terça-feira, janeiro 16, 2018

BORGES, MARTHA MEDEIROS, CHLOË HANSLIP, TOYNBEE, MUMFORD, JEAN-MICHEL JARRE, JO HOWELL, CANAVIEIROS & EDUCAÇÃO AMBIENTAL

SALVE A VIDA! - Imagem: arte da artista visual e fotógrafa britânica Jo Howell. - Era cedo na vida e escurecia pra todo lado. Desde sempre aprendi com a noite. Já de dia quantas portas eu bati no meu desespero, nenhuma abriu. Um ou outro ombro amigo, vez ou outra, quando em vez. A dor era minha, paredões intransponíveis e o mundo uma caixinha de surpresas, repetia o meu nome muitas e mais de mil vezes, premido nas sombras. Era só o início e eu não sabia de nada, segredos inconfessáveis, gestos insuspeitos de degredo, porque a um só tempo ninguém sabia nada, ninguém entendia nada, ô gente mais desligada e a vida e o que der, conversa fora, lorotas, intrigas, opiniões canhestras senão equivocadas, falam de si e do que são, apenas, mais nada vale a pena, outras escuridades que eu nem sabia. Cada um sonhava mais do que podia e ainda sonham o que não podem, arrogando nobreza pra não dizer de patifarias, expunham santidades e se dizem espada da justiça, na verdade só e tão somente enredamentos malévolos pra rirem sem graça e para mostrarem o ideal do que não são, como se ricos mais abastados na soberba ao invés de miseráveis, pobres de espírito, só sabem de suas ladainhas de unhas encravadas na peleja do jogo pra gastar o tempo, a novela da desgraça alheia, o noticiário sanguinário, a dor de cotovelo, carestia na folga do domingo – aprendi a ver o pretume por trás dos agradáveis sorrisos. Pra mim, uma esfinge dita o enigma, uma cena – o blecaute do humano em nome da razão - e toda vida é só o estalar dos dedos ou basta apertar um botão, pronto, como se num toque de mágica da caligem pro céu azul ensolarado. Isso eu sabia e aprendi com a vida na cara e sei da efigie do embusteiro – pra quem vende gato por lebre, golpes na leseira alheia - e, ao menor aperto, ah, já vi muito e em todo momento cai uma e as tantas máscaras do rei ficar nu e o estupor é pra valer. Nem adianta abanar os olhos paralisados da face desmascarada, remorsos de prontidão, sequer podem levantar a vista, só ao rés do chão. Recorre-se a tudo, nada a mitigar o aturdido, o próprio nem sabe o que faz e fez. Como não tenho do que fugir já elegi a vigília dentro do meu desterro e o que virá depois é previsível por tanto golpe como se nada modificasse agora o de antes, nada deu certo, esforços inúteis, como se apenas nascesse pro arrependimento, todos nós. No mundo mesmo se tudo mudou sem medidas, nada mais que hálito de ontens, pretexto de nada. É nesse pé que as coisas estão, ao cabo de não sei quantas horas ou dias, assim o desconforto. Olho pro amanhã e sei quão grave tudo pode ser e será justo pra mim que perdi a minha mãe dentro de mim mesmo, órfão na interminável tortura e não posso me esquivar por não querer e nem ter do quê, apenas vivo e vou adiante pro que der e vier, direto ao assunto. É possível supor ser melhor agir e calar por enquanto – nem adianta falar, melhor não dizer nada pra não empiorar as coisas tão saturadas de carradas de razões e um abismo no meio entre o que é de lá e o de cá e o dali e o daqui, chegando ao ponto em que não posso mais me demorar em contornar desde já o absurdo abissal de ser eu próprio e outro e muitos que de mim emergem ao paradoxo diante de toda e qualquer rede ortodoxa, toda e qualquer insana heterodoxia. Deus salve a vida! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o instrumentista, compositor e produtor musical francês Jean-Michel Jarre Live in Monaco & The Conection Concert; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - A autocritica e a autocorreção, que são muito raras nos seres humanos e são manifestações de uma maturidade e de uma força espiritual que representam uma garantia de sucesso para o futuro. Pensamento do historiador britânico Arnold Toynbee (1889-1875).

A CIDADE – [...] devemos fortificar-nos para uma tortura: para gozá-la, devemos ficar de olhos abertos, mas aprender a fechar o nariz ao mau cheiro, os ouvidos aos berros de angústia e terror, a goela às convulsões do nosso estômago.  Acima de tudo, devemos ficar com o coração de gelo e conter qualquer impulso de ternura e piedade, com uma verdadeira rigidez romana. Todas as grandezas serão aumentadas: não menos as grandezas da mesquinhez e do mal. Apenas um símbolo pode fazer justiça ao conteúdo daquela vida: uma fossa aberta. E é pela fossa que iremos começar. [...]. Trecho extraído da obra A cidade na História (Martins Fontes, 2008), do historiador, professor, escritor e crítico literário estadunidense Lewis Mumford (1895-1990), apresentado um retrato arrojado e imaginativo do desenvolvimento humano como ser religioso, político, econômico, cultural e sexual.

