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sexta-feira, outubro 04, 2019

GEORGETTE & MAGRITTE, ELIZABETH PEYTON, VALMIR JORDÃO, GUARDA DAS VIRGENS & AMIGOS DA BIBLIOTECA.


GEORGETTE, MEU AMOR - E o amor se fez, desde adolescente quando a vi na feira de Charleroi, ali me apaixonara e de repente, mas a guerra brutalmente interrompeu nosso idílio. Maldita guerra irracional e a minha dor maior quase década a fio e à flor da pele. Seis anos depois, quase a redenção ao reencontrá-la no jardim de Bruxelas. Ah, Georgette, a bela de Schaerbeeck tornou-se a minha Olympia, a minha Xerazade das minhas mil e uma paixões atônitas em seu corpo o andaime perfeito para que eu possa singrar a transcendência de tudo que existe e pulsa e atrai e vibra acima e abaixo do que sou, como se não fosse possível e a verdade desvelada fosse mentira ou escondesse o que deveras irreal e remoto dos inomináveis ocultos, dos anônimos irreconhecíveis e dos apócrifos convencionados como autênticos e reais. Não há nada em definitivo jamais se sou efêmero e ela ao piano surreal, o retrato três quartos do rosto, entre as nuvens do céu azul, no medalhão cercado de pombas, no copo e na bola, é nela, sim, em definitivo, que enlouqueço porque seus olhos são os enigmas do universo e a absurda escuridão da infinitude na sala de jantar eu via o pensamento, tudo imaginação: charadas de chapéus sem cabeça e o realismo mágico do torso feminino, castelos, rochas, janelas, homens bizarros e esquisitices terrenas, o insólito nos contrastes ilusionistas, paradoxalidades do meu espírito travesso e a minha mãe suicida: sempre tentando o impossível, a nova realidade. O sonho é a expressão da liberdade e da loucura: o dia no piso não reflete a noite no teto e tudo só tem razão de ser e estar porque ela é real na vida e à minha mão exposta e ela nua ubíqua e única no presente da memória que virá sem que nada se repita e torne diferente a cada vigília subterrânea nas propagações que sou nela e ela é como se hoje em dia fosse apenas lembrança da impermanência, como se identificasse o igual no diferente e ter a certidão apurada de que não é nada disso, enquanto o que se previa de futuro não era nada mais que o instante agora passado e deixasse de ser porque só existe na recordação, afora isso só o suposto e ela ali, comigo e minha na traição das imagens: não sou eu e nem é ela, o que somos, talvez. Eu também não sou isso ou aquilo, até nem sei e eu me pergunto se afora o que dela emana e o que ela é algo poderia ser real e não sei porque dela tudo me dispõe à criação, como se nela a premonição de tudo para mim a profecia do que ignoro tornar-se factível diante do inefetivo: a arte é a vida e o inútil que afaga para brincar de deus, porque assim nela me fiz, acaso não fosse dela abraços portuários, ventre pro meu embarque, corpo para minha sobrevivência, fonte inesgotável! Não há arte sem vida, Deus não é santo. É nela todas as paisagens, é dela toda criação, é ela a minha vida e arte para sempre, em Schaerbeek. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O monge José Maria possuía no seu arraial um grupo de caboclas para o serviço doméstico e íntimo caudilho, inspirador semi-religioso dos sertanejos do Contestado. Morto na luta de Irani, em 22 de outubro de 1912, em um encontro com a força militar do Paraná, nenhum dos seus adeptos deixou de aguardar seu regresso do céu, para guiar os fieis à vitória indiscutível. Esperava-se igualmente a ressurreição do primeiro monge, o São João Maria, tão diverso do segundo, que se dizia seu irmão. Na reorganização das tropas sertanejas rebeladas contra todos e contra tudo, especialmente depois da adesão total de Eusébio Ferreira dos Santos, reapareceu a guarda das virgens, não mais para o serviço doméstico, mas constituindo uma classe de videntes, interpretes das vozes e ordens do finado monge José Maria e às vezes do velho São João Maria. Os sertanejos obedeciam cegamente às determinadas vindas dos chefes [...] portadores das mensagens dos monges, por intermédio da guarda das virgens. Cada desses caudilhos tinha essas pitonisas encarregadas de por os supremos mentores desaparecidos em contato com o seu povo em armas. [...]. Trechos de Guarda das virgens, extraída da obra Messianismo e conflito social: a guerra sertaneja do Contestado, 1912-1916 (Ática, 1977), do jornalista, sociólogo e professor, Mauricio Vinhas de Queiroz (1921-1996), tratando sobre o monge José Maria, nome adotado pelo desertor Miguel Lucena da Boaventura, da força militar do Paraná, aventureiro afoito e valente, carregando a fama de ser irmão do monge João Maria, que pretendia cumprir o que ele não pudera realizar. Cercado de devotos entusiásticos, dominou extensa região do sertão do Paraná e Santa Catarina, fazendo orações, cantando benditos e tratando os doentes com ervas e a poderosa força sugestiva de suas pessoa inconfundível. Sobre o embate entre o monge e o coronel do exército, João Gualberto Gomes de Sá, tem-se o relato de que: [...] Logo ao primeiro embate, a polícia perdia 12 homens e outros tantos os fanáticos. Dado o entrevero, o monge atacou, armado de facão, o capitão Gualberto que, com dois tiros de revolver, o prostrou sem vida. Mas, por sua vez, caía o intrépido comandante da polícia paranaense, ferido de morte pelo golpe de facão que seu agressor lhe desfechara sobre a cabeça [...]. Por conta disso, deu-se então a Campanha do Contestado, a Guerra dos Sertanejos, obrigando os governos dos dois estados a sacrifícios cruéis que terminam com uma intervenção federal. A Guarda das Virgens era elemento preponderante, assim como o clima de entusiasmo fanático durante toda a ação, vez que o morto monge continuava a influenciar seu povo e tudo se fazia segundo sua inspiração semi-divina. O tema também se encontra registrado no Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), de Luis da Câmara Cascudo.

