terça-feira, julho 17, 2018

DRUMMOND, PRIGOGINE, CLARA SCHUMANN, PAULO MENDES CAMPOS, EMMELINE PANKHURST, PALADE, MARIE-HÉLÈNE SIROIS & FESTIVAL DE CURTA


CLARA, ÚNICO AMOR - Imagem: Clara Wieek, arte da artista visual canadense Marie-Hélène Sirois. - Clara de todas as teclas nos exímios dedos, talento de berço, nutria paixão infantil pelo aluno saxão de seu pai, teimando em não saber se ele seguia pelas leis ou tons na indecisão da vida em Lipsia. Tudo era apaixonante naquele estranho jovem órfão com seus olhos de sonhos e poucas palavras na sensibilidade melancólica aos devaneios insatisfeitos improvisados de poesia exaltada. Ele se decide por Leipzig e depois Heidelberg formar-se advogado e, ao encontrar Thibaut, as hesitações da mãe dele são vencidas e retorna a Lipsia para novos pesares atormentadores, misturando desencorajamento com a ânsia de glória, bebida e crises depressivas, o fumo e a incerteza, tudo desabonava sua reputação. Clara orgulho de pai sabia dos salões por viagens de recitais nas partituras, empolgada pela genialidade poética daquele jovem aluno de seu pai, agigantando o seu prodígio nas entrelinhas do diário com um presente de sua composição musical prometido praquele estranho que morava na sua casa. Eis que ele se enamora da Ernestina no desejo de esposá-la, todavia é pra Clara que ele destina os tesouros de sua alma transbordante num intenso amor. O velho professor Wieek tinha outros planos pro futuro da filha, afastando-a para Dresden. Golpe duro no coração daquele enamorado, e ele pede, então, a mão dela ao pai pela primeira vez e foi negado o amor agora sofrimento incessante de saudade noitedia. Na distância ela arranja um namorado, o que o faz explodir de ira até conseguir desfazer aquele idílio e as pazes por apaixonadas juras de amor. Ele pede a mão dela ao pai pela segunda vez e o amor lhe foi negado outra vez para desespero da alma daquele poeta que compõe febrilmente canções. Afastada daquele apaixonado, novamente ela encontra outro amor para desastre da paixão que parte para Viena com todas as dores da plangente Humoreske, a ela dedicada. Aí pela terceira vez pede a mão dela e o amor negado agora em excursão por Paris, recorre aos tribunais sob calúnias e abjeções, e o casamento enfim a glória, as oito gestações não a permitiam compor nem colaborar com o marido divulgando sua arte. Mesmo assim abdicou de sua criação, agora ela própria em segundo plano, para se dedicar integralmente na promoção da dele. Enquanto ela adorava turnês, ele o silêncio e as crises nervosas da melancolia psicótica, a nota lá dominante martelando seus ouvidos aonde quer que fosse. Seguiam a desconhecer da asa negra da tragédia na estridente monotonia dos tímpanos que o leva à tortura das alucinações, à loucura e tentativa de suicídio. Ao interná-lo com depressão crônica num manicômio de Endenich, ela seguia sozinha pelo caminho de Düsseldorf que deu Johannes o seu sustentáculo pro resto da vida. O amigo alisa seus seios na intimidade e um pacto de fidelidade ao doente é selado, enquanto os excessivos treinos do tratamento multimodal levavam-na à síndrome de dor crônica, dela quase sucumbir junto com marido à sepultura. Enviuvou e manteve-se fiel à sua memória, respeitada por Johannes. Ela era até os seus últimos dias a única musa nas harmonias imortais de um único amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da pianista e compositora alemã Clara Schumann (1819-1896): Piano Works, Piano Concert in A minor Op. 7, Klaviertrio in G moll Op. 17 & Piano Trio in G minor – em sua homenagem foi realizado o drama musical Clara (2008), dirigido por Helma Sanders Brahms & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que sei? Minha resposta é clara: muito pouca coisa [...] A visão clássica associava a ciência a certeza. A suprema glória da razão humana parecia ligada à possibilidade de atingir a certeza. Muito pelo contrário, creio que a ideia de certeza conduz a contradições. [...]. Pensamento do químico russo Prêmio Nobel de Quimica de 1977, Ilya Prigogine (1917-2003), Veja mais aqui.

NÃO PARAMOS DE PERGUNTAR - A questão “o que não sei?”, participa estreitamente da vida de todo pesquisador. Cada descoberta nova – o que significa cada elemento novo de conhecimento – constitui uma etapa que obriga a nos interrogarmos uma vez mais. O processo científico é uma longa cadeia de interrogações. Cada questão que encontrou sua resposta abre novo campo de investigação a explorar. O programa avança lentamente em direção a uma resposta final ainda desconhecida. Se todos os cientistas fazem perguntas específicas no quadro de seu programa de pesquisa, raros são os que se arriscam a ampliar suas investigações a um campo ou a um ramo da ciência. Os pesquisadores de hoje são formados para avançar passo a passo, com lentidão e precaução, a fim de evitar fazer perguntas de ordem geral, exceto se possuem boas razões e bons instrumentos para isso. No entanto, os que estendem suas interrogações ao domínio geral se encontram muitas vezes na origem das aberturas científicas maiores. Não paramos de nos perguntar quais eram as coisas que não sabíamos e que queríamos compreender. [...] Ao mesmo tempo conseguimos fornecer inúmeras respostas assumidas e aceitáveis. No entanto, muitas coisas permanecem ainda na sombra. Gostaríamos de saber como as células e seus componentes se adaptam a novas circunstâncias e como elas corrigem os desequilíbrios. Estima-se entre 100 e 200 mil números de genes que formam o genoma humano – o código genético que condiciona nosso desenvolvimento e nossas particularidades. Mesmo nos pequenos mamíferos de laboratório, esse número é considerável. Gostaríamos de saber quantos genes são necessários para construir uma célula pancreática e quantos para construir um pâncreas. E, na mesma ordem de ideias, gostaríamos de saber quantos genes são necessários para fabricar um rim ou um cérebro. O número de perguntas sem respostas que nos fazemos é infinito. No entanto, responder a essas questões equivaleria a privilegiar o conhecimento por amor ao conhecimento. Mas em um futuro mais ou menos próximo poderíamos chegar a identificar os genes que condicionam um desenvolvimento normal. Trecho extraído do artigo Não paramos de perguntar (Folha de S. Paulo, em 26 de março de 1995.), do biólogo romeno e prêmio Nobel de Medicina em 1974, George Palade (1912-2008). Veja mais aqui.

