terça-feira, novembro 10, 2020

ÉDOUARD DUJARDIN, EMMANUELLE RIVA, HENRY VAN DYKE, TAMARA KVESITADZE, KURBAN SAID, NINON DE LENCLOS & ISA PONTUAL

 

TRÍPTICO DQC: VIDEVERVA, VIVAMOR - A vida retangular, meus dias à janela – manhãs, tardes e noites que se confundem pelas horas de claroscuros. Como eu queria as mãos no barro da terra, os pés pelas poças das calçadas, faces aos ventos, sabores de frutas maduras... O sonho recolhido na minha clausura. Remexo livros amontoados e monturos de coisas empilhadas pelos cantos. Entre os imprestáveis - presumo, como juntei tanta coisa, meu Deus, não sei mesmo -, uma lâmpada empoeirada: O que é isso? Não me lembro de tê-la adquirido, nem nunca a vi por perto. Curioso, tento remover a poeira e, com isso, uma fumaça emerge pelo bico: Será o gênio de Aladim? Não, não era: o escritor e dramaturgo francês Édouard Dujardin (1861-1949) lendo um trecho do seu livro Os loureiros estão cortados (Les Lauriers sont Coupés - Brejo, 2005): Um entardecer de sol se pondo, ar distante, céu profundo, e massas confusas, ruídos, sombras, multidões, espaços de extensão infinita, um vago entardecer… Pois sob o caos aparente, entre o tempo e o espaço, na ilusão das coisas que se engendram e se criam, um entre os outros, um como os outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um igual e um a mais, do infinito das possíveis existências, surjo eu; e eis que o tempo e o espaço se precisam. Nem havia me dado conta e já anoitecia: O tempo passava e sequer percebia. Ele sorriu enquanto eu cantarolava Gonzaguinha: Vida, vida, vida! E seja do jeito que for! Mar, amar, amor!... Ouvi sua gargalhada, mas não era mais dele, era Friedrich Schiller: O amor só é conhecido por aquele que irremediavelmente persiste no amor. Sim, sim, sei. E desapareceu do mesmo jeito como aparecera. Senti falta dela, há dias não dava as caras por aqui. A ausência dói e o amor, aquela semente que brota nos lugares mais improváveis.

 


DO AMOR & CIRCUNSTÂNCIAS ADVERSAS - Imagens: do premiado drama Amour (Amor, 2012), escrito e dirigido por Michael Haneke, contando a história de um casal de idosos aposentados, em que Anne é submetida a uma cirurgia mal sucedida na carótida que a deixa com um lado do corpo paralisado, destacando a atriz protagonista. – Na parede oposta uma projeção do filme me fez esquecer a solidão da noite. Durante a assistência, a porta se abre e ela adentra com um poema da atriz símbolo do amor da Nouvelle vague e poeta francesa Emmanuelle Riva (Paulette Germaine Riva – 1927-2017): Seu nome vai para a cama / em minha boca / Quando eu acordar / você já esta ai / meu sorriso / está sob seus dedos / você me mantém à distância / Eu tenho um curativo / no sextante / o corpo está à deriva / indo para o tempo / são os editos / da noite / (a) doçura louca / da liberdade. Logo se aproximou com um beijo e achegou-se ao meu lado acompanhando a projeção até o final. Fitou-me firmemente e recitou o escritor estadunidense Henry van Dyke (1852-1933): Amar não é receber, mas dar. Não um sonho ávido de prazer nem a loucura do desejo: não, nada disso é amar! O amor é bondade, respeito, paz... é simplesmente viver. E cobriu de vida a minha solitária existência e noite interminável.

 


DO QUE É CAPAZ O AMOR – Imagem: Ali & Nino - Man and Woman (2007), da escultora e artista georgiana Tamara Kvesitadze. Ao som da suíte sinfônica Pantanal (1990), de Marcus Viana, com a Transfônica Orkestra, Sagrado Coração da Terra & Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, sob a regência do maestro Lincoln Andrade. – Ao amanhecer era ela a escritora francesa Ninon de Lenclos (1620-1705): Nunca tive outra idade senão a do coração. No amor, a economia dos sentimentos e dos prazeres é a única metafísica apreciável. O amor é a comédia na qual os atos são mais curtos e os intervalos mais compridos. Como, portanto, ocupar o tempo dos intervalos senão com a fantasia? E me convidou das cinco às nove da noite para um evento no seu salão literário, estabelecido no Hôtel de Sagonne, para a encenação da comédia histórica em um ato misturada com vaudevilles e criada em sua homenagem e com seu nome, pelo Henrion – Armand Henri Ragueneau de la Chaianay (1875-1958). Aconteceriam também no mesmo horário o sarau com versos que o físico, matemático, astrônomo e horologista neerlandês Christiaan Huygens (1629-1695) fez para ela: Ela tem cinco instrumentos pelos quais estou apaixonado: / os dois primeiros, as mãos; / os outros dois, seus olhos; / Para o mais belo de todos, / o quinto que resta, / você tem que ser arrojado e ágil; a leitura do romance Memórias de Ninon de Lenclos, Cortesana del Siglo XVII (1857 – Hachette Bnf, 2017), do escritor e jornalista francês Eugène de Mirecourt (Charles Jean-Baptiste Jacquot - 1812–1880); a exposição das séries em histórias de quadrinhos Les Sept viés de l’éperier (1983/1991) / Masquerouge (2009) / Le Fou du Roy (Glenat, 1998) / Ninon secrète (Glenat, 1992), todas do artista francês Patrick Cothias; e o lançamento do livro Ninon De Lenclos: mulher de pensamento, homem de sentimento (WMF Martins Fontes, 1990), da jornalista e crítica francesa France Roche (1921-2013). Seria uma noite de consagração e com muitas homenagens, todas para ela, nada mais que merecido. Ela estava fulgurantemente linda, um colosso em forma de gente de tão exultante e glamourosa. À saída, não dispensou mencionar o poeta, escritor e jornalista argentino José Hernández (1834-1886): A oportunidade é como ferro: devemos batê-lo enquanto estiver quente. Melhor do que aprender muito é aprender coisas boas. E fomos de mãos dadas para a efeméride pelas estradas da nossa fantasia. Ao término da função, caminhamos até o boulevard de Batumi, e enamorados, vivemos a história dos amantes (E.P., 1937), do escritor azerbaijano Kurban Said (1905-1942): eu, o muçulmano Ali; e, ela, Nino, a princesa cristã georgiana, separados pela invasão soviética. E ali nos amamos para que o universo fosse festa naquela noite até outro amanhecer em nós. Até mais ver.

 

A ARTE DE ISA PONTUAL

A arte da artista plástica Isa Pontual. Veja mais aqui & aqui.


