sábado, novembro 18, 2017

SKARMETA, MICHELET, ALDA LARA, IBERÊ CAMARGO & PANELAS

A PROFESSORA & A FESTA DO ESPALHAFATO - Acordei com uma surpresa: Carma estava ao meu lado, brincando com um Mané-Gostoso: - Cadê o meu netinho, munitinho! Eita! Acordar assim ao lado dela era mais que sonhar, companhia que sempre me proporcionara o maior prazer, exatamente por seu sorriso sempre presente em todos os momentos e isso até hoje. Logo também apareceu Pai Lula trazendo um catavento: - Esse é mais um presentinho pro meu neto! Presente duplo e dos que eu mais gostava: Mané-Gostoso e catavento. O dia seria por isso maravilhosamente demais. Ah, mas eles estavam assim porque pregaram uma surpresa para mim. Gostou, meu netinho? Gostei Carma. E também do presente de Pai Lula. Ah, mas ainda temos uma supresinha pra você. Mais surpresa ainda? Sim, uma surpresa inesquecível que sabemos que você vai adorar ainda mais no dia de hoje. Mas hoje não é meu aniversário, Carma! A gente sabe que não é seu aniversário. Acontece que uma pessoa muito especial veio lhe ver. E logo entrou Tia Conça: - Cadê meu sobrinho predileto! E logo entrou me abraçando e me beijando. Ah, se for Tia Conça a surpresa, aviso logo que já gostei. Não, meu sobrinho, não sou eu a surpresa do dia, é muito melhor. Muito melhor? Sim. Muito, muito? Sim. O que poderia ser melhor do que acordar ganhando presentes e carinho de Carma, Pai Lula e Tia Conça? Não há nada melhor que isso! Ah, há sim, meu netinho, não é Pai Lula? É Carma, há sim. Pois se coisa há melhor que vocês três eu ainda não sei, o que poderia ser? Ah, então feche os olhos que vamos levá-lo pra surpresa que você gostará muito, venha. Bem, vendaram meus olhos e me encaminharam quarto afora, acredito que atravessamos a sala de jantar e parece que havíamos chegado à varanda. Chegando lá, ouvi que tinha mais gente no recinto, contaram até três no maior viva e de repente vejo diante de mim, a professora Hilda! Nossa! Que bom estar com a minha professorinha! Logo ela abraçou-me dizendo: O motivo é parabanizá-lo pela passagem de ano na escola, você foi aprovado! Que bão! Eu não me continha em pé, abracei a professorinha e saí abraçando um por um: Bichim, o Cravo, Mindinho, Jeguim, Alvoradinha, a Rosa, Seu-Vizinho, Gordim, Maior-Todos, Maluquim, Ciganinha, Fura-Bolos, Nitinha, Iaravi, Cata-Piolho, o Super-Pontinho, as fadinhas, até o Lobisomem Zonzo e os animais todos do terreiro. Virou uma festa só. A professorinha iniciou, então, encenações, dramatizou de improviso coisas do tempo que ela fazia teatro e contracenou comigo, com todos os presentes, até com os passarinhos, borboletas e outros bichos que foram chegando. Enquanto ela desfilava personagens, recitava poesias, rodopiava com danças e levantava a plateia pra brincar de caboclinos, de bumba-meu-boi, de fandango e de quadrilha, rastava pé no coco, na embolada, e quando a cena voltava ela encerrava com passos na maior frevada. E foram servidos doces, salgados, ponches e frutas pra gente se esbaldar na maior brincadeira. Pai Lula puxou uma adivinha, Tia Conça o que é o que é, Carma com um trava-língua e professorinha recitou quadrinhas que muito alegraram aos presentes. Salvas e palmas, cada um agradecia pelo momento, eu mesmo fiquei tão emocionado e ao chegar a minha vez, não sabia o que dizer. Foi aí que saí com essa: Meus amigos, minhas amigas, obrigado a todos vocês, vamos entoar cantigas e fazer tudo outra vez. Aplaudido pela generosidade dos que ali se apresentavam, cada um contou história: a do Falange, falanginha, falangeta, a do Cravo e da Rosa, a do Alvoradinha nas águas, a da Princesa e do Jacaré, a da Turma do Brincarte, a do Frevo e do Teatro, a do Lobisomem Zonzo, até que no fim de tudo, findamos era contando a história do Reino Encantado de Todas as Coisas. Ai entrou pela perna de pinto, saiu pela perna de pato, cada um sua lorota no maior espalhafato! (Veja mais abaixo) © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao vivo & no Monteux Jazz Festival; do compositor e guitarrista estadunidense Al Di Meola ao vivo com One of these nights & Jazzwoche Burghausen; a cantora e compositora Claudia Telles com seus grandes sucessos & o violonista Felipe Coelho com Cata Vento & Musadiversa. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA: ISONOMIA – [...] A igualdade perante a lei refere-se ao cumprimento de determinado dispotivo normativo, devendo abranger de forma uniforme todas as pessoas, bens ou situações que estejam em igualdade de situações. [...] A garantia de igualdade entre os homens e as mulheres também abrange os homossexuais, tanto os masculinhos quantoos femininos, os bissexuais e os transexuais. A Constituição, ao garantir a intimidade e ao proibir a discriminação, protegeu a livre opção sexual, impedindo qualquer tipo de preconceito. [...]. Trechos extraídos do Curso de direito constitucional (Forense, 2008), do professor e pós-doutor pela Université Montesquieu Bordeaux IV, Walbert de Moura Agra. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PANELAS – O município de Panelas está localizado na microrregião do Brejo Pernambuco, na região do agestre, e formada administrativa pelos distritos sede, Cruzes, São José e São Lázaro. Obteve a sua autonomia municipal em 18 de maio de 1870, pela Lei Provincial 919, desmembrando-se de Caruaru e de São Bento do Una. A Maratona de Cruzes é realizada desde 1983, tornando-se um evento tradicional esportivo, reunindo além de desportistas, atividades culturais como bacamarteiros, bumba-meu-boi, capoeira, mamulengo, banda de pífanos e Antônio da Boneca, além de três dias de muito forró com bandas reconhecidas nacionalmente. A Maratona de Cruzes recebe cerca 60 mil pessoas ao longo de sua programação. A vila de São José do Bola foi criada na década de 1940, recebendo esta denominação porque havia uma intensa vegetação com inúmeros tatus-bola, com eventos que reúnem o tradicional "Casamento do Matuto" e concurso de fantasia de carros-de-bois. Também são destaques locais a vila de São Lázaro, a escultura em homenagem ao Festival Nacional de Jericos, a escultura feita de pedra em homenagem ao trabalhador localizada na entrada da cidade de Panelas, o Escorrego do Sítio Contador, a Serra, o Cruzeiro e o Mirante Serra da Bica. Veja mais aqui.

