segunda-feira, fevereiro 20, 2017

O QUE ERA MATA ATLÂNTICA QUANDO ASFALTO QUE MATA

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O QUE ERA MATA ATLÂNTICA QUANDO ASFALTO QUE MATA - Ainda ontem vi Jesuíno esmurrando um juazeiro responsável pela morte de Júnior, à flor da idade em mortuário, ele desolado e aos prantos. Não seria ele só o primeiro nem o único, antes uma Rural cheia pelo tampo na festa dos curaus e uma mangueira passeava sorrateira para cruzes ornarem seu entorno amanhã de manhã. Depois um cata-corno cheínho de transeuntes fez brotar um obituário enorme como um flagelo ao redor de um abacateiro, hoje doente com um prego infincado no casco. Aí veio uma jeringonça topada de calungas que iam pras usinas cortar cana e nem chegaram, o carrão do filho do usineiro quase atravessado, até o mandú de Zeferino enganchou-se num mulungu e a cada dia mais gente estrepada entre cajueiros, umburanas, carnaubas, juremas, oticicas, catingueiras, ipês amarelos, aroeiras, umbuzeiros, amendoeiras, cajueiros, cajazeiras, craibeiras, coqueiros, pitombeiras, a culpa é delas! O que era antes mata parte do Arrozal de Inhanhuns, fez-se estrada de barro batido, até uma passarela como um arco, alameda deslumbrante de noite no meio dia, maravilha aos olhos que se tornou asfalto e pista de corrida com curvas fechadas, só silvo de coruja e outros bichos, lêmures e lendas de morte entre troncos. Até então eu não sabia que ali as árvores zanzavam impunes anunciando mortes pras carpideiras recônditas e chorosas virem com suas motosserras implacáveis: a culpa é delas! A imperícia e imprudência das munhecas não contavam nem nunca contarão, a culpa é delas que não deviam estar ali enraizadas ou saindo do lugar, justo na hora para suplício de amigos e desconhecidos. Não fossem elas, todos estariam vivos fazendo a alegria dos seus parentes, pintando o sete arteiro, fazendo este país melhor com seu trabalho, mantendos os seus e comemorando suas datas. Não fossem elas as viuvas não choravam nem se prostituíam, filhos não seriam bandidos, nem haveriam tantos deserdados da vida pranteando nas lápides improvisadas, enquanto livros ilustrados de humor nas enfermarias e emergências endeusavam as atrozes, como se ensinassem um outro sentido de vida. Na boca da mata, pra eles melhor seria nem existissem – pra quê oxigenio mesmo, hem? –, são assassinas dos nossos consaguíneos, camaradas ou compadrios, enlutando famílias cristãs e de bem, aguçando a fúria dos inocentes. Melhor assim, acham todos dali, condenadas à pena de morte. Melhor desmatar tudo e entregar pra especulação imobiliária, pelo menos haveria mais emprego e riqueza, não haveria mais ninguém chorando em missa de sétimo dia. E dendroclastas de plantão enxugando suas lágrimas e em nome do luto e do progresso pelos volantes que são bons e prazerosos, armados de revolta e de facões decepam todas elas que são más com pés de raízes para aplacar a alegria de quem vem ou vai no trampo ou viagens pros cemitérios de almas. Hoje quase deserto pelo desmatamento, a morte só quer desculpa! Eu nem sabia, mas pra morrer, basta estar vivo! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.


Curtindo os álbuns Kizumba (Visom, 1996), Percussão contemporânea brasileira (Visom, 1993) e O samba no balanço do jazz (Sesc, 2011), do percussionista, arranjador e compositor João Parahyba.

Veja mais sobre:
O viúvo do padre aqui.