 

 


domingo, novembro 08, 2020

MICHAEL SANDEL, CHRISTER HENNIX, KERTÉSZ, ANNE SEXTON, TURGUÊNIEV, MUHAMMAD IQBAL, TORQUATO NETO, CURRIN, DIVA DE FARIA & PAULO DINIZ

 


 

TRÍPTICO DQC: POEMANDANTE, PALAÁVORAS - (Aos acordes da canção Pronta pra cantar, de Caetano Veloso, nas vozes de Nina Simone & Maria Bethânia) – A minha vida à janela, pés no chão ao rés da vida - as nuvens namoram os morros limítrofes e os cobrem com as suas saias brancas por dias sem fim, enquanto o Sol cochila manso com a algazarra dos pássaros que mudam de cor a cada gorjeado, cruzando uns aos outros, num colorido de vida. Sou levado, velovoz minha primaveraneio, chuvoutonal, sai do rio pelo canavial, atravessa a província morracima, quedabaixo, estradependali acolalhures - e a cidade ora é um pastoril com margens opostas aos desaforos e injurias mútuas, quem do cordão encarnado que venha, quem do cordão azul que se vá; ora é a farra pelos quatro cantos de velas, fé e perdição. Ah, essa manada catatônica para lá e para cá noites e dias de finados, feiras e bissextos, provam apenas que o mundo é uma bola e as anedotas e desgraças pairam no ar e aquecem a vida e os sonhos dos munícipes, sempre grados e furiosos, ora com o calor escaldante, ora com o frio das névoas dos terrores. As mulheres, ah, as mulheres, todas sempre radiantes e fogosas no meu coração com sua carne incendiária, elas nem sabem que vão e carregam os olhares de cobiça no desfile delas, impunes e sedentas, como são aprazíveis e talvez a melhor entre as melhores coisas daqui. E os homens, cabeças de fósforos, vivem de alisar o polegar ao anular, coçando os escrotos e pensando que tudo é possível como nos sonhos e pesadelos: vivem de atrapalhar a si e a vida dos outros, quando não mudam de ideia e querem que o curso dos rios siga aos caprichos de forte sobre mais fracos e submissos. Entre os endinheirados devotam comícios de aplausos – meia dúzia de alma penada que amealhou, sabe-se lá como, muque, punho e munheca, e alternam poderes nas quatro festas do ano, feriados e celebrações umbigocentristas. Outros, entre os menos abastados, fazem e desfazem conforme o apadrinhamento e interesse. Entediante, senão desapontador tudo isso. Levanto a vista e o cenário superior é melhor e logo me aparece Torquato Neto da Paupéria: Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. E riu e muito. No meio da sua gaitada frouxa emergiu o poeta e filósofo paquistanês Muhammad Iqbal (1877-1938): A vida é um movimento de assimilação progredindo sem cessar. No seu caminho suprime todos os obstáculos, assimilando-os. A sua essência é a criação contínua de desejos e de ideais. O Eu procura libertar-se eliminando todos os obstáculos à sua passagem. Em parte é livre, em parte é determinado. Numa palavra a vida é um esforço no sentido da liberdade. E rimos muito e muito. Foram embora e me deixaram sozinho apreciando a panorâmica da janela. É hora de ir e lá vou eu Quixote & Bispo do Rosário, almanhã, noitadeus, velavoz galapada & peitaberto: do meu pro seu txai coração.

 


ESSA TAL MERITOCRACIA, QUAL É, HEM? – Curtindo Symphonie op.21 (1928), do compositor austríaco Anton Webern (1883-1945), com a Berliner Philharmoniker, Pierre Boulez conducts (Deutsche Grammophon, 1996) - Sim, sim. No Brasil a educação é uma fôrma! Sim, isso mesmo, todos moldados no que é cristão, militarista, servil e, com aquela sabe como é - de fazer o certo, muito embora aqui o certo seja bastante escuso! Estou com Mark Twain do primeiro ao quinto, dezena, centena e milhar! Principalmente depois do fanatismo do evangélico neopentecostal! E por falar nisso, o que é da meritocracia, hem? Ah, nada melhor que ao livro A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum? (José Olympio, 2020), do filósofo e escritor estadunidense, Michael J. Sandel: Quem faz sucesso tende a achar que é graças a si mesmo. Destaca ele com todas as letras que A ênfase constante na ascensão individual através da educação superior tinha um insulto implícito: se você não tiver obtido um diploma universitário e se não tiver prosperado na nova economia, seu fracasso é culpa sua. Não há ninguém a quem culpar exceto a você mesmo. Parte do problema é que as elites meritocráticas de hoje em dia sofrem uma falta de humildade. É o que chamo de arrogância meritocrática, e desafiá-la é um primeiro passo importante. E sobre a pandemia? Ele solta na lata: Uma pandemia salienta nossa dependência mútua e exige um alto nível de solidariedade social. À medida que o vírus avançava, ia ficando cada vez mais claro que aqueles que suportavam as cargas mais pesadas e realizavam os maiores sacrifícios, e que sofriam mais perdas de vidas, eram aqueles que tinham sido deixados para trás na prosperidade das últimas quatro décadas. Nem pude digerir direito, chegou logo o Ivan Turguêniev em cima da bucha: As pessoas fracas nunca põem fim a nada – ficam à espera do fim. Se esperarmos o momento em que tudo, absolutamente tudo, esteja pronto, nunca começaremos nada. Sim? Nem tomei fôlego direito e era o Imre Kertész: Não se pode viver a liberdade no mesmo lugar onde se viveu a servidão. Claro, viver é outra forma de nos matarmos a nós próprios: a desvantagem é que é um processo horrivelmente longo. Bombardeio deste, quem sai com o juízo aprumado no meio dos algoritmos & noticiários com suas ideologias de mercado e consumo mundializado, hem? Minha orelha espreita um ninho de pulgas desconfiadas, viu?

 