O HOMEM E A MULHER - [...] O homem, por mais freaco que possa ser moralmente, não deixa de estar numa estrada de ideais, de invenções e descobertas, tão rápido que o trilho incadescente lança faíscas. A mulher, fatalmente deixada para trás, continua na trilha de um passado que ela mesma pouco conhece. Está distanciada, para nossa infelicidade, mas não quer ou não pode ir mais depressa. O pior é que ambos não parecem ter pressa de se aproximar. Parece que nada têm para dizer um ao outro. O lar está frio, a mesa muda e a cama gelada. [...] Cumpre dizer claramente a coisa como ela é. Eles já não têm ideias comuns, nem linguagem comum, e mesmo sobre o que poderia interessar as duas partes, não sabem como falar. Perderam-se muitro de vista. Em breve, se não se tomar cuidado, apesar dos encontros fortuitos, já não serão dois os sexos, mas sim dois povos. [...] Trechos extraídos da obra A mulher (Martins Fontes, 1995), do filósofo e historiador francês e Jules Michelet (1798-1874). Veja mais aqui e aqui.

O CARTEIRO E O POETA - [...] Com um gesto de toureiro desprendeu o avental de Beatriz, sedoso rodeou sua cintura e despencou seu pau pelas coxas, como ela gostava, conforme provavam os suspiros que tão fluidamente soltava com essa seiva enlouquecedora que lubrificava sua boceta. Com a língua molhando a orelha e as mãos levantando suas nádegas, meteu de pé, na cozinha, sem se preocupar em tirar a sala. – Vão nos ver, meu amor – arquejou a garota, ajeitando-se para que o pau entrasse até o fundo. Mario começou a girar com golpes secos e, empapando os seios da garota de saliva, balbuciou: - Pena não ter o Sonu aqui para gravar esta homenagem a dom Pablo. E, num átimo, promulgou um orgasmo tão estrndoso, borbulhante, desmedido, estranho, bárbaro e apocalíptico que os galos acharam que tinha amanhecido e começaram a cocoricar com as cristas infladas, os cachorros confundiram o uivo com o apito do norturno ao sul e começaram a ladrar para a lua como se estivessem acompanhando um convenio incompreensível, o companheiro Rodriguez, ocupado em moldar as orelhas de uma universitária comunista com a rouca saliva de um tango de Gardel, teve a sensação de que um catafalto lhe cortava o ar na garganta e Rosa, viúva do Gonzalez, teve que tentar cobrir com o microfone na mão o “Hosana” de Mario, trinando mais uma vez A vela com um sonsonente operático. Agitando os braços como asas de moinho, a mulher estimulou Domingo Guzmán e Pedro Alarcón a redobrarem pratos e tambores, sacurdirem maracás, soprarem trombetas, trutucas ou, em sua falta, aumentarem o som da flauta, mas o maestro Guzmán, contendo o menino Pedro com um olhar, disse: - Fique tranqüilo, maestro, que se a viúva está tão saltitante é porque agora é a vez da filha. [...] desgarrou-se o orgasmo de Beatriz em direção à noite sideral, com uma cadencia que inspirou aos casais nas dunas (“um assim, filhinho”, pediu a turista ao telegrafista), que deixou escarlates e fulgurantes as orelhas da viúva e que inspirou as seguintes palavras ao pároco, em seu desvelo lá na torre: magnificat, stabat, pange língua, dies ira, benedictus, kirieleison, angélica. Ao final do último trinado, a noite inteira pareceu umedecer e o silêncio que se seguiu teve algo de turbulento e turvo. [...]. Trechos extraídos da obra O carteiro e o poeta (Record, 1996), do escritor chileno Antonio Skarmeta.

TESTAMENTO DE ALDA LARA
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
Poema extraído da obra Poemas (Maianga, 2004), da poeta angolana Alda Lara (1930-1962). Veja mais aqui.

