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quarta-feira, agosto 07, 2019

WILLIAMSON, EILEEN AGAR, CALVINO, BAKHTIN, CAPIBARIBE, LUCIMAR CERQUEIRA, TELEVISÃO & CULTURA, CREOLINALDA & PÃO-POR-DEUS


PÃO-POR-DEUS - Creolinalda passou a maior parte da sua vida muito triste. Aparentemente, duas razões básicas e quase óbvias motivavam sua consternação: a primeira, o capricho paterno de lhe pôr este nome que ele achava a coisa mais linda do mundo, o que levou a mãe, providencialmente, a apelidá-la de Dadá, prevendo vexames futuros. A segunda, era que nunca via seus pedidos atendidos, fossem às vésperas do aniversário, no natal, ou data que fosse, sempre preterida. Esta a razão que a levou ao padrinho, isso ela com apenas quatro anos de idade, instar o porquê de não ter sua alegria satisfeita. O protetor, na maior saia-justa, achou por bem de ensiná-la a escrever bilhetinhos com seus pedidos e depositá-los em envelopes para endereçamento postal ao respectivo solicitado. Ah! Ela achou uma ótima ideia e logo correu para o pai, pedindo um caderno para escrever suas cartinhas já, o que foi logo providenciado. Pronto, agora ela estava entretida com suas ideias, pedidos muitos, coisas tidas por realizáveis. Contudo, não sabia escrever. E agora? Pai, quero aprender a ler e escrever. Ah, minha filha, quando você tiver idade. Ah, não! A tia-madrinha Vertigilda, a Gildinha do coração, socorreu e serviu-se a tal préstimo. Ensinou-lhe tudo direitinho: as vogais, consoantes, o tempo passando, ela inheta: Quê mais? Sílabas, palavras, nomes, frases, ávida por logo já sair contando história para cima e para baixo. Ao cabo de meses de dedicação, aprendeu a formular suas frases. Aí ela pensou, pensou e começou: primeiro uma carta para Deus - fazer todas as crianças felizes. Pronto. Veio-lhe outra, agora para o Papai Noel: uma bicicleta linda para sair por aí, toda amostrada e feliz. Ah, uma escola para estudar e ser gente na vida. Sim, um avião para ela viajar pelo mundo todo. Também, um navio para todas as águas. E amiguinhos, muitas amiguinhas, muito dinheiro e coisa e tal. E saiu escrevendo, uma a uma, escolhendo destinatários que surgiam de sua cabeça de menina. Depois, identificava caprichosamente nos envelopes os respectivos destinatários: Mãiêê, onde Deus fica? No céu. Certo. E o papa? No Vaticano. Beleza. E Papai Noel? No Polo Norte! Vixe, cada lugar estranho! Juntou tudo e entregou ao pai para passá-las ao padrinho e coloca-las nos correios. Cheia de recomendações, explicou cada uma delas, tintim por tintim. E debruçou-se sobre o assunto de novas escritas. Como seus pedidos demoravam a ser atendidos, logo ela tomou a iniciativa de compreender que podiam estar ocupados e saiu reenviando outras para o presidente do país; também, para o governador, outra para o prefeito e assim foi, pedindo a um e a outro, deputados, locutores, artistas, autoridades distantes, quem lhe viesse à mente. Assim foi crescendo, todo dia, e já adolescente mais se ocupava nisso. Bastava alguém mencionar algo, logo a ideia lhe vinha à cabeça: Vou escrever uma carta. Embora não tendo sido atendida em nenhum de seus pleitos, manteve o costume, especializando-se em escrevê-las para pretensos namorados, parentes, amigos, ídolos, até pessoas que não lhe caíam às graças, com algum desaforo recatado. Passaram-se os anos e, um dia, sua contrariedade maior, de mesmo, foi, já quase de maior, constatar que