sábado, junho 24, 2017

PRA QUEM VEM OU VAI, MESMO CAMINHO, DIFERENTES VIVÊNCIAS.

PELAS RUAS ONDE ANDEI - Bom dia, não há resposta. Insisto e sou ignorado, como se o desdém não recebesse migalhas ou ninharias. Cumprimento e ouço a resposta inaudita estampada na face: eu lá te conheço, traste! Depois de muitas investidas, uma linda garota corresponde ao meu sorriso; saúdo alegremente e ela estranha: sai-te, parece mais que é doido! E se perde no meio do vaivém das pessoas. Ofereço o meu olhar de quem espera e todos se desviam como se estivessem entre o absurdo e a surpresa. Ofereço uma flor e se desvencilham. Dou minha repleta de carinho e ternura, tem esmola agora não! Abro os braços: qualé, meu? Ou desculpas pra escapulir, ou evasivas breves só por gentileza e simpatia, mais nada. Dias assim, de norte a sul, leste a oeste, será que sou invisível? Boa tarde e não me ouvem, ou fazem que. Mil dias em um instante e a teia dos anos só o nó da solidão aos sobressaltos do imprevisível pela imprecisa largura no comprimento infinito, entre a ausência e o vazio. Sou entrada franca na privação do aconchego, catando um gesto que seja pra aliviar a dor encruada pelas placas em todas as direções. E sem o menor escrúpulo procuro uma mão amiga, como se sentisse o cheiro do quintal da infância, como se ouvisse o ruído agradável das pisadas nas folhas secas pelo chão. Dia sim, dia não, quando chove ou faz sol e estou no meio da calçada de ruas vazias de gente viva, como um salão escuro entre os que passam e a saudade dos que não vejo há tempos, lembranças quase apagadas pelos que nunca botei os olhos e levadas pelo asfalto com o ronco dos motores com seus vidros fechados que passam salpicando os passantes blindados sob um véu mortuário da indiferença e sisudez, com seus receituários médicos, suas listas pra feira do supermercado, seus carnês de pagamentos, seus relógios atrasados. Lá vou eu remos às ondas, asas ao ar, com meus fantasmas galhofeiros e tagarelas que caçoam de mim entre aparições e desaparecimentos, o mundo escancarado de ponta-cabeça e os meus semelhantes estão fechados em si, sem dar confiança e a destituir qualquer afeto ao massacre da indiferença, consumindo as coisas e os outros, tudo quanto puderem levar aos bolsos e bolsas, corço fechado, alma precavida, para que ninguém perceba seus temores e clamores na ilusão das posses do que pensa ser real no efêmero da vida. Tardes assim me dão a impressão do cortejo tão sobrecarregado com as enxurradas de problemas e discussões que mofaram as faces conhecidas em estranhos que sepultaram suas lembranças e vivências no jazigo, ignorando tudo e todos, ignorando a mim e o amor que sinto pela humanidade, o que penso do ser humano. Anoitece em mim e o fogo-fátuo são os quadris parideiros da moça linda reboladeira a me chamar atenção com sua pele pálida nas pernas e coxas destacadas pela saia justa e os seios proeminentes no decote, lábios salientes nos olhos negros desconfiados, a me olhar como inoportuno por admirá-la, e sorrio e ela vira a cabeça, segue adiante como se fugisse de doença contagiosa ou de uma catástrofe, e eu sem me dar conta da minha deformidade de apenas amar o ser humano e de com ele querer a vida ao estreito do braço e coração. O máximo que consigo de meus supostos interlocutores é algum xingamento, ofensa, chega pra lá, ou oferta intrusa, custa dez reais a dúzia, quer comprar? É aqui o terminal do ônibus? Sim, ali. Tá, obrigada. Onde fica o hospital? Ali. Obrigado. Desculpe, piiiiii, sai da frente! De repente: Você viu o João? Que João? João Antônio! Se vi, não sei quem é! Ah, que pena, preciso encontrar o João. Podemos procurá-lo, como ele é? Adianta não. Adianta, sim, como é ele? Ah, vou atrás dele. Posso ir com você? Não. Ah, tá. O meu coração cada vez mais se precipita pelo buraco negro que me leva ao isolamento de outra dimensão. Queria tanto conversar, trocar ideias, abraçar, por que será que ninguém mais se dá ao bate papo espontâneo, assim surgido do nada, entre estranhos que não precisem ser apresentados por nomes, idades, profissões, conversar por conversar, sem pedir licença, sem saber qual motivo nem quando terminar. Ao contrário, mais parece que o mundo acabou e todos vão no maior vexame pela emergência de se salvar. Noites assim, não queria mais voltar pra casa, inevitável. As pessoas não me enxergam, melhor invisível no meu quarto, vou pra casa, quase abissal madrugada, o cansaço e o sono, preciso dormir e conversar comigo mesmo. É melhor, quem sabe, pelo que se diz tudo cede à luz do dia, pode ser amanhã. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
Dos bichos de todas as feras e mansas, O romance da Besta Fubana de Luiz Berto, Cantadores de Leonardo Mota, a escultura de Antoni Gaudí, a música do Duo Backer, a militância de Brigitte Mohnhaupt, a arte de Natalia Fabia & a xilogravura de J. Borges aqui.

E mais:
Entre nós, vivo você, Cancão de fogo de Jairo Lima, as gravuras de Lasar Segall, a música de Sivuca, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, a arte de Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Pechisbeque, A realidade das coisas de Tales de Mileto, 1984 de George Orwell, Legado & Grito de Renata Pallottini, a música de Bach & João Carlos Martins, O País de Cucanha, As casadas solteiras de Martins Pena, o cinema de Sidney Lumet & Sophia Loren, a arte de Antoni Gaudí & Jean-Jacques Henner, a pintura de Sam Francis & Theo Tobiasse aqui.
A chegada dela pro prazer da tarde, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, o teatro de Nelson Rodrigues, O discurso e a cidade de Antonio Cândido, a arte de Betty Lago, Disco Voador – OVNI & Programa Tataritaritatá aqui.
Todo ser vivo é um poema de Gandhi, a arte de Maurren Maggi, 1984 de George Orwel & Rick Wakeman aqui.
A paixão, uso & abuso aqui.
O sabor da princesa que se faz serva na manhã aqui.
Orçamento & finanças públicas, Os quadrinhos de Sandro Marcelo & Campana aqui.
As flô de puxinanã & outros poemas de Zé da Luz aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o cabra se envulta, já num t'aqui mais quem falou aqui.
Primeira Reunião: Espera, Glosas críticas de Karl Marx, Sóror Saudade de Florbela Espanca, a música de Maki Ishii, Teatro Pedagógico de Arthur Kaufman, Musicoterapia de Rolando Benezon, o cinema de Silvio Soldini & Licia Maglietta, João do Pulo & a pintura de Carl Larsson aqui.
Vamos aprumar a conversa: Entrega, A metamorfose de Franz Kafka, O individuo na sociedade de Emma Goldman, Auto da barca do inferno de Gil Vicente, a música de Isaac Albéniz, a pintura de Fritz von Uhde, a fotografia de Freddy Martins, o cinema de Sam Mendes & Annette Bening aqui.
Desejo & cantora Sônia Mello, Deus & o Estado de Mikhail Bakunin, Reflexos ouvindo insetos de Po Chu Yi, Os Museus de Bertha Lutz, a música Paulo Bellinati, Teatro Espontâneo & Psicodrama, Mata Hari, a pintura de Murilo La Greca & a arte de Melinda Gebbie aqui.
Canto a mim mesmo de Walt Whitiman aqui.
Brincarte do Nitolino & Declaração dos Direitos da Criança, Folhas da relva de Walt Whitman, O rapto de Prosérpina, a música de Richard Strauss & Diana Damrau, Função do Teatro de Francis Fergusson, o cinema de Reinaud Victor & Sandrine Bonnaire, a pintura de Alessandro Bronzino, a escultura de Gian Lorenzo Bernini, Marx & Charb aqui.
Andejo da noite e do dia, A poesia de Mayakovsky, A era dos extremos de Eric Hobsbawm, A felicidade paradoxal de Gilles Lipovetsky, a escultura de Nguyen Tuan, a música de Caetano Veloso & Gal Costa, O amor é tudo de Martha Medeiros, a pintura de Shanna Bruschi & Jeremy Lipking, a poesia de Gisele Sant'Ana Lemos & Diana Balis aqui.
Perfume da inocência, O amor & o matrimônio de Carmichael Stopes, Epigrama de Automédon de Cízico, a literatura de Robert A. Johnson, a fotografia de Beth Sanders, a arte de Chris Buzelli & Rebeca Matta, a pintura de Peter Blake & a música de Maria Leite aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Viva São João!
 