Veja mais:
Homenagem à professora Hilda Galindo Corrêa & o blog Profetas de amor e mais aqui, aqui, aqui & aqui.
Dia da Consciência Negra aqui, aqui & aqui.
O melhor do dia do homem é saber que todo dia é dia da mulher aqui.
Quebra de Xangô aqui & aqui.
Entrevista com a cantora Cláudia Telles aqui & mais dela aqui, aqui & aqui.
O pensamento de Jacques Maritain aqui.
A literatura de Toni Morrison aqui & aqui.
A poesia de Margaret Atwood aqui.
A arte de Alan Moore aqui.
A liteartura de Marcel Proust aqui, aqui, aqui & aqui.
A literatura de cordel de Leandro Gomes de Barros aqui & aqui.
O pensamento de Benedetto Croce aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

A ARTE DE IBERÊ CAMARGO
A arte do pintor Iberê Camargo (1914-1994).



sexta-feira, novembro 17, 2017

MOACYR SCLIAR, ESOPO, JULIETA DE GODOY LADEIRA, HENRIQUETA LISBOA, RENATA MAGDA & MARAIAL

E PRONDE É QUE VOU MESMO, HEM? - Imagem: Between the worlds, arte da pintora polonesa Renata Magda. - Nunca me dera por vexado de tudo, avalie, se bem que sempre entrei no mato longe demais, bicho solto não enxerga o rabo mesmo. Havia a impressão de atrasado, ô menino tonto sempre fora, correndo atrás e às pressas, não sei nem pra quê, coisa daquela de inheto de não parar quieto nem a pulso, só os mais velhos achando graça das minhas desmesuradas pelejadas. Tanto é que me davam por caçula de tudo, nem sabia que para quem engole corda e da muita, a queda é maior no espatifado. Apois, tá! Andejo, ah, sempre fujão pelas frestas das portas e brechas de portões dos jardins, esgueirando solto, rua acima, ladeira abaixo, peito aberto de beiço virado pronde davam as ventas. Logo cedo aprendi com as coercitivas lapadas, pisas às pinotadas, esfregões de repuxar o couro, beliscões e cascudos, dois metros de bico de quase de quase tombar: a vida não era bem o que eu pensava que fosse. Quando fui ver, quase à beira do abismo. Com a topada saía tirando fino, findava esfolado, samboque do couro pendurado no arame farpado, ronchas nos inchaços. Tive muito de torcer o nariz, fazer ouvidos de mouco, dar o braço a torcer e sair assobiando como se tudo aquilo nunca nem fora comigo, tá doido, nunca vi mais gordo, sabe, nem pintado a ouro, destá. Eu que me roía por dentro, cada um o Uriah Heep que merece, num é Dickens? Quantas bangueladas pro prêmio e, na tacada final, não era nada daquilo, fila errada, o prêmio era do outro lado. O pior era ter de encarar o insosso, nada que um esforçozinho a mais não relasse a casca da pereba por costume magoada e perenemente restaurada no machucão dolorido. Sempre atrasado, quando ia ver já era tarde, já tinham levado o que era bom, só sobravam porcarias pras trepeças, farelos de festa. Pra quem só se viu ao lado do bloco do eu sozinho, tive que me virar em ser a principal atração e a plateia, isso ao mesmo tempo! É-hé! Como? A-rá! Ora, cada um chuta o bombo por zabumba, mexe no triângulo, sopra no pife, assobia e chupa cana, pronto, está feito o xote pé-de-serra. No mais é só ficar decorando adivinhações e charadas, das que sejam mais caprichadas, sem que no final, pra mim, não sobre uma só que preste por enrascada. U-hu! De tanto insistir, foi aí que me tornei o cara mais sem graça do planeta. Eu que me importa! Só queria mesmo era mostrar o meu serviço e, se prestasse de mesmo, saísse com um trocadinho que fosse no bolso. Pois é, por isso vivi sempre liso como a moléstia que vem e volta pra sucumbir o enfermo. E ainda tem quem chegue implicando com lei disso, regra daquilo, código de ética, de postura, sanção como a praga, pra quê, porra? Ou a gente aprende a fazer direito, ou se não tem nada pra contar que fique calado! Cuidar do que fala, senão tem cada muriçoca indigesta, mosca graúda como a peste, que em boca fechada, já dizia o ditado, não entra mosquito nem pra indigestão! Tome tento! O que eu falei, está dito. Vamos pra outra! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá: The Planets Suite, St. Paul’s Suit & Symphony in F Major The Cotswolds, do compositor, arranjador e professor inglês Gustav Holst; a interpretação da violoncelista estadunidense Alisa Weilerstein para o Concerto in D Major 1 de Haydn, Variations on a Rococo Theme op. 33 de Tchaikovsly & Hindemith Cellokonzert HR Sinfonieorchester; os álbuns Perto do coração, Mantiqueira, Só Xote e Música Popular Brasileira Contemporânea do produtor musical, arranjador, instrumentista, regente e compositor Nelson Ayres; e os álbuns Cidade Blues Rock nas Ruas & Salve a beleza da cantora, compositora e jornalista Mona Gadelha. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA lua pediu à sua mãe que lhe fizesse um vestido. – Um vestido? – perguntou a mãe, espantada. – Não é possível fazer um vestido para você, minha filha. – Por que não? – Hoje você está gorda, amanhã você está magra; um dia você é lua cheia, outro dia você é lua nova. E ainda, às vezes, não é nem cheia, nem nova. Impossível fazer um vestido para alguém como você. E como a lua teimava, a mãe acabou com o assunto: - Decida a quantas anda, antes de querer um vestido. Extraída do livro Esopo: fábulas completas (Cosac Naify, 2013), do escritor grego Esopo (620 a.C. -  564 a.C.). Veja mais aqui e aqui.