todas as suas correspondências, tidas por enviadas, estavam intactas em suas respectivas envelopes, reunidas e guardadas em um monturo escondido num quarto escuro que havia no quintal, repleto de coisas imprestáveis. Como é? Chorou e muito. Todavia, apesar da desconfiança instaurada a partir da descoberta, levou na boa: Por isso que eu nunca tive meus desejos atendidos. Tá bom. Não há de ser nada. Sentou-se com seus guardados, leu o conteúdo de cada uma e começou um diário. Ali passou a registrar todas as suas desventuras, desde o engodo do pai e do padrinho, ao vexame da risadagem com seu nome na hora da chamada do professor na sala de aula. Não poupou os lamentos: o príncipe encantado que nunca dava as caras, as pessoas que nunca entendiam suas preferências; as viagens sonhadas, os anseios jamais atendidos nem pelos programas da tevê e do rádio, nem por ninguém. Pudera, nunca foram realmente enviadas. Lamentou bastante. Refez-se e consignava no seu diário, refazendo a missiva, agora em versos ou não, alguns rimados, outros nem tanto, e aperfeiçoando suas solicitações com uma certa graça e esmero. Era a sua forma de pedir aos da sua devoção, fosse do panteão hagiológico cristão, ou dos fabricados pela idolatria dos membros de fã-clube das celebridades. Agora, os endereçados eram secretos, só ela sabia, mais ninguém. Ela que encaminhava e tinha na conta da certeza, até as que inadvertidamente esquecia encaminhar. Empenhou-se por si própria, decididamente. E danava-se a esperar na janela a realização, todos os dias. Escrevia e, debruçada na janela do quarto, sonhava vê-los todos atendidos. Sonhou tanto, muito e deveras, vivendo como se fossem reais, encantada com sua imaginação. Menina, vem-te embora! Já vou, mãe! A escola, Dadá! Já vou, mãe! Hora do almoço! Já vou, mãe! A janta está na mesa! Já vou, mãe. Até um dia que ela bem cansada, deitou-se e ousou dormir e sonhar. Resolveu, então, nunca mais acordar e viveu para sempre em seus devaneios. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] a polissemia do conceito de cultura exige que busquemos novas formulações capazes de evidenciar a interação entre uma cultura dita erudita, considerada através dos séculos como superior, e uma cultura adjetivada como popular, de massa, espetacular, enfim, inferior. A dicotomia superior/inferior parece ter perdido a razão de ser. [...] O panorama econômico que envolve a produção televisiva implica em vincular os hábitos da recepção a atitudes de consumo que passam a desempenhar papel preponderante em uma era que privilegia a lógica do mercado. [...] Trabalhar a representação das classes políticas brasileiras pela via dos processos expressivos da antropofagia e da carnavalização concerne a evidenciar o relacionamento das séries telefictícias com um conjunto cultural nacional. O riso literário enquanto substrato ideológico advindo de épocas de rupturas tem deixado identidades semióticas que ajudam a roteirizar as práticas discursivas destinadas a revelar os abusos de poder. [...] A dissolução de fronteiras entre cultura erudita e cultura popular (de massa), postulada como um novo traço formal que redireciona a vida social na nova ordem econômica, continua sendo vista como um dos grandes momentos da pós-modernidade. [...].
Trechos extraídos da obra Televisão e cultura: análise semiótica da ficção seriada (SCT/FCEBA, 2003), da professora e pesquisadora Licia Soares de Souza.