DELIA ELENA SAN MARCODespedimo-nos numa das esquinas do Onze. Da outra calçada toprnei a olhar; você se tinha virado e dava-me adeus com a mão. Um rio de veículos e de gente corria entre nós; eram as cinco de uma tarde qualquer; como iria eu saber que aquele rio era o triste Aqueronte, o insuperável. Não nos vimos mais, e um ano depois você tinha morrido. E eu, agora, busco essa recordação, e olho-a e penso que era falsa, e que por trás da despedida trivial estava a infinita separação. Na noite passada não saí depois de jantar e reli, para compreender estas coisas, o último ensinamento que Platão põe na boca de seu mestre. Li que a alma pode fugir quando morre a carne. E agora não sei se a verdade está na aziaga interpretação ulterior ou na despedida inocente. Porque se as almas não morrem, é perfeitamente justo que em suas despedidas não haja ênfase. Dizer-se adeus é negar a separação, é dizer: Hoje bricarmos de nos separar, mas amanhã nos veremos. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingente e efêmeros. Delia: um dia continuaremos – junto de que rio?  - este diálogo incerto e nos perguntaremos se alguma vez, numa cidade que se perdia numa planície, fomos Borges e Delia. Entraído da obra O fazedor (Bertrand Brasil, 1987), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Veja mais aqui.

POEMA 122você pra lá com seus cachorros / sua insônia de madrugada / sua mania de roer as unhas / suas brigas pelo telefone / e seus acessos de fúria e nostalgia / eu pra cá com minhas doses de uísque / meus porta-retratos, meus diários / minha luz acesa até tarde / minha tosse e meus suspiros / meu amor e loucura, minha alergia / você pra lá com seus sonhos de cowboy / com suas entranhas, sua família / eu pra cá com minhas filhas / meus desmaios e suor / você pra lá / eu pra cá / enfim, sós. Poema extraído da Poesia reunida (L&PM, 2011), da poeta gaúcha Martha Medeiros. Veja mais aqui e aqui.

CULTURA CANAVIEIRA & MEIO AMBIENTE
[...] um resgate histórico sobre as formas de introdução da cana-de-açúcar em território nacional a partir de seus interesses mercadológicos, demarcados por uma colonização orientada pela exploração que, organizada aos moldes do plantation – monocultura, exploração e exportação – e com vistas à geração de lucro, rompeu o equilíbrio natural. A instauração da monocultura comprometeu a qualidade ambiental e humana, as quais, há mais de quinhentos anos, ainda repercutem de maneira consolidada em nossa atualidade, indicando que o passar dos anos não deu início a uma nova história. Esta é a realidade que se reflete na pele, nos corpos e nas mentes dos cortadores de cana. Estes se submetem aos limites de suas forças físicas, agora em concorrência com os caprichos da tecnologia via mecanização no campo, e acabam por recorrer, de maneira inédita ou não, à Educação de Jovens e Adultos, como fonte de alimento para novas perspectivas de vida menos degradantes do que as encontradas nos canaviais. Nesse contexto, tendo em vista a relevância de se tomar a realidade cotidiana como ponto de partida, para o desenvolvimento de percepções mais amplas acerca da problemática socioambiental, pudemos entender que a Educação Ambiental crítica e dialógica emerge como elemento primordial na construção de valores éticos, norteados por olhares políticos capazes de promover uma formação pautada no rompimento de relações exploratórias, tanto no convívio social, referente ao ser humano com o seu semelhante, quanto na apropriação desigual dos recursos ambientais. [...]
Trechos extraídos da dissertação de mestrado Educação ambiental e monocultura canavieira: desvendando a compreensão sobre a interação do ser humano com o meio ambiente em alunos da Educação de Jovens e Adultos, apresentada em 2015, pela pedagoga pós-graduada em Ética Valores e Cidadania na Escola pela USP, Simone Franzi, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Unesp. A autora é participante do Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental (Gepea). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais:
Ainda assim é uma história de amor, a literatura de Henrich Böll, a música de Mário Ficarelli & a arte de João Câmara aqui.
O culto da rosa na Crônica de amor por ela, As mil e uma noites, Ezra Pound, Almeida Prado, Heráclito de Êfeso, Dermeval Saviani, Vittorio Alfrieri, Washington Maguetas, Gilian Armstrong, Cate Blanchett, Alfred Cheney Johnston & Myrna Araujo aqui.
Gilles Deleuze, Susan Sontag, Dian Fossey, Sigourney Weaver, Washington Maguetas, João Pinheiro & Padre Bidião aqui.
Big Shit Bôbras, Cícero & Crônicas Palmarenses aqui.
Educação Cidadã: Educação para vida e para o trabalho aqui.
O sonho de Desidério aqui.
As mil faces do disfarce aqui.
A mulher fenícia & os fenícios aqui.
Sonho real amanhecido aqui.
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A ARTE DE JO HOWELL
A arte da artista visual e fotógrafa britânica Jo Howell.
 