UMA HISTÓRIA SOBRE A TERRA - A Terra é o nosso mundo. O mundo tem sido nosso amigo, ele nos oferece tanto... ele nos dá cada fruta gostosa, cada tarde bonitya. Aconte que o mundo vem sendo maltratado, poluído, queimado. Pensam que ele não sofre com isso? Esta é uma história que conta como a Terra anda triste, chegando a pensar até em sumir. Não some porque existe gente mais sabida, que entra na história e não deixa que isso aconteça. Nesta aventura, de muita informação, poesia e fantasia, você vai ficar sabendo mais sobre o meio em que vivemos, sobre o ar que respiramos. E sobre a arca de Noé e os astronautas. Mistura danada: não. É como a Terra. Ela gira, gira, e as coisas mais diferentes vão acontecendo. Este livro mostra que a Terra se dá bem com a Lua, os anjos e as estrelas, mas tem medo das pessoas. A ideia, então, é fazer com que ela goste da gente, sem receio. Mas para que isso aconteça é preciso cuidar dela com amor. Recebendo cuidado e atenção, a Terra será melhor para todos nós. [...]. Extraído da obra Antes que a Terra fuja: uma história pela limpeza do meio ambiente (Moderna, 2002), da escritora Julieta de Godoy Ladeira (1927-1997). Veja mais aqui.

MARAIAL – O município de Maraial está encravada numa região que possuía palmeiras deste tipo, Maraial, dando origem à sua denominação, havendo, inclusive, registros de que uma família denominada Maraiá teria sido a primeira a se extabeler naquela locadlidade. O povoado, portanto, teve inicio com a construção da ferrovia para abastecimento de trablhadoras, sendo inaugurada a estação em 1884. O distrito foi criado em 17 de dezembro de 1904, subordinado à Palmares. Em 14 de janeiro de 1913 tornou-se vila e foi elavada à categoria de município em 11 de setembro de 1928, sendo intalado em 1 de janeiro de 1929. O município é formado pelos distritos sede e Sertãozinho de Baixo e pelo povoado de Sertãozinho de Cima. Veja mais aqui.

CANIBAL - Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação. O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta. Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subseqüentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que contentava-se em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas. No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel. De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício. Bárbara observou-a em silêncio. Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc. Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas. Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc. No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro. Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho. Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas. Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor. Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação. No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida:- Foram os índios. Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade. Conto extraído da obra Melhores contos (Global, 2003), do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1927-2011) , organizado por Regina Zilbermann. Veja mais aqui e aqui.

O TEMPO É UM FIO, HENRIQUETA LISBOA
O tempo é um fio
bastante frágil
Um fio fino
que à toa escapa.
O tempo é um fio.
Tecei! Tecei!
Rendas de bilro
com gentileza.
Com mais empenho
franças espessas.
Malhas e redes
com mais astúcia.
O tempo é um fio
que vale muito.
Franças espessas
carregam frutos.
Malhas e redes
apanham peixes.
O tempo é um fio
por entre os dedos.
Escapa o fio,
perdeu-se o tempo.
Lá vai o tempo
como um farrapo
jogado à toa.
Mas ainda é tempo!
Soltai os potros
aos quatro ventos,
mandai os servos
de um pólo a outro,
vencei escarpas,
voltai com o tempo
que já se foi!…
Poema do livro Poesia Geral (Duas Cidades, 1985); da poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Veja mais aqui.

Veja mais:

O pensamento de Lev Vygotsky aqui, aqui e aqui.
A literatura de Rachel de Queiroz aqui.
O pensamento de Jakob Böehme aqui.
A arte de Auguste Rodin aqui, aqui e aqui.
A literatura de Doris Lessing aqui, aqui e aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

A ARTE DE RENATA MAGDA
A arte da pintora polonesa Renata Magda.


