sexta-feira, janeiro 18, 2019

FERREIRA GULLAR, CLAIRE STREETART, CLÓVIS DE BARROS FILHO, AVANI AZEVEDO & O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA


O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA - De primeira apareceu numa certa manhã ensolarada, no meio de um matagal denso nos arredores da cidade, duas crianças mortas. E com um detalhe: parecia que haviam chupado o sangue e arrancado o fígado delas. Quem seria capaz de tal malvadeza? Quem os pais? Ninguém sabia. Que coisa! Será de gente daqui mesmo ou doutro canto? O doutor Teje-Preso logo anunciou em cima da bucha da sua ruindade: Quem quer que seja, vai feder nas barras da justiça. E ao anoitecer, lá estava ele com uma cambada de jagunço até de um olho so, tudo armado até os dentes para caçar o responsável daquele crime. Uma semana de vigilância e nenhum rastro do criminoso. Um mês depois, já quase esquecido o incidente, novamente duas crianças foram encontradas nas mesmas condições, só que agora no meio de um canavial. E só pega de duas é? Esse negócio está cheirando mal. Passou a ter vigilância por tempo indeterminado até se pegar o salafrário. Um mês certinho depois, a cidade amanhecia com uma nova bomba: desta vez, três crianças encontradas nas pedrarias do rio, memo modus operandi. Isso vai feder! Ah, se vai! Todo mundo já sabia que a fúria de Teje-Preso estava nas alturas, cagando raio a torto e a direito. Formou batalhão diário para caçar seja por onde fosse, brenhas, chãs, vielas, rodagens, veredas, em todo o território municipal. Agora a gente pega esse tarzinho. O primeiro suspeito foi um padre estrangeiro que era peludo da cabeça aos pés: tinha pelos no pau da venta, pela testa, uma tufa enorme na caixa dos peitos, até pelas mãos e pés. É ele. Esse padre havia se oferecido como voluntário para a Igreja Bidiônica e lá prestava os seus serviços. Um dia lá, andando de madrugada pelas ruas, foi atocaiado e preso em flagrante. Enquadraram o homem embaixo da maior pisa, dele ficar molinho na cela por dias. Não tivesse ficado sob a máxima vigilância cada segundo dos dias e das noites, estaria lascado. Ainda estava desacordado da sova, quando receberam a notícia de quatro crianças encontradas mortas numa moita atrás dum morro distante. E da mesma forma dos anteriores. Foi ele não, o bicho ainda está solto. Tiraram o vitimado às pressas pra emergência, trataram dele com tudo do bom e do melhor e arregaçaram as mangas e as catracas do juízo. A investigação cresceu, corria solta a boataria de tráfico de crianças e aquelas deveria ser o refugo. É não, meu! Ora se não é! E saíram caçando pedófilos, padrinhos e achegados. Na tuia, todo mundo era suspeito. Depois de muita discussão, tiraram a primeira conclusão: o celerado só atuava em noite de lua cheia. Mas num é mesmo? Rapaz, será lobisomem? Vampiro? Esse bicho vai pagar caro. Deve ser um papa-figo! A gente tem que pegar esse fidapeste! E se danaram a ficar de prontidão toda noite de lua cheia. Lá longe um uivado de arrepiar a coragem, frio na barriga e os cabelos em pé. É ele. Quem vai? Cadê coragem! Mesmo assim, saíram cavoucando tudo. Só de manhãzinha lá estava: duas criancinhas. Desse jeito o bicho vai comer os anjinhos todos da cidade. Entrava mês, saía semestre e o monstro escapulindo. Foi bem dois anos ou mais de caça, contam. Mas malassombro também vacila e cercaram um que estava cheirando cinza no mato. Pegamos o desgraçado! É hoje ou nunca! Quando atalharam que seguraram o monstro, arriaram a lenha, dele impar quase mortinho da silva. Foi aí o engano: ouviu-se uma barulhada dentro do mato de passar por eles na maior carreira. Quem tem boa pontaria? Oxe, só se ouviu o pipoco. A coisa caiu, mas levantou-se ligeiro. Dois, três, muitos disparos, a criatura já era. Arrodearam no escuro e meteram bala na besta. Arrastaram-no mato afora até chegar numa rodagem quase iluminada. Num dá pra ver direito! Bota luz! Era mesmo um papa-figo crivado de balas. Vamos levar pra delegacia pro juiz ver que pegamos esse desgraçado. Foram avisá-lo do feito. Em casa, nem sinal dele. Lá pras tantas, viram aquilo se mexendo, se modificando. Lá estava ele peludo, inchado, unhas enormes, orelhas e dentes de vampiro. Era ele. Quando deram fé, ninguém acreditou: era o juiz Teje-Preso. Como é? Isso mesmo. Não acredito! Verdade. Num brinca! Só vendo. E foi. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Da agenda privada todos falam. A forma das intervenções varia, mas os temas que dizem respeito à vida privada de cada um são tratados em circuitos de relações mais ou menos abrangentes. Por isso a questão a que nos referimos diz respeito a temas da agenda pública. Essa limitação temática torna os meios de comunicação fator decisivo na construção e imposição da opinião dominante. Se, como vimos, são os meios que oferecem o menu temático comum, são também os que têm a prerrogativa de indicar qual o enfoque a ser dado a cada um desses temas. No entanto, mesmo na discussão de assuntos políticos, por exemplo, outros fatores, além da opinião da mídia, influenciam uma eventual manifestação pública. A competência específica para abordar o tem é um deles. [...] Para o senso comum e alguns comunicólogos mediáticos, a mídia socializa o conhecimento. O fato de a recepção, sobretudo televisiva, se dar de forma intensa em todos os niveis sociais serve de argumento para que se acredite na tese homogeneizadora da veiculação informativa. No entanto, as pesquisas realizadas sobre os efeitos da recepção informativa mostram o contrário. Os grupos de maior capital cultural, que ocupam os niveis mais altos na escala socioeconomica, apresentam uma absorção da informação sempre superior aos grupos de nivel de instrução inferior. A distância de conhecimento entre esses grupos, em vez de diminuir, aumenta. Os meios de comunicação servem como instrumento de reprodução das desigualdades culturais. [...]. Trecho de Competência específica, extraída da obra Ética na comunicação: da informação ao receptor (Moderna, 1995), do professor e jornalista Clóvis de Barros Filho, com a colaboração de Pedro Lozano Bartolozzi. Veja mais aqui.