sexta-feira, junho 23, 2017

O VAZIO DE LIPOVETSKY, FERNANDO ARRABAL, A ESCRITORA DE YAZBEK, NAIR BENEDICTO & QUADRILHA DA PAIXÃO

A QUADRILHA DA PAIXÃO – Imagem: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez - Lá vem ela faceira feito linda roseira a se exibir no jardim. Uma camisa xadrez aberta entre os seios que são do tamanho das minhas mãos. Um nó na cintura sobre o umbigo provocador qual beijo jogado pra mim, uma saia rodada cheia de rendas, laços e fitas, a realçar suas coxas e pernas incendiando a minha libido. Solta aos passos de dama casamenteira, olhos vivos com todo viço e eu enamorado na sua franja ornada com duas tranças laterais, a imprimir-lhe sedução juvenil nas bochechas rosadas. E o batom encarnado nos lábios me convidando ao prazer, a me levar sorridente pra esquentar a carne nas fogueiras juninas, saboreando roletes de cana, milho assado, queijo de coalho, canjica e arroz doce, sorvendo caldo de cana e uma pinga com a fruta vez: caju, manga, ciriguela, jaca ou cajá, carambola, acerola, laranja e limão. Ah, como é bom nela brincar o meu São João. E seus dedos aveludados alisam o meu gibão de vaqueiro, chapéu e colete de couro, a se engraçar com as perneiras e alpercatas que correram mato, pastagens, caatingas do que sou e fui, tudo da cor de ferrugem ao curtimento, pra que sua pele macia me toque como voz entoando meu aboio pra que o gado invisível e todos os bichos dos campos estejam no céu de estrelas que alumiam mais que presentes no nosso festejo. Ah, como é bom nela brincar o meu São João. En avant tous, en arrière, gritaram! Todos respondiam, pra frente pra trás, casais dando as mãos aos passos marcados: ananvantú, anarriê, alavantú, anarriê. Dancê! Balancê! Changê! Autre fois! Dancê! Mão na mão, passo a passo, lá vou eu no cumprimento às damas e cavalheiros, pelos túneis e caminho da roça, olha a cobra! É mentira! Caracol, desviar, coroação de damas e cavalheiros, grande roda, damas ao centro, o passeio. Era o salvo-conduto: na cintura dela eu me agarrei ao seu rebolado, encangado na sua garupa fui mandando direção por atalhos, moitas, grotas e grotões, do que ela não sabia da mata, do litoral, agreste e sertão que sou, alma nordestina na sua pele de sul que vou passageiro porque ela reina em mim, na água, no fogo, na terra e no ar! E me ajoelhei aos seus pés atrás do oitão, descalçando a sua sandalhinha como quem cuida amante do seu bem-querer. E jurei por toadas o amor do coração entre suas pernas e coxas, pra ter sua saia como cobertor pras noites de frio em plena invernada. A chuva ameaça cair, pouco importa, ah, como é bom nela brincar o meu São João. As fogueiras queimam ao chuvisco, o cheiro de comida boa no ar. Um vento frio e me abrigou em seu ventre, a me fazer seu senhor e feitor no seu corpo de todas as montanhas e plantações, como se fosse uma roda gigante a nos embalar no gira girar de céus e paraísos, pra que eu tenha sempre a certeza de que sou o dono na posse do amor. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

O VAZIO DE LIPOVETSKY
[...] Não há como não ver que a indiferença e a desmotivação de massa, a progressão do vazio existencial e a extinção progressiva do riso são fenômenos paralelos: por todo lado surge a mesma desvitalização e a mesma erradicação das espontaneidades pulsionais, a mesma neutralização das emoções, a mesma auto-absorção narcísica [...] A sociedade, cujo valor cardeal passou a ser a felicidade e massa, é inexoravelmente arrastada a produzir e a consumir em grande escala os signos adaptados a esse novo éthos, ou seja, mensagens alegres, felizes, aptas a proporcionar a todo momento, em sua maioria, um prêmio de satisfação direta [...] quanto mais as grandes opções deixam de se opor drasticamente, mais a política se torna uma caricatura com cenas de luta livre a dois ou a quadro; quanto mais a desmotivação política aumenta, mais a cena política parece um strip-tease de boas intenções, de honestidade, de responsabilidade e se metamorfoseia em episódio burlesco [...] A impulsividade extrema e desenfreada dos homens, correlativa das sociedades que precedem o estado absolutista, foi substituída por uma regulamentação de comportamentos, pelo autocontrole do indivíduo, enfim, pelo processo de civilização que acompanha a pacificação do território realizada pelo Estado moderno. [...] Nos nossos dias a violência desaparece maciçamente da paisagem urbana e se torna a maior proibição das nossas sociedades. [...] O indivíduo renuncia à violência não apenas porque apareceram novos bens e novas finalidades particulares mas também porque, no mesmo rastro, o outro se encontra privado de substância, tornando-se um figurante vazio de risco [...]. A violência entra no ciclo de reabsorção dos conteúdos; de acordo com a era narcísica, a violência perde sua substância em uma culminância hiperrealista sem programe sem ilusão. Uma violência hard, desencantada [...].
Trecho da obra A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo (Relogio D'agua, 1983), do filósofo, professor e teórico da Hipermodernidade Gilles Lipovetsky, tratando sobre o narcisismo e as novas relações sociais, a apatia, indiferença e susbstituição do princípio da sedução ao da convicção, expondo em um prólogo e seis capítulos temas como o enfraquecimento da sociedade,d os costumes, do indivíduo contemporâneo na era do consumo de massa, da emergência de um modo de sociabilização e de individualização inédito, numa ruptura como que foi instituído a partir dos séculos XVII e XVIII. Na obra ele traz o conceito de sociedade pós-moderna, o vazio, a sedução vigente e suas consequências, a indiferença pura, a anemia emocional, suicídio e depressão, homo politicus x homo psychologicus, o corpo reciclado e o teatro discreto, o apocalipse now, os mil watts, a solidão e o vazio. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros & cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, A setilha do cantador Serrador, a música da Orquestra Armorial, O casamento da Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a xilogravura de J. Miguel & Costa Leite, as gravuras de Roberto Burle Marx, a arte de Vermelho & Severino Borges aqui.

