sábado, abril 08, 2023

NNEDI OKORAFOR, CARLO ROVELLI, ANNIE VIVANTI, CHAMFORT & CAPOEIRAS

 

 Ao som do concerto Syllableaves para Theremin e Orquestra, pelo Gävle Symfoniorkester, dirigido por Fredrik Burstedt no Konzerthaus Gävle (Suécia, 2010) e Fantasias para Theremin e Quarteto de Cordas (2015), ambos da musicista alemã Carolina Eyck. Imagem: Mandala lírica (Acervo ArtLAM).

 

MANDALA LÍRICA – Outoninverno, o calor do nublado no meio de dias curtos e tanto a fazer. No meu sobrenome sabia: o frio vai durar toda vida e ainda não era o meu prazo. Era como se estivesse em YZ Ceti b contemplando a órbita de uma estrela anã vermelha. Umas passadas a mais e, do outro lado do muro, zuniam as balas do sectarismo messiânico com todos os seus próceres et caterva dedado por Lukács. Logo me distanciei e na boca de um túnel negro algo estranho e logo percebi que não era o gênio maligno de Descartes - quem dera a dúvida hiperbólica, ou que fosse pelo menos a dúvida cética, ora, e a metafísica nas raízes à mostra no chão, a física ao tronco e as ciências escapulindo pelos galhos! Mas não, não era. E como aprendi que um mais um são três, o poeta sorriu atrás do muro para dizer: Mácula acumula e como micula. Ora, eu também, meu! E sorrio. Tudo que vem logo vai. Nem deu tempo findar a frase e da boca do túnel surgiu Rufus – ah, não pode ser! E o pior: devidamente acompanhado duma dupla maligna breganeja e escatológica - Little Boy & Fat Man. Um trio nada agradável, eu previa. Queria lá fazer cócegas na cauda dum dragão, oxe! Tá doido, é? Bafejaram em uníssono: Bem, isso é tudo! Não, não era. Neguei o quanto pude! Contudo, a besta furiosa com seus comparsas queria mesmo era me torrar. Sou lá Daghlian ou Stolin, meu? Cai fora! Cuspi alerta: a minha chave de fenda é meu corpo fechado, espero. E, para me lascar, não era mesmo. Tentei escapar e uma das serpentes de Tirésias se aninhou ao redor dos meus pés. Ela fitou-me e senti logo que havia sido condenado pelo Basilisco de Roko, Singleton. Agora deu! Só me faltava essa! O quarteto logo me acuou na tentativa de me aprisionar no cérebro de Matriosca do Bradbury e já adivinhava: hoje cessará e logo será ontem, não sei amanhã. Procurei canto para me socar, mão aos olhos aprontando pra carreira e tudo estreitava. Qual é? Onde estou eu, afinal? Senti-me póstumo e pra não arrear de vez puxei conversa com os algozes, parecia mais que eu falava era grego. Não adiantou, mesuras inúteis. Encostado na parede, pressentia dali sangue na canela até o pescoço. Estava rendido, deveras. Matutei no cúmulo da fuga: uma carta na manga. Respirei fundo, pneuma no sangue: fui pro tudo ou nada e à forra, perdido por um ou por mil, tanto faz. Não me acovardei, centupliquei-me - afinal a lição: o que não me liquida me fortalece. Saquei e foi tiro e queda: as marteladas de Nietzsche! Dessa me safei, foi por pouco. Mais uma. Será que terei outra chance? Ah, deixa pra lá. O que vale é que cá estou no meio do caminho entre o micro e o macro, assobiando os acordes do meu theremin imaginário. Até mais ver.


Imagem: A vida e os sonhos renascem muitos... (Acervo ArtLAM).

 

DITOS & DESDITOS –O dia mais perdido de todos é aquele em que não se riu. O amor, tal como existe na sociedade, não passa da troca de duas fantasias e do contato de duas epidermes. O amor é como as epidemias: quanto mais o tememos, mais expostos a ele estamos. Amar é uma necessidade do coração; fazer amor é uma ocupação do espírito. As paixões fazem o homem viver, a sua sabedoria apenas o faz durar. A palavra mais acertada que já foi dita sobre celibato e matrimônio é esta: qualquer partido que escolhas tu te arrependerás. Quem não tem caráter não é homem, é coisa... Pensamento do dramaturgo e escritor francês Nicolas de Chamfort (Sébastien-Roch Nicolas – 1840-1794).