POEMA OBSCENO DE FERREIRA GULLAR
façam festa / cantem dancem / que eu faço o poema duro / o poema-murro / sujo / como a miséria brasileira / Não se detenham: / façam a festa / Bethânia Martinho / Clementina / Estação Primeira de Mangueira / Salgueiro / gente de Vila Isabel e Madureira / todos / façam / a nossa festa / enquanto eu soco este pilão / este surdo / poema / que não toca no rádio / que o povo não cantará / (mas que nasce dele) / Não se prestará a análises estruturalistas / não entrará nas antologias oficiais / Obsceno / como o salário de um trabalhador aposentado / o poema / terá o destino dos que habitam o lado escuro do país / - e espreitam.
Poema obsceno, extraído de Toda poesia - 1950-1980 (Civilização Brasileira, 1981), do premiado e aplaudidíssimo poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta maranhense Ferreira Gullar (1930 – 2016). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE RUA DE CLAIRE STREETART
A arte de rua da artista francesa Claire Streetart. Veja mais aqui.

PINDORAMA DE AVANI AZEVEDO
Os ventos vão e voltam provocando ondas, / no mar de poesias dos canaviais / onde a essência dos poetas, ali, adormecida, / que para tantas gerações 'inda desconhecida / relembrando páginas que não voltarão: JAMAIS! / Palmares - é UNA e PIRANGY / PALMARES - é TROMBETAS na sua hisrtória / PALMARES -é CONCEIÇÃO DOS MONTES / PALMARES - é Arte e Cultura a todo instante / PALMARES - é PINDORAMA de viva memória! Do Campanário de tua bela Catedral / Os sinos dobravam anunciandop as Missas / teus filhos viveram para te defender / o Brasil ainda vai te conhecer / esta terra dos Poetas e dos Artistas! / A passarada canta a letra de teu hino / este teu povo é feliz igual criança / porque tua arte tem a grande realeza / porque és terra de cultura e de grandeza / porque és terra que promove a Esperança! / PALMARES - és UNA e PIRANGY escrevendo mais um verso, / és TROMBETA onde a poesia de declama / na proteção do Manto Azul de Nossa Senhora dos Montes / onde os ventos balançam as palmeiras e suas fontes / onde os pássaros gorjeiam por ti, oh, PINDORAMA!
Poema extraído da obra Pindorama (2018), do poeta, professor graduado em Letras e pós-graduado em Literatura pela Famasul, Avani Azevedo. O autor teve artigos publicados na Revista A Região, entre os anos 1985/86; participou da antologia Poetas da Famasu (2006) e autor do estudo Contribuição Sociológica de Ascenso Ferreira (2015), em parceria com a escritora Socorro Duran. O livro reune o histórico da cidade dos Palmares (PE), da Academia Palmarense de Letras (APLE), do Colégio Diocesano dos Palmares - 25 anos de Fundação, traz o Hino da EREM Palmares, datas importantes, cronológico, jornalistas, jornais que contaram a história da imprensa local, autores palmarenses, ilustres palmarenses não nascidos no Município, poetas que declamam sua terra e referências bibliotecárias. Veja mais aqui e aqui.
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quinta-feira, janeiro 17, 2019

