quarta-feira, agosto 07, 2019

WILLIAMSON, EILEEN AGAR, CALVINO, BAKHTIN, CAPIBARIBE, LUCIMAR CERQUEIRA, TELEVISÃO & CULTURA, CREOLINALDA & PÃO-POR-DEUS


PÃO-POR-DEUS - Creolinalda passou a maior parte da sua vida muito triste. Aparentemente, duas razões básicas e quase óbvias motivavam sua consternação: a primeira, o capricho paterno de lhe pôr este nome que ele achava a coisa mais linda do mundo, o que levou a mãe, providencialmente, a apelidá-la de Dadá, prevendo vexames futuros. A segunda, era que nunca via seus pedidos atendidos, fossem às vésperas do aniversário, no natal, ou data que fosse, sempre preterida. Esta a razão que a levou ao padrinho, isso ela com apenas quatro anos de idade, instar o porquê de não ter sua alegria satisfeita. O protetor, na maior saia-justa, achou por bem de ensiná-la a escrever bilhetinhos com seus pedidos e depositá-los em envelopes para endereçamento postal ao respectivo solicitado. Ah! Ela achou uma ótima ideia e logo correu para o pai, pedindo um caderno para escrever suas cartinhas já, o que foi logo providenciado. Pronto, agora ela estava entretida com suas ideias, pedidos muitos, coisas tidas por realizáveis. Contudo, não sabia escrever. E agora? Pai, quero aprender a ler e escrever. Ah, minha filha, quando você tiver idade. Ah, não! A tia-madrinha Vertigilda, a Gildinha do coração, socorreu e serviu-se a tal préstimo. Ensinou-lhe tudo direitinho: as vogais, consoantes, o tempo passando, ela inheta: Quê mais? Sílabas, palavras, nomes, frases, ávida por logo já sair contando história para cima e para baixo. Ao cabo de meses de dedicação, aprendeu a formular suas frases. Aí ela pensou, pensou e começou: primeiro uma carta para Deus - fazer todas as crianças felizes. Pronto. Veio-lhe outra, agora para o Papai Noel: uma bicicleta linda para sair por aí, toda amostrada e feliz. Ah, uma escola para estudar e ser gente na vida. Sim, um avião para ela viajar pelo mundo todo. Também, um navio para todas as águas. E amiguinhos, muitas amiguinhas, muito dinheiro e coisa e tal. E saiu escrevendo, uma a uma, escolhendo destinatários que surgiam de sua cabeça de menina. Depois, identificava caprichosamente nos envelopes os respectivos destinatários: Mãiêê, onde Deus fica? No céu. Certo. E o papa? No Vaticano. Beleza. E Papai Noel? No Polo Norte! Vixe, cada lugar estranho! Juntou tudo e entregou ao pai para passá-las ao padrinho e coloca-las nos correios. Cheia de recomendações, explicou cada uma delas, tintim por tintim. E debruçou-se sobre o assunto de novas escritas. Como seus pedidos demoravam a ser atendidos, logo ela tomou a iniciativa de compreender que podiam estar ocupados e saiu reenviando outras para o presidente do país; também, para o governador, outra para o prefeito e assim foi, pedindo a um e a outro, deputados, locutores, artistas, autoridades distantes, quem lhe viesse à mente. Assim foi crescendo, todo dia, e já adolescente mais se ocupava nisso. Bastava alguém mencionar algo, logo a ideia lhe vinha à cabeça: Vou escrever uma carta. Embora não tendo sido atendida em nenhum de seus pleitos, manteve o costume, especializando-se em escrevê-las para pretensos namorados, parentes, amigos, ídolos, até pessoas que não lhe caíam às graças, com algum desaforo recatado. Passaram-se os anos e, um dia, sua contrariedade maior, de mesmo, foi, já quase de maior, constatar que todas as suas correspondências, tidas