O MÉDICO E O MONSTRO - Avental branco, pincenê vermelho, bigodes azuis, ei-lo, grave, aplicando sobre o peito descoberto duma criancinha um estetoscópio, e depois a injeção que a enfermeira lhe passa. O avental na verdade é uma camisa de homem adulto a bater-lhe pelos joelhos; os bigodes foram pintados por sua irmã, a enfermeira; a criancinha é uma boneca de olhos cerúleos, mas já meio careca, que atende pelo nome de Rosinha; os instrumentos para exame e cirurgia saem duma caixinha de brinquedos. Ela, seis anos e meio; o doutor tem cinco. Enquanto trabalham, a enfermeira presta informações: – Esta menina é boba mesmo, não gosta de injeção, nem de vitamina, mas a irmãzinha dela adora. O médico segura o microscópio, focaliza-o dentro da boca de Rosinha, pede uma colher, manda a paciente dizer aaá. Rosinha diz aaá pelos lábios da enfermeira. O médico apanha o pincenê, que escorreu de seu nariz, rabisca uma receita, enquanto a enfermeira continua: – O senhor pode dar injeção que eu faço ela tomar de qualquer jeito, porque é claro que se ela não quiser, né, vai ficar muito magrinha que até o vento carrega. O médico, no entanto, prefere enrolar uma gaze em torno do pescoço da boneca, diagnosticando: – Mordida de leão. – Mordida de leão? – pergunta, desapontada, a enfermeira, para logo aceitar este faz-de-conta dentro do outro faz-de-conta. – Eu já disse tanto, meu Deus, para essa garota não ir na floresta brincar com Chapeuzinho Vermelho... Novos clientes desfilam pela clínica: uma baiana de acarajé, um urso muito resfriado, porque só gostava de neve, um cachorro atropelado por lotação, outras bonecas de vários tamanhos, um Papai Noel, uma bola de borracha e até mesmo o pai e a mãe do médico e da enfermeira. De repente, o médico diz que está com sede e corre para a cozinha, apertando o pincenê contra o rosto. A mãe se aproveita disso para dar um beijo violento no seu amor de filho e também para preparar-lhe um copázio de vitaminas: tomate, cenoura, maçã, banana, limão, laranja e aveia. O famoso pediatra, com um esgar colérico, recusa a formidável droga. – Tem de tomar, senão quem acaba no médico é você mesmo, doutor. Ele implora em vão por uma bebida mais inócua. O copo é levado com energia aos seus lábios, a beberagem é provada com uma careta. Em seguida, propõe um trato: – Só se você depois me der um sorvete. A terrível mistura é sorvida com dificuldade e repugnância, seus olhos se alteram nas órbitas, um engasgo devolve o restinho. A operação durou um quarto de hora. A mãe recolhe o copo vazio com a alegria da vitória e aplica no menino uma palmadinha carinhosa, revidada com a ameaça dum chute. Já estamos a essa altura, como não podia deixar de ser, presenciando a metamorfose do médico em monstro. Ao passar zunindo pela sala, o pincenê e o avental são atirados sobre o tapete com um gesto desabrido. Do antigo médico resta um lindo bigode azul. De máscara preta e espada, Mr. Hyde penetra no quarto, onde a doce enfermeira continua a brincar, e desfaz com uma espadeirada todo o consultório: microscópio, estetoscópio, remédios, seringa, termômetro, tesoura, gaze, esparadrapo, bonecas, tudo se derrama pelo chão. A enfermeira dá um grito de horror e começa a chorar nervosamente. O monstro, exultante, espeta-lhe a espada na barriga e brada: – Eu sou o Demônio do Deserto! Ainda sob o efeito das vitaminas, preso na solidão escura do mal, desatento a qualquer autoridade materna ou paterna, com o diabo no corpo, o monstro vai espalhando terror a seu redor: é a televisão ligada ao máximo, é o divã massacrado sob os seus pés, é uma corneta indo tinir no ouvido da cozinheira, um vaso quebrado, uma cortina que se despenca, um grito, um uivo, um rugido animal, é o doce derramado, a torneira inundando o banheiro, a revista nova dilacerada, é, enfim, o flagelo à solta no sexto andar dum apartamento carioca. Subitamente, o monstro se acalma. Suado e ofegante, senta-se sobre os joelhos do pai, pedindo com doçura que conte uma história ou lhe compre um carneirinho de verdade. E a paz e a ternura de novo abrem suas asas num lar ameaçado pelas forças do mal. Crônica do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui e aqui.