EINSTEIN, SEBASTIÃO SALGADO, TATIANA SCHUNCK & LUSTRICÍDIO


O ESQUISITO LUSTRICÍDIO - Desidério tornou-se o melhor partido de Alagoinhanduba. As mulheres suspiravam quando ele dava o ar da graça. Pudera, cinquentão bem-vistoso, solteirão abastado, médico de renome e mais todos os predicados para enfeitiçar o mulheril, fosse casada ou desimpedida, enjeitadas ou reprimidas, devotadas ou desvalidas. Respeitoso com as folgazãs pacientes que acorriam aos montes para o atendimento, escolhia a dedo entre as visualizadas, dispensando todas ao final de um criterioso processo avaliatório. Queria por que queria apenas uma Galateia, rigorosamente sem o mínimo defeito, fútil que fosse, havia de ser assim, como ele mesmo batia no peito e dizia: lindeza escandalosa, dócil e domável, ao seu inteiro e exclusivo dispor, calada, prestativa servil e que o tivesse como o rei-deus sobre todas as coisas. Só. Muitas entraram no páreo de sua preferência, nenhuma delas, até então, chegara ao pódium do seu coração. Depois de muito andar pelos quatro cantos do mundo, num dia em que estava prestes a desistir definitivamente de se casar – pensava mesmo em assumir definitivamente sua solidão, de tão desapontado por não ter encontrar quem estivesse á altura de esquentar seus pés nas noites de frio -, pois é, como quem cospe pra cima e não sai de baixo, apareceu, justamente, assim do nada, a Naldinedita. Foi uma abalroada! Pense num desmantelo! Pois foi, ele perdeu o senso e a razão, todos os seus métodos avaliatórios foram pro espaço: É essa a escolhida. Simples assim: bonitona de arrasar quarteirão, nada discreta no balanço voluptuoso de suas carnes apetitosas, seios abundantes e empinados no decote, cinturinha de pilão sobre as ancas explêndidas, quadris realçados nas coxas roluças e pernas carnudas, quase dois metros de exibição gasguita e gesticuladora de tão espalhafatosa, um exagero da natureza, do cabra ficar abestalhado com o coração a bater ligeiro de quase sair pela boca aberta da baba escorer e do queixo cair, dos olhos quase pularem fora e arrear na gamação de não enxergar mais nada pela frente. Pronto, estava feito, fim de carreira. Desarrumando tudo, o homem endoidou de querer casar e já, fato que chamou a atenção de toda população que já se acostumara com a sua solteirice mormaçada. Oxe, ele virou um afoito de passar às carreiras, tudo na hora da urgência e sair desembestado como quem estava prestes a perder o trem. De uma hora para outra comprou terreno de não sei quantos alqueires de terra, fez construir palacete magnificente no meio e iluminado até o céu, recheado de lustres que encomendou dos mais caros para dar ar de luxo, riqueza e felicidade, um estrupício na maior gastadeira. Quando ele passava portão adentro, demorava muito para reaparecer. O comentário era um só de boca em boca: O homem está gastando o pau no brinquedinho, vai findar morrendo disso. É que de uma hora para outra ele emagreceu, encurtou, ficou corcunda, com olheiras fundas e bebendo mais que o habitual: Ué, ele tá usando máscara é? E bêbado demais, meu! Parece que não dava vencimento na coisa, e foi mesmo. Visitas furtivas foram flagradas invadindo o seu terreiro enquanto ele dava expediente na cidade. Ah, depois de muito maloqueiro pular o seu muro, botou ele pra quebrar: pipocos ecoaram de lá de dentro. E o povo do lado de fora só: Viva São João! Não era, primeira quinzena de agosto, ora. E depois setembro, outubro, verões e outonos. Só viam no outro dia ele carregando novos lustres. Vixe, o homem tá fazendo girândolas com as gaias nos lustres é? E alta noite, teibei: disparos muitos na maior quebradeira. No dia seguinte, o repetido: novos lustres. Assim, passou o tempo. A-rá! O povo já estava careca de matar a charada: Ah, quando coça a gaia, é hora diária do lustricídio! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim, uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. [...] A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade. Estas reflexões essenciais, comunicadas à jovem geração graças aos contatos vivos com os professores, de forma alguma se encontram escritas em manuais. É assim que se expressa e se forma de início toda a cultura. Quando aconselho com ardor "As Humanidades", quero recomendar esta cultura viva, e não um saber fossilizado, sobretudo em história e filosofia. Os excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falacioso pretexto de eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir os progressos nas ciências do futuro. É preciso, enfim, tendo em vista a realização de uma educação perfeita, desenvolver o espírito crítico na inteligência do jovem. Ora, a sobrecarga do espírito pelo sistema de notas entrava e necessariamente transforma a pesquisa em superficialidade e falta de cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o recolha como um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa.
Trechos de Educação em vista de um pensamento livre, extraído de Como vejo o mundo (Nova Froteira, 1981), do físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A ARTE SEBASTIÃO SALGADO
[...] Minha fotografia não é uma militância, não é uma profissão. É minha vida [...] Adoro conviver com as pessoas, observar as comunidades – e agora também os animais, as árvores, as pedras. Minha fotografia é tudo isso, e não posso dizer que são decisões racionais que me leba, a olhar para isto ou aquilo. O desejo de fotografar está constantemente me levando a recomeçar. A tirar novas fotografias, ainda e sempre.
Trecho extraído da obra Da minha terra à Terra (Paralela, 2014), do fotógrafo Sebastião Salgado. Veja mais aqui, aqui e aqui.

TENTATIVA & TATIANA SCHUNCK
A peça teatral Tentativa (2012), da escultora e escritora Tatiana Schunck & Henrique Schafer, conta a história da angústia por conta da espera de uma mulher levando-a a repassar sua exist~encia num fluxo de ações, pensamentos e lembranças. Dessa forma, ela tenta superar a irritação para não explodir diante da constatação de que a vida incomoda. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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quarta-feira, janeiro 16, 2019

