quinta-feira, setembro 21, 2017

JULIO VERNE, JOÃO GONÇALVES, EDUCAÇÃO INCLUSIVA & ACESSIBILIDADE NA BIBLIOTECA FENELON!

O ESPADACHIM DO CANAVIAL – Imagem do artista plástico João Gonçalves - O que Zedonho tinha de ocrídio, tinha de trabalhador. Pense num sujeito apegado aos afazeres de só parar quando vencia o prometido. Pra se ter ideia, quando menino de rua, órfão de pai e mãe que nem sabia de qualquer parente nem aderente, pedia pra limpar o mato do terreiro, varrer as calçadas e as ruas, carregar uma mala, engraxar um sapato, coisas do tipo, mas como era criança ninguém levava a sério. – Meu filho cadê seus pais? Tenho não. Ué, você nasceu aonde? Nasci e vivo nas ruas. Era sempre assim. Até o dia em que um idoso japonês que apareceu por essas bandas, inadvertidamente deixou cair umas moedas no chão que rolaram rua abaixo espalhadas, ele recolheu uma a uma na maior das ligeirezas e correu pro ancião devolvendo-as: - Olhe, é do senhor, tinha caído e nem viu! O macróbio ficou tão admirado: - Ah, que bom! Você mora aonde? Na rua. Na rua? Sim. Então, venha. Pegou sua mão e o levou pra uma casa esquisita, nunca tinha visto daquele tipo e ficou maravilhado com o tanto de coisas estranhas que tinha dentro. – Já comeu hoje? Não. Venha, vamos pro desjejum. Que é isso? Venha. È sentaram-se ao chão, ao redor de uma mesinha. Enquanto o longevo nipônico manipulava uns hashis levando aquela comida esquisita à boca, ele fitava detalhadamente, engolindo seco. – Vá, pode comer! Aí ele tentou. – Ah, pegue o hashi assim! Olhou, olhou, nada de aprender, o velho se ria com sua inabilidade. Aí ele invocou-se e meteu a mão na comida, ingerindo tudo duma só vez. Novas risadas do anoso que bateu palmas, dele perguntar: - Tem mais? Uma jovem nissei adentrou trazendo um prato com comidas que lhe foram oferecidas. Nem esperou pela anuência do anfitrião e já foi logo metendo a mão à boca, de fazer bochecha pra engolir. Tem mais? Outros pratos vieram dele se empanzinar de tanto comer, se encostando a um canto e pegar no sono. Quando acordou já era quase noite e ele ficou de olhos esbugalhados com o tanto de comida que estava servida à mesinha. Para mim? Com a anuência do dono da casa, ele avançou e se empanturrou até ficar amolecido de bucho cheio. Um tempo depois a nissei voltou para apanhá-lo e encaminhá-lo pro banho; depois do asseio, já trocado de roupa feito um japonesinho, foi conhecendo cada parte da casa, até descobrir o seu dormitório. Nem esperou ela terminar de falar e já caiu na cama, só acordando no dia seguinte. Assim se passaram dias, semanas, meses, anos, aprendendo artes marciais e os serviços gerais da casa. Já com quase dezessete anos, o seu protetor faleceu, deixando-lhe duas espadas de samurai por presente de herança. O restante, os familiares vieram, limparam tudo, findaram por despejá-lo de não saber o que poderia fazer nem pra onde ir. Era época do inicio de moagem da safra canavieira em Alagoinhanduba, ele aproveitou e se inscreveu no que estavam precisando: cortador de cana. Quando chegou empurrado na plantação, pediu para que escolhessem um pedaço de terra para ele trabalhar. Acharam que era petulância do novato e logo apontaram pruma área só pra vê-lo morrer de trabalhar dias a fio. Duas horas e meia depois apareceu ele pedindo que demarcassem outra área porque aquela já estava pronta. Foram ver e ficaram de queixo caído: não só deu vencimento, como deixou tudo devidamente organizado pra colhedeira passar e pegar. – Como foi que você fez isso, seu cabra? Fazendo. Faça de novo preu ver ali. Apontaram e lá foi ele, a área era maior que a anterior e ficaram só olhando pra caírem na gaitada com a melada dele. Nem notou o sarcasmo de todos, logo se encaminhou pra plantação, sacando as duas espadas e golpeando a cana que já caía certinha aos montinhos. Como é? Ficaram de olhos arregalados, nem acreditaram no que viram e já botaram ele pra outra empreitada maior que as anteriores. Oxe! Nem, nem. O que ele fez num dia, somando a tarefa de todos por um mês, multiplicado por duas vezes e, ainda assim, não davam vencimento. – Ô, mô fio, você aparentado com quem, hem? Eu só órfão de pai e mãe, não tenho parente não. Isso é um apaideguado dum broco, tô perguntando se você é aparentado com Superhomem, com o cabrunco, com coisas do outro mundo, ou o quê? Não, senhor, sou apenas trabalhador mesmo. Isso é o fim do mundo. Vá-se embora e amanhã esteja no ponto no mesmo horário. Todo dia ele batia o recorde e no final da safra foi o campeão com direito a prêmio, festa e tudo. Como estava famoso, logo angariou a simpatia das moçoilas mais matutas, chegando mesmo a se amasiar de uma que nem bola pra ele dava. Ano após ano foi nascendo um bruguelo atrás do outro e ele, quando findava a safra em Alagoinhanduba, ia pro Centro-Sul pra botada das usinas de lá, não se atrapalhava com entressafra, só voltando seis meses depois. Anos e décadas se passando, foi cortando cana que ele montou a casa, educou os filhos, tudo formado com graduação e pós-graduações, tem até um que o mês passado foi laureado com o doutoramento numa universidade da França, e tem mais três que estão terminando o mestrado também no exterior. Quando soube disso, o Gal Langal não acreditou: - Sou que nem São Tomé, só acredito se eu ver com esses olhos que a terra um dia vai ter o trabalho de comer. Verdade. Provaram por a+b, tintim por tintim, testemunhas muitas, fama do homem ia longe, mesmo assim, não acredito. Tiraram a prova dos nove com ele, chamaram Zedonho: - Nada, eu só