PROCURA DA POESIANão faças versos sobre acontecimentos. / Não há criação nem morte perante a poesia. / Diante dela, a vida é um sol estático,/ não aquece nem ilumina. / As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. / Não faças poesia com o corpo, / esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. / Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro / são indiferentes. / Não me reveles teus sentimentos, / que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. / O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. / Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. / O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. / Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. / O canto não é a natureza / nem os homens em sociedade. / Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. / A poesia (não tires poesia das coisas) / elide sujeito e objeto. / Não dramatizes, não invoques, / não indagues. Não percas tempo em mentir. / Não te aborreças. / Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, / vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família / desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável. / Não recomponhas / tua sepultada e merencória infância. / Não osciles entre o espelho e a / memória em dissipação. / Que se dissipou, não era poesia. / Que se partiu, cristal não era. / Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intata. / Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. / Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. / Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. / Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio. / Não forces o poema a desprender-se do limbo. / Não colhas no chão o poema que se perdeu. / Não adules o poema. Aceita-o / como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada / no espaço. / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível que lhe deres: / Trouxeste a chave? / Repara: / ermas de melodia e conceito / elas se refugiaram na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas de sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Poema extraído da obra A rosa do povo (Record, 1989), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Veja mais aqui e aqui.

AS SUFRAGISTAS
Nós não queremos quebrar as leis. Nós queremos fazer as leis
Frase da ativista britânica Emmeline Pankhurst (1858-1928), que embasa o drama longa-metragem As sufragistas (2015), dirigido por Sarah Gravon, delicado por apresentar defeitos que ferem a luta por um feminismo interseccional e respeitoso quanto ao lugar de fala de cada mulher dentro da pirâmide social. Trata-se de um grito por representatividade, marcando o início da luta do movimento feminista e os métodos incomuns de batalha, a história das mulheres que enfrentaram seus limites na luta por igualdade e pelo direito de voto, resistindo à opressão de forma passiva, mas, a partir do momento em que começaram a sofrer uma crescente agressão da polícia, decidiram se rebelar publicamente. Veja mais aqui e aqui.

Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte da artista visual canadense Marie-Hélène Sirois.
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Domingo na Massagueira, a literatura de Moacyr Scliar, O envenenamento mental de Harvey Spencer Lewis, a arte de Henry Yan, a música de Cláudia Telles, Elis Regina, Al Di Meola & Felipe Coelho aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

segunda-feira, julho 16, 2018

DERRIDA, ZATZ, RUBEM ALVES, ROSALIA DE CASTRO, BEETHOVEN, KLIMT, SCHÖNBERG, LOJA DE RÉPTEIS, BOZ VAKHSHORI & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


A ARTE PARA IMORTAL AMADA – Imagem: art by Boz Vakhshori. - Os tons e a surdez: restava mais nada, a vida era só um detalhe de Deus. Desde muito jovem condenado por Albrechtsberger: nunca aprendeu nem aprenderá, é um caso perdido. Jovem leão enjaulado, nada mais que um louco espanhol do gênio fogoso e língua mordaz: um campônio que desbancava a etiqueta da nobreza à custa de suas próprias mãos: príncipes, muitos; gênio, só eu. Umas poucas mordidas de mosquitos jamais poderão sofrear um garanhão, mesmo com os sintomas da surdez à flor da idade: a solidão é a minha religião. Saía à conquista das damas do remoinho social de Viena, com as cartas de plebeu e suas queixas inconsoláveis para Amada Imortal que pedia fizesse tudo para que ela pudesse viver com ele. Harmonias e melodias cresceram: Für Elise – à cantora de ópera Elisabeth Röckel do pedido de casamento malogrado; a frágil Antonie Brentano, Madalena Willmann, Josephine Brunsvik, outras tantas e muitas, elas sabiam: não se flerta com um Deus feio e surdo. Para ele, devia viver como exilado: vagar para longe sem rumo, até que possa voar em teus braços, e possa dizer que estou inteiramente em casa contigo, permanecendo meu fiel e único tesouro. Eis daí o cântico da liberdade Fidelio baseado em Bouilly; as sonatas, ao Luar no Lago Lucerna suíço, quase uma fantasia melancólica; a Patética, Appassionata, trinta e duas ao todo, mais Concertos, Oratórios, Missas, Quartetos, Septeto, Trios, Missas, Fantasias, Bagatelas, Lieds à amada longínqua, todas com tragicidade profunda e humorismo exuberante. Vieram sinfonias, a primeira, a gênese; a segunda, o horrível dragão que se retorce negando-se a expirar; a revolução ternária da terceira, interpretando as ideias de Deus; o eterno mistério da quarta, o amor, a paixão e a dúvida existencial; a do Destino, Eroica, em memória de um grande homem e sua obsessão Liberté, Égalité, Fraternité; a sexta Pastoral, o citadino que vai para o campo e mergulha em sentimentos bucólicos, a tempestade e o Hino de Ação de Graças; a poética sétima explorando todos os níveis da consciência de si mesmo; a emancipação da oitava, a transformação; a sublime elevação fraternal da nona: foi para isso que Deus criou o mundo! Com os versos da Ode à Alegria de Schiller e a chegada da fictícia copista Anna Holz, o segredo. Se não fosse A raiva pelo tostão perdido - rondó em sol maior, e o Testamento de Heiligenstadt para Caspar e Nicolaus, nunca enviado e guardado na gaveta, a depressão e suicídio que levaram o eremita rebelde na casca da rudeza, um hipocondríaco: devo a mim mesmo, ao gênero humano e ao Todo-Poderoso, a arte apenas me susteve. É que a felicidade não foi feita para ele: não fui feito pra felicidade, quem sente intensamente, sofre intensamente. A felicidade do artista está dentro dele mesmo porque a arte justifica o sofrimento da vida: Sede abraçados pelo amor, milhões! Aí vai um beijo para o mundo inteiro, a tônica da vida é o amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor alemão Arnold Schönberg (1874-1952): Pierrot Lunaire, Transfugured Night for String Sextet op. 4, Verkl&arte Nacht op 4 & Pélleas und Melisande op 5 & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Onde e como se produz esse descentramento como pensamento da estruturalidade da estrutura? Para designar esta produção, seria algum tanto ingênuo referirmo-nos a um acontecimento, a uma doutrina ou ao nome de um autor. Esta produção pertence certamente à totalidade de uma época, que é a nossa,  mas ela já começou há muito a anunciar-se e a trabalhar. [...] Se a totalização não tem sentido, não é porque a infinidade de um campo não possa ser coberta por um olhar ou um discurso finitos, mas porque a natureza do campo – a saber, uma linguagem e uma linguagem infinita – exclui a totalização. [...] Este campo permite estas substituições infinitas porque, em vez de ser um campo inesgotável, como na hipótese clássica, em vez de ser demasiado grande, lhe falta alguma coisa, a saber, um centro que detenha e funde o jogo das substituições. [...]. Trechos extraídos da obra A escritura e a diferença (Perspectiva, 2002), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui.