E mais:
Viva São João, Quadrilha & Nordeste de Ascenso Ferreira, a música de Luis Gonzaga, Tratada da lavação da burra de Ângelo Monteiro, Terra de Caruaru de José Condé, Viva São João de Artur Azevedo, Noite de São João de Sérgio Silva & Dira Paz, a gravura de José Barbosa, Brincarte de Nitolino, a pintura de Rosangela Borges & Valquíria Barros aqui.
Vamos aprumar a conversa, Augusto Matraga de João Guimarães Rosa, Princípios de uma nova ciência de Giambattista Vico, Canto do último encontro de Anna Akhmátova, a música de Rozana Lanzelotte, Devassos no paraíso de João Silvério Trevisan, a arte de Dercy Gonçalves, o cinema de Roberto Santos, o documentário Moacir arte bruta de Walter Carvalho, a pintura de Eliseo d'Angelo & Vilmar Lopes aqui.
O que são as coincidências & outros ditos inauditos, Haverá amor de Anna Akhmatova, Cântico dos cânticos de Salomâo, a música de Carl Reinecke, Chico Buarque & Elza Soares, a arte de Naldinho Freire aqui.
O catecismo de Zéfiro & o rol da paixão aqui.
História & literatura do teatro aqui.
Vamos aprumar a conversa, Divina comédia de Dante Alighieri, Ensaios de Ralf Waldo Emerson, Macunaíma de Mário de Andrade, a música de Mikko Härki, o teatro de Luigi Pirandello, História de O de Guido Crepax & a pintura de Mark Gertler aqui.
Pensando o ritual de Mario Perniola, Entre nós de Emmanuel Lévinas, Teatro em tempo de síntese de Maria Helena Kühner, a música de Sivuca, o cinema de Wolf Maia & Maria Clara Gueiros, a pintura de Emanuel Leutze, a fotografia de Dorothea Lange, Livro das incandescências de Jaci Bezerra & Programa Tataritaritatá aqui.
Brincarte do Nitolino, Parque humano de Peter Sloterdijk, Viagem ao fim da noite de Ferdinand Céline, a pintura de Georges Rouault, a música de Ivete Sangalo, Aprendizagem do autor de Antonio Januzelli – Janô, o cinema de Mark Robson & Barbara Parkins, arte de Sharon Tate & Isadora Duncan aqui.
E lá vou eu noutras voltas, Variações sobre o corpo de Michel Serres, Tarde demais de Antonio Tabucchi, A jangada de Ulisses de Vianna Moog, a música de Mundo Livre S/A, a fotografia de Raoul Hausmann, a pintura de Aja-ann Trier & a arte de Matthew Guarnaccia aqui.
As mulheres mandam ver nas olimpíadas & a arte de Hubert B. W. Ru aqui.
A festa das olimpíadas do Big Shit Bôbras – o Big Bode do Brasil, Sonhos e pesadelos da razão de Oswaldo Giacoia Junior, Gasolina & Lady Vestal de Gregory Corso, Intelectuais à brasileira de Sergio Miceli, a música de Wanda Sá, a pintura de Augusta Stylianou & Nancy L Jolicoeur, a arte de Banksy & Natalia Gal Stabile aqui.
O sonho do amor, As bodas de Fígaro de Beaumarchais, a Psicologia de Afonso Lisboa da Fonseca, a música de Ana Cascardo, a pintura de Sandra Hiromoto, Luciah Lopez, a arte de Ana Viera Pereira & Ana Maia Nobre aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
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GUERNICA & LA MUERTE DE FERNANDO ARRABAL
Entre as obras do poeta, dramaturgo, roteirista e diretor de cinema Fernando Arrabal, primeiramente destaco L'arbre de Guernica (1975), drama surreal de guerra, contando a história de um pintor excêntrico que se aloja em um castelo quando começa a guerra, realçando o amor no meio da crueza da Guerra Civil Espanhola, reproduzindo de forma ficticia o conflito geral em toda a Espanha, culminando com a aniquilação da cidade de Guernica. O destaque fica por conta da belíssima atriz italiana Mariangela Melato (1941-2013). O segundo, o drama Viva la Muerte (1971), contando a história de um jovem que teve o pai entregue às autoridade por suspeita de comunista, por sua própria mãe simpatizante fascista. O destaque do filme fica por conta da sequencia de desenhos do artista, ator e romancista francês Roland Topor (1938-1997) e atuação da atriz francesa Anouk Ferjac. Veja mais aqui e aqui.

A ESCRITORA DA ENTREVISTA DE SAMIR YAZBEK
[...] Sinceramente, eu acho que o mundo em si. De repente ficou muito difícil viver, simplesmente isso. E eu me lembro que há pouco tempo não era assim. Antigamente, havia uma crença comum de que nós iríamos melhorar como humanidade, que hoje eu já não encontro mais. Ficou muito pior do que eu imaginava. E do que muita gente imaginava. As pessoas, os lugares, a literatura, a competição entre os colegas, como se fôssemos executivos. Os leitores que não lêem. E se lêem, não têm o que dizer. E se têm o que dizer, normalmente dizem superficialidades. Acho que foi por tudo isso que eu fui me retraindo. E aí, no começo, como forma de entender o que acontecia comigo e com o mundo, eu achei importante falar sobre isso, mas agora eu queria expandir esse horizonte, eu me sinto presa. Parece que eu fui ultrapassada pelos acontecimentos e que não faz mais sentido pensar como eu pensava. Ou seja, ou eu encontro uma nova forma de escrever, ou então eu vou viver esse eterno tormento de estar sempre insatisfeita comigo mesma. [...] Ter medo do silêncio? Como é que eu posso ter medo do único amigo que me acompanha do início ao fim? A diferença é que esse de agora está preenchido de algo. Algo cujo nome eu desconheço, mas existe. Existe porque eu sinto que existe. Que mais eu preciso dizer?
Trechos da peça teatral A entrevista (2004), extraída da coletânea O fingidor, A terra prometida, A entrevista (Cultura/Fundação Padre Anchieta, 2006) do dramaturgo e diretor teatral Samir Yazbek. Veja mais aqui.

O QUARTO DIA DE LUCIAH LOPEZ
Minha vontade era de estar contigo, sem importar-me com interpretações que venham a ser feitas sobre isso -, não me sinto a caminho do Gólgota pelo fato de amar demasiadamente. Basta a realidade mais divertida do que uma completa incredulidade na existência do Amor. E se me olhas resolutamente nos olhos, posso saber onde reside a felicidade, e, contrariando a própria vida e suas maledicências eu me percebo um novo ser, quando em suas mãos vivencio o crescimento da minha alma. Encerra-se a solidão e eu sou capaz de fazer versos...
Quarto dia, poema/arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.

A ARTE DE NAIR BENEDICTO
[...] Eu queria documentar a realidade da Amazônia naquele momento, o modo como grandes projetos interferiam na vida das aldeias, como, por exemplo, a usina de Tucuruí. Naquela época eu não achava que o caminho certo para difundir esse trabalho seria o livro. O audiovisual funcionava muito melhor para promover a discussão. Uma coisa era ter o livro pronto, outra coisa era mostrar isso diretamente para as pessoas. Eu sempre me interessei muito pela relação da fotografia com a educação. Eu publiquei muita coisa, tanto no Brasil como no exterior, mas nunca achei que uma revista faria a matéria que eu queria. Então encontrei no audiovisual um modo bastante eficiente de fazer essa junção. Dávamos muitas palestras em escolas, por exemplo. [...] O áudio sobre a Amazônia teve trilha sonora do Hermeto Paschoal. Fiz audiovisuais de outros assuntos importantes também: “O Prazer é nosso”, “Não Quero ser a Próxima”, “E agora, Maria”, todos ligados diretamente à questão da mulher. Também fiz outros focados na questão da terra e na ecologia. [...].
Trechos da entrevista concedida pela fotógrafa e fotojornalista Nair Benedicto, à publicação O índio na fotografia brasileira (2012), por ocasião do lançamento do seu Vi ver: fotografias de Nair Benedicto (Brasil Imagem, 2012), dividido em duas partes: Amazônias (imagens do desmatamento promovido pela construção da Transamazônica e o surgimento das cidades abrigando os migrantes) e Desenredos (com imagens das ruínas e lixões urbanos do garimpo em Serra Pelada e nas terras ianomâmis, entre outras).
 

quinta-feira, junho 22, 2017

IRREALIDADE DE UMBERTO ECO, BREVIÁRIO DE SHAW, QUARTETO GUARNIERI, ENEIDA PAES LIMA, JUDY BURGARELLA & PREVIDÊNCIA SOCIAL SUPERAVITÁRIA