 

ALGUÉM FALOU: Eu quero investigar o que me assusta e me preocupa. Você fez o que você fez, você não fez o que você não fez, e agora você está pronto para julgamento. As pessoas podem ser todas as espécies de implacáveis e podem ser todos maravilhosos. Confie em si mesmo para que os erros que você fizer sejam os que foram feitos e não algo que você fez porque você estava com medo de fazer o que queria fazer. Possua seus erros, então você pode possuir seus sucessos. A alegria no que faço está em fazer isso. E então há a parte em que as pessoas vão ver o que eu ofereci e gostei ou elas vão ver o que eu ofereci e desejo que elas não puderam fazer... Pensamento da cineasta, roteirista e escritora estadunidense Jennifer Lynch.

 

A TRISTEZA DURA PARA SEMPRE...

São vastas extensões de trigo sob céus tempestuosos e não tive dificuldades para expressar a tristeza e a extrema solidão... Tanto na vida como na pintura, posso muito bem ficar sem Deus; mas não posso, sem sofrer, ficar sem algo que é maior do que eu, que significa a minha vida inteira: a força de criar... Há leis de proporção, de luz, de sombra e de perspectiva, que é preciso conhecer para desenhar um motivo; se essa ciência nos falta, arriscamos travar eternamente uma luta estéril e não conseguimos nunca criar.

Pensamento do pintor do pós-impressionismo holandês, Vincent van Gogh (1853-1890). (Imagem acervo ArtLAM: A mulher contempla a cadeira de van Gogh). Veja mais aqui e aqui.

 

QUEM TEME A MORTE - [...] Criaturas defeituosas e imperfeitas! Isso é o que nós dois somos, oga! Isso é o que TODOS nós somos! [...] Ser algo anormal significava servir ao normal. E se você recusasse, eles te odiavam... e muitas vezes os normais te odiavam mesmo quando você os servia [...] Eu era jovem, mas odiava como um homem de meia-idade no final de seu auge. [...] Nunca saberemos exatamente por que somos, o que somos e assim por diante. Tudo o que você pode fazer é seguir seu caminho até o deserto, e então continuar porque é assim que deve ser.[...]. Trechos da obra Who Fears Death (DAW, 2014), da premiada escritora e educadora nigeriana-americana Nnedi Okorafor (Nnedimma Nkemdili Okorafor ou também conhecida como Nnedi Okorafor-Mbachu).

 

ORDEM DO TEMPO - [...] As crianças crescem e descobrem que o mundo não é como parecia dentro das quatro paredes de suas casas. A humanidade como um todo faz o mesmo. [...] A diferença entre passado e futuro... causa e efeito... memória e esperança... arrependimento e intenção... nas leis elementares que descrevem os mecanismos do mundo, não existe tal diferença. [...] O mundo é feito de eventos, não de coisas. [...]. Trechos extraídos da obra The Order of Time (Riverhead, 2018), do físico e cosmologista italiano Carlo Rovelli.

 

QUEM SABE...

A longa noite me negou refrigério, / Alfin a aurora nasceu. / No leste, o céu é tingido de ouro, / E toda estrela está morta. / Quem sabe se é verdade que existe um Deus lá em cima! / Um Deus que ama e conforta! / - Penso em você que não me ama mais, / E para minha falecida mãe...

Poema extraído da obra Lírica (BiblioLife, 2009), da poeta italiana Annie Vivanti (1866-1942). (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui.

 

UNA-SE, O RIO É SEU...

Pela Serra do Quati ouvia o canto repetititvo: cáa-poera, Capoeirã! Oxe e tome bis com o refrão: Quando não é mata cortada, é roça tomada pelo mato. O rio é seu, una-se... (Tributo ao Município de Capoeiras – Pernambuco. Imagem: Valuna: Capoeiras – Acervo ArtLAM).

Veja mais aqui, aqui & aqui.



 


sábado, abril 01, 2023

CECÍLIA MEIRELES, LARS NORÉN, BETH O'LEARY. BRUCE MCCALL & EUGÊNIA FRANÇA

 

Sou um poeta obscuro, os meus companheiros são poetas obscuros, nosso país é o amor...

(Nênia de Abril, Veja mais aqui e aqui).

 