trabalhei pesado e muito! Nada demais. Estão vendo, cambada? Nada, vá na casa dele e tire a sua conclusão. Gal Langal foi lá, conferiu tudo, confirmou tudo. Mas não acredito. Esse cara deve de ter outra profissão, não pode ser. Não tinha. Ô Zedonho, que danado que você faz pra ter essas coisas e viver desse jeito? Nada, só corto cana. Foi quando souberam que até a polícia desconfiou dele, vez que um sujeito havia cometido um crime e havia escapulido justo pro canavial dele. Ah, eu num disse? Tem coisa. Tinha não. Quando a polícia foi investigar, o bandido estava todo cortado dentro do canavial, até inocentaram o Zedonho porque o sujeito era de alta periculosidade, num foi, Zedonho? Foi isso mesmo, meu senhor. Danou-se. Ô Zédonho e o que tu queres mais da vida, hem homem? Queria só que o mundo vivesse em paz, mais nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o violoncelista estadunidense de origem chinesa Yo Yo Ma, executando Brasileirinho, Obrigado Brazil & Cinema Paradiso com participações de Chris Botti, Carlos Prieto & Brasil Guitar; da pianista francesa Khatia Buniatishvili interpretando Concerto de Grieg eRachmaninov & Pictures at na exhbition de Mussorgsky; o guitarrista e violonista Hélio Delmiro com seus álbuns Chama, Emotiva & Compassos; e a dupla formada pela bailarina, cantora e compositora Tatiana Cobbett e o músico e compositor Marcoliva com seus álbuns Parceiros, Bendita Companhia, Corte e Costura & Sawabona Shikoba. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Assim pois Phileas Fogg tinha ganho sua aposta. Tinha feito em oitenta dias a viagem ao redor do mundo! Tinha empregado para fazê-la todos os meios de transporte, paquetes, railways, carruagens, iates, navios mercantes, trenós, elefante. O excêntrico gentleman tinha desenvolvido nesta empresa suas maravilhosas qualidades de sangue frio e de exatidão. Mas afinal? O que tinha ganho neste deslocamento? O que alcançara com esta viagem? Nada, diriam? Nada, vá lá, a não ser uma sedutora mulher, que — por mais inverossímil que possa parecer — o tornou o mais feliz dos homens! Na verdade, não faríamos, por menos que isso, a Volta ao Mundo? Trecho extraído da obra Volta ao mundo em 80 dias (Melhoramentos, 2009), do escritor francês Julio Verne (1828-1905), autor de frases célebres como “Os obstáculos existem para serem vencidos; quanto aos perigos,quem pode se orgulhar de fugir deles? Tudo é perigo na vida” e “A imbecilidade humana não tem limite”. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO INCLUSIVAUma educação que seja inclusiva tem sido desejada por muitos sujeitos que, de diferentes ligações sociais, acalentam a ideia de construir uma escola que consiga trabalhar conjuntamente diversidade e conhecimento. Essa proposta tem-se tornado bandeira de muitos movimentos sociais que constantemente levam a publico situações educacionais marcas pelas dificuldades em lidar, no universo da escola, com as diferenças subjetivas. São situações de disseminação social, de gênero, de condição social, de sexualidade, de diferenças físicas, mentais e tantas outras, que são absorvidas pela cultura escolar e transformadas em cenas corriqueiras, nas quais a ausência de um estranhamento e de um desconforto impede mudanças. Silenciadas nos contextos disciplinares e nos aspectos mais formais da escola, essas ideias muitas vezes ficam restritas às vivências socializadoras dos alunos. [...] Dessa forma, aprendizagens caricatas sobre as diferentes vão-se tecendo no espaço escolar, alargando e fomentando preconceitos construídos pela humanidade [...]. Trechos extraídos do artigo Educação especial à educação inclusiva, de Margareth Diniz e Mônica Rahme, extraído da obra Pluralidade cultural e inclusão na formação de professoras e professores: gênero, sexualidade, raça, educação especial, educação indígena e educação de jovens e adultos (Formato, 2004), organizada por Margareth Diniz e Renata Nunes Vasconcelos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 
PROJETO ACESSIBILIDADE DA BIBLIOTECA FENELON BARRETO - Participação na reunião do Projeto Acessibilidade/Inclusão da Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, no último dia 20/09/2017, com as professoras Rute Costa da SEMED-Palmares & Silvana Neves – Coordenadora do Programa de Educação Inclusiva da SEMED-Palmares, e o jornalista Luiz Heitor, da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Esta reunião é o resultado das reuniões ocorridas nos dias 31/08 e 20/09, dando andamento à esquematização de ações que propiciem o envolvimento de alunos com deficiência visual, auditiva e cadeirantes para visita à Biblioteca no sentido de levantar as dificuldades encontradas por esse público-alvo, entre outras que serão estudadas para viabilização, resultado de parceria com o IFPE. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
A história da minha vida de Helen Keller aqui.
Minha alegria de viver de Denise Legrix aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
Dia Internacional da Paz aqui e aqui.
A literatura de Herberto Sales aqui.
A adolescência no Dia do Adolescente aqui e aqui.
A poesia de Luis Cernuda aqui.
A arte musical de Tatiana Cobbett & Marcoliva aqui e aqui.
A arte do poeta e filósofo latino Virgilio aqui e aqui.
Dia do Radialista aqui.
O pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Yo Yo Ma aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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A ARTE DE GONÇALVES
A arte do artista plástico João Gonçalves.
 