GUATTARI, MAYARA MAGRI, GILBERTO MENDONÇA TELES & CAMÕES CAMONGE


AS PRESEPADAS DE CAMÕES CAMONGE – Muitas me contaram desde menino das presepadas de Camões e Camonge que, no frigir, era um só. Lembro-me bem de algumas delas, outras nem tanto. Só sei que ria demais, quantas lorotas versejadas ou amiudadas jocosamente sobre mulheres perdidas e taradas, viúvas reboculosas e prinspas afogueadas; muitas pinoias sobre princesos destronados, cavalo-mago, pederastia, fodelança, vivacidade, acerto de contas, quiprocós e lá vai teibei, tudo levado no tom do risível para entretenimento das patotas mais libertinas. Aquela mesmo dele entrar num desafio com um sábio que expôs uma maçã e ele, em resposta, um pão. Depois um dedo, ele dois; três dedos e ele a mão fechada como enfiando, remexendo e, por fim, dando uma banana. O sábio reconheceu ser ele a maior sabedoria já encontrada. E não era, né? Quem sabe dessa vai achar arretada a anedota. Também a que ele aprontou com o padre: precisando de dinheiro, achou ele de cagar na frente da catedral da matriz. Excretando aquele tolotaço, colocou o chapéu por cima, escondendo o crime. Lá vinha o padre: Meu filho, aquele chapéu num é seu? É sim, senhor. Oxe, por que não o põe nesse sol quente? É que peguei um passarinho e quero achar uma gaiola. Um passarinho? Sim, uma sabiá que além de cantora é compositora, das boas. Ah, quer vender? Vendo. Pago 100. Se me der 200 tá fechado. Então vá pegar a gaiola na casa do sacristão. Só se o senhor me pagar logo e emprestar o cavalo para eu ir buscar lá. Então, tá. E lá foi ele atrás do sacristão. E demorou, nem voltou mais. O padre perdeu a paciência e quanto foi pegar o passarinho, melou as mãos na maior fedentina. Amaldiçoado! Fidapeste! Uma senhora ia passando: Padre, chamando nome feio? Ora, ora. Ah e as apostas dele com o rei, venceu todas. Findou numa trama de ser aprisionado num saco e levado por caboetas para ser jogado num poço fundo. No meio do caminho, pararam para descansar. Aproveitando-se disso, ele começou a gritar que não queria casar com a filha do rei. Um boiadeiro ia passando e ouviu aquilo: Como é que é, hem? Tô nesse saco porque não quero casar com a prinspa! Oxe, eu quero. E libertou Camões Camonge e ficou no lugar dele: Eu quero casar com a filha do rei! Eu quero! A trupe dos capangas quando viu aquilo, sacudiu-lo no poço e era uma vez. Por sua vez, Camões Camonge saiu com uma boiada bonita e foi mostrar ao rei: Como pode você estar aqui? Ah, Deus ajuda a quem só faz o bem. Como assim? Fui jogado num poço dentro de um saco e cada vez que eu dava uma timbungada pegava um boi e sou dono, agora, dessa boiada. Ah, eu quero, vá me bote num saco e me jogue nesse poço. Ora, o senhor já é rico, tem tudo! Quero mais, vá! Olhe lá, seu rei. Vá, tô mandando. Tudo bem. O rei mandou a cabroeira carregá-lo até o poço que jogaram o suposto Camões e, como líquido e certo, era uma vez um rei. E Camonge casou com a rainha. Aí veio a festa no céu. Seguinte: São Pedro estava recebendo muitas reclamações dos animais. Ele foi ter com o Todo-Poderoso que disse que ele resolvesse com os animais, que não mudaria nada da sua criação. São Pedro então resolveu convidar todos os animais, excetuando os macacos que são trelosos demais e os cachorros que na horagá do metiê fica enganchado na cadela. Aí Deus, justo como sempre, disse: Ou faz uma festa para todos ou para nenhum. Atrapalhou os planos de São Pedro. Aí lá vinha Camões Camonge recebendo reclamação dos cachorros e macacos, então sabendo da armação do santo: Ah, isso não pode. Vamos lá. E foi interceder em favor deles. Subiu pro céu e lá foi logo dizendo: Queéqueéisso, SumPedo? Ah, não se preocupe, eles já podem entrar, Deus liberou. Os cachorros mais que afoitos logo tentaram entrar, mas foram barrados! São Pedro advertiu: Só se deixarem o fiofó pendurado na entrada para não atrapalhar a festa. Aí cada cachorro foi, pendeurou o oiti-goroba lá no cabide certo e danou-se lá pra dentro, deixando Camões Camonge do lado de fora: Bando duns fi duma chola perdida. Aí, armando das suas, reuniu os macacos e cochichou: Quando vocês entrarem, troquem os frosquetes dos cachorros, uns dos outros; eles vão ver. Assim fizeram: trocaram os furicos dos cachorros e saíram aprontando das suas no meio da festa. Três dias depois, os cachorros saíram com o toba trocado, um cheirando o cu do outro para conferir até hoje. Camões Camonge só na risada! Ah, depois conto mais, tá? Vamos aprumar a conversa, fui! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Estamos diante de uma escolha ética crucial: ou se objetiva, se reifica, se “cientifica” à subjetividade ou, ao contrário, tenta-se apreendê-la em sua dimensão de criatividade processual. [...] A análise não é mais interpretação transferencial de sintomas em função de um conteúdo latente preexistente, mas invenção de novos focos catalíticos suscetíveis de fazer bifurcar a existência. Uma singularidade, uma ruptura de sentido, um corte, uma fragmentação, a separação de um conteúdo semiótico – por exemplo, à moda dadaista ou surrealista – podem originar focos imitantes de subjetivação. [...] Cabe à função poética recompor universos de subjetivação artificialmente rarefeitos e re-singularizados. [...] O capital esmaga sob sua bota todos os outros modos de valorização. O significante faz calar as virtualidades infinitas das línguas menores e das expressões parciais. O ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos universos de valor que, entretanto, proliferam sob nossos olhos. [...] a máquina fala com a máquina antes de falar com o homem e os domínios ontológicos que ela revela e secreta são, em caso, singulares e precários. [...].
Trechos extraídos da obra Caosmose: um novo paradigma estético (34, 1992), do filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A ARTE DA BAILARINA MAYARA MAGRI
A premiadíssima jovem bailarina brasileira Mayara Magri é a primeira solista do The Royal Ballet. Nascida na comunidade carente de Maracaí, num morro do Rio de Janeiro, conseguiu iniciar seus estudos artísticos por meio do projeto social “Dançar a Vida”, que beneficia crianças e adolescentes moradores das comunidades carentes da Tijuca, no Rio de Janeiro, com dança e arte. Daí ela ganhou uma bolsa de estudos aos oito anos de idade, seguindo para a P'tetite Danse School, no seu estado. Depois ganhou o Senior Age Division do Youth America Grand Prix e o Prix de Lausanne Scholarship and Audience Prize em 2011. Em seguida foi para a The Royal Ballet School e se formou na Companhia em 2012. Ela foi promovida a First Artist em 2015, a Soloist em 2016 e a First Soloist em 2018. Hoje ela conta com 25 anos de idade e segue conquistando o mundo com a sua arte. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O MITO CAMONIANO DE GILBERTO MENDONÇA TELES
[...] A existência no folclore brasileiro de entidades de natureza pícara, como a de Pedro Malasarte, do "Menino Sabido", da raposa, do coelho, do jabuti (que vence pela astúcia), misturada com as personagens de natureza mítica, como o Saci, o Caipora, o Romãozinho e tantas outras, concorrem para a criação de uma figura móvel e generalizada que age como anti-herói, juntando astúcia e malandragem, inteligência e sensualidade e dando esse notável sincretismo mítico-lingüístico do Nordeste - o Camonge, mistura dos significantes e dos significados concernentes a Camões e a Bocage. Daí, se não um "ciclo", pelo menos uma "corrente" camoniana na literatura oral e de cordel do Nordeste brasileiro, onde se criam, talvez por compensações biográficas, alguns parentes (irmão, filho) de Camões. Vejamos então como através desses aspectos o nome e a obra de Camões se foram "da lei da morte libertando" e se tornando cada vez mais popular, embora, como o confessava Mário de Andrade, a obra mesmo nem sempre tenha sido convenientemente lida e estudada. [...] E se há realmente um episódio a que ele está preso, só pode ser o do Camões cuja vida foi cheia de contrastes: de gentil-homem e trinca-forte, de herói e mendigo, de soldado e náufrago. Esses elementos biográficos juntaram-se aos elementos antitéticos da epopéia (sobretudo os da luta de mouros e cristãos) e ganharam repercussão na alma coletiva [...] De qualquer forma, o termo é o mesmo - um Camonge cujo significante e significado provém da mistura mitológica de Camões e Bocage, os escritores portugueses que mais atuaram na cultura popular do Brasil. [...]
Trechos de O mito camoniano: a influência de Camões na cultura brasileira (Revista de Letras, 1980/81), do poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, Gilberto Mendonça Telles. Veja mais Lendas aqui e aqui. E mais do autor aqui, aqui, aqui e aqui.
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terça-feira, janeiro 15, 2019