segunda-feira, janeiro 15, 2018

CAIO ABREU, MARIANNE MOORE, BERGMAN, BOAVENTURA SANTOS, RICHARD FORD, CELSO VIÁFORA, BAHMAN JALALI & KARINA BUHR

A CHEGADA DELA E VIVI – Imagem: arte do fotógrafo iraniano Bahman Jalali (1944-2010).- O que houve não sei, nem poderia, só dela a chegada inesperada, meu coração aos pés de quase sair pela boca, a surpresa demais da conta, o vulto inteiro nada mais vi, lívido, perdido, só ela nos meus olhos parados no ar, somente ela, de nem ver fui levado mãos dadas pelas ruas e esquinas, subir a escadaria, abrir a porta e me empurrar pra cadeira e sentar atordoado como se o mundo girasse e eu extraviado de mim, cabeça a rodar e nada sabia, nem poderia embasbacado enquanto ela desafivelava o cinturão para desabotoar minhas calças e caçar o meu sexo dilatado só por vê-la inteiramente sensual e amante, a saia do vestido puxada das pernas pras coxas a me surpreender com seu ventre nu invadido por meu desejo à sua vontade. Nada sabia, nem poderia entre o espanto e o delírio fui levado por sua cavalgada, qual não fui espaventado ao seu trote ritmado até ao êxtase dos píncaros de todas as maravilhas universais, até descansar a sua cabeça ao meu ombro depois da viagem, a carícia dos meus dedos entre seus cabelos e dorso, seus devaneios abraçados a mim como desolada e à deriva encontrou, finalmente, seu porto seguro. Nada sabia, nem poderia dela me ninar a mimar da minha pele à essência, eu todo a envolvê-la desprotegida, língua a lamber seu agitado coração. Nada sabia mesmo, nem poderia e me contou dos seus dias e a eterna solidão no escuro embaraçoso, olhos de velas acesas nos castiçais e a ameaça da aranha invisível a atormentá-la. Não tenha medo, estou aqui, e me disse ao seu modo como era e tudo se repete como se nunca tivesse ocorrido, como se as narrações de Sheherazade enovelassem nossas falas e entregas, como se revivêssemos o reencontro de outras existências. Nada sabia e me falou do que não tinha mais, do que possuia de si, notícias que não tardam a chegar e os destinos são diversos nos acenos e adeuses, o destino feito de atos, erros e acertos, e tudo segue pelas triviais despedidas, nas constantes desditas. Ainda ontem ao chegar do trabalho ficou entretida arengando com as formigas malditas invasoras do seu bolo predileto, roubando-lhe até os farelos. Esconjurou, maldisse a vida e chorou sozinha num casa da sala. Não chore, estou aqui. Se nada sabia, nem poderia, ela me falou de ouvir vozes injuriosas inauditas de seres enlutados com seus rostos inexpressivos e as deferências de ocasião, as falsas amabilidades, impostores de plantão. Compungia-se com tudo, gente de conversatório cochichado, cheiradeira da vida alheia, só de ver pelas costas. Engolia esses desaforos, quanta remoeta, retalhos inúteis, ô povinho ofendido e afobado. Ah, se verdade ou exagero, era ela comigo em carne viva, beijos de sonhos na alma e eu mais rendido que nunca. Aí me pediu para eu roubar a Lua e não demorasse pra ela fazer um anel e selar nossa união ressuscitada com a quebra do feitiço de Áquila. Éramos um, corpo a corpo, nossas mãos, braços e abraços, beijo a beijo, somos um. E me contou das peraltices de infância, moça menina no vento caingang e perguntou de mim, eu sempre lembro, mas esqueço. A La Ursa com papangus quebraram o silêncio na cadência do frevo, ela nunca vira, quase amedrontada, carnaval caeté. E desandei a falar, fui tão longe, acho, muito longe, atos públicos, efemérides vazias e decadentes, era só pra salvar minha pele, nada mais que isso, fui de arranco, mesmo não sendo esse balaio todo, nem se sou protegido por qualquer anjo da guarda ou desviado arcanjo, pelas beiradas e entrelinhas o mundo todo. Já andei um bocado de légua e não cheguei a lugar algum, tenho a impressão de não ter saído do mesmo lugar até hoje. Não sei quantas vezes quase não fui fulminado por um raio, mais de uma vez, na verdade. Muita coisa de colosso eu já vi, sempre enjeitado daquele sempre a mandar lembranças, pra ver botarem depois tudo abaixo, desabado, ao emburacar no troço haviam virado a casaca, nada mais, a coisa toda espalhada, ruínas e miséria. Deixa eu cá com meu roçado, meu teretetê, a estrada é longa, o caminho esburacado e carregado de surpresas nada alvissareiras nesses tempos de desumanidade, mesmo que se vá eu vou, chego nela e tudo é real, os dentes do sorriso, o brilho do olhar. Se lá ou cá, eu sou nela, do que fui e serei, nela eu sou. Foi a chegada dela e me fez viver de verdade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com Amores absurdos e show do cantor, compositor e arranjador Celso Viáfora; e Selvática, Longe de onde & Eu menti pra você da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIANão sabemos tudo. A vida tem mais significados do que parece. É preciso estar atento. Trecho extraído da obra Uma situação difícil (L’Olivier, 1998), do escritor estadunidense Richard Ford.