E mais:
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Yoram Kaniuk, Thelonious Monk, Robert E. Daniels, Eugene de Blaas, Meir Zarchi,, Luciana Vendramini, Camille Keaton, Tono Stano, Eliane Auer, Prefeituras do Brasil, Juizados Especiais & Responsabilidade civil das instituições bancárias aqui.
Crepúsculo dos Ídolos de Nietzsche & Projeto Tataritaritatá aqui.
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O mal-estar na civilização de Freud & Coisas de antonte e dantanho aqui.
Nomes-do-pai de Lacan & BBB & Outras tacadas no toitiço do momento aqui.
A ilusão da alma de Eduardo Giannetti & A poesia veio dos deuses aqui.
Troço bulindo nas catracas do quengo, Fernando Fiorese & Abel Fraga aqui.
O mistério da consciência de Antonio Damásio &Nó na Garganta de Eduardo Proffa & Jan Claudio aqui.
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DESTAQUE: AFLORAMENTOS DE ANTONIO SALVADO
Gozaram o prazer da união:
os corpos encontrados totalmente,
o esforço do suor os ligou tanto
que perdiam contornos    juntos sempre.

Não tinha dimensão aquela posse
arfada de contínuo harta sem trégua
que para ser intemporal completa
apenas He faltava o az da morte.

Mas sucumbiram ao queimor do cárcere
sem porta que se abrisse devagar
e tolhidos na rede do cansaço
separados os corpos deslembraram-se.
Queimor, poema extraído da obra Afloramentos (2007), do poeta português António Salvado.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo Don Dixon.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: As Dali's Venus in Bacchanale, ballerina Nini Theiladetheilade.
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sábado, fevereiro 18, 2017

SOU DESTE CHÃO COMO A TERRA, O FOGO, A ÁGUA E O AR!

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SOU DESTE CHÃO COMO A TERRA, O FOGO, A ÁGUA E O AR! - Sou deste chão como a água que desce das nuvens sem calças para irrigar a Terra, para matar a sede na sobrevivência dos seres e plantações, a escorrer por córregos para ser rio ao mar, onde sou maior que a mim mesmo pelos oceanos e continentes. Sou deste chão como o fogo alumia com o clarão a purificar ao calor das labaredas que queimam a pele o que é de Sol, a incendiar o que sou e não sou, e renasço das cinzas a todo momento. Sou deste chão como os ventos do sopro de Deus no invisível dos pulmões, a levitar pelas rajadas sobre montanhas e vales, pelas ventanias dos desertos, pelo voo inimaginável de tudo que vai com as poeiras e sementes, em movimento ubíquo pra mudança do tempo e clima em que sou veloz tropical longe das tempestades e furacões. Sou deste chão como a Terra que brota raiz pras plantas de tudo por solo e relevos nos mais diferentes ecossistemas e habitats, para todos os vegetais e animais, além dos passos e pisadas por sobre pedras e cristais, pelas veredas, vulcões, cânions até ser-me o que sou deste chão minha vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo os álbuns Vida adentro (2005), Outras Mulheres (2012) e Sorria (2016) e o talento musical da cantora, compositora e professora de canto Carol Andrade.

Veja mais sobre:
Da semente ao caos, Lasciva na Ginofagia & a arte de Vanice Zimerman aqui.