quarta-feira, setembro 20, 2017

OSMAN LINS, HÖLDERLIN, EDWARD SAID, CHAMISSO, BASQUIAT, RAYMOND ELSTAD & BIRITOALDO

MAS O QUE É QUE É ISSO, MINHA GENTE? - Imagem: arte do grafiteiro e artista visual estadunidense Jean-Michel Basquiat (1960-1988) - Jerrynaldo já tinha esse nome antes mesmo de nascer, mas não pegou. Era que a mãe dele, D. Cisaltinha era fã do cantor e queria por que queria que o nome do filho fosse uma homenagem ao ídolo da sua predileção. Já o pai, Inaldão do Inaldo, queria que o seu nome fosse perpetuado na vez do primogênito, não abrindo mão disso de jeito nenhum. Essa a razão pela qual a gravidez fora bastante recheada de animosidades de ambas as partes, passando da conta por empurrões, xingamentos e outros desaforos, a ponto de, no meio da maior arenga, o rebento nascer antes da hora. No meio do deixa disso, o bruguelo saiu calado na confusão, tendo de ser obrigado a abrir o berreiro para dar sinal de vida. De palmadas findou levando uma pisa e passar mais de hora berrando. Infelizmente foi logo enjeitado pela mãe: - Vixe! Isso nem parece ser gente, tem cara do coisa ruim! O pai, deixando por menos, relevou: - Tem nada não, melhor parecer com o satanás, assim será cabra macho feito o pai. E ela: - Pelo jeito, puxou ao pai mesmo! Cagado e cuspido. Só que mais feioso que o genitor que já não era lá grande coisa pela feiúra. Assim o menino foi crescendo, Satanás pra lá e pra cá, dando demonstrações dos seus maus bofes e jus ao seu apelido. Quando aprumou na adolescência, ele já se assinava Jerrynaldo Satanás, partindo prumas escapulidas fortuitas no arrepio da lei: de afanações bestas às deliquências mais arrepiadas, conseguia se safar amealhando trocados e antipatias. Para se limpar, entrou pra polícia noutra cidade, em Ribigudo, e logo, ao cabo de alguns anos, virou sargento, orgulho do pai, coitado, desconhecedor das façanhas delituosas do fardado. Sempre escapava das mãos da justiça porque, brincando de tiro ao alvo em ser vivente passante, sempre acorria aos perdões nos pés do santo de sua devoção: São Benedito. Parecia mais que o santo segurava suas pontas, deixando-o sempre impune. Como restara ileso em tudo, jurou fidelidade ao devotado e virou praticante religioso, a ponto de formar o Terço dos Homens na paróquia de Alagoinhanduba. Toda quinta, ele lá perfilado, Jerrynaldo santificado. Até que um dia lá, dirigindo sua fubica para o encontro religioso das quintas, no meio do caminho o mandú teve um troço, de deixá-lo na mão. E agora? Eis que um mecânico passava assobiando e foi recrutado pela autoridade pra lá de abusiva, intimando-o pro conserto imediato. Como não havia jeito pra pacutia da borreia, deixou tudo acertado com o profissional, enquanto seguia a pé pro compromisso inadiável de sempre. Aprumou e saiu às carreiras, chegando atrasado, mas logo se inteirando dos afazeres, tomando pé da situação no ato. No auge das orações, aparece o mecânico na porta da igreja: - Satamás ta aí? Vixe, foi o maior desembesto, fuga em massa dos presentes. Jerrynaldo botou as mãos à cabeça e dirigiu-se até o visitante, dizendo que o nome dele era Jerrynaldo e coisa e tal, e o cara, Ô Satanás, me desculpe, é que o carro tá embroncado, não tem conserto não, meu nome é Jerrynaldo, sim, Satanás, a coisa tá feia lá, num pega nem com reza forte nem milagre de deus ou do diabo, eu já lhe disse meu nome, não é pra me chamar assim não, ah, tá, desculpe, Satanás, mas o seu bregueço lá pifou de vez. Nessa ia saindo o Doro que estava ali pela primeira vez para angariar alguns votinhos pra sua eleição a vereador, ficou sem entender direito o acontecido, saindo acabrunhado com o ocorrido. Foi, então, que Jerrynaldo interpelou: - Perái, meu amigo, vou com você. Doro olhou pra ele dos pés à cabeça, fitou direito e disse: - Deixa pra lá, já estou muito bem acompanhado sozinho, fique com Deus, ou com o tinhoso, como quiser. E zarpou. Doro deu dois passos e depois pegou carreira com mais de mil, ao dobrar a esquina, quase sem fôlego do esforço despendido, encontrou os outros membros do Terço dos Homens que logo perguntaram: - E aí, você viu que coisa? É sério. Como é que pode? Sei não. E aí, a gente se encontra na próxima quinta? Mas o que é que é isso, minha gente? Deus me livre, se na igreja o coisa ruim já tá dentro, que é que vou fazer lá? Assim num dá preu me eleger vereador de jeito nenhum. Tá doido? Tô fora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com Sonatas de Debussy e Beethoven & Brandeburg Concert Bach, da violonista e pedagoga Elisa Fukuda; a arte musical do Duo Fênix –  dos pianistas Cláudio Dauelsberg & Délia Fischer; Cuban Guitar 1 e 3 e de Bach aos Beatles, do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer; e o JazzWoche Burghausen com as canções Dindi de Jobim e Rio de Maio de Ivan Lins, da cantora estadunidense Jane Monheit, com participação de Johnny Mathis & Ivan Lins. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Mas você, meu amigo, se deseja viver entre os homens, aprenda em primeiro lugar respeitar a sombra – somente então o dinheiro. Mas se quiser viver apenas para si e para o que há de melhor no seu interior, então não precisa de nenhum conselho [...]. Trecho extraído da obra A história maravilhosa de Peter Schlemihl (Estação Liberdade, 2003), do botânico e poeta do romantismo alemão, Adelbert Von Chamisso (1781-1838).

EXÍLIO & EXILADOS – [...] O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heróicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre. [...] O exílio, ao contrário do nacionalismo, é fundamentalmente um estado de ser descontínuo. Os exilados estão separados das raízes, da terra natal, do passado. Em geral, não têm exércitos ou Estados, embora estejam com frequência em busca deles. Portanto, os exilados sentem uma necessidade urgente de reconstituir suas vidas rompidas e preferem ver a si mesmos como parte de uma ideologia triunfante ou de um povo restaurado. O ponto crucial é que uma situação de exílio sem essa ideologia triunfante—criada para reagrupar uma história rompida em um novo todo — é praticamente insuportável e impossível no mundo de hoje. Basta ver o destino de judeus, palestinos e armênios. [...] Os exilados olham para os não-exilados com ressentimento. Sentem que eles pertencem a seu meio, ao passo que um exilado está sempre deslocado. Como é nascer num lugar, ficar e viver ali, saber que se pertence a ele, mais ou menos para sempre? [...] Grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar. Não surpreende que tantos exilados sejam romancistas, jogadores de xadrez, ativistas políticos e intelectuais. Essas ocupações exigem um investimento mínimo em objetos e dão um grande valor à mobilidade e à perícia. O novo mundo do exilado é logicamente artificial e sua irrealidade se parece com a ficção. [...] O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pátrias são sempre provisórias. Fronteiras e barreiras, que nos fecham na segurança de um território familiar, também podem se tornar prisões e são, com freqüência, defendidas para além da razão ou da necessidade. O exilado atravessa fronteiras, rompe barreiras do pensamento e da experiência. [...] Para o exilado, os hábitos de vida, expressão ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memória dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes são vívidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto. Há um prazer específico nesse tipo de apreensão, em especial se o exilado está consciente de outras justaposições contrapontísticas que reduzem o julgamento ortodoxo e elevam a simpatia compreensiva. Temos também um sentimento particular de realização ao agir como se estivéssemos em casa em qualquer lugar. Contudo, isso apresenta seus riscos: o hábito da dissimulação é cansativo e desgastante. O exílio jamais se configura como o estado de estar satisfeito, plácido ou seguro. Nas palavras de Wallace Stevens, o exílio é "uma mente de inverno" em que o páthos do verão e do outono, assim como o potencial da primavera, estão por perto, mas são inatingíveis. Talvez essa seja uma outra maneira de dizer que a vida do exilado anda segundo um calendário diferente e é menos sazonal e estabelecida do que a vida em casa. O exílio é a vida levada fora da ordem habitual. É nômade, descentrada, contrapontística, mas, assim que nos acostumamos a ela, sua força desestabilizadora entra em erupção novamente. Trechos extraídos da obra Reflexões sobre o exílio e outros ensaios (Companhia das Letras, 2003), do intelectual, crítico literário e ativista palestino Edward Said.

A PROFISSÃO DO ESCRITOR – [...] Escrever, para mim, é um meio, o único de que disponho, de abrir uma clareira nas trevas que me cercam. Neste sentido é que eu disse, ainda há pouco, escrevo antes de tudo para mim. Sem experiência, decerto, não há conhecimento. Contudo, pelo menos no meu caso, mesmo o conhecimento obtido pela experiência é desordenado e informe. Só o ato de escrever me permite sua ordenação; portanto, escrever se me apresenta como a experiência máxima, a experiência das experiências. Minha salvação, meu esquadro, meu equilíbrio [...]. Trecho extraído da obra Evangelho na taba & outros problemas inculturais brasileiros (Summus, 1977), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui e aqui.

O POEMA CONCISO DE HÖLDERLIN - Porque és tão curto? Já não amas, como noutros / Tempos, o cântico ? Nesse tempo, ainda jovem, / Quando em dias de esperança cantavas, / Nunca encontravas o fim. / Como a minha sorte, assim é minha canção. Queres-te / banhar, feliz, no pôr do Sol? Já passou! E a / Terra é fria e o pássaro da noite sibila, / Incômodo, perante os teus olhos. Poema do poeta lírico e romancista alemão Joham Hölderlin (1770-1843). Veja mais aqui.

PROEZAS DO BIRITOALDO
Veja as últimas presepadas do Biritoaldo aqui e aqui.