CIÊNCIA & SENSO COMUM – [...] A revolução científica que atravessamos ocorre numa sociedade ela própria revolucionada pela ciência. O paradigma a emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico, tem de ser também um paradigma social, de vez que o conhecimento científico ensina a viver e traduz-se num saber prático. Consequentemente, temos de perguntar pelo papel de todo conhecimento acumulado no enriquecimento ou no empobrecimento prático das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para nossa felicidade. [...] Na ciência moderna o conhecimento avança pela especialização e o conhecimento é tanto mais rigoroso quanto mais restrito é o objeto sobre que incide... A ciência moderna legou-nos um conhecimento funcional do mundo que alargou extraordinariamente as nossas perspectivas de sobrevivência. No futuro não se tratará tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessária uma outra forma de conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos uma pessoalmente ao que estudamos. [...] A ciência pós-moderna tenta dialogar com outras formas de conhecimento e a mais importante de todas é o conhecimento do senso comum, o conhecimento vulgar e prático com que no quotidiano orientamos as nossas ações e damos sentido à nossa vida. [...]. Trechos extraídos da obra Um discurso sobre as ciências (Cortez, 2003), do jurista e professor Boaventura de Sousa Santos, também autor da obra Introdução a uma ciência pós-moderna (Graal, 2003), apresentando uma reflexão crítica com objetivo de compreender a prática científica para além da consciência ingênua, ou oficial, dos cientistas e das instituições da ciência, e aprofunda o diálogo dessa prática com as demais práticas de conhecimento de que se tecem na sociedade e no mundo. O autor submete as correntes dominantes da reflexão epistemológica sobre a ciência moderna a uma crítica sistemática, recorrendo à dupla abordagem - suspeição e recuperação. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PRELÚDIO & ALEGRO AGITATONo entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali assim que se movia. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são ou que-se-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta. [...] mas não é no cérebro que acho que tenho o câncer, doutor, é na alma, e isso não aparece em check-up algum. Mal do nosso tempo, sei, pensou, sei, agora vai desandar a tecer considerações sócio-político-psicanalíticas sobre. O Espantoso Aumento da Hipocondria Motivada Pela Paranóia dos Grandes Centros Urbanos, cara bem barbeada, boca de próteses perfeitas, uma puta certa vez disse que os médicos são os maiores tarados (talvez pela intimidade constante com a carne humana, considerou), e este? Rápido, analisou: no máximo chupar uma boceta, praticar-sexo-oral, como diria depois, escovando meticuloso suas próteses perfeitas, naturalmente que se o senhor pudesse diminuir o cigarro sempre é bom, muito leite, fervido, é claro, para evitar os cloriformes, ar puro, um pouco de exercício, cooper, quem sabe, mais pensando no futuro do que em termos imediatos, claro. Mas se o futuro, doutor, é um inevitável finalmente alguém apertou o botão e o cogumelo metálico arrancando nossas peles vivas, bateu com cuidado o cigarro no cinzeiro, um cinzeiro de metal, odiava objetos de metal, e tudo no consultório era metal cromado, fórmica, acrílico, anti-séptico, im-po-lu-to, assim o próprio médico, não ousando além do bege. Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas, peras pálidas, macilentas maçãs verdes. Nenhuma melancia escancarada, nenhuma pitanga madura, nenhuma manga molhada, nenhum morango sangrento. Um morando mofado – e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca? Azia, má digestão, sorriso complacente de dentes no mínimo trinta por cento autênticos (e o que fazer, afinal? Dançar um tango argentino, ou seria cantar? [...] tinha versos à espreita, adequados a qualquer situação, essa uma vantagem secreta sobre os outros, mas tão secreta que era também uma desvantagem, entende? Nem eu, versos emboscados da nossa mais fina lira, tangos argentinos e rocks dilacerantes, com ênfase nos solos de guitarra). Um tranquilizante levinho levinho aí umas cinco miligramas, que o senhor tome três por dia, ao acordar, após o almoço, ao deitar-se, olhos vidrados, mente quieta, coração tranquilo, sístole, pausa, diástole, pausa, sístole, pausa, diástole, sem vãs taquicardias, freio químico nas emoções. Assim passaria a movimentar-se lépido entre malinhas 007, paletós cardin, etiquetas fiorucci, suavemente drogado, demônios suficientemente adormecidos para não incomodar os outros. Proibido sentimentos, passar sentimentos, passear sentimentos desesperados de cabeça pra baixo, proibido emoções cálidas, angustias fúteis, fantasias mórbidas e memorias inúteis, um nirvana da bayer e se é bayer. [...]. Trechos extraídos da obra Morangos mofados (Agir, 2003), do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O SICÔMOROContra um céu mais escuro / vi uma girafa albina / sem folhas, a modificá-la. / Branca – camurça como disse - / embora parcialmente malhada junto à base / erguia-se sobranceira onde a corrente / de alpondras se lançava / numa torrente próxima. / Elegância capaz de despertar a inveja / de anônimos mais coloridos / Procos de Hampshire, viva pedra da sorte, / mariposa ou borboleta. / Bem: digressão, de animal a parecença - / mas não de flores que não murcham; / elas devem morrer / e um pincel de nove cabelos / do camelo fêmea ajuda a memória. / Digno de Imami - / o persa – agarrando-se a um ramo mais duro / havia uma pequenina coisa seca / da grama em forma de Cruz de Malta / retirando-se formal como a dizer: / “E ali estava eu / como um rato do campo em Versailles”. Poema da escritora modernista estadunidense Marianne Moore (1887-1972).