QUATRO POEMAS DE VALMIR JORDÃO
MATER EDUCAÇÃO - Oh! Mãe Educação, irmã da Filosofia / Fêmea belíssima e fértil que ao / Parir a sabedoria, o conhecimento, as profissões, / A cidade e as revoluções, / És maltratada e punida por misóginos e mesquinhos políticos, / A serviço dos interesses obscuros e estúpidos que / Escravizam e violentam os teus princípios de / Desenvolvimento e liberdade. / Querem extirpar dos teus seios, o inefável leite do discernimento, das ciências e das artes. / Oh! Mãe educação, companheira da razão / Guia-nos pelas veredas da perseverança, do empenho, da firmeza e da resistência. / Que não deixemos jamais a barbárie retornar, sob pretexto nenhum, até a vitória...
AH, RECIFE - Dizem os bardos que uma cidade / é feita / de homens, / com várias mãos / e / o sentimento do mundo. / Assim Recife nasceu no cais / de um azul marinho e celestial, / onde suas artérias evocam: / Aurora, Saudade, Concórdia, / Soledade, / União, Prazeres, Alegria e Glória. / Mas nos deixa no chão, / atolados na lama / de sua indiferença aluviônica: / a ver navios com suas hordas / invasoras / e o Atlântico / como possibilidade / de saída...
DO DESCARTE - penso, / logo / desisto.
POEMURO – mundo / novo mundo/ mundo. / sub mundo / mundo, / in mundo!
VALMIR JORDÃO – Poemas do poeta, compositor, performer e oficineiro, Valmir Jordão, autor do recém lançado livro Poemas Recifenses (Escalafobética, 2019), além de Sobre Vivência (Pirata, 1982), Antípoda (Escalafobétoca, 1990), entre outros. Participou de diversos movimentos literários recifenses desde 1979, colaborou com fanzines como Balaio de Gato, Caos, Lítero Pessimista, Folha ao Vento, Proezicanteatroz, De Cara com A Poesia, Poesia Descalça, Samsara, OVNI, entre outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Num certo sentido, pode ter-se muito maior intimidade com uma pessoa que não se conhece.
ELIZABETH PEYTON – A arte da artista visual estadunidense Elizabeth Peyton, que tem como foco o retrato em pequena escala, utilizando-se de tinta a óleo com esmaltes lavados, aquarelas, lápis, gravuras, litografias, monotipos, xilogravuras e fotografias. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE MAGRITTE
A vida me obriga a fazer algo, então eu pinto.
A obra do pintor belga Rene Magritte (1898-1967) que teve a sua grande paixão na musa e modelo Georgette Berger (1901-1986). O amor entre ambos foi tema da música René e Georgette Magritte com seu cão depois da guerra, do compositor Paul Simon, no álbum Hearts and Bones (1983) e em diversos álbuns e coletâneas do autor. Veja aqui, aqui & aqui.

AMIGOS DA BIBLIOTECA
Realizou-se nesta quinta, reunião dos Amigos da Biblioteca, definindo-se sua comissão provisória: na presidência Luiz Alberto Machado; vice-presidência: Janilson Sales; Secretaria: Iolanda Dayo & Basílio Palmares; Tesouraria: Zé Ripe e professor Alexandre; Núcleo de Pesquisa: Rute Costa & Silvana Neves; Núcleo de Leitura: João Paulo Araújo; Núcleo de Reforço: Carlos Calheiros; Relações Públicas: Ricardo Cordel. Na ocasião definiu-se a realização de uma reunião vindoura para debates acerca da minuta estatutária. Veja mais aqui.