por enviadas, estavam intactas em suas respectivas envelopes, reunidas e guardadas em um monturo escondido num quarto escuro que havia no quintal, repleto de coisas imprestáveis. Como é? Chorou e muito. Todavia, apesar da desconfiança instaurada a partir da descoberta, levou na boa: Por isso que eu nunca tive meus desejos atendidos. Tá bom. Não há de ser nada. Sentou-se com seus guardados, leu o conteúdo de cada uma e começou um diário. Ali passou a registrar todas as suas desventuras, desde o engodo do pai e do padrinho, ao vexame da risadagem com seu nome na hora da chamada do professor na sala de aula. Não poupou os lamentos: o príncipe encantado que nunca dava as caras, as pessoas que nunca entendiam suas preferências; as viagens sonhadas, os anseios jamais atendidos nem pelos programas da tevê e do rádio, nem por ninguém. Pudera, nunca foram realmente enviadas. Lamentou bastante. Refez-se e consignava no seu diário, refazendo a missiva, agora em versos ou não, alguns rimados, outros nem tanto, e aperfeiçoando suas solicitações com uma certa graça e esmero. Era a sua forma de pedir aos da sua devoção, fosse do panteão hagiológico cristão, ou dos fabricados pela idolatria dos membros de fã-clube das celebridades. Agora, os endereçados eram secretos, só ela sabia, mais ninguém. Ela que encaminhava e tinha na conta da certeza, até as que inadvertidamente esquecia encaminhar. Empenhou-se por si própria, decididamente. E danava-se a esperar na janela a realização, todos os dias. Escrevia e, debruçada na janela do quarto, sonhava vê-los todos atendidos. Sonhou tanto, muito e deveras, vivendo como se fossem reais, encantada com sua imaginação. Menina, vem-te embora! Já vou, mãe! A escola, Dadá! Já vou, mãe! Hora do almoço! Já vou, mãe! A janta está na mesa! Já vou, mãe. Até um dia que ela bem cansada, deitou-se e ousou dormir e sonhar. Resolveu, então, nunca mais acordar e viveu para sempre em seus devaneios. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] a polissemia do conceito de cultura exige que busquemos novas formulações capazes de evidenciar a interação entre uma cultura dita erudita, considerada através dos séculos como superior, e uma cultura adjetivada como popular, de massa, espetacular, enfim, inferior. A dicotomia superior/inferior parece ter perdido a razão de ser. [...] O panorama econômico que envolve a produção televisiva implica em vincular os hábitos da recepção a atitudes de consumo que passam a desempenhar papel preponderante em uma era que privilegia a lógica do mercado. [...] Trabalhar a representação das classes políticas brasileiras pela via dos processos expressivos da antropofagia e da carnavalização concerne a evidenciar o relacionamento das séries telefictícias com um conjunto cultural nacional. O riso literário enquanto substrato ideológico advindo de épocas de rupturas tem deixado identidades semióticas que ajudam a roteirizar as práticas discursivas destinadas a revelar os abusos de poder. [...] A dissolução de fronteiras entre cultura erudita e cultura popular (de massa), postulada como um novo traço formal que redireciona a vida social na nova ordem econômica, continua sendo vista como um dos grandes momentos da pós-modernidade. [...].
Trechos extraídos da obra Televisão e cultura: análise semiótica da ficção seriada (SCT/FCEBA, 2003), da professora e pesquisadora Licia Soares de Souza.