 

MARIANNE WILLIAMSON

Não somos impedidos pelo amor que não recebemos no passado, mas pelo amor que não estamos estendendo no presente...

Pensamento da escritora estadunidense Marianne Williamson. Veja mais aqui & aqui.

 

CERQUE-SE DE UM CAOS SENSÍVEL

[...] Jogar é entregar-se a uma espécie de magia e desmentir o inconveniente mundo dos fatos... Minha vida é uma colagem, com o tempo cortando, reorganizando e dispondo os materiais, sobrepondo-os e contrastando-os, às vezes com o choque de uma pintura surrealista. Eu me pergunto se a perspectiva tradicional é uma disciplina necessária para o estudante de arte, pois, ao longo dos anos, minha vida assumiu seu próprio padrão e formou suas próprias regras, adaptando eventos e cronologia no processo de peneiramento da memória. Como artista maduro, posso tomar liberdades com a perspectiva. Não somos feitos de linhas retas. Como disse Picabia: "Nossas cabeças são redondas para que os pensamentos possam mudar de direção." [...].

Trechos extraídos da obra A Look At My Life (Methuen, 1988), da artista argentina Eileen Agar (Eileen Forrester Agar), que associou-se ao movimento surrealista.

 

SE UM VIAJANTE NUMA NOITE DE INVERNO

[...] Quando você começa a ler um livro e ainda não sabe em que direção ele o levará [...] a paz não dura mais que de um funeral a outro [...] você avança na leitura como quem penetra uma densa floresta [...] eu, ao contrário, há muito tempo estou convencido de que a perfeição só se produz por acaso, acessoriamente; por isso, ela não merece nenhum interesse, pois a verdadeira natureza das coisas se revela apenas na ruína. [...] o esforço que faço para ler nas entrelinhas das coisas o sentido evasivo do que me espera. [...] A vida não passa de uma troca de cheiros. [...] com um arrepio, afasto a ideia de que a prisão seja meu corpo mortal e a evasão que me espera seja o distanciamento da alma, o início de uma vida ultraterrena. [...] o mundo se decompõe e tenta atrair-me em sua dissolução. [...] Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será... [...] No tocante ao relato, a ponte não acabou: sob cada palavra existe o nada. [...].

Trechos extraídos da obra Se um viajante numa noite de inverno (Planeta De Agostini, 2003), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A NASCENTE TODA A VIDA FOI ALI
[...] Quando terminou a novena, nós saímos de lá [...] Quando nós chegamos lá pro lado do Sítio Velho, nós reparamos que tinha uma nuvem... era uma nuvem bem aqui assim, não era uma nuvem de alarmar não, uma nuvem normal. [...] Aí, andamos, andamos ligeiro. Aí já começou a nuvem engrossando e foi subindo, e foi espalhando pra acolá, aí começou a cair umas pinguera [...] Quando foi um pouco, começou o trovão. Trovão geral, começava e saía arrodeando. O trovão e o relâmpago, com um pouco abriu as porta do céu e haja chuva. Agora isso era chuva do pingo banguelo, chuva segura, cada pingo desse tamanho assim. [...] Daqui a pouco, mãe escutou e disse “olha essa chuva é de gelo. Essa chuva é de pedra”. Aí começou com pedra. E tome, tome, tome chuva. Choveu assim uma base de uns 30 minutos, daqui um pouco parou. Aí mãe disse “a chuva parou, vamos dormir”. Oxe, com um pouco, outra do mesmo rojão. Do mesmo jeito. Sustentou o rojão até quatro e meia da manhã. Agora, chuva de rolo mesmo! O dia tava clareando. A casa coberta de palha de coco, não molhou nada. A chuva foi muita chuva, mas não foi chuva de molhar a casa não. Quando foi daqui um pouco só ouvia a fala: “Ô Joana!” Mãe disse: “O que é tio João?” “Vem olhar que coisa bonita”. O pobre do véio com umas alpercatas de couro, cum uma tira de sola desse tamanho de couro cru, com uma correia. “Vamos olhar Joana, que coisa bonita”. Aí nós chegamos, descemos por ali. Do jeito que tava o rio era um pano d’água só. Aquela cacimba ali, ninguém nem sabia onde era cacimba mais. Aí mãe disse “Ai, meu Deus, terra molhada tem muita”.
Trechos extraídos da obra Um rio de gente: histórias, causos e lendas do Capibaribe (Andararte, 2010), do premiado jornalista Inácio França, com fotografia de Tuca Siqueira. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu gostaria que as meninas negras se valorizassem como elas são. Foi aqui que aprendi a valorizar minha estética, minha beleza. Não existem padrões, mas sim a beleza de cada um. Com a autoestima elevada, você pode chegar a qualquer lugar.
A arte da bailarina e percussionista educadora Lucimar Cerqueira que foi eleita a Deusa de Ébano 2011. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE BAKHTIN
Ser significa ser para o outro, E, através dele, para si.
A obra do filósofo e pensador russo teórico da cultura e das artes Mikhail Bakhtin (1895-1975) aqui, aqui aqui & aqui.
 