DO AMOR NOS TEMPOS DE TORTURA & REPRESSÃO – Imagem: arte do artista visual estadunidense John Currin. Curtindo Unbegrenzt (Blank Forms, 2020), da artista sonora, escritora, compositora, filósofa e matemática sueca Catherine Christer Hennix, associada à música drone e filiada ao AI Lab do MIT no final dos anos 70 e mais tarde foi empregada como professora de pesquisa em matemática na SUNY New Paltz - Era ela, como sempre, inusitada no palco do meu coração: Sou Diva, Maria Diva de Faria: Teve uma tortura que aconteceu na véspera do Sete de Setembro. Sei que foi esse dia porque a gente escutava o ensaio das bandas. Me levaram para uma sala com acústica de madeira. Tocava uma música de enlouquecer. Era um som como se estivessem arranhando a parede. A música foi aumentando cada vez mais. Quando eu saí de lá, minha cabeça estava latejando. Por pouco eu não enlouqueci. Lá no DOI-Codi, todo dia eu ia para o interrogatório, e as torturas eram de todas as formas, como na cadeira do dragão, e sempre nua. E eles ameaçavam as pessoas que a gente conhecia. Um dia me chamaram e eu vi o Paulo Stuart Wright encapuzado. Reconheci-o pelo terno que ele estava usando, que fui eu quem tinha dado para ele, e também pela voz. Os torturadores falavam muito das presas, ridicularizavam, gritando para você ouvir. Eram coisas libidinosas, como do tamanho da vagina de uma pessoa que eu conhecia. Uma vez, eles me chamaram para um interrogatório com um homem negro que diziam ser um psicólogo. Isso foi muito tocante para mim, porque é claro que chamaram um homem negro para eu me sentir identificada. Um dia, eles me chamaram no pátio e lá estava o satanás encarnado, o capitão Ubirajara (codinome do delegado de polícia Laerte Aparecido Calandra), apoiado num carro, e um outro ao lado dele em pé, e um bando de homens do outro lado. Ele me pôs para marchar na frente dele, para lá e para cá, para lá e para cá, durante um bom tempo. E os homens falando: “Ô negra feia. Isso aí devia estar é no fogão. Negra horrorosa, com esse barrigão. Isso aí não serve nem para cozinhar. Isso aí não precisava nem comer com essa banhona, negra horrorosa”. E eu tendo de marchar. Imagine só, rebaixar o ser humano a esse ponto… Sim, sou Diva, enfermeira presa e que até hoje não esqueço essas tiranias. Sou também, como ela, Gastone Lúcia, sou Nilda, Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri & todas as Filhas da Dor & dói demais ser viva e mulher! Fui para perto dela, beijei suas pálpebras ensopadas de lágrimas e meu abraço guardou o seu soluço por longo tempo. Depois ela levantou-se e caminhou no meu quarto, tudo cantava ao seu redor, invicta beleza e giravalada certeira que me amparava pelos cantos entre agrados e favores, a sua fome fêmea e a festa do corpo. Depois de zanzar para lá e para cá, acercou-se de mim e recitou a escritora estadunidense Anne Sexton (1928-1974): Viva ou morra, mas não envenene tudo. Eu estou sozinha aqui em minha mente. Não há mapa e não há estrada. Sim, mapas não temos, estradas quaisquer. Para mim, abraçá-la era o mesmo que a sorte de estar vivo diante da deusamante, deusalada, o privilégio de habitá-la e o beijo de sua boca vinho algum revida. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE PAULO DINIZ

Meu nome é marca ferrada / Ferrada com sangue e suor / Que o fogo da vida castiga / Castiga sem pena e sem dó / Nos longos caminhos da lida / Mistura de água e pó / Meu nome é marca ferrada / Porteira fechada de quem anda só / Eu chego lá, eu chego lá / Eu chego em cima / No alto da colina / Ninguém vai me derrubar.

É Marca ferrada (1978), música do cantor, locutor, ator e compositor Paulo Diniz, que teve entre seus parceiros Odibar e Juhareiz Correya, e musicou poemas de Drummond, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima e Manuel Bandeira. Entre seus álbuns musicais figuram Brasil, brasa, braseiro (1967), Quero voltar pra Bahia (1970), Paulo Diniz (1971), E agora, José? (1972), Lugar Comum (1973), Paulo Diniz (1974), Estradas (1978), É marca ferrada (1978), Canção do exílio (1984), Pegou de jeito (1985) e reviravolta (2004), entre outros. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



sexta-feira, novembro 06, 2020

SOPHIA BREYNER, MICHAEL CUNNINGHAM, PAULO BRUSCKY, ALAMOA & VENUSBERG

 

TRÍPTICO DQC: DEPOIMENTO – É na janela que tudo se realiza: o meu e o de todo mundo. Tem horas que sorrio ou me deprimo, o tédio ou a satisfação e a cada hora. É nela a depor: Quando souber de mim será como o dia nasce e se vai entre ontens e amanhãs. Será como o olho vidrado pela nascente do despertar à luz calmante e abrasada em cismar surpreso com o ignoto tácito na esquina e a surpresa da jogada plural. Quando souber de mim será como a tarde cai ou de como tudo se esvai na última gota do canto do cisne e eu capaz do inacessível, do inalcançável que nem se concebe. Quando souber de mim será como anoitece entre o luar e as trevas, o sorriso abençoado e o falível engano, umbrais por se saber e cartas extraviadas e outras jogadas dentro das garrafas de nenhum dia, o difícil sustentar o vento na boca em qualquer estrada, ninguém nem de nada. Devia ser desse jeito e sendo assim será feito o céu: infinito e grande. Braços abertos, dado ao lado do amor, olhar incerto e o poema sem fim, o coração a quem possa apenas amar. E o poema se vai enquanto ela se passava por Sophia de Mello Breyner e o pegou pela asa para me dá um alento: A poesia é das raras atividades humanas que, no tempo atual, tentam salvar uma certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma – quer a essa alma se chame amor, liberdade, dignidade ou beleza. E era ela a poesia manifestada em carne viva e eu podia apenas fruir de seu esplendor como um devotado daquela que é uma verdadeira dádiva da vida. Dela todas as graças do universo para que não fosse apenas uma janela sobre adeuses amontoando sonhos como quem perdeu um sábado na ladeira e não o encontrava mesmo já sendo sexta entre portos ocultos e naufrágios velados, enquanto lá em baixo uma procissão de consumidores idolatravam as vitrines como um milagre redentor para a infelicidade deles. Nem sempre foi assim, talvez muito pior, não sei, nem há como se salvar diante de tanta ignomínia. Ela me redime na manhã e eu sou nela mais que ressurgência.

 


A TARDE ETERNA DE VENUSBERG - Bastou ela reaparecer na tarde ensolarada e ao meu redor tudo foi se transformando em Venusberg – ou será Hörselberg, sim ou não, não sei se onde a rainha das fadas foi visitar o outro mundo para sedução do homem mortal, aquele que era o cantor de Tannhäuser, do Codex Manesse. Senão aquela mesma das contadas no inacabado e reiteradamente censurado Under the hill: The Story of Venus and Tannhäuser (The Savoy/L. Smithers, 1907 - Europa-América, 2014), do ilustrador e escritor inglês Aubrey Beardsley (1872-1898), que ganhou uma versão que foi concluída (Olympia, 1959), pelo escritor canadense John Glassco (1909–1981). Ou uma ou outra, se ambas não forem a mesma coisa, sei não, só sei que trata da lenda de uma visita feita pelo poeta medieval ao fantástico palácio dos prazeres de Vênus, ou o contrário, se me parece ao certo. Bem, o que sei mesmo é que fui levado por ela para o boudoir que dava para alcova do seu palácio no alto da montanha, cercado por amplos jardins, alamedas, cascatas, arcos, pavilhões e grutas, um lugar mágico repleto de estátuas fálicas, esculturas eróticas e flores e plantas que mudam constantemente de forma. Ali me mostrou toda a dimensão de seu poderio, inclusive o seu bicho de estimação, Adolphe, um unicórnio de pelos brancos que descansava espragatado sobre as patas numa torre rente a uma caudalosa cachoeira. Mostrou-me a biblioteca que me encheu os olhos com tantos livros e me trouxe uma coleção de gravuras eróticas apreciáveis, não antes me premiar com outras tantas coleções repletas de histórias de todos os mundos e seres. Ao perceber o meu enlevo, pronunciou Robert Musil: O ser humano não consegue viver sem paixão. E a paixão é o estado no qual todos os seus sentimentos e ideias se encontram no mesmo espírito. E me acariciou as faces e me abraçou com ternura e me fechou os talhos da alma a me segredar o escritor estadunidense, Michael Cunningham: Você não pode encontrar a paz evitando a vida. O segredo do voo é isto – você tem que fazê-lo imediatamente, antes que seu corpo perceba que está desafiando as leis. Existe tanta beleza no mundo, embora ele seja mais difícil do que nós esperamos que seja. Nós nos tornamos nas histórias que contamos a nós mesmos. E me envolveu por inteiro entre seus braços, a noite se fechou, a quinta se esvaiu e ela totalmente em mim.