A PREVIDÊNCIA SOCIAL É SUPERAVITÁRIA! – Esse papo de que a previdência social é deficitária não é de hoje. Desde que me entendo por gente que ouço falar e muito sobre o “rombo da previdência”. Quer dizer, essa é a manchete do noticiário nos últimos cinquenta anos, dando conta do colapso das suas receitas. O auê engrossou mesmo em 1995, quando foi decretada a sua completa insolvência, não havendo condições da cobertura dos benefícios e pensões por completa falência de custeio, ensejando adoção de medidas para solução da bronca. Bem, pelo menos é o que se ouvia dizer a respeito. Essa congestão se deu, segundo governantes e imprensa, pela edição da Lei 8213/91, que equiparou trabalhadores rurais aos urbanos – como se devesse fazer distinção entre um e outro -, sendo, por isso, responsável pela crise em todo sistema. Para quem se lembra do alarde todo dessa época, foram editadas a Emenda Constitucional 20/1998 e a Lei Complementar 9876/99 que, entre outras finalidades, estavam a de coibir a aposentadoria precoce e equilibrar as finanças do setor. Acontece, porém, que é preciso se levar em conta que foi exatamente em 1994, que se deu o advento da Desvinculação das Receitas da União (DRU), prevista nas disposições transitórias da Constituição Federal vigente, especificamente no seu art. 76, com permissão para transferir até 20% da arrecadação securitária para cobertura de outros gastos de outras áreas do governo. Peraí, como é mesmo? Isso mesmo. Há inclusive tramitando no Congresso Nacional o Projeto de Emenda Constitucional (PEC 87/2015) que pretende aumentar de 20% para 30% a DRU. Êpa! Pois é. Colocando o ponto nos iiiiis: o governo anuncia que a previdência social é deficitária, entretanto, promove renúncia fiscal com desonerações tributárias nas folhas de pagamento, afora por meio da transitória DRU (que já está de maior, lindinha, robusta e cobiçada com vinte e três aninhos de idade – que transitoriedade, hem?), cobrir despesas alheias à seguridade social. Peraí! Acompanhe o enredo: a previdência dá prejuízo e tiram da seguridade para outras áreas? Há quem diga que a falácia do déficit tenha sido mesmo para promover a previdência privada e viabilizar programas que privilegiem investidores e categorias profissionais. Como não parou por aí, com a edição da Lei 13135/2015, limitou-se a concessão do auxílio-doença, da pensão por morte, entre outros prejuízos com a restrição de benefícios, enquanto que a Lei 13183/2015, procedeu à nova forma de cálculo para a aposentadoria com a opção do fator previdenciário. Eita! Vamos lá, acompanhe direitinho: entre os que alardeiam pela condição deficitária está o argumento de que tudo isso aconteceu pelo fato da previdência pesar 4% do PIB, além do crescimento demográfico, aumento da população idosa, redução da formalidade empregatícia, ascensão da informalidade, aumento do salário mínimo, diminuição da arrecadação e todas as demais crises econômicas, entre outros e tantos muitos motivos. Vixe! Todavia no meio de tantos poréns, se alguém se der ao trabalho de dar uma simples espiadela no art. 194 da Constituição Federal – ela não foi feita só pra enfeitar as estantes ou invocada aleatoriamente por quem nem sabe o que nela está contido porque foi feita pros franceses e não para brasileiros -, terá a informação de que a previdência social faz parte do sistema de seguridade social, do qual também fazem parte tanto a saúde como a assistência social, com o seu financiamento previsto pelo art. 195 da CF/88 e regulamentado pela mencionada Lei 8212/91, reunindo as contribuições das pessoas jurídicas, dos contribuintes pessoas físicas, da receita de concursos de prognósticos e da importação de bens ou serviços do exterior. Sim. Acontece que arbitrariamente o governo considera apenas as contribuições dos empregadores e empregados, deixando de fora as demais contribuições sociais previstas, com o entendimento de cumprir o previsto no inciso XI do art. 167 da CF/88, pelo qual é vedada a utilização dos recursos oriundos do INSS-Folha, o que não tem correspondência porque não se vedou nem a CONFINS nem a CSSL no custeamento das despesas securitárias. Como é? Trocando em miúdos: haja artifícios para confirmar que a previdência já era. Confrontando esse argumento, estudos realizados entre os anos 1990/2010 até o momento presente, tanto pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Previdência (ANFIP), como por estudiosos como Denise Gentil, Fernando Rubin, Isabella Alves, Márcio Schio, Rogério Matos, Fabiola Melo & Andrei Simonasse, dão conta que o sistema securitário sempre foi superavitário e, por consequência, se a previdência social faz parte da seguridade social, também é verdade que ela seja superavitária, nada mais lógico, não? Mesmo assim, as pesquisas realizadas foram mais adiante e aprofundada: consideraram o PIB, o INPC e a gestão das receitas e despesas do RGPS, chegando à conclusão de que a previdência social, mesmo com o uso indiscriminado da DRU, é reiteradamente superavitária. Entendeu agora? Então, o que precisa de mesmo é substituir as más gestões, adequar o sistema previdenciário às necessidades da atualidade, sem que se precise ceifar a população de hoje e do futuro com a estupidez de aumento na idade para aposentadoria, redução de benefícios ou qualquer outra medida restritiva em detrimento da população brasileira, bastando tão somente utilizar-se dos recursos da seguridade social em sua totalidade para os fins aos quais ela foi constitucionalmente atribuída, evidentemente com uma gestão configurada na previsão constitucional do art. 37, com clareza e transparência, sobretudo em respeito à efetividade dos princípios da dignidade da pessoa humana e da supremacia do interesse público. Viu? Agora uma pergunta: a quem interessa uma reforma previdenciária? Adivinha? Vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

A IRREALIDADE COTIDIANA DE UMBERTO ECO
[...] Quando todos os arquétipos irrompem sem decência, são atingidas profundidades homéricas. Dois clichês provocam o riso. Cem clichês comovem. Porque se percebe obscuramente que os clichês falam entre e celebram uma festa do reencontro. Como o cúmulo da dor encontra a volúpia e o cúmulo da perversão beira a energia mística, o cúmulo da banalidade deixa entrever uma suspeita sublime [...].
Trecho de Casablanca, ou o renascimento dos deuses, extraído da obra Viagem na irrealidade cotidiana (Nova Fronteira, 1993), do escritor, filósofo e bibliófilo italiano Umberto Eco (1932-2016), tratando das questões humanas contemporâneas e cotidianas, entre elas a ecologia, a deterioração dos meios, a hiperrealidade, a cultura “fake” americana e o horror do vácuo, o candomblé e os orixás, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Saúde no Brasil aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