quinta-feira, novembro 16, 2017

FROMM, CHINUA ACHEBE, MILLÔR, JORGE FORBES, PSICANÁLISE, VIV ROSSER, SENSO COMUM, ZÉ BESTÃO & JAQUEIRA

EITA, ZÉ BESTÃO! - Zé Bestão sempre foi besta demais, pense num cara broco de tão perdido, nossa! Não conheço ninguém tão desligado na vida, chega penso que ele não é deste mundo. Será? É que ele não leva nada no olho da maldade, seja marotagem, safadeza, ardis, qualquer dissimulação pra ele é tudo no muito normal, natural. Pois é, aprontam com ele de todo jeito, pintam e bordam, armam arapuca na maior cruzeta, pintam o sete pelas costas, mandam ver se estão na esquina e ele vai, preparam a cama de gato e ele cai toda vez, fazem dele portador de carta esculhambando destinatário e ele lá esperando resposta na hora embaixo do maior esculacho, fazem tramóia e culpam ele pela desgraça do meladeiro todo, cometem desatino e dizem que foi ele, roubam, melecam, traem, passam a perna, pintam miséria e, no final, colocam a culpa nele. E ele? Pode estar no calão, ah, nem aí, nem liga, como se nem fosse com ele, riso amarelo, cara lisa, no final assume tudo, põe-se a resolver como se realmente fosse ele próprio o responsável por todos os desatinos tramados. Parece que pra ele não aconteceu nada, pois encara tão normalmente a trapaça que mais parece coisa encomendada que ele já sabia e leva com tanto afinco como se fosse labor profissional. Dá pra imaginar? Já teve gente que chegou junto dele no amiudado e delatou tudo, deram-no ciência de que armaram tudo pra cima dele, que estão sacaneando com ele o tempo todo, que isso não é justo e que ele deve tomar uma providência e desancar todo mundo que anda goelando pra cima dele e ele com a cara mais santa do mundo, simplesmente diz: Eu sei, tô sabendo, sim, na maior, saquei tudo. E não vai fazer nada? Claro, ora, vou resolver tudinho. E não vai se vingar? Pra quê? Ora, eles merecem uma boa lição. Nada, eles estão apenas brincando comigo, na maior. Ah, mas estão sacaneando com você o tempo inteiro! Nada não, isso é normal. Normal caraca nenhuma, porra! Danou-se! Esse leva desacerto de todo jeito, até Zé-Corninho tira onda pra cima dele. Pode? Oxe, leva toque de arrodeio, passa batido, paga o pato, ora, e nem aí. Leva a maior dedada até tomar no cu e nem aí. Assim não. Nunca vi sujeito mais leso na vida. Todo mundo no bloco do eu sozinho pra cima dele e ele na maior solidariedade, hem hem, botam ele no front, bucha de canhão e pronto pro fuzilamento, fazem-no de otário meio dia em ponto, deixam-no quarando em pé por horas de quase secar os cambitos esperando pelo que nunca virá, maior bobo na roda, leva e traz de vai e volta todo dia e o dia todo, encarcam sem pena, só punhalada no toitiço, golpe baixo, desfeita às escondidas, trairagem suja, não sei como ele escapa, acho que Deus protege as crianças, os doidos, os bêbados e ele! Só pode, afinal de doido e bêbado ele tem tudo, mesmo abstêmio e são do juízo. Ô Zé Bestão, cê ta pensando em quando morrer ir pro céu é? Ah, é, isso mesmo, pelo menos, quando eu morrer vou direto pro paraíso, né não? Ah, é, claro que vai e como. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Les indes galantes, do compositor francês Jean-Pierre Rameau (1683-1764); Rapsody in blue de Gershwinm, The Chopin Project & Prelude in B minor de Rachmaninoff com a pianista russa Lola Astanova; Amores absurdos e show do cantor, compositor e arranjador Celso Viáfora; e Selvática, Longe de onde & Eu menti pra você da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O senso comum contém inumeráveis interpretações pré-científicas ou quase-científicas sobre a realidade cotidiana, que admite como certas. [...]. O método que julgamos o  mais conveniente para esclarecer os fundamentos do conhecimento na vida cotidiana é o da análise fenomenológica, método puramente descritivo, e como tal “empírico” mas não “científico”. [...] A análise fenomenológica da vida cotidiana, ou melhor, da experiência subjetiva da vida cotidiana, abstém-se de qualquer hipótese causal ou genética, assim como de afirmações relativas ao status ontológico dos fenômenos analisados. [...]. Trechos extraídos de A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento (Vozes, 1973), de Peter L. Berger & Thomas Luckmann. Veja mais aqui e aqui.

JAQUEIRA - O povoado surgiu a partir de um ponto de parada dos almocreves, que eram os homens que transportavam cargas em animais para abastecer de gêneros alimentícios, vestuário e outras mercadorias para povoados, vilas e cidades da região entre a localidade de Una (hoje Palmares) e Lagoa dos Gatos, que era um centro abastecedor. Tal parada devia-se a duas jaqueiras que ofereciam uma boa sombra e tornou-se ponto de encontro entre os almocreves, gerando um pequeno comércio no local. A partir daí, surgiram as primeiras residências, durante o século XIX. A estação ferroviária em Jaqueira foi inaugurada em 28 de setembro 1883, o que integrou a vila ao litoral em Recife. Pela ferrovia a cidade passou a ser abastecida, bem como era escoada a produção de açúcar das usinas da região. O distrito foi criado em 17 de dezembro de 1904, com o nome de colônia Isabel, subordinado ao município de Palmas. Em 1911, passa a denominar-se Jaqueira e mantida subordinada ao município de Palmares. Em 1933 passa à jurisdição do município de Maraial. O município foi criado em 28 de setembro de 1995 e instalado em 1 de janeiro de 1997. Veja mais aqui.