E mais:
Toni Morrison & A Filosofia de Schelling aqui.
O Princípio Federativo de Proudhon & a poesia de Ione Perez aqui.
A obra de Hermes Trismegistos & o cinema de István Szabó aqui.
Aleister Crowley & Regina Spektor aqui.
Alan Watts & O Sétimo Selo de Ingmar Bergman & Bibi Anderson aqui.
O Novo Organum de Francis Bacon & a poesia de Marinez Novaes aqui.
A Filosofia de Deleuze & Guattari, O Umbigo de Rubens Rewald & Anna Cecília Junqueira aqui.
Clarice Lispector & Helena Blavatsky aqui.
Duplo engano aqui.
André Breton, Marlos Nobre, Nikos Kazantzákis, Toni Morrison, Milos Forman, Adolf Ulrik Wertmüller, Natalie Portman & Tanussi Cardoso aqui.
Carson McCullers, Nicolau Copérnico, Max Klinger, Rogério Tutti, José Carlos Capinam, Alberto Dines, István Szabó & Krystyna Janda aqui.
Crença: pelo direito de viver e deixar viver aqui.
A injustiça braba de todo dia aqui.
Musa Tataritaritatá aqui.
As trelas do Doro: o bacharel das chapuletadas aqui.
William James & Roubaram a tenda de Sherlock Holmes aqui.
Três poemínimos de amor pra ela aqui.
A Ilha Deserta de Deleuze & Guattari, a piada Será que tá morto aqui.
O consolo da paixão aqui.
O nome dela é amor aqui.
O Seminário do Inconsciente de Lacan & O Caso Schreber de Freud aqui.
Saúde no Brasil aqui.
A rapidinha pro prazer dela aqui.
Fernando Melo Filho, o primeiro parceiro na música aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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DESTAQUE: SE O GRÃO NÃO MORRE
[...] Nossos atos mais sinceros são também os menos calculados; a explicação que se lhes procura dar posteriormente continua vã. Uma fatalidade me conduzia; e talvez também a secreta necessidade de lançar um desafio à minha natureza; porque, em Emmanuèle, não era a própria virtude que eu amava? Era o céu, que o meu insaciável inferno desposava; mas esse inferno eu o omitia no mesmo instante: as lágrimas do meu luto tinham-lhe apagado todas as fogueiras; eu estava como que deslumbrado de azul, e o que eu não consentia ver mais tinha cessado de existir para mim. Acreditei que podia dar-me a ela todo inteiro, e o fiz sem reserva de coisa alguma. Noivamos pouco tempo depois.
Trecho da autobiografia Se o grão não morre (Nova Fronteira, 1982), do escritor francês Prêmio Nobel de Literatura de 1947, André Gide (1869-1951). A obra descreve a vida do autor da infância até o noivado com sua prima. Na primeira parte ele traz lembranças da infância, a família, a expulsão da escola por maus hábitos, as primas, o adultério da tia, lições de piano e a descoberta da literatura e do teatro, traição e receio das prostitutas, a pensão, as ligações adúlteras e a arte e a música influenciando a literatura. Na segunda parte conta a primeira viagem à Argélia, a descoberta da homossexualidade, o encontro com Oscar Wilde, redescoberta da religião, a morte da mão e o noivado com a prima. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor estadunidense Brian Smith.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: arte do pintor e arquiteto austríaco Friedrich Hundertwasser (1928-2000).
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sexta-feira, fevereiro 17, 2017

SOOU A VIDA O PARAÍSO DO AMOR

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SOOU A VIDA O PARAÍSO DO AMOR – Imagem: foto/arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. - Jamais soubera a vida depois de tantos tormentos, possível fosse amar outra vez naquela manhã de dezembro, ao vê-la rosa dos ventos em plena aracê-poronga surgir ornada de poemas e flores de todos os matizes, a descer tal caá-iari do tope azul do Marumbi a me dizer Muna, xuma xô. Ah, tantó manacá jurucê, afilhada do Peruda com sua face mimosa na brisa da alvorada, vamos sim, vem comigo cairé, catiti, olhos vivos de bússola pra minha desorientada travessia e com o seu riso de Sol a me dar o que nem mereço de tão bom por todos os pontos cardeais. Às suas mãos estendidas eu voo abraço amante de cunhã caingangue, como quem foi enfeitiçado na tarde ensolarada do céu límpido de seu jeito deusa-índia, a recitar versos apaixonados por quem bate meu coração caeté andarengo, deserdado do mundo e abrigado na sua carne carijó, pra ser seu abá iba na nossa quiçaba. Vou ao seu chamamento como marujo insone ao encanto das sereias, pra ver-me navio perdido nas rotas de suas águas que brotam da cascata rumorejante do seu ventre apetitoso, a ver-me estendido nas terras perdidas do seu rincão e de alma lavada por seus beijos e afagos, ajoelhada à beira de límpido e murmurante regato que divisa as escarpadas serranias, a fazer de mim sua cobaia no reino das suas explorações e a prover da sua fartura na ventura do entardecer, como se eu fosse o escolhido entre todos e o meu sexo fosse o seu talismã, a sua salvação. Assim me doou e sou dela ao tê-la minha escrava e criatura na noite perfumada pelas coloridas e delicadas flores da quaresmeira, a me dizer aos sussurros carinhosamente xê pocê o quê. Sim, eu vou e soou a vida preu ir procê dormir e acordar ao prazer de amar e fazer nocê o paraíso do amor. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns Caminhada (Kriok, 2014) e Tibério Gaspar canta (Independente, 2002) do amigo violonista, compositor e produtor musical Tibério Gaspar (1943-2017).