CENAS DE UM CASAMENTO SUECO
[...] Se não fosse por outra razão, pelo menos teria servido para irritar as pessoas artisticamente ultra-sensíveis que por aversão a esta obra, completamente compreensível, vão começar por ter vômitos estéticos já na primeira cena. O que é que resta mais para dizer? Este opus levou três meses para escrever, mas representa um período bastante longo da minha vida em experiência. Não estou certo se teria sido melhor ser ao contrário, embora talvez tivesse ficado mais refinado. Eu senti uma espécie de dedicação por esses seres humanos durante todo o tempo que trabalhei com eles. Tornaram-se bastante contraditórios, por vezes infantilmente angustiados, outras vezes bastantes adultos. Dizem um bom bocado de coisas insignificantes, por vezes dizem algo de importante. Mostram-se angustiados, felizes, tolos, bons, inteligentes, insuportáveis, e amoráveis. Tudo de uma vez só. Agora vamos ver como é que vai sair.
Trecho do prefácio da obra Cenas de um casamento sueco (Nórdica, 1975), do dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), dividido em seis cenas: Pureza e pânico, A arte de varrer para baixo do tapete, Paula, Vale de lágrimas, Os analfabetos & No meio da noite numa casa escura em algum lugar do mundo. O premiado drama intitulado originalmente como Scener ur ett äktenskap (1974), conta a vivência de 10 anos de um casal aparentemente bem-sucedidos (ele professor, ela advogada na área de direito de família), entrevistados por uma repórter para falar a respeito do sucesso do matrimônio. Depois de recepcionar um casal em crise, ela descobre que está grávida e ele não demonstra nenhum contentamento, ao mesmo tempo em que uma senhora casada há 20 anos a procura para se divorciar, motivada pela inexistência de amor no seu casamento, provocando uma atrofia nas suas emoções. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais:
Quando alguém se põe à sombra, não pode invocar o sol, o pensamento de Ralf Waldo Emerson, a música de Milena Aradski, a pintura de Paul Klee & a arte de Felicia Yng aqui.
Ainda assim é uma história de amor, a literatura de Henrich Böll, a música de Mário Ficarelli & a pintura de João Câmara aqui.
Ah, esses lábios na Crônica de amor por ela, Molière, Eduardo Souto & Clara Sverner, Tácito, Washington Irving, Gladys Nelson Smith, Carl Franklin, Meryl Streep, Renée Zellweger, Bill Ward, Argemiro Corrêa & Samdra Fayad aqui.
O culto da rosa na Crônica de amor por ela, As mil e uma noites, Ezra Pound, Almeida Prado, Heráclito de Êfeso, Dermeval Saviani, Vittorio Alfrieri, Washington Maguetas, Gilian Armstrong, Cate Blanchett, Alfred Cheney Johnston & Myrna Araujo aqui.
Cantilena na Crônica de amor por ela, Goethe, Pierre-Joseph Proudhon, Fodéba Keïta, José Régio, Alexandre Dumas Filho, Nick Cassavetes, Tears For Fears, Robin Wright, Jean-Francois Painchaud, Lev Tchistovsky & Graça Lins aqui.
Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos, Martin Luther King Jr, Débora Arango, Maria Lenk, Greta Garbo, Marie Duplessis & A dama das camélias aqui.
Gilles Deleuze, Susan Sontag, Dian Fossey, Sigourney Weaver, Washington Maguetas, João Pinheiro & Padre Bidião aqui.
Georges Bataille, John dos Passos, Heitor Villa-Lobos & Kiri Te Kanawa, Berthe Morisot, Alain Robbe-Grillet & Marie Espinosa aqui.
Cordel na escola aqui.
Cidadania & direito aqui.
Ralf Waldo Emerson, Spencer Johnson, Gabriele Muccino, Nicolletta Tomas, Monty Alexander, Felipe Cerquize, O Teatro, Nicoletta Romanoff, A escola, a sociedade e a formação humana & Onde há fumaça há fogo aqui.
A sedução da serpente aqui.
O lobisomem zonzo aqui.
Nega besta aqui.
De perto ninguém é mesmo normal aqui.
Tem dia pra tudo, até pro que eu não sei aqui.
A vida por uma peínha de nada aqui.
Big Shit Bôbras, Cícero & Crônicas Palmarenses aqui.
Educação Cidadã: Educação para vida e para o trabalho aqui.
O sonho de Desidério aqui.
As mil faces do disfarce aqui.
A mulher fenícia & os fenícios aqui.
Sonho real amanhecido aqui.
Teoria geral do crime & Direito Penal aqui.
Fecamepa; o Brasil holandês aqui.
Direito de Família, Psicologia Escolar, Pedofilia, Liderança & Psicose Puerperal aqui.
O pensamento de Darcy Ribeiro aqui.
Direito Autoral, Psicologia Social, Trabalho & Doenças Ocupacionais aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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A ARTE DE BAHMAN JALALI
A arte do fotógrafo iraniano Bahman Jalali (1944-2010).