CARTA DE OUTONO - (Imagem Acervo ArtLAM) - Ontem choveu muito, hoje ensolarou, que bom! Sempre assim pelas beiradas equatoriais dos trópicos, a ponto de nem se saber direito se vigência estival ou reinado das invernadas. Sempre assim. Por isso herdei do sonho o discernimento na mais apurada solidão para perceber do que clareia quando muito, ou se escurece por demais no desespero com a desventura esmerada, e só olhares abertos para que a morte por lá se demore, muito embora eu mesmo nem tenha lá razão para resistir. Faz tempo que a desgraça mandou ver em dose dupla nos deixando num verdadeiro Campo de Asfódelos: a mais profunda treva de Érebo, qual catábase prévia e insuportável com exéquias perenes no pesadelo dos refugiados amedrontados, insones e famélicos. Os que se acham acima da carniça por não terem cara de ladrão nem se comovem, mas deitam hipocrisia mesmo não adiantando sair do conforto para tratar tudo por porqueira ou partir pra serração da velha, ora pro nobis, valei-me deus! O meu país tornou-se uma penitenciária aberta com um monte de oh porque está bonito pra chover e pagam pra inglês ver com o nada a declarar dos que possuem mossa funda na reputação e que resolvem tudo pela justiça-do-rio-de-baixo. Ainda lembro e sei que esquecer é o pior de tudo: as sequelas são dolorosas e sangram com a impunidade e supuram envenenando o futuro. É costume não se passar nada a limpo, nenhuma prova dos nove há séculos, só deixa pra lá e festa da matança que não me deixa conciliar o sono com as memórias de mar e terra nas mãos escassas aonde fui chegante e cortei volta, as conjuras surdas de vírgula e reticências, coágulos de nenhuma aspa... Eu sei, na vida eu só bati catolé, preciso é tirar a lomba da cacunda, como não sei. Aí é que está. Impossível dormir com a dor silenciosa dos sobreviventes, remoem suas vidas no jeitinho que der. Quando não der mais, deixo de mão, até o dia em que a sorte pouse em meus ombros, embora eu nem acredite nisso, apenas persigo e vou lá por que preciso cantar... Bella Ciao... Nênia de abril... Até mais ver.

 

Bella Ciao: la canzone della libertá, na interpretação da guitarrista, cantante, compositora e escritora espanhola Paola Hermosín.

 

TOMANDO NOTA: O OUTONO DO PATRIARCA

[...] uma pátria que então era como tudo antes dele, vasta e incerta, até o extremo de que era impossível saber se era noite ou dia naquela espécie de crepúsculo eterno [...].

Trecho extraído da obra O outono do patriarca (Record, 1993), do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014). Imagem: Sel-portrait II, da artista plástica Eugênia França. Veja mais aqui.

 

DITOS & DESDITOS: A maior parte da história ocorre ao ar livre, e os acadêmicos vivem e pensam em ambientes fechados... Pensamento do escritor e ilustrador canadense Bruce McCall.

 

ABRIL DESPEDAÇADO: [...] Há muitas ocasiões para morrer [...] Foi apenas uma frase que passou de boca em boca e nunca foi totalmente engolida. [...] E tudo seria diferente, diferente. [...]. Trechos extraídos da obra Abril despedaçado (Prilli i Thyer, 1978), do premiado escritor albanês Ismail Kadaré, que no Brasil ganhou uma versão cinematográfica. Veja mais aqui e aqui.

 

CANÇÃO DE OUTONO

Perdoa-me, folha seca,\ não posso cuidar de ti.\ Vim para amar neste mundo,\ e até do amor me perdi.\ De que serviu tecer flores\ pelas areias do chão\ se havia gente dormindo\ sobre o próprio coração?\ E não pude levantá-la!\ Choro pelo que não fiz.\ E pela minha fraqueza\ é que sou triste e infeliz.\ Perdoa-me, folha seca! \ Meus olhos sem força estão \ velando e rogando aqueles\ que não se levantarão…\ Tu és folha de outono\ voante pelo jardim.\ Deixo-te a minha saudade\ – a melhor parte de mim.\ E vou por este caminho,\ certa de que tudo é vão.\ Que tudo é menos que o vento, \menos que as folhas do chão…

Poema e imagem da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

O DIA A DIA, O AMOR... - [...] Parecem banalidades, coisas quase práticas, mas que escondem a realidade [...] são os pequenos detalhes do quotidiano que fazem a diferença. No fundo, apanhar em falso o que é verdadeiro. Será sempre assim por entre as revoluções são os rostos que ficam, os nomes que se distinguem, as praças que ficamos a conhecer... [...]. Pensamento do premiado dramaturgo e poeta sueco Lars Norén (1944-2021), sobre a sua minimalista peça teatral Do amor, tratando sobre os lados escuros e difíceis da vida humana, psicológica e familiar, colocando em cena dois casais, cujo homem e mulher de cada um deles acaba por se envolver um com o outro, materializando um mal estar social. Ele também é autor da peça teatral Outono Inverno ou O Que Sonhamos Ontem, que traz em cena as discussões e mágoas de um encontro familiar entre um casal de idosos – um médico fracassado e uma dona de casa frustrada que humilha o marido – e suas duas filhas que são mulheres independentes que lidam com seus problemas, evidenciando a opressão no ambiente familiar. São ainda de sua autoria os textos teatrais Coragem de matar (1978), A noite é a mãe do dia (1982), O tempo é a nossa casa (1991), Círculo de pessoas (1997), entre outras obras em prosa e verso. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

