a arte de Luciah Lopez aqui.
Na Volta da Jurema, Semiologia & comunicação lingüística de Eric Buyssen, Arrowsmith de Sinclair Lewis, O pensamento de Confúcio, a música de Guinga, a arte de Ida Zam & Laerte Coutinho aqui.
O amor dos namorados, A arte de amar de Erich Fromm, Sonetos de amor de Pablo Neruda, Cânticos dos Cânticos, A música de Edith Piaf, o cinema de Derek Cianfrance & Michelle Williams, a pintura de Julia Watkin & Cornelis le Mair, a arte de Henry Asencio & Grupo Femen aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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