AVANÇOS & RETROCESSOS: CIÊNCIA & RELIGIÃO - [...] Desde o início de 2004, as notícias sobre células-tronco têm sido animadoras: pacientes são tratados, pesquisadores coreanos têm sucesso na clonagem terapêutica, células-tronco embrionárias formam neurônios. Enquanto a ciência avança a passos gigantescos no exterior, o Brasil luta para conseguir iniciar pesquisas com células-tronco embrionárias. Conseguiremos recuperar o tempo perdido? [...] O que precisa ser desmistificado? Por que as células-tronco embrionárias são tão importantes? Somente as células-tronco embrionárias são pluripotentes. [...] A esperança é que inúmeras condições, muitas delas letais na infância ou no início da idade adulta, tais como algumas doenças neuromusculares, diabetes, mal de Parkinson, lesões de medula possam ser tratadas pela substituição ou correção de células ou tecidos defeituosos. [...]. Mas, para chegar lá, ainda temos inúmeros obstáculos a vencer. [...] Utilizar células-tronco de embriões congelados equivale a um aborto, afirmam alguns grupos religiosos. Definitivamente não! No aborto provocado, interrompe-se a vida de um feto que está dentro do útero da mãe. Já no caso de embriões congelados em um tubo de ensaio nas clínicas de fertilização, não há chance de vida se não houver introdução do embrião dentro do útero. Na prática, esses embriões ficam congelados por anos, tornam-se inviáveis e são descartados. Do ponto de vista científico, a grande vantagem das células-tronco retiradas de um embrião congelado é que, até a fase de cento e poucas células, elas são pluripotentes. [...] A expectativa de um tratamento para inúmeros pacientes condenados deve estar acima de dogmas religiosos. [...]. Trechos extraídos de Conseguiremos recuperar o tempo perdido? (Folha de São Paulo, 2005), da bióloga molecular e geneticista Mayana Zatz, Veja mais aqui.

CENAS DA VIDA – [...] Na verdade, acho que não existe povo no Brasil. Somos um bando de bois e vacas infestados por bernes gordos que não saem de nossas costas. Santo Agostinho disse que “povo é um conjunto de pessoas racionais unidas pelo mesmo sonho”. O Geraldo Vandré disse a mesma coisa, com poesia diferente: “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. É isso: há de haver uma canção que todos cantam e que indica o caminho. O Chico, nos anos de ditadura, esperto como ele só, falou de um jeito que os milicos não entenderam (milicos e cientistas são duros de entender metáfora. Sobre os milicos eu já sabia. Sobre os cientistas aprendi na última reunião da SBPC). Falou de uma Banda. “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Aí ele desanda a falar do faroleiro que contava vantagem, da namorada que contava as estrelas, do homem rico que contava o dinheiro, da moça feia debruçada na janela, cada um com o seu sonho pequeno. Mas foi só a Banda tocar para que cada um deles se esquecesse dos sonhos pequenos por amor ao sonho grande. Começaram a seguir a Banda: viraram povo. Um povo nasce quando as pessoas trocam seus sonhos pequenos (individuais) por um sonho grande (comum). Um líder político é aquele que ajuda um povo a nascer. Mas um povo só nasce quando os indivíduos são seduzidos por um sonho de beleza. A beleza do sonho é a comida que mantém a vida do povo. [...] Que sonho temos? Moeda estável, sem inflação? Mas isso não é sonho que chegue para formar um povo. É verdade que inflação é barco furado. Com barco furado não se navega. Verdade é também que moeda estável é barco sem furo. Mas barco sem furo não basta pra navegar. Pra navegar é preciso sonhar com um porto. Esse porto, na linguagem da política, tem o nome de utopia. Vão me dizer que utopias são inatingíveis. [...] A mágica presença das estrelas! É isso que os políticos nos roubaram. Os povos estão sempre dispostos a passar pelas mais duras provações, desde que essas mesmas provações tenham um sentido: as dores de parto são bem-vindas pelo filho que vai nascer. O presidente se esqueceu do povo. O povo não é o seu “outros significantes”. Por isso ele não gasta tempo para fazer o povo sonhar. Estamos “desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor…”. O tempo da ditadura era noite. Mas no céu havia estrelas. Eu sonhava. Veio o dia. Mas a noite continuou. Céu sem estrelas. Já não sonhamos. Resta-nos a dura vida sem sonhos. [...]. Trechos da crônica O fim da banda, extraído da obra Cenas da vida (Papirus/Speculum, 1997), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMASCANTIGA: Eu cantar, cantar, cantei; / a graça não era muita, / pois nunca por meu pesar, / fui eu menina graciosa. / Cantei como foi possível, / dando voltas e mais voltas / assim como quem não sabe / perfeitamente uma cousa. / Porém depois de mansinho / e um pouco mais alto agora, / fui soltando essas cantigas / como quem não quer a cousa. / Eu bem quisera, é verdade, / que elas fossem mais bonitas; / eu bem quisera que nelas / bailasse o sol com as pombas, / as brancas águas com a luz, / e os ares mansos com as rosas. / Que nelas claras se vissem / a espuma das verdes ondas, / do céu as brancas estrelas / da terá as plantas formosas, / as névoas de cor sombria / que lá nas montanhas voam; / os pios do triste mocho, / as campainhas que dobram / a primavera que ri, / e os passarinhos que voam. / E canta que canta, enquanto / os corações tristes choram. / Isto e ainda mais quisera / dizer com língua graciosa; / mas onde a graça me falta, / o sentimento me sobra. / Entretanto isto não basta / par explicar certas cousas / que, às vezes, por fora um canta / enquanto por dentro chora./ Não me expliquei qual quisera: / sou de pouca explicação; / se graça em cantar não tenho, / o amor da terra me afoga. / Eu cantar, cantar, cantei, / a graça não era muita, / mas que fazer —  desgraçada! — / se não nasci mais graciosa. AONDE IREI COMIGO? ONDE ME ESCONDEREI? - Aonde irei comigo? Onde me esconderei, / que já ninguém me veja e eu não veja ninguém? / A luz do dia assombra-me, pasma-me a das estrelas, / e os olhares dos homens na alma me penetram. / Pois o que guardo dentro em mim penso que ao rosto / me sai, como do mar ao fim um corpo morto / Houvesse, e que saísse!...; mas não, te levo dentro, / fantasma pavoroso dos meus remordimentos! Poemas da escritora espanhola Rosalia de Castro (1837-1885)