HORA DE LEMBRAR - [...] Lembre-me de que não há como salvar as pessoas - as pessoas só podem salvar a si mesmas. O melhor que você pode fazer é ajudar quando eles estiverem prontos. [...] Meu pai gosta de dizer: 'A vida nunca é simples'. Este é um de seus aforismos favoritos. Na verdade, acho que está incorreto. A vida costuma ser simples, mas você não percebe como ela era simples até que ela se torne incrivelmente complicada, como você nunca se sente grato por estar bem até ficar doente, ou como você nunca valoriza sua gaveta de meias até rasgar um par e não tem sobressalentes. [...]. Trechos extraídos da obra The Flatshare (Flatiron, 2019), da escritora inglesa Beth O'Leary.

 

UNA-SE, O RIO É SEU

Assim, a vida. Já nem sei de mim, nunca fui nada... Ouvi de longe alguém gritar: Quem matou o rio? Ora, me rio, ela me ensinou a vida, quem disse que eu morri, com ela virei mar e era apenas uma gota no oceano. Unadia, Diauna...

Valuna, Epitáfio na Várzea... (Rio Una – Pernambuco).

Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

segunda-feira, março 27, 2023

NURIA AMAT. SUSAN NEIMAN, MARIE UNDER & LADJANE BANDEIRA

 

 Ao som dos álbuns Kronos (Paradoxx, 1998), Um Outro Silêncio (Eldorado, 1999); Oriki (Saga\Trama, 2003). Presságios (Sonhos e Sons, 2007), Mae Inini (Wante, 2008), Layers of Now (Akasham, 2013), A Way Beyond (Akasham, 2015) e Enchanted (Wante, 2016), do violonista e compositor Eduardo Agni.

 

TRÍPTICO DQP: Uma: Baião das encruzilhadas - O que sou de ressurreto entre ambívios e malogros, meus sentimentos gotejam no caos, no meio de um torneio de ventos. Errei demais da conta e, da jornada do herói, a única lição: errar sempre para acertar. Não há fórmula mágica. Afinal, já dizia Umberto Eco: Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais... Assino embaixo. Claro, viageiro das estrelas nuas, com todos os escombros e precipícios: porque todo ato é imperfeito e implora por ajuste – pior os casuísticos, já nascem natimortos. Resta ouvir Susan Neiman: O banal não despedaça o mundo, o compõe... Há quem desespere da bifurcação e do ambíguo, o medo do sacrifício. Ah, não! Encruzilhadas tantas quantas, prefiro adiante e pro leste, se possível; senão, fazer por onde. Já me julguei preparado para o que nem precisava. Aprendi o silêncio e me encontrei inteiro: uma vírgula e eu, outras a mais... Estava pronto para ficar só, a emendar, ou melhor, empiorando mais o já ruim. Pois é, ainda tem como ficar péssimo além da conta. Torço pelo contrário, vambora...

 


Pelo rio mais deteriorado... – (Imagem Acervo ArtLAM) - Sim. É o caso do vizinho que vivia só no final de semana. Nos dias de feira só o via às noites das sextas, não mais. Era casado, segundo ele mesmo, com a Víbora da sobrancelha violinista, esse o apelido dela: a vozinha aguda de rabeca desafinada aos resmungos das calçadas. Mantinha com ela uma quebra de braço, dizia reiteradamente. É que pra ele ela era careca e viúva negra, quando cerrava o cenho era a hora do golpe. Ele esperto, ora, não baixava a guarda. Tomava umas e outras quase todas só para o exercício de esquentar a mão no maluvido alheio e torcer que, com isso, surgisse, no mínimo, um canivete que fosse para renovar o sangue. Para ele: sangue preso mata, tá doido! Ficava em forma para enfrentar a megera! A filha do casal, a menina dos olhos dele. Sim, até o dia em que ela brincou de escrever com uma pedra pontiaguda na lataria do automóvel recém comprado, zero quilômetro. Oxe! Ela tinha apenas dois anos. Ele chegou nela com um safanão bruto, pisou-lhe a mão com fúria, esmagando-a. No pronto socorro: Por mim amputava! E foi isso mesmo. Quase três anos depois, separado da esposa e morando longe, a filhinha chorosa foi visitá-lo e aproximou-se dele: Papai, quando minha mão crescer de volta, eu vou trabalhar para comprar outro carro novo pro senhor, viu! De soslaio, nenhum remorso, nem deu ouvidos, indiferente como o Pirangi de Pelópidas. Disfarçou o pior - ódio, cada qual seu jeito, como dizia Nuria Amat: Cada povo se comporta como se tivesse chegado ao fim da história... Agora eu não sei quem você é. Se você existe, se você não existe, se você é um homem fantoche ou pesadelo... Era a vez de Marie Under: Uma pessoa nunca repara o que foi feito, mas sim o que ainda precisa ser feito... E Perse queria levar belas palavras ao coração humano. Ah, o horror de viver passou da conta até a exaustão do deus de todos na paz tumular dos inimigos insones com suas formas de copular amálgamas levados pela desfiguração do cenário. Ademais, como diz Caio Fernando Abreu: O resto é engano, meu filho, é perdição. Nada demais, não são apenas os outros, cada um de nós, coisa complicada...