RAJNEESH, MOZART GUERRA, DOCUMENTÁRIO DE TORITAMA & ALAGOINHANDUBA


A GESTÃO PÚBLICA EM ALAGOINHANDUBA - Olhando bem, a gestão pública de Alagoinhaduba é exemplar. Quer dizer, assim como é lá é em qualquer municipío do território brasileiro. Por exemplo: o prefeito Zé Peiúdo chegou na ciadde puxando uma gata que era só pelanca de tão magra e esfomeada, sem ter onde cair morto; levou todo mundo no papo e lavou a jega, não ganhou, mas elegeu-se: usou de escusa artilharia pesada, engalobou todo mundo, passou a perna, comprou e passou troco, tomou posse sob as mais extravagantes promessas e tome macacada e tralalá. Quais? Salário mínimo de 5 mil reais para todos os servidores! Danou-se, não deu. Culpou o atual Coiso Presidente de reduzir para a mixaria de sempre, mesmo tendo sido cabo eleitoral dele na campanha. Premiou-se com pontos simpáticos, por isso, alvoroço na mundiça. E meteu bronca prometendo o de sempre: acabar com a violência, erradicar a deseducação, promover o progresso, enricar todo mundo, melhorar a água e despoluir o rio, cuidar das praças e da periferia miserável, limpar o eixo do Sol, botar a lua mais brilhante de noite, fazer a Terra girar ao contrário para corrigir as coisas desagradáveis, dar fim aos coprólitos e lixo com o estalo dos dedos, enretar o desinretado, fazer isso e aquilo, pei bufe, etc e coisa e tal. Pois é, pintou e bordou com o que dizia e desdizia, maior enrolação. Promessas e escusas, tome lábia pra cima, valendo-se de todos os artifícios possíveis para sair bem na fita, invocando palavreado rebuscado e imbróglios, maior blábláblá. Ao tomar ciência que o juiz Teje Preso promoveu uma intervenção para remover o magistrado anterior e todo Judiciário local por conta da leniência reprovável e outras práticas antijurídicas, o Zé Peiúdo não perdeu tempo: embolsou a módica quantia de 280 milhões em espécie e moeda vigente, juntou os panos de bunda e arribou, tudo porque na posse da magistratura, o tal bufador de anel no dedo tinha dito em alto e bom som no Fórum: Vou pegar esse salafrário. Ninguém espera por tempo ruim, né? Oxe, quem é besta de ficar pra ver o circo pegar fogo, ora. Ao chegar à prefeitura o justiceiro encontrou o lugar mais limpo. Aí aproveitou e impugnou o vice, dissolveu a Câmara de Vereadores e destronou o bispo, autoelegendo-se Imperador com as mãos absolutas sobre o Executivo, Legislativo, Judiciário e religiosidade geral, colocando todas as demais seitas na clandestinidade: a lei e a fé só dele. Maior carreira de pé na bunda dos espíritas, pais e mães de santos, protestantes e afins. Com isso, transformou cada casa da cidade num presídio domiciliar já que não cabiam todos presos por coisa de pouca monta na cadeia local; isso sem contar alguns abusos para botar moral: degolou uns quatro, aleijou uns 15, matou uns 30 de choque elétrico e outros tantos do coração: não aguentaram o pipoco da ameaça e babau. Fez construir uma muralha maior que a da China nos limites do território: Daqui ninguém sai, daqui ninguém me tira. E aos poucos deixou a cidade mais isolada, sem que se soubesse o que acontecia nem na vizinhança, nem no país inteiro. Pelo menos o povo tinha o que falar dele mesmo: vivem de escalpelar uns aos outros, arreiam a lenha, descascam a ponto de se autodilacerarem com o dedo na ferida, todos na guilhotina alheia, não escapando ninguém, nem os próprios e, assim, tudo vai correndo na maior normalidade e como se não houvesse nada por consertar ou corrigir. Enquanto uns acham certo, outros acham errado, mas nada fazem além de arengar, se indignar e apontar soluções nas suas carradas de razões assim assado, afora só se esculhambarem entre si e ficar tudo por isso mesmo até o dia em que o deus deles dê cabo de dar jeito no que tiver troncho ou desacertado, ou ficar tudo assim mesmo até quando deus quiser. Eta vida besta, Deus meu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] O corpo possui muitas rotas. É um grande mundo em si mesmo. Você pode trabalhar com a respiração e através da respiração dar o salto. Você pode trabalhar com o sexo e através do sexo dar o salto. Você pode trabalhar com o estado de alerta – isto é, diretamente com a consciência – e dar o salto. Esse trabalho direto com a consciência tem sido uma das rotas mais profundas. Uma única rota pode ser usada de muitos modos. [...] Para o mundo vindouro e também para o mundo de hoje, apenas os métodos flexíveis podem ser usados, porque há muitos tipos de gente agora. [...] Agora isso é muito difícil. As mentes estão confusas. Não existe apenas mais de um tipo, mas cada indivíduo em si mesmo já é múltiplo. Existem muitas influências, influências contraditórias. [...] Se muitos métodos forem experimentados, nenhum será usado completamente. Mas ahora todo mundo está confuso e não há nada que possa ser feito para se evitar isso. Não há nenhum tipo único para ser protegido da confissão assim, necessitamos agora de novos métodos que não pertençam a nenhum tipo e que possam ser usados por todos. [...].
Trechos de Meditação: Uma morte sutil, extraído da obra Eu sou a porta: o sentido da iniciação e do aprendizado (Pensamento, 1975), do filósofo místico hindu Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR
O documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar, do diretor Marcelo Gomes e produção da Carnaval Filmes, narra a história de uma cidade que viu sua população ser multiplicada de forma desordenada e desumana, sob o alvoroço de produzir e se tornar a capital do jeans, demonstrando o regime que os próprios trabalhadores impõem, com uma pausa apenas para o Carnaval. Foi gravado mostrando os bastidores da produção de mais de 20 milhões de jeans anualmente na cidade pernambucana de Toritama, em fábricas caseiras. O documentário será exibido no Festival Internacional de Cinema de Berlim, na Alemanha, entre os dias 7 a 17 de fevereiro de 2019. Veja mais aqui e aqui.