LOJA DE RÉPTEIS
O curta-metragem Loja de Répteis, do cineasta Pedro Severien, é um drama psicológico que conta a história que se passa no Recife, de horror expressionista vivida por um casal, um dono de loja de repteis e sua esposa, que é quieto e mantem uma estranha conexão com os animais, e ela está disposta a se livrar daquilo

Os livros ID & A poesia salva a alma & muito mais na Agenda aqui.
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A música de Beethoven aqui, aqui, aqui e aqui
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Ele via a mulher como um ser superior, uma figura dominante que estava acima dos homens. As mulheres retratadas quase sempre são poderosas – mesmo quando as retrata aparentemente submissas, parece uma concessão que a mulher fez como um gesto nobre a fraqueza masculina em resistir ao seu poder.
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e sua eterna musa inspiradora, a designer de moda e empresária austríaca Emilie Louise Flöge (1874-1953) aqui.
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Porque era sábado no Una, Mal de Arquivo de Jacques Derrida, Guido Bilharinho, o teatro Oficina de José Celso Martinez Correa, a arte de Hamid Zavareei, a música de Paulo Moura, Eugénia Melo e Castro, Pat Metheny & Tomoko Mukaiyama aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

sexta-feira, julho 13, 2018

CLARICE, JOCY OLIVEIRA, AGOSTINHO SILVA, GORDIMER, WOLE SOYINKA, BRANDEN & GENÉSIO CAVALCANTI


OS OLHOS DE CLARICE - Ao mergulhar nos olhos crepusculares de Clarice, ainda não era noite e eu não tinha mais que dezessete anos de idade, a minha nada lisonjeira adolescência. Descobri no seu olhar oceânico o faroleiro caleidoscópico de antes da pré-história da pré-história da pré-história em que fui menino no meio nada. Para não me perder nos desvãos da sina, ela tomou minhas mãos e levou-me por ermas paragens da cidade sitiada na desaparição de tudo. Nada via pela íngreme vertigem de seus mistérios, até à beira do precipício. Convidou-me a pular, ela comigo. E diante dos laços de família esgarçados na minha solidão perene, abraçou-me acendendo o lustre e era o oásis do seu quarto pra guarida do meu desassossego. Deitou-me qual criança exaltada de temores e pra visão do esplendor ela se despiu como a mãe que se banha sem perder o filho de vista. Deitou-se com o aroma incensado de sua carne fresca, minha cabeça ao seu ombro, alisando meus cabelos, beijando-me as faces na minha felicidade clandestina. Achegou-se mais e sua pele na minha pele, senti seu ventre quente na via-crucis do corpo. Era quase de verdade, como se sonho que sonha real nos ponteiros loucos do tempo, a me mostrar da água viva e da legião estrangeira, a maçã no escuro, e eu a revolver seus mares, constelações e galáxias, até bem perto do coração selvagem. A cada beijo para não esquecer, mais me abraçava com as pulsações de um sopro de vida, a ensinar a imitação da rosa de corpo inteiro. E me contou histórias da mulher que matou os peixes, o mistério do coelhinho pensante, a bela e a fera, a vida íntima de Laura, a paixão segundo G. H., para que eu adormecesse sobre seus seios nus, uma aprendizagem no livro dos prazeres. À hora da estrela perguntou por onde estive nas noites de antes e sem me deixar dizer nada,  me falou da morte em pleno dezembro e que ia morrer dali a pouco pra guardar o seu momento pra mim. Eu tinha apenas dezessete anos e ela prestes a morrer na hora chegada e eu soubesse ela viva para sempre em mim no seu silêncio inatingível. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da compositora, pianista e escritora Jocy de Oliveira: Estórias para voz, instrumentos acústicos e eletrônicos, Noturno de um piano, Esferas rítmicas & Revisinting Stravinsky & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O amor é uma criação de beleza, [...]. E quando o amor surge é uma obra de arte e o criador tem com ele todos os cuidados que se tem com uma obra de arte [...]. Pensamento extraído da obra Educação de Portugal (Ulmeiro, 1990), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994), que em outra obra, Vida conversável (NEP/ CEAM/UnB, 1994), expressou que: [...] a capacidade de contemplação e de criação do homem, aproveitando tudo aquilo que foi feito com o sacrifício dos trabalhadores durante séculos e séculos. [...] esperança de que se estabeleça na Terra um paraíso terreal, de que, pela meditação, os homens cheguem a um tempo em que o paraíso terreal e o espiritual, o do Céu, sejam exatamente a mesma coisa [...] em que o homem deixa que brote de si tudo quanto é de possibilidade divina ao mesmo tempo que não perde nada da sua humanidade [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