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A ARTE DE RAYMOND ELSTAD
A arte do fotógrafo estadunidense Raymond Elstad



terça-feira, setembro 19, 2017

OLIVER SACKS, CARLOS HEITOR CONY, MARCUS ACCIOLY, GEORGES BRAQUE, MICHEL MELAMED, SEMINÁRIO PSICOLOGIA, FOME & DESNUTRIÇÃO

UM DIA & NUNCA MAIS - Imagem: arte do pintor e escultor do cubismo francês Georges Braque (1882-1963). - As quatro e quarenta Zé José levantou-se para cumprir seu ritual matinal. Antecipava-se a todos em rezas e preces de agradecimento pelas bênçãos e graças alcançadas, às agora pedidas e às adiadas de dias renovadas em petição reiteradas ao Deus, santos e anjos de sua devoção. Obrigações cumpridas, hora do asseio pessoal para o café da manhã, aguentar os resmungos da mulher e a algazarra da filharada. Naquela manhã estava pensativo, aliás ultimamente andara absorto, desde o dia que a filha mais velha – aquela a quem dedicara especial atenção, toda afeição do coração, todo apreço, toda ternura, toda consideração – justo ela, fugira com o filho do marchante dos maus bofes. Não adiantara nada, contra a sua natureza e vontade, reprimir com cinturãozadas e tabefes o namorico dela desobediente às suas ordens, nem as descomposturas no pretenso e insolente Romeu, nada. Sua vida ruíra desde então, nada mais dera certo. Agora, fitava a gasguita esposa Xantipa com desprezo, os filhos desalmados ao redor da mesa, com a certeza de todos, mais cedo ou mais tarde, arribarem pro mundo, desintegrando a família que tanto promovera unida debaixo de suas asas. Nada mais, pra ele. Nem adiantava mais colheradas de açúcar, o café seria amargo pra sempre na sua amargura, prevendo o abandono. A vida minguara como os clientes e serviços, ir pro trabalho sempre fora um prazer, agora não mais. Pelo menos, ali ficaria ruminando o que seria dele dali pra diante. Sonhava, revia o passado, buscava alegrias e satisfações, devia ter precavido: tudo findaria mesmo no desastre. Não conseguia esquecer o fracasso, até que, pelas quatro e quarenta, o Sol arriando a insossa tarde pra noite insípida e inquietante, ele baixar as portas, fechando a bodega, para, na maior má vontade, voltar pro seu suplício. Logo encontraria a mulher aos berros, como sempre, ela nunca o entendeu, não seria agora que pararia de lhe arrancar o couro; os filhos logo pediriam dinheiro pras coisas fúteis, ele teria que se virar no Tesouro Nacional para suprir tanto peditório, mais esdrúxulos que os de antes. Vida mais sem graça a sua, ponderava. Nem via saída, jamais teria sossego, nunca teve, não seria agora. Naquela tarde resolveu: não mais. Não voltou pra casa, ninguém sabe o seu paradeiro. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com Dueling guitars August Rush & Chuco Merchan Live Montreaux do guitarrista Heitor Pereira; Canta mais & Tocar na banda da cantora da Vanguarda Paulista, Vânia Bastos; On the loose & Little blues do gaitista e compositor Flávio Guimarães; Empate, Esse meu rio, Brinquei de inventar o mundo & Quantum da cantora e compositora Jozi Lucka. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAHoje é um dia muito especial. Mais um grande ato em prol da cidadania. Depois de Tiradentes, Zumbi, Nossa Senhora da Aparecida... Finalmente, hoje, foi homologado o Dia Nacional do Ator da Globo. Não sei se vocês sabem, mas isso é baseado num estudo da UFRJ que diz que cidadania é como o ator da Globo é tratado num restaurante... numa loja... nas ruas... Trecho extraído da peça teatral Dinheiro grátis (2006), texto e atuação do poeta, diretor teatral, autor, ator, performer e apresentador de televisão, Michel Melamed.

A EDUCAÇÃO DE CONY: [...] Não vejo alternativas, pois sou um pessimista nato. Mas tenho na cabeça algumas opções para o país, todas utópicas, como, por exemplo, um intenso investimento em educação. Com uma advertência: educação não é ensino. Quando se pensa em educação no Brasil, só se pensa em sala de aula, em ensinar os afluentes do Amazonas, os pronomes oblíquos, as capitais da Europa. Não pode ser só isso. É preciso educação integral, aquela em que o aluno come, toma banho, aprende a escovar os dentes e tudo o mais na escola. Os professores passam dever de casa. Metade dos estudantes não tem nem casa para fazer o tal dever. É preciso que as crianças aprendam a ter uma visão do mundo, do próximo, da cidadania. O Brasil está muito longe dessa educação, preferindo gastar rios de dinheiro com o ensino, que, sozinho, não leva ninguém para a frente. [...] Mas eu sou um subdesenvolvido. Como eu, há um Brasil todo que prefere viver na ilusão de palavras de ordem de “fazer um Brasil para nossos netos”, sem qualquer ação real. Nessa minha utopia louca, o Brasil deveria jogar 80% do seu orçamento em educação (não em ensino, repare bem). Certo, teríamos uma geração sem confortos, que viveria parte de sua existência como anacoretas, mas o país teria assim um futuro. Trechos de uma entrevista concedida pelo escritor, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony, ao jornalista Carlos Haag, na revista Cult (março, 2006), sob o título “O pessimista sem cura ainda ri do mundo”. Veja mais aqui.

FOME & DESNUTRIÇÃO – [...] A extinção da pobreza é, portanto um desafio do desenvolvimento do país, enquanto marginaliza pessoas e grupo, privando-os dos frutos do progresso gerados por todos, mas usufruído por um pequeno grupo. [...] Cremos haver um fim para a desnutrição. Esse fim pode ser atingido através de nossos próprios esforços, no sentido de concreta formulação de políticas alimentares e nutricionais que significam muito mais que simples declaração conceitual. As suas diretrizes devem influir em pontos estratégicos da distribuição de renda, da agropecuária, do abastecimento, da defesa do consumidor e das ações de saúde que possam elastecer o consumo e otimizar o aproveitamento biológico dos alimentos. Daí o relevante papel que compete ao setor saúde. [...]. Finalmente, é necessário insistir na ideia de que a tecnologia médica, embora essencial, não é suficiente para produzir a saúde integral a que aspiramos e que a nutrição adequada é um requisito indispensável à saúde. [...]; Trechos extraídos da obra Alimentação e nutrição no Brasil. Percepção do passado para transformação do presente (IMIP, 2008), do médico e professor universitário Bertoldo Kruse Grande de Arruda. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