domingo, janeiro 14, 2018

ANAIS NIN, LEWIS CARROLL, EMENDABILI, BERTHE MORISOT, RITA LEE & 35 ANOS DE ARTE CIDADÃ


RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com Rita Lee & Roberto de Carvalho & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.


O MUNDO DE ALICE – [...] Meu Deus, meu Deus! Como tudo é esquisito hoje! E ontem tudo era exatamente como de costume. Será que fui eu que mudei à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei hoje de manhã? Estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: ‘Quem é que eu sou?’. Ah, essa  é a grande charada! Trecho extraído da obra Alice no País das Maravilhas (Ática, 1989), do escritor, desenhista, fotografo e matemático Lewis Carroll (1832-1898). Veja mais aqui, aqui e aqui.


A arte do escultor ítalo-brasileiro Galileo Emendabili (1898-1974)


ALGUÉM FALOU – [...] A vida de todos os dias não me interessa. Procuro apenas os momentos elevados. Estou de acordo com os surrealistas quanto à procura do maravilhoso. Quero ser uma escritora que lembre aos outros que estes momentos existem. Quero provar que existe um espaço infinito, um sentido infinito para as coisas, uma dimensão infinita. Mas não estou naquilo que se pode chamar de estado de graça. Tenho dias de iluminação e febre. Há dias em que a música para na minha cabeça. Então remendo peúgas, limpo árvores, apanho frutos, dou brilho ao mobiliário, mas enquanto faço isto sinto que não vivo. Pensamento da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui & aqui.


Arte da pintora impressionista francesa Berthe Morisot (1841-1895). Veja mais aqui.