quarta-feira, outubro 02, 2019

KAREN BLIXEN, RENÉE GUMIEL, OS AMORES DE BRAHMS, MADAME DE GOMEZ, JOÃO DE CALAIS & CONSTÂNCIA


OS AMORES DE BRAHMS - Ah, o amor, esse divino sentimento, tão contraditório quanto, não há como entender. Queria mesmo escrever com a mesma intensidade que amo, isso para mim é o amor. Mesmo para quem nasceu por conta de um pudim bem assado no forno pelos feitiços mágicos da culinária de minha mãe e o talento fracionário de meu pai, o amor é inevitável. Já que possuía o diapasão absoluto e davam-me por criança prodígio, foi o amor que me fez um vagabundo prendado a crescer entre damas profissionais e a exaltação das paixões, um jovem suscetível. Do amor não há quem passe impune, incólume, absolvido. Depois que se sabe, só quando passa. Como a nobre e bela Clara, paixão proibida, a minha obsessão e o Concerto para piano em Ré menor - tornei-me um reservado introspectivo, ela havia mexido mesmo comigo, as Variações e a Fuga de Haendel. Ah, Clara eterna, em mim até o meu último instante. A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas. É preciso estar pronto, sempre pronto para o amor, porque ele apronta das suas. Mas ninguém está livre do amor, como nas serenatas os meus dedos carinhosos sobre os cabelos negros e macios de Agathe e o Sexteto de Cordas em Sol maior, Ave Maria, canções, eu a amava e precisava dela, mas não podia carregar as correntes. Traduzia a emoção em canto, embevecido com o coro feminino de Hamburgo e as lindas cantoras vienenses, a voz encantadora de Ottile, o fascínio filantropo de Elizabeth e as canções folclóricas e o amor no rosto encantador de Bertha: ela escondia nossas cartas que eram como se fossem beijos dados e roubados, e eu lhe dei a minha canção de amor: o Wiegenlied. Nem Hermine, nem nenhuma. Nunca me despedi e nenhuma delas se despediu de mim: a vida é como pegar o trem errado no regresso e eu nem havia começado a me expressar entre um e outro flerte ocasional com mulheres bonitas. E se houver alguém a quem eu não tenha insultado, peço perdão: sou um pied pieper na dança alegre dos corações femininos, um urso aos resfôlegos e grunhidos, ultrajando senhoras e amigos, tal Hércules nos trabalhos da alma e o suor da fronte criadora: tudo que é humano é sujeito à vaidade e se não há empenho e arte, será só uma coisa qualquer sacudida ao vento. Criar não é nada demais, complicado é jogar o supérfluo debaixo da mesa. Da mulher a música vaga no ar e é preciso ter cuidado para não pisá-las nem desperdiçá-las, maior cuidado e dedicação. É preciso buscar os sentimentos profundos, os pensamentos mais nobres, no alto da montanha, no fundo do vale, eu as saúdo mil vezes e sempre. É delas a minha alegria e tristeza, meu dia e minha noite, minha vida e a minha morte. Sou nocauteado por elas, um menino que se diverte com a música alegre da polifonia selvagem de seus corpos mágicos, seus tantos momentos de real beleza, suas entregas verdadeiras. Elas me ensinaram a viver enquanto crio, sou delas porque nelas aprendi a amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Babette chegara exaurida e com olhar esgazeado, como um animal sendo caçado, mas em seu novo ambiente de cordialidade logo adquiriu a aparência de uma criada confiável e respeitável. Antes, parecera uma mendiga; agora, mostrava-se uma conquistadora. As feições serenas e o olhar firme e profundo tinham qualidades magnéticas; sob seus olhos, as coisas se moviam, sem fazer ruído, para o lugar apropriado [...] Mostraram a Babette como preparar o bacalhau seco e uma sopa de cerveja com pão; durante a demonstração, o rosto da francesa ficou absolutamente impassível. Mas em uma semana Babette preparava bacalhau seco e sopa de cerveja com pão tão bem quanto qualquer um nascido e criado em Berlevaa [...] E acontecia de Martine ou Philippa falarem com Babette e não obterem resposta e ficarem se perguntando se ao menos ela ouvira o que haviam dito. Encontravam-na na cozinha, os cotovelos fincados na mesa e as têmporas nas mãos, perdida no estudo de um pesado livro negro que secretamente suspeitavam ser um livro de orações papista. [...] Em momentos como esses percebiam que Babette era profunda e que no abismo de seu ser havia paixões, havia lembranças e desejos sobre os quais nada sabiam [...] Pobre?, disse Babette. Sorriu para si mesma ao ouvir isso. Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre. Temos algo, madames, a respeito do qual as outras pessoas não fazem a menor idéia [...]. Trechos do conto A festa de Babette, obra-prima da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962), levado para o cinema em 1987, com direção de Gabriel Axel, contando a fuga de uma refugiada da Comuna de Paris para um vilarejo, ela se emprega na casa de solteironas que são filhas de um rigoroso pastor. As irmãs não podem contratá-la e ela se oferece a trabalhar de graça. Após viver por catorze anos com elas, fica sabendo da fortuna que foi contemplada e, ao invés de voltar à França, pede permissão para preparar um jantar em comemoração ao centésimo aniversário do pastor. Da autora, um pensamento expressivo: O amor, para os muito jovens, é algo cruel. Bebemos nessa idade por sede, ou para embriagarmo-nos; é só mais tarde na vida que nos ocupamos da individualidade de nosso vinho. Veja mais aqui e aqui. 

O AMOR DE JOÃO DE CALAIS & CONSTÂNCIA - [...] João de Calais, filho de um rico mercador de Calais, é arrastado por uma tempestade para a ilha de Orimânia, onde, na cidade de Palmânia, resgata um cadáver, que os cães dilaceram por ser devedor insolvável. Paga o resgate de duas moças, que um pirata conduzia, e casa-se com uma delas, Constância. Em Calais, o pai reprovou o matrimonio, e João de Calais fez-se ao mar, deixando a esposa e o filhinho, e levando um retrato de ambos na sua nau. Chegando à Sicília, em Palermo, o rei reconheceu no retrato a princesa, sua filha, que tinha sido raptada por piratas. João regressa a Calais, com o príncipe Florimundo, para ir buscar a mulher. De volta a Palermo, Florimundo atira ao mar, com ciúmes. As correntes marinhas levam-no para uma ilha, onde vive dois anos, e é conduzido magicamente por um homem misterioso a Palermo, justamente quando Constança é obrigada a casar-se com o primo Florimundo. João faz-se reconhecer, e o príncipe é justiçado. Na festa das bodas reaparece o homem misterioso, exigindo a metade do filho de João, e este, que prometera dar a metade do que mais amasse, cede. O homem recusa e diz ser a alma do morto, que os cães rasgaram em Palmânia. [...]. Resumo da novela francesa Les jornées amusantes (Laemmert, 1840), da escritora e dramaturga Madame de Gomez – Madeleine-Angélique Poisson (1684-1770), extraída do Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui & aqui.