HISTÓRIAS PARADOXAIS - [...] Estou escrevendo com a mão esquerda, embora seja completamente destro. Fui operado do ombro direito há um mês e atualmente não devo, não consigo usar o braço direito. Escrevo devagar, desajeitado - mas com maior facilidade e naturalidade conforme passam os dias. Estou me adaptando, aprendendo ao longo desse tempo - não apenas a escrever, mas a fazer uma dúzia de outras coisas com a mão esquerda; também me tornei muito hábil, capaz de apanhar coisas com os dedos dos pés para compensar o braço na tipóia. Fiquei sem firmeza por uns dias logo que o braço foi imobilizado, mas agora já ando de outra maneira, descobri um novo equilíbrio. Estou desenvolvendo novos padrões e hábitos... uma identidade diferente, pode-se dizer, pelo menos nesta esfera específica. Devem estar ocorrendo mudanças em alguns programas e circuitos do meu cérebro - alterando cargas sinápticas, conexões e sinais (embora nossos métodos de obtenção de imagens cerebrais ainda sejam muito precários para mostrá-las). Apesar de algumas das minhas adaptações serem deliberadas, planejadas, e outras aprendidas por tentativa e erro (na primeira semana machuquei todos os dedos da mão esquerda), a maioria aconteceu por conta própria, inconscientemente, por intermédio de reprogramações e adaptações das quais nada sei (não mais do que sei, ou posso saber, por exemplo, sobre minha maneira normal de andar). No próximo mês, se tudo correr bem, posso começar a me readaptar uma vez mais, recuperar o uso integral (e ―natural) do meu braço direito, reincorporá-lo a minha imagem corporal, à imagem de mim mesmo, para me tornar novamente um ser humano ágil e destro. [...] Esse sentido da notável maleabilidade do cérebro, sua capacidade para as mais impressionantes adaptações, para não falar nas circunstâncias especiais (e freqüentemente desesperadas) de acidentes neurológicos ou sensórios, acabou dominando minha percepção dos pacientes e de suas vidas. De tal forma, na realidade, que por vezes sou levado a pensar se não seria necessário redefinir os conceitos de ―saúde e ―doença, para vê-los em termos da capacidade do organismo de criar uma nova organização e ordem, adequada a sua disposição especial e modificada e a suas necessidades, mais do que em termos de uma ―norma rigidamente definida. A enfermidade implica uma contração da vida, mas tais contrações não precisam ocorrer. Ao que me parece, quase todos os meus pacientes, quaisquer que sejam os seus problemas, buscam a vida - e não apenas a despeito de suas condições, mas por causa delas e até mesmo com sua ajuda. [...] A ciência é uma grande coisa quando está a nossa disposição; no seu verdadeiro sentido, é uma das palavras mais formidáveis do mundo. Mas o que pretendem esses homens, em nove entre dez casos, ao pronunciá-la hoje? Ao dizer que a detecção é uma ciência? Ao dizer que a criminologia é uma ciência? Pretendem colocar-se no exterior de um homem e estudá-lo como se fosse um inseto gigante, sob o que chamariam luz severa e imparcial - e que eu chamaria morta e desumanizada. Pretendem distanciar-se dele, como se ele fosse um remoto monstro pré-histórico, e fitar a forma de seu ―crânio criminoso como se fosse uma espécie de sinistra excrescência, como o chifre de um rinoceronte. Quando o cientista fala de um tipo, nunca está se referindo a si mesmo, mas a seu vizinho, provavelmente mais pobre. Não nego que a luz severa possa ser benéfica às vezes, embora, em certo sentido, ela seja o oposto da ciência. Longe de converter-se em conhecimento, ela é a supressão do que sabemos. É tratar um amigo como estranho e fazer com que algo familiar pareça remoto e misterioso. É como dizer que o homem carrega uma probóscide entre os olhos e que cai num estado de insensibilidade a cada 24 horas. Bem, o que você chama de ―segredo é exatamente o contrário. Não tento me colocar do lado de fora do homem. Tento me colocar no seu interior. [...] Com isso em mente, tirei meu guarda-pó branco e desertei, em grande parte, dos hospitais onde passei os últimos 25 anos, para pesquisar a vida de meus pacientes no mundo real, sentindo-me em parte como um naturalista que examina formas raras de vida, em parte como um antropólogo, um neuroantropólogo, em trabalho de campo - mas sobretudo como um médico, chamado aqui e acolá para fazer visitas a domicílio, visitas às fronteiras distantes da experiência humana. Estas são, portanto, histórias de metamorfoses possibilitadas pelo acaso neurológico, mas metamorfoses em estados alternativos do ser, outras formas de vida, não menos humanas pelo fato de serem tão diferentes. [...] Trechos extraídos da obra Um antropólogo em marte: Sete histórias paradoxais (Companhia das Letras, 1995), do neurologista, escritor, professor e químico britânico, Oliver Sacks (1933-2015), baseado em sete estudos de caso do autor sobre indivíduos com condições neurológicas consideradas paradoxais para com suas atividades, e como essas condições podem levar a um estado de desenvolvimento pessoal e/ou profissional. Veja mais aqui.

O TEMPO ALÉM E AQUÉMHá um tempo por vir (é o porvir) / e um tempo de outra hora (é o outrora) / mas (entre esses dos tempos) há o hoje / (que já foi amanhã) tempo que foge / para trás (para o ontem) porque o alcança / tanto a recordação (como a lembrança) / ou seja (o sonho que antecede o tempo) / e o sono (que devolve o esquecimento) / por isso o tempo é um só (cada manhã / eu vejo o ontem o hoje e o amanhã). Poema XVII - O tempo além e aquém, do Canto Décimo – A reinvenção do mito, extraído da obra Sísifo (Quíron/MEC, 1976), do poeta Marcus Accioly. Veja mais aqui.

ADMMAURO GOMES: PROFESSOR DE LITERATURA
O blog Professor de Literatura, do poeta e professor Admmauro Gommes. Veja mais aqui.

Veja mais:
O pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) aqui, aqui e aqui.
O pensamento do filósofo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997) aqui, aqui e aqui.
A literatura do escritor e roteirista José Louzeiro aqui e aqui.
A literatura do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985) aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Jozi Lucka aqui.
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I SEMINÁRIO FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA: UMA VISÃO HEIDGGERIANA
Centro de Convenções de Pernambuco – Auditório do Brum, 17 e 18 novembro de 2017. Realização Ecxistir. Veja detalhes aqui.

A ARTE DE GEORGES BRAQUE
Imagem: arte do pintor e escultor do cubismo francês Georges Braque (1882-1963). Veja mais aqui.

segunda-feira, setembro 18, 2017

LÉVIS-STRAUSS, WILDE, HELEN KELLER, VICTOR HUGO, WILLIAM CARLOS WILLIAMS, LUIZ BARRETO, MICROFISIOTERAPIA & CASARÃO DO ALTO DO INGLÊS