E mais:
A filharada de Zé Corninho, O homem, a mulher & a natureza de Alan Watts, Travessia marítima de Thomas Mann, O casamento de Anne Morrow Lindbergh, a música de Charlotte Moorman, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, Emmanuelle Seigner, a arte de Hansen Bahia & Attila Richard Lukacs aqui.
Vamos aprumar a conversa, Sociedade dos indivíduos de Norbert Elias, As brasas de o Sándor Márai, Babylon de Zuca Sardan, a música de Hermeto Pascoal & Aline Moreira, Anatomia do drama de Martin Esslin, o cinema de Fred Schepisi & Meryl Streep, a escultura de Pierre-Nicolas Beauvallet, a arte de Derek Gores & a pintura de Gilson Luiz Santos Braga aqui.
Se não chover... mas se chover..., Diário de um sedutor de Søren Kierkegaard & Marcha das Vadias aqui.
Três poemetos de amor pra ela: Abraçados, Presente & Dela aqui.
Vamos aprumar a conversa: aquele abraço!, A espada da deusa de Richard Wagner, Pigmalião de Bernard Shaw, O perfume de Patrick Süskind, a música de Richard Wagner, o cinema de Tom Tykwer & Karoline Herfurth, a pintura de Mary Cassatt, a arte de Susan Strasberg & a poesia de Pedro Du Bois aqui.
Primeira Reunião: Em mim, O anão de Pär Lagerkvist. Os últimos dias de Paupéria de Torquato Neto, A mais forte de August Strindberg, a música de Camille Saint-Saëns & Waltraud Meier, o cinema de Joann Sfar & Lucy Gordon, a arte de Lena Nyman & a pintura de Carl Heinrich Bloch aqui.
Brincarte do Nitolino, Holismo & evolução de Jan Christiaan Smuts, a poesia de Joseph Brodsky, o teatro de Gianfracesco Guarnieri, a música de Bob Dylan, o cinema de Leon Hirszman, a pintura de Jacopo Pontormo & a arte de Helena Ranaldi aqui.
Direitos de toda mulher, A gravidade & a graça de Simone Weil, Os direitos da mulher de Olympe de Gouges, Hibernação de Magdalena Isabel Monteiro, a música do Quarteto Radamés Gnattali, a escultura de Bruno Giorgi, a fotografia de Arne Jakobsen & a pintura de Jose Higuera aqui.
Minha nossa, quanta poluição, A teia da vida de Fritjof Capra, Máquinas e seres vivos de Maturana & Varela, Pedra filosofal de António Gedeão, a música de Sarah Brightman, a fotografia de Stefan Kuhn, a pintura de Patricia Awapara & a arte de Kézia Talisin aqui.
Tudo é Brasil, A colonização do imaginário de Serge Gruzinski, O general está pintando de Hermilo Borba Filho, Pasquale Cipro Neto, a escultura de Emilio Fiaschi, a música de Jamiroquai & a fotografia de Jennifer Nehrbas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

BREVIÁRIO DE SHAW
[...] Ser milionário, então, quer dizer ter mais dinheiro do que se pode gastar consigo mesmo, e sofrer diariamente as desatenções de pessoas a quem essa condição parece de extrema satisfação. Assim sendo, que há de fazer o milionário de seus fundos excedentes? A resposta que se dá habitualmente a essa pergunta é esta; garantir o futuro de seus filhos e dar esmolas. Ora, esses dois recursos, compreendidos como são geralmente, são uma coisa só e, por sinal, uma coisa muito prejudicial. Do ponto de vista da sociedade, não importa nada se a pessoa exonerada da necessidade de trabalhar para o próprio sustento pela generosidade de um milionário é o filho deste, o marido da sua filha ou simplesmente um mendigo qualquer. [...]. Não há amor mais sincero que o da comida. Cabe à mulher casar-se o mais cedo possível e ao homem ficar solteiro o mais tempo que pode. A minha especialidade é ter razão quando os outros não a têm. Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever. Quem nunca esperou não pode desesperar nunca. Uma vida inteira de felicidade? Ninguém aguentaria: seria o inferno na terra. O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade. Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo. Os ingleses nunca hão de ser escravos: eles são livres de fazer tudo o que o governo e a opinião pública lhes permitem fazer. O lar é a prisão da moça e o hospício da mulher. O martírio... é a única maneira de ganhar fama sem ter competência. Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele. Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus. Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem. Há apenas uma única religião, embora dela exista uma centena de versões. Nunca espero nada de um soldado que pensa. Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha. Não gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro. Cheguei à conclusão de que tudo é produzido para milhões, e nada para milionários.'Qual é a vantagem de poder pagar um sanduíche de miolos de pavão, quando só se encontram de presunto e de carne? A minha maneira de brincar consiste em dizer a verdade. É a brincadeira mais divertida do mundo. Um inglês pensa que é moralista, quando é apenas desagradável. [...].
Trechos extraídos da obra Socialismo para milionários, (Ediouro, 2004), do polêmico dramaturgo, escritor e jornalista irlandês Bernard Shaw (1856-1950), Prêmio Nobel de Literatura de 1925, ensaio irônico com visão mordaz sobre a humanidade, apresentando questões que transitam temas de grande importância, em que expressa o seu pensamento original, contestador e independente em estudo social e um libelo à liberdade. Veja mais aqui e aqui.

PRELÚDIO & FUGA DO QUARTETO CAMARGO GUARNIERI
Curtindo o álbum Prelúdio & Fuga (Yb Brasil, 2004), do Quarteto Camargo Guarnieri, formado por Elisa Fukuda (violino), Cláudio Micheletti (violino), Renato Bandel (viola) e Raïff Dantas Barreto (violoncelo), interpretando composições de Osvaldo Lacerda (1927-2011), Camargo Guarnieri (1907-1993) e Villa-Lobos (1887-1959). Veja mais aqui.

A ARTE DE ENEIDA PAES LIMA
A arte da professora, bailarina, coreógrafa, pesquisadora Eneida Paes e Lima.

A PINTURA DE JUDY BURGARELLA
A arte da pintora estadunidense Judy Burgarella.
 

quarta-feira, junho 21, 2017

A ERA SECULAR DE CHARLES TAYLOR, A EDUCAÇÃO DE SCHILLER, BRAVA GENTE BRASILEIRA, BENJAMIN CASSIANO & SARAU POESIA REVISTA

EM CADA ESQUINA A VIDA PASSA - Em cada esquina uma surpresa e o agora é feito de perdas e ganhos, porque tudo pulsa, vibra e a todo o momento, em todas as direções. Há quem viva só pro umbigo, alguns outros nem tanto, ou aqueles que só se valem da sua barbárie interior. Em cada esquina todas as crenças e zis perjúrios na chuva das situações com suas máscaras pras escolhas no jogo de erros e acertos dos rios de lágrimas alma adentro no desamparo e é só o retorno do ponto de partida. Em cada esquina um olhar atento quando displicente por fraquezas e temores entre desatentos e buzuntões, e o obvio se esconde na novidade emersa dos fogos de artifícios, para que o certo seja o medo, mesmo que nada seja em definitivo. Ninguém é tijolo pra viver amontoado sustentando estrutura do vencedor, o coração pulsa, sentimentos e emoções, a vida não é só pra vencer, nem o mundo é só a lógica matemática, não é bem assim, há de enxergar por trás das coisas. Em cada esquina todas as expectativas de um mar aberto com todas as correntes pra se perder e se achar nos redemoinhos das direções. Diz-se o que se quer, diz-se por amor quando desama, diz-se por verdade quando mentira, a utilidade que perpetua o inútil só vendo o pronto, não enxerga o latente e ao brotar só percebe porque ali antes não estava. Em cada esquina todas as esperanças entre o herói e o derrotado e as estrelas caem restando apenas desejos e pedidos. Um botão de rosa não é ouro, um livro não é a peçonha pecaminosa, as cicatrizes negam o riso a culpar outras vítimas pela própria desgraça, as feridas não existiam no deleite do passado, só hoje o gosto de sangue na boca e a privação da felicidade. Em cada esquina encontros e despedidas, a vida passa, vou adiante. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

A ERA SECULAR DE TAYLOR
[...] Todos percebemos nossas vidas e/ou o espaço no qual vivemos nossas vidas como portadores de uma determinada forma moral ou espiritual. Em algum lugar, em alguma atividade ou condição reside uma plenitude, uma riqueza; ou seja, naquele lugar (naquela atividade ou condição) a vida é mais plena, mais rica, mais profunda, mais valiosa, mais admirável, mais o que deveria ser. Este é, talvez, um lugar de poder: geralmente experienciamos isso como profundamente tocante, inspirador. Talvez tenhamos apenas vislumbres muito tênues desse sentido de plenitude; temos uma forte intuição do que seria a plenitude, se tivéssemos naquela condição, por exemplo, de paz ou de completude, ou se fôssemos capazes de agir naquele grau de integridade, generosidade, desprendimento ou abnegação. Mas, às vezes, haverá momentos de plenitude vivida, de alegria e prazer, em que nos sentiremos lá. [...]
Trecho extraído da obra Uma era secular (Unisinos, 2010), do filósofo canadense Charles Taylor, tratando acerca das mudanças e modificações religiosas na sociedade ocidental, numa perspectiva história que aborda o cristianismo e a multiplicação de diferentes opções religiosas, antirrelogiosas e espirituais, desde a Reforma e o momento decisivo, o efeito das narrativas de secularização e as condições de crença.