O FALSO GRANDE AMOR – [...] O caso mais freqüente e evidente de alienação talvez seja o do falso “grande amor”. Um home apaixona-se entusiasticamente por uma mulher; depois de ter correspondido a principio, ela é tomada de crescentes dúvidas e rompe a relação. Ele é assaltado por uma depressão que quase o leva ao suicídio. A vida deixa de ter sentido para ele. Conscientemente, explica a situação como um resultado lógico do que aconteceu. Acredita que pela primeira vez sentiu um amor real, que com aquela mulher e somente com ela poderia experimentar o amor e a felicidade. Se ela o deixa, não haverá nenhuma outra pessoa que possa despertar-lhe a mesma relação. Perdendo-a, acredita ter pedido sua única oportunidade de amar. Portanto, é melhor morrer. Embora tudo isso lhe pareça convincente, seus amigos podem fazer algumas perguntas: Por que um homem que até então parecia menos capaz de amar do que a pessoa média apaixona-se de forma tão completa que prefere morrer a viver sem ser amado? Por que, estando tão enamorado, se recusa a fazer concessões, a abrir mão de certas exigências que entram em choque com as exigências da mulher amada? Por que será que, ao falar de sua perda, ele fala principalmente de si, do que lhe aconteceu, e mostra um interesse relativamente pequeno pelos sentimentos da mulher que tanto ama? Se conversarmos com o infeliz homem mais demoradamente, não nos surpreenderemos ao ouvi-lo dizer, a certa altura, que se sente completamente vazio, tão vazio como se seu coração tivesse ficado com a namorada perdida. Se ele pudesse compreender o sentido dessa afirmação, perceberia que seu sofrimento é proveniente da alienação. Jamais foi capaz de amar ativamente, de deixar o circulo mágico de seu próprio ego, de exteriorizar-se e tornar-se uno com outro ser humano. O que fez foi transferir seu anseio de amor para a moça e sentir que com ela experimentava seu “amor”, quando na realidade experimentava apenas a ilusão de amar. Quanto mais ele transfere para ela seu anseio de amor, bem como de vida, felicidade, etc., tanto mais pobre se torna e mais vazio se sente, longe dela. Estava sob a ilusão de amar, quando na realidade transformara a mulher num ídolo, na deusa do amor, e acreditava que unindo-se a ela experimentava o amor. Fora capaz de despertar nela uma reação, mas não fora capaz de superar sua própria mudez interior. Perdê-la não é perder, como ele acredita, a pessoa a quem ama, perde-se como uma pessoa potencialmente amante. [...]. Trecho extraído da obra Meu encontro com Marx e Freud (Zahar, 1969), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980). Veja mais aqui e aqui.

CULTURA, REPRESSÃO & SONHOS - [...] a repressão não destrói a representação dolorosa: mesma mantida em estado inconsciente, ela permanece ativa, tentando retornar ao sistema consciente. O resultado desse conflito, que envlve um verdadeiro jogo de forças, é a produção das chamadas formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos (ou atos falhos) e chistes (piadas e ditos de espírito) que seria frutos de uma espécie de “negociação” entre os sistemas. As representações reprimidas podem vir a ser readmitidas na consciência (retorno do reprimido), contanto que passem por um processo de deformação que as tornem irreconhecíveis, deixando assim de despertar angustia no sujeito [...]. articular a vida psíquica individual com a vida social e os limites que esta impõe ao indivíduo, a começar pela interdição do incesto. Em nome das exigências culturais, a satisfação pulsional é grandemente cerceada, inclusive em seus aspectos agressivos e destrutivos. Embora indivíduos ganhem com isso a possibilidade de conviver em grupo, ressentem-se profundamente de tais renúncias. A cultura é, pois, construída sobre a base da repressão, o que faz com que o homem cultive uma hostilidade permanente contra ela. [...]. Trechos extraídos de Luzes e sombras: Freud e o advento da psicanálise, de Inês Loureiro, extraído da obra História da psicologia: rumos e percursos (Nau, 2005), organizado por Ana Maria Jacó-Vilela, Arthur Arruda Leal Ferreira e Francisco Teixeira Portugal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O MUNDO SE DESPEDAÇA - [...] Até aquele momento, Okoye se expressara de maneira simples, mas a meia dúzia de frases seguintes tomou a forma de provérbios. Entre os ibos, a arte da conversação é tida em alto conceito, e os provérbios são o azeite de dendê com o qual as palavras são engolidas. Okoye era um grande conversador e falou durante muito tempo, dando voltas em torno do assunto até finalmente abordá‑lo. Em resumo, pedia a Unoka que lhe devolvesse os duzentos cauris que lhe emprestara havia mais de dois anos. Tão logo este percebeu aonde o amigo queria chegar, estourou em gargalhadas. Riu alto, durante muito tempo, de modo claro como o agogô, e tinha lágrimas nos olhos. O visitante, espantado, continuou sentado, sem fala. Afinal, Unoka conseguiu dar‑lhe uma resposta, entremeada de novas explosões de riso. [...]. Trecho extraído de O mundo se despedaça (Companhia das Letras, 2009), do escritor e crítico literário nigeriano Chinua Achebe (1930-2013). Veja mais aqui.