 

MARIANNE WILLIAMSON

Não somos impedidos pelo amor que não recebemos no passado, mas pelo amor que não estamos estendendo no presente...

Pensamento da escritora estadunidense Marianne Williamson. Veja mais aqui & aqui.

 

CERQUE-SE DE UM CAOS SENSÍVEL

[...] Jogar é entregar-se a uma espécie de magia e desmentir o inconveniente mundo dos fatos... Minha vida é uma colagem, com o tempo cortando, reorganizando e dispondo os materiais, sobrepondo-os e contrastando-os, às vezes com o choque de uma pintura surrealista. Eu me pergunto se a perspectiva tradicional é uma disciplina necessária para o estudante de arte, pois, ao longo dos anos, minha vida assumiu seu próprio padrão e formou suas próprias regras, adaptando eventos e cronologia no processo de peneiramento da memória. Como artista maduro, posso tomar liberdades com a perspectiva. Não somos feitos de linhas retas. Como disse Picabia: "Nossas cabeças são redondas para que os pensamentos possam mudar de direção." [...].

Trechos extraídos da obra A Look At My Life (Methuen, 1988), da artista argentina Eileen Agar (Eileen Forrester Agar), que associou-se ao movimento surrealista.

 

SE UM VIAJANTE NUMA NOITE DE INVERNO

[...] Quando você começa a ler um livro e ainda não sabe em que direção ele o levará [...] a paz não dura mais que de um funeral a outro [...] você avança na leitura como quem penetra uma densa floresta [...] eu, ao contrário, há muito tempo estou convencido de que a perfeição só se produz por acaso, acessoriamente; por isso, ela não merece nenhum interesse, pois a verdadeira natureza das coisas se revela apenas na ruína. [...] o esforço que faço para ler nas entrelinhas das coisas o sentido evasivo do que me espera. [...] A vida não passa de uma troca de cheiros. [...] com um arrepio, afasto a ideia de que a prisão seja meu corpo mortal e a evasão que me espera seja o distanciamento da alma, o início de uma vida ultraterrena. [...] o mundo se decompõe e tenta atrair-me em sua dissolução. [...] Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será... [...] No tocante ao relato, a ponte não acabou: sob cada palavra existe o nada. [...].

Trechos extraídos da obra Se um viajante numa noite de inverno (Planeta De Agostini, 2003), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A NASCENTE TODA A VIDA FOI ALI
[...] Quando terminou a novena, nós saímos de lá [...] Quando nós chegamos lá pro lado do Sítio Velho, nós reparamos que tinha uma nuvem... era uma nuvem bem aqui assim, não era uma nuvem de alarmar não, uma nuvem normal. [...] Aí, andamos, andamos ligeiro. Aí já começou a nuvem engrossando e foi subindo, e foi espalhando pra acolá, aí começou a cair umas pinguera [...] Quando foi um pouco, começou o trovão. Trovão geral, começava e saía arrodeando. O trovão e o relâmpago, com um pouco abriu as porta do céu e haja chuva. Agora isso era chuva do pingo banguelo, chuva segura, cada pingo desse tamanho assim. [...] Daqui a pouco, mãe escutou e disse “olha essa chuva é de gelo. Essa chuva é de pedra”. Aí começou com pedra. E tome, tome, tome chuva. Choveu assim uma base de uns 30 minutos, daqui um pouco parou. Aí mãe disse “a chuva parou, vamos dormir”. Oxe, com um pouco, outra do mesmo rojão. Do mesmo jeito. Sustentou o rojão até quatro e meia da manhã. Agora, chuva de rolo mesmo! O dia tava clareando. A casa coberta de palha de coco, não molhou nada. A chuva foi muita chuva, mas não foi chuva de molhar a casa não. Quando foi daqui um pouco só ouvia a fala: “Ô Joana!” Mãe disse: “O que é tio João?” “Vem olhar que coisa bonita”. O pobre do véio com umas alpercatas de couro, cum uma tira de sola desse tamanho de couro cru, com uma correia. “Vamos olhar Joana, que coisa bonita”. Aí nós chegamos, descemos por ali. Do jeito que tava o rio era um pano d’água só. Aquela cacimba ali, ninguém nem sabia onde era cacimba mais. Aí mãe disse “Ai, meu Deus, terra molhada tem muita”.
Trechos extraídos da obra Um rio de gente: histórias, causos e lendas do Capibaribe (Andararte, 2010), do premiado jornalista Inácio França, com fotografia de Tuca Siqueira. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu gostaria que as meninas negras se valorizassem como elas são. Foi aqui que aprendi a valorizar minha estética, minha beleza. Não existem padrões, mas sim a beleza de cada um. Com a autoestima elevada, você pode chegar a qualquer lugar.
A arte da bailarina e percussionista educadora Lucimar Cerqueira que foi eleita a Deusa de Ébano 2011. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE BAKHTIN
Ser significa ser para o outro, E, através dele, para si.
A obra do filósofo e pensador russo teórico da cultura e das artes Mikhail Bakhtin (1895-1975) aqui, aqui aqui & aqui.
 