 


Intermezzo... – (Imagem: Acervo ArtLAM) - Havia o intervalo e ela Chloé era o improviso: ela havia chegado como se tivesse visto a esperança brilhar na rua Sol. Mas não disfarçou a profecia: confusão das estações, corrupção dos homens, decadência das classes sociais, maldade, relaxamento dos costumes. Eita, resumo das manchetes do noticiário de hoje? Não, há milênios profetizou a deusa trina da religião da Wicca e da guerra celta, Morrigu, durante a narrativa das vésperas da Segunda Batalha de Moytura! Parece com os dias atuais, né! Sim, como nos salvaremos, ora, o Doomsday Clock está aí contando os segundos que restam. Ou façamos como o historiador romano Sofrônio Eusébio Jerônimo, o Jeronimo de Estridão: Quid salvum est si roma petit... Ironicamente citou o epitáfio do Rubem Braga: De volta às cinzas... Respondi-lhe Dorothy Parker: Desculpe a poeira... Ela tentou disfarçar e recitou A mão – esse pássaro digital, de Ladjane Bandeira: Te sou limite de exigências e ansiedades \ se me constrange a servidão quando te afastas \ por meu domínio temporal. \ Minha lucidez te fere e injusta sou\ se em confusão também me gastas.\ Se hesito, vens a mim\ e na firmeza \ tenho inteira e súbita tua luz carnal \ no limiar do acontecer de transgredir-me\ nessas tão nossa hegemonia instrumental... Parecia um tanto desolada, não se conteve e me abraçou pressurosa sussurrando palavras enlouquecidas para que eu a amasse ali mesmo, urgentemente. Tomei-a em minhas mãos, e soletrei o seu nome infinito com todas as minhas confissões à socapa. Suas mãos viçosas rondavam o que amanheceu em mim, misturando suores e salivas, e tocou minha alma com o hausto de êxtase lambendo o meu sexo na alvorada dos seus lábios de pajem magnífica, a me determinar levá-la lauta ao ergástulo, confiscando-a, rechaçada e fausta pro meu apetite, enquanto investia a dilapidá-la por baixo das suas vestes, desnudando-a para ter-lhe a cachoeira de sua fonte hibernando a volúpia – da vilegiatura ao êxtase, arqueando triunfal para que eu me enterre na sua terra pura que hoje tem e depois também. Aí lavrei em sua carne noturna o poema com meus versos mortais por suas margens curvas, o convexo ventre e sua joia côncava rutilante, a brindar no seu cálice auspicioso, o seu alvo imperecível, seu hangar - bendita seja a sua peçonha porque sou viciado Príapo para acicatá-la plenipotenciária, destra e retesada, atravessada adepta nas proezas que nunca envelhecerão, porque nela sou constante estado de graça, amanhã eu não sei. Até mais ver.

Veja mais aqui.

 


segunda-feira, março 20, 2023

ALICIA KOZAMEH, ANDREE CHEDID, PRUDHOMME, HEYSE & O BICHO DO VAU

 


Ao som dos álbuns Vinha da Ida (2017) e Apneia (2022), da instrumentista, cantautora, circense e bacharel em sociologia, Livia Mattos.

 