segunda-feira, setembro 17, 2018

HILDA HILST, BAKHTIN, VALÉRIA REZENDE, CHRISTINA MACHADO, CŒUR DE PIRATE, ADAM MCLEAN & BRENO CESAR


A SEMANA COMEÇA COM O PÉ DENTRO – Imagem: Fio do Tempo, da artista plástica Christina Machado. - UMA DE TANTAS – Desde quarta passada, estava na Feira de Leituras: territórios interculturais da leitura – Da lama ao barro, prestigiando a iniciativa do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL-UFPE), da Rede de Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana do Recife (RELEITURA), da Biblioteca Comunitária Caranguejo tabaiares (BCCT) e a Biblioteca Comunitária do Alto do Moura (Caruaru –PE), comandado pela professora doutora Ester Rosa. Uma festa grandiosa com contação de histórias, barracas de livros, apresentações culturais, palestras, exposições e trabalhos do Núcleo de Acessibilidade da UFPE (NACE) e o escambau. O ponto alto, foi a palestra desenvolvida pela escritora Maria Valéria Rezende, que tive a oportunidade conhecer e papear, trocando ideias e figurinhas, afora saber do movimento Mulherio das Letras. Salve, salve! DUAS DE TUDO – Uma ótima opção para o recifense é a exposição Palavra em movimento, do cantor, compositor, poeta e artista visual Arnaldo Antunes, que se encontra aberta até o dia 14 de outubro, na Caixa Cultural. Foi lá que tive acesso ao livro Tudoss (Iluminuras, 1993), reunindo poemas e artes visuais do renomado artista da poesia e da música. Aproveito para registrar a bela realização da artista visual Christina Machado, no seu belíssimo trabalho nomeado Fio do tempo (2011). TRÊS DE MUITAS – No meio da emboança do final do final, tive a grata satisfação de conhecer o cineasta e fotógrafo Breno Cesar, e conhecer melhor o trabalho desenvolvido por essa pessoa amabilíssima. FECHANDO A LOA – Maravilha mesmo foi o show Caetano Moreno Zeca Tom Veloso, no último sábado, no Teatro Guararapes – Centro de Convenções de Olinda, no qual Caetano Veloso cantou com seus filhos a turnê do álbum Ofertório, dedicado às mães dos filhos e à memória de Dona Canô, mãe do próprio Caetano. Se este final de semana foi corrido e tome trupé, tomara que a semana corra ótima com o pé dentro e coisas acontecendo, porque o próximo final de semana promete. Vamos sempre juntos aprumando a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora canadense Cœur de pirate (Béatrice Martin): Live in Otawa, Blonde, Rosers & Live & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Tudo está dentro de nós, se tivermos a coragem de empreender a jornada. [...]. Trecho extraído da obra A deusa tríplice: em busca do feminino arquetípico (Cultrix. 1989), do escritor escocês Adam McLean.

FILOSOFIA DO ATO [...] Os valores espaço-temporais e todos os valores de conteúdo são atraído por esses momentos centrais emocionais-volitivos em torno dos quais se concentram: eu, o outro e eu para o outro [...] uma representação, uma descrição da arquitetônica real, concreta do mundo dos valores experimentos – não com uma fundação analítica à frente, mas com aquele centro real, concreto tanto espacial quanto temporal, do qual surgem avaliações, asserções e ações, e onde os membros constituintes são objetivos reais, interconectados por relações-eventos no evento único do Ser. [...] todas as relações espaciais e temporais pensáveis adquirem um centro de valores, concentram-se em torno dele em um todo arquitetônico estável e concreto: a unidade possível torna-se singularidade do rel. meu lugar ativo único não é apenas um centro geométrico abstrato. [...] Tudo nesse mundo adquire significância, sentido e valor apenas em correlação com o homem e com aquilo que é homem – como aquilo que é homem. Todo ser possível e todo significado possível se dispõe em torno do ser humano como o único centro e o único valor; tudo deve ser relacionado com o ser humano, deve se tornar humano [...] Se eu contemplo um quadro mostrando a destruição e a desgraça inteiramente justificada de uma pessoa que eu amo, esse quadro será completamente diferente, do ponto de vista do valor, quando não tenho nenhum interesse pela pessoa destruída. [...]. Trechos extraídos da obra Para uma filosofia do ato (Pedro & João, 2008), do filósofo e pensador russo teórico da cultura e das artes Mikhail Bakhtin (1895-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O DILEMA DE ZEFINHA -[...] Vinha a chamado do marido, que já tinha arrumado emprego numa construção, um barraco numa favela e não aguentava solidão. [...] Como tantos outros, tinham de deixar o sítio, o Ceará, buscar socorro no Rio de Janeiro [...] Quando o marido caiu do 6º andar da construção, Zefinha quis morrer também. Já não pôde suportar mais o Rio de Janeiro. Esperou sair a indenização, entregou quase todo o dinheiro aos filhos e comprou a passagem pro Crato. [...] Quando a mãe morreu, Zefinha aceitou a oferta do vereador do distrito e foi ser professora no sítio Assombro. Sabia ler e escrever muito bem, tinha sido a melhor aluna de sua turma até o terceiro ano, quando saiu da escola pra trabalhar numa casa de família no Crato. O que aprendeu nunca mais esqueceu. Aceitou o dinheiro não pelo dinheiro, mas por pena da meninada, mais de 40, analfabetos de pai e mãe. Gostou de encontrar alguma coisa que lhe desse sentido aos dias. Zefinha ajeitou-se bem no quatro que lhe deram, encostado no oitão da casa [...] Desde então, Zefinha Lima tornou-se a guardiã da alegria tranquila do sítio Assombro. Nunca mais emprestaria sua voz pra uma notícia ruim. Quando as cartas eram boas, lia ou escrevia com a maior fidelidade, sem tirar uma palavra. Não mentia à toa, pelo gosto de mentir. Continuava a ser uma mulher verdadeira, mas a verdade maior era que aquele povo precisava viver. [...] As respostas que Zefinha escrevia em nome dos vizinhos levavam a imagem de um sítio Assombro que enchia os destinatários de uma saudade boa e consolava-os da tristeza da vida anônima e solitária na cidade grande. Tinham um lugar livre de desgraças inesperadas pra onde podiam voltar um dia. Zefinha nunca mais teve remorsos pelas mentiras que inventava. As boas notícias brotavam-lhe fáceis e convincentes, na ponta da língua. [...] alegrou-se. Enxugou as mãos na barra da saia, abriu depressa o envelope e leu. Com as lágrimas enevoando a vista e uma mão invisível apertando-lhe a garganta implorou ao céu que alguém lhe fizesse a caridade de mentir. Que alguém mudasse as noticias tristes por uma noticia boa. Mas no sítio Assombro ninguém mais sabia ler nem mentir com arte. Extraído da obra Histórias daqui e d’acolá (Autêntica, 2012), da premiada escritora Maria Valéria Rezende.