A ESCULTURA DE MOZART GUERRA
O premiado escultor Mozart Guerra estudou Arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), trabalhou como cenógrafo para teatro, cinema e televisão e, desde 1992, está radicado em Paris, tendo participado de exposições individuais e coletivas em galerias da França, Luxemburgo, Itália, Portugal, Canadá, Holanda, Áustria, Suiça, Espanha e Costa Rica. O artista é representado pela Sérgio Gonçalves Galeria do Rio de Janeiro e São Paulo, e foi parceiro do renomado designer japonês Yasumichi Morita por três anos em Hong Kong, Tóquio e Osaka. Para conhecer o seu trabalho confira aqui. E veja mais aqui
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A história da mulher & Crônica de amor por ela aqui
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segunda-feira, janeiro 14, 2019

OSMAN LINS, VAULUIZO BEZERRA, FULÔ RASTEIRA, FRB, PADRE BIDIÃO & MARCELO COUTINHO

AS ÚLTIMAS DA FRB & PADRE BIDIÃO ANUNCIA A CHEGADA DE REFORÇOS – Após haver assumido a vice Toda-Poderosidade na Hierarquia Cósmica (veja a celebração aqui), o Padre Bidião revelou detalhes acerca das incomuns FRBs ultimamente detectadas pelos cientistas e imprensa internacional. Ele tratou logo de desclassificar a NASA por completa incompetência referente ao caso, sob a acusação de malversação do erário humano, bem como alguns astrônomos que querem se aproveitar da prestidigitação internacional. Para quem não sabe – ficará sabendo agora nada mais que a mais absoluta verdade –, FRB é a sigla britânica para rajada rápida de rádio recorrente que é um fenômeno astrofísico de alta intensidade energética, manifestada como um pulso de radio transitório e com duração de apenas pouquíssimos milissegundos, para não dizer um cabelinho de sapo de nada, com uma frequência de 400 MHz, melhor dizendo, uma coisinha de nada. Essas rajadas mostram a dispersão dependente da frequência consistente da propagação através de um plasma ionizado, ou seja, quase porranenhuma, só que encerra um dos códigos mais misterioriosos oriundos das ocultas transcomunicações da abissal profundidade universal. Depois de muitas discussões, chegou-se à conclusão de que, a esse respeito, só havia na Terra, em verdade, uma única autoridade capaz de desvendá-la: o Padre Bidião. Por isso mesmo, não se furtando ao assédio da imprensa, ele anunciou recentemente em coletiva realizada nos últimos dias que: - Atenção corriola, macacões & antenas a postos! Estão chegando reforços! Explicou ele nessa entrevista que o mundo anda de pernas pro ar! Enfatiza, então, que um estrupício anda se desenvolvendo entre catabis, golpes & maloqueragens, promovendo a maior crise megaplanetária da história. Especifica ele após enumerar as presepadas do Clone o-10PB (veja detalhes desse malefício aqui), acoloiado com o Trumpetudo & seu aliadíssimo achegado Coiso, afora conluios para as doidices de Kim Jong-il dos sapatos mágicos, o invisível Jose Eduardo dos Santos, as curas paranoicas de Yajya Jammeh, as perversões de Hassanal Bolkiah, a tenda de Muammar Gaddafi, a tirania de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, as transações de Than Shwe, a hediondez de Isaias Afewerki, a dança de Emomali Rahmon, a escravização de Islam Karimov, as viagens de Paul Biya, a adoração do rei Hamad Al-Khalifa, as extravagâncias do rei Abdullah, as jogadas de Omar Hassan al-Bashir, o bigodinho de Aleksander Lukashenko, as insânias do rei Mswati III & outras trepeças, direitismos e pacutias nos quatro cantos do mundo – e olhe que a Terra é redonda, viu? -, assinalou com veemência os devidos esclarecimentos a respeito, traduzindo trechos das supercomunicações e, ao mesmo tempo, evidenciou tratar-se das reuniões resultantes da sua nomeação como segundo e único substituto do Onipotente, com o objetivo de salvar os terráqueos. Pormenorizou que as ondas de rádio são resultantes dos relatórios enviados desde 2002, por planetas e reinos de galáxias lá nos cafundós das imensidões interestelares e há bilhões de anos luz de distância, alertando sobre a trágica situação por que passa o planeta. Revela que essa troca de informações interuniversais são do bem, pode crer; e que não possuem nenhuma ligação com a jactância do clone da pá-virada e seus sequazes fedorentos. Instado sobre as providências a serem tomadas, o pároco foi reticente ao anunciar a sagrada nomeação do professor doutor Marcelo Coutinho, na condição de assessor especial e direto para assuntos extraordinários e, ao mesmo tempo, tornando-o, além disso, o chefe do Comando Ultragaláctico da PorraToda, responsável pela formação da equipe receptora dos reforços para proceder à salvação da humanidade. Procurado por nossa reportagem, o ilustre professor depois de se esconder dos cliques e flashes, apenas acenou pros nossos jornalistas, cochichando fora das câmaras e gravadores que se encontra dedicado na escolha dos integrantes para realização de reuniões incomunicáveis, visando traçar os planos e estratégias para tal empreitada, anunciando futuros esclarecimentos para toda população mundial. Por enquanto, reafirma que tudo será feito para que chegue a bom termo os propósitos pluriuniversais de salvar o destino terráqueo. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Esta é a verdade: agora eu estou só. Com mais um pouco, chegará a madrugada. As velas ficarão pálidas, os sinos dobrarão em tua homenagem; e, quando o sol vier, não iluminará teus olhos. Mais algumas horas e nossos conhecidos te levarão para o Campo. Estarão um pouco tristes, mas não podem imaginar que imensa perda eu sofri. Dirão entre si: “Tinha de ser. Um deles havia que ir primeiro…” E acharão que já sou muito idoso, que minha capacidade de sofrer se extinguiu e que não tardarei a seguir-te. [...] Quanto aos amigos, tu sabes muito bem que não mais os possuo. Uns morreram; outros acharam na velhice um agradável pretexto para se tornarem brigões ou dementes; e o resto me aborrece pela insistência em me fazer acreditar ser bem mais velho que eles. Só tu me restavas. Junto a ti eu podia ser eu mesmo, sem temor de parecer ridículo. Eras tu quem tinha a chave do meu caráter e do dom de encantar-me. (Mesmo a tua zombaria era uma forma de afeição.) E agora um duro silêncio te envolve e imobiliza. [...] Na minha idade, já não se pode ter pensamentos estranhos nem fazer confissões. Fica-se ridículo, querida. E eu tenho que aproveitar estes últimos momentos em que ainda estamos juntos. É a última oportunidade de falar-te, mesmo sem abrir os lábios, e contar as tolices que não contarei a ninguém. Quero te dizer, por exemplo, uma coisa esquisita, uma coisa que não compreendo: os fatos culminantes de nossas vidas, aqueles que nunca poderíamos chegar a esquecer, perderam hoje esse privilégio. [...] Mas eu não devia estar me lembrando dessas coisas. Talvez alguém tenha visto meu sorriso e julgará que não sinto a tua falta. “Ele não chorou — pensará. E agora, sorri. Está maluco; ou então nem sentiu.” Decerto, minha dor não é violenta. É cansada. Mas é tão vasta, tão desalentada e profunda… E vou ficar tão sozinho, querida
Trechos do conto Elegíada, extraído da obra Os gestos (José Olympio, 1957), do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE VAULUIZO BEZERRA
A arte do premiado pintor, escultor, curador e crítico de arte sergipano radicado na Bahia, Vauluizo Bezerra. O artista realiza sua arte desde 1970, ingressando na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, em 1976, e realizando sua primeira exposição individual na Galeria Pacce em 1978. Foi selecionado no Concurso para Projetos de Arte Experimental, em Salvador, em 1982 e realizou sua exposição individual em Munique, na Alemanha, em 1991. A partir de então realizou mostras individuais e coletivas no Brasil e no exterior, com obras em diversos museus brasileiros, sendo considerado um dos mais importantes da geração 70 da Bahia. Para conhecer melhor o seu trabalho clique aqui e aqui.

A MÚSICA DA FULÔ RASTEIRA
A banda Fulô Rasteira é formada pelos músicos Henrique Teixeira (Vocalista), Gabriel Uberti (Guitarrista, Back Vocal/Vocalista), Eduardo Ferreira (Sanfoneiro), Victor Sabino (Baixista), Jorge Luis (Baterista/Percussionista), Bruno Ferreira (Zabumbeiro) e Ewerton Ribeiro (Trianguleiro/Percussionista). A banda catendense possui um repertório reunindo o melhor do gênero musical nordestino com muita poesia condimentada com repentes notáveis e criativos.
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Os milagres, gestão e saga do Padre Bidião aqui, aqui, aqui & aqui.
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A arte de Paul Klee aqui
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O teatro de Edward Albee aqui
 
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sexta-feira, janeiro 11, 2019

DARCY RIBEIRO, MARIA POLYDOURI, MISS.TIC & SOLILÓQUIO MATUTINO.