A ARTE DE RENÉE GUMIEL
Danço na minha idade, porque a dança e o teatro são a essência da minha vida. Consegui vencer meus dissabores — vida e morte, morte e vida: meu desejo do corpo, da alma e do cérebro me leva à mudança, me dá humildade e descubro o princípio da sabedoria. É o desejo que determina o movimento e as imagens.
RENÉE GUMIEL – A arte da bailarina, coreógrafa e atriz francesa Renée Gumiel (1913-2006), considerada a precursora da dança moderna no Brasil e que trabalhou os últimos anos da sua vida no Teatro Oficina, participando do processo de criação, dançando e interagindo em diferentes situações nas quatro montagens da peça Os sertões. Veja mais aqui e aqui.

A OBRA DE BRAHMS
Quando a gente vê uma mulher bonita durante muito tempo, uma mulher que é, ao mesmo passo, graciosa, terna e pura, não pode deixar de sentir-se inspirado diante do espetáculo. A paixão não é natural na humanidade. É sempre uma exceção, uma excrescência. Sê calmo na alegria, sê calmo na aflição.
A obra do compositor alemão Johannes Brahms (1833-1897) aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, setembro 13, 2019

GOYA, ANTÔNIO TORRES, D. H. LAWRENCE, VIRGINIA LEAL, SUSANNA MOTA & A CACHAÇA DE CASCUDO


GOYA & OS MUITOS NOMES DELA – Os muitos nomes dela, todos são uma só: uma obra-prima do universo. Nua e linda, ela é a bela Maria del Pilar que é Teresa e Cayetana e duquesa imortal; a linda e minha Pepita Tudó, minha Olympia de Manet, La Maja Desnuda: a expressividade dos seus olhos, seu brilho e delicadeza de nenhum recato, os braços sobre a cabeça, o dorso desnudo, o púbis oferecido entre as coxas do paraíso - o corpo resplandecido vive para a glória dos mortais! Que seja sempre assim, uma cigana audaz e atrevida na moldura dupla ao alcance da mão. Eu removo a tampa e ela atrevida, de corpo inteiro, na otomana de veludo verde, deitada placidamente no leito, em diagonal, sobre as almofadas de seda e lençol bordado, olhando para mim. Só para mim e minha. Que seja sempre assim, nobre nua e linda fujona lendária e tempestuosa inspiradora em mim o sonho possível. Que seja sempre dia, ou mesmo a noite escura para eu me perder em suas sombras sobre os lençóis. Não há como aplacar a fuga para os meus braços, sou peito aberto para sua âncora, todo seu. Que seja sempre um dia a mais, outra se quiser: em mim inteira como a lua na hora estrelada. Que esteja sempre de volta: as escapadas levam-me para sua alcova em Sanlúcar de Barrameda - o refúgio das loucuras mais incendiadas. Que seja sempre imprevisível nas poses eróticas da nossa fantasia, María Teresa: sou sua emanação disfarçada de pilão nos festivais populares das celebrações escandalosas pelo mergulho dos prazeres, para sedução dos que se arrastam atrás dos seus cabelos negros e cacheados a esconder sua face, para que eu possa descobri-la mais linda que nunca! Que seja sempre sorriso, satisfeita de si, contente com suas graças ao meu dispor: formosa mulher real e nua entre os meus braços. Que seja sempre a entrega e em mim a protagonista suspirante e eu a amo para esquecer o terror do Santo Ofício e todas as coisas mundanas da servidão. Que seja como o vento: a palpitar sem pretextos, viúva iluminada com a franqueza da nudez de sua natureza impulsiva, imantando a minha cobiça com sua penugem púbica farta, aguçando a minha obsessão por tê-la agora e já, tão obscena quanto para furor da Inquisição e o escândalo da filatelia espanhola. Que seja sempre lei, serei absolvido na sua carne e gozo. Para mim, é ela o amor mais que libertário; para ela, sou uma lenda real: a beleza nua feminina jamais poderia ser crime porque sou réu, apenas a celebração da vida triunfal! Enfim, dos muitos nomes dela, as muitas que são nela e são tantas e dela, todas são só para mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: Santa cana que está na roça, aguardente sem mistura, venha a nós o vosso liquido, pra ser bebida à nossa vontade, assim no boteco como em qualquer lugar. O garrão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as vezes em que bebemos menos, assim como perdoamos o mal que ela nos faz, não nos deixeis cair atordoados, livrai-nos da radiopatrulha, amém. Oração da cachaça, extraída da obra Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Segundo o autor, a cachaça tem muitos nomes e está em toda parte e o bêbado inveterado, ao encostar no balcão, oferece o primeiro gole ao santo protetor, Santo Onofre, depois conta a sua mentira ou verdade: Bebe o chefe de polícia / particular ou escondido, / o padre por mais sabido / toma seu trago na missa. / Eu também tive notiça / ou por outra ouvi dizer, / e tanto que posso crer / no dizer de certa gente / que bebendo o presidente / não é defeito beber. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] àquelas bandas tinha razões que só o seu coração podia explicar. Ele estava perdido de amor por uma moça bonita chamada Susana, que vivia na mais pobre choupana à beira do Boqueirão, com um coqueiro solitário à porta. Escondendo-se por trás de uma moita, o vice-rei a contemplava à distância, adorando-a platonicamente. Esse amor secreto o teria levado à decisão de aterrar a lagoa. [...] arborizou toda área. Também fez um jardim, no qual colocou pavilhões fechados, com murais e muitas obras de arte, entre elas a Fonte dos Amores. Para esta, ele fundiu dois jacarés de bronze entrelaçados. Por ordens do apaixonado vice-rei, Valentim pôs nessa fonte um coqueiro de ferro. Era uma reprodução daquele que havia à porta da bela Susana, a musa inspiradora da construção do Passeio Público, que em tempos menos perigosos deve ter sido um lugar tranquilo para os namorados. Resta-nos imaginar se a história da beldade plebeia teve ou não um final de um conto de fadas. Trechos de A bela Susana do vice-rei, extraída da obra Sobre pessoas (Leitura, 2007), do premiadíssimo escritor, jornalista e ocupante da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, Antônio Torres. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A POESIA DE VIRGINIA LEAL
TALARIUS LUDUS - Ah, decifra-me e te devoro / porque dos verd(azuis) / nada deves s(ab)er / e no jogo {inter_}valar / - pleno de frinchas / e mistérios -  / há peças {i_}matéricas / vitais. / Esse (vi)ver nas intensidades / é para as retinas dos homens / polissêmicos e {sur_}reais.
ABIDĬTA (da Série “Mulher revolt(S)ada") - Não foi o mar / a lhe tirar a grav{idade} / e fazê-la da(nç)ar / em nu e cru silên{cio} / Não foi o mar / a beber a {leve}za / (d)a ausência de rochedos / em uma tarde de inverno. / Não, definitivamente não foi o mar / a te(ce)r distâncias / vindas de um deus / estranhamente melancólico... / Ah, foi aquele olhar lunar / tão indefinido e belo / trazendo em meio a tantos modelos / uns certos sapatos sem asas... / E tudo se passou / no entre minutos / de conversas / casuais e / adjetivas... / Até que nomes próprios / familiares / puseram-lhe nos calcanhares / o peso perdido... / E sem risos / cheios de banalidades / viu nas castanhas íris / que ele sendo lunar / não se sabia (l)ivre / para flutuar / com a física e as leis / que os atraía por um certo peso / - um modo de estar no mundo / sem calçados {voa}{dores}... / Foi nesse instante que / desejou ser um rio / com foz e nascente / uma linha sem fluxos / vista em um monitor / - uma linha reta / final - / um sol sem {amar}{elos}.
INSUSPICABILIS (da Série “Mulher revolt(S)ada") - De cá olhou ao longe / a outra margem / e sem um traço sequer / de ruas, avenidas, / alamedas, córregos e becos / ali estava um cinza rio / tão cinza que suas águas / tiveram roubadas / dos céus, dos mares / e até da terra / – segundo Gagarin – / aquele profundo e enigmático / azul. / Dele não vinha nada / nenhum peixe, nenhuma palavra, / peça alguma que / à guisa de gancho / (fosse de pescaria, poema / ou xadrez) / pudesse lhe tirar / das retinas líquidas / o sal com que / os lunares olhares / temperaram / pontos e linhas. / Mas, de repente, tudo girou / - o movimento é mesmo / a forma de conter a morte? / E de cá e de novo olhou a margem / com novas águas a dar ao azul  / os seus substantivos, ainda que / fosse apenas em um pássaro.
SEMPER AMARE Série “ Mulher revolt(S)ada” - O que virá de teu acutilante olhar / para além de enigmáticos laivos lunares? / Serão sístoles ou diástoles? / Espera amiosante - o amor / é um calafrio entranhamente solar.
VIRGÍNIA LEAL – Poemas da poeta e professora Virginia Leal, doutora em Semiótica e Linguística Geral pela USP e Université Paris X- Nanterre (1999). Ela é professora dos Programas de Pós-graduação em Letras (PPGL) e em Direitos Humanos (PPGDH), da Universidade Federal de Pernambuco, orientando diversas investigações, tanto de mestrado quanto de doutorado, além de supervisões de pós-doutoramento, no cruzamento de temas tais como mídia, discurso e direitos humanos. Foi coordenadora de diversos acordos de cooperação nacional e internacional, dentre os quais destacam-se o acordo com a Brazilian Endowment for the Arts (BEA- NY/USA)) e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra/Portugal. Foi diretora do Centro de Artes e Comunicação (CAC) no quadriênio 2008-2012 e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos (PPGDH) no biênio 2014-2016. Possui diversas publicações em periódicos especializados e em livros.  Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Hoje se você me perguntar o que eu faço eu vou frisar que sou uma pessoa que gosta de criar imagens, seja através da ilustração, da tatuagem, do design ou de qualquer outra coisa, sem me impor limites.
A arte da artista visual, ilustradora e tatuadora Susanna Mota. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE D.H. LAWRENCE
Temos de viver, não importa quantos céus tenham caído.
A obra do escritor britânico D. H. Lawrence (1885-1930) aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A OBRA GOYA
O sonho da razão produz monstros.
A obra do pintor e gravador espanhol Francisco de Goya (1746-1828). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
PS: O grande amor do artista foi a nobre espanhola Duquesa de Alba (Maria del Pilar Teresa Cayetana de Silva e Álvarez de Toledo - 1762-1802) que foi representada na obra La Maja Desnuda, história essa levada ao cinema em 1958, dirigido por Henry Koster, estrelado por Ava Gardner, e do livro homônimo de Samuel Edwards (Cultrix, 1961).