UM POEMAConvém amar / O amor e a rosa / e a mim que sou / moça formosa / aos vossos olhos / e poderosa / porque vos amo / mais do que a mim. / Convém amar / ainda que seja / por um momento: / brisa leve a / princípio e seu / breve momento / também é jeito / de ser, do tempo. / Porque ai senhor / a vida é pouca: / um bater de asa / um só caminho / da minha à vossa / casa... / e depois, nada. Poema extraído da obra Trovas de muito amor para um amado senhor (Anhembi, 1960) da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004). Veja mais aqui.

A ARTE DE BRENO CESAR
Já divulguei aqui o curta A menina banda, dirigido, roteirizado e fotografado pelo cineasta Breno Cesar. Agora, destaco os filmes A luta do século (2016), Pingo D’Água (2014), Ferrolho (2012), Onde Borges tudo vê (2012), em que ele atuou como Diretor de Fotografia, e A Seita (2015), em que ele atuou como Diretor de Arte e de Fotografia. Todos imperdíveis. Veja mais aqui.

AGENDA
Palavra em movimento de Arnaldo Antunes – até 14 de outubro na Caixa Cultural – Recife – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte de Arnaldo Antunes aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Fio do Tempo, da artista plástica Christina Machado.
Veja mais aqui.
&
Da vida e do viver entre noites e dias, Edward Bulwer-Lytton, Emílio Mira y López, Denise Legrix, John Palo, Wesley Duke Lee, Carl Orff, Chloë Hanslip, Nelson Freire, Mitsuko Uchida, Villa-Lobos & Debussy aqui.


quinta-feira, março 07, 2013

ELIZABETH SIDDAL, GILKA MACHADO, DONNERSMARCK, MEG TILLY, MARY ELLIS, OFÉLIA DE MILAIS & ANAXÍMENES

 