ALTO DO INGLÊS – Imagem: Chalé do Inglês, do pintor Luiz Barreto. Certa feita contou-se um dia lá de não sei quando, o povo todo inheto amontoado nos arredores da estação recém-construída, esperando Maria Fumaça que vinha lá de longe nos trilhos da linha férrea do Recife. Uma espera buliçosa com aquela do vem não vem, pra mais de hora ali plantado de pé, olhando dum lado pro outro, como seria o troço todo, um invento tão esperado, coisa de nunca se vê. Mais tempo depois, então, ouviu-se um apito de se parar a respiração: U-huuuuuuu! - É ela, já vem vindo! E vinha mesmo no maior zoadeiro, soltando fumaça, apareceu lá no fim bem pequenininha da lonjura, fumaceiro no meio do canavial, vixe, um corre-corre medonho, muita gente se escondeu de medo: - E se fosse a coisa ruim ao invés dum danado dum trem, ora? Sou lá besta de não me precaver, ora. Não tinha quem não tremesse com aquela barulheira chegando perto, quem não foi agora vai, quem não foi agora vai, quem não foi agora vai que eu acabei de chegar! Danou-se! Que bicho bonito danado, cheio dos apitos, descargas fumegantes, desafogos de engrenagens, arriados de puxa-encolhe, peidos de todo jeito: - Essa bicha pipoca que só, né maquinista? É a gota! Isso é que é um mondrongo de respeito! Arrepara só! O cabra amontado num negócio desse vai até o fim do mundo, se num vai! Já baixando a bufarra toda, apareceu um galegão embecado duns dois metros de altura, gritando umas coisas que ninguém entendia. Quem é, hem? Cochicharam que era um mandão engenheiro da Gretoeste que ia dar ordem naquilo tudo. Vixe! O homem esbravejava que só e logo um cheleléu dele desceu do trem às carreiras, explicando que ele procurava pelos funcionários para pegar as suas malas e levar lá pra casa nova do alto. Ah, tá! Aí que foi gente como a praga pra servir o homem e pegar as malas só pra ver como é que era a casa bonitona lá do alto. Oxe, o tanto de mala que tivesse, o povo todo levava. E assim subiram a íngreme elevação rumo ao casarão, a mundiça toda serpenteando o morro acompanhando o grandão a gesticular a frente, enquanto cá embaixo, quem ficou, deu de cara com um verdadeiro espetáculo: apareceu assim do nada uma galegona bonitona dos olhos brilhosos, vestido solto das pernas vistosas descendo da locomotiva, braços abertos no sorriso iluminado, cabelos e saias do vestido aos ventos de aparecer-lhe as mais espetaculares intimidades, e ela nem aí só gingando as passadas como quem levitasse feliz sem direção certa, tomando pé de toda aquela redondeza. Lá se ia a branquela como se bailasse no meio duma ventania boa de mexer com as plantas todas, passarinhos e passantes, e a gente só de flagrar ela nuínha embaixo de suas vestes soltas, aos boticões de não perder um segundo sequer de seu encantamento, aquela brancura da maior das bonitezas. E ia nem aí pra nada com quem ia ou quem viesse do chalé do alto pra pegar as coisas das mudanças deles e tornarem a subir, por vezes encarreadas carregando tudo, até ela se encontrar com o mandão, dar-lhe um beijo afetado e se desgarrarem indiferentes, o chefão descendo com o cheleléu na cola, ela subindo entre os que iam e vinham, solfejando suas cantigas como quem ganhou da vida o paraíso, às carreiras pelos degraus, reaparecendo em cada janela e portas da luxuosa moradia, até se encostar ao alpendre e ficar maravilhada com toda a paisagem da redondeza. Ela lá e muita gente aqui embaixo só acompanhando os seus mínimos movimentos, até que lá pras tantas, tudo já descarregado na mansão, vê-se o galegão dispensar todo mundo para sumir dentro de casa e apenas ouvir os gritos, gracejos, risadas e felicitações do casal na maior comemoração. A noite entrou pesada e quando amanheceu o dia, quando não era a chegada e partida da Maria Fumaça com estardalhaço, era ela não menos retumbante que aparecia desnuda rodopiante pernuda entre as fruteiras e florais que arrodeavam o oitão do palacete, exprimindo a satisfação de se encontrar naquele rincão encantador, quando, na verdade, ela que se tornava o encanto daquelas paragens para todo ser vivente da freguesia. Dali a pouco quando todos saíam acompanhando o gringo pro expediente na estação, ela adentrava e não mais reaparecia, ouvindo-se apenas sua voz cantarolando lá pra dentro de sua clausura. Nem bem a tarde começava a trazer o espetáculo do pôr do Sol pra noite, ouviam-se os passos do marido de volta pra casa, pra tudo ficar de ouvido colado pras estripulias do casal. Na escuridão da noite dava pra ouvir os cantos, risos e gritinhos dela com o vozeirão do marido, coisas de intimidades mais estreitas no maior dos regalos amorosos. Assim, todos os dias, enquanto o povo ficava vidrado com a travessia da Maria Fumaça, logo após ela ganhar chão pras bandas de Catende ou pra onde quer que fosse, as vistas se voltavam pra gringa cada dia mais bonita que antes; - Isso sim que é espetáculo pras vistas! E se passaram semanas, meses, anos, povaréu todo lá de butuca nos passeios da princesa nua pelos jardins e fruteiras do casarão logo que o dia amanhecia ou, vez em quando, no mormaço da tarde que seguia pro descanso do Sol, ela dançando pelas infâncias, adolescências, marmanjadas, vetustos esperançosos que viam nela o entretenimento jamais visto. Até que outro dia lá, muito tempo depois de rotineiras e surpreendentes aparições, a população deu-se com as notícias de que o gringo fora embora. Dizem ter ouvido durante a noite um estampido quebrando o silêncio, ninguém sabia o que ocorrera, era um entra-e-sai, nem a chegada da Maria Fumaça reanimou aqueles que queriam saber do gringo e sua rainha nua. O casarão estava fechado, coisa de anos nunca antes vista, sempre portas escancaradas e ela àquela hora, desfilando nua a cantar pros pássaros, árvores e ventos, pra felicidade da curiosidade de todos. Não mais ela no casarão do Alto do Inglês, só Maria Fumaça que vinha e zarpava proutas paragens, levando desejos e esperanças do povinho daqui. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os grandes sucessos  e álbuns Piano & Viola e Imyra, Tayra, Ipy, do cantor e compositor uruguaio Taiguara (1945-1996); o Concert Tchaikovisky Live, Four Seasons Vivaldi e Concert Violin Dvorak, na interpretação da virtuosa e belíssima violinista e violista holandesa Janine Jansen; a música do violonista, compositor, concertista, cantor e produtor musical Chico Mello com seus parceiros Silvia Ocougne, Helinho Brandão & Carlos Careqa; e o álbum Negra e canções como Espera e O meu lugar da cantora e compositora Consuelo de Paula. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAOs problemas impostos pelos preconceitos raciais refletem em escala humana um problema muito maior e cuja solução é ainda mais urgente: o das relações sobre o homem e as demais espécies viventes. [...] O respeito que desejamos obter do homem para com seu semelhante é apenas um caso particular do respeito que ele deveria manifestar para com todas as formas de vida [...]. Trechos extraídos da obra Raça e história (Presença, 2003), do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Veja mais aqui e aqui.