quarta-feira, maio 09, 2018

ORTEGA Y GASSET, OGDEN NASH, GRIMALDI, ALESSANDRA FERRI, CÂMARA CASCUDO, ARTUR GRIZ, CELSO MACHADO & KATIE MELUA

A LUTA DO RESGATE, OU: EITA, ATÉ QUE ENFIM! – (Prefácio do livro Cantos, contos, crônicas. Palmares/PE: Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho/Bagaço, 1988). - Quando conheci a obra de Artur Griz, de sopetão me deparei com um volume enciclopédico que mal se conseguia apalpar, anunciando-se outros volumes à referida pesquisa. Era a famigerada Enciclopédia Griz. Afora isto, alguns poemas publicados n´A Notícia, artigos avulsos, crônicas. Depois o Zé Ripe, cantor das modas mais brejeiras, compôs uma canção próxima da beleza real, sobre o poema “Resto de Caminho”. Foi a partir de então que se sentiu a necessidade de conhecer melhor a obra deste poeta, escritor, enciclopedista, etc. Artur Griz, pessoa que não tive oportunidade de conhecer mais de perto, exceto quando passava apressado pela praça Maurity onde eu residia, ou quando caiu rebentadamente e armado de um penico e escova de dentes da escadaria fatídica de sua residência. Só foi mesmo por meio de Jessiva Savino, nobre madrinha da atividade cultural jovem da cidade dos Palmares, que se conhecia algo mais. Mas o bolo grosso estava entulhado entre roupas, detritos, traças e abandono, num recanto amaldiçoado da casa. Amigo próximo da família herdeira do poeta, é que tive oportunidade de vasculhar mais algumas obras de Artur, além de conhecer livros que até então sequer havia colocado a vista. De imediato me deparei com a primeira edição do livro “Caminhos da solidão”, de Hermilo Borba Filho, além de livros de Juan Ramon Jimenez, Otto Maria Carpeaux, Aldous Huxley, edições primárias de Erico Veríssimo, livros raros e traduções antigas. Nessa época estávamos editando a Revista A Região que fez publicar um artigo na procura inicial de resgatar e fazer sensibilizar as autoridades competentes para a necessidade de se publicar sua obra, a exemplo do que deve ser feito com o Fenelon Barreto, ainda longe de se conhecer sua obra teatral, poética e prosaica. Quando tomei nas mãos este volume, um compromisso assumido entre as Edições Bagaço e o prefeito de então, Luis Portela de Carvalho havia sido firmado no sentido de resgatar, antes que o tempo o consumisse, fiquei deveras surpreso. Passando a vista em artigos como “Hermilo Borba Filho”, “Palmares do Passado”, Um jornal para Palmares” e “A condição adversa do escritor pobre” e poemas como “Saudação a Palmares”, Decreptude” próximo do “Resto de Caminho” e o poemeto “Estrofe”, entre outros poemas já apresentados na edição dos Poetas dos Palmares, organizada pelo poeta Juarez Correya, havia, sim, constatado o valor literário do poeta em questão. Por fim, prosa e verso reunidos num só volume, dando conta parcialmente da obra deste autor que fez parte da história dos tempos do Clube Literário, trazendo a lembrança do tempo em que Palmares fervilhava na desenvoltura artística. De certa forma traduz-se uma dor: a dor da reminiscência. Mas é com satisfação que tais páginas possam revelar o talento literário do autor. No mais, com a palavra: Artur Griz. Palmares/PE, junho de 1987. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Celso Machado: Brasil Violão, Violão & Jongo Lê; da cantora e compositora britânica Katie Melua: On te road again, Avo Session & com a The Stuttgart Philharmonic Orchestra; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. 

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que hoje mais nos comove talvez em seu tempo tenha parecido apenas mais uma devastação. [...] É o tempo que os faz olhar essas paisagens da mesma maneira que olhamos as obras de arte: como configurações de outros mundos dos quais apenas podemos imitar interiormente o porvir. [...]. Pensamento extraído da obra A estética da bela natureza: problemas de uma estética da paisagem (CFUL, 2011), do filósofo francês Nicolas Grimaldi.

EDUCAÇÃO & PESQUISA - [...] Por que existem atividades docentes? Por que a pedagogia é uma atribuição e uma preocupação do homem? O ser humano se ocupa e se preocupa com o ensino por uma razão tão simples quanto severa e tão severa quanto lamentável. Para viver com firmeza, desenvoltura e honestidade é preciso saber enorme quantidade de coisas. E o fato é que a criança e o jovem têm uma capacidade limitadíssima de aprender [...] hoje mais do que nunca o próprio excesso de riqueza cultural e técnica ameaça converter-se em uma catástrofe para a humanidade, porquanto a cada nova geração lhe é mais difícil ou impossível de absorvê-lo. Urge, pois, instaurar a ciência do ensinar, seus métodos, suas instituições, partindo deste humilde e esmirrado princípio: a criança ou o jovem é um discípulo, um aprendiz, e isto quer dizer que um ou outro não pode aprender tudo o que teria de ser-lhe ensinado – Princípio da economia do ensino [...] não é ciência aprender uma ciência nem ensiná-la, nem tampouco usá-la ou aplicá-la [...]. Saber não é pesquisar. Pesquisar é descobrir uma verdade ou seu oposto: demonstrar um erro [...]. A ciência é criação, e a ação pedagógica se propõe apenas ensinar essa criação, transmiti-la, injetá-la e digeri-la [...] é preciso, portanto, sacudir a árvore das profissões de um excesso de ciência, a fim de que dela reste o estritamente necessário e se possa cuidar das próprias profissões, cujo ensino se acha por completo em estado silvestre. Neste ponto está tudo por começar [...] o homem que não vive à altura de seu tempo, vive debaixo daquilo que seria sua autêntica vida, ou seja, falsifica ou rouba sua própria vida, ele a desvive. Hoje atravessamos – indo de encontro a certas presunções e aparências – uma época de terrível incultura [...] Urge que o homem de ciência deixe de ser o que hoje é com deplorável frequência: um bárbaro que sabe muito a respeito de uma determinada coisa [...]. Tudo preme para que se torne uma nova integração do saber, que hoje anda em pedaços pelo mundo [...]. Trechos extraídos da obra Missão da universidade (EDUERJ, 1999), do filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Veja mais aqui.