DE FALAS, DIZERES & PALAVRAS: LINGUAGEM – Estava eu às voltas com palavras, palavrinhas & palavrões quando dei de cara com essa de Aristóteles: O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz... Era eu tendo a primeira noção do que seriam as questões de lógica, das categorias e do significado, além do que seria o nominalismo desenvolvido por Abelardo. Até que chega Hegel e me diz:A arte cultiva o humano no homem, desperta sentimentos adormecidos, põe-nos em presenças dos verdadeiros interesses do espírito... Enquanto Kant me dizia do outro lado: A missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem. A inumanidade que se causa a um outro destrói a humanidade em mim. E logo advertido por Schopenhauer: Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência. Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre... É claro que a coisa estava embananando tudo pras minhas bandas, mas eu seguia o fio. Logo apareceu Saussure: O homem que não lê não pensa... O tempo altera todas as coisas. Mais um pouco e foi a vez de Peirce aparecer com umas das suas: Existir é estar numa relação. É tomar um lugar na infinita miríade das determinações do Universo. Se o homem fosse imortal, ele poderia estar perfeitamente certo que veria o dia em que tudo em que confiava trairá sua confiança... Franzi o cenho, mas já sabia que era semiótica e eu precisava saber do riscado todo. Aí foi a fez de Jakobson: Quando eu falo, é para ser ouvido... Sim, por aí está indo bem, apesar de complicado. Eis que aparece Wittgenstein: O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas. Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos. Que bom que não me deixo influenciar!... Bem, esclareceu, mas o tanto de dúvidas que eu tinha mais se ampliaram com novos esclarecimentos necessários. Reli tudo e parei em Bakhtin: O que ocorre, de fato, é que, quando me olho no espelho, em meus olhos olham olhos alheios; quando me olho no espelho não vejo o mundo com meus próprios olhos desde o meu interior; vejo a mim mesmo com os olhos do mundo - estou possuído pelo outro... Hummmm. Bem, fodeu tudo agora! Hora de reler tudo, lá vou de volta aos estudos. E vamos aprumar a conversa.

 


DITOS & DESDITOS - E pensar que este país estava nas mãos de pessoas como você... Frase final extraída do premiado filme Das Leben der Anderen (A vida dos outros, 2006), dirigido pelo cineasta alemão Florian Henckel von Donnersmarck, que narra a história do um agente da polícia política da Alemanha Oriental, que se envolve num serviço de escutas clandestinas do apartamento de um casal da cena cultural de Berlim Oriental, no caso um escritor e uma atriz, e mais tarde se vê envolvido na vida do casal e tem um papel decisivo em seus destinos. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Não comecei realmente a fazer mudanças em minha vida até os 20 e poucos anos. E de repente eu pensei, espere um minuto. Eu estava tentando tanto ser o que pensei que deveria ser, em vez de apenas me permitir ser o que eu era ou o que sou... Pensamento da atriz estadunidense Meg Tilly (Margaret Elizabeth Chan), que se encontra desde 1995 morando no Canadá, onde se dedica a escrever livros e a cuidar dos três filhos, autora dos Singing Songs (1994; Dutton Books) e Gemma (2006; Syren Book Company).

 

CASAMENTO DE MEGHAN – [...] Talento é pouco mais que uma semente em solo quente de primavera. Deve ser nutrido e cuidado diligentemente se você quiser que ele cresça. Ninguém se torna proficiente em nada por acaso. [...] Rumores por si só podem causar dor à sua família. Simplesmente não é justo comprometer a reputação de uma pessoa. [...]. Trechos extraídos da obra A Marriage for Meghan (Thorndike, 2012), da escritora e ex-professora estadunidense Mary Ellis.

 

POEMA DA OFÉLIA DE MILAIS: A PASSAGEM DO AMOR - Oh, Deus! Perdoe-me por ter mergulhado minha vida \em um sonho sombrio de amor. \As lágrimas de angústia irão \lavar a paixão do meu sangue? \O amor guarda meu coração \ em uma canção de alegria, \ meu pulso estremece com sua melodia; \enquanto as rajadas frias do inverno sopram \ sobre mim, como uma doce brisa de junho. \ o amor flutua nas brumas da aurora \e repousa nos raios do crepúsculo; \ ele acalmou o trovão da tempestade \ e iluminou todos os meus sentidos. \ o amor me sustenta durante o dia, \e nos sonhos me acompanha à noite, \nenhum mal pode espreitar minha vida, \porque meu espírito é leve como as flores. \ Oh meu Deus! pena do meu coração inocente, \ o passar do tempo quebrou aquele prazer diário, \ o ídolo foi arrastado pela correnteza, \destruindo para sempre o meu santuário. Poema da poeta e modelo britânica Elizabeth Eleanor Siddal (1829-1862), mais conhecida como Lizzie, a Ofélia de John Everett Milais e esposa de Dante Gabriel Rossetti. Como ela vinha de uma família de classe trabalhadora, o marido temia apresentá-la aos seus pais. Ela então foi a vítima de críticas de suas irmãs. O conhecimento que sua família não iria aprovar seu casamento contribuiu para adiá-lo. Ela parecia acreditar, com alguma justificativa, que ele estava sempre procurando substituí-la por uma musa mais jovem, o que contribuiu para seus então períodos depressivos e doenças. Foi encontrada morta e, embora a morte tenha sido julgada acidental pelo médico legista, há sugestões de que o marido teria encontrado uma carta de suicídio. Consumido por luto e por culpa, ele foi instruído a queimar a carta, já que suicídio era ilegal, imoral, traria escândalo para a família e impediria Siddall de ter um funeral cristão. Sete anos após sua morte, o marido publicou uma coleção de sonetos intitulados The House of Life (A casa da vida), neste contendo um poema "Without Her" (Sem ela), sendo uma reflexão de seu amor que uma vez partiu. Veja mais aqui e aqui.