 


A NOITE DE SARA ALAMOA – Era noite densa e ela se achegou murmurando: É sexta-feira e a pedra do Pico se fende para a luz da chamada na porta! Pude vê-la pela claridade lunar e era Alamoa, a Dama Branca dos feitiços memoráveis. Levantou-se e pude acompanhar sua ígnea expressão no olhar misterioso de quem procura algo e não sabe onde. Acompanhei a sua movimentação, os seus lábios carnudos entrecerrados, a sua graça fenomenal no longo vestido de seda branca transparente, pernas ligeiramente abertas, mãos à cintura e finalmente seus olhos nos meus. E veio como quem encontra a providência exata do que fazer, sentir sua respiração quente na minha pele, seu hálito de flores invadindo meus sentidos, seu magnetismo tomando conta de todo meu ser arrepiado. Um beijo atrevido e ela inflada entre meus braços como se elevada por todos os sonhos, fantasmas e mamíferos da Terra. Num estalo, ela assustou-se, lembrou-se de algo, me largou e peraí, voltava já. Sumiu abruptamente e não respondia meus chamamentos, muito menos as perguntas, não dizia nada, sabia ali sua presença. Depois de muito procurá-la sussurrou invisível na minha nuca Ivan Bunin: As palavras são uma coisa, as ações são outra bem diferente. Precisei dar a volta para vê-la nua Sara, Sara Magdalene Pezzini ao vivo e em cores, linda de morrer. E puxou pro pé da cama e me contou das investigações de homicídio, da Batalha dos Independentes, do caso complicado no Rialto Theatre em que foi mortalmente ferida; das lutas com o demônio gigante, com Wolverine, Alien e Predador, da manipulação de Curator, das investidas contra Kenneth Irons; e da posse dos poderes sobrenaturais da Witchblade – a Lâmina Mística disfarçada de pulseira e da precisão dela para se curar e se recriar todo santo dia na armadura sobre sua pele, de voar e disparar rajadas de energia e estender gavinhas afiadas. Contou-me mais que foi roubada de sua mãe biológica ainda bebê e que só muito mais tarde descobriu sua irmã Karen Brontë, porque ela também descende de sua mãe, Elizabeth, que também era possuidora da Lâmina Mística. E encenou suas batalhas e gesticulou suas investidas e voou perseguida por um bando de pássaros até desembarcar de volta ao meu lado, depôs todas as posses e serviu-se escrava para me chamar Conchobar! E não se deteve envolta em vapores de ouro para me beijar as faces e me fitar firmemente e me beijar novamente e era a atriz Yancy Butler nuínha com um convite ao passeio do prazer e eu mais apto e voluntário no vaivém da sua entrega no meio das ventanias, trovões e relâmpagos, e as fagulhas de sua carne na minha abriam caminhos no mar, rotas universais pelos abismos dos céus e galopes para longe de todas as fugas inescapáveis e a suar em bicas com mil risos do que havia sido impossível ao sequestrar todo meu ser para tornar-me refém de sua façanha. Sou nela e ela em mim. Até mais ver.

 

A ARTE DE PAULO BRUSCKY

A arte do artista multimídia Paulo Bruscky, que estudou música no conservatório, cursou Jornalismo e atuou grafitando muros contra o regime militar. Foi um dos pioneiros do Movimento Internacional de Arte Postal no Brasil e é considerado um dos expoentes mais expressivos da arte conceitual no Brasil e um dos principais precursores de diversas manifestações que envolvem arte, tecnologia e comunicação, com base na ideia de arte como informação e marcada pelo experimentalismo. Autor de obras plural que vão desde poesias visuais, livros de artista, performances, intervenções urbanas, filmes em Super-8 e obras em multiplicidades de mídias, marcadas pela contestação social e política, resultado da postura crítica e militante do artista. Ele participou de exposições no Brasil e no exterior. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


 

 


quinta-feira, novembro 05, 2020

ALDA MERINI, RICARDO MIRÓ, ISAIAH BERLIN, MARCELO GRECO & TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO


  

TRÍPTICO DQC: BLUE GERSHWIN – Curtindo o Piano Concerto in F major (1925), de George Gershwin, com o piano de Yuja Wang & London Symphony Orchestra (2016) – O dia amanhece na janela para celebração da vida. O escarcéu do mundo no povo em polvorosa, nem se dá conta das estatísticas assustadoras, olvidam do genocídio e tudo como se nada acontecesse. Soletro um poema: Agonizo devagar. Não tenho nada a dizer, nada, absoluta catarse. Os meus pedaços se perderam de mim no labirinto da sobriedade de Cage. Devotei meu olhar a reinventar o muro à cabeça. Criei meu tautócrono com meus versos abstrusos. A loucura me cerca, comunhão. Ah! Meu tormento Van Gogh, minha solidão Almafuerte, sempre instigado pela descrença na frivolidade das coisas. Mal terminara de balbuciar meus versos, recepciono a imagem do filósofo letão Isaiah Berlin (1909-1997): Estamos condenados a escolher e toda escolha pode acarretar uma perda irreparável. Tal como aparecera, a sua efígie vai se apagando como se se dissolvesse aos raios solares. Contemplo o horizonte, a vida é a tônica em todos os lugares, ainda é possível viver.

 


A CENA NA COMPLETA ESCURIDÃO - Anoitecia e com a suspensão do fornecimento de energia elétrica. As sombras ocupavam seus espaços, cada vez maior a escuridão. De repente na parede oposta passou a rolar uma cena da comédia em um ato A família e a Festa na Roça (1840), de Martins Pena, quando personagem Juca sapecou: Se sabem que temos só por fortuna um coração amante e sincero, e quanto baste para viverem duas pessoas honestamente, mas sem luxo, adeus, minhas encomendas. Leva tudo o diabo. Batem com as janelas na cara, voltam as costas, não respondem... Ao final da encenação uma voz reiterou: Realmente, estamos fritos! É caso perdido. Procurei nos quatro cantos, era ela sentada como Sarah Bernhardt: A vida engendra vida. Energia cria energia. É gastando-se que se enriquece. Levantou-se e deixou escorrer a cortina na qual estava enrolada e caminhou nua até mim, recitando um poema de Alda Merini: Se eu repouso, no lento devir / dos olhos, me detenho / ao excesso feliz das cores: / aqui não temo mais fugas ou fantasias / mas a "penetração" me anula. / Amo as cores, tempos de um desejo / inquieto, irresolúvel, vital, / explicação humilde e soberana / dos cósmicos "por quês" do meu fôlego. / A luz me impele, mas a cor / me atenua, pregando a impotência / do corpo, belo mas ainda tão terreno. / E é pela cor a que me dou / que de repente me lembro do meu aspecto / e, assim, do meu limite. E com um beijo ela em mim ficou por todas as horas vindouras de nossa afogueada paixão.