terça-feira, agosto 06, 2019

ADORNO, ARQUEOFEMINISMO, SVITOLAV PERUZZI, LUIGIA DE HAYDN, CINEMA, ASPIRINAS & URUBUS


LUIGIA DE HAYDN - Ah, Luigia, minha Loisa, a bela Moreschi de Nápoles. Sou o maravilhado pedinte da sua assimetria e do seu ser melódico e rítmico. Você não precisa ter medo de mim, sou apenas feio e destituído de qualquer atributo louvável. Sei que sou apenas um sujeitinho minimamente engraçado, travesso com cara de gnomo, todavia, dou-lhe a alma da minha Áustria inteira, é só o que tenho na minha vida modesta, minha liberdade aprisionada. Sou e serei sempre seu Sepperl do coração alegre e estômago vazio. Se quase fui castrado pelos horrores, ao ser jogado às ruas, sem vintém nem amigo, perambulei pela noite das ruas e roubei todas as estrelas de um céu escasso para lhe presentear. Dou-lhe mais a minha polifonia instrumental – a forma-sonata, minhas sinfonias e quartetos, marchas e divertimentos, cantatas e árias, tudo o que sou de sagrado e profano; a minha compaixão e encorajamento; a minha vontade de querer fazer mais, sei, tudo isso como sou pouco, quase inútil neste mundo. Eu prometo, em qualquer papel em branco, abaixo assinado, não ter outro amor, pois só você reside no melhor da minha existência. Você é a Sílvia da minha L’isola desabitada, mesmo que tenha se desfeito do meu cravo e me deixou jogado sem ter teto a vagar pelo resto da vida. Você é a Lisetta da minha La vera constanza, é como concilio sua ausência dolorosa. Um dia ainda quero ouvi-la, mesmo que nunca mais nos encontremos. Vivo da sua lembrança como se vivesse amparada dentro do meu coração. Pouco importa eu tenha me abatido com um humor inglês por não tê-la em meus braços, minha vida jogada; eu tenho mil coisas afetuosas para dizer a você ... Ouço sua voz distante como uma carta que me consola, e escrevo na minha solidão cartas e versos ao seu endereço, mesmo que jamais seja um escritor que valha e nem me ouça ou leia, saiba: fui cortado do mundo, e como não há ninguém por perto para que me confunda ou me desvie da sua expressão, todo meu cuidado e esforço é quase nada, nenhuma vida. Mesmo assim, dou-me graças, canto em sua honra, à sua glória! O que realmente gostaria é de tê-la ao meu lado para compor e deixar todas as pessoas do mundo felizes. Tanto que sonhei desposá-la por meio de tantas árias de inserções. Não fui eu o homem feliz por querer possuí-la pelo resto da vida, não, o destino não quis, sou aquela sensação de voltar para onde nunca deveria ter saído: perdi o amor para encontrar a paz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
Um dos principais instrumentos do machismo contemporâneo consiste em transmitir a concepção de um passado exclusivamente masculino, como se a história intelectual pudesse ter sido desenvolvida durante dois ou três milênios sem a participação das mulheres. Gournay, Poulain, Laclos e Gouves provam o contrário, todas e cada uma a sua maneira.
Pensamento do professor francês Maxime Rovere que atua no curso de Filosofia da PUC-RJ e é autor e organizador do livro Arqueofeminismo: mulheres filósofas e filósofos feministas na França, século XVII-XVIII (N1, 2019), tratando sobre a história das mulheres na filosofia que é marcada por numerosos desequilíbrios, dos quais o mais evidente – sua longa, muito longa ausência – tende a esconder os outros. Para tanto, entende que desde a Antiguidade e até o século XX, a sociedade patriarcal europeia reservou o estudo das letras aos homens, de modo que principalmente a literatura e a filosofia acabaram sendo atividades reservadas apenas a eles, no monopólio da educação, da escrita, do debate, da publicação, mantendo a maioria das mulheres longe dos conceitos filosóficos e daquilo que eles trazem de alegrias especulativas, de esforços literários e de lampejos libertadores. Ao longo da história, encontram-se numerosas mulheres cujos pensamentos, e às vezes os escritos, marcaram sua época. Neste sentido, a obra trata de superar o silêncio com o qual uma história exclusivamente masculina quer recobrir as importantes contribuições trazidas ao pensamento pelas mulheres e pelas questões levantadas por elas. Na obra estão reunidos textos escritos por duas mulheres, Marie de Gournay e Olympe de Gouges, que estão entre as maiores intelectuais dos séculos XVII e XVIII, assim como três textos escritos por homens, como François Poullain de la Barre, Choderlos de Laclos e Nicolas de Condorcet, que defenderam, na teoria e na prática, a legitimidade das mulheres participarem da vida pública, da política e do meio intelectual. Veja mais aqui.

CINEMA, ASPIRINAS & URUBUS
O longa-metragem Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), é o filme de estreia de Marcelo Gomes, conta a história que se passa no sertão nordestino, em 1942, em que um alemão fugitivo da Segunda Guerra Mundial, trabalha como vendedor de aspirinas pelas cidades, dirigindo seu caminhão, quando conhece um nordestino que está tentando chegar ao Rio de Janeiro á procura de trabalho. Esse encontro muda a vida dos dois, ao ocorrer o recrutamento de nordestinos para Amazônia para formar os Soldados da Borracha. O filme participou da seleção oficial da Mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes, naquele ano, e recebeu o Prêmio da Educação Nacional, criado pelo Ministério da Educação Nacional (MEC), que prevê a distribuição do filme, através de um DVD pedagógico, para aproximadamente um milhão de estudantes franceses, entre outros prêmios. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e professor esloveno Svitolav Peruzzi (1881-1936). Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE ADORNO
O amor é a capacidade de perceber o semelhante no dessemelhante.
A obra do filósofo e musicólo alemão,Theodor W. Adorno (1903- 1969) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.
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A MÚSICA DE JOSEPH HAYDN
É triste, em realidade, ser sempre um escravo, mas assim o quer a Providência e eu, portanto, devo aceitá-lo. Eis-me aqui de novo na solidão – abandonado – como pobre órfão – quase sem associação humana – triste – cheio de lembranças dos dias felizes que passaram.
A obra do compositor clássico vienense Franz Joseph Haydn (1732-1809) aqui.