TRÍPTICO DQP: Das lâminas e labaredas de Érebo... - O poeta sentiu a lâmina do tempo no corte profundo: a cicatriz guardava o sangue perdido e o fez singrar qual Odisseu pela névoa funesta de pesadas nuvens. Sabia desde Homero: A noite é terrível sobre os mortais infelizes. Não era o seu caso e nem se intimidou: enfrentou as labaredas de Érebo que emergia do caos e do esquecimento, saído das profundezas do Aqueronte com o coro das moiras e horas, fugindo do cárcere no Tártaro. Visível o seu ressentimento pela emboscada urdida por Nix, havia se libertado sozinho e era a primeira vez depois da Titanomaquia. Com ele as trevas da primeva escuridão nos ventos das belas tranças de Circe. Era então o vulcão da Ilha de Ross prestes a explodir sua erupção na Antártida, se agigantando como a cratera de Marte a mostrar o rio da morte e a fronteira entre dois mundos. Trouxe mulheres e homens despidos de seus legados, regurgitando a memória e lamuriando o luto dos vivos. Falsamente gentil ofereceu a imortalidade dos deuses por ser o universo, senhor dos cosmos e dos buracos negros. Não havia como escapar, todos haviam de passar por ele, como afirmara Hesíodo e os ditos das órficas e rapsódicas. Viu-se então Sully Prudhomme: Na minha alma trava-se um combate sem vencedor entre a fé sem prova e a razão sem encanto... Mais dissera Paul Heyse: Se a cabeça e o coração se contradizem, o coração acabaria por dizer: a pobre cabeça cede sempre, porque é a mais prudente... Um descuido do deus e subiu ao Monte como se recitasse o Poema em Linha Reta de Pessoa. E no topo cerziu seus poemas com a queimadura: transformava a dor em grandiosa mudança. Era como se salvasse aos primeiros raios da manhã. Sabia-se ainda vivo e voou nos versos de itinerância: até que tudo se esvaia na navalha do tempo...

 


Apocalipse lírico... - O que nunca tive não faz falta nenhuma, nem mesmo do que perdi ou ignorei. O que sei de mesmo: tudo pra ser revirado e refeito. Sim e refaço todas as horas de todos os dias. Em cada amanhecer já sou outro, tudo ficando para trás consumindo-se nos instantes e já era. Guardo comigo as palavras de Alicia Kozameh: Pego na mão o que sinto como beleza e, então, posso incluir a música que me é indispensável e o jogo de palavras... É sim o que me basta, os tons das cores musicais em cada uma das minhas vértebras. Aos poucos esqueço até de mim mesmo, só recomeço nos versos do Poema final de Andree Chedid: Onde estão as palavras, \ O fogo eterno, \ O poema final? \ A fonte da vida?... Esteja sabe-se lá onde, jamais serei o mesmo e até nem precise existir depois da desconstrução por que sou apocalipse lírico...


 

O bicho do Vau... - Um choro de menino e perscruto à toa. Logo uma das lavadeiras do lajedo: Não vá! Demorei a entender, até que ela, pálpebras baixas, olhar no vazio: Eu já tinha nascido quando a Sinhá nos trouxe para serviçais na casa grande. O coronel marido dela nunca gostou de mim: era como se eu fosse uma afronta e desconfiava do segredo da minha mãe, seria ele meu pai. Confesso: também não gostava dele e cresci assim, até tomar corpo e ele abusar de mim na volta do Vau. Fui mandada pra longe, escondida à sete chaves e tomaram-me o recém-nascido jogado na enchente do rio Jacuípe. Quantos não se afogaram investigando os gemidos pungentes. Hoje meu filho ainda chora nas profundezas do açude. É a maldição que atormenta todos aqueles que querem encontrá-lo. Silenciou... Fitou-me com insistência e me disse KateBornstein: Acho que há pouca compaixão no mundo agora, então precisamos desenvolver a nossa própria para compensar isso... Pude sentir sua dor e dela apenas o sumiço e as fatídicas notícias. Até mais ver.


Veja mais aqui.

 


segunda-feira, março 13, 2023

PARVEEN SHAKIR, ANNIE DILLARD, IVO ANDRIĆ, ZELDA FITZGERALD & J. ORLANDO ALVES

 

Ao som do Concerto Grosso (2014) pelo Quarteto Radamés Gnattali e Fantasia para violoncelo (2022) interpretada pela violoncelista Eleonora Rodrigues, ambas do premiado compositor J. Orlando Alves (José Orlando Alves), atualmente professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPb) e coordenador do Laboratório de Composição Musical (COMPOMUS-UFPb).

 

TRÍPTICO DQP: - Invenção do visinvisível - O poeta olhou e viu: o cio do amanhecer. Durante o espetáculo ouviu o vento varrendo as ondas, poeiras e chão para aprumar pedras e caminhos; mais escutou do diálogo entre as gotas d’água se avolumando na correnteza dos rios e oceanos, e muito mais atentou com o desabrochar das sementes, a expansão dos tentáculos das raízes, a ramificação dos caules, o florescimento dos galhos, a pujança do fruto, mais as vozes e lamentos humanos que o fez sentir as entranhas da vida em cadeia e a sua reverberação. O poeta assistiu atento ao caos e distinguia o que dissera Parveen Shakir: Uma gota de chuva ficou presa em meus cílios e afundou no olho... Faça o que quiser, mas tenha isso em mente: o sol também foi acusado de ter beijado e abraçado a noite... Era o apocalipse lírico a sua estesia. E sabia que a vida real era essa, não a que seus olhos flagravam pelas ruas e cotidianos, cruzando seres hipnotizados como se estivessem vendados dentro de milenar mitologia. Em si comungava a invenção do visinvisível...