 


OS TERRORES DA HORA & OS HORRORES HUMANOS - Imagem da série Helena (2019), do fotógrafo e professor/orientador, Marcelo Greco – No meio da madrugada ela despertou e me assustei com sua desolação. Entre lágrimas, debruçada na cama e sem cobertas, narrou: Era a madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971. Cerco montado, ela foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador... Liberada no início de novembro, estava profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Internada na clínica Almepe, em Salvador, no dia 4 de novembro. O estado se agravou com a invasão do major Nilton de Albuquerque Cerqueira ao seu quarto de hospital. Na presença da sua mãe, ele ameaçou que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. Ela foi transferida para o sanatório Bahia e morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou para a militância. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: edema cerebral a esclarecer. Um ano depois sua mãe Esmeraldina Carvalho Cunha, que denunciou incessantemente a morte da filha como consequências das torturas, foi encontrada morta em sua casa. Fez um silêncio tumular e sem se mexer por alguns instantes. Depois de algum tempo imóvel, virou-se e me disse: Sim, hoje sou Nilda: Nilda Carvalho Cunha (1954-1971), outra entre as filhas da dor: Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri. E me abraçou como nunca, carne trêmula, dores demais. Ao meu ouvido, ela era Malala Yousafzai: Falo não por mim mas por aqueles sem voz... aqueles que lutaram por seus direitos... Seu direito de viver em paz, seu direito de ser tratado com dignidade, seu direito à igualdade de oportunidade, o seu direito de ser educado. E me empurrou para que deitasse sobre mim e lábios rentes aos meus, mencionou uma célebre frase do escritor panamenho Ricardo Miró (1883-1940): O país é a memória… Pedaços de vida envolto em pedaços de amor ou dor; a palma farfalhando, música conhecida, o jardim e sem flores, sem folhas, sem vegetação. Oh tão pequena que você caber toda todo país sob a sombra da nossa bandeira: talvez você era tão jovem para que eu pudesse tomar em toda parte dentro do coração! E com um abraço firme e requisitante se entregou de corpo e alma para que eu pudesse usufruir da glória que é viver contemplado pelo amor de quem ama e é amada. Até mais ver.

 

TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO (TAP)

Criado em 1941, por Valdemar de Oliveira, o TAP reúne atores ao redor de um teatro de cultura que passou por diversas fases: a primeira, entre 1941-47, correspondentes aos anos de aprendizagem; a segundam, de 1948-58, concernente à renovação da cena; de 1959-1965, compreendendo a consolidação da cena; de 1966-1976, a ordenação do passado; e a partir de 1977, a cena refletida, montando espetáculos, entre eles, Um sábado em 30, de Luiz Marinho, em 1963. Hoje sediado no Teatro Valdemar de Oliveira, na Boa Vista Recife, apresentou ultimamente o espetáculo virtual E assim caminha a terceira idade, de Amanda Moraes, com atuação de Geninha da Rosa Borges. Veja mais aqui e aqui.


 


quarta-feira, novembro 04, 2020

GYULA KRÚDY, SARAH HALE, BERTHA VON SUTTNER, LING JIAN, CYD CHARISSE & CAVANI ROSAS

 

 

TRÍPTICO DQC: CLOSE DE MAIO - Não era, mas pareceu: tudo tão infinito dentro de mim e eu reduzido a um retângulo em que tudo se dissolve com a latomia dos viventes num caleidoscópio. Perdi o calendário, graças, nenhuma data ou acerto, resta apenas um poema num close de maio: Estou nessa rua e vou só. Minha morte se completa. Graças aos céus sou um sujeito de sorte. Mordi a maçã sem o conselho da serpente e nos meus olhos soturnos repousa a comiseração. A vida é pouca aqui. Tende, portanto, piedade da minha loucura, das minhas exacerbações. As noivas passeiam por maio e eu sobrevivo ao afago dos nubentes. Não há nada na minha euforia, apenas calçadas mormaçadas nos desejos de maio em meu vadio coração. Neste exato momento Giles Deleuze aponta no possível: As pessoas só têm charme em sua loucura, eis o que é difícil de ser entendido. O verdadeiro charme das pessoas é aquele em que elas perdem as estribeiras, é quando elas não sabem muito bem em que ponto estão. Não que elas desmoronem, pois são pessoas que não desmoronam. Mas, se não captar aquela pequena raiz, o pequeno grão de loucura da pessoa, não pode amá-la. Não pode amá-la. É aquele lado em que a pessoa está completamente... Aliás, todos nós somos um pouco dementes. Se não captar o ponto de demência de alguém... Ele pode assustar, mas, a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demência de alguém é a fonte de seu charme. Ouvi atento, sou a vertigem do paradoxo. E uma mão repousa ao meu ombro, era ela a dizer Rachel de Queiroz: A vida é uma tarefa que não pode ser dividida com ninguém. A gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado. Cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado. O seu riso apaziguador nos meus tormentos. A vida é isso: o que vai e volta sem ter direção na certeza nem paradeiro.

 


O SOM DE UMA MÃO – Imagem: arte da artista chinesa Ling Jian - Não a vi sair, escapou no meu descuido e voltei às minhas leituras. Entretido em folhear o volume, nem a vi chegar como se fosse a escritora, ativista pacifista austríaca e Nobel da Paz de 1905, Bertha von Suttner (1843-1914): Depois de amar , ajudar é o mais belo verbo do mundo! Sorri feliz com a presença dela nua recostada ao divã, a me contar uma lenda zen daquelas historias selecionadas pelo Paul Reps: Morukai, o Trovão Silencioso, era o mestre do templo Kennin e possuía um pequeno protegido, Toyo, de apenas doze anos e queria, como os demais discípulos, receber instrução do sanzen e dos koans: Você é muito jovem! Mas a criança insistiu e ficou acertado dele, ao bater do gongo ao entardecer, sentar em silêncio diante do mestre: Você pode ouvir o som de duas mãos quando batem palmas juntas, mostre o som de uma só mão! Toyo inclinou-se e foi meditar. Ao ouvir a música das gueixas teve o estalo e foi no dia seguinte na hora marcada para o mestre: Não, isto não serve, não é o som de uma mão. Então ouviu o som da água pingando e, como no dia anterior, fez o mesmo: Não, este é o som da água pingando e não o som de uma mão. Ele voltou à meditação e ouviu o suspiro do vento, também rejeitado. Ouviu o grito de uma coruja, identicamente recusado. Não era o som dos gafanhotos e o que seria? Por dez vezes esteve com o mestre e estava errado. Um ano se passou com suas reflexões profundas e finalmente ingressou na verdadeira meditação, transcendendo todos os sons: Esse não podia coletar, era o som insonoro. Toyo havia realizado o som de uma mão. Ao concluir, levantou-se, achegou-se bem perto, sorriu e citou o escritor húngaro, Gyula Krúdy (1878–1933): Na fenda entre os joelhos, o vento e o pensamento sem dúvida passavam livres. Com um beijo perdemos a noção do tempo e do mundo.