SOLILÓQUIO MATUTINO – Para quem já vai tarde, vou agora: fim ou recomeço, tanto faz, a qualquer parte alguma ou nenhuma. Vou a bordo da solidão, a partida deslizando meu corpo na navalha afiada pela encosta de ilhas submersas. Sentir só meu o Sol que partilhei e deram as costas ou negaram para que eu me desfizesse aos pedaços com uma facada no flanco, punhalada nas costas, uivando cão noturno na manhã ensolarada. Não me sigam, fiquem onde estão, é mais seguro, porque ergo pedras insustentáveis, músculos exaustos e esmagados, a tentar preencher as lacunas do tempo para subsistir onde nada sobra por desespero, arrastado ao lodo e o vazio perpetuo nas vozes dos mortos pelas brechas, mãos estranhas e eu despedaçado lambendo o próprio sangue, quem sabe, amanhã melhor sorte, sabe-se lá, juízes que me julguem como quiserem pros que riem de mim pelo delírio da minha carne em postas nas trevas da estrada deserta. Entre os dentes o que falei de amor e só ouviram o próprio passado, quem jamais amou, quem jamais sucumbiu ao amor, quem há de amar de verdade, estilhaçado coração, vazio olhar. Não me deixa dormir as almas desunidas, não me atreveria sequer velá-las. Passei a vida como quem errou, também era meu destino, assim o quis sem saber massacrado pela queda sem escutar das emboscadas homicidas, porque não confesso a mão ferida por espinhos das rosas que colhi e as perdi de cada vez, sangrando, e outra dor a cada dia, nada demais. Os pesares se dissolvem, nunca fui poeta para exorcizar os tormentos em versos mágicos, apenas revolvo cinzas de maio como se os dedos da mulher amada alisassem minha carne e me fizesse vivo ao toque, a me ensinar da entrega na ausência, ajoelhado silêncio. Guardo os lábios úmidos do amor à mulher nua desejada e fugitiva dúbia, ama e desama, olhos grandes. Depus todos os haveres e posses, nenhum navio sobrou, nenhum piso ou teto, nenhuma espera, até a última jangada, a única que restava, deixei-a ir sozinha correnteza afora, para nunca mais. Náufrago, braçadas na utopia dalguma ilha perdida por aí, deitar a cabeça ao chão, o céu frio por cobertor estrelado e a vida que resta no esquecimento. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] A concatenação das revoluções tecnológicas e dos processos civilizatórios com as respectivas formações socioculturais permite falar de um processo civilizatório global, diversificado em etapas sucessivas, que, mesmo cumprindo-se em povos separados uns dos outros no tempo e no espaço, promoveu reordenações da vida humana em áreas cada vez mais amplas e sua integração em entidades étnicas e políticas cada vez maiores, até unificar toda a humanidade num só contexto interativo. Através desse processo, a espécie humana, que era originalmente pouco numerosa e largamente diferencia em etnias, se foi multiplicando demograficamente e reduzindo o número de complexos étnicos, tanto no plano racial, quanto no cultural e linguístico. Este movimento parece conduzir, em termos milenares, à unificação de todo o humano em uma só ou muito poucas variantes raciais, culturais e linguísticas, até que um dia, em futuro remoto, a redução do patrimônio genético torne qualquer casal capaz de reproduzir qualquer fenótipo e cada pessoa capaz de entender-se com as outras, à base de um amplo patrimônio cultural coparticipado. [...] Nada autoriza a supor que tenha limites a flexibilidade até agora revelada pelo homem para ajustar-se às condições mais diversas. É de perguntar-se, porém, se o condicionamento cada vez mais opressivo a ambientes culturais não pode pôr em risco a propria sobrevivência humana. As ameaças que já hoje pesam sobre a humanidade levam a temer que estejamos alcançando esses limites, arriscando ultrapassar a linha fatal, se não forem desenvolvidas formas racionais de controle da vida social, econômica e política que habilitem os povos ao comando científico de todos os fatores capazes de afetar seu equilíbrio emocional e sua sobrevivência sobre a Terra. [...].
Trechos extraídos da obra O processo civilizatório: etapas da evolução sociocultural (Civilização Brasileira, 1975), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A POESIA DE MARIA POLYDOURI
Eu canto só porque já fui amada / por ti em outros dias; / e à chuva e ao sol de um pressago verão, /e à neve e à ventania, / eu canto só porque já fui amada. / Só porque me tomaste nos teus braços / uma noite e me beijaste a boca, / só por isso eu sou bela como um lírio aberto / e um arrepio ficou-me na alma louca, / só porque me tomaste nos teus braços. / Só porque me fitaste certa vez / com a alma no olhar, / a minha vida fez-se altiva e ornei-me / de um diadema singular, / só porque me fitaste certa vez. / Só porque por mim passaste indiferente / e em teus olhos, de passagem, / vi minha sombra, comum sonho, tristemente / passar, sofrida imagem, / só porque por mim passaste indiferente. / Só porque hesitei quando chamaste / e me estendeste a mão / e trazias os olhos amorosos / repletos de paixão - / só porque hesitei quando chamaste. / Só porque, só porque eu te agradava / é que a minha passagem foi tão linda, / como se a toda parte me seguisses / e junto a ti eu estivesse ainda, / só porque, só porque eu te agradava. / Só porque fui amada é que eu nasci / e ao teu amor dei minha vida. / Uma vida incompleta, sem prazer, / mas não perdida, não perdida; / só porque fui amada é que eu nasci. / Só por causa do teu amor de eleito / nas mãos floriu-me uma rosa de arminho / e a noite pôs estrelas nos meus olhos / para um instante aclarar teu caminho, / só por causa do teu amor de eleito. / Só porque fui amada assim por ti / pude um dia viver / nos belos sonhos onde tu reinavas, / e é-me doce morrer / só porque fui amada assim por ti.
Poema Porque fui amada, da poeta grega Maria Polydouri (1902-1930). Veja mais aqui & aqui.

A ARTE DE MISS.TIC
A arte da artista visual e de rua francesa Miss.Tic.
Veja mais aqui, aqui & muito mais na Agenda aqui.
 

FERREIRA GULLAR, CLAIRE STREETART, CLÓVIS DE BARROS FILHO, AVANI AZEVEDO & O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA

O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA - De primeira apareceu numa certa manhã ensolarada, no meio de um matagal denso nos arredores da cidade, ...