segunda-feira, agosto 05, 2019

SOLJENÍTSIN, EUNICE KATUNDA, MURILLO LA GRECA, MARÍA BLANCHARD, & LUCIAH LOPEZ

Arte & foto da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopes. Veja mais abaixo.

120 ANOS DE MURILLO LA GRECA – Uma maravilhosa homenagem foi realizada no último sábado, na praça central da cidade palmarense, ao seu ilustre filho e saudoso pintor e professor Murillo La Greca. Falar deste que é, entre os grandes artistas palmarenses, uma figura icônica das artes figurante nos padrões internacionais, é trazer a constatação da luta resistente para se instaurar um histórico cenário que ficou no passado e que teima, apesar de todos os óbices e descasos, em se mostrar no presente. Por isso mesmo, valeu a pena. A importância de Murillo La Greca está nos afrescos da Basílica da Penha, no Recife; por ter sido ele professor da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro; ter sido um dos fundadores da Escola de Belas Artes de Pernambuco que originou o atual Centro de Artes e Comunicação (CAC), da Universidade Federal de Pernambuco; pelo Museu que leva o seu nome e criado em 1985, no bairro recifense de Parnamirim; nas suas premiações nacionais e internacionais, na sua amizade com Cândido Portinari e na sua expressão artística. Entre as suas obras estão as premiadas obras Os últimos fanáticos de Canudos (1927), O fuzilamento de Frei Caneca, a Primeira aula de Medicina, entre outras. O evento palmarense promovido pelo Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna), presidido pelo poeta e artista visual Paulo Profeta, contou com a participação do multiartista imaginauta Ghugha Távora, do professor Clóvis Parízio, da apresentação teatral capitaneada por Atonmirio Barros e Juarez Carlos, da exposição da Associação dos Artesãos Palmarenses e de diversos artistas locais e da região, e de atividades desenvolvidas por artistas visuais oriundos da capital pernambucana e da localidade, afora uma considerável participação da comunidade palmarense prestigiando o evento. Aplausos para Palmares, nada mais meritório para registro que um evento desta envergadura nos anais da cultura e das artes palmarenses. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o grande compositor é possuído também da vontade de interpretar – essa perseverança obstinada, instintiva e sublime em doar os seus sonhos, a despeito de todas as dificuldades, a um mundo mal-agradecido, desdenhoso e, muitas vezes, antagônico. Observamos outro dia uma formiga com um pedaço de folha na boca – carga tremenda para uma força – trabalhando por subir o plano inclinado de um tabuleiro de relva. Um professor, amigo nosso, colocou uma pedra no caminho da formiga. Esta. Conquanto ficasse confusa por alguns instantes, pôs-se depois a seguir o seu caminho, contornando a pedra. O professor continuou a colocar obstáculos no caminho do inseto, mas a cada passo persistia a formiga em contornar ou transpor o obstáculo e prosseguir em direção à sua meta. “Estou procurando fazer experiências com a formiga”, disse o professor. “Quero ver com quanta persistência pode ela lutar contra as dificuldades”. “E para que deseja o senhor ver uma coisa dessas?”, perguntamos. “Para que a humanidade possa aprender, com essa formiga, a ser sábia e forte”, replicou o professor. Reza a lenda oriental que Deus coloca obstáculos no caminho do gênio para que os anjos possam aprender com os homens a serem sábios e fortes. Essa sabedoria e essa força – que se chama beleza na linguagem da arte – é o estofo de que são feitos os grandes compositores. E é essa qualidade que transforma um sofredor humano num professor divino.
Trechos da introdução do livro Vida de grandes compositores (Globo, 1986), dos biógrafos Henry Thomas e Dana Lee Thomas, com a história de vida de Bach, Handel, Haydn, Beethoven, Schubert, Mendelsshon, Chopin, Schumann, Liszt, Wagner, Verdi, Gounod, Brahms, Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov, Debussy. Puccini, Sibelius, Stravinsky e Villa-Lobos. Veja mais aqui e aqui.