Veja mais sobre:
O dia amanhece e é maravilhoso viver, Literatura no Brasil de Afrânio Coutinho, O chamado de Françoise Sagan, o pensamento de Aristóteles, a música de Bach & Maggie Cole, o cinema de Alain Chevalier & Catherine Deneuve, A sinfonia pornográfica de Charles Baptiste, Arte Yoga, a arte de Hannah Höch & Orly Faya aqui.

E mais:
A lenda curare aqui.
Vamos aprumar a conversa, A cartomante de Machado de Assis, Bagagem de Adélia Prado, o teatro de William Shakespeare, Nossa música de Jean-Luc Godard, Questão de método de Jean-Paul Sartre, a música de Eumir Deodato, a arte de Carlos Scliar & Ballet Stagium aqui.
Albert Einstein, Entre quatro paredes de Jean- Paul Sartre, A liberdade de pensamento de Fichte, Indícios de oiro de Mário Sá-Carneiro, a música de B. B. King, By by Brasil de Cacá Diegues, a pintura de Jacob Jordaens & Programa Tataritaritatá aqui.
Brincarte do Nitolino, O desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson, A mulher de trinta anos de Honoré de Balzac, Os doze gozos de Maria Teresa Horta, o teatro de Nelson Rodrigues, a música de Joe Cocker, a arte de Lucélia Santos, a pintura de Eugène Delacroix & Paul Nash aqui.
Vamos aprumar a conversa, A natureza do preconceito de Gordon Allport, Eloisa & Abelardo de Alexander Pope, Capital Federal de Artur Azevedo, Repertório selvagem de Olga Savary, a música de Naná Vasconcelos & Uakti, o cinema de Mike Nicholson & Natalie Portman, a pintura de Henri Rousseau & a arte de Ana Botafogo aqui.
Sou um pedaço de nada arrodiado de violência por todos os lados, Violência no mundo de Jean Baudrillard, Violência urbana de Régis de Morais, Canto vilano de Blanca Varela, a música de Pedro Jóia, Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a arte de Flávio de Carvalho, Poemas à Flor da Pele & Soninha Porto aqui.
Pindura aí, meu! O negócio tá ficando feio, Cidadania insurgente de James Holston, a poesia de Sérgio Frusoni, Cidadania de Maria de Lourdes Manzine Covre, a música de Sol Gabetta, a fotografia de Mara Saldanha, a pintura de Fernando Rosa & a arte de Stanley Borack aqui.
Recomeçar do que vai e vem, A arte da poesia de Ezra Pound, Trajetória da juventude de Miriam Abramovay, Mangas verdes de Rui Knopfli, a música de Tanita Tikaram, a pintura de Aleksandr Gerasimov, a arte de Annette Kellerman & Luciah Lopez aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A EDUCAÇÃO ESTÉTICA DE SCHILLER
[...] Todas as coisas que de algum modo possam ocorrer no fenômeno são pensáveis sob quatro relações diferentes. Uma coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa existência e bem-estar); esta é sua índole física. Ela pode, também, referir-se a nosso entendimento, possibilitando-nos conhecimento: esta é sua índole lógica. Ela pode, ainda referir-se a nossa vontade e ser considerada como objeto de escolha para um ser racional: esta é sua índole moral. Ou, finalmente, ela pode referir-se ao todo de nossas diversas faculdades sem ser objeto determinado para nenhuma isolada entre elas: esta é sua índole estética. Um homem pode ser-nos agradável por sua solicitude; pode, pelo diálogo dar-nos o que pensar, pode incutir respeito pelo seu caráter; enfim, independentemente de tudo e sem que tomemos em consideração alguma lei ou fim, ele pode aprazer-nos na mera contemplação e apenas por seu modo de aparecer. Nessa última qualidade julgamo-lo esteticamente. Existe, assim, uma educação para a saúde, uma educação do pensamento, uma educação para a moralidade, uma educação para o gosto e a beleza. [...].
Trecho extraído da obra A educação estética do homem (Iluminuras, 1989), do poeta, filósofo, dramaturgo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Veja mais aqui e aqui.

BRAVA GENTE BRASILEIRA
O drama Brava Gente Brasileira (2000), dirigido por Lúcia Murat, a partir dos versos do jornalista Evaristo da Veiga escritos para o refrão do Hino da Independência brasileiro, que ganhou música do imperador Pedro I, contando a relação conflituosa entre os portugueses e os índios no século XVIII, quando um grupo de soldados acompanha o cartógrafo recém-chegado e enviado pela coroa portuguesa para fazer um levantamento tipográfico da região, descobrindo a caminho do forte, um grupo de índias tomando banho em um rio. Destaque para atuação da premiada atriz Luciana Rigueira, melhor atriz no Festival de Brasília.

A ARTE DE BENJAMIN CASSIANO
 

SARAU POESIA REVISTA
Acontecerá no próximo dia 30;07, o Sarau Poesia Revista: poesia, música & cinema.
 

terça-feira, junho 20, 2017

A BARBÁRIE INTERIOR DE MATTÉI, CARTA DE MULHER DE MARCELINE, AÇÃO DIRETA DE VOLTAIRINE, OUROBA, VÊNUS KALLIPYGOS & BOLSA DA VERA