Veja mais sobre:
O cis, o efêmero & eu aqui.

E mais:
Cancioneiro da imigração de Anna Maria Kieffer & Ecologia Social de Murray Bookchin aqui.
A poesia de Sylvia Plath & a Filosofia da Miséria de Proudhon aqui.
Antonio Gramsci & Blinded Beast de Yasuzo Masumura & Mako Midori aqui.
Mabel Collins & Jiddu Krishnamurti aqui.
Christiane Torloni & a Clínica de Freud aqui.
Paulo Moura, Pedro Onofre, Gustavo Adolfo Bécquer, Marcos Rey, Mihaly von Zick, Marta Moyano, Virna Teixeira aqui.
A irmã da noite aqui.
A obra de Tomás de Aquino & Comunicação em prosa moderna de Othon M. Garcia aqui.
Essa menina é o amor aqui.
Uma gota de sangue de Demétrio Magnoli & mais de 300 mil no YouTube aqui.
A filosofia & Psicologia Integral de Ken Wilber & o Natal do Nitolino aqui.
Possessão do prazer aqui.
Roberto Damatta & o Seminário do Desejo de Lacan aqui.
A febre do desejo aqui.
A nova paixão do Biritoaldo: quando o cara erra a porta de entrada, a saída é que são elas aqui.
A ambição do prazer aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

DESTAQUE: PATTY, A MULHER PROIBIDA
O longo metragem Patty, a mulher proibida (1979), um filme do escritor e cineasta Marcos Rey dirigido por Luis Gonzaga dos Santos, conta a história de um anão influente e rico que comanda um programa de TV e é assediado por uma belíssima vedete disposta a tudo para se tornar uma estrela. Com a ajuda do seu secretário que é um escritor fracassado e ex-militante socialista, o anão consegue atrair a estonteante mulher pra sua casa, quando ocorre a vingança do subalterno que vê seu patrão no afã de salvar a beldade, morrer afogado na piscina. O destaque do filme fica por conta da voluptuosa beleza da atriz Helena Ramos, a musa da pornochanchada. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
____Ah, tristes mulheres que nascem e morrem sem saber o que é ser fêmea!
Sem saber o que é esse mistério que acende e faz arder corpo e alma.
Ah, tristes mulheres presas em corpos inertes acalentam homens sem sonhos e sem brio.
Eu não sou triste______sou fêmea!
Sou fêmea quando me vejo em seus olhos mulher sua que sou_______sou fêmea sua que aos seus carinhos se entrega e no seu prazer se realiza como mulher!
___Ah, feliz de mim, que sou sua mulher!
Fêmea/Mulher, poema/imagens da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Peace, art by Catherine Nolin
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quinta-feira, fevereiro 16, 2017

NA VIDA, COMO NO SONHO, NÃO HÁ LÓGICA!