A MÚSICA DE EUNICE KATUNDA
A vida e obra da compositora, regente, pianista e professora Eunice Katunda (1915-1990), é objeto do livro Eunice Katunda, musicista brasileira (Annablume, 2001), de Carlos Kater, contando a sua história e baseado em longa pesquisa, que inclui um levantamento do acervo de documentos da própria artista, além de ser um esboço biográfico da autora, torna-se com isso o único catálogo de suas obras e inclui a publicação de sua criação mais premiada e conhecida, Negrinho do Pastoreio. A sua obra encontra-se em CDs reunidos de Compositores Latino-Americanos (Sonopress, 1994), no livro Mulheres compositoras: elenco e repertório (Roswitha Kempf, 1987) de Nilcéia C. Baroncelli, na tese de doutoramento Louvação a Eunice: um estudo de análise da obra para piano de Eunice Katunda (Unicamp, 2009). Iracele Lívero, do artigo Katunda, Barbosa e Resesnde: compositoras brasileiras acima de qualquer suspeita (Musicologia Criativa - Actas do I Encontro Ibero-americano de Jovens Musicólogos: por uma musicologia criativa.: Tagus Atlanticus Associação Cultural, 2012, ). Eliana Monteiro da Silva e Amilcar Zani, e na dissertação de mestrado A obra para canto e piano de Eunice Katunda:três momentos (UFMG, 2009), de Melina de Lima Peixoto, trabalhando três canções Prenúncio do Sol(1961), Moda da Solidão-Solitude(1967) e Incelença das Ave-Marias(1972). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu mudaria todo o meu trabalho por um pouco de beleza.
A arte da pintora espanhola María Blanchard (María Gutiérrez Cueto – 1881- 1932). Veja mais aquiaqui.
&
IBAVALEUNA: 120 ANOS DE MURILLO LA GRECA
Evento realizado no último sábado, em Palmares-PE, em homenagem ao pintor e professor Murillo La Greca, promovido pelo Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna). Veja mais aqui e aqui.

A OBRA DE ALEXANDER SOLJENÍTSIN
Apenas aqueles que se recusam a subir na carreira são interessantes como seres humanos. Nada é mais chato do que um homem com uma carreira.
A obra o escritor, dramaturgo e historiador russo Alexander Soljenítsin (1918-2008) aqui e aqui.
&
OS POEMAQUARELAS DE LUCIAH LOPEZ
Lá fora ____________o frio
e eu me faço poema no mistério de todas as coisas.
Na pele o grito das letras e o reflexo da paixão que não morre
nunca________acorda o dia na resenha dessa espera de tantas horas.
Uma voz
Uma canção
E o Tempo Rei...
Os Poemaquarelas & outras artes da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez aqui e aqui.
 