A BOLSA DA VERA BANDOLEIRA – Naquela manhã Vera amanhecera com cara de poucos amigos. Muitas contribuíram pro seu mal-estar, deixando-a com um humor pra lá de ácido. Uma das contribuições viera da prima que havia menstruado desde sábado e estava aos urros com as cólicas, atrapalhando seu final de semana e deixando as circunstâncias mais enganchadas do que já estavam. Adiou passeios, dispensou pretendentes, perdeu a paciência e ficou brigando com o sono os dois dias incarreados. Mesmo assim, apesar de aborrecida e indisposta, não desistira dos rituais matinais do dia, dedicado à deusa da Lua Nova, Cerridween. Depois dessa missão cumprida, foi até a cozinha e conferiu os mantimentos faltantes para comprá-los, tomou um demorado banho e vestiu-se tal qual a devotada, não antes perguntar se a prima precisava de alguma coisa, recebendo dela apenas grunhidos de fúria. Resmungou e saiu para o supermercado. Lá chegando, foi passando pelas gôndolas e apanhando o necessitado, quando o celular tocou e ela teve de revirar a bolsa pra achá-lo: era uma consultora de telemarketing e ela dispensou logo sob a alegação de que tinha mais o que fazer, enquanto pegava um ou outro produto nas prateleiras, até irritar-se e sacudir o celular de volta na bolsa. Deu umas voltas meio perdidas, procurou a lista e não encontrou, passando a vista rapidamente na conferencia do que havia pegado, confirmou e foi pro caixa. Lá chegando, o celular novamente toca e ela se afoba ao vasculhá-lo no interior da bolsa, dando pela aproximação de um homenzarrão que ficara plantado ao seu lado no guichê. Intrigada, virou-se pro sujeito com menosprezo: Diga! Alguma coisa? Sim, a senhora poderia depor aqui os pertences da sua bolsa? Minha bolsa? Sim, as nossas câmaras flagraram a senhora embolsando produtos. Eu? Sim, senhora, por favor. Por conta disso, foi juntando gente ao seu redor, amontoando os curiosos que queriam ver detalhes daquela desfeita. Ela não teve dúvidas, pegou a dita, virou e deixou cair tudinho sobre o local exigido. De cara viu-se logo a fuga de um morcego que saiu voando, dois lacraus às carreiras, uma dúzia de baratas que espalharam por todo canto, uma lagartixa prenha, dois sapinhos que saíram pulando, afora um tanto de coisas inusitadas entre outras muitas e desarrumadas: cachecol, pulôver, passaporte, esc0va de todo tipo, rímel, brincos, absorventes, cola instantânea, sutiãs e bustiês, calcinhas, preservativos comestíveis, lenços umedecidos, canetas, estojos de maquiagens, chocolate derretido, confeitos meleguentos, chaves, meias e meias, celular que não achava – eita, até que enfim! -, Maria-chiquinha, bobes, chuquinhas, hidratante, gel para estrias e celulites, cremes depilatórios, pulseiras, anéis, pinças, espelhos, pó compacto, delineadores e lápis, sementes, rolimãs, imã, lupa, óculos e óculos, cintas, rolos amassados de papel higiênico, guardanapos soltos, saída de banho, babydoll, sabonetes, cachetes, primeiros socorros, relógios, chinelas, sandálias, blusinhas, luvas, máscara cirúrgica, gorro, gesso, chiclete mascado, garrafinha de água, folderes, revistas com páginas arrancadas, cupons, vale-transporte, vale-refeição, simpatias, novenas, receitas, uma pistola 6-35 carregada, um punhal, duas adagas, spray de pimenta, três vibradores, um pênis de borracha, bolas tailandesas, argolas, chicote, mordaça, algemas, pacote de vela, isqueiro e duas caixas de fósforos vazias, leite condensado, chantili, ky, descongestionadores, alicates, chave de fenda, lixas, esmaltes, cílios postiços, cinta liga, calcinha com bunda, uma máquina fotográfica, um gravador, calendários com santo, uma anágua, uma mão de pilão, uma figa, um elefantinho de márnore, um porquinho da índia de barro, um Buda, um dente de alho, trena, esfigmomanômetro, estetoscópio, voltímetro, parquímetro, balança, fita métrica, carretilha, uma catraca de bicicleta, soldador, dobradiças, uma maçaneta, uma tampa de radiador, um engate, tampas, duas capsulanas, esponjas de lã de aço, buchas, óleo de peroba, flanelas, pires, duas lâmpadas rachadas, uma mola, uma fita cassete, um véu, copos descartáveis, prendedores, grampeador, ruelas, um vaso de sete ervas, duas tesouras, borrachas, bisnagas, clips, cordões e uma corda, moedas soltas, um mealheiro, gel, colares, diademas e tiaras, desodorante, limão, tinta de cabelo, pincéis, perfumes, cotonetes, ralo de pé, barbeador, palitos de todo tipo, acetona, pó secante, licor de manteiga de cacau, terço e rosário, protetor lingual e solar, tricô, tapa-olho, um travesseirinho, unhas postiças, lentes de contato, apliques, adesivos, pedra de strass, uma bíblia, uma goiabada mordida e passada, uma lata de sardinha enferrujada, um pacote de queijo ralado, fitas isolantes descoladas, canivete, bússula, querosene, estilete, lata de solvente, mertiolate, mercúrio-cromo, rolhas, pregos, alfinetes, pilhas, cacos de telha, papel carbono, pule de bicho, cartelas de loteria, tíquetes, dedal, retrós, cortador de unha, talheres enrolados em guardanapos, adoçante vazio, cantil, copinho de aguardente, bola de sinuca, um estojo de taco, uma sombrinha, capa de chuva, um caixotinho, canivete suíço, lanterna, amolador, pedra-pomes, crochê, naftalina, seixos, conchas, bijouterias, repelente, pastilhas, lança-perfume, confete, serpentinas, pé-de-coelho, pé-de-cabra, ferradura, uma extensão danificada, trevos e trevos, pimentas, cápsulas, olho de boi, saquinhos de chá, café, sal grosso, galhos de arruda, santinhos, enfim, um frasco com piolho de cobra, carrapato, ácaro, percevejo e outras trepeças, afora outros troços irreconhecíveis e inomináveis. Todos: Òóóóóóó! O cara conferiu e pela aparência das coisas, estavam ali há séculos senão milênios de tão velhos. Ela: Pronto, meu senhor, quer que eu tire a roupa? Ah! Aí o coro dos presentes: tira! Tira! Tira! Ela aí desceu dos dois palmos de saltos e como já era varapau tipuda, foi logo desabotoando a calça e arriando o zíper de ver-se a calcinha azul do capô do fusca, quando ele impediu: não, basta! Ela encarou bem nos olhos do sujeito: É só isso, meu senhor? Ou tem mais alguma coisa? Sim, senhora, como é que cabe tudo isso aí dentro, hem? Ah, faça-me o favor! E num golpe só tudo dentro da bolsa - menos os bichos fugitivos que ficaram empestando a redondeza -, pegando os outros sacos de compra. Aí o vigilante aproximou-se: quer ajuda, senhora? Depois desse constrangimento, ajudaria muito você tomar no cu, seu filho da puta! E foi-se. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

A BARBÁRIE INTERIOR DE MATTÉI
[...] É possível distinguir facilmente o que eu chamaria de efeitos de barbárie dos efeitos de civilização. O efeito de barbárie caracteriza toda forma de esterilidade humana e de perda do sentido no domínio da civilização, quer se trate de ética, de política, de educação ou de cultura. Para que exista barbárie é necessário que tenha existido uma civilização anterior à bárbara, como Alarico e seus visigodos quando do saque de Roma, essa que irá derrotar, pilhar e destruir. O selvagem que vive nas florestas e que ainda não foi impregnado de cultura não era considerado pelos romanos como um bárbaro. [...] Como acreditar que a política hoje tenha um sentido, e um sentido comum a todos os homens, quando se assistiu à barbárie em massa revestida de traços de uma razão social ou racial matar parte da humanidade [...] Os totalitarismos modernos, contando com a barbárie interior de um sujeito fixado à sua raça ou à sua classe, isto é, às suas determinações materiais mais grosseiras, tentaram dissolver toda forma de comunidade política com o intuito de fazer reinar o terror. À barbárie violenta desses regimes respondeu a doce barbárie das democracias, que Tocqueville já denunciara ao mostrar que a sociedade moderna ameaçava encerrar o indivíduo, atomizado na massa solitária, “na solidão de seu coração”.  Compreendemos por que Blandine Kriegel, em sua Filosofia da República, sustentou que “a filosofia do Sujeito é a filosofia dos Bárbaros”, uma vez que tende a reduzir o cidadão a um sujeito formal desprovido de substância e definido unicamente, no nosso universo administrativo e jurídico, por um conjunto de técnicas processuais cuja humanidade está ausente. O filósofo, seja ou não ele o médico da civilização, não tem competência para impor aos outros homens os remédios que permitiriam tratar, na falta de curar, o mal. Mas ele pode ao menos lembrar que a civilização como a recebemos dos gregos e dos romanos (e que a Europa, depois o mundo, fizeram frutificar em vinte e cinco séculos através da ciência, da arte, da filosofia e da política) sempre foi pensada como uma abertura em direção a uma alteridade absoluta. Ela proíbe o homem de reduzir as obras de cultura a seu “gueto íntimo”, como diria Lipovetsky, a um simples objeto de gozo interior. O homem encontra seu ponto de apoio – Descartes já o havia estabelecido em suas meditações – no exterior de si mesmo, quer se nomeie essa abertura libertadora obra, mundo ou Deus. O homem não é, e nunca será, seu próprio ponto de apoio, nem, a fortiori, sua própria alavanca. Mas sempre pode acontecer que, diante de um ser ou de uma obra que irrompe nele e o deslumbra, compreenda que é livre para dar um sentido e que, suspendendo o tempo dos ciclos biológicos e sociais, é um ser apto a começar e criar uma nova obra.
Trechos do artigo Civilização e barbárie, extraído da obra Ética e estética (Zahar, 2001), do filósofo francês Jean-François Mattei (1941-2014), autor da obra A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno (UNESP, 2002), abordando o conceito barbárie, desde a antiguidade clássica até a modernidade, demonstrando que ela se manifesta no mundo contemporâneo, na decadência da educação, na ditadura da cultura de massa e na ascensão dos regimes autoritários, defendendo que: [...] Vivemos em um mundo segmentado, estilhaçado, que interiorizou a barbárie. [...] Na educação moderna, o estudante é apenas objeto de um discurso administrativo [...].