NOVIDADE, SÓ A PRIMEIRA (À VANGUARDA QUE SE CRÊ VANGUARDA) - Garanto: / o primeiro poeta que rimou / foi um espanto! / Mais, muito mais, / Meu irmão, / do que o primeiro / que não. Poema extraído do livro Poemas (L&PM, 1984), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O SILÊNCIO DAS GERAÇÕES, DE JORGE FORBES
Ex-ergo: O pai matou o filhinho; a filhinha matou o pai e a mãe; o aluno incendiou a escola; a senhora se suicidou. E todos pareciam tão sadios, iguais a toda gente! Está todo mundo perdido: maior que o medo, é o suspense. Surgem calmantes de ocasião, sempre três: psicose, moral e possessão. Voltam o chicote, as lições de moral e cívica e o ato de contrição. Um mundo reacionário se anuncia e Bush, no círculo oval de seu pensamento, reedita as peripécias do grande ditador. Oh tempos, oh costumes! O pai refestelado em sua poltrona de domingo, acabou de ouvir fantásticas explicações sobre o mundo atual. Eram três especialistas em comportamento, concordantes com a necessidade de voltar à velha disciplina: “educação se dá em casa e chinelo e palmatória não deviam estar aposentados”. Ele está mais tranqüilo; nem dormia mais direito, com medo de ser assassinado. Chegou a pensar que se existem nos aeroportos detectores de metais, como não descobriram ainda os detectores de “mentais”? Seu sonho de segurança tinha ficado abalado com aquela psiquiatra esfaqueada pela filha. – “Como é que não previu? Não era psiquiatra? Santo de casa não faz milagre”, reconfortou-se. Três dias depois, Mariana, coordenadora do Padre Félix, colégio de classe média alta dos Jardins, constata boquiaberta que mais de cinqüenta por cento dos meninos chegaram ao colégio com rosto macerado: apanharam em casa. Corre a seu supervisor – “Há um silêncio entre as gerações”, diz ele, que está difícil de ser assimilado. Não há uma só educação padrão, standard, logo, o que há são educações, no plural. E se há educações há que se escolher. Preferir uma ou outra é opção pessoal. Não há uma razão para que seja essa e não aquela. É um querer mais que um saber, e o querer não se compreende totalmente, é arbitrário. Confundem arbitrário com abuso de poder e, no entanto, arbitrário só diz daquilo que não se demonstra pela dedução. Sim, meu filho, essa é a minha opção. É claro que existem outras formas. Melhores? Não sei, pode ser, mas essa é a minha e eu sou seu pai, eu sou sua mãe. Você vai mudar de casa? Não adiantará, as opções mudam mas não o arbitrário, o silêncio da razão. Pais detestam falar assim pois invariavelmente, o filho vai dizer: “Eu não gosto de você”. Ai! Nem pai, nem professor suportam esse “eu não gosto de você”. Tratam de falar manso, buscar explicações, convencimentos, concordâncias e o que melhor conseguem é transmitir que tudo se explica, que não há limite à razão. E o filho, proibido de dizer “eu não gosto de você” vai se encharcando na angústia do ilimitado: bateu um carro? Dou outro. Perdeu um ano? Ganhou maturidade. Matou um índio? Te absolvo. Eu te compreendo em qualquer coisa, meu filho. E o filho da compreensão ilimitada se tatua: uma fronteira no corpo: se bate: um limite à expansão; mata, se droga, se mata. Não mamãe e papai, nem compreensão geral, nem palmatória. Se há uma herança digna da paternidade é a de que nem tudo se explica, não porque não se queira mas, simplesmente, por ser impossível. É, meu filho, tem um silêncio entre nós dois, a ponte da palavra não nos contém. Vamos nos perder? Pode ser que não, sobre esse silêncio podemos inventar. Teve um Drummond que de uma pedra no meio do caminho, em vez de jogá-la no outro, poetou. Teve um Chico e um Milton que cantaram uma coisa que não tem nome nem nunca terá. O limite da palavra é a invenção, é só poder suportar: melhor esse risco que a desgraça razoável. Meu filho, senta aqui, não nos compreendemos, e daí? Pôr do sol, mergulho em Fernando de Noronha, brigadeiro, beijo, avião decolando, chuva na mata, precisa de explicação? Tem tanta boa coisa no silêncio. PSIU!
Extraído da obra Você quer o que deseja? (Best Seller, 2004), do médico psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.

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A ARTE DE VIV ROSSER
Art by Viv Rosser
 

quarta-feira, novembro 15, 2017

BACHELARD, MORIN, FAYGA OSTROWER, ANA PAULA TAVARES & SIRINHAÉM

ESTRELAS, OURO & TODAS AS COISAS - Imagem: Litografia (1981), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professora e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). - Quem dera, o cansaço conciliasse o sono desgovernado das andanças de estradeiro, no galope de correr trocando as pernas na lapada do mundo ao deus-dará, já de sobreaviso e a vida no pêndulo ao derredor das circunstâncias, léguas pelos vales de porteira escancarada e o que mais poderia querer na boca da noite, afora do oco vazio prosperando a pulso e o remorso no marulhar das águas, sozinho no terraço. No meio da noite, de um lado, o esplendor da Natureza com tudo e todas as coisas; de outro, a danação da miséria: uns com tanto na servidão de suas mesquinharias e a festa de teres e haveres que são poeiras mais cedo ou mais tarde pras infelizes ganâncias; outros, com tão pouco, quase nada ou nada mesmo e sem ter pra onde ir, se um centavo era seu, por que não, de nada adianta as garras afiadas a mando do umbigo estraçalhado, coisa de quem mata por querer o do outro que não é seu para ser seu a qualquer custo e já agorinha mesmo senão eu morro com um troço atravessado no peito do desgosto. Isso não me interessa, viro pro lado e brinco de rio e mar por entrerrios e outros meios, dizeres de pedras, quantos ontens, recolho estrelas – pra que serve? Se tudo vale ou não, prossigo como quem chuta uma pedra e a estrela sentiu na estrada. A gota da minha lágrima transbordou no copo. Parece que criei meu próprio infortúnio engolfado em negros pensamentos, fraquezas, paradas, tentações. É era pro passo decisivo: não tenho mais pressa, respiro profundamente porque chegou a hora de por termo ao caos de mim mesmo. Agora, adiante. Vez em sempre, sou senhor de mim, não mais escravo do reino manifesto, nem sucumbo ao desânimo. Ouvi o chamamento da sutil e suave voz dentro de mim. Tranquilizei meu intelecto ao saciar a sede de saber, olhos no escuro, silenciei minha voz. Dentro de mim nasce o Sol na manhã e sou a Terra na imensidão do universo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Poema on Guitar, Jazz Samba & Afro-Samba, do músico e compositor Baden Powell de Aquino (1937-2000); o Concer to the memorian on the Angel Berg, Violin Bach & Ysaÿes Sonata nº 3 Balade com a violinista russa Alina Ibragimova; o Concert Chello Elga e concertos do violoncelista Antônio Meneses com a pianista Maria João Pires e a Orquestra Jovem de São Paulo; e Variations Goldberg Bach, Bethoven op. 26 e Sonata KV 279 de Mozart com a pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Devemos fazer tudo para desenvolver nossa racionalidade, mas é em seu próprio desenvolvimento que a racionalidade conhece os limites da razão e efetua seu diálogo com o irracionalizável [...] Doravante, aqui residirão nosso único fundamento e nosso único recurso possível [...] no esforço da compreensão e não da condenação, no autoexame que comporta a autocrítica e que se esforça em reconhecer a mentira para si próprio. [...]. Trechos extraídos da obra Amor, poesia, sabedoria (Bertrand Brasil, 2012), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. Veja mais aqui e aqui.