sexta-feira, agosto 02, 2019

LAURA RIDING, VERDET, IÇAMI TIBA, SILVELENA GOMES & CARTA DE AGOSTO


CARTA DE AGOSTO - A chuva lava a minha alma deserdada. Cada pingo uma lembrança, a cachoeira da memória. A precária imaginação irrompe para meu desalento: da minha terra com seus muitos riachos num só caudal - o Una. Nada muda nessas paragens, caem todos por terra, vencidos e conquistados, genuflexos, e eu ao deus dará, percursos e percalços, suando a camisa e às pressas inimigas da perfeição: tudo muito aquém, só cabeça de menino de coração velho, combalido, fora de hora. Digamos, liliputiano sem guarida, falações e menosprezo, como era de se esperar. Nunca poderia ter sido nada além do que sou, não me parecia jamais pudesse ser uma mina de ouro: um extravagante carregado de precoce heterodoxia e dado à vida prosaica. Muito menos poderia me salvar do defeito fatal de avesso às expectativas paternais que me queriam uma proeminente unanimidade, como se pudesse ser diferente. Fui regiamente agraciado com a parte que me cabia de sova na vida, surras memoráveis de quase aniquilado, engolir pílulas amargas, sair rolando pela escadaria, a desconhecer da glória e aplauso, nunca quis a fama imorredoura, melhor o desprezo mesmo, sem embargo, aborrecia muitos. Via de regra, cresci e me criei desapadrinhado: nunca alimentei esperanças de me tornar um ensoberbecido triunfante, aprendia com a vida as lições do fracasso e a orar pelo pão nosso de cada dia. Sabia sucumbente às inanidades da existência. Como um urso aprisionado numa jaula, sempre busquei de livres paragens: pretendia por mais de tantas vezes largar tudo e, taciturno irrequieto, trilhar qualquer caminho e sem saber nem para onde ir, sensações rebeldes no coração ateado por irregulares pensamentos e hábitos. Esse sou eu nessa chuva torrencial. Apesar das sucessivas quedas e imprevidência, nunca invejei os afortunados ou não, comiserava de vê-los tão atarefados com os seus negócios, enquanto eu padecia com a desgraça das crianças sem lar refugiadas nas lamas da miséria. Enquanto saudavam felizes as celebrações de engalanado natal, outros minguavam sem esperança na derrocada da fome. Não, não. Eu me molho na chuva, lavo a alma. Apesar de tudo, ambicionei sim, um mundo melhor para mim e todos. Hoje quase me vejo um velho cínico enojado com esse mundo de hipocrisia humana, coitados, e eu sequer tenho como prover o meu próprio sustento. Nunca seria um grande homem, graças a Deus. Sempre preferi o inexpressível, o inexprimível, o visinvisível: o sorriso inocente da meninada, a calmaria de um rio profundo, a flor desabrochando no jardim, a dança das estrelas ao luar. Por conhecer o amor, desconheci muitas leis e coisas. E se fui poupado dos escândalos, ainda bem, meus olhos cobiçosos sempre seguiram em muitas direções. A mim o prazer da tortura de amar, não mais que um cadáver ambulante solidário com os apenados que desdenham a felicidade material desse mundo. Junto meus trapos e já vou sozinho, passos cambaleantes, entre beijos e abraços antigos que renovam um dia quase perdido pelas dores extirpadas de quase não ter jeito de passar, como quem dança para quem saiba amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O céu como um envoltório do mundo e espaço onde brilham os astros, não preocupa muito os camponeses nem os marinheiros. Enquanto o Sol, a Lua, as estrelas e os meteoros suscitam uma literatura abundante, sendo objeto de superstições e observações variadas, a curiosidade popular parece não se estender à abobada celeste. [...] Em 30 de novembro de 1852, foi criada a comissão examinadora dos livros vendidos por ambulantes. O objetivo declarado dessa instituição é pôr fim a quatro séculos de difusão pelo interior, pelos caixeiros-viajantes de livraria, de uma infinidade de livrinhos. Essa literatura popular, também denominada “literatura azul”, é considerada perniciosa: pode ser uma má influencia para os espíritos. Nessa produção, os almanaques, pelo número e pela antiguidade, ocupam uma posição importante. Quase todos acabaram, depois de proibidos pela comissão. [...] Desde sua publicação, em 1494, durante o Carnaval, o Nef des fous, do humanista alemão Sebastian Brant (1458-1521), teve um sucesso retumbante, tanto na Alemanha como no resto da Europa, como atestam plágios e traduções. O autor faz todos os loucos da terra das delícias embarcarem numa estranha nau que ruma para a “Bobagônia”, o reino da loucura. Representantes de todas as classes sociais embarcam na Nau dos insensatos. A cada um dos loucos, personificando um vício humano, é consagrado um capítulo. Brant não podia deixar de falar na loucura de querer conhecer o céu. [...]
Trechos extraídos da obra O céu, mistério, magia e mito (Galimard, 1987), do astrônomo, historiador e matemático Jean-Pierre Verdet. Veja mais aqui, aquiaqui.

A POESIA DE LAURA RIDING
QUASE – Obscuridade quase expressa / que nunca foi ainda mas sempre / era para ser a próxima e a próxima / caso o lapso do ontem no amanhã / fosse reparado pelo menos até já, - pelo menos até já, até ontem - / caos quase reconquistado / sem que a verdade, dessa vez / decaísse ou progredisse - / o que há de novo? Qual é? / você nunca foi ainda / ou eu que nunca sou até?
TERRA – Não tema tanto pela Terra: / seu nome universal é “Lugarnenhum”. / Se é Terra para você, segredo seu. / Os registros externos param ali, / e você pode descrevê-la como parece, / e como parece, sê-la, / pretensa pausa / em meio à pretensa pressa.
SEM TÍTULO – Não é um muro, não é um poeta. Não é um muro de mentira, não é uma palavra de mentira. É um limite escrito do tempo. Não ultrapasse, ou em minha boca, meus olhos, você vai despencar. Chegue perto, encare e olhe bem através de mim, fale enquanto você vê. Mas, oh, rebanho de vidas totalmente apaixonadas, não ultrapasse agora. Senão em minha boca, em meus olhos, vocês hão de cair, e não ser mais vocês.
Poemas da obra The Poemas of Laura Riding (Persea, 1980), da poeta estadunidense Laura Riding (1901-1991), traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes. Veja mais aquiaqui.
  