 

SENSUAL - Quando, longe de ti, solitária, medito \ neste afeto pagão que envergonhada oculto, \ vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito \ que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.\ A febril confissão deste afeto infinito\ há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,\ pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,\ à minha castidade é como que um insulto.\ Se acaso te achas longe, a colossal barreira \ dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma\ de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.\ Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,\ e sinto da volúpia a escosa e fria lesma\ minha carne poluir com repugnante baba… Poema da poeta Gilka Machado (1893 – 1980). Veja mais aqui.

 



PERÍODO NATURALISTA – OS JÔNIOS: ANAXÍMENES
Anaxímenes (588-524 a.C.) é o último representante notável da escola jônica, autor de uma obra Da Natureza, de que não ficou quase nada. Foi discípulo de Anaximandro e seu continuador. Dedicou-se à meteorologia, foi o primeiro a considerar que a lua recebe a luz do sol. Era companheiro de Anaximandro. Pensa Anaxímenes que o principio das coisas seja o ar, ilimitado e em movimento incessante, de que todas as coisas derivam pela rarefação e condensação do mesmo ar. Como Tales, Anaximenes imagina a terra como um disco suspenso no ar. Suas idéias tiveram por característica básica explicar a origem do universo ou arché a partir de uma substância única fundamental.
Segundo Anaxímenes, a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar, um elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. As diversas coisas que existem, mesmo apresentando qualidades diferentes entre si, reduzem-se a variações quantitativas (mais raro, mais denso) desse único elemento. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol.
Refutando a teoria da água de Tales, e do ápeiron de Anaximandro, Anaxímenes ensinava que essa substância era o arinfinito, pneuma ápeiron. O universo resultaria das transformações do ar, da sua rarefação, o fogo, ou condensação, o vento, a nuvem, a água e a terra e por último pedra. Esse era o processo por qual passava uma substância primordial, e resultava na multiplicidade, os quatro elementos. Para ele, o ar tinha o eterno elemento.
Hegel diz que Anaxímenes ensina que nossa alma é ar, e ele nos mantém unidos, assim um espírito e o ar mantém unido o mundo inteiro. Espírito e ar são a mesma coisa. Isto quer dizer que em Anaxímenes a substância da origem volta a ser uma coisa determinada como em Tales. Ele identificou o ar talvez porque tenha visto seu movimento incessante, e que a vida e o ar andam juntos, na maioria dos casos. A respiração é um processo vivificante, dependemos dela durante toda a nossa vida. Ele via que no céu existem nuvens, e que a matéria possui diferentes graus de solidez. Ou seja, para ele o universo resultaria das transformações de um ar infinito, o pneuma apeíron. Aproveitando a sugestão oferecida pela técnica de fabricação de ferro, produzido por aglutinação de materiais dispersos, em grande expansão em Mileto de sua época, ele afirmava que todas as coisas seriam produzidas através do duplo processo mecânico de rarefação e condensação do ar infinito.
No entendimento de Hegel, em lugar de matéria indeterminada de Anaximando, põe ele novamente um elemento determinado da natureza, o absoluto numa forma real, em vez da água de Tales, o ar. Ele achava, com certeza, que para a matéria era necessário um ser sensível; e o ar possui, ao mesmo tempo, a vantagem de ser o mais liberto de forma. Ele é menos corpo que a água; não o vemos, apenas experimentamos seu movimento. Dele tudo emana e nele tudo se dissolve. Ele o determinou igualmente como infinito. Diógenes Laercio diz que o principio é o ar e o infinito, como se fossem dois princípios. Mas Simplicio diz expressamente que para Anaximenes o ser originário foi uma natureza infinita e una, como para Anaximandro, só não, como para ele, uma natureza infinita, mas uma determinada, a saber o ar, que ele, porem, parece ter concebido como algo animado. Plutarco determina a maneira