CRIAÇÃO & CRIATIVIDADE - [...] Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo de atividade, trata-se, nesse 'novo', de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar. [...] ao aprender o mundo, o homem aprenda também o próprio ato de apreensão, permite que, aprendendo, o homem compreenda [...] poderia encontrar uma pessoa na rua e nesse encontro notar certos detalhes, o tom de voz, determinados gestos, olhares, a roupa, a pressa com que caminha, ou outros aspectos isolados; talvez tais aspectos tornem o encontro significativo num sentido inteiramente imprevisto. Isto está fora das possibilidades dos animais, que reagem a situações globais concretas [...] Temos de levar em conta que uma realidade configurada exclui outras realidades, pelo menos em tempo e nível idênticos. É nesse sentido, mas só e unicamente nesse, que, no formar, todo construir é um destruir. Tudo o que num dado momento se ordena, afasta por aquele momento o resto do acontecer. É um aspecto inevitável que acompanha o criar e, apesar de seu caráter delimitador, não deveríamos ter dificuldades em apreciar suas qualificações dinâmicas. Já nos prenuncia o problema da liberdade e dos limites. [...] Criar é poder relacionar com precisão. Ou melhor ainda, criar é relacionar com adequação. O referencial dos limites permite que nos relacionamentos se use o senso de proporção, se avalie a justeza no que se faça. Se por algum motivo tivéssemos que estabelecer uma única qualificação condicional para o que é criativo, essa qualificação seria a da adequação, não seria a inovação nem a originalidade. seria a maneira justa e apropriada por que se corresponderiam as delimitações de um conteúdo expressivo e as delimitações de uma materialidade (os meios usados para se configurar). Não teríamos menos do que no caso fosse necessário, pois o resultado seria pobre, insuficiente e não-criativo, mas também não teríamos mais do que o necessário, cujo resultado por sua vez seria não-criativo no sentido de não-verdadeiro, irreal, excessivo, talvez até bombástico e vazio (consequentemente, a originalidade em si não é critério de criação) [...]. Trechos extraídos da obra Criatividade e processos de criação (Vozes, 2002), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001), trazendo um referencial da arte com temática interdisciplinar e encarando a criatividade como um potencial próprio de todos os humanos, notadamente quanto aos processos criativos que em geral importam, tais como percepção, formas, intuição e imaginação, assim como o crescimento e a maturidade das pessoas. Veja mais aqui.

A POESIA & O DIREITO DE SONHAR - [...] A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema deve dar uma visão de universo e o segredo de uma alma, ao mesmo tempo um ser e objetos. Se simplesmente segue o tempo da vida, é menos do que a vida; somente pode ser mais do que a vida se imobilizar a vida, vivendo em seu lugar a dialética das alegrias e dos pesares. Ela é então o princípio de uma simultaneidade essencial, na qual o ser mais disperso, mais desunido, conquista unidade  [...]. Trecho extraído da obra O direito de sonhar (Difel, 1986), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui e aqui.

SIRINHAÉM – O distrito de Sirinhaém foi criado por Alvará datado de 28 de junho de 1759, tinha por vila a denominação de Formosa, criada em 01 de julho de 1627, en2quanto que a Vila Formosa de Sirinhaém criada em 19 de junho de 1627 e instalada em 01 de julho de 1627. A localidade começou a povoar-se em princípios do século XVII. Em 1614, ediciou-se a capelinha de São Roque. De 1620 e 1621, já bem servida a povboação, foi levantada a igreja de Nossa Senhora da Conceicção. Em 1621’, foi elevada à categoria de fregusia, sendo constituído em município autônomo em face da Lei estadual 52 – Lei Organica do Municipios -, datada de 03 de agosto de 1892. Administrativamente, Sirinhaém é formado pelos distritos-sede, Barra de Sirinhaém e Ibiratinga, e pelos povoados da Usina Trapiche e Santo Amaro. Anualmente, no dia 06 de janeiro, comemora a sua emancipação política, conforme a Enciclopédia dos Municipios do Interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

O LAGO, DE ANA PAULA TAVARES
Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga
Poema extraído do livro Dizes-me coisas amargas como os frutos (Caminhos, 2001), da poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares. Veja mais aqui.

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A literatura de José Saramago aqui.
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A ARTE DE FAYGA OSTROWER
A arte da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professora e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). Veja mais aqui.
 

TODO DIA É DIA DO CORDEL, DA BANDEIRA & DO CANTARAU TATARITARITATÁ!

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