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Quase toda ilustração nasce ou de uma profunda reflexão dolorosa ou de um sentimento de necessidade da representação. Desenho o que não consigo encontrar, crio o que não foi criado antes para mulheres como eu. O feminismo de modo geral, em certas ocasiões, não consegue abarcar as mulheres negras, gordas e lésbicas. Retratá-las é ir de encontro a toda uma lógica visual de representação. É me ver, dar olhos e assumir as próprias falhas, dores e vontades.
A arte da ilustradora e estudante de Publicidade, Silvelena GomesVeja mais aquiaqui.

A OBRA DE IÇAMI TIBA
A felicidade é saber usufruir muito bem o que se tem, sem ficar sofrendo pelo o que não se tem, é a boa autoestima que permiti viver com esse feliz equilíbrio.
A obra do médico e escritor Içami Tiba (1941-2015) aqui e aqui.


quinta-feira, agosto 01, 2019

NORBERT ELIAS, JANE GOODALL, DENIS GUÉNOUN, STAN TRAMPE & VEIAS DO PEITO


VEIAS DO PEITO – Coração rasgado, sangrava a manhã chuvosa. Sair seria um desperdício, nem valeria a pena. Tinha de ir, sem saber sequer para onde. Uma tentativa, tudo desabou: reuniu as migalhas do seu fracasso. Tivesse uma chance nem saberia o que fazer dela: oportunidades perdidas na poeira dos dedos. Duas, o mundo não leva ninguém a sério. Sorrisse, não seria mais que desilusão. Dizia de si, pouco importava. Dissesse, de nada adiantava, cada qual seu rumo umbigo afora. Quanta ausência e nenhuma forma de fazer dos braços alguma coisa. Três, a queda inevitável, como sempre: recolhia do chão o que sobrou de si, asas dos pés que nunca puderam voar. Nem adiantava chorar: nada mais valia, olhos de violão dedilhando canção pungente. Mais tivesse, menos podia. Buscava uma esperança nem que fosse pretérita, tudo por água abaixo. Serviu-se do meio fio pela imaginação, nada mais restava do que pudesse segurar. Soltaram-se as línguas e não foi fácil nenhuma manhã. Se seguisse adiante, não escaparia de alaridos e dissimulações. Tudo tolhia o ânimo, a euforia na esquina acenava, adeus de toda hora. Ainda ontem queria ser melhor, muito mais e nem era. Hoje só restava contar nas veias retalhadas as dores do peito. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Milhares de pessoas dizem "adorar" animais, mas sentam-se uma ou duas vezes ao dia a desfrutar a carne de criaturas que foram completamente privadas de tudo o que poderia tornar as suas vidas dignas de serem vividas e que suportaram o horrível sofrimento e terror dos matadouros.
Pensamento da primatóloga, etóloga e antropóloga britânica Jane Goodall. Veja mais aqui.

UMA IDEIA DO TEATRO
[...] O que convoca o teatro vem do lado político propriamente dito. É então o político'? Seria supor que o político se convoca, coisa de que eu também duvido. Alguma coisa convoca (tanto o político, quanto o teatro). A partir desta proveniência comum, institui-se a distribuição de sua diferença. [...] Não há teatro algum no espaço ocupado, saturado pelo culto (ou pelo rito). O teatro vem no movimento, no momento, no lugar aberto pela separação da cidade em relação a tudo isto. E em sua vizinhança, portanto, e com frequência nesta nostalgia – até mesmo ideologia de uma teatralidade cultural, ritual, mística. Mas nada disto o constitui: o teatro está ligado ao advento de uma cidade saída da assembleia do culto, à produção do profano, do cívico, - do político mesmo. [...].
Trechos extraídos da obra A exibição das palavras: uma ideia (política) do teatro (Teatro do Pequeno Gesto, 2003),do dramaturgo, diretor, escritor e professor francês Denis Guénoun. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo estadunidense Stan Trampe. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE NORBERT ELIAS
Todo homem, por assim dizer, enfrenta a si mesmo.
A obra do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) aqui e aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...