 


A JANELA DO QUARTO DE STORISENDE - Imagem: arte da atriz e bailarina estadunidense Cyd Charisse (1922-2008). - Só com o amanhecer percebi que o meu quarto possuía outras janelas. Na verdade três janelas, duas delas ofereciam uma visão clara do mundo exterior e, ao tentar abrir a terceira, ela despertou avexada aplacando a minha ação, fechando-a imediatamente com a admoestação de quem passa por essa janela não consegue escapar dos sonhos dos outros e parte numa jornada apavorante para além do mundo das aparências. Olhei-a interrogativo e só aí é que me dei conta que o meu quarto se transformara durante a noite ao do templo de Ageus de Storisende, aquele mesmo dos relatos de Jurgen, a comedy of justice (1919 - BiblioLife, 2009), Figure of Earth: a comedy of apperance (1921 - : R.M. McBride, 1926) & The hight place, a comedy of disenchamntment (1923 – R.M. McBride, 1928), do escritor estadunidense James Branch Cabell (1879-1958). Ela cuidadosamente contou da maldição da janela do castelo de Ageus de Filístia, pilhado pelo duque de Asmund, e que nesta terceira janela, exatamente a que eu estava abrindo e não me deixou, há apenas um lusco-fusco cinzento em que nada é claramente discernível e que foi exatamente por ela que Manuel, o grande herói e libertador de Poictesme, atravessou e nunca mais retornou. Surpreso e desconcertado e falou-me tal Alexandra David-Néel: Coisas definitivas sempre me horrorizaram. Existem pessoas que temem a instabilidade. Por outro lado, temo o contrário. Não gosto que amanhã seja como ontem, e a estrada só me parece atraente quando não sei aonde ela leva. A aventura será a minha única razão de ser. Contraditória e cautelosa, aproximou-se com um verso da ativista poeta estadunidense Sarah Hale (1788-1879): ... te amarei de janeiro a janeiro, até o fim dos tempos... E esquecemos janelas, sagas, terrores e exprobrações, meu corpo no seu e ela bailou de todos os jeitos e formas nua em mim por toda nossa festa. Até mais ver.

 

CAVANI ROSAS

Estou caminhando para o abstrato. Quando eu faço meditação eu vejo muitas luzes e cores. Estou tentando chegar lá.

A arte do escultor e desenhista Cavani Rosas. Veja mais aqui & aqui.

 



terça-feira, novembro 03, 2020

AMARTYA SEN, ALICE GUY-BLACHÉ, FRANCISCO AYALA, VERA MUKHINA, LUCANO, ROSEANNE BARR, FABIANA KARLA & BUTUA

 

TRÍPTICO DQC: JANELA DO DIA - A janela e a fumaça caótica com suas pernas e braços apressados na barulheira da vida. As crianças, olhos grandes e mãos estendidas para um ou outra, entre passantes com ouvidolhos nos compromissos das agendas telefológicas. Ousam brincar de viver e é só o que sabem para não morrerem em branco. Longe de serem as da Brodowski de Portinari: Se há tantos meninos em minha obra em balanços, gangorras é que seria meu desejo fazer com que eles fossem lançados ao ar a virarem belos anjos... É Betinho com seus olhos de esperança no meu pesadelo: Essas crianças estão nas ruas porque, no Brasil, ser pobre é estar condenado à marginalidade. Estão nas ruas porque suas famílias foram destruídas. Estão nas ruas porque nos omitimos. Estão nas ruas, e estão sendo assassinadas. Ainda se despede com uma frase do poeta romano Lucano (39-65): Jamais alguém escolheu como amigo aqueles que se encontram na mais extrema pobreza. E elas estão por toda parte do Fecamepa e aprenderam não só atirar o pau no gato como em todos os bichos e de qualquer jeito se livrarem da fome e seja como for o Sol brilha e é sempre noite para elas onde quer que estejam, pés no chão sem saber ontem sempre amanhã.

 


AS PEDRAS DE BUTUA - Zé Corninho estava sumido há um bocado de tempo. Reapareceu do nada e foi logo me contando: Rapaz, fui dormir um dia desse e acordei num lugar, valha-me, cheio de ruas com degraus e paredes de pedra, um povo baixo e cheio de pantins e não me toques, de pele escura feito corvo, cabelos de urupema tudo encaracolados. Eram bem raivosos, traiçoeiros e ignorantes, vixe! Matavam por brincadeira e os funerais eram abandonar o cadáver ao pé de uma árvore, deixando lá assim ao relento. As mulheres de lá eram lindas, mas apanhavam demais. Tinha as altas e corpudas que guardavam o palácio do rei; as mais ou menos assim meio coroas para serviços domésticos e jardinagem; as adolescentes jeitosas oferecidas em sacrifício aos deuses; e as mais delicadas e formosas reservadas para os prazeres do imperador de lá. Ô bicho de sorte! Cada um dos de lá possuía quantas mulheres quisessem e pudessem alimentar. Tinha quem fosse dono de harém de mais de mil. O pior é que descobri que elas depois de dar à luz, eram condenadas a três anos de abstinência completa. Foi aí que eu me aproveitei às escondidas, flagrado pela fúria deles. Nunca vi um rei tão cruel, como também governadores e poderosos que adotavam vícios criminosos a qualquer hora e local. Quase que morro matado, não fosse comer milho, peixe e carne humana escondido. Pra eles lá, os açougueiros públicos fornecem carne de gente e de macaco, muito apreciadas por eles. Ou comia ou morria de fome. E tinha de ir ao templo porque acreditavam numa serpente que foi quem criou o mundo deles lá. Passei aperto do muito, nem sei como estou aqui são e salvo. Pronto. Quem ouviu desconfiou logo de lorota, afinal, ali quem não tinha o que fazer, jogava conversa fora e soltava das suas aos peidos e pigarros. Pergunte ao doutor Zé Gulu, ele não me deixará mentir! E foi mesmo! O douto logo esclareceu: Ah, ele está falando do Reino de Butua ou Abutua, também chamado de Tórua dos xonas do século XVI, no atual Zimbábue. Quem a descreveu com maior propriedade foi Marquês de Sade, na sua obra Aline et Valcour (1795 - Independently Published, 2019): Reino do centro da África do Sul, cuja superfície é igual à de Portugal. Ao norte faz divisa com o reino de Monoemugui, a leste, com os montes Lupata, ao sul, com a terra dos hotentotes. Os costumes de Butua são os mais depravados do que qualquer coisa que tenha sido dita ou escrita sobre o povo mais feroz da Terra. A população se entrega a todo tipo de paixão criminosa, tais como luxúria, crueldade, rancor e superstição. Considera-se que as mulheres nascem unicamente para o prazer dos homens. Apesar de seus numerosos crimes, o povo de lá é muito devoto e temente aos deuses. Cada distrito tem um líder religioso, encarregado de uma escola de sacerdotes. Em todos os templos adora-se um ídolo, metade serpente, metade humano, cópia original existente no palácio real. Os governadores das províncias devem mandar todos os anos dezesseis vítimas de ambos os sexos para seu líder religioso, que os imola em determinados dias de ritual, com a ajuda dos sacerdotes. Estes estão encarregados de curar os doentes, o que fazem com o uso de bálsamos feitos de plantas, bastante eficazes. São pagos em mulheres, meninas ou escravos, segundo a posição social da pessoa que tratam. Não aceitam alimentos em pagamento, mas, graças às oferendas deixadas nos templos, jamais sentem fome. Como são totalmente desprovidos de sensibilidade, esses selvagens não podem imaginar que a morte de um parente ou amigo possa causar a menor dor. O espetáculo da morte não provoca a menor reação e é comum que apressem o fim de alguém sem esperança de cura ou em idade avançada. Oxente, isso é o fim do mundo! Cruz-credo! E usou de Amartya Sen: Não há nenhum país perfeito no mundo. Há lições para tirar de um ou de outro. Ninguém precisa copiar um modelo de país. O essencial é raciocinar a partir das ideias que funcionaram em outros lugares. As liberdades não são apenas os fins primordiais do desenvolvimento, mas também seus principais meios. Mas é um povo avesso a tudo da gente, ora! Aí ele sacramentou usando do escritor espanhol Francisco Ayala (1906-2009): Dou ao país um valor acidental: não é essência, mas circunstância. E zarpou deixando a roda inflamada às discussões mais cabeludas.