NA VIDA, COMO NO SONHO, NÃO HÁ LÓGICA! - Imagem: Étude pour un portrait de Van Gogh (1957), do pintor abglo-irlandês Francis Bacon (1909-1992). - Naquela noite Gesildo sonhara. Coisa tão absurda, que nem se lembrava direito. Dizia pra si: a gente sonha cada coisa, mais sem pé nem cabeça. Tem lógica um negócio desse? Só pra quem vive no mundo da lua. Riu-se, meio atarantado. Levantou-se como de costume, fez o que devia e foi trabalhar. Envolvido nos afazeres, finalmente esquecera de tudo, se sonho ou pesadelo, não soubera. A manhã inteira, vez ou outra, passava-lhe à cabeça o ocorrido. Ora, coisa de pouca monta não merece gastar neurônio. Principalmente o que não sabia o que era, nem o que entendia disso. Almoço servido, dera tudo por perdido. Veio a tarde, concentrado nas tarefas, deixou-se levar sem pensar em nada. Quando a sirene tocou, correu pro ponto e esperou a condução. Olhou pro céu carregado de nuvens escuras, deu-se consigo: uma chuvada boa estava prestas a desabar do céu. Convinha buscar abrigo. A condução chegou e aboletou-se logo fechando as janelas. Cochilou por instantes e tudo lhe veio à mente. Acordou assustado com uma movimentação barulhenta: o ônibus havia quebrado. Olhou em volta, tudo escuro. Choviscava. Desceu para aguardar o próximo transporte quando o toró despencou. Foi surpreendido com a falta de espaço na marquise. Procurou refugio, só havia uma craibeira do outro lado da rua. Não pensou duas vezes, livrou-se do tráfego dos automóveis e serviu-se do valhacouto. Sem iluminação, apesar de resguardado da bátega, viu-se inseguro. Não havia muito o que fazer no meio daquela procela. Percebeu apoio para sentar-se nas raízes, na verdade, não era pau o assento, eram pedras, conferiu ao tato. Um relâmpago e a quimera ficou real, lembrava-se. Uma mulher numa túnica transparente, esbelta e nua, apontava-lhe o lugar. Intrigado, seguia o indicador dela: as pedras? Ela em nuto afirmativo. Remexeu entre elas com a mão e viu a mulher sorrir-lhe com isso. O sorriso e o sonho todo na cabeça por instante. É isso. Pegou uma pedra, duas, muitas, o quanto pôde. Olhou pra ela, um riso lindo confirmando tudo. Olhou pra elas, parecia seixos em suas mãos, não era. Pedregulho estranho. Procurou a bela, não mais estava, sumira. Outro relâmpago e o sonho se esclarecera: com essas pedras ficarei rico, foi o que ela mesma dissera no sonho, muito embora, agora só sorrisse, nada dissesse. O trovão estremeceu a terra e ele saiu como louco atrás de um ourives. Não havia ali, talvez um joalheiro. Nada, àquela hora tudo já estava fechado. Pensou ir pra casa e foi. Andou que só a má notícia, ensopado, nem sabia onde estava, tudo como no sonho: as pedras aos bolsos, três ou quatro, parece mais. Já alta madrugada, chegou à sua residência, sacou dos bolsos e fitou direito: nada mais que pedras. Despiu-se jogando as vestes molhadas do lado enquanto mantinha conferindo cada uma delas, abriu umas gavetas, agasalhou-se, tremia de frio e não tirava os olhos daquelas pedras. Sem saber se cochilara ou dormira, percebeu o dia amanhecido. Embecou-se e foi pra joalheria mais próxima. Chegando lá, mostrou ao primeiro que encontrou, pra conferência especializada. Hum. São pedras. Pedras? Pedras. Comuns? Sim. Não pode.Ué? Algo me diz que vou ficar rico com elas. O homem riu da sua leseira e indicou uma consulta com um ourives ou gernólogo, ou lapidário, ou galvanoplasta, uma coisa dessa. Como? Ah, só na capital, se desconfia que tem algum valor, vá pra capital, pra mim é pedra, se acha que é ouro ou coisa que valha, pra mim se for alguma coisa é o mesmo que ouropel. Como? Vá lá, confira, é minha palavra final. Saiu cabisbaixo, desanimado, nem se lembrou de trabalhar. Foi até um negociador de pedras preciosas, o mesmo diagnóstico. Ah, dali foi prum velho pai de santo que soubera: o ancião pegou, conferiu, ronronou e falou prele procurar um velho pajé numa tribo distante que só ele daria o veredicto. E foi, andou como a praga, o dia todo e mais meio, nem quisera comer e, depois do meio dia, estava às portas da tribo procurando pelo tal pajé. Depois de muito puxa e encolhe, levaram-no à presença dele. De tão velho nem enxergava, abriu um riso enorme quando as teve na mão e começou a falar coisas incompreensíveis. Um índio traduziu: ele está perguntando onde encontrou. Por que? É uma pedra rara e antiga cujo nome se perdeu. E o que tem? O pajé disse que o possuidor dessas pedras é um homem muito venturoso, feliz e rico, nunca será acometido por doença grave, nem será atacado por qualquer ser vivo. Gesildo não quis mais saber de nada, tomou de volta e sacou as pedras nos bolsos, dali saindo sem saber nem pra onde ia. Tentou voltar ao local onde as encontrara e se perdera. Seguiu aleatório, ora ia, ora voltava, anoitecera e a fome consumia o tino. Nada além das pedras nos bolsos, tentou vendê-las para comer, ninguém queria. Oferecera a tantos, maior desinteresse, davam-no por birutado. Chegou ao ponto de gritar bens tão valiosos e ignorados por todos. Ao cabo de dias, sucumbiu inane. Nessas horas, deu-se uma enchente do rio invadir a cidade e toda rodovia, trazendo prali um arqueólogo que viajava em férias, completamente aborrecido por ter que desviar seu trajeto. O doutor esbravejou com todos, amaldiçoou sua sorte e só faltou desafiar deus e o mundo de tanta raiva. Sem ter o que fazer, restou-lhe apenas sentar e esperar pacientemente as águas baixarem. Foi de relance que viu uma das pedras caídas do Gesildo e saiu perguntando a todos onde tinha mais daquela, resposta obtida que só um doido que vagava que tinha umas delas. Cadê-lo? Procuraram que só. Ao achá-lo, já agonizava com três pedras nas mãos, outras duas no bolso, umas outras espalhadas ao chão. Isso é quase ouro, disse o arqueólogo, valiosíssimo! Tentou recobrar os ânimos de Gesildo, de nada adiantara, perguntou pra um e para outro, virou-se pra todos: onde tem dessas pedras? Ninguém sabia, só ele que finalmente morrera acreditando que estava rico e não sabia mais nada. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns do grupo Algaravia, formado pelo quinteto Eloá Gonçalves (piano/acordeon), Ricardo Lira (baixo), Rafael Thomaz (violão/guitarra), Fabio Augustinis (bateria/percussão) e Bruno Cabral (saxofones), propondo a reflexão sobre as fronteiras entre a música erudita e a popular, por meio de arranjos de obras do repertório camerístico erudito para a formação de quinteto de música popular instrumental e interpretando compositores como Villa Lobos, Marlos Nobre, Debussy, Paizzolla, Ravel, Camargo Guarnieri, entre outros.