AUTOESTIMA & HOJE – [...] A turbulência de nossa época exige indivíduos fortes, com um claro senso de identidade, competência e valor. Diante do colapso do consenso cultural, da falta de modelos de papéis dignos, das poucas coisas públicas que inspirem nossa fidelidade, e das rápidas e desorientadoras mudanças que são a feição permanente de nossa vida, é perigoso não saber, neste momento de nossa história, quem somos, ou não confiarmos em nós mesmos. A estabilidade que não podemos encontrar no mundo terá que ser criada dentro de cada um. Enfrentar a vida com baixa autoestima é estar em séria desvantagem [...] A mente que confia em si mesma não pesa sobre os pés.[...] a confiança em nossa capacidade de pensar; confiança em nossa habilidade de dar conta dos desafios básicos da vida; e confiança em nosso direito de vencer e sermos felizes; a sensação de que temos valor, e de que merecemos e podemos afirmar nossas necessidades e aquilo que queremos, alcançar nossas metas e colher frutos de nossos esforços [...] O que hoje se necessita e se exige, numa era de trabalhadores inteligentes, não é a obediência robotizada, mas pessoas que possam pensar.[...]. Trechos extraídos da obra Autoestima e seus seis pilares (Saraiva, 2002), do escritor e psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden (1930-2014). Veja mais aqui.

O MELHOR TEMPO É O PRESENTE – [...] Ela era negra, ele era branco. Nada mais importava. Identidade era só isso, naquele tempo. Simples como as letras negras nesta página branca. Por causa dessas duas identidades, eles transgrediam. E conseguiram se dar bem, mais ou menos. Não eram tão visíveis, nem politicamente tão conhecidos, que vales-se a pena processá-los nos termos da Lei da Imoralidade: melhor seria mantê-los em observação, segui-los, por um lado, na expectativa de que deixassem pistas que levassem a militantes de mais peso, ou pela possibilidade de que fossem recrutados para fazer relatórios referentes ao seu nível de envolvimento, fosse o de dissidentes ou o de revolucionários. Na verdade, ele era um daqueles que, quando estudante, fora abordado discretamente com indiretas sutis baseadas no patriotismo ou, talvez, na suposição igualmente natural de que os jovens precisam de dinheiro, tendo sido deixado claro que ele não deveria se preocupar, pois sua segurança pessoal estaria garantida, bem como sua situação financeira, se ele se lembrasse das coisas que eram ditas nas reuniões a que ele estava presente e desempenhava seu papel. Engolindo uma golfada de repugnância e imitando o tom da abordagem, ele recusou a oferta — sem que o homem se desse conta de que a rejeição não era apenas da oferta, mas também da pessoa que se prestava ao papel de cafetão da polícia política. Ela era negra, mas isso agora é muito mais complexo do que o início e o fim da existência conforme registrada num arquivo ultrapassado de um país ultrapassado, muito embora o nome permaneça o mesmo. Ela nasceu naquele tempo; seu nome é uma assinatura do passado de sua origem, batizada na igreja metodista em que um de seus avôs fora pastor, e seu pai, diretor de uma escola local para meninos negros, era presbítero, sendo sua mãe presidente da sociedade feminina da igreja. A Bíblia era a fonte do primeiro nome de batismo, seguido do segundo, africano, o qual as pessoas brancas — que a criança teria que aprender a agradar, e com quem teria de lidar neste mundo — não associavam a nenhuma identidade. Rebecca Jabulile. Ele era branco. Mas também isso não é tão definitivo quanto era codificado nos arquivos antigos [...]. Trecho extraído do romance O melhor tempo é o presente (Companhia das Letras, 2014), da escritora sul-africana e Prêmio Nobel de Literatura em 1991, Nadine Gordimer (1923-2014). Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA – Umedece /teus lábios com sal, /  que não seja o de tuas lágrimas. / Esta chuva-água é presente dos deuses / bebe sua pureza, frutifica na hora certa. / Leva, pois, os frutos à boca, / corre para devolver o milagre de teu nascimento. / Cria marés humanas como as ondas, / imprime tua lembrança nas areias que ainda guardarão / fósseis. Poema do poeta e dramaturgo nigeriano Wole Soyinka. Veja mais aqui.

CLARICE LISPECTOR
UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES
I

Lançamento do livro Porto Solidão & do filme Palmares, arte, poesia e amor, de Genésio Cavalcanti & muito mais na Agenda aqui.
&
O dedo mindinho do pé direito, Nasrudin de Indries Shah, o pensamento de Richard Orage, a arte de Liz West, a música dos Beatles, Gênesis, Pink Floyd & Led Zeppelin aqui.
&
É ela todas as musas, a literatura de Dalton Trevisan, O ocasionalismo de Al-Ghazzali, a arte de Kazimierz Mikulski & Luciah Lopez, a música de Marlos Nobre, Galina Ustvolskaya, Gilberto Mendes & Miriam Ramos aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