A MENINA DOS BRINCOS DE OURO - Uma Mãe, que era muito severa para os filhos, deu de presente a sua filhinha um par de brincos de ouro. Quando a menina ia à fonte buscar água e tomar banho, costumava tirar os brincos e botá-los em cima de uma pedra. Um dia ela foi à fonte, tomou banho, encheu o pote e voltou para casa, esquecendo-se dos brincos. Chegando em casa, deu por falta deles e com medo da mãe brigar com ela e castigá-la correu à fonte para buscar os brincos. Chegando lá, encontrou um velho muito feio que a agarrou, botou-a nas costas e levou consigo. O velho pegou a menina, meteu ela dentro de um surrão (um saco de couro), coseu o surrão e disse à menina que ia sair com ela de porta em porta para ganhar a vida e que, quando ele ordenasse, ela cantasse dentro do surrão senão ele bateria com o bordão. Em todo lugar que chegava, botava o surrão no chão e dizia: Canta, canta meu surrão, Senão te meto este bordão. E o surrão cantava: Neste surrão me meteram, Neste surrão hei de morrer, Por causa de uns brincos de ouro Que na fonte eu deixei. Todo mundo ficava admirado e dava dinheiro ao velho. Quando foi um dia, ele chegou à casa da mãe da menina que reconheceu logo a voz da filha. Então convidaram Ele para comer e beber e, como já era tarde, insistiram muito com ele para dormir. De noite, já bêbado, ele ferrou num sono muito pesado. As moças foram, abriram o surrão e tiraram a menina que já estava muito fraca, quase para morrer. Em lugar da menina, encheram o surrão de excrementos. No dia seguinte, o velho acordou, pegou no surrão, botou às costas e foi-se embora. Adiante em uma casa, perguntou se queriam ouvir um surrão cantar. Botou o surrão no chão e disse: Canta,canta meu surrão, Senão te meto este bordão. Nada. O surrão calado. Repetiu ainda. Nada. Então o velho meteu o cacete no surrão que se arrebentou todo e lhe mostrou a peça que as moças tinham pregado. Extraído da obra Contos tradicionais do Brasil para jovens (Global, 2006), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui.

A GENTE TERRÍVEL – Gente que tem o de que necessita gosta muito de dizer às pessoas / que não têm o de que necessitam que estas realmente de nada necessitam. / Eu queria poder juntar toda essa gente num Castelo sombrio no Danúbio e contratar meia dúzia de Dráculas eficientes para aterrorizá-la. / Não me importa que tenham muito dinheiro e não me importa como o empregam. / Mas penso que deviam admitir que gozam do seu dinheiro. / Entretanto insistem em ser dissimulados acerca dos prazeres da riqueza. / E a posse de uma boa renda anual lhes fazem pensar em que dizer duro é / fazer os extremos se tocarem e isto é o seu sagrado dever. / Não se concebe uma ocasião / em que se encontrem sem alguma evasiva apropriada. / Sim, sem dúvida em argumentos são fecundos. / O primeiro ponto é que o dinheiro não é tudo, / e que, de qualquer maneira, não possuem dinheiro, é o segundo. / O dinheiro de alguns foi merecido / o de outros foi herdado. / Mas, venha donde vier, / falam dele como se fosse alguma coisa junto com a qual contraíssem uma doença. / Pode ser isso certo. / Mas se for assim por que não se livram / eles desse peso, transferindo-o para os pobres necessitados, ou para mim? / Talvez a posse de riquezas seja uma tristeza constante, / mas quase desejaria receber toda a maldição da riqueza se pudesse ao mesmo / tempo receber todas as suas bênçãos. / Os únicos males incuráveis do rico são os males que o dinheiro não pode curar / e estes são males ainda mais maléficos para os que são pobres. / Certamente já muitas coisas na vida que o dinheiro não compra, mas, é engraçado... / já tentou alguém comprá-las sem dinheiro? Poema do poeta estadunidense Ogden Nash (1902-1971).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina prima italiana Alessandra Ferri.
Veja mais aqui.


Semana Ascenso Ferreira & muito mais na Agenda aqui.
&
Vou danado com Ascenso com vontade de voar!, A escola, Eduardo Galeano, Oscar Niemeyer & a fotografia de Ilona Shevchishina aqui.