 


SOU O RIO MUSA MAR & ZIS ERRÂNCIAS – Imagem: arte da escultora russa Vera Mukhina (1889-1953) – Ela invade o espaço e era a cineasta e roteirista francesa, Alice Guy-Blaché (1873-1968): Não há nada relativo à realização de um filme que uma mulher não possa fazer tão facilmente quanto um homem, e não há razão para que ela não possa dominar completamente todos os detalhes técnicos dessa arte. Demonstrei minha anuência com gesto positivo de cabeça. Ela insistiu Olympe de Gouges: Se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve ter igualmente o direito de subir à tribuna. Reiterei minha solidariedade. Aí com veemência citou a atriz, escritora e comediante estadunidense Roseanne Barr: Há muito mais em ser mulher do que em ser mãe. Mas há ainda muito mais em ser mãe do que a maioria das pessoas pensa. Uma coisa que as mulheres têm de aprender é que ninguém te dá o poder de bandeja. Você tem de agarrá-lo. Estava surpreso com sua eloquente exposição. Com o dito ela baixou a cabeça, pensou um pouco em silêncio, quase ouvi suas ideias, mas evitei, assumi minha condição de plateia e deixei-a comodamente dizer o que quisesse. Contornou os cantos do meu quarto, voltou-se com um riso encantador e mencionou que me amava muito. Beijou-me, retribuí o gesto e reafirmei minha paixão por ela. Aboletou-se no meu colo com seu jeito sereia e cheiro de mar, passou os braços em volta do meu pescoço e ficou brincando de lamber meus lábios enquanto se insinuava cada vez mais achegada para me cobrir com seus encantos. Mais que receptivo fiz festa no nosso mútuo sentimento com o calor de todas as nossas emoções e prazeres. Até mais ver.

 

A ARTE DE FABIANA KARLA

Eu adoro observar as pessoas. O povo é minha matéria prima. Eu adoro ficar na praia, por exemplo, observando o comportamento das pessoas, de todos ao meu redor. Isso me dá material para trabalhar. Eu gosto de escutar o linguajar do cara que está fazendo sanduíche lá na baixada, quando o vendedor diz “manda um mendigão pra dentro ai!'”. Quando ele vê isso repercutir na televisão, ele se reconhece, ri. Faz parte viajar, conhecer pessoas, novas culturas, para você observar e ter material para trabalhar. As pessoas me percebem nos dois tons, só que elas me preferem na comédia. E eu fico envaidecida porque é muito difícil fazer comédia. Então, se elas me enaltecem como humorista, e me respeitam tanto na comédia quanto no drama, isso me deixa feliz. E pra mim, a opinião do público é como um termômetro.

A arte da atriz, humorista, escritora e diretora Fabiana Karla, que dirigiu e escreveu o roteiro do documentário O caso Dionísio Díaz (2016), atuou como atriz nos filmes Marina (2003), A máquina (2006), O palhaço (2011), Meus dois amores (2012), Tô Ryca (2016), Uma pitada de sorte (2018), entre outros. No teatro ela atuou nas peças João e Maria (1990), Balaio de Gatos (2006), Hoje me chamo Dinorá (2007), Decameron (2009), Gorda (2009), A vida em rosa (2012) e Nessa mesa de bar (2014). E na televisão atuou no Zorra Total, Escolinha do Professor Raimundo e  em diversas novelas, séries e especiais. Veja mais aqui e aqui.


 

 


domingo, novembro 01, 2020

ODYSSÉAS ELÝTIS, ELLEN TAAFFE ZWILICH, AICHA MUTEBA, LOUISE ABBÉMA, IZABEL FÁVERO & IRMÃOS VALENÇA

 

TRÍPTICO DQC: JANELA DO MEU QUARTO – Curtindo a Symphony nº 1 - Three Movements for Orchestra -, da compositora estadunidense Ellen Taaffe Zwilich - Na verdade não há janelas no meu quarto, tudo muito irrespirável. Inchei de vazio e meus outros eus para sobrevivência abriram buracos na minha cabeça e corpo, tomaram vulto e me esfacelaram. Era a salvação deles eu estraçalhado, nada mais restava de mim. Povoaram o ambiente exíguo e tomaram de mim o oxigênio escasso. Logo se dispuseram a invenção de uma janela e me convidaram para ver o mundo. Para quem só tinha os rebocos da parede a Lua é sempre minguante apesar de cheia e a chuva para beber e matar minha sede recortando palavras de jornais, revistas e livros. Do umbigo saiu-me outra cria e a pele sangrava, embora não saiba o que era antes do antes de antes, as palavras não me faltaram enquanto atribulado não escapava dos insetos a me devorar na festa de muitos e eu sozinho. Quem dança voa e eu não sei dançar nem nadar: as águas me chamavam noitedia e o mundo era só um tabuleiro de jogos, um aquário em guerra pela sobrevivência. Em cima não sei o se expande e em baixo outras se diluem. Tal como Odysséas Elýtis: Escrevo para que a morte não tenha a última palavra. Só uma coisa eu sei: vivo apesar de tudo!