 


Retratos de identificação... – Inspirado no documentário homônimo de Anita Leandro (2014). Imagem: "Não esquecer, nem perdoar", mural em homenagem às Mães da Praça de Mayo, em Buenos Aires – Vidoutra essa, muito diferente da que presenciava pelos amanheceres e minguantes crepusculares. O que sei, onde moro qualquer lugar igual mesmice e falsas impressões. Na minha solidão falava alto Annie Dillard: Eu desço até a água para refrescar meus olhos. Mas em todos os lugares que olho, vejo fogo; o que não é pederneira é isca, e o mundo inteiro faíscas e chamas... E expôs entre as mãos: Este é o verdadeiro crânio perdido de Schiller, os demais são todos apócrifos. E mais mostrou das cartas de mortos, revelavam o que temia: os tribais sorielisarb. Ora, porque éramos e os nossos, tão antagônicos quanto assemelhados com seus anseios de bunkers fortificados protegendo-se de si e de nós mesmos. Fez-se então Filha da dor no Efeito Genovese, agora a sua foto com uma quina sobre o peito na hora da pose, o clique, e a minha face em todas as fotos de outros desaparecidos mundafora. Uma lágrima rolou sobre a face dela. E disse que não era hora de chorar. Sei que todos ignoram, os que se dizem vizinhos são tão estranhos quanto na horagá, os que trabalham e apenas isso, ou seja lá o que for, alheios a tudo. Era como se ouvisse Ivo Andrić: Entre o medo de que algo aconteça e a esperança de que ainda não aconteça, há muito mais espaço do que se pensa. Nesse espaço estreito, duro, vazio e escuro, muitos de nós passamos nossas vidas... E dizia que era preciso tomar pé dos batentes falsos, das emboscadas por muitos e quantos descaminhos. Em cada abraço um ato de amor entendido como loucura ou delito. Para quem vive havia de se cuidar, não será nada fácil passar por onde quer que seja. O que sei é que ela não deixou nenhuma carta, disse adeus e se matou sob um trem que passava numa estação de Berlim.


 

Cantarolava Mariazé... – Imagem: Quietude (2017), da artista plástica Marcia Gebara, integrante do Grupo Ateliê Virtual 2022. – Sim, cantarolava efusiva Mariazé a Sabiá de Zé Dantas e Gonzagão: A todo mundo eu dou psiu \ Perguntando por meu bem \ E tendo o coração vazio \ Vivo assim a dar psiu \ Sabiá, vem cá também \ Tu, que andas pelo mundo, sabiá \ Tu, que tanto já voou \ Tu, que fala aos passarinhos \ Alivia a minha dor \ Tem pena d'eu \ Diz, por favor\ Tu, que tanto andas no mundo\ Onde anda o meu amor, sabiá? E era pra lá e pra cá, fstiva, radiante. Acompanhava seus passos atentamente, sua vozinha, seus afazeres, sua disfarçada consternação. Por ser ruiva era apelidada pelos parentes de Boadicea; pros estranhos era reiterada Boadica. Não, não era, tinha certeza. Fui tirar isso a limpo e indaguei a razão pela qual tratavam-na pela tal. Respondeu-me tal Zelda Fitzgerald: Olhe mais perto e você verá algo extraordinário, mistificando algo real e verdadeiro. Nunca fomos o que parecíamos. Estranhei e só muito depois ela achegou-se reveladora: tornou-se o que a chamam ao tomar as dores de uma sua amiga que foi esquartejada pelo marido ciumento. Ninguém sabia a razão pela qual o crime ocorrera. E a notícia não demorou: explodiram também a cabeça dela, irreconhecível. Durante o enterro ouvi alguém soltar sigilo entre dentes com desdém, de que ela presenciara um crime e denunciou o assassino que foi preso; mas, pouco tempo depois, conseguiu fugir e foi à forra: tiros esfacelaram seu belo semblante. Dias depois um irmão dela também foi alvejado por balas até agora anônimas e está sepultado no silêncio de décadas. Comigo a dor de cada qual, dores pelos descaminhos. Mas o mundo pode ser diferente e melhor. Viver pode ser bom, necessariamente. Enquanto isso, até mais ver.

 

Veja mais aqui.

 


segunda-feira, março 06, 2023

MARIA RESSA, MACLEISH, FILIPA MELO, CHANTAL THOMAS & TEJUCUPAPO

 

 Ao som de Umbrales (2018), Le Repas du Serpent (2004), Retour a la Raison (2004), Espectros de Água (2021), Rabeca (2021), Céu da Boca (2021) e Ronín (2021), da premiada violoncelista, compositora, musicista, pesquisadora e docente Iracema de Andrade.