quinta-feira, julho 12, 2018

NERUDA, THOREAU, ORÍGENES LESSA, ANÍSIO TEIXEIRA, EVA ISAKSEN, DIMASH KUDAIBERGEN, ELMAR & ALAGOINHANDUBA


TUDO PODE ACONTECER EM ALAGOINHANDUBA – Imagem da série Nature in Layers, da artista norueguesa Eva Isaksen. - Tudo começou ao ouvirem falar que tinha um Olho de Pires boiando no delta do rio. O quê? Danou-se! Que droga é nove? Quem sabe, ora! Mistérios pairavam no ar, maior zunzunzum. Foram ver, não havia nada. Só o boato persistia. E tome conversa. No outro dia, novos rumores: o Olho de Pires levitava na queda d’água. De novo? Aonde? Ali, viravam o beiço. Quero ver! E foram. Ao chegarem lá, os mais curiosos e boateiros perderam a viagem, lugar mais limpo. É lorota, só sendo! É não, eu vi! Cadê? Estava bem ali. Tô vendo não! Deve de ter endoidado. É, parece mesmo que pirou. Vai inventar outra, desgraçado! Uns batiam pé que a coisa estava lá ao vivo e em cores, outros só na gozação, riam-se à longa. A coisa ficou feia mesmo com a correria das lavadeiras da pedraria: há três dias elas eram assombradas e molestadas por pires, bacias e troços voadores, de findarem em desabaladas carreiras ao vento com as saias na cabeça, todas elas taradas e nuinhas. Era só o que faltava, pode? Como é que é? As lavadeiras parecem que estão todas tantãs de vez! Como é que pode? Só vendo. E viram: óóóóóóóóóóóó! Não demorou muito as mulheres da beirada do ribeirão ficaram trocando os olhos, revirando-os, levantando a roupa, endoidadas e aos delíquios. Que porra é essa, hein? Maior estrupício. A coisa dava nos nervos. O converseiro em polvorosa dava conta de que corria bicho pela redondeza. Nossa, assim de mão beijada? Ora, isso é tramoia. Não era. É coisa de outro mundo, cochichavam amedrontados. Tem peta nesse angu. Daí mais um pouco a rádio calou-se, relógios pararam, telefones mudos, nem um pé de gente no meio da rua, nem nada, silêncio e abandono, todo mundo embaixo das camas. Quem teve coragem de botar as ventas pelas brechas da janela disseram que no céu havia um desfile dos planetas, um por um tirando fino no meio de uma aurora equatorial rachada por um arco-íris medonho, cometas e asteroides com rasantes por cima das casas, as estrelas caindo e se espatifando no chão. Minha nossa! Ninguém dava um pio, só de olhos pregados nas cenas que testemunhavam, arregalados, arrepiados. Bem tarde da noite, a terra começou a tremer remexendo tudo, o fogo com labaredas por todas as bandas, a inundação de tudo no maior tsunami, a ventania derrubando o que encontrasse pela frente. Quem tinha a quem recorrer, danava-se em rezas fortes enquanto a coisa flanava pelas ruas. Foi então que madrugada adentro as coisas deram de levitar tudo de cabeça pra baixo. Valei-me todos os santos! E o pânico não deixou ninguém dormir, mãos na cabeça enterrada no chão suspenso no ar. Ao amanhecer, ninguém resistiu, dormiram a sono solto. Só despertaram com os pipocos da chuvarada aos relâmpagos e trovões. Quem botou a cara na rua não pôde sair, intransitável. Uma semana depois, maior silêncio, ouvia-se apenas o prefeito gritando que sumiram as verbas da educação, da saúde e de todas as obras, e às carreiras arrastando uma tuia de malas; logo atrás o juiz aperreado com o sumiço de todos os processos do Fórum e mais arrastados de malas; depois o delegado em diligências pela fuga dos presos e mais e mais malas arrastadas, até o padre reclamava que os fiéis foram embora com o zoadeiro das malas arranhando o asfalto. Assim foi o dia todo, autoridade que tinha, usineiro, ricaço que fosse, passava puxando seus muafos, ninguém tinha coragem nem de abrir portinhola alguma, só brechando os acontecimentos. Foram necessárias mais dez noites sem lua e dez dias sem sol para que alguém ousasse espiar pelos cantos. Ao cabo de mês corrido, o fuxicado assumia seu lugar pras loas desbragadas. Em Alagoinhanduba tudo pode acontecer, inclusive nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor cazaque Dimash Kudaibergen: Bastau Concert, Recital Bastau, D-Dinasty Fuzhou & Changsha Concert & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Dormimos durante quase a metade de nossas vidas! A vida para nós é como um rio. [...] A luz que cega nossos olhos é uma escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados e ainda há muitos dias por amanhecer. O sol nada mais é do que a estrela da manhã. Trechos da obra Walden ou a vida nos bosques (Global, 1984), do ensaísta, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista norte-americano Henry David Thoreau (1817-1852). Veja mais aqui.