quarta-feira, novembro 01, 2017

LIMA BARRETO, CASCUDO, GENI GUIMARÃES, MÃES & AVÓS, LAMPIÃO, ÁGUA PRETA & EXPOSIÇÃO NA BIBLIOTECA

O QUE SOU DE TODAS AS COISAS - Convivo com a indiferença do mundo nas muitas paisagens em que o Sol faz o espetáculo cada vez mais lindo e maravilhoso a cada dia e ninguém se dá conta com seus afazeres e compromissos cotidianos. E se a Natureza e o Universo com seus extraordinários esplendores não são o foco nem chamam atenção à sensibilidade dos tantos que seguem apressados com seus umbigos pra cima e pra baixo, não tenho nada que lamentar, sou apenas feliz ao meu modo, saudando a todos que dormem enquanto tantas maravilhas, muitas paragens, me extasiam e me ensinam viver: a correnteza pras quedas dos rios, as ondas dos mares, as flores dos jardins, as folhas dos quintais, o canto dos pássaros, o voo das borboletas, a brisa nas varandas, os montes do crepúsculo, o horizonte das manhãs, tudo em mim, paratodos. Eu sigo e se ninguém me vê eu abraço a alma de todos a todo instante: é quem passa que me faz existir, mesmo que nem queira sequer saber quem sou nem o que sinto, sou ninguém na multidão. Se acaso acordarem, estarei junto na viagem. E mesmo que nem despertem ou mantenham a sonolência dos seus sonhos nos mais altos níveis de seus prazeres e satisfações individuais, estarei insone a mostrar do visinvisivel que aprendi e me delicia viver: é a vida. Enquanto reduzem sua existência à cata do ouro da Terra pra viver, eu persigo o ouro do coração das pessoas que é muito maior e mais valioso, porque sou e todas as coisas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais especiais com as Cartas Celestes 1 e 8, Sonata 1 for guitar & o Concerto Fribourgeois do pianista e compositor de música erudita Almeida Prado (1943-2010); o Quartet piano nº 1 op 25 Brahms, Concerto nº5 Vieutxtemps & Israel Phylarmonic Zubim Mehta da premiada violinista alemã Viviane Hagner; Ter Pezzi per pianoforte do compositor, professor e musicólogo Hans-Joachim Koellreuter; e Sonata for cello & piano nº 1 op 38 de Brahms, Grand Tango de Astor Piazzolla, Água e Vinho de Egberto Gismonti & O canto do cisne negro de Villa-Lobos, da violoncelista francesa Ophélie Gaillard. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Havia-me preparado para todas as eventualidades da vida. Imaginei-me amarrado para ser fuzilado, esforçando-me para não tremer nem chorar; imaginei-me assaltado por facínoras e ter coragem par enfrenta-los; supus-me reduzido à maior miséria e a mendigar; mas por aquele transe eu jamais pensei ter de passar. Como é difícil controlar o amor. [...] Trecho extraído da obra Cemitério dos vivos (Planeta/FBN, 2004), do escritor Lima Barreto (1881-1922). Veja mais aqui e aqui.

A PRAIERA EM ÁGUA PRETA - [...] Água Preta figura como um dos pontos por onde passou a Revolução Praieira de 1848. Os revoltosos, que tinham pernoitado no engenho Araticum, do município de Barreiros, chegando ao Cachoeira, em 26 de outubro de 1848, bateram uma força encontrada aí, de paisanos governistas. A força de Cocal [...] seguiu pelo norte do rio Una, tiroteando aqui e ali, nos lugares mais estreitos do rio, em que se descobriram os revoltosos, que seguiam de estrada acima. Chegando no engenho Barra, Sebastião Alves da Silva passou o rio com um piquete e fez retroceder a tropa governista, que contava com seu chefe entre os feridos. Às oito horas da noite desse mesmo dia, os revoltosos entraram em Água Preta. Em 23 de dezembro, teve lugar o ataque de Almécega. [...] Administrativamente, o município é formado pelos distritos Água Preta (sede), Santa Terezinha e Xexéu, e pelo povoado de Campos Frios. Anualmente, no dia 03 de junho, Água Preta comemora a sua emancipação política. [...]. Trechos extraídos da Enciclopédia dos Municipios do interior de Pernambuco (FIAM, 1986). Atualmente é formado pelos distritos sede, Santa Terezinha e pelo povoado de Agrovila Liberal. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LAMPIÃO INVULNERÁVEL – [...] Um chofer de praça, em Recife, dizia-me, anos passados, que o bandido Virgolino Ferreira, o “Lampião”, era invulnerável, por ter recebido um “patuá” da mão de um feiticeiro baiano. “Não há bala que não derreta como manteiga e faca se dobra como arame ao chegar em sua pele”, afirmava o negro motorista, sisudo e convencido. Quando Lampião morreu, casualmente encontrei meu informante e inquiri das virtudes mirificas do “patuá”. Não se perturbou: Lampião morreu porque deixara o “patuá” na barraca, quando fora tomar banho pela manhã. Não tivera tempo de recolocá-lo ao pescoço. Por isso morreu... [...]. Trecho extraído da obra Geografia dos mitos brasileiros (Global, 2002), do escritor e folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MÃES, AVÓS, MULHERES - [...] Sem dúvida, nossas avós e mães não eram santas, mas artistas, arrastadas para uma loucura entorpecida e sangrenta pelas fontes da criatividade nelas existentes e para as quais nçao havia escapatória. Sua arte não foi traduzida em poemas, músicas ou danças, mas na arte diária de cozinhar, do costurar, do bordar e de plantar jardins, que enfeitaram nossa infância e embelezaram nossas vidas. No mercado, na cozinha, no barrazão, na equipe de costura, na organização de festas e recepções, a mulher negra vem cumprindo os seus papéis. Arquétipos segundo os mitos africanos: nutre, protege, organiza, cria. [...]. Trecho extraído da obra A invenção do cotidiano (Vozes, 2000), de Michel de Certeau, Luci Giard e Pierre Mayol. Veja mais aqui.

CONSELHO DE GENI GUIMARÃES
Quem estanca o sangue
Que escorreu?
Quem sutura a língua e a boca
Arrancadas no meio da fala?
Quem devolve o feto primeiro
Da esperança trabalhada?
Quem resgata o tempo
E anula a doença
Que comeu a saúda da África?
Não perca tempo.
Não me procure para anular delitos
Que eu não posso e nem quero
Agasalhar memórias.
Não vou velar insônia de ninguém.
Poema extraído da obra Balé das emoções (Evergraf, 1993), da poeta e escritora Geni Guimarães. Veja mais aqui.

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EXPOSIÇÃO PINTANDO NA PRAÇA
Participando da exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, com o poeta e artista plástico Paulo Profeta, o artista plástico José Duran y Duran, as professoras Sil & Rute Costa e funcionários da SEMED-Palmares-PE. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...