Veja mais sobre:
Imprensa Brasileira aqui e aqui.

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As pernas no Cinema & o Seminário – A relação do objeto, de Jacques Lacan aqui.
As pernas de Úrsula de Claudia Tajes & Mil Platôes de Gilles Deleuze & Félix Guattari aqui.
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Diálogos sobre o conhecimento de Paul Feyerabend & a poesia de Lilian Maial aqui.
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A tragédia humana de Imre Madách, a música de Pierre Rode, o cinema de Robert Joseph Flaherty, a pintura de Franz West, a arte de Vera Ellen & Anne Chevalier & Sarah Clarke aqui.
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O caboclo, o padre e o estudante, Lendas Nordestinas & Luiz da Câmara Cascudo aqui.
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Memória e esquecimento aqui.
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DESTAQUE: MÁQUINAS SEMIÓTICAS
[...] As mensagens das mídias voltam-se mais e mais para as mensagens da mídia cuja origem tornou-se crescentemente difícil de discernir. Filmes transformam-se em metafilmes, romances viram metarromances, nas artes visuais, o artista e seu eu encarnado tornaram-se tópicos centrais de sua arte, a televisão faz da televisão seu tema nuclear e a publicidade começa a perpetuar os mitos de sua própria criação sobre os valores insuperaveis de seus produtos em vez de informar ou apresentar o que é novo no mundo das mercadorias. [...].
Trecho extraídos de Máquinas semióticas (Galáxias, 2001), do linguistica e semiótico alemão Winfried Nöth.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor abglo-irlandês Francis Bacon (1909-1992)
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Sea Of Hull Installation Sees Thousands Of Naked People Painted Blue
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