 


BURACO SONOLENTO – A arte do artista congolês Aicha Muteba Lá ia Doro para cima e para baixo, mexendo no aparelho telefônico móvel sem se dar conta de nada ao seu redor. Dava trabalho aprender a como manipular aquela jeringonça em miniatura. Queimava os neurônios de quase perder a paciência com tantas operações. Não sei quantas vezes deu cabeçada em postes, tropeçou no meio fio, escorregou nos alagados e quase morreu outras tantas surpreendido com a frenagem ao atravessar desavisado pelas ruas e avenidas. Não deu outra, de tanto passar vexame entretido com aquele troço que findou caindo num buraco. Na queda fechou os olhos e deixou-se levar pelo fundo sem fundo. Com a vertigem desmaiou e ao despertar era noite num povoado desconhecido jamais visto, tentado por espíritos zombeteiros que reinavam num silêncio ensurdecedor e envolvido por acontecimentos sucessivos aos quais escapava e logo capturado por outra situação vexatória, incapaz de se livrar de tudo aquilo, vez que era perseguido por um cavaleiro sem cabeça que o fez correr a noite toda até se exaurir e cair desacordado. Descobriu-se morto num sonho em que outros sonhavam com ele numa sucessão de ocorrências intermináveis de se achar enlouquecido para sempre. Não sabe como foi parar ali e depois de tanto pelejar, de uma hora para outra estava são e salvo. Eita! Essa pinoia não tem explicação, mas diga lá uma coisa: onde que droga que era, hem? E eu sei! Pelo que narrou, só o doutor Zé Gulu identificou como sendo o mesmo local identificado do conto The legend of Sleepy Hollow, extraído da obra The Sketch Book of Geoffrey Crayon (NY, 1820), de Washington Irving: Povoado acerca de dois quilômetros da pequena cidade de Greenshugh, às margens do rio Hudson. É um dos lugares mais tranquilos da Terra, apesar dos numerosos espíritos que assombram. Os únicos sons que se ouvem são o murmúrio das águas de um riacho, o assobio ocasional de uma codorna ou as batidas de um pica-pau. Os habitantes descendem diretamente dos colonos holandeses originais. O nome do povoado vem de sua atmosfera sonolenta. Alguns dizem que foi enfeitiçada por um médico alemão nos primeiros dias de sua fundação. Outros sustentam que era o local de reunião de feiticeiros indígenas muito antes da chegada dos europeus. Qualquer que seja o motivo, o fato é que seus moradores parecem estar sob o encantamento do lugar e viver num mundo de sonho. São extremamente supersticiosos, sujeitos a transes e visões. O principal espírito que assombra o lugar é o fantasma de um cavaleiro sem cabeça, um mercenário essênio cuja cabeça foi arrancada por uma bala de canhão numa batalha esquecida da guerra de independência. Os historiadores afirmam que seu corpo jaz no cemitério da igreja e que ele cavalga à noite em busca de sua cabeça perdida, retornando ao seu túmulo antes do amanhecer. Danou-se! Olhares de soslaio e o culto filósofo ousou com uma frase do escritor e psicólogo Ph.D. estadunidense, Timothy Leary (1920-1996): O meu conselho para as pessoas atualmente é o seguinte: se você leva o jogo da vida a sério, se você leva o seu sistema nervoso a sério, se você leva os seus órgãos de sentido a sério, se você leva o processo da energia a sério, você tem que se ligar, sintonizar e cair fora. Todos riram e levaram na conta da pilhéria: Ô doutor, o senhor não acha que a gente está endoidecendo assim e essa cabra cheio de artes, hem? Ele ficou sério, empurrou com o indicador o óculos ajustado às vistas e sacou para todos os presentes Doris Lessing: A arte é o espelho dos nossos ideais traídos. Qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo, irá florescer em cem talentos e capacidades inesperadas, simplesmente por lhe ser dada a oportunidade de o fazer. Aprendizado é isso: de repente, você compreende alguma coisa que sempre entendeu, mas de uma nova maneira. Soltou essa e deixou-os intrigados: O que é que ele queria mesmo dizer, hem? Sei lá!

 


A CENA & A DOR SOLIDÁRIA DELA – Imagem: ate da pintora, escultora e gravurista francesa Louise Abbéma (1853-1927) – De súbito ela entrou em cena: era a professora Izabel Fávero depondo: Eram mais ou menos 2 horas da manhã quando chegaram à fazenda dos meus sogros em Nova Aurora. A cidade era pequena e foi tomada pelo Exército. Mobilizaram cerca de 700 homens para a operação. Eu, meu companheiro e os pais dele fomos torturados a noite toda ali, um na frente do outro. Era muito choque elétrico. Fomos literalmente saqueados. Levaram tudo o que tínhamos: as economias do meu sogro, a roupa de cama e até o meu enxoval. No dia seguinte, fomos transferidos para o Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu, onde eu e meu companheiro fomos torturados pelo capitão Júlio Cerdá Mendes e pelo tenente Mário Expedito Ostrovski. Foi pau de arara, choques elétricos, jogo de empurrar e, no meu caso, ameaças de estupro. Dias depois, chegaram dois caras do DOPS do Rio, que exibiam um emblema do Esquadrão da Morte na roupa, para ‘ajudar’ no interrogatório. Eu ficava horas numa sala, entre perguntas e tortura física. Dia e noite. Eu estava grávida de dois meses, e eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, eu abortei. Depois disso, me colocaram num quarto fechado, fiquei incomunicável. Durante os dias em que fiquei muito mal, fui cuidada e medicada por uma senhora chamada Olga. Quando comecei a melhorar, voltaram a me torturar. Nesse período todo, eu fui insultadíssima, a agressão moral era permanente. Durante a noite, era um pânico quando eles vinham anunciar que era hora da tortura. Quando você começava a se recompor, eles iniciavam a tortura de novo, principalmente depois que chegaram os caras do DOPS. Durante anos, eu tive insônia, acordava durante a noite transpirando. De Foz, fomos levados para o DOPS de Porto Alegre, onde houve outras sessões de tortura, um na frente do outro. Depois, fomos levados de volta para Curitiba, onde fiquei na penitenciária de Piraquara. Quando finalmente fui para a prisão domiciliar, que durou quatro meses, eu sofri muito, fui muito perseguida e ameaçada. Recebia telefonemas anônimos, passava noites sem dormir. Era ela e Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri, todas filhas das dores e abraçada em mim para que eu lhe dissesse apenas um verso de Jorge de Sena: Deitado à tua beira, sei que se rasga, eterno, o véu da Graça. Sou-lhe inteiro e todo seu. Até mais ver.

 

A MÚSICA DOS IRMÃOS VALENÇA

O teu cabelo não nega mulata / Porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega mulata / Mulata eu quero o teu amor / Tens um sabor bem do Brasil / Tens a alma cor de anil / Mulata mulatinha meu amor / Fui nomeado teu tenente interventor / Quem te inventou meu pancadão / Teve uma consagração / A lua te invejando faz careta / Porque mulata tu não és deste planeta / Quando meu bem vieste à terra / Portugal declarou guerra / A concorrência então foi colossal / Vasco da gama contra o batalhão naval.

O teu cabelo não nega, parceria de Lamartine Babo com os compositores Irmãos ValençaRaul Valença (1894-1977) e João Valença (1890-1983), que compuseram inúmeras músicas e integraram o grupo teatral Grêmio Familiar Madalenense. Veja mais aqui & aqui.

 


 


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...