sábado, janeiro 13, 2018

LYGIA FAGUNDES TELLES, JOHN DONNE, BUÑUEL, RAJNEESH, PAULO BRUSCKY, YES, VALENTINA PLISHCHINA & DATAÍSMO

SEGREDO DAS VOZES INDIZÍVEIS – Imagem: Fantasy, da artista plástica e ilustradora estadunidense Valentina Plishchina.- Quem foi, tanto fui, nunca encontrei o caminho de volta, ou sequer saí de onde estou, essa a impressão que tenho. Nunca tive nada por tanto que quisera, ambicionei talvez, êxito algum. Não me queiram mal, nem me vejam de soslaio. E mais tivesse, tudo perderia na bifurcação da surpresa: o amor e situações aversivas, pêndulos sucessivos. Vi de tudo: um templo luminoso inatingível entre estrelas cadentes na minha solidão – coisa só minha -, a saudade de trilhas misturadas no labirinto da lonjura, o Sol das manhãs incendiando a pradaria do meu riso, a mula no cio da noite sem cabeça rondando minha solidão com seus terrores mais ignotos, o brejo cheio inundando o quintal para expulsar os fantasmas brincando com planetas feitos de chimbras, o lobisomem zonzo teimando artista circense pra morrer de chorar no riso, a Lua enamorada e nua soltando beijos nas minhas quimeras empacotadas de tesão, cavalo de pau a se arvorar enfrentando moinhos de folhas e flores lendárias, mané-gostoso preso na acrobacia do elástico pelo brinquedo da cambalhota e vira a virar, equilibrista no arame farpado e o rio contando história na correnteza da tarde mormaçada, os repentistas nas feiras de lama e pilhéria soltando fuxicos e a maior boataria - inverdades, salvo engano, todas acontecidas no pino do meio dia, coincidências inevitáveis pelas semelhanças de uns e outros. Apenas lembranças que saltam e se dissolvem na parede fria, esvaem-se umas às outras na perda da aventura por subidas lesivas e descidas sombrias. Prevalecem por remissão o sorriso sensual das mulheres com suas apetecidas formas e gestos, vivenciadas no anoitecer de minhas fantasias resvaladas pelo tobogã das horas, pela mão nua das linhas perdidas e apagadas pelos dedos cegos, o braço esquálido e roto, o peito de zis cicatrizes purulentas, olhos de noite a fio, lábios de sede agreste. A vontade é questão adiada e a noite desinventada é menor que o instante do vexame violentado. Sei das coisas contrárias quando menos se espera, motejo da vida pra quem nunca soube a maldição das ruínas no perde e ganha e dá volta por cima, poeira, solado e bunda no chão. Ah, se eu tivesse dobrado lá trás, seria diferente, apenas isso e eu não saberia. Quem me chamou, não ouvi, não sei, soubesse seguia assim mesmo até o reconhecimento. Outra seria, não assim ou assado. Longe o que se fez sábio caído na ignorância. Sem assombro, todo tumulto às vitrines é só o ermo do coração com tudo de novo e outra vez todo dia, tarde e noite intermináveis. E todos apostam na desgraça, torcem pelo algoz, a carne desesperada do recalcitrante desafiador, torcida pende prum lado contra a vantagem e vai pro outro se parecer desfavorável. Essa gente não sabe o que quer, se sabe é só cara ou coroa da vez e a insensatez, a favor do leão e o circo pega fogo, sem importar quem pintou a zebra ou arrancou os olhos do assum preto. Afinal, ele só canta bonito se cego. O artista só obra milagre completamente embriagado de vida e de álcool. Ah, nada demais, sei que sabem melhor que eu de mim mesmo. Amanhã estarei morto, muito provavelmente, e serei apenas um raio de memória pro esquecimento. Tudo é efêmero até sonhar na eternidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a banda britânica de rock progressivo Yes, formada por Jon Anderson (vocal), Chris Squire (baixo), Steve Howe (guitarra), Alan White (bateria), Rick Wakeman (teclados), Tony Kaye (teclados), Peter Banks (guitarra) e Bill Bruford (bateria), com apresentações de concertos e shows ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando estiver com raiva, não se concentre napessoa que despertou sua ira. Deixe-a ficar na periferia. Você apenas ficaria com mais raiva. Sinta a ira em seu todo, deixando que aconteça interiormente. Não racionaliza, não diga: “Este homem me irritou e me fez ficar com ódio”. Não condene o homem. Ele apenas se tornou a situação. Sinta gratidão por ele ter feito com que algho que estava fechado se abrisse às claras. Ele bateu em certo lugar onde uma ferida estava oculta. Agora você sabe tudo. O ódio se dissolverá. [...]. Extraído da obra Tantra, sexo & espiritualidade (Ágora, 1977), do filósofo místico Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A REVOLUÇÃO DATAÍSTA - [...] A revolução dataísta provavelmente vai durar algumas décadas, se não um século ou dois. Mas a revolução humanista não aconteceu da noite para o dia. No inicio, os homanos continuaram a acreditar em Deus e alegavam que eram sagrados porque foram criados por Deus com algum propósito divino. Só muito mais tarde algumas pessoas ousaram dizer que humanos são sagrados por direito próprio e que Deus não existe. Similarmente, a maioria dos dataístas afirma hoje que a internet de todas as coisas é sagrada porque humanos a criaram para servir a necessidades humanas. Porém, eventualmente, ela pode se tornar sagrada por direito próprio. A mudança de uma visão de mundo antropocêntrica para uma datacêntrica não será meramente uma revolução filosófica. Será uma revolução prática. Todas as revoluções realmente importantes são práticas. A ideia humanista de que “humanos inventaram Deus” foi significativa porque teve implicações práticas de longo alcance. Da mesma forma, a ideia dataísta de que “organismos são algoritmos” é significativa devido a suas conseqüências prátricas no dia a dia. Ideias só mudam o mundo quando mudam nosso comportamento. [...] Mas se realmente adotarmos uma visão realmente ampla da vida, todos os outros problemas e desenvolvimentos serão ofuscados por três processos interconectados: 1 A ciência está convergindo para um dogma que abrange tudo e que diz que organismos são algoritmos, e a vida, processamento de dados. 2 A inteligência está se desacoplando da consciência. 3. Algoritmos não conscientes mas altamente inteligentes poderão, em brevem nos conhecer melhor do que nós mesmos. Esses três processos suscitam três questões-chaves, que espero que fiquem gravadas em sua mente muito depois de você ter terminado a leitura deste livro: 1. Será que os organismos são apenas algoritmos, e a vida apenas processamento de dados? 2. O que é mais valioso – a inteligência ou a consciência? 3. O que vai acontecer à sociedade, aos políticos e à vida cotidiana quando algoritmos não conscientes mas altamente inteligentes nos conhecerem melhor do que nós nos conhecemos? Trechos extraídos da obra Homo Deus: uma breve história do amanhã (Companhia das Letras, 2016), do escritor israelense e professor ph.D em História, Yuval Noah Harari.