Veja mais sobre:
Aprendendo no compasso da vida, Introdução á psicologia social de Arthur Ramos, Sharon & minha sogra de Suad Amiry, o pensamento de Roger Bacon, a pintura de Georges Ribemont-Dessaignes, a música de Nação Zumbi, Transhumance, a arte de Hans Richter & Jiddu Saldanha aqui.

E mais:
As situações de Vera aqui e aqui.
Infância, imagem & literatura, As ilusões da pós-modernidade de Terry Eagleton, Caderno de memórias de Osamu Dazai, O bumba-meu-boi de Hermilo Borba Filho, a música de Jacques Offenbach, o cinema de Jean-Paul Rappeneau & Isabelle Adjani, a arte de a arte de Silvia Pontual, a pintura de Léon Bonnat & Kim Roberti aqui.
O teste da goma & A arte de amar de Erich Fromm aqui.
A graviola do padre Bidião aqui.
Vamos aprumar a conversa: psicologia infantil, Obras escolhidas de Walter Benjamin, Felicidade clandestina de Clarice Lispector, Folhas da relva de Walt Whitman, A cantora careca de Eugène Ionesco, a literatura de Nathaniel Hawthorne, o cinema de Joan Plowright & Demi Moore, a música do Enya, a pintura de Siron Franco aqui.
Vamos aprumar a conversa: Violência sexual, Tornar-se pessoa de Carl Rogers, Por que não sou cristão de Bertrand Russel, Medeia de Eurípedes, Horizonte perdido de James Hilton, a música de Ricj Wakeman, Pelé, Movimento, o cinema de Frank Capra, a pintura de Eugène Delacroix & Francis Bacon aqui.
O pulo do amante, A natureza do espaço de Milton Santos, Casa do prazer de August Stramm, O poder da identidade de Manuel Castells, a música de Bach & Alina Ibragimova, a fotografia de Man Ray, a pintura de Paula Garcia, a arte de Rich Snobby & RozArt aqui.
Tudo acontece no ermo das ruas, Complexidade e ética da solidariedade de Edgar Morin, a poesia de Emily Dickinson, Limites & sustentabilidade de Guillermo Foladori, o cinema de Ingmar Bergman, a música brasileira de João Carlos Botteselli, a pintura de János Vaszary & a arte de Felix Reiners aqui.
Minha alma tupi-guarani, minha sina caeté, A geração dos poetas de Roman Jakobson, a poesia de Vicente de Carvalho, Paregma & Paralipomena de Arthur Schopenhauer, a música de Laura Nyro, a arte de Deborah De Robertis, a fotografia de Erwin Blumenfeld & Liliana Porter aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
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UMA CARTA DE MULHER DE MARCELINE
As mulheres, eu sei, não devem escrever;
Mas ouso a arte,
Pra que em meu coração de longe possas ler
Como quem parte.
Qualquer beleza que existir em minha escrita
Mostraste antes
Mas soa nova a palavra cem vezes dita,
Quando entre amantes.
Que te traga alegria! Eu fico a esperar,
Mesmo distante;
Sinto que me vou, para ver e escutar
Teu passo errante.
Não te desvies se passar uma andorinha
Sobre esse chão,
Porque acredito que era eu, fiel, quem vinha,
Tocar-te a mão.
Tu te vais, tudo se vai! Parte em viagem,
Luzes e flores,
O verão te segue e me deixa à fria aragem,
Dos dissabores.
Se só temos esperança e alarmes, no entanto,
E a vista cansa,
Dividamos pelo melhor: mantenho o pranto,
Guarda a esperança.
Não, não queria, tanto a ti estou ligada,
Te ver penar:
Querer dor a sua metade abençoada,
É se odiar
.
O poema Uma carta de mulher, extraído da obra Poésies Inédites (1860 – Gallimard, 1983), da poeta maldita francesa Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859), tradução de Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo.

AÇÃO DIRETA DE VOLTAIRINE
[...] Bem, eu já declarei que, ocasionalmente, algumas coisas boas podem resultar da ação política -- e não necessariamente da ação de partidos proletarios. Mas estou plenamente convencida de que cada benefício alcançado é mais do que anulado pelo malefício que traz a tiracolo; também estou plenamente convencida de que, ocasionalmente, cada malefício resultante da ação direta é mais do que anulado pelo benefício que traz a tiracolo. [...] Eu concordo totalmente que as fontes da vida, e toda a riqueza natural da terra, e as ferramentas necessários à produção cooperativa, tem que estar livremente acessíveis a todos. Tenho certeza de que o sindicalismo precisa alargar e aprofundar seus propósitos, ou será extinto; estou segura de que a lógica da situação os forçará a ver isto gradualmente. Eles têm que aprender que o problema dos trabalhadores nunca pode ser resolvido espancando fura-greves, sua própria política de limitar seus sócios cobrando altas taxas e outras restrições ajuda criar fura-greves. Eles têm que aprender que o curso do crescimento não está tanto em salários mais altos, mas em jornadas mais curtas de trabalho que os permitirão a aumentar a quantidade de membros, a chamar qualquer pessoa disposta a entrar no sindicato. Eles têm que aprender que se eles querem mesmo ganhar batalhas, todos os trabalhadores aliados têm que agir em conjunto, e agir depressa (sem avisar aos patrões), e resguardar sua liberdade de entrar em greve quantas vezes for necessário. E finalmente eles têm que aprender (quando houver uma organização completa) que jamais ganharão nada permanente a menos que lutem, não por conquistas parciais, mas por conquistas totais -- não por um salário, não por benefícios secundários, mas pela conquista de todas as riquezas naturais do planeta. E procedam à expropriação direta de tudo! [...] Enquanto isso, até este despertar internacional, a guerra entre as classes continuará seguindo seu curso, apesar de toda essa manifesta histeria de pessoas bem-intencionadas mas que não compreendem a vida e suas necessidades; apesar do patente temor dos líderes acovardados; apesar de toda vingança reacionária que pode ser perpetrada; apesar de todo capital que os políticos recebem da situação. A luta de classes continuará seu curso porque a Vida anseia por viver, mesmo com a propriedade negando sua liberdade para viver; a Vida não se submeterá. Nem deve se submeter. Seguirá seu curso até aquele dia quando uma Humanidade que se auto libertou puder cantar o Hino ao Homem de Swinburne: Glória ao Homem nas alturas, Ao Homem, Senhor das coisas.
Trechos extraídos da obra Ação direta (BPI, 2013), da escritora anarcofeminsita estadunidense Valtairine de Cleyre (1866-1912).

VÊNUS KALLIPYGOS
Escultura anônima da Venus Callipyge ou Aphrodite Kallipygos, significando Vênus (ou Afrodite) das lindas nádegas, antiga estátua de mármore romano, cópia original grega.

OUROBA
Acaba de ser gravado o primeiro cd do grupo vocal OuroBa, formado por Marianna Leporace, Célia Vaz, Chris Tristão, Dalmo Medeiros, Symô & Vicente Nucci, um projeto de pesquisa dos Cantos Sagrados do Candomblé, agora com uma campanha de venda antecipada para confecção da arte gráfica e prensagem. Confira aqui e aqui.