O CASARÃO DO ALTO DO INGLÊS – (por Vilmar Carvalho, escritor e historiador). Por que recuperar um casarão que também pode ser considerado símbolo da opressão praticada em outras épocas? 1. O casarão em questão, construído ao final do século XIX, foi residência dos engenheiros ingleses que trabalhavam em Palmares desde 1859, ano em que começou a construção da ferrovia que passava a ligar Recife e Palmares; 2. Seu habitante mais ilustre foi o inglês Edmund Cox, um engenheiro graduado da Grant Western Railway, fidalgo educado na ótica vitoriana, membro honorário do também fidalgo Clube Literário de Palmares; 3. O casarão entra em ruína conjuntamente com todos os equipamentos ferroviários a partir dos anos setenta, considerando que o Regime Militar fez opção pelo transporte rodoviário; 4. Da construção dele para 2014, somam nada mais que 38 governos municipais que ali não colocaram um centavo, não tinham ou não podiam investir: o casarão é da massa falida da antiga Rede Ferroviária Nacional? 5. O exemplo de ruínas como usinas, sobrados e casas grandes de engenhos, o casarão do Alto do Inglês é a carcaça que ficou de um tempo que se montou ainda na escravidão e que viu a opressão de milhares de famílias pobres para montar a chamada Civilização do Açúcar; 6. Pode-se perguntar: e um marco que homenageasse os trabalhadores anônimos que morreram na execução do projeto inglês? Afinal para cada dormente da expansão ferroviária do século XIX, certamente morreu um trabalhador pobre nordestino; 7. Pois, como diz Walter Benjamin, “para cada documento de cultura, um documento de barbárie!”; 8. Documento de barbárie: para cada dormente, um corpo exausto. Símbolo maior que este não haverá jamais e nunca será ruína. NOTA DO EDITOR DO BLOG: Ao que me consta, a Casa do Alto do Inglês foi adquirida juntamente com o Teatro Cinema Apolo pela Prefeitura dos Palmares, na gestão Luís Portela de Carvalho (1982-1988), para formação do patrimônio instituidor da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, fundada em 1983, constante do seu respectivo Estatuto. Veja mais aqui e aqui.

A GREAT WESTERN – (Por Lucia Gaspar, bibliotecária da FUNDAJ) – Em 1872, alguns capitalistas ingleses reunidos em Londres criaram uma companhia para construir estradas de ferro no Brasil, a Great Western of Brazil Railway Company Limited, que logo ficou conhecida no País como Greitueste. Como a sua similar inglesa, The Great Western Railway Company, criada em 1835, para fazer a ligação entre Londres e a sua parte oeste (Liverpool, Bristol), a nova empresa se destinava a abrir ferrovias em direção ao oeste, numa marcha para o agreste do Nordeste brasileiro. Em 1873, a Great Western foi autorizada a funcionar no Império do Brasil e, em 1875, conseguiu do Barão da Soledade, a transferência da concessão para construir em Pernambuco uma ferrovia que, passando por Caxangá, São Lourenço da Mata, Pau d`Alho e Tracunhaém (com ramais para Nazaré da Mata e Vitória de Santo Antão), ligaria o Recife a Limoeiro. A inauguração das obras, em 1879, foi bastante festiva e realizou-se em Santo Amaro, no Recife, com a presença do presidente da província de Pernambuco. O primeiro trecho Recife-Pau d’Alho só ficou pronto em 1881 e, em 1882, foi aberto ao tráfego a linha Pau d’Alho-Limoeiro, assim como o ramal para Nazaré da Mata. Os primeiros diretores da empresa no Brasil foram James Fergusson, David Davies, Hugh Robert Baines, Alfred Phillips Youle, Edward Keir Hett e Spencer Herapath. Com a saída de Hugh Robert Baines, Frank Parish passou a fazer parte da diretoria. Entre 1882 e 1883, a estrada de ferro de Limoeiro transportou 2.061 passageiros de 1ª classe e 33.377 de segunda. Em 1884 e 1885, com a introdução dos vagões de 3ª classe, foram transportados mais de 60.000 pessoas, sendo de apenas 4%, aproximadamente, os viajantes de 1ª classe. Além de passageiros, a Great Western transportava também os principais produtos da região, como açúcar, álcool, madeira, algodão, feijão. Depois da estrada Recife-Limoeiro, a empresa construiu a Estrada de Ferro Central de Pernambuco (1885-1896) ligando o Recife a Caruaru. A ferrovia iniciava no bairro de Afogados, no Recife, próximo à Casa de Detenção (atual Casa da Cultura), passando por Vitória de Santo Antão, Gravatá, Bezerros, terminando em Caruaru. Nessa época, Vitória possuía mais de 70 engenhos; Bezerros, mais de 20 fábricas de rapadura, e Caruaru exportava para o Recife uma grande quantidade de solas, couros, algodão, queijo, feijão, além de realizar uma das maiores feiras de gado da região. O primeiro trem que chegou a Caruaru foi todo ornamentado, levando o governador Barbosa Lima, o chefe de polícia Júlio de Melo e outras autoridades. A partir do século XIX, a empresa anexou a maior parte das estradas de ferro da região, o que abrangia linhas estaduais, municipais e estratégicas. Na época da II Guerra Mundial, a Great Western teve que recorrer à lenha em substituição ao carvão de pedra, o que concorreu para aumentar a devastação das reservas florestais da região. Para remediar um pouco a situação, a empresa criou vários hortos florestais, onde eram cultivadas milhares de mudas de plantas nativas e também aclimatadas no país. Depois, passou a utilizar o óleo combustível, poupando o restante dos recursos naturais existentes. Em 1945, a Great Western possuía quatro linhas principais: Recife-Nova Cruz, Recife-Albuquerque Né , Recife-Jaraguá e Paulo Afonso. A empresa chegou a possuir uma rede ferroviária de mais de 1.600 quilômetros distribuídos entre os Estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. A história da Great Western está tão ligada à da produção no Nordeste brasileiro, que ninguém pode escrever sobre a história econômica da região sem consultar seus relatórios e arquivos. REFERÊNCIAS: PINTO, Estevão. História de uma estrada-de-ferro do Nordeste. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. 310 p. (Documentos brasileiros, 61). SOUZA, Alcindo de. Antologia ferroviária do Nordeste. Recife: Bagaço, 1988. 100 p.

A HISTÓRIA DA MINHA VIDA - [...] Meus primeiros dias de vida foram como os de toda criança: como primogênita que fui, cheguei, vi e venci [...] Luz! Luz! Era o grito incompreendido da minha alma. Nesse dia o astro luminoso raiou para mim [...] Gradualmente acostumei-me ao silencia e à escuridão que me rodeavam e esqueci que algum dia fora diferente, até que ela chegou, a minha professora, a que iria libertar meu espírito [...] Não me lembro quando percebi pela primeira vez “ser diferente” das outras pessoas, mas eu sabia disso antes da vinda da minha professora. Eu notara que mamãe e meus amigos não usavam sinais como eu quando queriam algo, mas falavam com a boca. Às vezes eu ficava entre duas pessoas que conversavam e tocava seus lábios. Como não conseguia entender, ficava perturbada. Movia os lábios e gesticulava freneticamente sem resultado. Isso me deixava às vezes tão zangada que eu chutava e gritava até ficar exausta. [...] Não há melhor maneira de agradecer a Deus pela visão, do que dar ajude a alguém que não a possui [...] Se metade do dinheiro hoje gasto em curar cegueira, fosse utilizado em preveni-la, a sociedade ganharia em termos de economia sem mencionar considerações de felicidade para a humanidade [...] Que toda criança cega tenha oportunidade de receber educação e todo adulto cego, uma oportunidade para treinamento e trabalho útil [...] Quando uma porta de felicidade fecha-se, uma outra se abre; mas muitas vezes, nós olhamos tão demoradamente para a porta fechada que não podemos ver aquela que se abriu diante de nós [...] Não há barreiras que o ser humano não possa transpor [...] Aprendi a fazer tudo o que podia, para ajudar minha professora. Todas as manhãs, ela levava o marido de carro à estação, onde ele tomava o trem pata Boston, para depois se ocupar das compras. Eu tirava a mesa, lavava a louça e arrumava os quartos. Podiam estar clamando por mim montanhas de cartas, livros e artigos para escrever, mas, a casa era a casa, alguém tinha de fazer as camas, colher flores, catar lenha, por o moinho de vento a andar e para-lo quando a caixa estivesse cheia, enfim, ter em mente essas coisas imperceptíveis que fazem a felicidade da família. Quem gosta de trabalhar sabe como é agradável a gente estar ajudando as pessoas a quem estimamos nas tarefas diárias de casa [...]Andar com um amigo na escuridão é melhor do que andar sozinho na luz  [...] O resultado mais sublime da educação é a tolerância [...]. Trechos extraídos da obra A história da minha vida (José Olympio, 1902), da escritora e ativista social estadunidense Helen Keller (1880-1968), a primeira pessoa surda e cega a conquistar um bacharelado. O livro traz o impressionante relato autobiográfico de quem tendo ficado cega e surda aos 18 meses de idade, em fins do século XIX, conseguiu aprender a ler, escrever e falar, dominar línguas, graduar-se em Filosofia e tornar-se escritora reconhecida. Com a chegada da professora Anne Sullivan à sua casa, quando ela tinha pouco menos de sete anos, seu mundo transformou-se: aprendeu a manifestar – através das palavras, até então desconhecidas os seus desejos, e sentimentos, entendeu regras, aprendeu a criar. Veja mais aqui.