de representação de Anaximenes, que do ar, que posteriores chamaram no éter, tudo se produz e nele se dissolve, mais precisamente assim: “Como nossa alma que é ar nos mantem unidos, assim um espirito e o ar mantem unido também o mundo inteiro, espírito e ar significam a mesma coisa”. Anaxímenes demonstra muito bem a natureza de seu ser pelo exemplo da alma. Ele como que caracteriza a passagem da filosofia da natureza para a filosofia da consciência ou a renuncia ao modo objetivo do ser originário. A natureza do ar originário era antes determinada de maneira estranha, negativa, com relação à consciência. Tanto sua realidade, a água, ou também o ar, enquanto o infinito é um alem da consciência. Mas como a alma assim o ar é este meio universal: uma multidão de representações que esta unidade, continuidade, desapareçam – e seu desaparecimento e surgimento; ele é tão ativo quanto passivo, fazendo sair de uma unidade as representações, dispersando-as e sobressumindo-as e presente a si mesmo em sua infinitude – significação negativa positiva. Expressou de maneira mais determinada, e não apenas para fins de comparação, é esta natureza do ser originário pelo discípulo Anaximenes, Anaxágoras.
O pensamento milesiano adquiria, assim, consistência, pois além de se identificar qual a physis, mostrava-se um processo capaz de tornar compreensível a passagem da unidade primordial à multiplicidade de coisas diferenciadas que constituem o universo. Ele afirma também que uma só é a natureza subjacente e diz que é ilimitada, não porem indefinida, mas definida dizendo que ela é ar. Diferencia-se nas substancias, por rarefação e condensação. Rarefazendo-se, torna-se fogo. Condensando-se, vento, depois nuvem, e ainda mais água, depois terra, depois pedras e as demais coisas provem destas. Também ele faz eterno o movimento pelo qual se dá a transformação. É preciso saber que uma coisa é o ilimitado e limitado em quantidade. O que era próprio dos que afirmavam serem muitos os princípios, e outra coisa é o ilimitado em grandeza, o que precisamente se adapta ao caso de Anaximandro e Anaximenes, que supõem o elemento único e ilimitado em grande. Pois só Anaximemes que da rarefação e condensação, mas é evidente que também outros se serviam das noções deste fenômeno. O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo é quente. Como nossa alma que é ar, soberanamente nos mantem unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantem.
Como a Anaximandro, também a Anaximenes os doxógrafos – escritores antigos que recolheram ou transcreveram as opiniões dos primeiros filósofos, - atribuem a doutrina da constituição, a partir do arché única, de inumeráveis mundos, gerados de maneira sucessiva e ou simultânea.
Entre os adágios de Anaxímenes encontra-se: "Exatamente como a nossa alma, o ar mantém-nos juntos, de forma que o sopro e o ar abraçam o mundo inteiro”. Ao julgar que o elemento primordial das coisas é o ar, encontra-se que: "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente. O princípio de tudo, o arqué, seria o ar e as coisas da natureza seriam o ar condensado em vários graus. A rarefação e condensação do ar forma o mundo. A alma é ar, o fogo é ar rarefeito; quando acontece uma condensação, o ar se transforma em água, se condensa ainda mais e se transforma em terra, e por fim em pedra. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe a sua luz do Sol”. "Com nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém”. Outra frase que consta nos fragmentos é "O sol largo como uma folha". Por isso ele foi considerado pelos antigos como a principal figura da escola de Mileto.
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FONTES:
ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1994.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Atica, 2002.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luis. Historia da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
PESSANHA, José Américo Motta (Org). Os pré-socraticos. São Paulo: Abril, 1978.
SOUZA, José Cavalcante. Os pré-socrático. São Paulo: Abril, 1978.




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