O ÚLTIMO SUSPIRO DE BUÑUELPassei horas deliciosas nos bares. O bar para mim é um local de meditação e de recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível. Hábito antigo que se fortaleceu com o passar dos anos. [...] Grande parte da atividade surrealista se desenvolveu no café Cyrano, na praça Balnche. [...] O bar é, ao contrário, um exercício de solidão. [...] Os que não se interessem por isto – infelizmente eles existem – que pulem algumas páginas. [...] Como certamente compreenderam, não sou um alcoólatra. É verdade que, durante toda a minha vida, em determinadas ocasiões, aconteceu que bebesse até cair. Mas a maior parte do tempo trata-se de um ritual delicado, que não proporciona uma verdadeira embriaguez, mas sim uma espécie de zonzeira, bem-estar tranqüilo que talvez se assemelhe ao efeito de uma droga leve. Isso me ajuda a viver e a trabalhar. [...] elaboramos a ideia de abrir um bar que se chamaria Au coup de Canon e que seria escandalosamente cato, o mais caro do mundo. Só haveria lá bebidas especiais, incrivelmente refinadas, vindas dos quatro cantos do mundo. Seria um bar íntimo,muito confortável, de perfeito bom gosto, é claro, com apenas umas dez mesas. Em frente à porta, a justificar o nome do estabelecimento, haveria uma antiga bombarda, com estopim e pólvora, que daria um tiro violento, a qualquer hora do dia ou da noite, cada vez que um cliente tivesse gasto mil dólares. Esse projeto sedutor, mas muito pouco democrático, nunca se realizou. Fica consignada a ideia. É interessante imaginar um modesto empregado, num prédio vizinho, acordado às quatro da manhã por um tiro de canhão, e dizendo à sua mulher, deitada ao seu lado: “Mais um patife que acaba de pagar mil dólares!”. [...]. Extraido da obra Meu último suspiro (Nova Fronteira, 1982), do controvertido cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

AS HORAS NUAS – [...] Cravo o olhar no baixo-relevo da parede onde há um jovem seminu montado num touro, agarrando-o pelos chifres. Mais próximo o ruído das suas sandálias no mármore polido. Não me volto nem mesmo quando sua mão afasta o pano que me cobre o ombro. Beija esse ombro, me toma pela cintura e colado ao meu corpo ele vai me levando adiante feito um escudo. Tombo de joelhos no leito, os cotovelos fincados no coxim. Agora ele me agarra pelos cabelos e puxa minha cabeça. Vou cedendo, o pescoço distendido em arco. Ainda não posso vê-lo colado assim às minhas costas nem me esquivar quando sua boca voraz mordeu minha nuca, devo ter gemido porque em seguida a boca procurou suavemente a minha orelha, contornou a orelha com a língua. Levantei-me de um salto mas ele me tomou com a mesma ferocidade do jovem do baixo-relevo domindo pelos chifres o touro esgazeado. Minhas pernas vão vergando submissas, escorregadias. Deixei cair a túnica e agora estamos nus e calmos, o suor correndo e se misturando. É a primeira vez, eu quis dizer para justificar minha inexperiência. Não consegui falar, inundado de um gozo tão profundo que em meio do tumulto fui tomado por um sentimento de paz. Nossas mãos se buscaram e se entrelaçaram ao longo dos corpos num aperto forte. E de novo sua voz turbilhonada e os meus soluços explodindo sem motivo, desencontradas as falas mas os corpos se encontrando e se ajustando. Eu te amo. [...]. Trecho extraído da obra As horas nuas (Nova Fronteira, 1989), da escritora premiada e membro da Academia Brasileira de Letras do Brasil e de Lisboa, Lygia Fagundes Telles. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A ISCAVem viver comigo, sê o meu amor / E alguns novos prazeres provaremos / De areias douradas e regatos de cristal / Com linhas de seda e anzóis de prata. / Aí o rio correrá murmurando, aquecido / Mais por teus olhos do que pelo sol; / E aí os peixes enamorados ficarão / Suplicando a si próprios poder trair. / Quando tu nadares nesse banho de vida / Cada peixe, dos que todos os canais possuem, / Nadará amorosamente para ti, / Mais feliz por te apanhar, que tu a ele. / Se, sendo vista assim, fores censurada / Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás; / E se me for dada licença para olhar / Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti. / Deixa que outros gelem com canas de pesca / E cortem as suas pernas em conchas e algas; / Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes / Com engodos sufocantes, ou redes de calado. / Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso / Arranquem os cardumes acamados em baixios; / Ou que traidores curiosos, com moscas de seda / Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes, / Porque tu não precisas de tais enganos, / Pois que tu própria és a tua própria isca, / E o peixe que não seja por ti apanhado, / Ah!, é muito mais sensato do que eu. Poema do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE PAULO BRUSCKY
A arte do artista multimídia Paulo Bruscky. Veja mais aqui.

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ARTE DE VALENTINA PLISHCHINA
A arte da artista plástica e ilustradora estadunidense Valentina Plishchina.

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