LIÇÕES DE EDUCAÇÃO – [...] não se pode conseguir essa formação em uma escola por sessões, com os curtos períodos letivos que hoje tem a escola brasileira. Precisamos restituir-lhe o dia integral, enriquecer-lhe o programa com atividades práticas, dar-lhe amplas oportunidades de formação de hábitos de vida real, organizando a escola como miniatura da comunidade, com toda a gama de suas atividades de trabalho, de estudo, de recreação e de arte [...] A escola ampliou os seus deveres até participar de todos os deveres do lar, assumindo a responsabilidade de dar às crianças todas as condições que lhe asseguram – ou lhe deviam assegurar – na família, a continuidade e a integridade de uma ação formadora completa. Educação e não instrução apenas. Condições de vida e não condições de ensino somente. Mas nem por isso a escola substitui integralmente o lar. Esse continuará e, para continuar, deve também ser refundido em suas bases intelectuais e sociais, como já o foi nas suas bases econômicas [...] A importância da educação, nos dias de hoje, não é apenas uma consequência da complexidade da vida moderna, porém, talvez ainda mais, da inclusão no seu campo de todas as questões da vida humana, que anteriormente possuíam técnicas ou setores diversos de ação [...] só posso compreender a educação como o processo de preparação e distribuição de homens pelas diversas ocupações que caracterizam a vida humana, na atualidade. Três anos de escola elementar [...] não bastam para habilitá-los às ocupações corriqueiras, nem ao menos os preparam para fazer um pouco melhor o que terão que fazer de qualquer modo, mesmo levando a mais rudimentar das existências [...] a escola deve ensinar a todos a viver melhor, a ter a casa mais cuidada e mais higiênica; a dar às tarefas mais atenção, mais meticulosidade, mais esforço e maior eficiência; a manter padrões mais razoáveis de vida familiar e social; a promover o progresso individual, através os cuidados de higiene e os hábitos de leitura e estudo, indagação e crítica, meditação e conhecimento [...] representa, realmente, uma observação superficial julgar que é a educação que produz a civilização. Confusão entre efeito e causa [...] resta toda a obra de familiarizar a criança com os aspectos fundamentais da civilização, habituá-la ao manejo de instrumentos mais aperfeiçoados de cultura e dar-lhes segurança de inteligência e de crítica para viver em um meio de mudança e transformação permanentes [...] A escola deve fornecer a cada indivíduo os meios para participar, plenamente, de acordo com as suas capacidades naturais, na vida social e econômica da civilização moderna, aparelhando-o, simultaneamente, para compreender e orientar-se dentro do ambiente em perpétua mudança que caracteriza esta civilização [...]. Trechos extraídos da obra Educação para a democracia (EdUFRJ, 1997), do educador Anísio Teixeira (1900-1971). Veja mais aqui.

A ARANHA CARANGUEJEIRA - [...] uma noite, apareceu um camarada de fora, que não sabia da história. Creio que um viajante, um representante qualquer de uma casa comissária de Santos. Hospedou-se com ele. Cheio de prosa, de novidades. Os dois ficaram conversando longamente, inesperada palestra de cidade naqueles fundos de sertão. Negócios, safras, cotações, mexericos. Às tantas, esquecido até da velha amiga, o Melo tomou do violão, velho hábito que era um prolongamento de sua vida. Começou a tocar, distraído. Não se lembrou de avisar o amigo. A aranha quotidiana apareceu. O amigo escutava. De repente, seus olhos a viram. Arrepiou-se de espanto. E, num salto violento, sem perceber o grito desesperado com que o procurava deter o hospedeiro, caiu sobre a aranha, esmagando-a com o sapatão cheio de lama. O Melo soltou um grito de dor. O rapaz olhou-o sem compreender, comentou: – Que perigo, hein? – O outro não respondeu logo. Estava pálido, uma angústia mortal aos olhos. – E justamente quando eu tocava a Gavota de Tárrega, a que ela preferia, coitadinha... – Mas o que há? Eu não compreendo... E vocês imaginam o desapontamento, a humilhação com que ele ouviu toda essa história que eu contei agora... – Desce! Desci. Trecho do conto A aranha (MEC, 2001), do escritor, jornalista, ensaísta e imortal da Academia Brasileira de Letras, Orígenes Lessa (1903-1986). Veja mais aqui.

TE AMO - Te amo de uma maneira inexplicável, / de uma forma inconfessável, / de um modo contraditório. / Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos / e mudar de humor continuadamente / pelo que você já sabe / o tempo, / a vida, / a morte. / Te amo, com o mundo que não entendo / com as pessoas que não compreendem / com a ambivalência de minha alma / com a incoerência dos meus atos / com a fatalidade do destino / com a conspiração do desejo / com a ambigüidade dos fatos / ainda quando digo que não te amo, te amo / até quando te engano, não te engano / no fundo levo a cabo um plano / para amar-te melhor / Te amo , sem refletir, inconscientemente / irresponsavelmente, espontaneamente / involuntariamente, por instinto / por impulso, irracionalmente / de fato não tenho argumentos lógicos / nem sequer improvisados / para fundamentar este amor que sinto por ti / que surgiu misteriosamente do nada / que não resolveu magicamente nada / e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada, / melhorou o pior de mim. / Te amo / Te amo com um corpo que não pensa / com um coração que não raciocina / com uma cabeça que não coordena. / Te amo incompreensivelmente / sem perguntar-me porque te amo / sem importar-me porque te amo / sem questionar-me porque te amo / Te amo / simplesmente porque te amo / eu mesmo não sei porque te amo… Poema do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973). Veja mais aqui, aqui e aqui.

COISAS DE ALAGOINHANDUBA
Imagem: Cidade do interior (2011), do pintor Elmar Castelo Branco.

VII Seminário Corpo, Gênero e Sexualidade: resistências e ocupa(ações) nos espaços de educação & muito mais na Agenda aqui.
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Assembly-Opening, da pintora norueguesa Eva Isaksen.
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O quibungo e a caranguejeira, A aula de Pedro Demo, o pensamento de Mumon Yamada, a arte de Latifa Laâbissi, a música de Maria Teresa Madeira, Yamandu Costa, Cristina Ortiz & Laurindo Almeida aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

DRUMMOND, PRIGOGINE, CLARA SCHUMANN, PAULO MENDES CAMPOS, EMMELINE PANKHURST, PALADE, MARIE-HÉLÈNE SIROIS & FESTIVAL DE CURTA

CLARA, ÚNICO AMOR - Imagem: Clara Wieek , arte da artista visual canadense Marie-Hélène Sirois . - Clara de todas as teclas nos exímios d...