LIBERDADECom que direito pões pássaros em gaiolas? / Que direito tens tu, que o das aves violas? / Por que as roubas das nuvens... auroras... nascentes? / Por que privas da vida esses seres viventes? / Homem, tu crê que Deus, o Pai, faria nascer / asas p’ra que à janela as fosses suspender? / Se não o fazes, hás de viver descontente? / Que é que te fizeram esses inocentes / para que os condenasses, com a fêmea e seu ninho? / As desventuras deles é o nosso caminho! / Talvez o sabiá, que do seu galho roubamos, / e o infortúnio que aos animais nós causamos / e a escravidão inútil que impomos às bestas / qual Nero não cairão sobre nossas cabeças? / E se o cabresto então desprendesse os grilhões? / Oh! Quem sabe o desfecho de nossas ações, e que fruto nefasto estarão produzindo / as cruezas que na Terra perpetramos rindo? / Quando aprisionas sob o ferro de uma grade / pássaros feitos para o azul da liberdade, / os nadadores do ar que arribam por aqui / - Pintassilgo, Chopin, pardal ou bem-te-vi -, / O bico ensangüentado deles – ouve bem! - / ao se bater nas grades fere a ti também! / Tem cuidado com teu julgamento furtivo! / Deus olha em toda parte onde grita um cativo. / És incapaz de ver que és sórdido e cruel? / A esses detentos abre a porta para o céu! / Aos campos, rouxinóis! Aos campos, andorinhas! / Perdoai o que fizemos às vossas asinhas! / E a ti, pois, da justiça as misteriosas redes, / pois são masmorras que ornamentam tuas paredes! / Das treliças com fios de ouro nascem bastiões; / a perversa gaiola é a mãe das prisões. / Respeita o augusto cidadão do ar e do prado! / Tudo aquilo que aos pássaros é confiscado / o destino, que é justo, toma dos humanos. / Temos tiranos, pois somos também tiranos. / Queres ser livre, ó homem? Pois pensa primeiro, / se tens em casa um testemunho prisioneiro... / A sombra ampara aquilo que parece instável. / A imensidade inteira a essa ave miserável / vem se prostrar; e te condena à expiação. / É estranho, ó opressor, que grites: “opressão!” / tens sorte agora enquanto tua demência arrasa / a sombra desse escravo no umbral da tua casa; / porém essa gaiola com a ave infeliz / encarna nessa Terra triste cicatriz. Poema do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), que também se expressa: “Olha teu cão nos olhos e não poderás afirmar que ele não tem alma”. Tradução de Raul Passos. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE & O RETRATOO artista é o criador de coisas belas. O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista. O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas. A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia. Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito. Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, para esses há esperança. Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza. Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo. A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho. A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho. A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas. Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável. Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo. Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo. Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas. O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida. A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital. Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo. Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada. Toda a arte é completamente inútil. [...] A única coisa que desejo mudar na Inglaterra é o clima. A mim me satisfaz a contemplação filosófica. Porém, como o século dezenove falhou de tanto esbanjar condescendência, sugiro façamos um apelo à ciência, para que nos aprumemos. A vantagem das emoções é que elas nos desencaminham, e a vantagem da ciência é que ela não é emocional. [...]. Trecho do romance filosófico O retrato de Dorian Gray (1890 – Lanmark, 2012), do escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui e aqui.

MICROFISIOTERAPIA – Trata-se de uma técnica de terapia manual criada pelos fisioterapeutas e osteopatas Daniel Grosjean e Patrice Benini, em 1983, na França, que consiste em identificar a causa primária de uma doença ou sintoma e estimular a autocura do organismo, para que o corpo reconheça o agressor (antígeno) e inicie o processo de eliminação. Seu embasamento teórico iniciou pelos estudos da embriologia, filogênese, anatomia e ontogênese, e com essas informações desenvolveram mapas corporais específicos (similares aos meridianos de Medicina Oriental) e gestos manuais específicos e suaves que permitem identificar a causa primária de uma doença ou disfunção e promovendo o equilíbrio e manutenção da saúde. A Abordagem Manual é realizada seletivamente por camadas especificas do corpo. O trabalho foi reconhecido por ministérios da saúde de vários países, como Rússia, Polônia e Madagascar e África do Sul. Capaz de identificar tecidos que perderam sua função e vitalidade normal após eventos agressores ao organismo, a Microfisioterapia promove a normalização e a regulação das regiões corporais afetadas. Dessa forma, complementar à Medicina Tradicional, trata a mente e o corpo como um todo, do mesmo modo que a Homeopatia e a Medicina Tradicional Chinesa. Os seus benefícios proporcionam melhoria do estado emocional, tratamento das dores, estimulação do sistema Imunológico, identificação da causa primária de um sintoma ou de uma doença e promoção da saúde. Seu tratamento é indicado nos casos de depressão bipolar, alergias em geral, dores físicas, traumas emocionais, fibromialgia, fobias e ansiedade, sendo indicada para qualquer pessoa, independente da patologia ou idade, não se opondo à Medicina ou à Fisioterapia, atuando de forma preventiva ou curativa.

POEMA
Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas
o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata
direita da frente
depois a de trás
dentro
do vaso
de flores
vazio.
Poema extraído da obra Poemas (Companhia das Letras, 1987), do poeta estadunidense William Carlos Williams (1883-1963) - tradução de José Paulo Paes.

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A ARTE DE LUIZ BARRETO
Casa Grande do Engenho Paul, arte do pintor Luiz Barreto (Gentilmente cedida pelo acervo de Marcelo Tiriri – Foto de Eliandro Marques). Veja mais aqui e aqui.

JULIO VERNE, JOÃO GONÇALVES, EDUCAÇÃO INCLUSIVA & ACESSIBILIDADE NA BIBLIOTECA FENELON!

O ESPADACHIM DO CANAVIAL – Imagem do artista plástico João Gonçalves - O que Zedonho tinha de ocrídio, tinha de trabalhador. Pense num su...