 

TRÍPTICO DQP: - Cio do amanhecer... - O que é da vida (vem de, vai pra) outra! E eu com as perguntas de Gauguin nos lampejos do dia em plena madrugada. Que segunda ou sei lá relógio ou calendário, sem hoje nem onde, tudo se consome em erros e enganos. Quanta rebordosa na lição de Archibald MacLeish: Só existe uma coisa pior do que aprender com os erros - é não aprender nada com eles... Mesmo assim entoei o Hino de Akhenaton ao ver a estrela de Bandeira, como se vivesse no campo de Auta de Souza ou na palidez do inverno de Pessoa. E na do futuro de Sophia Breyner fui pelas quatro e meia de Bukowski e por toda de Affonso Romano de Sant’Anna, pensando com José Godoy Garcia e tecendo com João Cabral. Mudagora: destampou chuva de enxurrada lavando o meu país, enquanto assobiava as estranhezas dos lugares, a ligeireza do tempo e sentia o que jamais entendi. Sim, o sorriso se tornou espasmo com Maria Ressa: Sempre faça a escolha de aprender... Durante toda a minha vida, quando me deparo com uma decisão difícil, sempre me pergunto - onde posso aprender mais. Faça a escolha de aprender... E eu só pedia que não arrancassem minhas pálpebras, não fincassem dores no meu peito, não vazassem meus olhos, nem triturassem minhas unhas e dedos, não me dissessem de adeuses, nem fustigassem cem por cento meu coração, senão, sóis e lás, larilarás, bemóis, frases sem aspas, hemistíquios no impasse: nada cessava tampouco, pelo menos precisamos viver um pouco de paz...


 

A todo vapor... – Imagem: Report from Rockport (1940), do artista estadunidense Stuart Davis. - Maneiroutra: tinaceso, espreitubíqua; senão, cochilo de cachimbo entre pequenidades, era quase meio dia. Bem o diz Filipa Melo: Morremos todos de excesso ou falta de amor, que morremos todos do coração, acreditem!... Sim e isso porque o humano morre em cada um, essa a surpresa no meio do flagelo: todo o mundo vasto de desunião fundamentalista, feições desafinadas, os escarros da sorte se mantem tanto de besta e miserável, mais do que nunca. Melhor a tirada de Chantal Thomas: Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer... Sim, todas as carências na supremacia, como se fossem dilacerados sábados pelas esquinas medievais, com suas palavras estranguladas e nenhum nome ficou ao exorcizar a história infame no charco silencioso, ocos ouvidos pelas labaredas dos pesadelos e eu apenas viver no que resta, sem querer saber o que será de mim...

 


Ares de Tejucupapo... – Imagem: arte de Tereza Costa Rêgo. – Quandepois, a vida triunfa de tarde. Afinal, nem só de inferno se vive, vezoutra o paraíso pouquinho, mas vale a pena. E era Clara entre outras anônimas Marias, jeito pontual, havido e devido, um sorriso de quem solta balões em festa. Olhou-me de seu, marisqueira unhas na terra: livrou-se da pilhagem holandesa apenas com pedras, pano, chuços e água quente com pimenta no Monte das Trincheiras, era a insurreição do Porto do Ferreira, muito tempo atrás. Hoje não, agora dia de sururu, ostra, aratu, mariscos outros no chão da maré, as cacimbas em que só eram abris recorrentes, alma senão feliz, satisfeita. E me dizia Langston Hughes: Agarre-se a seus sonhos, pois, se eles morrerem, a vida será como um pássaro de asa quebrada, incapaz de voar... A vida é para os vivos. A morte é para os mortos. Deixe a vida ser como música. E morte uma nota não dita... Ajeitou os afazeres, lavou as mãos e com afeto redobrado deitou os ombros ao poente enquanto eu apenas fagulhas das narinas de setembro, os suores lascivos e ela se enramava imantada com as ancas ondulantes de sibila ungida. Sorvia seu jeito, servo a servia. Lá pras tantas tudo descansava boquinha da noite, foi aí um lance na paisagem escura e seu púbis orvalhado abriu meu cofre fálico com um beijo no crepúsculo da garganta. Ah, perdi meu rosto no solfejo brando dela e me fiz por suas pálpebras celestes, o seu delíquio tirando fino à beira do Aqueronte, a vida breve e vã, os prazeres ficaram na promessa da eternidade, nada esqueceria. E dela a hestória e o amor. Até mais ver.


 Veja mais aqui.

GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...